29.9.24

Diário de Bordos - Cádiz, Andaluzia, Espanha, 29-09-2024

Vou para terra vazio e de táxi, regresso cheio e a pé. A lógica das coisas é diferente das coisas da lógica: quando fui de cheio só tinha a fome e o cansaço e não podia com uma gata pelo rabo; voltei depois de um jantar no restaurante Cumbres Mayores (o nome é um understatement) e o cesto das compras não estava assim tão pesado. Pesado estou eu agora, apesar de o jantar ter sido, no fundo, frugal: salmorejo, cinquenta gramas de presunto de belota, um coulant de chocolate com gelado de banana que podia ter sido feito pelo Claudio, vinho e vermute A Copa, um dos grandes aqui no espaço qualificativo do tio Luís. Resultado do exercício: ainda estou cheio de comida e de cansaço mas consegui trazer o cesto que comprei em Vila Real pendurado no ombro; tudo isto no prazo que o Google Maps impartiu: vinte e cinco minutos. Ou pouco mais, provavelmente.

Cádiz é uma cidade maravilhosa e só tenho pena de não vir aqui mais vezes. Parece que tem mar em todas as ruas.

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Contrariamente ao que é habitual, desta vez queria fazer uma festarola para o meu aniversário. Tudo indica que vai ser uma festa com um convidado só.

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 29-09-2024

De saída para Cádiz, para um pequeno transporte que vem mesmo a calhar, qualquer que seja o ponto de vista a partir do qual se o observe. Com um bónus: vou sozinho. Nem tripulantes nem proprietários. Só há uma palavra: hallelujah!

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A carcaça vai colaborando. A pé-coxinho, mas colabora. Nada que três ou quatro días de mar não curem definitivamente. Herpes, alergia, constipação de saison (desta vez não chegou a gripe) vão a caminho do passado, todas juntas. Os médicos bem podiam chamam a isto convalescença activa (se calhar chamam).  

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Vila Real de Santo António é um porto agradável, daqueles que nos dão vontade de os referimos com montes de diminutivos.

Resta saber se são todos afectuosos. Não são. 

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Blablacar para Sevilha. O homem chegou com dez minutos de atraso, o que sendo pouco habitual não é grave; e vamos três atrás num Golf, o que é chato, no mínimo. De Sevilha para Cádiz parece que sou o único passageiro e o carro é maior. Grande ideia, esta da Blablacar, se bem como sempre a coisa tenha um pouco degenerado, inevitavelmente. Aqui em Espanha há gente a fazer vida disto. Ou pelo menos complemento de vida, o que leva a estas situações. Por enquanto tenho apanhado poucas.

Somos cinco, incluindo o condutor. Ninguém fala. Parece um avião -  nem um Hola antes de entrarmos no carro.  ¡Qué vaya! Algumas das melhores viagens de carro da minha vida foram na Blablacar. Tenho margem para uma ou outra piorzita.

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Desta vez não paro em Sevilha. Saio de um carro e entro noutro (com um táxi de permeio, provavelmente). É uma tortura. Pequena, mas tortura. Vá lá que tenho uma parte da tarde em Cádiz, outra cidade que o meu coração acolhe com todo o entusiasmo de que é capaz. Isto é: muito.

28.9.24

Equação

Procuro um lugar na vida, se possível em part-time. Estou farto de viver a tempo completo. Alternativamente, um lugar temporário. Meia dúzia de meses, talvez um ano. Viver muito ou é chato ou é cansativo. Ou os dois, a pior mistura. Procuro uma meia-vida, ver se descanso. Viver a tempo completo farta.

O problema é saber se meia-vida não será igual a uma morte completa, como sempre pensei.

