1.12.12

Ah, la Fraaaaaance, la Fraaaaaance

O Governo francês chegou a um acordo com o grupo ArcelorMittal. Basicamente o grupo faz o que queria fazer (fechar dois fornos); em troca compromete-se a investir 180 milhões de euros em cinco anos naquelas instalações (até aqui investia 30 por ano; aposto que não vai mudar muito) e a não despedir os quase 700 funcionários que trabalhavam nos fornos.

Até aqui nada de especial - enfim para França, claro. Eu pergunto-me o que fará uma empresa investir na Gália sabendo que as suas decisões de gestão podem ser contestadas pelo governo, por exemplo.

Realmente engraçado é a formulação do acordo: "perenizar e reforçar as actividades ligadas ao sector frio" (a tradução é minha); ou "o grupo garante a sua permanência [ancrage] em Dunkerque e em Fos-sur-Mer".

O que não é mau, se pensarmos que um palhaço chamado Arnaud Montebourg, ministro da Renovação Industrial (gosto deste ministério e tento sempre pensar nele quando preciso de rir e não encontro melhores motivos) - um senhor que acha, entre muitas outras coisas (é um senhor muito achista) que "desmundializar" é o melhor caminho - queria expulsar a ArcelorMittal de França.

Venturas

Não concordo com o a de aventura: aventura é um excesso de ventura, não uma carência.

Liberdade, nunca é de mais recordá-la

Um grande post.

Claro que se pode lamentar ter sido necessário escrevê-lo, ou lê-lo (acrescento "em 2011", fica sempre bem). A verdade é que se o homem não mudar muito - e nada indica que vai mudar muito, e ainda menos depressa - daqui a mil anos ainda será necessário escrevê-lo. E haverá meia dúzia de bloggers de então a aconselhar-lhe a leitura.

Os grandes desastres da humanidade nascem quando alguém quer impor "a verdade", seja ela científica, em nome de uma humanidade melhor, ou seja do que for que uns sabem e acham que os outros devem saber também.

"O seu filho não tem os olhos fechados, senhor. O seu filho é japonês."

O OE2013 tem bastantes defeitos e uma qualidade; mas é uma qualidade tão grande, tão inesperada, tão bem vinda que eu não sei se só por isso não devíamos felicitar o governo: já não me lembro da última vez que ouvi falar no "modelo sueco"; nunca vi tantos socialistas a reclamar tanto contra os impostos. Obrigado, Vítor Gaspar. 

Bordéus e a televisão

Mais uma da televisão francesa (enfim, esta de um viticultor francês, "originário da região [Bordelais]): "eles [os investidores estrangeiros] são um problema porque fazem subir o preço dos terrenos artificalmente".

Isto suscitaria várias questões, claro: o preço dos terrenos na região de Bordéus só subiu quando os estrangeiros começaram a comprar lá quintas? (Na realidade os estrangeiros compram terrenos em Bordéus desde pelo menos o século XVIII, mas isso é outra história.) O preço dos vinhos de Bordéus é estratosférico por causa dos compradores estrangeiros; também se queixam? Por cada estrangeiro que compra a preços elevados não haverá um francês que vende a preços elevados?

O jornalista esqueceu-se de fazer estas perguntas, e eu regressei à minha resposta habitual: desliguei a televisão. É preciso provar-se regularmente aquilo de que não se gosta, para confirmar que se continua a não gostar.

A revolução industrial foi ontem

Há pouco ouvi na televisão francesa esta frase magnífica: "será ele [Lakshmi Mittal] um industrial, um empreendedor [o termo utilizado pelo locutor foi bâtisseur, literalmente construtor] ou não passa de um financeiro?"

28.11.12

Barcelona, Catalunha, Espanha, 28-11-2012

Os dias foram difíceis; mas não é por isso - antes ao contrário - que não se tomam decisões. São para tomar e executar logo, sem muito tempo perdido em lamentações nem arrepanhar de cabelos (dos quais de qualquer forma tenho cada vez menos).

