Hoje bebi água. Bastante refrescante. Experiência a repetir, sem dúvida.
30.6.22
Pequena nota à parte
29.6.22
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-06-2022
Bom. Isto foi assim: chegámos ontem pouco antes das dez da noite. As lanchas a motor são cansativas e chatas, sobretudo estas pequenas por causa do barulho. Fomos jantar à Cuadra, comer um gelado ao Claudio, beber um copo ao Antiquari. Os meus viacrucis têm pouco de dolorosos e gosto de os partilhar. A. aceitou com entusiasmo e apreciou a picanha da Cuadra. Fiquei a saber de onde vem o nome: os bois eram picados naquela zona. Isto é o que o Dani me disse, não sei se é verdade se não e pouco me interessa.
Hoje vim petiscar ao Minyones, outra das minhas casas aqui em Palma. Tenho muitas, graças a Deus (ou a quem O substitui quando fala com ateus). O almoço foi no Cisco, no mercat de l'Olivar. Esta minha vida tem algumas desvantagens, é certo. Mas se as pessoas sonhassem o bom que é ser capaz de atravessar bonanças e tempestades, viagens e escalas sem duração pré-definida, marés altas e marés baixas, dias de chuva e dias de seca... se as pessoas soubessem o que é bom não ter uma casa mas ter vinte... não ter carro mas ter duas ou três bicicletas...
Enfim, pouco importa. Palma recebe-me de novo, braços abertos e sorriso na cara. Eu mergulho, de cabeça. Fomos feitos para nos entender, esta cidade e eu.
Não é a única, mas pouco importa.
27.6.22
Breve tratado da solidão
26.6.22
Diário de Bordos - Santa Pola, Comunidad Valenciana, Espanha, 25 & 26-06-2022
Os milagres pagam-se caro. Quanto maiores ou mais inesperados são mais se fazem pagar. O marinheiro prudente (isto é simultaneamente um oxímoro e uma ironia) tem com o dinheiro a relação que a Lua tem com as marés: ora o atrai ora o repele. São é mais irregulares, as marés financeiras do marinheiro. Por isso - também por isso - ele desconfia dos milagres.
Os quais, obra quase sempre de um mafarrico ou de um deus travestido, inventam outras formas de ser pagos. O de hoje - estou a quinze milhas (três quartos de hora) do porto onde vão instalar o piloto, ou seja: um dia e meio mais cedo do que o previsto - faz-se pagar com uma dor nas costas que só não me impede de respirar porque sou teimoso. De resto, tudo o que implique um movimento, mínimo que seja, está-me vedado. Ou pelo menos implica dores atrozes nas lombares.
Fui à farmácia comprar um analgésico. Aparentemente, o uso do amuleto facial «nos estabelecimentos de saúde» continua a ser obrigatório, o que me valeu uma breve troca de palavras com a farmacêutica e que ela não considerasse sequer a possibilidade de me dar qualquer coisa que necessitasse de receita médica (o que me faz sentir um bocadinho estúpido, pois tenho um médico a bordo. Está é reformado).
Uma coisa que já tinha reparado ontem: aqui a única língua que se ouve na rua é espanhol (e por vezes valenciano, uma variante do catalão). Os menus não têm quarenta e duas línguas e salvo raras excepções as pessoas dirigem-se a mim em espanhol. Os restaurantes são baratos.
Explicação: há pouquíssimos hotéis em Santa Pola. A maioria dos clientes das inúmeras empresas de day charter, motas de água, foras-de-borda «sem carta» são pessoas que ou têm casa aqui ou se juntam para alugar uma para as férias.
25.6.22
Coisas simples
Daqui a uma hora faço rumo ao Cabo de Palos, esperando que o vento me force a ir para Cartagena e ao mesmo tempo serei o homem mais feliz do mundo se conseguir chegar anda hoje a Torrevieja ou algo ali perto.
Respeito, respeitinho
Se há um discurso que me irrita é o do "respeito". Temos de respeitar o outro, temos de respeitar os sentimentos e ou as ideias e ou as manias todas, sejam elas quais forem, do outro.
E se o outro for o Estaline, o Pol Pot ou o Hitler, também tenho de o respeitar?
Não, não tenho. Então onde se põe a linha? A linha passa onde eu quero que ela passe. De um lado as pessoas, ideias e sentimentos que me parecem respeitáveis. Do outro, os que não merecem respeito nenhum.
