2.11.05

Dueto improvável?

Não tenho a certeza, Helena.

"Mútua antipatia no plano da anatomia.
Alguma simpatia no sector da fisiologia.
Alguma simpatia no capítulo da axiologia estética.
Recíproca empatia ao nível da gnosiologia/epistemologia."

Ciências exactas e ciências humanas

Algumas leis vindas da física, aplicadas às ciências humanas, transformariam estas em ciências tão exactas como aquelas.

A lei da gravitação universal, por exemplo (dois corpos atraem-se na razão directa das suas massas, e inversa do quadrado das distâncias) - inteligência? personalidade? envergadura? Qual quê! É o quadrado da distância, minha querida, que determina o resultado. Ou a segunda lei da termodinâmica, inesgotável fonte de analogias em todas as áreas da actividade humana.

Isto para não falar, claro de alguns postulados Euclidianos, como aquele que fala dos dois pontos e da recta que os une, ou coisa assim. [É uma coisa assim - uma linha recta pode ser desenhada de forma a unir quaisquer dois pontos.]

Prece

O meu reino por dois dedos de testa, e dois de beleza, juntas.

1.11.05

Cansaço

Há, como sabes, vários tipos de cansaço; e aquele que se sente depois de algumas horas no mar é um dos melhores, quase tão bom como o de depois de ti.

A memória, ainda

Por vezes - muitas vezes - penso no teu longo ventre liso como um lago grande e largo, onde tantas vezes naveguei, tantas tempestades.

Descoberta

"I scarcely know where to begin, though I sometimes facetiously place the cause of it all to Charley Furuseth’s credit. He kept a summer cottage in Mill Valley, under the shadow of Mount Tamalpais, and never occupied it except when he loafed through the winter mouths and read Nietzsche and Schopenhauer to rest his brain. When summer came on, he elected to sweat out a hot and dusty existence in the city and to toil incessantly. Had it not been my custom to run up to see him every Saturday afternoon and to stop over till Monday morning, this particular January Monday morning would not have found me afloat on San Francisco Bay."

Assim começa um dos livros mais fascinantes que li - ou pelo menos um dos que mais me fascinou. Descobriu-o hoje na net. Abençoada net.

E já que estamos nisto, aqui fica outro.

Distância

Acho indecente, sabes?, que vivas tão longe. A beleza deve estar perto, ao alcance da mão, e a inteligência dos lábios.

Serviço Público - Discos

"Jumping the Creek", Charles Lloyd, ECM 2005. O melhor disco em muito, muito tempo.

Post demagógico

Deve haver, nos meus neurónios - em cada um deles - um receptor para o teu nome, para a memória de ti.

Dias felizes

Os dias felizes eram tão raros que lhe apetecia celebrá-los indo navegar - o que os tornava ainda mais felizes, numa espiral cuja única analogia é o chá; não: são os sentidos.

Explicações

É tão difícil, e tão inútil, explicar porque se gosta de uma cara como o é explicar porque se gosta de um bom charuto, um bom whisky, um bom livro, uma boa música.

31.10.05

Terapias

Estava feliz, não sabia bem porquê. Suspeitava que a possibilidade de ir navegar quando lhe apetecia era parte da razão, mas não tinha a certeza.

30.10.05

Portas

À força de querer fechar portas mal fechadas entalou um dedo.

Critérios - II

Era mais sensível ao olhar de uma mulher do que as seus olhos, à sua expressão mais do que à sua beleza. Nirvana era quando via numa cara bonita uma expressão rica, nuns olhos grandes um olhar interessante.

Critérios

Ela queixava-se que estava farta de dormir com quem não lhe dizia nada, e de não dormir com quem lhe interessava realmente. A amiga aconselhou-a a escolher: ou via algum interesse em quem nada lhe dizia, ou deixava de o ver nos outros.

"Isso é conselho de pessoa razoável", respondeu-lhe. "Lembras-te daquela citação do Bertrand Russell de que tanto gostávamos, adolescentes?"

"Reasonable people adapt themselves to the world. Unreasonable people attempt to adapt the world to themselves. All progress, therefore, depends on unreasonable people."

Retrato quase verdadeiro

Passava os dias encostado ao bar do Clube, a beber cervejas atrás de cervejas atrás de cervejas. Não era alcoólico; era apenas um suicida a prestações, um suicida cobarde.

Previsões

Cada vez que consulto um site de meteorologia sinto-me um grego que vai à Pitonisa.

