12.10.12

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 12-10-2012

Esteve a chover e é feriado. É uma boa combinação: as ruas ficam vazias e a luz bonita. Fui dar um passeio - mais precisamente passear a máquina fotográfica, farta de estar em casa.

Como sempre acabei numa das marinas. Pensei nos domingos em Genève nos quais me calhava escolher o destino do passeio familiar. "Lá vamos nós ver os barcos outra vez", ouvia-se pela casa fora mesmo antes de eu anunciar que íamos, oh surpresa, ver os barcos.

Em Palma há muito barcos e muitas marinas; escolher um destino seria provavelmente menos monótono para a criançada. Para mim não é, claro. Mas não há nada de metafísico nisto; é simplesmente falta de imaginação.




11.10.12

Uma (grande) receita improvisada - galinha com pera-abacate

[Começo por pedir desculpa pela imodéstia. O qualificativo, apesar de entre parênteses, é resultado da exultação, do entusiasmo, da surpresa - todas reais - e não da soberba, de que felizmente não sofro.

Os quais entusiasmo, exultação e surpresa nasceram de dois dramas tão existenciais como quotidianos: a) que vou fazer para o almoço?, e b) que vou fazer para o almoço quando o banco começa a dar pré-avisos de greve?

Ia a caminho do supermercado quando bati de frente na ideia: galinha com pera-abacate, das quais tinha duas em casa; e o frango é barato, bem aproveitadinhos quatro euros dão para o dobro de refeições, se sefor criativo e tiver um congelador em casa.

Galinha com pera abacate! Sinto-me um Arquimedes a sair da banheira.

Infelizmente entre a galinha e a pera-abacate da ideia original meteram-se cebolas a mais, e cenoura; e a pera abacate que tinha em casa estava menos madura do que eu pensava. Mas vai voltar à berlinda, a dita ideia.

Contudo, porém, manda a verdade que se diga que não estava mau, o resultado derivado. Amanhã estará decerto melhor.] 

Comecei por saisir o frango a fogo vivo; na mesma gordura uma cebola grande mal cortada em rodelas; depois - estou pelas frigideiras separadas, estes dias - cenouras às rodelas.

Quando estava tudo douradinho misturei numa panela, juntei uma lata de tomate (e meio pacote de gazpacho) deixei ferver um bocadinho e temperei: rosmaninho, pimenta preta - muita -, cominhos - idem -, piripiri, orégãos. Mais um bocadinho de calor e foi a vez do cava.

[Isto de cozinhar sistematicamente com cava tem que se lhe diga. Para começar, é bom de mais, e pôr quase uma garrafa numa panela em vez de num copo às vezes dói; por outro é baratíssimo e pergunto-me como farei, quando deixar estas paragens.]

Enfim, a coisa lá foi cozendo, devagarinho, delicadamente. Quase no fim (isto é, meia hora antes) juntei-lhe duas boas mãos cheias de espinafres. Comi com arroz integral e estava bom. Amanhã estará melhor. E quando fizer a ideia original estará melhor ainda, aposto.

A esquerda e os factos

A esquerda tem um problema intelectual fácil de perceber mas difícil de tratar (se fosse fácil não haveria esquerda, qed): a relação com os factos.

Para uma pessoa de direita uma asserção é discutida, comentada, aprovada ou não pelo que diz:  Salazar era um governante honesto. Uma pessoa de direita ouve isto e pensa: é verdade? É falso? Sim ou não?

Perante tal afirmação uma pessoa de esquerda começa por pensar que se está a defender o salazarismo.  Depois a máquina embala-se e em menos de nada somos fassistas. Não somos, claro. Um governante pode ser honesto (como Salazar), ser uma desgraça para o país (idem) e não ser fassista (ibidem).

Outro dos problemas da esquerda com a realidade é que a toma em bloco: o mundo esquerdista é digital. Zero ou um. Nada entra zero e um. Salazar foi uma desgraça para o país? Sim. Mas. Três mas:

- Foi uma consequência mais ou menos inevitável do que vinha de trás (poucas nações se suicidam e quando estão em situações difíceis tendem a encontrar soluções drásticas. Salazar em Portugal, Franco em Espanha, um genocídio no Rwanda são coisas que me vêm ao espírito assim de repente, salvas claro as devidas proporções);

- A maioria da população portuguesa apoiava-o. É uma sorte ele não ter organizado eleições, porque tê-las-ia ganho todas;

- Durante muitos anos as alterativas a Salazar não eram muito melhores do que ele.

Dizer isto não faz de quem o diz um salazarista. Excepto, claro, se estiver a falar com uma pessoa de esquerda. Infelizmente não sou cientista político nem psicólogo e não consigo explicar porquê.

10.10.12

Fealdade, palavras

Cada vez suporto menos a fealdade. Porque será? (Abro uma excepção para o poema aí de baixo, que é fraquinho, eu sei. Mas como não sou poeta profissional e também feio feio não é, é só fraquinho, que se lixe).

Não deve ser da idade, que nos habitua a ver tanta coisa e tanta gente feia; nem da felicidade, que hoje está um bocadinho melancólica; nem da melancolia, porque não é só hoje. Gente feia, a cuspir fealdade, a ver fealdade, a criar fealdade...

Porra, mandai as palavras para o lupanar de onde nunca deviam ter saído (elas, as palavras).

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 10-10-2012

À frente do Antiquari - ou seja, imediatamente por baixo da nossa casa - está o Café Lounge (cito) Mari-Lin.

A rua terá talvez três metros e meio de largura, mas parece que estão em dois planetas diferentes. O Mari-Lin é quadrado, no sentido literal e no do antigo calão, square, branco, limpo. Tem uma esplanada grande (enfim, o maior possível) com as mesas ao longo do muro que separa a rua de umas escadas; durante o dia protege-as com chapéus de sol grandes, beiges, quadrados (claro). A empregada é uma loira incaracterística (às vezes acontece) que anda muito direita, com os seios a abanar e a travessa por cima da cabeça, como se tivesse medo que chova e os seios fossem limpa-pára-brisas preventivos. A clientela é constituída na sua maioria por turistas; a minoria são casais square, grupos square; é raro haver uma pessoa só a uma mesa, e quando há é, terão adivinhado, square.