Como a linha é muito grossa, tem espaço para acomodar alguns assom-assim.
24.6.22
Diário de Bordos - Aguadulce, Andaluzia, Espanha, 24-06-2022
A razão pela qual um marinheiro digno desse nome não acredita em milagres é que eles existem. Os milagres são como as bruxas, que em galego se chamam meigas: que los hay los hay. Tudo isto para dizer que estou sessenta milhas mais longe do que pensava estar, porque os milagres se dividem em duas categorias: depois de ler as previsões meteorológicas e depois de as experimentar. Visivelmente o tempo não leu as previsões e não sabia o que fazer. Na dúvida, baixou os braços.
Amanhã vai ser preciso outro: o objectivo é conseguir passar o cabo de Palos, sabendo que não vamos conseguir passá-lo e que muito provavelmente vamos ter de passar um ou dois dias em Cartagena. Espero sinceramente que desta vez o tempo leia as previsões e me force a ficar em Cartagena, um dos meus poisos favoritos nestas bandas. Se não, lá passarei o célebre cabo, outro milagre.
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A minha trotineta porta-se bastante bem. A ver como se portará amanhã. Faz barulho como um comboio de transporte de bisontes vivos, mas aguenta bem o mar - admitidamente hoje fraquito - e tem tudo o que precisa de ter, não tendo nada do que não precisa. Avança a quase vinte nós de média, mas cheira-me que amanhã vai adoptar um passo mais lento. Consome cinquenta litros à hora, o que faz dois litros e meio por milha. Trezentos e setenta metros por euro. A minha bicicleta é mais barata. Infelizmente não anda no mar.
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A hermenêutica dos milagres tem que se lhe diga.
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Não é só a dos milagres, verdade seja dita.
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A razão pela qual ninguém consegue perceber um marinheiro é que ele tão pouco é capaz de perceber ninguém que não o seja. Somos o povo eleito da humanidade. Resta saber quem nos elegeu - se Deus, se o Diabo, se uma mistura dos dois.
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Se por acaso algum dos meus leitores passar por Aguadulce: La Cantina del Marinero, na marina. É um erro confessar isto, mas é para ir a bares / cafés / restaurantes como este que nós navegamos. De bar em bar com o mar pelo meio.
A conta não incluía metade do que nós comemos e bebemos (enfim, bebemos). Avisei a senhora e ela responde-me: "a conta é essa e é isso que tens de pagar." Acresce que tudo o que comemos e bebemos estava magnifico. Como toda a gente, os misantropos enganam-se. Resta saber se mais se menos do que "toda a gente".
23.6.22
Diário de Bordos - Puerto Banús, Andaluzia, Espanha, 23-06-2022 / II
Gosto de pequenos-almoços semi-vegan: sumo de laranja e café de um lado, ovos e bacon do outro. Não há, aliás, melhor cheiro ao começo do dia do que a mistura do do café a fazer com o do bacon a fritar. (Pelo menos para um solteiro. Um tipo casado talvez encontre outros.)
Hoje o meu foi assim, num sitio cujo nome não retive infelizmente: é um dos raros cafés/ restaurantes aqui abertos antes das nove - aqui sendo Marbella. Em Banús não há um único.
A clientela era a desses lugares em qualquer parte do mundo: policias, empregados de bombas de gasolina, taxistas a acabar o turno da noite, os mesmos mas outros a começar o dia. O restaurante é baratíssimo (mesmo em termos absolutos) e eu regalei-me tamto com a comida como com as pessoas que me rodeavam. Na marina não se vê gente assim.
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Por falar de gente assim: ontem o R., que sempre trabalhou no segmento gama alta da indústria automóvel e é daqui contou-me que acontece muitas vezes grupos de senhoras que ele designou pudicamente por "profissionais" juntarem-se três ou quatro e virem para Banús à caça de donos de Ferraris et simili. Por um lado. Por outro lado, três ou quatro alemães ou ingleses tesos juntam-se para alugar um Ferrari e vêm para aqui para o engate.
O resto é fácil de adivinhar.
Chama-se a isto um duplo engano. Ou será antes engano ao quadrado?
