3.11.26

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 03-11-2026

As alterações climáticas sofreram uma interrupção, coitadas: a bise caiu e o tempo voltou ao normal - céu nublado, frio, ausência de vento. Pode ser que logo à tarde venha um bocadinho de sol. Se vier, será isso mesmo: um bocadinho. 

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Fui à Saveurs d'Italie comprar pecorino para a carbonara desta noite. Não sou homem de regras, excepto no sentido de menstruação (que tenho, como toda a gente, se bem menos regulares do que as das senhoras) - e excepto também no que a certas coisas se referem essas normas (este termo é menos ambíguo). Carbonara quer pecorino, ponto. E quando se tem a sorte de ter aquela mercearia italiana a meia dúzia de metros não se a deve deitá-la fora (a sorte). Mercearia sendo uma metonímia - o termo no primeiro grau é paraíso; e meia dúzia de metros uma sinédoque (basta multiplicar por algumas centenas, poucas).

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Ou seja: a mini-burra trabalha. E só não o faz mais porque sem luvas a temperatura é excessivamente baixa para as minhas mãos delicadas. Pobrecitas. 

Mas, porém, todavia, contudo: cada pedalada confirma o velhíssimo adágio "mini-burra, maxi-prazer".

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Quando se está na Suíça é difícil lembrarmo-nos de que isto já foi um país pobre e mais difícil ainda de que deixou de o ser por causa do turismo.

Apresso-me a esclarecer que foi um turismo diferente do que temos em Portugal. O que tirou a Suíça da miséria foram os nobres ingleses que o senhor Thomas Cook cá começou a trazer em meados do século XIX. A esse respeito sugiro fortemente a leitura do livro Slow Train to Switzerland, de Diccon Bewes. Tem as vantagens de ser um excelente livro de viagem, de História e de ser de agradável e instrutiva leitura. E destruir o mito de a Suíça ser rica por causa dos bancos. É ao contrário: o país tem bancos porque é rico (e estável e etc.)

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Fiz iscas de vinha d'alhos para o almoço. Um falhanço, clara e previsivelmente. Há coisas que não posso fazer, porque os fantasmas da Avó Filipa e da minha Mãe pairam sobre elas e assombram as minhas tentativas rascas e de antemão votadas ao fracasso. Iscas, fatias recheadas, arroz de pato, por exemplo. (Infelizmente são inúmeras, demais para serem nomeadas.)

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Para mim, que gosto de uma boa conversa, um bom copo de vinho e um bonito par de olhos à mão de semear, este recém descoberto prazer em estar sozinho parece estranho. Não é - nem estranho nem recente. O que mudou foi ter deixado de ser simplesmente um prazer e ter-se tornado uma necessidade. E tão pouco é de hoje.

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