23.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-08-2026

Contrariamente ao que diz o tio Segismundo, os meus sonhos estão intimamente ligados ao meu dia-a-dia e são fáceis de interpretar: se está tudo bem tenho sonhos agradáveis e bastante positivos; assim que deixa de estar tudo bem esses são substituídos por pesadelos. É um mecanismo simples e primário mas é o que me corresponde melhor. Esta noite, por exemplo, tive alguns três pesadelos de rajada. As coisas ainda não devem estar muito muito mal porque nenhum deles foi de querer enterrar-me logo ao despertar. O que tiveram de assustador foi simplesmente a sucessão. Deram-me a ideia de criar uma escala de pesadelos inspirada nas de Beaufort ou Richter. Vou começar a trabalhar nisso.

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O ano começou mal, continuou mal e estou de novo no mercado de trabalho a ver se encontro alguma coisa para o Inverno. A história de Cancún não me convence. Com grande pena minha, devo dizer. Aquilo deve ter um potencial bastante elevado. O que me faz desconfiar é o método de trabalho do F., de que não sou grande fã.

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Almoço sem querer: venho à Cantina para entregar umas coisas que os últimos clientes esqueceram a bordo e peço uma tapa. «Pequena», insisto. Excelente, como sempre e enorme, idem. Estou almoçado e refastelado em alembranças enquanto bebo um tinto de verano e penso na quantidade de horas que passei nesta mesma mesa.

A térmica começa a entrar. Está na hora sesta.

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A ideia era sair de casa, levar a burra dar um passeio, que tem saído pouco, fazer uma fotografia ou duas, sentar-me numa esplanada, ler, escrever, beber um copo... Vasto programa, como dizia de Gaulle. Vasto programa. (Admitidamente o programa era outro. Era «mort aux cons.»)

Várias coisas se intrometeram em tão delicado mecanismo: comecei por ter de voltar a casa trocar a bateria da máquina, depois tive de ficar de guarda a uma senhora que caiu perto de mim até chegar o 112 - demorou pouco mais de meia-hora, o que me parece muito mas enfim. Não vi bem o que aconteceu: a senhora estava a andar à minha frente, eu entretanto procurava um caminho para passar com a Btwin, ouvi um pequeno grito e quando a voltei a ver estava no chão. Falava, mas muito baixinho. Chamei o 112 e fiquei ali à espera. Verdade seja dita, já tinha feito duas ou três fotografias e quando a polícia local chegou disseram-me que podia ir-me embora e vim directamente para o Enco do Passeio Marítimo beber um affogato all'amaretto e aprender a fazer aperolspritz porque tenho uma garrafa em casa (veio do cata, que de repente me lembre nunca comprei uma coisa daquelas) e como estou em período de contenção de custos mais vale bebê-la em casa, na rua custa uma barbaridad, como eles aqui dizem. Em casa tenho cordon bleu da Terravera e tzatziki, que afinal acabou por ficar razoável, aquilo de se espremer bem o pepino é uma boa ideia. E a pimenta, claro, uma boa pimenta é importante. Agora só falta encontrar iogurte grego autêntico e não esta mistura leitosa e enfadonha. O senhor que me fazia o affogato não está cá e tive de o mandar para trás para porem outra bola de gelado. À segunda tentativa veio correcto e aproveito a embalagem para averiguar a diferença entre Aperol e Campari. Isto da inteligência artificial tem muitas vantagens. Um gajo faz uma pergunta e ooops, hey, presto, ecco signor, a resposta é. Não sei qual é a que estou a usar - é a que o browser (Brave) me apresenta. Para as minhas necessidades chega.

Ou seja: o programa está cumprido. Basta trocar a leitura por uma BA. O Enco é um café muito agradável e eu recomendo-o.

PS - Recomendo-o salvo seja. Só a quem não esteja em contenção de custos. O sacana debitou-me a bola de gelado que lhe pedi porque a primeira era minúscula. Não posso levar esta carteira à rua. Cada vez que o faço, ela faz tudo o que pode para justificar a alcunha que lhe dei: vaporizador de dinheiro.

PPS - Voltei para casa pelo Passeig Mallorca e pelas Avingudes, até à Plaza de España (Plaça d'Espanya, para manter a coerência). A burra não se pode queixar. Eu tão pouco.

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