31.5.10

Convergência

Nos nossos corpos convergem a vida e o nosso amor; o tempo pára, o passado e o futuro desaparecem. Sobretudo o futuro. Todo: morte incluída.

Fidelidade, Lisboa, tu

Descubro a fidelidade como uma criança o alfabeto: pouco a pouco, com erros e hesitações, com espanto pelo mundo novo que se me abre perante os olhos maravilhados. Começo por ti, Lisboa, porque foste, és, o meu primeiro amor, o mais antigo. Não quero sair daqui; não quero sair de ti.

Viva a paz

O chefe do Hezbollah, esse ícone da paz, farol da compaixão, luz do humanismo condena Israel. Só isto é suficiente para demonstrar que Israel tem razão.

Aulas / Passeios de vela


Humanitária?

"Uma frota humanitária"? Vão gozar para outro lado, por favor. O anti-semitismo arroga-se o direito de distorcer as palavras de uma forma revoltante.

30.5.10

Um post destinado

Desculpa. Escapou-se-me um beijo e foi a correr ter contigo. Acolhe-o, sim?

Sol

Estou cheio de sol, e tu és o sol.

Cais do Sodré, domingo de manhã

A incompetência da administração da CP há muito não é confrangedora. É revoltante. Os senhores que fizeram a implantação do novo sistema de bilhética deviam ser corridos, não sem antes ter pedido desculpas públicas e renunciado a 90% das suas reformas (verdade seja dita que os 10% restantes seriam muito mais do que o comum dos portugueses aufere).

Sono

Vamos dormir-nos?

Mais tu

Há música e silêncio e um desejo muito grande de desejo e tempo para isto tudo e mais: tu, um passeio breve pelo desejo e pelo tempo que de repente deixou de ter passado e se refastela em futuros e mais futuros e em noites de sol e dias na lua e há palavras, palavras e mais palavras em silêncio olhares e dúvidas e respostas sem perguntas alfabetos novos corvos antigos nêsperas melancias livros até ao tecto; há isso tudo e tempo, muito tempo: tu, e mais tu.

29.5.10

Plano de vida

Sentar-me ao teu lado e ver os teus cabelos embranquecer.

Amor, sexo e outras tretas

É mais fácil satisfazer as necessidades básicas do corpo do que as da mente; se fosse ao contrário não se evitariam muitas infelicidades, creio. Mas se fossem umas e outras igualmente fáceis de contentar?

PS - sim, eu sei: a vida seria muito mais chata, metade da literatura deixaria de ter razão de ser e por aí adiante.

Fidelidade

O amor é porreiro; eu gosto imenso. Agora tenho uma miúda muito gira, caixeira num supermercado. Manda-me SMS todo o dia a dizer "Amo-te, Tó Joaquim"; às vezes estamos juntos no autocarro e ela escreve a mesma coisa no bilhete (já lhe disse para comprar um passe, mas ela não quer. Gosta mais de os comprar ao condutor. Enfim, a verdade é que quase não andamos de autocarro). A única coisa que me chateia no amor é a fidelidade. É uma porra (desculpem o termo). Quero dizer, eu percebo que se não houvesse fidelidade isto seria uma rebaldaria ainda pior do que já é. Mas não percebo porque é tão dolorosa: já que é assim tão boa não devia doer, não é?

A mim dói-me que se farta porque acho que ela não me é fiel. Quero dizer, tenho a certeza. Eu sou; aliás deve notar-se logo, porque as outras mulheres nem olham para mim. Mas a Cláudia Vanessa não é. Sei porque às vezes vou ao supermercado onde ela trabalho e vejo a maneira como ela olha para os outros homens. É quase, quase igual à maneira como olha para mim. E vejo-lhe os trejeitos, quando está um certo colega dela nas prateleiras que estão à frente da caixa. Reparem, não estou a dizer que ela me põe os cornos. Não põe. Ela gosta mesmo de mim; às vezes lá dá uma escapadelazita com o tal colega, ou com outro gajo qualquer, suponho. Mas são coisas que ela faz sem ser para me pôr os cornos. Enfim, não sei como explicar. Só sei que isto da fidelidade é uma porra, porque dói e o amor não devia doer, devia fazer bem e deixar-nos felizes.