Se no R. B., barco para o qual tínhamos tudo e mais alguma coisa a favor não conseguimos embarque não valia a pena insistir muito mais. Ou seja: vamos de avião para Antigua. Com muita pena e alguma bagagem, pouca, felizmente.

Vamos por um caminho complicado: Barcelona, Paris, Martinique. Ivan Illich, um  dos raros intelectuais de esquerda que respeito [acabo de encontrar uma citação dele que me fez pensar na reacção histérica a Isabel Jonet: "In a consumer society there are inevitably two kinds of slaves: the prisoners of addiction and the prisoners of envy"] escreveu um livro chamado Energy and Equity no qual fala, entre outras coisas, da relação entre o poder e a energia. Eu penso em dinheiro versus tempo. Tempo é dinheiro? Sem dúvida. Mas a relação entre eles também é inversa: quanto menos dinheiro, mais tempo - para ir de um lado para outro, por exemplo.

Não sei se gastámos mais ou menos energia vindo de avião para Barcelona, apanhando um comboio nocturno para Paris (qual a energia de um quarto de hotel que se poupa?), avião para a Martinique - o bilhete é mais barato do que para Antigua, e no meu Marin, onde isto tudo começou, ou arranjo um job ou uma boleia para "a minha casa", por enqanto ainda com aspas.

De que gastamos muito mais tempo há, em contrapartida, poucas dúvidas.

E aventuras. Hoje roubaram-me o saco do computador; pouco tempo depois o senhor que mo roubou devolveu-mo - na pressa não reparou que a máquina estava à minha frente na mesa e não na mochila (não me disse isso, claro. Balbuciou outra coisa qualquer e desapareceu). Foi simpático da parte dele, mas não me impediu de o assinalar a dois polícias que pouco depois passaram por ali.

Enquanto isso, eu tentava lidar com a Air Caraïbes, que num anseio anulou o meu bilhete pois fora pago com um cartão de crédito que não era meu. É simpático para o dono (neste caso a dona) do cartão; mas chato para mim - gastei o saldo internacional do telefone, a bateria do computador e a bateria do telefone (por esta ordem) a tentar repor a reserva, não fosse a dona do cartão ter de ir sozinha para a Martinique e eu por aqui ficar sozinho.

Tudo se compôs, claro - os problemas acabam sempre por se resolver, se não não seriam problemas - e tivemos um bónus: conseguimos uma tarifa especial no comboio da noite.

O prémio disto foi: um dia esplêndido em Barcelona. De manhã no Mc da estação de Sants (por causa do wifi gratuito); à tarde no restaurante da estação de França (por causa do wifi gratuito, da beleza e conforto do local, para carregar baterias - literais - e para escrever entretanto).

É realmente lindo, o sítio (esta fotografia está simultaneamente esplêndida e realista; estas também). Quando saímos do aeroporto viemos para aqui. À noite o Restaurante Station Barcelona transforma-se em piano-bar, café-concerto, cabaret, dependendo dos dias; ontem foi dia de tango, por exemplo, e estavam bastantes pares a dançar. Era bonito, parecia que estávamos não a caminho de Paris e à procura de um quarto mas no meio de uma viagem no tempo, à espera do coche que nos ia levar para o palace mais bonito do século passado. É um sítio para casais adúlteros, desses que sonham deixar tudo para trás e começar de novo no outro extremo da linha (a linha não tem extrems, mas isso é outra história).

(Acabámos num quarto bastante aceitável a vinte euros, pequeno almoço e IVA incluídos.)

Não vou ter tempo para mostrar Paris: um caso de proporção directa entre dinheiro e tempo.

América, América

Porque é que nos Estados Unidos a venda de armas - cujo objectivo é fazer mal a terceiros - é livre e a venda de drogas - que só fazem mal a quem as compra - não?