26.9.24

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 26-09-2024

Vila Real de Santo António. A ideia era passar aqui uns dias valentes a fazer trabalho intelectual mas já se me meteu um pequeno transporte pela proa este domingo. Pequeno ou grande não posso dizer que não, apesar da vontade. Ou melhor, apesar do cansaço. Por outro lado, a perspectiva de ir sozinho para Lisboa entusiasma-me e faz-me esquecer o cansaço e a falta de vontade. Há muito tempo que não faço uma viagem sozinho e este mês em constante companhia faz-me ansiar por uns dias comigo.  

Estes dois dias com a S. (Olá, S.!) deixam-me prever uma boa colaboração para o nosso projecto. A ideia é chegar a Lisboa e voltar para aqui antes de ir para Palma, ver se ponho aquela porra daquele P. a funcionar. Hoje [amanhã] acabam de lhe pintar o convés, falta demasiado pouco para sequer usar a palavra quase. É doentio, de pouco. É doentio, de tanto.

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Compras, lavandaria, almoço, Western Union, rever um amigo - por sinal o mais antigo que tenho ainda em actividade, conhecemo-nos em Quelimane -: a logística do descanso é mais complicada do que o que parece à primeira vista. E de fora ficou o duche, adiado para amanhã sem grande prejuízo da minha higiene ou do olfacto alheio. As temperaturas não querem saber do «Verão mais quente de sempre» e estão como andam (pelo menos para mim) há semanas: demasiado baixas.

Não me posso porém queixar. A roupa está lavada e os dias vão aquecer. Não preciso de ir a Caminha, contrariamente ao que pensava. Agora, o próximo rendez-vous certo seria no dia quatro em Setúbal mas é pouco provável que possa ir, de maneira vou concentrar-me no plano original até ter a confirmação do transporte para Lisboa: descanço, vinho tinto e medronho.

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Reencontro Portugal com a atitude ambivalente de sempre. Pelo menos até chegar a hora de pagar a conta: aí a ambivalência desaparece e é substituída por um grande, grato sorriso.

24.9.24

Diário de Bordos - Comboio Portimão - Olhão, 24-09-2024

O mundo encantado de Luís Serpa: um bilhete que devia ter-me custado três euros e setenta acabou por custar-me treze e setenta, com o bónus de chegar uma hora mais tarde ao destino, que não é bem um destino mas uma etapa. 

Ninguém imagina o que eu compreendo quem não me grama. Aliás, candidato-me já ao lugar de presidente do Clube do gajos que não me gramam, se vier a ser formado. Do que duvido, apesar de ser mais fácil criar um grupo de anti-fãs do que de fãs. Mereço o posto mais do que ninguém porque poucas são as pessoas que me conhecem tão bem como eu. 

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O transporte de Holanda acabou. Vou ver se se confirma um para Lisboa no domingo e tentar pôr a cabeça no lugar, tarefa que me parece ciclópica. Não porque a dita mente seja grande, mas porque está a milhas do resto do corpo - a distinguir de carcaça, que é outra coisa. 

(Cont.)

23.9.24

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 23-0-2024

Magnífico jantar no Peixeirada. Lulinhas fritas à Algarvia (o F.), acorda de camarão (eu). Vinho branco do Algarve, leve e ágil como provavelmente o nome quer indiciar: Nova Vida.

O medronho veio directamente do Paraíso e levou-me para lá.

Ao jantar seguiu-se o tradicional bolinho tradicional na Casa Inglesa e bordo, que o frio aperta.

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Amanhã encontro-me com  S. F. por causa do livro que me desafiou a escrever com ela sobre Portugal. Aderi com o entusiasmo do velcro, ver se abro finalmente a válvula a estas palavras todas que se acumulam em mim e não saem.

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Uma palavra de louvor para o F., que é realmente um tipo impecável (impressão esta que amanhã terá o seu desfecho e - tenho a certeza - confirmação).

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Não sou capaz de distinguir uma rosa amarela de um fá bemol, apesar de gostar de oferecer flores e ouvir música.