Aqui fica uma lista, não exaustiva, para quem estiver interessado (os três últimos só têm cartas de tempo):

Qwikcast
Weather Underground
Weather.com
Accuweather
Windguru
NOAA
Bracknell
Met Office (UK)

Diálogo extenso, irrealista, mas possível

- Andas à procura da tua "princesa"?
- Já não acredito em princesas. As princesas só amam sapos, rãs e coisas no género, e depois desvanecem-se. O verdadeiro luxo é a normalidade, uma mulher normal, professora, como tu, ou controladora aérea, ou psicóloga, ou decoradora de interiores, ou designer industrial, que sei eu?
- Pois, e os tubarões são vegetarianos, os porcos têm asas, e amanhã vais fazer dieta. Essa é a lista das tuas últimas "visões" (nem imaginas quanto gosto deste eufemismo, que usaste - quando? Quando nos conhecemos... foi isso que me chamaste, "visão")? E quem è que se desvaneceu, elas ou tu?
- Não, não é. Não me desvaneci, nunca me desvaneci. Desilude-te: um dia a minha vida será um "grande rio tranquilo".
- Talvez, mas não serei eu o seu leito.
- Não ando à procura de uma princesa, nem de um leito. Quero "casar e ter filhos", mesmo que seja entre aspas.
- Não sei ouvir entre aspas.
- Ensinar-te-ei, não te preocupes.

II

- És a mulher da minha vida.
- Não sou: sou uma mulher na tua vida.
- Se quiseres, sê-lo-ás.
- E quem te diz que quero ser a mulher da tua vida?

Cepticismo

Como convencer um céptico? Como lhe dizer que está enganado, que deve acreditar, que o passado passou, que o futuro est à refaire?

Paixões

Já tive muitas paixões, na vida. Ou então: só tive uma, renovada vezes sem conta.

29.10.05

Serviço Público - Vinho

Quinta do Sairrão, Reserva 2002 (www.sairrao.com).

Lamento frequentemente que os bons vinhos portugueses estejam cada vez mais a transformar-se em bons vinhos - deixando pelo caminho de ser bons vinhos portugueses: são cada vez mais iguais aos outros.

Não é o caso deste: é um excelente vinho português, taninado, encorpado, escuro, com uma espuma violeta (o que me leva a perguntar, sonhador, como seria com um ano ou dois), rico de nariz e com um fim de boca que nos faz pensar naquelas senhoras do norte, tão fogosas dentro de portas e tão austeras fora delas. Não é, claro, um vinho para se beber ao lanche (como se os homens lanchassem! - excepto, naturalmente, se o lanche for constituido por um bom chouriço, uns torresmos bem temperados, e lá fora estiver a chover, frio, e nos estejamos a preparar para ir para a cozinha fazer o jantar).

E não perde nada se ficar mais dois ou três anitos na garrafa - perde, sim: tornar-se-á, provavelmente, um vinho mais assagi, mais redondo e aveludado. E será bom na mesma.

Publicidade - II

No dia 06 de Outubro partiu de La Trinité-sur-Mer, no sul da Bretanha, uma frota de 9 embarcações de vela (Grand Surprise) com destino a Cascais - e, milagre, já chegaram, todos, inteiros e lindos.

A Make Fast, de que o autor do Don Vivo é um dos felizes e inconscientes proprietários, procura pessoas que queiram trabalhar na vela - tendo em mente, sempre, a anedota do fim deste post - como tripulantes dessas embarcações.

Precisamos tanto de pessoas que já saibam navegar e que tenham as habilitações e a experiência para serem skippers, como de outras que não saibam, mas queiram aprender. A Make Fast vai dar formação, tanto para uns como para outros.

Mais informações em jobs@make-fast.com.

Creio que esta anedota foi criada para os aviões. Não tenho a certeza. Mas se tivesse sido criada a propósito da vela não poderia ser mais verdadeira:

- Sabes qual é a melhor maneira de se fazer uma pequena fortuna com a vela?
- Não.
- É fácil, basta começar com uma grande fortuna.

Impaciência

Está vento, muito vento, e a chuva tamborila no rufo da cabine. O barco, bem amarrado, vibra, impaciente - mas ainda não sei se é por querer voltar para o mar, de onde chegou há tão pouco tempo, se por estar, como eu, farto desta água doce que nos cai em cima sem ter sido encomendada.

28.10.05

VPV, Manuel Alegre e al.

Um amigo, a quem muito e há muito quero, ofereceu-me recentemente um livro do Manuel Alegre, uma colectânea de contos cujo nome esqueci. A oferta inicialmente surpreendeu-me, mas a posteriori até a apreciei pelo seu justo valor: poder detestar o senhor tendo lido (ou tentado ler) um livro inteiro dele. Até agora, do Poeta Alegre só os poemas com que os jornalistas, coitados, regularmente nos brindam, e alguns fragmentos de livros nas livrarias, rapidamente devolvidos à estante de onde, num impulso optimista e generoso, tinham sido retirados.

Hoje, no Público, VPV diz tudo o que sobre Alegre há a dizer; e outro amigo, tão antigo e tão querido como o primeiro, faz as duas perguntas fulcrais: "Porque é que Deus não me deu um dom assim?" e "Será que um dia terei a liberdade de proclamar o que realmente penso sobre certas pessoas?"