Diário de Bordos - Puerto Banús, Andaluzia, Espanha, 23-06-2022
Apesar deste estúpido poniente a estadia em Puerto Banús não se vai prolongar. Amanhã de manhã cedo vou a um estaleiro que fica a dez milhas daqui fazer uma limpeza aos fundos; à tarde chega o A., a quem pedi ajuda porque sem piloto não posso ir sozinho - para grande pena minha, mas isso... Com todas as minhas penas construir-se-ia uma passarola dez vezes maior do que a do bom padre Gusmão, portanto mais vale não lhes ligar muito. Vamos muito provavelmente navegar de noite para aproveitar as acalmias da besta. Como tantas vezes fazíamos quando subíamos a costa portuguesa: um opíparo jantar, um bom whisky ou dois e ala que se faz tarde. Só que hoje já não bebo antes de ir para o mar, isto de um gajo crescer é uma porra que aconselho todos os jovens a evitar. A vida tem muito menos piada - e muito menos a preservar, pelo que tantos cuidados parecem à primeira vista incompreensíveis.
Ao coro de vozes que me manda estar calado junta-se agora a do meu neto Leonardo. Ouve-se por cima de todas as outras, apesar dos seus escassos três meses. Tenho qualquer coisa que preservar, sim. De maneira que os sakes que agora bebo devem essa honra a só sair amanhã de manhã e não daqui a pouco.
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Sakes esses bebidos no restaurante Sakura, um dos melhores japoneses que conheço. Acontece de vez em quando: num porto por vezes sou invadido pela sombra do Rotschild e faço um disparate alimentar. Tão disparate que não posso repercuti-lo todo no pobre armador (para quem não tenha percebido: isto é uma ironia. Neste caso, o senhor é podre de rico. Podre de pobre sou eu). Ao meio dia entrei num japonês, provável (mas de certeza inconscientemente) atraído pelo nome - Kona (Kóná, para ser preciso) - e só quando já estava sentado e de computador aberto em cima da mesa dei pelos preços. Comi o menos que me foi possível e mesmo assim a refeição foi caríssima. Tão pouco foi o que me foi possível que saí dali e tive de ir ao Casa Blanca - uma sólida e respeitável cervejaria tradicional - comer mais qualquer coisa. Pois agora venho ao Sakura - o restaurante que já duas pessoas me tinham sugerido - e desmanchei-me de novo nesta mistura de fome e vontade de comer que faria o tio Benjamim franzir o sobrolho. Ainda não sei quanto vou pagar, mas vou-me preparando à força de sake, apesar de este ser exponencialmente mais barato do que o outro.
Seja como for: aconselho os dois restaurantes mencionados neste post. Seja como for: tenho uma atenuante, uma espécie de tsunami afectivo (o jogo de palavras não é gratuito). Seja como for: que se lixe. O armador paga uma parte, eu pago outra e não se fala mais nisso.
Não, hoje não há mais sake. Ainda acabas a acreditar no Pai Natal. A esperança e os ovos de serpente têm uma coisa em comum: há que matá-los no ninho. E a esta hora é tarde para tsunamis, sejam eles de que tipo forem.
Concentremo-nos no jantar de hoje e deixemo-nos de considerações espúrias. Daqui a pouco chega a conta, o Rotschild sai de fininho e cá fico, sozinho e entregue aos bichos. Preciso de ir para o mar, onde não há nada nem ninguém se não eu e um bote a vinte nós.
[PS: Sonha.
PPS: Um marinheiro é um gajo que sabe que nada vai correr como ele quer, que não acredita em milagres e apesar disso acredita que as previsões meteorológicas por vezes se enganam, que o poniente não dura sempre e que bastantes probabilidades de no dia tal estar no porto tal, como inicialmente previsto. Somos como aquelas longas varas dos funâmbulos - mas sem ninguém no meio a segurá-la.
PPPS - É que uma coisa é não acreditar em milagres e outra, completamente diferente, é não acreditar em milagres. Não se deve confundi-las uma com a outra.]
22.6.22
Diário de Bordos - Puerto Banús, Andaluzia, Espanha, 22-06-2022
A marina de Puerto Banús é daquelas que evito desde que pela primeira vez aqui pus os pés. lá para os idos de setenta e quatro ou cinco. Naquela altura ainda estava em construção, passei aqui de raspão quase de madrugada, paguei um café e uma torrada a um preço que me fez sobressaltar e ficou gravado para sempre. Hoje está pronta e continuo a evitá-la: a música nos cafés é abominável, os preços disparatados - até para quem acaba de chegar de Genebra - as lojas do mais pedante e nulo que se pode encontrar. O parque automóvel não me entusiasma por aí além - Ferrari, Jaguar, Bentley e Range Rover, Lexus, Porsche e Mercedes. Estranhamente não há mega-iates - nem tudo pode ser mau: os barcos maiores oscilam entre os setenta e os noventa pés. É uma marina para quem prefere ser visto de carro. (Não ha espaço nem fundos para maiores do que isso.)