Mas sou capaz de perceber a cumplicidade que se forma entre pessoas que cantam ou tocam em conjunto. É uma ligação etérea porque feita de sons e densa como betão armado pela mesma razão. 

A rosa amarela? Fica para depois, pode ser?

22.9.24

Diário de Bordos - Sines, Portugal, 22-09-2024

O jantar foi uma merda. Sardinhas assadas no Beicinho, aonde já o ano passado com o P. D. tinha comido mal. Desta vez prometo e juro que nunca mais lá ponho os pés. 

Felizmente o F. apreciou imenso. Antes assim.

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Regresso a bordo, deito-me imediatamente e reencontro aquela mistela de sono, frio e palavras. Ver se expulso estas depressa para dar lugar aos outros dois. Ou melhor: ao sono. O frio dispersa-se por baixo dos dois edredons. 

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A fuga de água doce - vinha dos encanamentos do cilindro de água quente - piorou e hoje ficámos sem água nos tanques. Paciência. Vamos assim para Portimão. Esta porra desta viagem tem de ter um fim.

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A origem das dores de cabeça, hipersensibilidade cutânea e febrilidade difusa dos últimos dias está explicada: violentíssimo episódio de herpes labial. Cada vez que isto acontece tenho vontade de esganar a H. R., magnifica namorada por quem ainda hoje sinto amizade, ternura, carinho, afecto e saudades - tudo entrecortado por raiva ilimitada nos dias em que isto aparece. São cada vez menos mas a intensidade é cada vez maior.

Não precisavas disto, H., para eu não te esquecer. Estás em todas as minhas memórias, as do corpo e as da mente. Ainda há dias andei à tua procura na net. (Não, não foi para te esganar.)

21.9.24

Noite

Sono, frio e as palavras de permeio. Palavras insuficientes para os outros dois e para o que fica por dizer. Este cansaço, por exemplo. A embrionária possibilidade de um transporte do Egipto para o Quénia. A dor no braço esquerdo. Tudo isto é nada, dissolve-se na mistura inicial: sono, frio e palavras para os descrever, para os colar à noite da qual saíram. O frio abusa, aproveita-se do cansaço. Este programa estender-se às palavras. E estas, que fazer delas? 

Levá-las a ver a noite como se levam crianças ao jardim zoológico.


Diário de Bordos - Cascais, Portugal, 21-09-2024

A descida da costa portuguesa nestas condições é uma seca. Não há vento, por causa das orcas temos de vir a rasar a costa - o que aumenta bastante as distância - e paramos todas as noites. Dizer que estou farto é dizer pouco. Valeu o jantar na Póvoa com o D. e agora esta escala em Cascais, para a qual olho com olhos «de passagem», que me fazem ver a beleza que antes não via porque a vivia e como qualquer pesoa sabe, quem vive na - ou com - a beleza deixa de a ver. Aquela frase lapidar de Anaïs Nin «Não vemos as coisas como elas são, vemo-las como nós somos» não se aplica a nada com tanta força como quando visitamos um sítio aonde vivemos. Aonde fomos (verbo ser, não ir). Não se vê o que é, vê-se o que se é, reescreveria eu - acrescentando «o que se foi», com um delicioso duplo sentido.
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Em Cascais venho à Bijou, que é sempre (ou ainda?) uma meia-decepção. Pelo menos tem um bom café e o serviço é simpático e eficaz. Espero vivamente que o dono acerte com o café - não ter café de saco é imperdoável, num estabelecimento que se lançou no café a sério - e ponha wifi no interior para que um pobre marinheiro de passagem possa escrever as suas memórias enquanto bebe um bom café.

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Daqui a pouco largamos para Sines e depois Portimão. Segunda-feira de manhã desembarco, se tudo correr bem. Este pára-arranca é mais cansativo do que passar dias seguidos no mar, mistério que ando a tentar elucidar há algum tempo.  Já tenho algumas pistas mas não passam disso. 