O Antiquari tem uma esplanada minúscula - duas mesas, às vezes três. As pessoas sentam-se nos degraus da escada (em Palma há muitas ruas que são, ou têm, escadas como Lisboa). Vêem em grupos grandes, em pares, sozinhas. Só ao meio dia, quando abre, há alguns turistas; depois a fauna local toma o local de assalto e a de fora senta-se nas mesas em frente, tristonha. Por dentro é castanho, escuro, vivo, pequeno.

Não sei se as mulheres do Antiquari são mais bonitas do que as do Mari-Lin. Os nomes prestar-se-iam a alguns interessantes jogos de palavras, se se quisesse. Desde que cheguei entrei duas vezes no vizinho de baixo - uma delas para ver se havia net, porque a que temos em casa é-nos fornecida, simpática e involuntariamente por ele. Ao Antiquari vou muitas vezes - como hoje, beber um Hierbas Tunel, bebida na qual estaria viciado, se fosse de vícios; ou pensar que a tristeza se dissolve melhor no degrau de umas escadas a olhar para tristes do que no meio dos tristes a olhar para gente como nós.

Ou ouvir Hildegarde von Bingen seguida pela Orchestra Baobab e pensar na quantidade de planetas que habitamos.

........
Às quartas o Antiquari organiza um Clube de Línguas: pessoas que falam uma determinada língua juntam-se com quem a quer aprender e passam uma hora ou duas, não vi bem, a conversar, contar histórias, trocar experiências ou expectativas.

8.10.12

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha

L'Antiquari




Passeig des Born

Terra

Tu és a terra; eu sou o fruto e bebo
da fonte directamente,
até que o incêndio se ateie e o
grito afaste a morte.

Gosto desta imagem: a planície,
uma fonte, um incêndio que alastra
célere, urgente;
abutres assustados.

Da convivência diária com a sede
aprendi o calor, o fogo, a luz,
a simples, irrefutável urgência.

Tu és a terra.

(Para a T. com amor, carinho, ternura e essas mariquices todas)

Roupagens

A negaçao permanente está para a sabedoria como a roupa larga para um corpo gordo: ambas servem para esconder defeitos.

5.10.12

Almoço improvisado (e jantar)

Para quem vive em Portugal - ou melhor, para quem nao vive em Palma - encontrar sobreasada nao sera provavelmente fácil. Talvez o Corte Inglés tenha, nao sei.

A ideia inicial era fazer um almoço simples em torno de dois sabores fortes: o gengibre (no salmao) e o rosmaninho (nas batatas). Mas o forno nao estava a funcionar e em vez de assar os tubérculos do senhor Parmentier numa travessa de barro com azeite, muito rosmaninho e três ou quatro dentes de alho (en chemise, que isto agora anda prude) fritei-os na frigideira, acrescentando meia sobreasada a tudo o que estava na travessa.

A qual sobreasada é um enchido feito com carne de porco, pimentao e muitas mais coisas que podem ver aqui, especialidade das Baleares e que por si só justifica uma viagem ao arquipélago, e uma longa estadia.

O resultado foi uma explosao de sabores, passe o cliché. Uma explosao boa, sensual, rica, gulosa, mulata; e páro aqui para nao descambar, que isto agora anda prude.

É cedo de mais para falar no jantar: ainda está ao lume. Comecei por saltear um bocado de toucinho cru, pimento verde (dos de Maiorca, nao os habituais), cebola picada, meio pimento encarnado, um pouco de aipo, um tomate, uma beringela - tudo isto separadamente e em lume forte - e por fim um belo naco de carne de guisar.

Depois pus tudo no lume muito fraco, em vinho tinto e com pimentao doce, rosmaninho, orégaos e pimenta preta como especiarias. Ficou a burburinhar, fui beber um Hierbas Tunel (ou aqui) e vim escrever disparates no locutorio onde tenho de vir escrevê-los enquanto o meu computador estiver na sua forçada greve de fome.

Verdade seja dita que nao venho só escrevê-los: também os leio, e muitos.

Fortunas, estupidez

Há várias maneiras de dilapidar fortunas. Por estupidez é a única forma inaceitável de o fazer.

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 05-10-2012

Porto

Fui a um restaurante sugerido pela mais portuense das minhas amigas, e amigos. Chama-se O Buraco e fica na rua do Bolhao (estou sem tis, por uns dias). Todos os restaurantes deviam ser assim. O senhor Manuel, que suponho seja o dono, cumprimenta todos os clientes que entram pelo nome ou pelo título. Pergunto-lhe "o que vou comer" e ele diz-me que tem uma feijoada muito boa. É um understatement, modéstia tao louvável como excessiva. Para beber o empregado pergunta-me se quero beber um verde tinto "feito pela casa". O vinho é excelente, picante, complemento ideal da feijoada.

É proibido vendê-lo. Mesmo admitindo que a ASAE mais nao faz do que aplicar a legislaçao, por que nao se a altera no sentido de permitir a venda do fruto do trabalho e dedicaçao das pessoas? Podia por exemplo tornar-se obrigatório a informaçao de que o produto é caseiro; quem quer come quem nao quer compra outro.

Foi uma passagem muito curta, demasiado curta. É bom saber que ha uma linha aérea directa e barata para lá.

Palma
O Antiquari é uma mistura de Café Tati, Café Buenos Aires, Marchand de Sable e mais meia dúzia doutros cafés cujo nome agora me escapa, mas sao bons, bonitos, conviviais, com boa música e melhor ambiente.

É aqui que espero N. pois nao levei as chaves de casa para a viagem. Ainda esta calor em Palma, a cidade está na rua, bonita e sorridente. E eu nela, como se aqui tivesse nascido.

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Agora temos um músico residente nas escadinhas à frente do Antiquari. É lamentável, coitado, o senhor. Toca mal e canta pior, com uma voz fanhosa, cançoes de Bob Dylan, Beatles, Neil Young ou Eric Clapton. É tanto pior quanto partilho a casa com dois músicos, um dos quais, pelo menos, excelente; e tenho uma namorada que canta melhor (e mais raramente, infelizmente) do que escreve.

