31.1.17

Diário de Bordos - Guimarães, Portugal, 31-01-2017

A pastelaria onde tomo o pequeno-almoço chama-se Supremo Gosto. É um nome justificado, apresso-me a esclarecer. Daqui vou comprar mais duas peças de roupa à loja chamada Inflação Negativa. O nome é igualmente justificado e muito mais comercial do que Deflação. Já Coconuts como nome de um bar parece-me contestável, tanto mais que o bar é bonito. Tem um painel de azulejos lindo e clientes atraentes, faz uns Gin Tonic naqueles baldes amaricados nos quais hoje se bebem os Gin Tonic mas as proporções são correctas, não tem natas para um Irish Coffee mas tem simpatia que compensa tudo e mais alguma coisa. Não merece tal nome, mas merece ser frequentado.

E é isto. A próxima etapa é Aveiro, onde há muitos anos vivi e hoje vive um primo meu. Depois Genebra, para retiro operacional. Não consigo deixar de pensar na sorte que tenho em Lisboa não ser uma senhora; ou sendo-o não ser ciumenta.

Peles, futuros

Sinto-te na pele como se estivesses nela. Anulas a distância: estás aqui, em mim como eu em ti. Não percebo o que se passa: esta pele hiper-sensível não é a minha: é a tua e sinto-a como à minha como se fosse a tua. Somos uma pele e dois corpos, duas vidas e um futuro.

Por esse rio abaixo

Questão de nos deixarmos ir por esse rio abaixo, meu amor. Corpos luzidios, água fria porque vem da montanha, pedras ao longo de todo o caminho, sorriso nos lábios e mão na mão.

O resto é conversa: já viste uma pedra parar a água que corre? Eu não e nunca verei. 

Sono e demónios

Soberbo quarto de uma pensão de província; nem tão grosso quanto poderia estar nem mais do que quereria. Na confluência perfeita de sono, álcool, esperança, alegria, vida e capacidade de avaliar isto tudo.

Olho para mim e vejo demónios a sair-me pela pele. Riram-se à fartazana, estes últimos dois meses. Quase tenho pena deles, coitados.

30.1.17

Perhaps

Esqueci-me de tudo o que queria escrever! Era tanta coisa... Lembro-me de que queria falar da cervejaria Martins, um (mais ou menos justificado) monumento local. Mais porque a alheira foi provavelmente a melhor da minha vida, menos porque as batatas fritas estavam para baixo do assim. Mais porque me estou nas tintas para as batatas fritas, mais porque adorei o lugar, mais porque quando voltar a Guimarães (não é se. É quando) vou lá direito.

Queria falar também de não sei quê mais. É fodido, não é? Aquelas frases todas que iam revolucionar o mundo e que se desvanecem sem mais nem porquê... Olha, mundo, amanha-te. Eu bebo Bailey's, oiço distraído conversas de merda (enfim, de futebol, parece que um clube perto daqui ganhou qualquer coisa) à minha esquerda, vejo um casal seduzir-se à direita e penso em quão seduzido saio desta cidade.

Um gajo seduzido não pensa se não em vingar-se, não é? É, provavelmente (falta aqui aquele maravilhoso termo inglês: perhaps).

Diário de Bordos - Guimarães, Portugal, 30-01-2017

O dia começou bem: fui fazer aquilo que todos os cavalheiros fazem quando viajam - compras: artigos de higiene e roupa para um dia ou dois. Pelo menos os cavalheiros que gostam de viajar ligeiros, naturalmente. Eu gosto, mesmo sendo apenas parcialmente cavalheiro. (Claro que no regresso se vai um bocadinho mais pesado do que à vinda. Apesar disso esta estratégia tem duas vantagens: a) vai-se mais leve do que se se tivesse trazido roupa logo à partida - o fenómeno "talvez venha a precisar disto", que se repete demasiadas vezes, a maioria das quais inutilmente é bem conhecido; e b) o peso é só num dos trajectos e não nos dois).

Depois as coisas complicaram-se um bocadinho; descomplicaram-se; e até ver não há notícia de se voltarem a complicar, antes bem pelo contrário. Tudo indica que se vão descomplicar ainda mais.