Um almoço e a vida, num dia ventoso

Não foi, há que reconhecê-lo, um sacrifício monstruoso: sempre gostei de pão com chouriço (hesito em chamar àquilo "sandes", que associo a mais ingredientes); e estou farto de comer a mesma coisa todos os dias. Tanto o chouriço como o pão do Pingo Doce são bons, e a vista do 3º andar do Cascais Villa é magnífica, tanto quanto o local é abominável. O vinho não era mau, e lá fora o vento trazia para a costa o mar em grandes vagas piramidais, desordenadas, caóticas, porque se reflectiam no Paredão, e voltavam para trás cruzando-se com as que lá vinham.

Uma boa imagem de muitas vidas, incluindo a minha.

26.10.05

Paralisia

E ali fiquei, hirto como um dever por cumprir, como uma promessa não respeitada, como um soldadinho de chumbo na linha de tiro.

Retratos quase verdadeiros

Era uma rapariga alta, com duas manchas escuras nas têmporas que lhe davam um ar de boxeur. Apesar disso era bonita, ou atraente: no olhar advinhava-se uma certa fragilidade, que contrastava agradavelmente com a aparência geral. Pelo menos para mim, que gosto de mulheres altas, bonitas e com aspecto de quem já deu, e levou, muitos murros na vida.

Diálogos Possíveis

- Ponhamos a coisa desta forma: perseguir sonhos devia ser punido por lei.
- Perseguir sonhos já é punido. Para quê acrescentar "por lei"?

Julgamentos

Só quem espera alguma coisa das pessoas (isto é, alguma coisa boa) as pode julgar.

Classificações

Os restaurantes têm casas de banho para "Homens" e "Senhoras". Para ele, deviam incluir outra categoria: "Filhos da P...".

18.10.05

História

Muitas coisas aconteceram, desde a última vez que aconteceram coisas; mas a vontade de as contar é escassa.

17.10.05

Definição

Um amigo trai-te, rouba-te. A sua má fé cheira mal, cheira a podre. O homem é asqueroso, afinal, abjecto. E tu não consegues odiá-lo, querer-lhe mal. Que espécie de homem és tu? Encaras tudo isto com um misto de fatalismo e desprezo - desprezo por ti, que te deixaste enganar, desprezo pelos carácteres que se mostraram finalmente como são, desprezo por ti outra vez, que não consegues querer mal a quem to fez.

Não o consegues sequer odiar: é como se nunca o tivesses conhecido, como se ele nunca tivesse existido na tua vida, como se ele não fosse. Como se estivesses cansado, ou gasto. O que viveste fortaleceu-te, ou enfraqueceu-te?

Depois apercebes-te que tens uma parte da culpa, ou pelo menos da responsabilidade; e que ele não passa de um pobre diabo ultrapassado pelas circunstâncias. Lembras-te que só de nós mesmos podemos ser juízes. Dos outros não. Ele deixa de ser asqueroso; o mundo (ou a minúscula parte dele que te coube em sorte) vai voltar ao normal. Vais ser capaz de recuperar, vais sobreviver, vais ganhar. Viver torna-te mais forte: ensina-te que um dia esquecerás.

10.10.05

Eleições - O bando dos 4

A escolha dos eleitores é perfeitamente racional e compreensível. "Todos os políticos são ladrões". E os eleitores votam naqueles que fazem algo por eles, que lhes dão algo em troca.

Só demonstra que se se explicasse claramente ao país que os políticos deviam ter salários mais altos - e menos benesses debaixo da mesa - ele decerto entenderia.

7.10.05

Devoção, too

O Digitalis é, sempre foi, um dos meus blogs favoritos. Mas o magnífico post - ou melhor, posts que a Helena faz sobre a Selma Lagerlöf (outra das minhas escritoras favoritas) merece uma devoção para lá de tudo. Dela retenho um magnífico conto no qual uma jovem, seduzida e abandonada por um ricaço da aldeia, o continua a amar. O caso, por uma razão que não recordo (uma criança, provavelmente), vai a tribunal - e a jovem, ao ver que o homem se prepara para mentir, retira a queixa: queria impedi-lo de cometer um pecado, outro pecado.

Um amor assim é doentio, claro, e provavelmente insuportável. Mas não deixa de ser bonito.

Partilha

Algumas coisas deviam, obrigatoriamente, ser partilhadas: um belo corpo, por exemplo; ou um jantar no Melting Pot, em Cascais.

6.10.05

Ciência e religião

Será que a macieira do Adão e da Eva é a mesma sob a qual, dias mais tarde, Newton descobriu a gravidade?

Retratos possíveis

Ela era jovem - 34, 35 anos quando muito - mas tinha uma voz que me levava ao princípio do tempo, ao pecado original. Ouvi-la era ouvir os mistérios, o desfilar dos dias, o vento no mar.

4.10.05

Impaciência

Não sejas impaciente: as coisas são o que foram, e o que serão. Nem a paciência nem o seu contrário levam a parte alguma.