Só dou dinheiro a músicos de rua que tenham um mínimo de qualidade - por isso apoio a política do metro de Paris de seleccionar quem nele toca - e agora encontro uma razao suplementar: solidariedade com os moradores das redondezas.

3.10.12

Pai

Este senhor gosta de se apresentar como o pai da pátria. Depois há quem se admire...

"O dinheiro fabrica-se quando é preciso".

(Para não mencionar a ironia de o ver a defender políticas financeiras dos EUA, país que não é, portanto, neoliberal - Ámen. Cruzes canhoto. Vade retro. Santinho).

Lisboa, Portugal




2.10.12

Amor, amizade

Gosto de amizades femininas. Poupam-nos o amor, uma bênção.

Pergunta

Aquele velho e honorável princípio "antes fazer mal do que deitar fora" também se aplica ao gin tónico quando (ou seja sempre) sobra água tónica e falta gin?

Amar, Holanda

Amar-te eu como o mar a terra, na Holanda.

Lisboa, Portugal, 02-10-2012

Às vezes parece-me que a minha residência principal é um aeroporto qualquer, um aeroporto-todos-os-aeroportos do mundo; e tudo o resto - barcos, hotéis, quartos - não passa de residências secundárias.
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Durante o quarto o tempo é deformável, irregular. Um gajo entra de quarto às três da manhã, por exemplo; uma eternidade depois são três e dez. Não acontece nada e num ápice são quatro, é preciso preencher o diário de bordo: posição, rumo, velocidade, vento, mar, dados das máquinas. Demora cinco minutos e quando acaba já são cinco da manhã e é preciso recomeçar. De repente são seis, o quarto acaba e o mesmo gajo começa a pensar que os quartos de quatro horas são muito melhores.

O quarto acaba. Oríon já não está onde estava às três; nem a lua, quase a rebentar, de tão cheia; nem o A., que entretanto já andou trinta milhas. Nada está no mesmo sítio, nada é igual. Daqui a pouco aparece o sol, as cores mudam, talvez o vento sei lá; talvez apareça um eco no radar, ou desapareçam os que lá estão.

Nada é igual, nem o passar do tempo.

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Um homem no mar não gasta dinheiro. A essa imagem - de que tanto gosto - do marinheiro perdulário há que acrescentar, sempre, a do marinheiro franciscano. Quanto mais não seja por falta de franciscas, o que é um bocadinho contraditório.

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Helletvoetsluis

A viagem acaba aqui. Por mim podia ter continuado três semanas, ou meia dúzia de meses.

O chauffeur de táxi vem buscar-nos de casaco e gravata, num carro também ele engravatado. É delicado, educado, conduz como fala, suavemente, sem solavancos. Não sou muito dado a comparações, mas é impossível não pensar nos chauffeurs de táxi de outras paragens.

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Amsterdam

Um dos meus objectivos era comer um  Nasi Goreng, ou Bakmie Goreng, com um monte de Sambal a acompanhar e a excitar tudo o que há de glândulas no corpo. Mas "já não há pure Indonesian restaurants como antigamente", diz-me um senhor da minha idade que vende flores (e o diz como se tivesse acabado de comer uma por engano). "Vai àquele chinês, também fazem pratos indonésios". Não fui; fui ao De Roode Leeuw, um restaurante lindo, bom e (surpresa) caro na Damrak, que "há cem anos serve autêntica cozinha holandesa" (dizem isto e não se apercebem do oxímoro) comer mexilhões.

Passei uma hora e meia em Amsterdam; não fiquei a morrer de vontade de lá voltar. Que será daquela cidade sem as tascas indonésias, agora substituídas por restaurantes argentinos, em cada esquina um?

E cheia de miúdos a fumar charros, como se estivessem a descobrir a Lua.

Vou de comboio de Rotterdam para Amsterdam. A Holanda é um país que só tem litoral, não tem interior. No meio do campo aparece volta e meia uma marina - e grande - ou um porto de batelões.

As placas de sinalização em Rotterdam indicam tanto as ruas como os números dos cais.

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De passagem em Lisboa, de novo. Mas estive cá há quatro dias. Quero ir-me embora. Uma vez vistos e conversados os amigos pouco me prende aqui. 

24.9.12

Fragmento

",,,Um dia vai ser preciso que tu me expliques; e outro que eu perceba.Tem de ser em dias diferentes porque explicar e perceber são coisas difíceis, mágicas, de consequências pesadas. Sabemos lá, nós, nós, o que dali virá. Eu por exemplo preciso de perceber hoje, só hoje, porque estou no mar e me faltas tanto, como se fosses outro mar; e tu já tantas vezes mo explicaste. Talvez num dia de menos mar e mais tu, vai saber; não há dias de menos tu e mais mar - é outra coisa que preciso de perceber, e tu tantas vezes explicaste..."

23.9.12

Portimão, Algarve, Portugal





Prémios

Não sei quando é que isto foi escrito; pode ser uma coisa de adolescência, ou resultado de uma ressaca colossal, como a que me fez vomitar, no outro dia. Mas a verdade é que me pergunto se o resto é igual; e fico sem vontade de saber.


"Porque das nádegas
a curva
sempre oferece
a fenda
o rio
o fundo do buraco"

(Via Alberto Gonçalves.)

Portimão, Algarve, Portugal, 23-09-2012

220912

Golfinhos na proa. Gosto de os ver porque estão a divertir-se como loucos. Dois deles lutam pela posição mais perto da roda de proa. A agilidade destes animais é impressionante. Que estão a divertir-se é um facto incontestável; mas a impressão é acentuada pela expressão: parece que estão a rir-se, embora isso seja pouco provável, pois nunca vi nenhum com ar sério. Mesmo quando estão visivelmente de passagem ou ocupados com outras coisas, como caçar (ou pescar? Não sei).

O serviço meteorológico espanhol é mais ou menos como o português, mas para pior. Nós ainda acertamos no tempo que fez ontem (apesar de eu nem sempre o reconhecer); eles nem isso. Vams com um levante força 3, tinham previsto poniente 4... O que eu não percebo é que continuam a difundir a previsão, que data de ontem à noite, como se nada fosse. Já me tinha apercebido disso durante a viagem do SOGNO, e agora confirma-se.