Atenção, eu sou feliz. E no fundo não me importo nada com a fidelidade da Cláudia Vanessa. A fidelidade não faz parte do amor, porque se fizesse não doía. Ela que faça o que quiser; desde que continue a dizer-me "Amo-te Tó Joaquim" o dia todo e a fazer amor comigo quando tem folga. Enfim, claro que preferia tê-la só para mim. Mas ela que faça o que quiser. A verdade é que eu também a amo, e em mim a fidelidade é uma segunda natureza; é como se dormisse com ela na cama. Se na Cláudia não é, não faz mal. Eu amo-a na mesma.

28.5.10

Bom Deus do céu!

Sophie Hunger plays songs of secrets, city lights | Video on TED.com

Porto de Abrigo revisitado

Mais um jantar no Porto de Abrigo e mais um esplêndido jantar. O pato excelente, melhor do que o da última vez; a simpatia sempre inexcedível - desta vez levámos uma garrafa de vinho, que nos deixaram abrir sem perguntas e sem "rolhas" - mas com um sorriso e uma gentilezas fantásticas. A continuar assim, vai passar rapidamente para o Top 1 dos restaurantes (vá, Top 2) de Lisboa. 

26.5.10

Sucesso

Esquecemos frequentemente um sector no qual Portugal tem um sucesso enorme: o da pauperização. Os esforços que fazemos para não sermos mais ricos têm uma taxa de sucesso de 100%.

25.5.10

Poetas e problemas matinais

Uma pessoa pensa em poetas, coitados, e vêm-lhe imediatamente ao espírito a memória ridícula do poeta de Milan Kundera em "La Vie Est Ailleurs"; e a figura ligeira e confrangedora do poeta Alegre, um homem que tem tudo para que se goste dele - desde que não se goste de poesia e não se ligue ao que os políticos dizem. É uma injustiça que não nos ocorram, ou só raramente, figuras como as de Natália Correia, que é igualmente péssima poeta (enfim, nem sempre; às vezes era só medíocre, e outras vezes nem isso: quase boa) mas ao menos era Mulher com maiúscula.

Ontem, porém, conheci uma poeta, coitada; e foi um alívio. Restabeleceu-se um certo equilíbrio, importante: o dos géneros. A poeta anda, contou-me, angustiada. Não com as coisas que tradicionalmente angustiam as pessoas - dinheiro, o que comer no dia seguinte, como pagar à mulher a dias ou escolher entre a melhor combinação de um café, um jornal e um autocarro (é um problema real: nem o café nem o autocarro fazem sentido sem um jornal; mas o jornal sem um dos outros dois também não. Escolher a melhor combinação é difícil - o café e o jornal são mais baratos do que o jornal e o autocarro, mas depois vai-se a pé; o jornal sozinho não serve para nada se não para encher os sapatos de cocó de cão, a cara de nódoas negras e os ouvidos de insultos. Também se pode optar por nenhum dos três, claro; mas para quê? Que fazer mais com um bocadinho menos de três euros no bolso? Um drama) mas sim com os problemas que afligem os poetas: "serei reconhecida, amanhã?", perguntava-me enquanto me acariciava os testículos, coisa que fazia, ma parole, muito bem. "Continua assim e garanto-te que na minha descendência o serás até pelo menos à quinta geração", respondi. Mas ela estava preocupada e não ligou.

Tinha cabelos loiros e compridos, e o olhar vagamente vago que só as pessoas profundas e os artistas sabem ter. Era muito bonita e não me custou muito pô-la na cama - uma poeta bonita é um alvo do tamanho de uma roda de camião daqueles das minas a cinco metros: podemos adulá-la de muitas formas e feitios e ela pensa que todas são verdadeiras; o que me custou foi manter a conversa até um bocadinho antes de adormecer (depois de um bocadinho antes de adormecer já não é preciso muita conversa; meia dúzia de suspiros e umas palavras ininteligíveis chegam).