1.10.05

Aspas

Ele não queria, claro, casar e ter filhos. Queria "casar e ter filhos". Mas ela não sabia "ouvir" entre aspas.

Vidas e ironias

Passou uma vida inteira a batalhar para deixar uma obra. Um dia apercebeu-se que essa obra era a sua vida, e que não a queria deixar.

Políticos e ladrões

A cota de popularidade dos políticos está abaixo da dos ladrões. É por isso que eles por vezes cumulam as duas funções: ganham votos enquanto políticos, e compreensão enquanto ladrões.

30.9.05

Portas

As portas estão fechadas, e bem fechadas, claro. Mas pergunto a mim mesmo se a tua ausência não ficou fechada do lado errado.

Metáforas e analogias

Não gosto de mel, como sabes; nao posso portanto comparar-te a ele. Tão pouco te imagino fruta, apesar de fresca, sumarenta, mordida: pêssego? Melão? Ou o estafado morango? Esquece: isso não és tu.

Gosto de cocktails, e bebo neste instante um Alexander, o meu favorito. Está perfeito: o Alexander é um equílibrio delicado entre contrários, é uma bebida simultaneamente densa e aérea, e é bonito, o que não estraga nada, antes pelo contrário. Gosto de vinho, também: "um bom vinho é aquele que me faz dar um salto na cadeira", lembras-te?

Também tu me fizeste dar um salto na cadeira, na vida.

Fidelidade

Cada vez que amo alguém, traio alguém.

28.9.05

Desejo - II

Nasceu longe, e veio por aí abaixo como um rio.

(Desaguaste em mim, mistério dos mistérios).

Desejo - I

O desejo é uma companhia, por vezes, de tão espesso, tão sólido, tão presente.

27.9.05

"Fragmentos de um discurso amoroso"

Um poeta português, Manuel Gusmão, fala num dos seus textos da "longa ausência do mar". Não é, obviamente, essa a sua intenção, nem a isso que ele se referia, mas não consigo, cada vez que leio aquele poema, deixar de juntar "da política portuguesa" àquela bela expressão.

O mar está, naturalmente, ausente da política portuguesa porque está ausente do imaginário português, há muitos anos. De um país de marinheiros, de um país que revia o seu presente e inventava o seu futuro no mar, tornámo-nos um país de emigrantes "a salto": a Europa, que nós ajudamos a inventar e a quem démos muita da forma que tem, ultrapassou-nos, deixou-nos para trás.

Não sou historiador, sou marinheiro; e é nessa qualidade que imagino que muito do nosso declínio começou com o abandono do mar como projecto, como vector de futuro.

Tal como a personagem do poema com que comecei estas linhas, vivemos "num deserto, num deserto rodeado por uma longa ausência de mar", "à procura de uma saída que dê para a vida".

Essa saida é o mar. Ele foi no passado o nosso futuro, e deve ser hoje o nosso presente, e o futuro do nosso futuro.

Portugal tem à sua volta uma vasta mina de ouro - azul, mas ouro tout de même.

26.9.05

A um filho

Sê o que és, sempre, e só o que és. Ouve os outros, mas para te escutares melhor a ti próprio. Faz o teu caminho, e segue-o até ao fim, por muitas circunvalações e curvas e passos atrás e passos para o lado que ele te faça dar. Sê quem és, não o que os outros, eu inclusive, queiram que tu sejas, ou pensem que deves ser. Sê tu, só tu, não mais do que tu.

Racismo

Será uma bela cara africana muito mais bela que uma bela cara de outros continentes, outras cores?

O prazer da escrita...

...é descobrir que há uma pessoa, pelo menos uma, tocada pelo que escrevemos. É emocionante.

24.9.05

Álgebra elementar

Raramente, como gostarias, um mais um é igual a um; e ainda bem. O mais das vezes um mais um é igual a dois, como deve ser - ou a três, por muito que te doa.

23.9.05

Memórias

Algumas dores, algumas memórias, devem ser tratadas com carinho, alimentadas como crocodilos adormecidos num tanque.

Fotografia

Para quem gosta de fotografia.

Relevos

Às vezes passava os dedos pela vida, e sentia um relevo, como num selo branco.

Põe uma pedra / uma pedra nessa infância*

De repente são oito e meia da noite e está escuro lá fora, e realizas que tudo acabou: o verão, o nosso amor, os planos que fizéramos para o inverno, as carícias de uma, e numa, noite quente.

O vento é frio, cortante, estimulante, e puseste, finalmente, puseste uma pedra nesse passado.


* (Manuel Gusmão).

22.9.05

Vácuo

De repente apercebeu-se que estava a ouvir uma declaração de solidão, não uma declaração de amor.

21.9.05

Planos

Haverá uma cidade, claro, um barco, e as ruas da cidade com candeeiros, e um pouco de chuva, miudinha; haverá um café, um bar e um cocktail ou dois; haverá um cinema? Ou irão directamente para casa? Não se sabe ainda. É muito cedo para fazer planos.