É meio dia e a habitual luta entre o nevoeiro e o sol está no auge. Espero que ganhe o sol, claro, mas devo reconhecer que gosto deste monocromatismo cinzento (ainda há um bocadinho de visibilidade, milha e meia, duas milhas).

A norte vê-se bem Tarifa, que estamos a passar; a sul nada: uma parede cinzenta com manchas de luz dispersas aqui e ali, cinzentas elas igualmente, se bem mais claras. Cinzento a bombordo, azul a estibordo - o cenário não é monocromático, é bicromático.

Gosto destes barcos de deslocamento pesado. Um gajo não tem a impressão de estar a gastar gasóleo para nada: 80 litros / hora para fazer 10 - 11 nós.

Não gosto de ouvir música quando estou de quarto; mas tanto A. como R. o fazem. Têm ambos um bom gosto surpreendente, pouco habitual nestas paragens. Escrevo estas linhas ao som de Muddy Waters (é o quarto de A.); R. deixa-me regularmente o computador, ou o iQualquercoisa. Vai de Cat Stevens a Jimi Hendrix, passando por tudo o que eu ouvia quando tinha a idade dele. Oiço cinco ou dez minutos e depois apago-o. Prefiro abrir a porta da ponte e ouvir o mar.

Enfim, não é bem o mar: é o diálogo do A. com o mar.

O levante cresce e o sol ganha, pouco a pouco, dificilmente, a batalha. Em breve a paisagem será monocromática e bitonal: o azul do céu e o do mar. Entro de quarto às quatro da tarde.Espero pelo almoço para ir dormir a sesta. Há pessoas que acham o mar monótono. Provavelmente são as mesmas que não acham a terra mortalmente aborrecida.

23-09-2012

Sobretudo se for Portimão, que nesta tarde de domingo chuvosa e triste é uma desolação. Salvam-na a simpatia e eficácia do pessoal da marina, os doces da Casa Inglesa e pouco mais.

Como a memória das melhores sardinhas da minha vida, comidas no Forte e Feio  com o Júlio. Ou a da Ambassador Cup, talvez não a maior, mas de certeza a mais bonita e mais espectacular desgraça que cometi (estamos atracados no pontão onde fizemos o desenho dos barcos que participaram).





Autoretratos diversos.



19.9.12

Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha



Euro

Espero que não. Não quero ter a minha antiga vida de volta.

Felicidade, morte

Há qualquer coisa de mortífero na felicidade. Que importa morrer agora, se morrer feliz?

Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha, 19-09-2012

Seria muito mais dramático dizer "no dia em que o dinheiro acabou arranjámos os dois emprego". Mas o quotidiano não é, por definição, dramático; e isto é um diário, um quase diário, não uma obra de ficção.

Não arranjámos os dois trabalho: a Tatiana começou a trabalhar, e eu tive uma entrevista de cuja resposta estou à espera. Quanto ao dinheiro acabar: é um conceito fluido, esse do fim do dinheiro. Fugidio como o dinheiro ele próprio.

Para mim, dinheiro acabar é isso mesmo: quando a quantidade de euros, libras esterlinas, US ou EC dólares que tenho no bolso (o meu banco é o bolso) chega a zero. Simpaticamente, o meu banco manda-me um aviso na véspera desse dia e diz-me que devia talvez, quiçá, eventualmente começar a preocupar-me; o meu apetite aumenta vertiginosamente e oops, o dinheiro acaba. Para a Tatiana "dinheiro acabar" é diferente. É sinónimo de ter pouco - o que para mim é um pleonasmo, mas enfim, cada um é como cada qual e a semântica é de todos.

A verdade é que ainda tínhamos dinheiro para comer dois ou três dias, se comêssemos muito barato. Mesmo assim pusemos o iPad à venda num site de vendas em segunda mão. Nenhum de nós o usava, estava novo, e com dezoito e-mails e telefonemas de pessoas interessadas a coisa foi-se num ápice. Ficámos com dinheiro para mais uns dias (muitos, porque fizemos promessas de não o gastar) e fomo-nos de tapas, antes de ir comer ao restaurante.

Pouco a pouco a Tatiana vai aprendendo aquela grande verdade marinheira segundo a qual se não formos nós a gastar a massa ela gasta-se sozinha; mais vale gastá-la enquanto a temos. Ainda não chegou aos vinte e cinco anos (está quase); eu vou nos segundos e uma fracção dos terceiros. É natural que já tenha passado várias vezes por estas coisas, que a maioria das pessoas só vive uma vez.

Enfim, seja como for a jovem metade pensante de mim tem um emprego no M/Y D.; eu estou à espera que me respondam do A., igualmente a motor mas de 26 metros, para ir de tripulante até à Holanda. Temos dinheiro, livrámo-nos do iCoiso que era um peso inútil e continuamos a gostar de Palma - tanto que até já temos saudades antecipadas, para quando nos formos embora de vez.

Palma é uma cidade amável; quando passeamos nas ruas as árvores dão-nos sombra; inúmeros cafés e restaurantes propõem-nos de comer a um preço razoável e qualidade altíssima; há muitas livrarias e lojas de discos - algumas das quais, simpaticamente, mesmo ao lado de nossa casa. É uma cidade cosmopolita por causa dos turistas e dos yachties, dois grupos de que não sou fã nem faço parte mas que contribuem, sem dúvida, para fazer de Palma o que é.

Ontem começámos as tapas no 5ª Punheta (em espanhol de Espanha é o equivalente de "atrás do sol posto"); pergunto ao jovem e simpático senhor do balcão se sabe o que significa em português e ele responde-me num escorreito português do Brasil que sim; e que no espanhol da América Latina também. As tapas estavam óptimas, o tinto da casa igualmente, e o meu vocabulário saiu enriquecido.

........
Acabo de ter a confirmação de que tenho o trabalho no A. Largamos amanhã para a Holanda, não sei que porto. Dez a quinze dias de viagem. Gostaria que fosse um bocadinho mais, mas é melhor do que nada. Melhor do que Palma, até.