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CLARO QUE CONTINUA. Isto das viagens sem fim é assim.

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Cheguei ao pontão do combustível e voltei para trás. Só fiz uma asneira: foi ter saído do lugar aonde estava. Era mais do que evidente que só um idiota iria para o mar nestas condições. 

19.9.24

Labirinto

A Covid demonstrou à saciedade que as pessoas podem ser estúpidas. Muito estúpidas, mesmo, ao ponto de não saberem o que é bom para elas. Engoliram as tretas mais estapafúrdias - lembram-se da velhinha que foi multada por estar a comer dentro do carro? Ou do polícia a correr atrás de um surfista? Ou das vacinas, meu Deus, as vacinas (anti-Covid. Contra as outras nada a opor)?

Porém, como conciliar isto com aquele princípio base do liberalismo segundo o qual as pessoas devem decidir elas próprias o que querem para si? Talvez tirando a palavra estupidez da equação e substituí-la por histeria. Que é, como se sabe, uma suspensão temporária da razão. 

O problema desta solução é que ninguém nos garante que não haja mais "suspensões temporárias da razão". Como se vê, por exemplo, com os incêndios, as alterações climáticas ou os cachorros ao colo dos donos.

Claro que um outro princípio básico de qualquer liberalismo é que as pessoas têm o inquebrável direito de se enganarem. Como a Suíça amplamente demonstra, é preferível ser o povo a escolher colectivamente um erro a deixar as decisões àquele grupo de suspensores quadrienais da razão que são os políticos nas democracias representativas. Apesar de tudo, as pessoas enganam-se menos e menos vezes.

O que não impediu os suíços de engolirem as tretas covidianas ou, há quarenta anos, a obrigatoriedade dos seguros de saúde, decisão que agora pagam muito caro. 

Isto é um labirinto e quem pensar que é uma longa e límpida linha recta engana-se.

Em cada porto um amigo

Nunca soube o que é essa coisa de "uma namorada em cada porto". Já "um amigo em cada porto" sei perfeitamente: uma bênção. Ontem foi um desses dias. 

18.9.24

Frio, idade

Nao estão mais de dezoito graus em Vigo. A senhora tira o casaco e fica numa camisa sem mangas, sem ombros e sem quase nada até meio das costas. Não lhe vejo a cara, mas é fácil deduzir que já tem idade para ter frio.

17.9.24

Diário de Bordos - Vigo, Galiza, Espanha, 17-09-2024

O T. J. mete água salgada pela borda de estibordo - a do meu camarote, claro - e perde água doce não sei por onde. Não é uma fuga nos encanamentos porque a bomba de água doce não se põe a trabalhar sozinha, não vem dos duches porque a água não está ensaboada, não vem dos tanques porque estão secos como um dia de Verão no Alentejo. Hoje o dia foi passado a levantar paneiros, limpar e secar fundos, espreitar por tudo quanto é canto. Os paneiros estavam aparafusados - disse ao F. que aquilo é um erro e ele ouviu-me, daí o pretérito - e um deles é enorme. Sugeri-lhe que o cortasse em dois. É importante que se tenha acesso fácil aos fundos. Os quais estavam imundos,  como era de esperar. De tudo isto resultou um belo cansaço que a curta sesta não foi suficiente para curar. Se o I. ainda estivesse a bordo teria deixado a seca aos dois. Não estando, não sou capaz de não ajudar, tanto mais que ele merece. Quem não merece sou eu.

Ou melhor: mereço. O meu estúpido optimismo consegue sistematicamente levar a melhor à experiência. Isto dito, continuo a preferir os pagamentos em modo lumpsum aos mais habituais ao dia ou à milha. Não posso é fazer asneiras como esta. (O que basicamente equivale a dizer que o Sol não devia levantar-se todos os dias.)