Declaração

Uma noite ele disse-lhe: "Não te amo: só quero casar e ter filhos". Nunca mais a viu. "Antigamente era ao contrário", pensou: "eram os homens que fugiam de mulheres que diziam isso".

Porque fugira ela: teria detectado a mentira? Talvez. Mas enganara-se: só na forma era mentira. Ele queria, realmente, "casar-se e ter filhos" - continuando solteiro, claro, e com os filhos que já tinha. "Quero tudo e o seu contrário: é a única forma de aceder à plenitude". Talvez a felicidade não passe disso - conjunção de opostos.

Sensualidade

- O que é a sensualidade?
- Acha-se sensual?
- Acha que a sensualidade necessita de empatia?
- Acha que a sensualidade se auto-realiza?
- A insatisfação gera sensualidade, ou destrói-a?
- A relação ente a sensualidade e o desejo é de complementaridade? Existe?

17.9.05

Questões de confiança

Não percebo de onde vem esta "crise de confiança" que, aparentemente, atravessa o País: com Espanha aqui tão perto...

13.9.05

Chanson du mal-aimé

Ca rit de partout. C'est épouvantable.

Les Brasseurs

I

Se um dia, por acaso, passarem nos Brasseurs, em Genève (é fácil - basta chegar, ou partir, de comboio: é mesmo à frente da estação), não vão em cantigas: a "Blonde Pure Malt" é de longe a melhor; a "Ambrée Pure Malt" é doce e enjoativa, e a "Agave au Citron Vert" é um engano sustentado no nome exótico: evoca-me o Shandy do British Bar quando era bom (ou quando era sempre bom), mas em pior - e sem o British Bar, claro.


II

Há dias em que gosto de mulheres feias. Nem sempre, reparem; só às vezes, como hoje. Gosto daquela mulher com uma caneca de litro à frente. O amigo, ou namorado também tem uma (ela "Ambrée", ele "Blanche") e tem aquilo a que os franceses chamam "bonne tête". Ela não. São os dois gordos, o que num casal me parece uma redundância.

Riem-se muito. Mas o riso não a faz bonita: usa uns óculos pequenos, rectangulares e de aros grossos numa cara grande e redonda, lábios demasiado maquilhados, cabelos encaracolados mas que começam muito atrás, deixando à vista uma testa enorme. Porque me é simpática? Está na hora de ir para casa, suponho.

12.9.05

Poema de adolescência

"Receita para fazer um herói", de Reinaldo Ferreira – (cito de memória, não prometo que esteja completo).

Tome-se um homem,
Feito de nada como nós,
e em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
De uma certeza
Aguda, cruel, irracional
Como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agitem-se os pendões, e
Toque-se um clarim.

Serve-se morto.

Duas pequenas observações:
a) Os cobardes também se servem mortos (se bem que, admitidamente, um pouco mais tarde);
b) Os pendões não têm forçosamente que se agitar, nem os clarins tocar, perto do fim;

Os pessimistas têm sempre razão

O “não” é sempre verdadeiro. “Isso não vai funcionar”, “Isso é impossível, ou demasiado difícil”, “Mais vale ficar quieto”, “Isso não...” – É óbvio que agindo na convicção de que nada vai funcionar (ou não agindo), estas previsões se confirmarão. É por isso que os pessimistas têm sempre razão, e os optimistas só às vezes.

O hospital e a caridade

Não se pode fazer uma viagem de metro em Paris, ou andar 200 metros a pé, sem ser assediado por um pedinte, um toxicómano, um sem abrigo, um aleijado qualquer que nos pede qualquer coisa e nos conta, em troca, as razões dignas de um Victor Hugo ou de um Charles Dickens que o levaram àquele estado.

É por isso que tenho certa dificuldade em entender o discurso francês sobre a fractura social, a exclusão, a pobreza e a miséria nos Estados Unidos.

9.9.05

Todos iguais

O ministro francês da Economia, o senhor Thierry Breton, quer que as empresas petrolíferas adoptem um comportamento "cidadão". A "comportamento cidadão" atribui ele o sentido de "não repercutir nos preços de venda ao público o aumento do preço de petróleo nos mercados".

Eu acho, humildemente, que ele tem toda a razão. A tendência das empresas para fazer variar os seus preços de revenda quando os custos da matéria prima variam é bem conhecida, e é claramente um comportamento anti-cidadão - ou a-cidadão? - e anti-social (excepto quando baixam os preços, naturalmente, mas quando a variação é nesse sentido nem se fala no assunto).

Por uma razão incompreensível, quase todas o fazem - com a excepção notável dos agricultores, que são depois recompensados pelo seu "comportamento cidadão" com latas subvenções - o que de resto demonstra que se pode ter um "comportamento cidadão" e ganhar muito dinheiro com isso (neste caso, duplamente "cidadão" porque são, claro, os cidadãos quem paga os subsídios).

