31.10.26

F., amores pegajosos e mulheres ideais

Pouco depois da sua morte, descobriu-se que F. guardava papéis e fotografias num baú cujo nome era «O meu baú», não fosse alguém confundi-lo com o do outro. Igualmente com o objectivo de evitar confusões, supõem os hagiógrafos - não adquirira notoriedade suficiente para ter investigadores objectivos a vasculharem-lhe a vida - o seu baú estava arrumado, ordenado, catalogado. Cada dossier tinha um título, datas de início e de fim e se fosse caso disso um número de ordem. Por exemplo: Amor & Amores, de Jan. 1974 a Dez. 1980, I.

É do número III de Amor & Amores que tiro esta citação: «Tenho os amores pegajosos. Não se descolam de mim. Isto é provavelmente resultado de não serem obra do acaso. Nunca me apaixonei aleatoriamente, por causa de um par de olhos, mamas ou pernas. Tão pouco sei dizer por que me apaixono, talvez por falta de amostras em quantidade suficiente. Não posso definir padrões, excepto aqueles muito genéricos: nunca me apaixonei por uma mulher mole, por exemplo. Nem por uma falha de inteligência.

Nb - Este tema precisa de ser trabalhado. Por quantas mulheres me apaixonei? Essas paixões foram todas iguais em intensidade e em qualidade? Quanto tempo levei a descobrir as qualidades que me fizeram gostar delas? Sobretudo: porque acabaram, se eram de pedra e cal?» Por este pequeno extracto é possível ver o carácter metódico de F. e a sua relação algo sinuosa com o amor: os amores acabam mas permanecem vivos, não como fantasmas mas como sombras - sombras essas que empilhadas fazem um corpo, um objecto sólido. O se pode deduzir de uma outra entrada, esta do vol. VII dessa série, por sinal a mais longa de todas: «Se misturasse as mulheres que amei num shaker (por exemplo), agitasse bem e vertesse, o que saíria? A mulher ideal. Ou seja, inexistente.»

Sem comentários:

Enviar um comentário

Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.