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Hoje fui cumprir uma promessa e fui almoçar ao mini restaurannte Casa Julio.


Nunca tinha ido a um mini restaurante e além disso estou a morrer de saudades do meu amigo Júlio, que agora cria cães d'água portugueses no Alentejo.

Afinal o mini restaurante Casa Julio (do qual, aliás, já tinha tido as melhores referências) de mini não tem nada.





Muito pelo contrário, como se pode ver. E come-se lindamente, Júlio. Vê lá se vendes meia dúzia de ninhadas até ao fim do mês, que lá por volta da primeira semana de Outubro estarei por cá de novo.

A luz de Palma não é tão bonita como a de Lisboa, mas também tem coisas giras. Gosto muito da Rambla, mesmo ao lado de nossa casa,


e deste prédios, não muito longe.




De maneira agora hesito entre ir beber o que sobra do iPad (é uma expressão literária, querida, nada de sustos) ou ir dormir a sesta. Com um bocadinho de sorte e uma gestão apertada do tempo posso fazer as duas coisas.

16.9.12

Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha, 16-09-2012

Muito devagar, passo a passo, espirro a espirro, o verão vai-se embora. Já de vez em quando à noite é preciso uma manta; de manhã um pico, um arrepio, uma surpresa estimulam o passo e fazem-me querer chegar depressa à minha mesa, esperar pelo café que já vem mesmo sem ser pedido e sem açúcar nem colher. 

O sol está perto do Equador, muito perto; meia dúzia de dias e passa para o lado de lá. A T. também está perto do seu equador: mais um dia ou dois e começa a trabalhar. Agora falto eu; onde estará a linha? Preciso de voltar para o mar, por muito que goste de Palma. Nem que seja para uma saída de fim-de-semana, para meia dúzia de horas.

A terra tem poucas supresas, é sempre igual; o mar não. Muda constantemente, apesar de parecer o contrário a quem o vê de fora. Em terra todo o marinheiro é triste; ou será a terra que é triste?

Ontem fomos ao concerto do G. e da sua banda, os Fruto de la Manga. São muito bons, o Bluesville estava apinhado. T. cantou duas canções. Foi a primeira vez que a ouvi cantar num sítio assim, "profissional"; o público gostu muito. Eu também, apesar de preferir ouvi-la a cantar jazz.

A vontade é um labirinto misterioso, incompreensível até se lhe ver os resultados.

Salvação, futuro

O século XIX e parte do XX viam a salvação no futuro; para melhorar era preciso andar, olhar, sonhar para a frente. É lamentável que para a nossa época a "salvação", a solução estejam no passado.

As pessoas olham para trás, desconfiam da ciência, têm medo do que as espera. Talvez seja por isso: habituaram-se a esperar pelo futuro, em vez de o fazer.

15.9.12

Relação ou consequência

Jorge Luís Borges fala de um povo que não vê relação entre o acto sexual e a gravidez (ou o nascimento, não me lembro).

As pessoas que pedem menos austeridade fazem-me pensar nesse povo: Sócrates andou a fornicar o país durante anos e elas não vêem a relação dessa fornicação com a presente austeridade.

(E pedem menos austeridade, mas isso é porque o homem falava bem, provavelmente; e muita gente gosta de emprenhar pelos ouvidos, dá menos trabalho).

Destinário errado?

As pessoas que "querem as suas vidas" deviam talvez dirigir o pedido a Sócrates, não? 

(Além de que uma manif em Paris tem outro chic.)

Resgates e orgulho

A Espanha está a fazer tudo o que teria de fazer se pedisse um resgate; assim, quando o pedir, poderá negociar as condições e pretender que continua a mandar. 

13.9.12

Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha, 13-09-2012

Hoje vamos a uma festa em casa de G. Ia levar tapenade e hummus mas a verdade é que estou um bocadinho farto de ambos e acabámos por optar por uma bola de carne, que nunca fiz.

A minha maneira de cozinhar faz-me pensar naquela história dos dois cegos que entram num avião e, tacteando com as bengalas, perguntando aos passageiros da primeira fila de cadeiras onde é a cabine de pilotagem, lá acabam por encontrá-la. Sentam-se, ligam os motores e os passageiros, que até ali tinham pensado que era uma piada respiram funda e audivelmente.

O avião dirigiu-se para o início da pista e o aaahhhh dos passageiros tornou-se mais audível; acelerou e começou a corrida para descolar e o barulho do medo sobrepôs-se ao dos motores; até que o avião chega quase ao fim da pista, os passageiros não aguentam mais e gritam AAAAAAAAAAHHHHH. Nesse momento o avião descola e um dos pilotos diz ao outro "qualquer dia eles não gritam e espatifamo-nos".

Hoje foi assim com a bola; vamos ver se está boa. Se as pessoas gritarem acertei.

Não nos podemos queixar: temos comido a preços módicos e mais ou menos correctamente. No outro dia comprámos um frango que deu para uma canja, um frango corado no forno e acabou, honoravelmente, como recheio de fajitas.

Por vezes comemos fora: tapas, pintxos, porciones. Sempre me deu prazer descobrir que os meus preconceitos estão errados; mas poucas correcções foram tão agradáveis como a descoberta de que, contrariamente ao que pensei durante anos (seria mais correcto dizer gerações) a comida espanhola é excelente. Não é uma iluminação recente, mas a sua confirmação ainda hoje me faz dar graças a tão persistente preconceito - quanto mais enraizados e persistentes mais agradável é descobrir-lhes o engano.

Tivemos sorte com os nossos amigos de Palma. São ambos argentinos mas de planetas diferentes - um músico, outro técnico em electrónica naval; conheceram-se em Antigua, onde G. foi tocar o inverno passado. Através deles, cada um por seu lado, temos vindo a descobrir a cidade de uma forma particularmente aprazível: a Palma dos argentinos talvez não seja muito diferente da outra, mas é de certeza muito mais simpática.

A ver se a simpatia se mantém depois de provarem a broa.