Mas há, senhor Ministro, mais áreas de actividade que, acho eu humildemente, requerem urgentemente a sua intervenção benigna e atenta.

Em primeiro lugar, refiro-me, está bem de ver, aos restaurantes; os quais, ao adoptar uma lista de preços independente do estado emocional e afectivo do cliente dão provas de uma intolerável indiferença ao sofrimento humano. Por exemplo, ainda recentemente comi um sublime, um magnífico, um enorme desgosto de amor - que me custou 60 euros! Sessenta euros, senhor Ministro. É manifestamente exagerado para quem sofria como eu sofria - mesmo tendo em conta o facto singelo, irrefutável mas compreensível de eu ter bebido vários aperitivos e um conhaque (ou ao contrario, não me lembro bem). Outro exemplo: ontem, acometido que estava de ligeira nostalgia - muito ligeira (tingida, é verdade, de uma ponta de dor: mas leve, muito leve): 33 euros. 33 euros por uma nostalgia ligeiramente tingida de sofrimento? Senhor Ministro, por favor, veja como essa corja de restauradores enche os bolsos à custa das emoções dos cidadãos! Imagine quanto vou pagar se tiver, um dia, de pagar uma euforia ou - tudo é possível - uma vitória? Eu acho, senhor Ministro, que o senhor devia chamar os restaurantes à pedra e obrigá-los a ter uma lista de preços com preços estabelecidos em função do estado afectivo e emocional do cliente. Começava na dor profunda, com uma redução muito grande, a qual iria gradualmente decrescendo á medida que as emoções das pessoas se fossem tornando mais positivas, mais ligeiras.

Repare, senhor Ministro, que o controle seria facílimo: quem, mas quem, se atreveria a pedir um desconto "dor profunda" se entrasse no restaurante, por exemplo, a sorrir alarvemente? Quem iria, suponhamos, pedir uma tarifa "dor de corno" se estivesse acompanhado por uma bonita mas ingénua loira, ou com uma morena densa e misteriosa?

Quem ousará pedir uma "nostalgia dolorosa" se estiver, visivelmente, em estado de "nostalgia ligeira"? Acresce, senhor Ministro, que quem usufrui dos restaurantes são os cidadãos, incapazes, eles, de adoptarem o comportamento ganancioso, especulativo e anti-social das maléficas empresas petrolíferas que se aproveitam de um mísero aumento de 200 ou 300% no preço do crude para nos aumentarem a gasolina 5 ou 10%? Que desplante!

Defenda, senhor Minsitro, os cidadãos do seu pobre país, que estão nas garras malvadas das sociedades que ganham dinheiro a vender esse inútil e poluente produto que é a gasolina. (Já agora, por solidariedade: eles que baixem também o preço da cerveja. Imagine que acabo de pagar 5 euros por uma imperial. Cinco euros!!! - apesar de estar num estado emocionalmente neutro, acho que devia ter um desconto porque me comportei como um verdadeiro cidadão quando pedi e esperei - oh se esperei - pela cerveja: não cuspi no chão, não arrotei antes de beber, não acariciei os seios à senhora da mesa ao lado (se bem tivesse muita vontade); nem sequer me zanguei com o empregado por causa da espera. Apesar disso paguei cinco euros por um copo de Fosters. Senhor Ministro, acuda!.

(cont.)

Mais uma palavra bonita

Tenho que reconhecer que gosto muito da palavra "testosterona". Acho que é por causa dos "Ts", e dos "Ss".

8.9.05

Notícias da blogosfera

Via A Natureza do Mal conheço o Sotto Voce. Um blog que, aberto hoje, nos oferece um post sobre o Glenn Gould deve ser aberto todos os dias.

Revista de Imprensa

Para um bom blogger, que não sou mas gostava de ser, o Público de hoje é uma mina. Passo a notícia da primeira página sobre a confiança dos agentes económicos: não é uma notícia, nem uma novidade. Depois há um dossier sobre a edição anual do IDH: Portugal perdeu um lugar (passou para trás da Eslovénia) - mas em contrapartida o índice da mortalidade infantil melhorou. Acho isto cruel: a este ritmo, estamos a fazer bébés para terem um vida de m..., ou para imigrarem. Depois há um artigo excelente de JPP, e mais uma palermice do Marques Mendes, que a continuar assim vai ter como palmarés ter feito frente ao Valentim Loureiro e ao Isaltino, o que é, convenhamos, pouco para o líder da oposição.

Um dia em cheio.

PS - Os bébés, além do inglês, deviam começar a aprender também espanhol, para poderem emigrar em boas condições.

PS2 - Devia haver um IDH por profissões. Em Portugal, a de burocrata estaria, certamente, no topo da tabela.

7.9.05

Diálogos possíveis (numa livraria de Cascais)

- Você tem o tipo de corpo que me atrai ilimitadamente...
- Infelizmente, o inverso não é verdade.

Retratos imaginários

Para ser feliz, bastar-lhe-ia ser um bocadinho menos masoquista.