Fiquei, devo dizer, bastante sensibilizado para o problema do reconhecimento da poesia; mais do que ela para o do destino a dar ao dinheiro quando se tem menos de três euros no bolso, coisa que de resto acho justa pois as poetas - e aqui não se distinguem dos seus colegas masculinos - não se preocupam com coisas terrenas, sejam elas cafés, jornais ou autocarros.

A poeta - não me recordo o nome, mas lembro-me muito bem da comichão que os seus longos cabelos me faziam - a certas alturas da noite perdia o ar vago e profundo e eu deixava de pensar nas opções matinais de investimento. A coisa correu alegre e ligeira, forçoso é reconhecê-lo; e hoje de manhã, quando a acompanhei ao carro, ela ofereceu-se para me levar ao escritório: ou seja, vou conseguir fazer de conta que esta noite não existiu, e transpor para amanhã as escolhas de hoje. Que sorte.

Anti-realidade

Cada vez que sinto chegar um ataque de pessimismo, ou de cepticismo ou (credo!) vontade de mandar tudo para as urtigas vejo um TED Talk. É o melhor anti-realidade que existe. Vejam este, por exemplo.

24.5.10

Rita Mariana A. S., carta aberta

Minha querida Rita Mariana,

Não gosto de palavrões, como sabes. A nossa geração (enfim, mais a minha do que a tua, mas isso por agora é irrelevante) foi ensinada a não dizer "asneiras"; dizê-las era uma transgressão, um meta-discurso, voluntário ou não. Mas gosto de palavras, como sabes. E nenhuma palavra é mais palavra do que um palavrão, está bem de ver: o próprio termo o diz.

Tudo isto para te dizer que gosto dos teus broches. Um broche é um broche, e não um "bico", uma felação, um fellatio, um "beijinho" ou (que horror!) "sexo oral". E os teus broches, minha querida, são a essência mesmo do broche. Nenhuma outra palavra os descreveria, nem de longe. Também gosto de te foder, mas aqui já posso usar "fazer amor", "truca-truca", "bater o tambor" ou "levar o cardeal à catedral" - não porque seja menos bom, mas porque no amor que fazemos há amor, há aquela mariquice dos sentimentos e essa merda toda. Nos teus broches não: só há luxúria, luxúria da boa, da melhor, da antiga, da Bayer.

Não sei onde, tão nova, aprendeste, nem quero saber. Acho que essas coisas não se aprendem: ou sabem fazer-se ou não. A tua cultura, a tua raça (e muito menos a tua idade) não explicam tudo: estás longe de ser a primeira da tua cor ou do teu nível social que me faz um broche, seja Deus louvado; nem o facto de (já ou ainda, tanto faz) não existires: um dia virá em que existirás e te verei, escondida atrás de uns cabelos curtos, ou compridos, ou assim assim, ajoelhada entre as minhas coxas ou de lado, pescoço sobre uma delas como uma ponte, lábios apertados em torno do meu membro erecto e duro e teso como o tempo, língua activa e molhada, ligeira, rápida, nervosa, empática, a dizer-lhe "vem-te; não te venhas. Vem-te; não te venhas" até que por fim todo eu não passe de um membro idiota e sem tempo e tu de uma boca e uma língua e o universo se resuma a um monossílabo sem pés nem cabeça; nem tronco, ou cores, ou que seja - sem vida sequer, minha querida, porque ela se projecta toda numa contracção que vem de antes do início da luz e acaba muito depois do seu fim.

Minha querida Rita Mariana: desculpa-me dizer-te estas coisas numa carta aberta. Sei muito bem que o facto de não existires não é desculpa: podias existir, se quisesses. Mas hoje apetecia-me dizer um palavrão, e infelizmente não me ocorreu mais nenhum se não este: broche - divino, sublime, único, soberbo broche.

Amar, geografia

Deixo-te e o planeta muda imediatamente; amar-te é uma geografia.

Calor, calores

Um corpo transpirado ao lado do nosso é bom; sobretudo quando se contribuiu para essa transpiração.