Da série "É a PR, estúpido"

Pacote dois em um

O PSD apresenta sobre os outros partidos a vantagem de ser simultaneamente governo e oposição. 

Já agora...

...alguém me pode dizer como é que a esquerda portuguesa reagiu aos anúncios do (ámen, genuflexão e vénia) Hollande?

Time gap

Este gajo está a falar para Vítor Gaspar ou para Teixeira dos Santos?

12.9.12

Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha




Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha






Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha





Não sou, nunca fui, grande turista. É raro ir a um sítio qualquer para descansar, ou para visitar, ou para não fazer nada. As fotografias reflectem essa incapacidade; mas são a minha forma de me apropriar a cidade e é por isso que as faço. 

11.9.12

Cobardia, cobardia, cobardia

"Um deputado sob anonimato"? Entre deputados "independentes" que saem da sala para não desobedecer ao partido pelo qual foram eleitos e deputados que falam sob anonimato a corja é realmente linda. Cheira bem. 

9.9.12

Lisboa, Dezembro 2008



Cartagena, Setembro 2012


Palma de Mallorca, Setembro 2012



(Clicando nas imagens vêem-se todas, coitadas.)

Gibraltar, Agosto 2012



Londres, etc.


(Fotografia de TVP)

Gatos, etc.


Pôr-do-sol, etc.


Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha, 09-09-2012

Descobri Barcelona em 79 ou 80 pela mão de um casal peculiar: ele era basco, baixo, moreno quase escuro e falava espanhol e francês; ela era alemã, loira, alta e falava alemão e inglês. Entendiam-se porque frequentavam ambos a escola de mímica e comunicavam entre eles mimando.

Viviam no Barrio Chino, e a Barcelona com que tomei contacto foi a deles, claro:  porros de vinho e dos outros (muitos de ambos), tascas de "artistas" (alguns não mereciam aspas, verdade seja dita), ensaios de números de circo para a escola - dos quais um me ficou e ficará para sempre na memória.

Barcelona mudou, eu também, e os artistas (sem aspas; os outros estão iguais) muito mais. Pensava nisto ontem quando percorríamos as ruas de Palma com G. e A., os nossos amigos de Mallorca, através de quem conseguimos a casa. Ele é músico de rua, ela fotógrafa e levam-nos depois do jantar para o quarteirão "das prostitutas e dos ciganos".

O bairro é asséptico (em Barcelona o Barrio Chino desapareceu, pura e simplesmente; e poucos se lembravam dele, quando uma vez por lá andei à procura), as prostitutas invisíveis, de ciganos nem traços. Em Barcelona já ninguém bebe vinho por porros (se bem continuem a fumá-los, provavelmente com outro nome). O mundo está mais limpo; suponho que devo acrescentar "e ainda bem". Não acrescento. O que é inevitável é desinteressante. Só interessa o que temos possibilidade de alterar. Falar do vento não o muda.

O que interessa é o que gosto desta cidade, das suas árvores e da luz que elas filtram, da convivência harmoniosa de casas antigas e casas modernas, do ritmo lento e pacato das pessoas. Tal como amar uma pessoa, amar uma cidade é, sobretudo, querer conhecê-la. Ama-se o que (ou quem) não se conhece; amar é aprender. Quanto mais houver para aprender maior é o amor.


"Que fazer com Portugal?"

Este artigo  - do qual não estou a 100% de acordo com a conclusão (prefiro a democracia directa a qualquer outra forma) - devia ser lido. Para o adaptar a Portugal haveria muito poucas mudanças a fazer.

8.9.12

Literacias, coragem

Uma das coisas que mais admiro na oposição socialista é as coisas que ela sabe. Sabe para burro, passe a expressão. É admirável, incompreensível e injusto ter deixado o país no estado em que deixou, quando estava no governo. Devem esquecer o que sabem, quando governam.

Já quanto à cobardia estou de acordo. O autor deste post sabe do que fala quando fala de cobardia política; e a verdade é que Pedro Passos Coelho devia ter tido coragem para anunciar reformas a sério. Aposto que o PS, e todos aqueles que se aproveitaram do regabofe socratista se extasiariam: "o homem tem coragem".

Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha, 08-09-20112

A viagem acabou, finalmente. O S. está limpo e entregue. Mais de três semanas para fazer 800 milhas é um recorde. Espero não ser forçado a ultrapassá-lo em breve.

A viagem foi o habitual no verão mediterrânico: 80% de motor, 20% de navegação estupenda. Tivemos sorte com os dois últimos barcos, ambos bastante bons; a ver o que nos vai sair na próxima rifa.

A chegada foi festejada com um magnífico jantar na Bodega d'es Port, em Alcudia, no norte da ilha. Óptima comida típica maiorquina, preços acessíveis,  serviço de um profissionalismo e simpatia inexcedíveis: do aspecto gastronómico da viagem tão pouco nos podemos queixar. Começámos em Londres com um jantar etíope, deliciámo-nos com tapas em Barbate, comemos pessimamente em Aguadulce, não-tivemos dinheiro em Denia... uma paleta variada.

Em Palma vivemos no centro da cidade, num bairro que é mais ou menos o equivalente do Príncipe Real em Lisboa, perto de tudo mas longe da confusão. Faz-me pensar em Zurique, onde vivia no Niederdorf; e penso na quantidade de lugares maravilhosos que tenho habitado ultimamente: o Reef Gardens em Antigua, a "casa do vento" no Marin, o Portal da Amazónia em São Luís. Quem não tem casa tem casas, quem não tem país tem o mundo, passe a derrapagem.

Escrevo numa esplanada de uma rambla de Palma, à sombra de duas fiadas de plátanos muito altos; as copas unem-se para formar um túnel verde e, onde chega o sol, amarelo. O passeio central é ocupado por quiosques de floristas cujo cheiro me chega por vagas, como se quisessem que não me habituasse a ele. Ainda é cedo para uma manhã de sábado espanhol, e a rua tem pouca gente. Está calor, as mulheres são bonitas, o barulho do trafego suportável, o empregado do café simpático, o sítio lindo; há decerto melhores maneiras de começar um dia, mas esta satisfaz-me plenamente.