27.11.12

Em louvor da idade

A partir de certa idade um gajo sabe o que espera de uma relação. Não é muito: o amor já foi reinventado milhões de vezes e nenhuma delas serviu para grande coisa se não para vender livros, filmes, peças de teatro e fazer crer a alguns jovens mais ou menos desprevenidos que são únicos.

Tão pouco espera grande coisa do mundo: já foi refeito milhões de vezes e continua sendo o que lhe dá na real (ou republicana, ou caótica, ou ditatorial) gana. Mudá-lo proporcionou, é certo, algumas noites de magníficas conversas, muitos copos, alguns manifestos, muita esperança; mas bombas, também, violências, milhões de mortos.

Mais vale deixar o mundo como está e tentar, se for absolutamente imprescindível, mudar algumas coisas que nos estão próximas. O mesmo com o amor: ir fazendo de conta que ele existe; e aproveitar o que fica para lá dele, que é muito mais, e muito mais importante.

26.11.12

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 26-11-2012

Dias difíceis. Não sou muito dado a "já-estive-aquis-e-alis", mas um dia gostava de fazer uma lista dos sítios onde já fui feliz, infeliz, onde já tive fome, onde já não-tive dinheiro, onde já fui rei. Seria um mapa muito mais interessante.

Jantar improvisado - Peixe no forno com presunto e pimento verde

Não sei se comece por dizer que o pimento verde a que o título se refere é o pimento de Maiorca, mais suave e infinitamente melhor do que o pimento verde habitual. Ou se por falar no peixe: dois lombos de tamboril congelado e rasca, que poor causa disso, e só por causa disso foram salpicados de sal, cobertos de rodelas de limão e aspergidos com um bocadinho de sumo dos ditos e assim ficaram de um dia para o outro.

Fosse o tamboril tamboril e fresco e dispensava o limão, ou pelo menos durante tanto tempo.

Depois foi muito fácil: o nosso supermercado vende uns presuntos das patas dianteiras do porco a preços ligeiramente inferiores aos da uva mijona, sendo o sabor praticamente o mesmo (do presunto normal, não da uva mijona). Já vem cortado em rodelas (muito largas) e tudo.

No tabuleiro de ir ao forno pus azeite, o peixe, as rodelas de limão e uma cebola idem, o pimento verde de Mallorca; ao lado, o presunto, com a pele e gordura. Ficou no forno "até o peixe estar cozido" (com aspas porque cito a minha Mãe, para quem os tempos de cozedura fosse do que fosse era "até estar cozido").

De um mau peixe não se consegue fazer um bom, é como sei lá com as bananas, os sapatos ou as gravatas; mas consegue-se pelo menos disfarçar. E a verdade é que este prato merece ser recordado para um dia que tenha presunto e peixe bons; já que pimentos de Mallorca não terei pelo menos por alguns meses.

24.11.12

Qualidade

Escrever é isto.

Apartheid 3

"Uma África do Sul democraticamente pobre" traz-me à mente uma pergunta: será que todos são pobres, nessa África do Sul que aí vem? O apartheid era odioso; o sistema que aí vem não será muito melhor. O círculo do optimismo é muito reduzido.

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 24-11-2012

A ideia era só escrever quando houvesse boas notícias; mas não as há. Só más e muito más, em todas as frentes. O R. B. escolheu outros tripulantes para a travessia e há cada vez menos barcos em Palma. As perspectivas de atravessar o Atlântico de barco são quási nulas.

As duas ou três últimas semanas foram difíceis: doença, hospital (por meia dúzia de horas, só; mas foram duras, as horas). E agora isto. Desta vez não posso correr com o tempo; e pôr-me de capa tão pouco. Há que continuar a marchar. Esperam-me uns dias largos de bolina, dias sem vento ou com ele a mais. Mas não podemos parar.