6.9.05

Post aberto ao Major Scobie,

"O ténis, como se sabe, é o jogo mais civilizado, desgastante e inteligente do planeta (mais um sinal da supremacia da Ilha, que o inventou. E se os ingleses não são bons em muitas coisas que inventam é porque não precisam, caro maradona.Os bárbaros que se divirtam)."

Meu caro Major Scobie,

Pela primeira vez, pobre de mim, li um post seu com o qual desacordo inteira, completamente:
- Primo: o ténis não é um jogo; aspira a ser um desporto - se bem que mais aborrecido do que muitos jogos.
- Secundo: o desporto mais "civilizado, desgastante e inteligente do planeta" é a vela, não o ténis; os outros, todos, (ténis incluído) não passam de meras actividades físicas (cf. acima).
- Tertio: Quem "inventou" a vela como desporto foram os holandeses - daí o termo "jacht".
- Quarto: a "supremacia da Ilha" manifesta-se justamente porque se diverte com algo inventado por outrém.

E por ter feito o favor de tornar essa actividade universal.

To have you in my arms...

... is what I am born for.

Drogas

- Por falar em drogas: já pensou em Bartok? Que acha das Dansas Populares Romenas?
- Uma merda, como tudo o que inclui o termo "Popular".
- "Merda" talvez seja exagerado, não?
- Que vale o que não é exagerado?
- Merda.
- Ecco.

Trabalho

Gosto de trabalhar. O trabalho é bom. Basta perguntar a qualquer prostituta.

Pata-roxa II

O problema dele era, evidentemente, a forma dos tomates do Papa - ou, mais concretamente, o peso dos cocos que, continuamente, lhe caíam na cabeça. Felizmente tinha-a dura, de modo os cocos faziam-lhe pouca mossa, graças a Deus.

Toujours est-il que notre saumonette volante s'est trouvée, à quelques berges de la fin, tabassée par une stupide porte en verre, une - ou plusieurs - noix de coco sur-dimensionnées, une maîtresse fuyante, une sorcière irréaliste - pêché majeur, faut-il le dire, chez les sorcières, même blondes - e com um stock de chá para emagrecer do qual não sabia que fazer. As - e o - palhinhas davam-lhe um ar de herói da banda desenhada, mas a quantidade de merda que com ele transportava não.

-Joder, chico - dizia, lembrando-se das suas lições de espanhol arcaico. Mais uma vez pensava estar sozinho, mas não estava: um bando de pargos legítimos escutava atentamente tudo o que ele dizia, e contavam às corvinas, ávidas.


Pôs o Gould na caixa, lembrou-se algures do Boléro, e continuou a bater com a cabeça nas portas de vidro.

En attendant, a luna batia no mar, também ela, e esparramava-se por ele fora, em forma de I maiúsculo, falo enorme e tão útil, tão útil. Os namorados olhavam para aquela luz irreal, tão irreal, os compositores também, os fotógrafos, as artistas todas, Deus me valha, e achavam tão bonito, ai tão bonito, ai que obrigados estamos todos, pela inspiração, pela oportunidade.

O nosso pata-roxa ouvia o Boléro, ouvia-se gozar com o Boléro, ouvia-se, tout court, e pensava que sem rum a vida não é viável, não é rum, não é vida, não é nada, não é, não.

Sem ti.

- O Boléro, meu caro, não passa de um resumo das drogas todas que você nunca tomou por falta de coragem, dinheiro, vontade ou ocasião. Podemos, claro, viver. Não podemos, contudo, viver sem certas coisas, certas pessoas, certos olhares, certos seios. Vá, très cher, bater com a cabeça em alguns sons, já que lhe faltam ventres para isso. Boa noite. E lembre-se: Boléro é "Espanha" em francês.

5.9.05

Vitórias

Uma vitória difícil não é, nem nada que se pareça, melhor que uma vitória fácil: quando muito, faz de nós melhores vencedores, melhores pessoas.

Pata-roxa

Naquele dia, o pata-roxa voador picou com um bocadinho mais de força e esbarrou na porta de vidro do castelo, fechada a sete chaves. Era preciso, contudo, muito mais do que um pedaço de silicone e meia-dúzia de chaves para lhe alterar a determinação, e a direcção. Tentou outra vez.

Ao fim de alguns anos ficou tonto, e pensou que talvez fosse boa ideia encontrar uma solução alternativa. Conseguiu: em vez de bater à porta (ou contra ela, mais precisamente), lembrou-se de a abrir com um raio de luar. A ideia era boa, claro: todos sabemos o poderoso efeito que a luz da lua tem nos porteiros dos castelos e nas princesas que neles mandam. Falhou, contudo: na véspera a lua fora ao bordel, e o raio saíu-lhe torto e fraco.