Fiquei a conhecer várias lugares em Guimarães, todos eles aconselháveis - devo dizer que tenho uma guia que não sei se é mais bonita do que eficaz ou eficaz do que bonita, mas que é os dois é de certeza - e vou prolongar a minha estadia aqui até amanhã. O hostel F&B, Alojamento Local, sito no nº 98 da rua Dr. Avelino Germano (ao lado do Elvis Bar) é agradável, confortável, barato e tem o quarto aquecido decentemente. Não posso pedir muito mais.

A título de serviço público  - de que o pobre Don Vivo é adepto - aqui fica o nome do restaurante onde fui jantar: Restaurante Neca Magalhães, rua da Arcela nº 2019 (o bacalhau espiritual estava uma delícia, o vinha da casa é excelente, o serviço tão bom como o vinho e os preços ainda melhores).

Ontem fui beber um Irish Coffee medíocre (não se pode fazer um bom Irish Coffee com chantilly, por mais voltas que se dêem) ao bar Cinecittá. Não o aconselho para a mencionada bebida mas aconselho-o para outras, que não exijam devoção e espírito de sacrifício. Fica na Praça de S. Tiago nº 26.

Guimarães é o berço de Portugal e se não é é como se fosse: uma cidade em que as qualidades e defeitos do país se manifestam abertamente, sem falsos pudores nem complexos.

29.1.17

Turista

Sou um péssimo turista (ia dizer "sou um turista alternativo", mas a palavra anda com tantos sentidos por estes dias que é melhor evitá-la. Sou pela Kellyanne, no que respeita a esta palavra, para futuras referências. Mas só no que respeita a "alternativo"). Gosto mais das pessoas do que de paredes. Prefiro atmosferas (no sentido de ambientes).

Prefiro sentar-me num café e deixar a cidade desfilar à minha frente a visitar museus, centros culturais e torres Eiffel.

E dormir sestas. A sesta numa cidade na qual somos estrangeiros é diferente das outras, mais inquietante. "Onde estou?" pergunta-se frequentemente o dormidor durante o sono post-prandial.

"Onde estou?", pergunta-se uma vez acordado. "Onde estou?", pergunta-se uma vez nas ruas.

"Para onde vou?"

Alegria

Espraio-me pela alegria como uma gota de óleo por um tampo de mármore polido.

Diário de Bordos - Guimarães, Portugal, 29-01-2017

A modernidade é uma senhora muito bonita, por quem eu estou apaixonado mas em quem não tenho inteira confiança.

A pregaria Danúbio Bar, sita se não estou em erro na rua D. Afonso Henriques, Guimarães justifica essa desconfiança. É um faux-pas da modernidade. Mas a carne é boa; perdôo-lhe e continuarei a amá-la  (a modernidade. À Pregaria nunca mais regressarei, salvo urgência. Não é que o prego estivesse mau; não estava bom).

Turisto em Guimarães. Há pouco abri uma excepção à minha forma de turistar e fui a um Centro Cultural. Estava fechado, de modo agora oiço o relato de um jogo do detestável futebol na televisão atrás de mim e uma conversa em voz demasiado alta entre os dois empregados da "pregaria" à minha esquerda

Lá fora chove, venta, faz frio e tudo se cinzenta. Sinto-me no Porto há quarenta anos. O Porto mudou bastante, felizmente.  Talvez graças ao aquecimento global: já lá estive com dias cheios de sol, a cidade rejuvenescida. Até o cinzento mudou de cor.

Guimarães não sei. É a primeira vez que cá venho. Apesar da chuva a cidade é-me simpática. Mais do que simpática, na verdade. Adorável estaria mais perto.

Tomemos por exemplo o hostel onde estou. Antigamente chamar-se-ia Pensão ou Residencial Marques (suponho, com base na password do wifi). O quarto é grande, acolhedor, gélido  (mas a senhora ligou o aquecedor), bonito e dá vontade de aqui ficar pelo resto da vida.

Como não gostar de uma cidade assim, uma cidade em que um homem se prepara para a sesta como se se preparasse para uma estadia de vinte anos (mas não mais, Senhor, por favor)?

28.1.17

Lisboa, uma declaração

Passeio-te, Lisboa, ressacado e ressuscitado. Pareces outra e outro eu. Mas não: somos o que sempre fomos. Feitos um para o outro, iguais, não há terramoto que nos deite abaixo.

Vagueio-te sem destino, perdido na luz e no calor das tuas pedras. Estás de cara lavada. Até o calor voltou. Amo-te, Lisboa, porque ressuscitas a cada esquina e eu contigo.