Mais impostos

É uma pena ver este governo tomar medidas que a esquerda vai com certeza aprovar.

30.8.12

Indignação, cortina de ferro

Estes posts fazem-me pensar que para a indignação a cortina de ferro ainda existe.

Cartagena, Múrcia, Espanha, 30-08-2012

29-08

Não sei se li, inventei ou deturpei que em Espanha só os tesos e os turistas é que se passeiam pelas ruas antes das cinco da tarde. Nós integramos às vezes uma dessas categorias e permanentemente a outra; hoje foi dia de dupla apartenencia:  andámos pelas ruas desertas de Cartagena até o próprio sol troçar de nós e nos refugiarmos na Heladaria Reina Sofia, que não é tão boa como o Santini mas está mais perto.

A cidade tem as ruas bem tratadas e os prédios mal; eu preferiria o contrário se pudesse preferir fosse o que fosse. Como não posso, limito-me a aceitar o facto simples e linear de que o fachadismo não é, nem de longe, pecha exclusiva dos nossos autarcas. 

O calor faz da luz uma coisa branca, leitosa, como se o sorvete de limão da Heladaria Reina Sofia tivesse derretido nas praças, nos prédios, nas ruas, nas árvores.

A sudoeste de Cartagena há um cabo chamado Tiñoso. Todos os cabos deviam chamar-se assim, por muito bonitos que sejam - e este é-o, quase tanto como o de S. Vicente, que, verdade seja dita, é muito mais tinhoso.



27.8.12

Prudência, saber

A prudência complementa muito bem o saber; mas não o substitui.

25.8.12

Marina del Este, Andaluzia, Espanha, 25-08-2012

Fuengirola

Um gajo vai pelo cais de recepção da Marina de Fuengirola e a primeira coisa que vê é o café Ku-Damm (o menu inclui Goulasch e Sauerkraut). Ao lado, ou quase, há o Welcome Arms, e mais ou menos entre os dois o Schnitzel Haus. A caminho do duche ainda vê, não muito longe, o London Arms. Os turistas gostam, definitivamente, de se sentir em casa.

Em Gibraltar havia mais coisas escritas em espanhol do que aqui.

De resto, as surpresas são poucas e irrelevantes. A praga das pizzerie tem fraca expressão, por exemplo: uma só (na Marina. Aposto que a cidade está pejada delas). Os prédios são muito ligeiramente menos feios do que esperava; nem todos os bares têm televisão; há lugar na Marina em Agosto (tem havido "menos barcos este ano" em todo o lado, desde Portimão).

O dia de vela foi glorioso, o melhor em muito tempo: força 5 na alheta, sol, o S. a mostrar de novo o que tem no ventre; e é bastante. O barco é realmente espantoso de bom. Desembarcamos daqui a dias, mas lembrar-me-ei dele durante muito tempo.

Esta navegação diária (F. não gosta de navegar, muito menos à noite; faz esta viagem para não decepcionar o marido) é cansativa. Gostava de fazer dois ou três dias seguidos de mar. E se fossem semanas ainda melhor.

Uma caneca de cerveja diz-se um "tanque de cerveza". A exactidão tem uma beleza própria, que dispensa comentários.

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À chegada aos portos o calor tem sido infernal - perdão, celestial, já que tínhamos acordado, há tempos, a infernalidade do frio de Brighton. O calor aguenta-se melhor. Com mais duches e mangueiradas, menos roupa, mais copos de água fresca. À nossa frente no pontão está o O., um belíssimo Oyster 54 que era nosso vizinho em Brighton. Lembro-me do West Jetty nos dias de chuva e vento e sinto-me grata por estar a morrer de calor. Esta morte, ao contrário de outras, passará em Agosto (a menos, claro, que tenhamos a sorte de ir morrer longe, de preferência nas Caraíbas, já em Setembro ou Outubro).

F. adora os andaluzes e diz que se sente andaluz. Têm um sotaque fechado, como se falassem com a boca cheia de batatas, mas são simpáticos e atenciosos e estão sempre em festa. Vez por outra, há um de cara tão fechada como o sotaque, como a mulher que na praia de Barbate amaldiçoava o filho, um matulão de 11 anos, por alguma coisa que lhe fez. Gritou-lhe que se iria ver con su padre e, mais tarde, vimo-los passar de carro numa rotunda: o pai a conduzir, o filho ao lado e a mãe atrás a sovar o miúdo, todos numa gritaria aciganada. O quadro era tão dramático como a expressão enraivecida da mulher, mas a verdade é que nos desmanchámos a rir com aquela crise.

Há dez anos que não ia a Gibraltar. Não tendo nada a ver, fez-me lembrar St. Martin: a fúria duty free misturada com uma magnífica paisagem natural e um improvável aeroporto mesmo ao lado da marina. A Rocha é imponente e, tivesse havido tempo, tê-la-ia visitado com gosto. De resto, é surpreendente ter aquele bocadinho de Reino Unido em Espanha, em que os semáforos nos dizem "WAIT" e as bicicletas contam tanto como os automóveis.

Mas o importante foi a passagem. Pensar que há uma parte do mundo em que Europa e África, tão diferentes, quase se tocam é tão emocionante como atravessá-la. A bombordo uma tão próxima e familiar, e a estibordo a outra, mais longe e coberta de neblina, como um desejo que não se realizou. O Estreito, para quem tem destino marcado, é mais largo do que parece.

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Marina del Este

A marina é minúscula, mas muito bonita. "Há menos barcos este ano", diz-me de novo o marinheiro quando lhe pergunto se é normal haver lugar assim, sem reserva, em pleno mês de Agosto. Bem pode ser o refrão da viagem.

Qualquer dia chegamos. Temos tido sorte com os barcos - tanto o D. H. como S. são soberbos, cada um no seu estilo. Só espero que continue assim. E que as viagens sejam mais longas. Navegar oito horas por dia é, seja Deus louvado, infinitamente melhor do que trabalhar num escritório o mesmo número de horas; mas é pouco. Há muito mar por essa proa; ou, como escreveu le Clézio, "il n'y a jamais assez de mer pour les visages aigus des bateaux". Não conheço frase mais bonita, nem mais exacta para definir o que sinto cada vez que tenho de entrar num porto ao fim de tão pouco tempo no mar, e com tanto e tão bom vento para navegar.