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O técnico da Raymarine veio a bordo. Trocou alguns cabos e fichas e disse-me que se tivesse problemas amanhã lhe ligasse. Dos três que tivemos a bordo é o único que me inspirou confiança. A ver vamos, como dizia o ceguinho. 

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Próxima escala: Lisboa.

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Excelente vermute no café Komerzio: Zecchini. Caseiro e artesanal, diz-me o empregado. Não é impossível. Mas de que é bom não há a mais pequena dúvida.

16.9.24

Diário de Bordos - Vigo, Galiza, Espanha, 16-09-2024

A intenção não era escrever já. Mas paciência, a intenção que se aguente. Estamos a chegar a Vigo. F. governa, já há bastante tempo. Tínhamos combinado uma hora cada um, mas o rapaz não quer deixar a roda, não sei porquê. Talvez para se redimir de ontem, que não fez a ponta de um chavelho. Passou o dia enjoado e aterrorizado, duas coisas que não costumam excitar positivamente a motivação de alguém para fazer seja o que for. Apanhámos badanal, como previsto e durou pouco tempo (idem). Cinco ou seis horas a força oito não é razão para grandes sustos, mas F. já vinha enjoado desde a noite (vínhamos com cinco, seis desde as quatro da manhã e catrapum). De qualquer forma o piloto trabalhava - trabalhou até às seis ou sete da tarde, hora a que resolveu que chega é chega. Falei com Finisterra Traffic e não havia aviso de orcas, de maneira pus rumo directo a Vigo e viemos às meias-horas de leme cada um. Logo a seguir decidi parar em Corcubión, uma pequena e belíssima aldeola de pescadores aonde passámos a noite e aonde comi o melhor polvo da minha vida.

É curioso, isto: cada vez que venho à Galiza como o melhor polvo da minha vida. Mas cada um deles não substitui o anterior. Junta-se ao grupo. Ou seja: tenho uma colecção consequente de melhores polvos da minha vida.

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Vigo:
A Ana V. veio receber-nos ao pontão e andou comigo até agora, ou quase (são dez para a meia-noite, se por acaso alguém perguntar). Estou cansado mas não me apetece ir dormir. Fui deixar a roupa lavada a bordo e voltei a sair. O T. J. está todo molhado, cheio de água e se há coisa que não suporto num bote é que meta água. Neste caso é pior: há águas doce e salgada - esta veio do arraial, mas aquela não faço a mais pequena ideia de de onde vem. Amanhã temos o técnico da Raymarine a bordo. Na verdade as nossas escalas são decididas mais pela electrónica do que pela nossa vontade. Além disso, vamos ter de levantar os paneiros todos, ver se descobrimos de onde vêm as águas. Os quais estão aparafusados, como não podia deixar de ser. Não quero descansar hoje. Nem nunca, de resto (adolescence, quand tu nou tiens... C'est pour la vie). O cansaço de amanhã e o de ontem e hoje estão bastante diluídos.

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Mas a questão não é nada destas coisas, que no fundo não passam da superfície, da espuma, por assim dizer. O cerne da questão é a minha relação com os amadores está a mudar e não sei se para melhor. Cada vez tenho menos paciência para ensinar seja o que for. Cada vez tolero menos os gajos que «querem aprender» (aspas porque cito). Quem vem para o mar devia saber que no mar há vagas, não? E mais: que o terror nunca resolveu coisíssima nenhuma e estar aterrorizado é particularmente inútil - por muito que tenha de reconhecer que ontem o homem não fez falta nenhuma, pelo menos enquanto o piloto funcionou. Estava sol, o que já é bastante bom. Força oito com chuva, frio e céu encoberto seria muito pior.

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Um marinheiro tem um certo conjunto de defeitos. Um escritor também. Por vezes esses conjuntos anulam-se e sai um Slocum. Outras - em minha defesa, a maioria - eles adicionam-se e saio eu. A lotaria genética tem tanto de álgebra como de psicologia, ciência do caos e do acaso, porções de sorte e azar, talento e preguiça (talento tendo aqui o sentido de «aquilo que para cada um nasce»).