Sobretudo parar em Palma. Estou farto da cidade até à ponta dos cabelos e ela não tem culpa nenhuma - continua a cidade afável e bonita de há dois meses e meio. Mas os sítios onde estamos não são o que são, são o que nós somos, ou como nós estamos. "Não vemos as coisas como são, vêmo-las como somos", escreveu Anaïs Nin; ou como estamos, talvez seja mais exacto.

Só penso em Antigua. A ver se desta vez é tão bom como da outra; a ver se é lá que um dia terei um país. Algo me diz que não, que ainda não é desta. Mas é preciso ir ver.


Apartheid 2

Obviamente, é preferível uma África do Sul democraticamente pobre a outra rica devido ao apartheid. Sobretudo para quem não vive lá.

O que nos levaria a pensar o que a maioria dos sul-africanos teria feito se soubesse no que a ANC se iria tornar. Mas isso é irrelevante: na História não há condicional.

Apartheid

O apartheid foi um regime odioso. Mas manteve-se durante tanto tempo por razões políticas, nada tinha a ver com as raças. Daqui a vinte anos, quando a África do Sul for um país africano como os outros, as pessoas aperceber-se-ão, finalmente, disso.

Razões

De todas as razões que fazem um casal manter-se unido há duas particular e igualmente poderosas: o dinheiro e o trabalho que daria manterem-se separados.

23.11.12

Viajar - 2

Para viajar com olhos de ver o ideal seria não saber ler, não ter memória, ser surdo. Ter sido cego antes de cada viagem, quase.

Paradoxo

Amar alguém é amar-lhe os defeitos. Quanto maiores ou mais detestáveis estes forem maior o amor.

Viajar

Tenho viajado muito, é verdade. Mas raramente sozinho: a maioria das vezes vou comigo.

Ideias ladradas

A falta de cultura do debate em Portugal é aflitiva; a divergência de opiniões é vista quase como um insulto. É provavelmente por isso que o debate político tem o nível que tem: cães a latir uns aos outros exprimem mais ideias do que dois bloggers portugueses com opiniões diferentes sobre qualquer coisa. 

(Matilhas... O caso de Isabel Jonet faz-me pensar em matilhas de cães a ladrar.)

Escutar a RTP

Num país em que toda a gente escuta toda a gente a RTP não pode dar os brutos de selvagens a apedrejar a polícia e a destruir propriedade privada?

Não estão longe

Um gajo vê europeus defender os palestinianos - esses faróis dos direitos humanos, dos direitos dos gays, mulheres e das crianças, da lei e da ordem, da tolerância e da liberdade de expressão, garantes da paz doméstica, defensores do estado social e de tudo aquilo por que a Europa tem lutado - e não pode impedir de lembrar-se que o comunismo e o nazismo nasceram aqui, nesta Europa. E, sobretudo, que não estão longe.

22.11.12

Ele há gates e gates.

Devia haver um certo sentido da medida. Recentemente vi "Jonetgate" escrito já não sei onde. A coisa pareceu-me tão absurda que nem os ombros encolhi. Hoje, no Conciso, vejo "RTPgate". Bolas, já há muito deixámos de pedir a quem escreve nos jornais que saiba escrever; depois deixámos de lhes pedir um mínimo de cultura; vamos ter que abandonar o bom senso também?

21.11.12

"É tempo de pagar o que se recebeu"

Este video é impagável. É caso para citar a Ana Vidal: "O mundo é de quem o reinventa"!



(Via Domadora de Camaleões)

"As mentes brilhantes do crescimento económico"

Mais um desafio para a Jugular School of Arts: explicar que toda a gente, incluindo claro o presidente da Ryanair está enganada; e porquê.

Arrogância

A arrogância é uma arma de dois bicos: inquina a inteligência, exacerba a estupidez.

20.11.12

Calvinologia

- Look, Hobbes, I got a paint-by-numbers kit. It's really fun.
- But you're not painting in the lines and you're not using the colors that correspond to the numbers.

- If I did that I'd get the picture they show on the box!
- Ah!