(Post a duas mãos.)

23.8.12

Gibraltar, Reino Unido, 23-08-2012

I - Barbate
A vida devia ser um longo, interminável verão. Teria sido, não fora o frio e o mau tempo e a chuva desde antes da Horta. Só no Porto comecei a apanhar um tempo decente; e só agora estou no verão, no Sul. Barbate é o porto onde se espera pelo vento de Oeste (Poniente) quando se vai para o Mediterrâneo; há também quem o use para descansar de uma travessia difícil no outro sentido. 

Não vinha cá há trinta anos. Podia dizer que está diferente, claro; mas a verdade é que pouco me lembro. Na altura chamava-se Barbate de Franco e era um porto de pesca, com uma entrada difícil, estreita, e uma rua com muitos restaurantes. Agora é um porto de pesca com uma marina e uma entrada fácil, longe da cidade, com um passeio marítimo frente à praia.

Como todos os passeios marítimos do mundo é uma longa sucessão de restaurantes e tendas de produtos para turistas. 

Estamos longe do rigor pombalino de Vila Real; e perto do norte de África, aqui mesmo ao lado.

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Almôndegas de choco, tortilla de camarão, espetadas de camarão, vinho tinto, a praça, pequena, incaracterística e incompreensivelmente bonita. Tudo é bom, amo tudo, (e amo-te mais do que tudo, mas isso é outra coisa). Há que destruir urgentemente o mito de que em Portugal se come bem. Não come. Pode comer-se bem, o que é diferente. O equivalente da tasca onde estamos, em Portugal, seria uma nojo.

Referência especial para a Salazone de Mojama, ou a arte de transformar atum em excelente presunto . Isto no De Pinxos y Tapas, calle Bogavante, s/n, 11160 Barbate (Cádiz), tel.: 699 35 81 48

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O excesso de prudência, ou medo para ser mais conciso, é sem dúvida o complemento ideal da ignorância; o problema é que os medrosos confundem ter medo e saber. São coisas diferentes.

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II - Gibraltar

Gibraltar, uma vez mais. Gostaria de ter ido à Roca, mas desta vez não deu. Fica para a próxima, que não estará longe.

A cidade é sempre a mesma: turismo de compras, a Main Street com lojas de bebidas, relógios, electrónica, bebidas, tabaco, joalharia, electrónica, relógios, de vez em quando um pub. A Gibraltar Bookshop resiste heroicamente; e o Angry Friar, onde escrevo estas linhas, também.

21.8.12

Barbate, Andaluzia, Espanha, 21-08-2012

Brighton, Londres, Lisboa, Portimão, Vila Real de Sto. António, Cádiz, Barbate... As cidades passam como se estivéssemos num comboio: descemos para uns passeios no cais, espreitamos o café do outro lado da rua, e ala que o apito toca.

Em Londres não foi bem assim, verdade seja dita. Uma ida ao Globe, jantar num restaurante etíope, passear no British Museum, jantar tardio em Chinatown, passear à beira do Tamisa  é mais do que espreitar o café do outro lado da rua. E Lisboa também não: por muito de passagem que se esteja, nunca se está de passagem na nossa casa. Uma casa da qual não se conhecem todas as divisões, claro. Fui pela primeira vez ao café Zazou, uma sala que ainda não conhecia mas que a partir de agora vai fazer parte do roteiro.

A passagem do cabo Trafalgar foi memorável. Três nós de corrente a favor, vinte de vento contra, uma passagem estreita, muito estreita, com mar a rebentar a estibordo e terra a bombordo. Que pena tenho de quem tem medo; e que inveja tenho do medo: é a mais ditatorial das emoções, sobrepõe-se a todas as outras. Quem tem medo ganha sempre (enfim, quase sempre).

Agora estamos em Barbate, uma escala que vai ser mais longa do que as outras porque precisamos de fazer uma reparação que exige pôr o barco em seco.   Sabe bem, esta pausa. Barbate é o primeiro sinal de Sul que vemos: uma praia cheia às sete da noite, palmeiras, calor, calor, calor. Que bom é o calor à beira-mar.

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Voltar a Lisboa como se não tivesse nascido em Lisboa. E a Portugal como se já não vivesse lá -- e é verdade que não vivo, não vivo em lado nenhum. Voltar a casa é outra coisa, aos braços dos meus pais e avós, aos sorrisos dos meus irmãos, às sardinhas assadas e saladas de pimentos, ao pão com manteiga e ao café com leite. Ainda assim, sete meses não bastaram para que queira voltar. Essa coisa da crise sente-se no ar como o mar aqui tão perto, que não se vê, de tão escuro que se pôs. «Claro que não é tarde, aqui em Espanha janta-se às 23.» Eu não estou em crise; estou em trânsito. Sou, sem me dar conta, dos lugares onde estou. E quero ser de cada vez mais.

Não vi a passagem do Cabo Trafalgar. Com o sono que tinha, nem Trafalgar Square me manteria acordada. Desabituei-me de quartos nocturnos, mas quero mais - neste último que fiz vi uma estrela cadente e um pássaro mágico. Hoje apanhei um escaldão que se transformará em bronze a limpar S., um barco confortável e bom de manter de um ponto de vista feminino: pequeno, novo, limpo a priori. A armadora F. é adorável, divertida, belíssima anfitriã. Lamento muito a sensação que tenho de que não vamos cumprir o nosso objectivo: fazê-la gostar de navegar. Como pode ser que a coragem e generosidade que demonstra -- tentar acompanhar o marido numa coisa que ela detesta e ele adora -- sejam menos implacáveis do que o seu medo?

Não sei se é do calor, se da viagem (simples, fácil, quase férias), mas hoje o meu futuro é hoje (pleonasmo propositado). Às vezes surge-me más adelante e sopro-lhe, mando-o passear. A felicidade é uma coisa simples, desde que não se defina. Tudo é simples, desde que não se defina.

(Post a duas mãos. Amanhã há mais.)