23.9.26

Cartas - III

Querida R. 

Acontece-me por vezes não me esquecer de ti. Dito de outra forma: nunca me acontece esquecer-me de ti. E não é preciso passar pela estação de comboios que rebaptisei com o teu nome, nada disso. Basta-me pensar na alegria, na leveza, na beleza, no desejo, na sensualidade, no riso, na beleza (outra vez. Agora refiro-me à tua), na minha incapacidade em seguir normas que a mim mesmo prescrevo. Não sair com mulheres casadas. Saí. Mais: apaixonei-me.

Com razão, dir-me-ias se me lesses, o que é improvável. Com razão, digo-me para me explicar e para me justificar: tolice teria sido não te amar como te amei.

Há amores assim: começam na cama e acabam na alma. Entram-nos pela pila, pelas mãos, pelos olhos, pela boca e nós pensamos que vão ficar por ali, fazemos tudo para que fiquem por ali porque afinal tu eras casada e eles escapam-se, entram em nós pelos poros, entranham-se como se os sentimentos também tivessem poros tal essas peles que tantas vezes cruzámos. 

- Sentimentos porosos? 

- Sê-lo-iam, se o não fossem?

Pouco a pouco foste saindo de mim. Ou melhor: migraste da pele para a memória. O teu nome  está gravado naquela área de mim aonde pára tudo o que de bom e bonito me aconteceu. 

Enfim, não é só o nome.

Teu,

Luís 

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.