18.11.12

Diálogos exemplares

- Dói-me a cabeça da pila.
- Não sabia que agora fazias redundâncias.

17.11.12

M.

Prologue
L'autre jour j'eus une violente, soudaine et irréparable envie de M., comme un coup de foudre dans un paratonerre.

Espiègle et coquette, M. a des grands cheveux noirs, deux grands yeux amandés, deux grands seins qu'elle porte avec une nonchalance apparente et en fait avec beaucoup de soin. Elle les enveloppe dans les soutiens-gorge d'un magasin de la specialité de notre ville, où elle se fait servir par les deux propriétaires de l'établissement, les employées n'en étant pas, à son avis, suffisamment fournies.

M. dormait les yeux ouverts, sa grande chevelure étalée sur le coussin, son regard étalé dans le vide, ses seins pendus, l'un de chaque côté du corps, satisfaits et rassaciés. Je la laissais s'endormir et partais - je n'aime pas partager mon réveil, le moment le plus intime de la journée.

En realité je n'aime pas partager mes journées, ni ma vie. De temps en temps je partage mes envies prennantes avec M., qui les accepte apparemment avec plaisir - je ne crois jamais sérieusement aux soupirs de femmes, vu l'extrême facilité qu'elles ont à les feindre; ni à leurs spasmes, pour la même raison.

Après je m'en vais. J'ai ma vie, de laquelle je ne me plains point; de temps en temps elle croise celle de M., ses soutiens-gorge, ses sourires, ses phrases dites en riant comme si chaque mot avait un deuxième sens et moi l'obligation de le comprendre.

Ele ne me pose jamais de questions, ne me demande pas où vais-je quand je la quitte, d'où viens-je quand je la retrouve;  moi non plus, je ne lui pose pas de questions: je sais qu'elle écrit dans un journal de mode, qu'elle aime le théatre et pas le cinéma, qu'elle apprécie les fleurs que je lui améne si par hasard le magasin de fleurs près de mon hôtel est ouvert.

I
Je ne sais pas si vous connaissez Lisbonne. “C’est une ville de contrastes”, disent les autorités touristiques. Elles ont raison, pour une fois. Lisbonne est un ville de contrastes: entre les magnifiques monuments et les maisons à l’abandon (il y a environ 4200 bâtiments nécessitant une réhabilitation, dit la mairie); entre les rues, belles, pavées, et l’impossibilité quasi totale de les parcourir en marchant, car les trottoirs sont pleins de voitures (et si l’on a une poussette l’impossibilité devient totale); entre la lumière, superbe comme dans toutes les villes baignées par la mer (ou un fleuve, dans ce cas) et les odeurs de pisse, d’ordures et de merde de chien. Les contrastes pourraient continuer ad infinitum. On s’en fout.

La civilisation est simplement un synonyme de police efficace. Mettez un policier entre chaque groupe de x centaines, ou x milliers de personnes; donnez-lui les moyens d’effectuer son travail correctement – et vous aurez une ville civilisée. En revanche, si votre policier est plutôt un boy-scout, “ami” de la population, dans le meilleur des cas; ou un corrompu, dans le plus commun, vous n’aurez point de civilisation.

Lisbonne n’est pas une ville civilisée; mais c’est une ville adorable – en part car elle n’est pas civilisée, en part malgré cela. J’y ai un appartement, cadeau de mon père le jour où j’ai reçu mon diplôme à l’Uni. Il est dans le quartier de la ville que je préfère, celui de Príncipe Real. J’ai une vue sur le Tage, je suis à proximité de tout et loin du bruit; j’ai de bons restaurants, un marché de produits “biologiques” (je ne sais pas ce que sont des produits alimentaires non biologiques; jamais vu une tomate en béton dans ma casserole, par exemple; ou du riz en fer forgé. Mais la désignation a pris, hommage à l’irrationalité collective d’une espèce qui se croit rationnelle et parfois parvient à faire croire qu’elle l’est).