23.5.10

Nomadismo

Há dias em que me pergunto se "nómada romântico"  é um pleonasmo ou um oxímoro.

Gosto, desgosto

Não gosto de pessoas que obedecem, mas gosto das que ouvem.

20.5.10

"Não está previsto"

No outro dia falava com uma autoridade marítima sobre uma coisa que a dita autoridade queria fazer, e eu também, mas de forma diferente (e inócua). "Não está previsto", foi a resposta. "Esse, sr. Comandante, é o melhor resumo da minha vida cada vez que tentei voltar para Portugal".

O problema não é "não estar previsto". É a falta de disponibilidade e flexibilidade para pensar no que o não está.

Nómada

Não sei se a melhor forma de definir o nomadismo é "estar em casa em qualquer sítio", se "não estar em casa em lado nenhum".

Serviço Público - Restaurantes, Lagos

Um serviço público duplo: dois restaurantes dois.

O primeiro (por ordem cronológica) chama-se a Casa do Zé e fica na Marginal de Lagos, não muito longe do Sebastião, coitado. As resistências iniciais à localização e ao aspecto da casa - é uma tasquazita, uma sobrevivência - devem ser vencidas. A comida é boa, o serviço eficaz, jovial e simpático, o peixe fresco, os preços mais do que razoáveis, o medronho óptimo.

O segundo é mais difícil de encontrar. Chama-se Prato Cheio. A decoração não é boa nem má; o serviço é bom; as cataplanas magníficas; o medronho excelente (quase melhor do que o do Zé); promete no toldo "Comida Caseira" e é o que dá, de uma forma simples, escorreita, barata e amical.

Rua Francisco Sá Carneiro, 23 - A (perto dos correios novos). Fecha às terças-feiras. Tel.: 282 762 138.  

O amor demiurgo

Amo-te e o universo refaz-se. Amar-te transforma em demiurgo o mais abúlico dos cépticos.

19.5.10

Amar, incompletude

Amo-te e vejo em ti tudo o que gostaria de ser. Amar-te é saber-me incompleto, e feliz.

11.5.10

Amor, eternidade

Amar é descobrir que a eternidade tem um princípio e um fim: começa quando te vais embora e acaba no preciso momento em que chegas.

9.5.10

Diálogos potenciais

- Não consigo transformar o que sinto em palavras.
- Então transforma em silêncio.

8.5.10

Paisagem, vida

A mesma paisagem muda com os olhos que a vêem. Tal como a vida, com as vidas que a vivem.

Palavras livres

Palavras há tanto tempo presas... Palavras simples: amo-te, quero-te, bonita, sorriso, olhos. Palavras primordiais, básicas: sempre, vida, tudo, partilha, ansiedade, medo, fim, princípio, carícia. Palavras: pele, ventre, mãos, lábios, desejo. Palavras que se libertam, e libertam. Presas a ti, livres por ti.

Suspensões

O tempo parado, suspenso de uma palavra. A palavra suspensa, à espera de um tempo.

Procura-se

Procura-se: sentido de humor. Anda perdido há uns meses e não há maneira de voltar para casa. Atenção pode ser mordaz, se bem seja, o mais das vezes, doce e gentil.

Silêncios

Muito mais do que as palavras, são os silêncios que aproximam as pessoas. Isto é, a capacidade de os interpretar correctamente.

7.5.10

Ilha do Pico, Açores

Erros estratégicos

Aconselho a leitura deste documento sobre os erros estratégicos que estão a ser cometidos na rede ferroviária.

6.5.10

Recompensas, injustiças

Há um certo drama num país, como o nosso, que só sabe recompensar duas formas de energia e dinamismo: as dos jogadores de futebol e dos traficantes de droga. É certo que os funcionários e políticos também cá vivem muito bem; mas são recompensados por não fazerem nada, ou fazerem o pior possível.

Ao retardador

Não deixes que se te veja a gramática quando escreves; é como ter as alças do soutien à vista. E ordena bem as ideias: a desordem é inimiga da clareza. Não apalpes as palavras como se fossem melões, nem as cheires. Deixa-as correr fluídas, como salmões numa torrente, ou vento nas ervas. Deixa-as levar-te para longe, como se a página fosse uma planície, ou o mar; e cada frase uma vida.