Eu nasci para ser marinheiro e escritor, por ordem decrescente das inevitabilidades. O que me leva a olhar para toda a gente como se por um espelho partido: de um lado o que pensam, do outro o que pensam de mim. Esta última imagem perde-se, reflectida em milhares de pequenos cacos do tal espelho e eu não consigo fazer seja o que for com tantos pedaços das opiniões que me tocam.

Há excepções. claro. Pessoas para quem aquilo que me vêem me chega intacto e é impossível de ignorar.  Fica para depois. O café Komercio está a fechar e tenho de me despachar. Uma coisa é certa: quem faz parte deste grupo não é gente. São semi-deuses, única característica comum a todos os meus amigos.

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Vigo não tem nem metade do charme arquitectónico da Coruña mas as pessoas são no mínimo igualmente simpáticas. E tem uma vantagem grande: o maldito cabo já está para trás. Agora é sempre a descer, orcas ou não.

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O café Komercio fechou e a perene dúvida reaparece: bom senso ou bom senso? Dormir ou mais um copo?

12.9.24

Silêncio?

Nunca conseguirei perceber as pessoas que dizem que gostam de barcos à vela por causa do silêncio. Não há silêncio nenhum num veleiro. Isto fala pelos cotovelos e quantas vezes aos gritos, como agora. E estamos na marina.

Hopper

É um quadro do Hopper: uma casa à beira-mar com uma porta aberta, a luz entra a jorros e iumina uma parede. Não há personagens, só a luz, as paredes  o mar, tudo geométrico e apesar disso o quadro respira vida: a nossa, tanta é a vontade que nos dá de estarmos naquela casa. A luz na parede de uma casa com uma porta que dá para o mar. Adivinho que teria espaço para pôr os meus livros e penso que poderia estar ali, à porta, que sou eu a personagem que só ali está na imaginação ou no desejo de quem vê o quadro.

(Edward Hopper, Rooms by the sea, óleo sobre tela, 1951.)

Christian Bobin, ainda e sempre

"Je cherche la vie délivrée de la vie, l'amour délivré de l'amour, ce froissement d'or d'un diapason, cette note pure qui tremble bien avant notre naissance et après notre mort."

Christian Bobin, Le Murmure, ed. Gallimard 

(Obrigado ao Emanuel Cameira e à sua Barco Bêbedo por me ter feito conhecer Bobin.)

(Cont.), beleza

- Como se a beleza fosse um mundo, um mundo que não admite a mentira - como o mar, de resto, não se pode mentir ao mar, no mar. A beleza é assim. A mentira é detectada e expulsa imediatamente. Talvez seja por isso que somos "oprimidos pelas imagens da beleza": não há escapatória, não há aquelas vias nas autoestradas para os camiões que ficaram sem travões. Só há a beleza e a sua ausência. Não há espaço para a mentira. A beleza contém em si a verdade e só a verdade.

- E o amor, que fazes tu do amor?

ADENDA 
"Tout amour est divin. J'entends par "divin" la vie humaine, rien qu'humaine, délivrée d'elle-même."

"Si tu n'écris pas contre toi tu n'écris rien."

(Christian Bobin, Le Murmure, ed. Gallimard.)

Glossário parcial

Fragmento (ou por vezes Fragmentos) são posts feitos a partir de coisas que escrevi em correspondência privada. Auto-citações, por assim dizer. Chamam-se fragmentos porque o são, regra geral. Às vezes peço autorização às pessoas a quem a correspondência era dirigida; outras não. Depende não sei bem de quê, mas depende. Assim de repente, diria que depende do acaso.

Há alguma coisa que não, Sigmund?

Fragmento

Como a relação assimétrica entre a beleza e a verdade: nem tudo o que é verdadeiro é belo, mas tudo o que é belo é verdade.