Je ne suis pas souvent à Lisbonne et je loue l’appartement à des étrangers de passage. Si je viens pour une fin-de-semaine je descends à l’hôtel; si je reste plus longtemps j’attends que mes locataires partent et je prends mon espace comme si c’était une maison de vacances, une maison dont les objets me sont familiers mais qui n’est pas la mienne.

C’est le cas maintenant: je suis ici pour trois mois.

Lisbonne fût jadis la capitale d’un empire; je me demande aujourd’hui si elle n’est plutôt une capitale de province: on y vit comme dans un village. Les gens sont les mêmes depuis des dizaines d’années; grâce à la loi des loyers, qui provoque une hécatombe dans les bâtiments, les magasins les plus modestes se maintiennent et n’ont guère besoin de se renouveler. Les relations avec le voisinage – les petites épiceries, les cafés, la pâtisserie – s’établissent rapidement. Il suffit d’y aller régulièrement pendant une semaine ou deux et nous sommes considérés “de la maison”.

II
M. habite loin, au Parque des Nations, une partie nouvelle et relativement laide de la ville. Je vais rarement chez elle: normalement je lui téléphone quand j’arrive à l’aéroport, on se donne rendez-vous pour un peu plus tard si elle est libre ou pour le lendemain et l’on se retrouve à l’hôtel (plutôt une pension, non loin de chez moi, qui me rappelle l’appartement de ma grand-mère et non pas une auberge de luxe).

Cette fois les choses ne se passent pas ainsi: elle a, elle me l’annonce heureuse, “un home dans sa vie”.

“Ce n’est pas une raison pour que l’on ne se retrouve pas, M.” “Ok, mais cette fois je ne pourrai pas te faire l’amour”.

“Je survivrai”.

Nous nous retrouvâmes donc, les deux mois suivants, sans qu’elle me “fasse l’amour”. Nous allions à la petite pâtisserie de M. Leal, qui fait des madeleines intégrales et des pastéis de nata “meilleurs que ceux de Belém”. Nous mangions au Pão de Canela, qui me faisait croire être à New York ou à Paris, lieu favori de la bourgeoisie locale et des intellectuels (à Lisbonne sont les mêmes, quelle que soit l’appartenance politique); où au Trivial, qui fait une Perdiz à Convento de Alcântara qui parfois, en le mangeant, me donnait envie de devenir moine au dit couvent d'Alcântara; nous marchions au jardin du Príncipe Real, récemment détruit par la mairie avec des travaux de “récupération”; nous buvions des Alexanders au Procópio, ou un barman appelé Luis fait les meilleurs de Lisbonne – et avec ça les meilleurs cocktails, tout court. C’est un bar classique, avec une décoration classique, un service classique et une beauté unique.

Des fois nous allions nous promener au bord du Tage; nous nous asseyions aux Cais das Colunas, qui est un concentré de l’histoire du Portugal – en face Almada, ses horreurs, son ex-chantier naval, en arrêt depuis de décennies; derrière la Praça do Comércio, Terreiro do Paço, jadis lieu du pouvoir et aujourd’hui de mauvais restaurants pour touristes. Et nous parlions. Nous parlions beaucoup: d’elle et de son homme; d’elle et de pourquoi elle se maquillait moins, elle se soignait moins, elle s’habillait moins; d’elle et de ses doutes sur la maternité, sur la vie de famille, sur la vie de couple. D’elle et des pressions de sa famille pour qu’elle se marie avec “son homme” – il s’appelait Matias, mais elle ne le nommait que très rarement.

“Tu comprends, João, je n’ai plus besoin d’un masque, maintenant. Je puis être moi. Il m’aime, il n’aime pas mes habits, ou mes bâtons à lèvres”. “Il est ingénieur, il s’en fout de ces choses. Il n’est pas sensible aux apparences”. “Il est tellement drôle. Figure-toi qu’il ne sait pas que Pierre Cardin est une marque d’habits, où que Yves Rocher sont des cosmétiques”.