(Muito livremente inspirado num post já antigo [as minhas desculpas, não o encontrei] de Pedro Correia).

Não é uma surpresa

Ou melhor, sim: só "um bocadinho"? Basta lidar de perto com dois ou três burocratas portugueses para ver que não.

"Há um bocadinho de Neandertal dentro de nós".

Por exemplo

Por exemplo, hoje sonhei que fazíamos a barba juntos - isto é, eu a fazia e tu me ajudavas. Os pelos da barba tinham-me crescido por todo o lado, como no tipo do Providence, e nós ríamo-nos muito e eu barbeava-me e tu passavas o pincel e os pelos cresciam outra vez e nós ríamo-nos a bandeiras despregadas. Claro que isto só era possível porque comprei uma Gillette Fusion nova, e uma Gillette Fusion é a única coisa que até hoje vi que desmente o Marquês de Sade: "De todos os actos humanos é possível extrair prazer, com excepção do acto de se barbear". Acorda, Marquês, abre os olhos. Compra uma Fusion e arranja uma namorada de sonho.

Ou, outro exemplo, hoje sonhei que o meu colchão se transformava numa Kawasaki 1,000 e que andava pelas ruas embrulhado nos lençóis e nos edredons montado num colchão verde alface e contigo ao meu lado, não atrás, a dizer-me "agora para a direita; agora para a esquerda; acelera, querido, acelera" e só parámos na sala de tua casa, de onde se vê o Tejo como se lá estivéssemos dentro. E tu dizias-me "Vamos mudar o óleo". Por exemplo.

Os exemplos são mais do que milhares deles e tudo o que te envolva se presta a ser um exemplo, porque tu és o conjunto das coisas todas às quais quando juntas chamamos vida, e separadas morte.

5.5.10

Mais uma para o galheiro

Eu sempre pensei que aumentando os salários dos políticos ficaríamos todos a ganhar: atrair os melhores, etc. Mas esta teoria está a ser posta à prova tão frequente e fortemente que vai ser abandonada. Só não sei por que substituí-la. Ter políticos que não nos embaracem não é pedir muito, é certo; mas eu gostaria de ter um bocadinho mais: políticos eficientes, sérios, trabalhadores, honestos, etc.. Como fazer? Estes gajos (o termo é propositado) ganham bem; passam a vida no forrobodó; não fazem a ponta de um chavelho - e quando fazem é pior ainda; e mesmo assim não chega.

Ana Maria (cont. e fim)

À medida que envelhecemos vamos reconstruindo o passado; ou ele refaz-se sozinho, sem a nossa ajuda. Lucas não conseguiu manter o seu posto na árvore muito tempo. Um dia o polícia do quarteirão teve pena dele e tentou impedi-lo de subir; considerou aquilo uma intolerável ofensa às suas liberdades de expressão e movimentos e acabou, ele que era o mais doce, simpático e prestável dos homens, na esquadra; de onde transitou directamente para o hospital psiquiátrico da nossa cidade.

Fiquei chocado quando Ana Maria me disse que aproveitava as exaltadas (e elevadas) declarações de amor do marido para o enganar; só mais tarde percebi o enorme amor que ela tinha por ele. Pedro - os "Pedros" todos: João, António, Manuel, Paulo, Ricardo - não eram para ela mais do que uma breve mistura de "pau e pelo", condenados sem o saber a serem postos na rua ao fim da segunda tarde ("A primeira vez nunca é a melhor, por isso os guardo duas vezes. Três em casos excepcionais"). Ana Maria amava Lucas, mas sabia que pouco podia fazer por ele, se não levar-lhe comida e tentar adiar o inevitável.