Insatisfeitos

Lisboa ganhou ruas sem buracos e passeios mais largos.  Os adeptos do PS extasiam-se.

Parece-me uma boa maneira de gerir uma cidade: deixá-la degradar-se até pontos só imagináveis em África e depois repor a normalidade. Os adeptos do partido no poder vão achar que estão no Paraíso; os outros passam por chatos insaciáveis.

Diário de Bordos - Lisboa, 27-01-2017

"What shall I do / with a drunken sailor", diz a canção. "How shall I become / a drunken sailor", pergunta-se o marinheiro. 

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Lisboa é uma cidade maravilhosa entre outras coisa porque se pode sair da Barraca onde se ouviu a poesia sanguinolenta e linda de Cláudia R. Sampaio e daí vir ao B.Eleza ouvir a música luminosa de Manuel Martins.

(Gosto da poesia que cheira a sangue, suor, esperma, lágrimas, merda, tabaco velho e coisas do género).

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Venho ao Bar Americano, o único bar do Cais do Sodré vazio nesta noite de sexta-feira. Há um músico medíocre e um bêbado que, miraculosamente, o consegue fazer pior ainda.

É para mim o melhor bar da zona, depois do O'Gillins. Este tem música boa e os bêbedos não intervêm nela. Só desgraças.

Mas aposto (não fui ver) que está cheio ou fechado. O Bar Americano está aberto e vazio, com a discutível excepção do bêbedo que insiste em foder a musica ao músico. Como se este não fosse suficiente.

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No B.Leza hoje festejaram os aniversários da Sandra e da Tatiana. Há coincidências, não é? 

26.1.17

O estofo da maré

A maré baixa chega ao fim. Agora é o estofo; terça ou quarta-feira começa a enchente. Foi longa e penosa mas teve alguns méritos, como todas sempre têm. Tudo o que não me mata torna-me mais forte e ensina-me qualquer coisa. Esta teve um bónus suplementar: confirmou que se pode - se deve - ter confiança na maioria das pessoas.

Foi longa e penosa, interminável, mortal, desesperante. Espero que seja a última. Esperamos sempre, não é? É. Ainda bem.

24.1.17

Diário de Bordos - Lisboa, 23-01-2017

Noite grande de grande poesia no cada vez maior Povo. Quem diria que uma prática começada em S. Luís do Maranhão com o meu amigo, irmão e mais Celso Borges - ler poesia em público - se tornaria tão vital em Lisboa?

Talvez a poesia seja a muralha que aguenta - afugenta - a acqua bassa. Isto é: impede a maré de baixar completamente. Talvez seja o antídoto, o remédio, profilaxia - tudo ao mesmo tempo, que a vida não se compadece com divisórias fantasmas -.

A poesia é de certeza a única coisa que impede o tempo de parar.

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Estou a tentar tão fortemente ficar em Portugal que corro o sério risco de conseguir.

Vai ser o primeiro inverno completo em seis anos. Sorte ser aqui. Imagine-se que era na Suíça, na Noruega, na Alemanha.

Por mais que a incensem a civilização não é tudo.

23.1.17

Diálogos hipotéticos

- A vida ganhou. Eu perdi.
- Alegra-te. Enquanto não for a morte a ganhar está tudo bem.

Vida, teimosia

No eterno combate entre a vida e a teimosia forçoso é reconhecer que aquela ganha mais vezes. Mas as vitórias desta sabem melhor.

20.1.17

Memorandum

"Tenho frio é uma forma incorrecta de dizer: estou insuficientemente vestido", dizia-me um norueguês com quem naveguei da La Coruña a Copenhagen.

Se vivesse em Lisboa acrescentaria "ou: a casa não está aquecida".

19.1.17

Incapacidade

Não é por ser arrogante ou pedante que não gosto de má literatura, seja ela prosa ou poesia. É por incapacidade, por insuficiência.

Não a consigo compreender. 

Evolução

Um amor-que-não-foi evoluiu em amizade-que-é.

Obstinação, felicidade

"És feliz?" pergunta-me. "Sou, não sou, sou, não sou, sou..."

Talvez a pergunta se possa desdobrar em "estás feliz?". E a resposta em "Não estou, mas estarei. Tenho em mim a capacidade de ser feliz. Essa é mais duradoura do que a felicidade, mais resistente, resiliente. Obstinada".