Mais au bout de deux mois elle commença à changer. M. était trop intelligente – et trop intéressée par elle-même - pour ne pas s’en apercevoir. “Est-ce que tu aimes cette petite robe? “”Que penses-tu de cette couleur?” - elle me tendait les ongles, peints comme je ne les avais jamais vus.

III
Un jour elle m’a dit “j’ai envie de te faire l’amour”. Nous sommes allés dans mon appartement du Príncipe Real, vue sur le Tage, cadeau de mon père qui, sans doute, rêvait justement de scènes comme ça quand il me l’a offert et nous nous fîmes l’amour. Nous nous fîmes quatre ou cinq mois d’amour, pour être plus précis.

Je dis nous nous fîmes l’amour car l’on ne peut, malheureusement, pas dire nous nous fîmes l’amitié. Nous nous connaissions parfaitement maintenant, après ses mois de palabres; trop bien pour tomber amoureux l’un de l’autre. S’énamourer est découvrir; dès que l’on découvre l’autre l’amour cesse et se transforme soit en amitié soit en ennui, haine ou, simplement, indifférence et distance.

Entre M. et moi il n’y a jamais eu d’amour: nous sommes passés par différents stages d’amitié, comme une rivière qui a traversé des montagnes, des plaines, des lacs et arrive à la mer la même rivière qu’au départ, mais différente – plus calme, plus large, plus profonde.

IV
“Tu sais, João? Il n’y a pas d’intérieur et d’extérieur. Nous sommes un. Nous pensons que nous avons besoin d’un masque pour séduire et qu’une fois l’objectif atteint il n’est plus nécessaire; mais ce n’est pas vrai. Nous sommes ce masque, et ce masque est nous. Il est inutile de penser que l’on peut les séparer. C’est comme croire qu’il y a une différence entre la chair et l’esprit: les deux sont faits de la même matière, naissent des mêmes cellules, croissent et se développent ensemble“.

“Je crois à l’amitié entre un home et une femme. Pas toi? “

“Oui, si la femme n’est pas la femme de mon meilleur ami, ou est très laide”.

“Je ne suis ni l’une ni l’autre“.

“Non”.

“Tu crois que je dois dire à Matias que je ne l’aime plus?“

V
“Je le lui ai dit. Il m’a remercié. Il voulait se séparer de moi et ne savait pas comme me le dire lui-même. Quel fils de pute!”

Épilogue
L'autre jour j'eus une violente, soudaine et irréparable envie de M., comme un coup de foudre dans un paratonerre. 

14.11.12

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 14-11-2012

A greve em Palma sentiu-se pouco: dois senhores a apitar numa esquina, acompanhados por uma senhora sem apito, e um "piquete ciclista" a percorrer as ruas; tudo funcionava, incluindo os semáforos. Pelo menos o tudo que usamos: lojas, o bar Gibson - actualmente o nosso escritório -, o mercado onde comprámos sobrasada para logo à noite e o supermercado de onde gentilmente,  a um preço bastante competitivo, vieram as duas garrafas de cava (os semáforos eram uma piada; só os usamos para atravessar a rua. Fazem-me lembrar aquela parte dos funcionários públicos - longe de mim pensar que é a maioria - que não dá um passo nem os deixa dar a quem quer andar).

De resto cá vamos andando, de quase em quase: quase um trabalho na Tailândia para a Tatiana, quase um transporte de Inglaterra para a Grécia, quase quase quase. Quantos quase são precisos para fazer um sim? Acho que já excedemos tudo o que é razoável, o tipo (ou a senhora) que controla a matemática da vida devia prestar-nos um bocadinho mais de atenção.