Hoje, porém, encontrei mais uma razão para continuar a evitar pôr aqui os pés: os duches são do pior que já vi. Horríveis. Assim que de repente me lembre não me vem à memória marina nenhuma onde os duches sejam a) tão maus e b) tão desfasados do resto. De certa forma compreende-se: quem pode ir de Ferrari para casa não precisa de duches em condições.
Isto tudo dito: se tudo correr como eu quero, esta não será nem de longe a última vez que virei aqui. Espero que haja muitas mais, na verdade: quero introduzir mais motor no meu mix de navegações e este é o local ideal para isso.
Está de poniente e não dá nem para pensar em sair. A última vez que esperei pelo fim de um passei uma semana em La Linea. Espero vivamente que este demore menos. Dia um de Julho tenho de estar em Palma (o que eu gosto destes «tenho de» não tem descrição. Tudo o que me faz rir é bom). O bote é pequeno, um trinta e seis pés e com os vinte vinte e cinco nós de vento que estão ali fora, só me resta praguejar contra estes cafés de merda, estas lojas bling bling e contra o facto de que afinal não vou assar quatro dias sozinho: o barco não tem o piloto instalado e até Alicante tenho de levar um tripulante. Vai ser o A., que veio comigo das BVI, é adorável e sabe fazer leme. Espero.
"Não avançamos para a verdade. Mudamos de dogma, é tudo"
"Não avançamos para a verdade. Mudamos de dogma, é tudo" é uma das grandes verdades sobre as quais alicerço a minha mundividência.
É o dogma que une as sociedades, não é a verdade. A verdade é disruptiva, baseia-se na dúvida. O poder unificador e mobilizador da dúvida é nulo. O dogma tem uma função social importante. Não participar nele leva inevitavelmente à exclusão, mais ou menos violenta, mais ou menos intensa consoante por quem ou por quê se foi excluído. Não é por ser verdade que um lugar-comum é comum. É porque ele tece ligações que a verdade - sempre baseada no cepticismo - não conseguiria tecer.
Uma verdade começa sempre com uma pergunta. "A Terra é plana? Não será redonda? Como vou provar que a Terra é redonda?" Num diálogo, essas perguntas transformam-se em afirmações, tanto por «culpa» do receptor como do receptor da mensagem. «Culpa» vai entre aspas: não há culpa, aqui. Quando muito, responsabilidade. Ninguém segue um chefe que se pergunta.
(Cont.)
19.6.22
Constatação *
A entropia na solidão leva ao seu aumento e não à sua diminuição (dela, solidão). A solidão aumenta. Para a reduzir, há que fazer esforços.
* - "Constatação" já ganhou direito de cidadania. É uma palavra portuguesa.
Protesto contra o Facebook
Porém, o Facebook devia ter afixada uma lista das palavras que não se podem usar, uma espécie de Index Verba Prohibitorum. Assim não haveria surpresas. Quando muito, desobediências.
Isto dito, talvez não seja um exercício fútil pensar numa coisa: é óbvio que este clima de intolerância, de censura, de «inclusão», de «ofensa» permanente que estamos a viver não foi criado pelo FB. Este limita-se a respirar o ar do tempo, não o fabrica. Contudo, ao participar nele com tanto zelo ajuda a criar um mundo binário - de um lado os wokes, do outro os rebeldes, os independentes, solitários que se vêem assim excluídos da praça pública (não tenhamos ilusões - o FB é simultaneamente a praça pública, a taberna da esquina, o Speaker's Corner e a página de opinião dos jornais. Se estivesse atento à suas «responsabilidades sociais» o FB lutaria contra a censura e contra a intolerância, não as fomentaria).