Fizemos amor pela primeira vez pouco tempo depois do internamento: tínhamos combinado ir jantar a um restaurante árabe na Feira do Livro. Não chegámos sequer a ir: quando a fui buscar a casa ela convidou-me para entrar. Não sei quem começou: sei que mal passei a porta a tinha nos braços. Poucas semanas depois tinha-a na pele, no corpo todo, na mente, na vida. Amava-a desesperadamente, pois sabia que em breve seria posto, eu também, "na rua". Como se ela fosse uma casa, um albergue, uma pensão.

Não fui. Seis meses depois vendemos as nossas casas e comprámos uma a meias. Exigência dela: qualquer um de nós poderia ter mantido a que tinha e comprado outra, mas Ana Maria não queria "mais uma árvore na qual se pudesse refugiar. Temos que saber que se nos separarmos vai ser duro, difícil, doloroso, horrível, penoso" disse-me.

O que mulher quer Deus quer, dizem os franceses, que sabem do que falam. Vivemos juntos há 15 anos. Às vezes acordo de manhã com Ana Maria a fazer-me uma felação; vejo-lhe os cabelos, espalhados pelo meu ventre, o corpo ajoelhado, os seios fartos e bonitos encostados aos joelhos. Parece uma gata. Tem quase cinquenta anos e continua a mulher mais bonita por quem me apaixonei.

Quando acaba anicha-se em mim, os dedos fincados na minha pele. Hoje disse-me "Lucas gostava mais disto do que de foder. Eu não; mas não me importo de o fazer. Ainda bem que tu também gostas, não é?".

Empreendedorismo

Os organismos públicos em Portugal cobram como se fossem empresas privadas. (Infelizmente, o serviço continua "público", mas isso é outra história).

Falta de vergonha, de Medeiros

Um post lapidar de José Manuel Fernandes, aqui.

Oxímoro

Se alguém precisar de um exemplo de oxímoro: Portugal e o Futuro.

4.5.10

O poder e a assimetria

Alguém me devia explicar por que razão podem os funcionários públicos estragar a vida a uma pessoa; fazer-lhe exigências absurdas; levar o tempo que muito bem querem e lhes apetece a responder; em suma, agir como pequenos ditadores, e não podem os administrados perder a cabeça.

O problema, claro, é esse mesmo: a relação dos portugueses com a autoridade. Nunca há, no nosso país, uma relação de igual para igual com a autoridade - seja ela confrontadora, como nos países anglo-saxónicos; ou consensual, como nos países nórdicos. Em Portugal a relação com a autoridade é assimétrica - e a autoridade aproveita-se disso, claro. O poder é como o ar: ocupa todo o espaço que tem à disposição.

Fascínio

Estou de novo envolvido com a burocracia "marítimo-turística" portuguesa, e verifico, consternado, que afinal não aprendi a lidar com o absurdo. Isto é, a encará-lo como se fosse normalidade.

Continuo fascinado por pessoas que exigem coisas patentemente absurdas porque "está na lei". Será que está, realmente? E se está (eu não acho assim tão claro; mas assumamos que está) não deveriam elas fazer qualquer coisa para modificar, ou clarificar, essa lei, e vez de continuarem impavidamente a provocar desperdícios de trabalho, tempo e dinheiro?

Infelizmente, este fascínio nem sempre é agradável.

Educação nacional

A educação em Portugal está bastante boa, como se pode ver por este artigo. E este post deita por terra, e muito bem, a desculpa que tivemos de aumentar drasticamente a quantidade de alunos que acedem ao ensino secundário. O problema é gravíssimo.

Se hoje, após todos os esforços, continua a ser impossível falar com um funcionário público sem perder as estribeiras, como será quando esta geração estiver lá? (Enfim, os que conseguirem emprego, claro. Ou seja, não serão sequer os melhores, mas sim aqueles que tiverem mais cunhas).

Quem sabe?

Por uma razão qualquer que eu não conheço, a cidade de Lisboa está hoje cheia de imbecis vestidos à estudante de Coimbra que gritam, uivam, urram, ululam e fingem, de uma maneira geral, que são os selvagens que de facto são.

Lembro-me da quantidade de cidades que conheço em que isto não só não seria permitido, mas não seria, sequer, imaginável. Prefiro Lisboa. Amanhã pode ser a minha vez, vá lá saber-se.