- Pata que a pôs! Pata que a pôs! - O pata-roxa voador gritava no meio da planície, onde, acreditava, ninguém o ouvia. Mentira: ao longe, um bando de pardais, periquitos e bêbedos coxos observavam-no e regozijavam-se barulhentamente. Exultavam.

O que há de interessante no pata-roxa, a sua única característica digna de nota, é ser ele um parente afastado do tubarão; é um tubarão mutante, por assim dizer. Este era duplamente desviante (o termo é muito mais apropriado) porque voava - embora mal - e tinha um bico pelo qual absorvia chá de ervas por uma palhinha.

A receita do chá tinha-lhe sido dada por uma bruxa loira, linda, que ele encontrara quando aprendia a voar, agarrado a uma vassoura emprestada. A vassoura era uma merda, mas a bruxa encheu-se de simpatia por aquela espécie de híbrido e levou-o para casa, onde lhe deu aulas de vôo, com sucesso, e de realismo, com um insucesso flagrante.

Morava na capital das bruxas, uma cidade chamada Floguilópolis, onde ele se passeava enquanto ela ganhava a vida a pretender que o tempo não existe. Para as bruxas, é verdade, o tempo não existe: tudo é só hoje, ou só amanhã, ou só ontem. Mas para todos os outros o tempo existe, e tem um nome: chama-se morte.

Um dia fugiu. Voou durante horas, dias, semanas, meses, sofreu vidas inteiras de pesadelos, e acabou por aterrar numa palmeira grande, gorda, com uns bigodes que tinham a forma de um violino cortado ao meio. A palmeira produzia côcos enormes, do tamanho dos tomates do Papa (os quais crescem sem parar há, pelo menos, 200 anos - antes disso, é sabido, esvaziavam-se regularmente. Como tudo, a Igreja melhora à medida que se afasta da princípio). A palmeira, gorda e feia, era generosa e albergou o nosso herói exausto.

Quando o viu recomposto encheu-o de sumo de palmito fermentado e falou-lhe num castelo com portas de vidro onde morava uma princesa rica, bonita, e sedenta de amor.

- Aqui vou, de novo equivocado - lamentava-se à quadragésima nona tentiva. - Porque mora essa princesa num castelo inacessível, se está sedenta de amor? Porque não sai, e vem comigo voar ao luar? - (Foi quando se lembrou de utilizar o raio de luz da lua, sem se lembrar que até os satélites têm vontades próprias, e imprevísiveis).

Morreu afogado em Bach, nas Suites Inglesas, mais exactamente, tocadas por Glenn Gould para a Sony.

História

A história ajuda-nos a compreender, mas não nos ajuda a prever.

Diálogos imaginários

- É preciso arriscar, para se chegar a algum lado.
- Eu nunca arrisquei o que quer que fosse, e cheguei onde estou.
- Está bem, mas tu chegaste lá por causa da tua inteligência, e eu tenho que conseguir apesar da minha...

Retratos possíveis

Se fosse possível profissionalizar o pessimismo, ele seria um pessimista profissional.

4.9.05

O fim de uma história

Passam os dias, e passam-se dias em que não pensas nela. Ou por vezes pensas, mas com nostalgia, onde antes só entrava o desejo. Ela afasta-se, a imagem dela, como nos dias de lua cheia em que o sol é progressivamente substituido pela lua, que também ilumina, mas menos. Um dia até a lua deixará de aparecer.

Por vezes lembrar-te-ás de quanto era bom acariciá-la, ouvir-lhe uma ironia, apertá-la nos teus braços. Mas pouco mais: as histórias que acabam bem acabam assim, e dela reterás uma imagem, talvez duas: sentada no muro da igreja, a primeira vez que a viste no aeroporto, uma vez ou outra vez que o amor a tenha deixado particularmente bela.

Essas imagens não desaparecerão. "Solo una cosa no hay", lembra-te: "Es el olvido". Mas aprenderás a viver com elas: ido o desejo, e depois a dor, apenas fica uma mistura difusa e agradável da nostalgia que a felicidade deixa, sempre, por onde passa.

3.9.05


D-35 (Photo by Philippe Schiller / MYImage.ch)

D-35 (Photo by Loris von Siebenthal / MYImage.ch)

D-35 (Photo by Loris von Siebenthal / MYImage.ch)

Fotografia de Bernardo Amaral

Fotografia de Susana Santos

Cisne


Jet d'Eau 1

Genève, Inverno, 1

Genève, Inverno, 2

Genève, Inverno, 3

Genève, Inverno, 4

Genève, Inverno, 6

Genève, Inverno, 5

Genève, Inverno, 7

1.9.05


Genève, 2004

Irlanda, 2002

Cenas da vida na rua

Um casal cruza-se comigo na rua. Casual chic, BCBG, entre o fim dos trinta e princípio dos quarenta. A senhora olha para mim com uma certa insistência. O homem põe-lhe o braço pelos ombros, num gesto protector, ou possuidor, e puxa-a a ele.

- Então? É um gordo - oiço-o claramente dizer-lhe.