Há uma doce ironia neste castigo - deve haver poucas pessoas por esse mundo fora a quem a sexualidade de cada um seja mais indiferente do que a mim. Cada um leva onde quer e dá onde pode, é a elegante e sofisticada máxima que há já muitos anos cunhei para exprimir a minha posição a esse respeito. Os únicos seres vivos que excluo deste «cada um» são as crianças e - em alguns casos - os deficientes mentais. De resto, acho que os outros não têm de se intrometer no que cada um faz de si e de quem quer fazê-lo consigo. É, ou devia ser, território proibido, fechado a «pessoas não autorizadas». O meu uso do termo «paneleirice» não tem nada a ver com o facto de eu pensar que só os maricas acreditam nas «alterações climáticas». Paneleirice, mariquice têm outros sentidos para além do primeiro (que já «panasquice» por exemplo não tem). Outras - ouso dizê-lo - denotações. Limitar a quantidade de palavras que podemos usar é mau - se bem tenha, como vimos, algumas atenuantes, em casos bastante precisos, em lugares privados. Limitar-lhes os sentidos é pior. Agir como se cada palavra tivesse um e um só significado é uma limitação não só da liberdade de expressão mas também daquilo que faz dos homens homens: a capacidade de abstrair, de imaginar, de figurar.
O Facebook não devia ser uma peça mais no rolo compressor que está a fazer da modernidade um sistema digital: quem passou debaixo do cilindro está bem, quem não se deixou esmagar vai para as beiras da estrada, rodeado de arame farpado. O Facebook não devia censurar. É um lugar público muito mais do que uma empresa privada.
17.6.22
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 17-06-2022
Este post não pode ir para o Facebook. Estou censurado: escrevi «paneleirices». O FB devia publicar um index palabrorum prohibitorum e isso feito ir para a pata que o pôs. É esta a comunidade na qual querem que vivamos? Ná. A minha é azul e tolera todas as palavras, sem excepção.
15.6.22
Actualidade, passado
Revisão do texto para a continuação do Avenida. Há pouco passei por um post segundo o qual refugiarmo-nos no passado não é muito seguro. Talvez não seja, mas que é mais agradável do que a actualidade (a presente, quero dizer) é de certeza.
Reedição - Bashô
Admirável aquele
cuja vida é um
contínuo
relâmpago
Matsuo Bashô, in
"O Gosto Solitário do Orvalho, seguido de O Caminho Estreito",
Assírio & Alvim.
14.6.22
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 13 & 14-06-2022
Quatro horas de marcha em Genebra: casa - Rive (comprar café na Carasso) - rue du Rhône - Corraterie (ver as montras da Brachard e comprar tinta para as canetas) - place Neuve (fotografar os jogadores de xadrwz dos Bastions) - rue de Carouge (beber um copo na Livresse, que deixou de ser livraria há dois anos) - Bains des Pâquis (encontrar-me com a filha e com o neto) - passeio até onde foi possível andar (há uma conferência da OMC e para aquelas bandas está tudo vedado).
Regresso a casa de autocarro, exausto. Nunca gostei muito de viver na Suíça - La Chaux-de-Fonds, Zurique e Genebra, por esta ordem, com um ano em Aveiro e uma viagem a Moçambique entre la Tchaux e Zurique, um ano no Burundi, quase seis meses no então Zaire, três verões nos Açores - e como ao mesmo tempo pensava que as vantagens superavam as desvantagens andava numa permanente dissonância cognitiva: como não gostar de viver num país ao qual sempre gostei tanto de regressar?
A explicação começa a delinear-se agora (sou um rapazinho lento, nada a fazer). Desde quando aqui cheguei, em finais de setenta e nove e até pouco antes de voltar a Moçambique em noventa e sete, não era dono do meu tempo. Isto é: o meu tempo era organizado pelo governo. Quando podia fazer compras - em oitenta e três havia duas mercearias abertas ao domingo para todo o cantão de Genebra - quando podia divertir-me - as horas de fecho dos bares e cafés eram apropriadas para crianças e ferozmente aplicadas pela polícia - as horas a que podia fazer barulho em casa (um problema que, verdade seja dita, nunca tive. Questão de sorte). O governo (na verdade, os governos, federal e cantonal) geriam o tempo dos cidadãos. Porque estes queriam ou pelos menos permitiam, é certo. Mas não por isso deixa de ser insuportável para quem não queria.
Nos anos noventa as coisas começaram a mudar. As pressões para liberalizar e as naturais reacções para manter o status quo tornaram-se demasiado visíveis. Os referendos para permitir aberturas mais longas e aos domingos eram sistematicamente ganhos por quem não queria mudanças (o argumento sendo a defesa dos trabalhadores. Quando me ouvirem apodar a esquerda de reaccionária não se espantem. O exemplo está longe de ser único). A resposta do governo federal foi simples: aproveitou um buraco na lei segundo o qual estações de caminho-de-ferro e aeroportos são territórios federais e permitiu a abertura de supermercados nesses lugares. Depois, o cantão de Genebra começou a permitir a abertura alargada de pequenos negócios - os patrões não precisam de defesa, toda a gente sabe.