Ex-moralistas

Se eu percebo bem a argumentação da esquerda, o país está um regabofe; mas é uma injustiça que alguém diga (a "turba", num comentário a este post) que se deve pôr limites ao dito regabofe: se há para um haverá para todos.

Credo, o que eu me lembro da esquerda enjoativa, de tão moralista.

3.5.10

Custou, mas foi

A deputada Inês de Medeiros prescindiu "voluntariamente" do pagamento das viagens. Pelo que li a senhora não percebeu tudo muito bem, mas isso parece-me de somenos.

"Inês de Medeiros prescinde de pagamentos de viagens"

Aterrador

Eça de Queirós fez, há 150 anos, descrições de Portugal que poderiam ter sido feitas hoje. É aterrador. Nos próximos 150 igualmente nada mudará.

(De um comentário n'O Cahimbo de Magritte).

Alemães

Anda tudo numa berraria contra os alemães, estes dias. Não percebo porquê. Não conheço ninguém que, tendo ganho muito dinheiro e tido muito sucesso graças ao seu mérito não fique igual a eles.

Carreirinha

2.5.10

Erros

A vida é o erro de uma morte que a outra logo vem corrigir.

Graças ao futebol

Hoje na rádio havia um jogo de futebol qualquer. O chauffeur de táxi mudou de estação para "saber como estava o jogo". Disse-lhe que não queria saber; ele mudou na mesma; pedi-lhe para pôr o som mais baixo; ele pôs um milésimo de decibel mais baixo; "mais", insisti; ele zangou-se a apagou a rádio.

Nunca paguei tão pouco para fazer esse trajecto, que faço frequentemente. Há coisas boas no futebol.

Perseverança: uma definição optimista

Se qualquer coisa que nós queremos muito já quase aconteceu cinquenta e uma vezes, à quinquagésima segunda devemos acreditar que vai acontecer; como se fosse a primeira. Um dia será a primeira. 

Ana Maria

Um homem sentado no topo de uma árvore no jardim do Príncipe Real grita "à la femme que j'aime; to the woman I love; à mulher que amo". É poliglota e polido. Um dia conheci a mulher, que lhe tinha ido deixar um saco com meia dúzia de bananas e um sumo da Compal. "Inicialmente incomodou-me um bom bocado, mas agora não me faz diferença. Até gosto". Isto na primeira vez que lhe falei; depois fomo-nos encontrando de vez em quando e trocando umas palavras de circunstância. Pouco a pouco uma certa amizade foi-se criando entre nós. Já não falávamos só do tempo. Um dia abordámos de novo, pela primeira vez desde aquele encontro, o tema do marido.

Chama-se Ana Maria, tem cabelos pretos muito compridos e olhos enormes; respira vida, energia, optimismo, auto-confiança. "Faz isto desde que viu o Ciccio Ingrassia no «Amarcord»: Disse-me que ao fim e ao cabo sempre tinha mais sorte do que ele, condenado a gritar "Quero uma mulher! Quero uma mulher!". "Eu ao menos já tenho uma; é a melhor do mundo; amo-a. Acho que toda a gente devia saber isto", explicou; e subiu para cima da árvore. Como havia um grupo de turistas na praça começou em inglês ou francês, e aquilo ficou-lhe". "E a Ana Maria não se incomoda? A sério?" "Não. Sabe, a verdade é que tenho um amante. E assim, enquanto o Lucas está em cima da árvore eu estou descansada. Agora, por exemplo, vim cá deixar-lhe esta comida, porque logo à tarde tenho o Pedro em casa".

(Cont.)

Cores

Usa as palavras como um aguarelista as cores.

1.5.10

Especuladores

Uma coisa que eu não percebo, e ficaria grato se um adepto da teoria que a presente crise é provocada por "especuladores" mo explicasse, é porque não se atacam eles, os especuladores, a países como a Alemanha, ou a Suíça, muito mais ricos do que nós? De certeza ganhariam mais do que escolhendo pobretanas como a Grécia e Portugal para vítimas.