O efeito foi o mesmo que teve em França a chegada do "árabe da esquina" nos anos oitenta: semelhante a descalçar um sapato demasiado apertado. Agora posso ir ao supermercado ao domingo - na gare dos comboios e no aeroporto - e posso comprar mercearias à meia-noite.
Ao mesmo tempo fui envelhecendo, claro. Tenho cada vez menos necessidade de comprar uma lata de ervilhas à meia-noite (ervilhas deveria talvez levar aspas) e não me importo de ter de ir à estação ou ao aeroporto se precisar de um supermercado ao domingo. Com a idade perdemos em paciência o que ganhamos em tolerância.
[Felizmente na Suíça os políticos não têm poder nenhum, o que limita bastante os danos por eles provocados. E ainda há quem seja contra a democracia. Não quer dizer que na Suíça não haja resultados «errados» de votações. Há, claro. A democracia consiste exactamente em dar ao povo a possibilidade de se «enganar». Quem sabe tudo são os ditadores. Mas isso fica para depois.]
Estávamos nos telejornais: pandemia, alterações climáticas, etc. A actualidade é tão maçadora como a modernidade na qual se inscreve. Talvez seja isso que distingue a nossa modernidade das anteriores, que tiveram pelo menos o mérito de ser excitantes.
10.6.22
O maior arco de Valdevez do planeta
Enjoa muito, este hábito português de ter o ... (inserir o que se quiser) maior / mais bonito / mais sei lá o quê do mundo / da Europa / da galáxia. Sobretudo porque essas listas nunca incluem políticos. Por exemplo: Pedro Nuno Santos é o ministro mais caro do mundo; João Galamba é o ministro mais sinistro da galáxia; António Costa é o pior primeiro-ministro da Europa (esta seria mentira: o dos nossos vizinhos é pior).
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 10-06-2022
1 (Por ordem cronológica) - A easyJet já não obriga os passageiros a usar máscara. Isso não impede a maioria deles de a levar posta. Foram bem amestrados, tal animaizinhos de circo. É por isso que as cartas fora do baralho, os peixes fora do aquário, os que não jogam em clubes, bandos, equipas, partidos, multidões são atacados em todo o lado: somos uma ameaça, como se na fila para saltar um aro em chamas um dos cãezinhos dissesse ao domador "Salta tu". Lá se iria o espectáculo por água abaixo.
Impossível não me lembrar daqueles palermas que agora em Palma esperam pelo sinal verde nas passadeiras. Devem tomar aquilo por um símbolo da "civilização". Se calhar é: ser incapaz de usar o próprio cérebro e os próprios olhos para ver se vem um carro e depender de um sinal que não tem nem um nem os outros é "civilizado". E não têm vergonha, ainda por cima, imbuídos que estão da sua "civilização".
2 - Chegada ao aeroporto. Passo o pormenor da rapidez com que as bagagens aparecem no carrossel e vou ao mais importante: ser esperado por uma filha que já é mãe, círculo que se fecha, ciclo novo, novo princípio. Quando o irmão (primeiro) e depois ela nasceu eu dizia que sempre gostara de jovens mães e que por isso tinha uma em casa. Volta a ser verdade, só que agora não a tenho em casa, tenho-a no coração, na cabeça, na memória, no orgulho.
3 - Vejo um bocadinho das notícias ao meio-dia, com a S. Foi na Suíça que deixei de ver televisão e não estou perto de recomeçar, mas a diferença entre estes telejornais e os nossos quase seriam capazes de me pôr todos os dias à frente da espécie de piscina deitada que nesta casa faz as vezes de televisão.
4 - S. foi jantar com amigas, ou colegas ou coisa que o valha. Passei a maior parte da tarde em casa sozinho. Em bónus, fiquei de guarda ao miúdo enquanto a L. ia não sei onde. Deve haver poucas maneiras melhores de iniciar esta estadia. Aproveitei para ouvir velhos LP de jazz, beber absinto do Val-de-Travers e dormir, que a noite foi curta.
O passeio no parque Bertrand com o puto no carrinho foi uma espécie de tremor de terra silencioso. Nenhuma das pessoas por quem passei se apercebeu do sismo com duas pernas e um chapéu que lhes passava ao lado.