A verdade é que já não estamos em Palma; as nossas mentes estão longe, em Antigua, em St. Martin, na Martinique, nos Deux Pitons, nas Grenadines, em Grenada, tão verde e tao bonita; em Bequia, no Captain Mack's Bar and Galley ou no bar do Lucífer, que me perguntava quanto tinha pago a última vez pelas lagostas para saber qual o preço hoje (e, abençoado seja, quando lhe pedíamos um rum nos punha uma garrafa cheia na mesa e cobrava o que faltava - às vezes faltava a garrafa toda, vá lá saber-se porquê).

E não são os edifícios de Gaudi contíguos ao bar que me trazem de volta. 

13.11.12

Amor, amores

A humanidade anda há provavelmente milhões de anos a tentar definir o amor e - pelo menos tanto quanto sei - ainda ninguém encontrou uma resposta satisfatória.

A qual, na minha humilde e pouco experiente opinião é impossível porque inexistente. Não há o amor. Há amores, tantos quantos seres amados, e seres que amam.

Pois, diz-me, se tu és - e és - única, como poderia o que sinto por ti ser igual ao que senti por A., ou sentiria por B.?

Amor é uma conveniência, uma simplificação, uma preguiça. Ou, quando muito, uma falta: o que me falta quando tu não estás.

(Para a T., com carinho, amor e as mariquices do costume.)

La sémantique des pommes

L'objectif de l'exercice - établir, oui ou on, d'une façon irréfutable l'existence d'une sémantique de la pomme - s'éloigne au fur et à mesure que la nuit avance - c'est-à-dire, recule - et le jour approche. Nous étions trois - ma pomme, sa pomme et une pomme, mouillés à l'entrée du fleuve, directement dans le chenal.

Il était évident qu'il nous faudrait sortir de là, sous peine de violent coup de cargo, coup de brouillard, coup de courant, coup de foudre, coup de sifflet ou n'importe quel autre coup. Sa pomme à la barre, pomme à la bouche; ma pomme au guindeau. Le brouillard nous enveloppa. La pomme m'indiqua la direction de la marche, travers au courant; nos approchâmes la rive, avant laquelle nous savions - les cartes nautiques existant précisamment pour donnner ce genre d'information - qu'un banc de sable nous attendait.

La sémantique de la pomme étant alors établie sans marge d'erreur. Trois pommes paumées dans le brouillard se retrouvent grace à l'une d'entre elles, une carte nautique actualisée et beaucoup de chance. Mais sur le banc de sable quelqu'un avait - nous le vîmes maintenant, puisque le brouillard se lêve impromptu - construit une cabane et planté un arbre. Est-ce vraiment le banc de sable ou la rive du fleuve?

L'arbre est-il un pommier? La nuit recule, le brouillard se lève, la maisonnette est de plus en plus visible, l'arbre aussi. Toutefois, sans savoir si c'est un pommier, que faire?

Ma pomme décide de sauter à terre et passer un bout' autour de l'hypothétique pommier. Avant faut-il mouiller, c'est évident; et culer le plus possible pour que je me mouille le moins possible. Il n'y a personne à terre; à quoi ou à qui sert donc la barraque? La nuit avance, le jour approche.

Nous sommes perdus sous un épais manteau de verbiage. Les mots nous couvrent comme des corbeaux dans les péllicules de terreur. Ma pomme, ta pomme, ta pomme. Sans l'intervention d'une autre pomme - d'un autre mot - le bateau sera perdu. Quel mot choisir? Vite, il y a urgence.

J'aime sémantique; c'est de la famille de semiologie, mais plus accessible, moins m'as-tu-vu. Tu choisis pomme, car tu en as une à la bouche - les deux mains occupées à barrer. Nous pouvons choisir la lune qui mieux nous convient. Pleine lune: on voit mieux, mais la marnage sera plus grand; alors, quadrature? Que sera-t-il du bateau dès que la marée baissera? Sommes-nous entre le banc de sable et la rive?

Sommes nous entourés de corbeaux, de corps beaux? De mots? Si oui, y a-t-il une règle qui relie les corps entre eux, telle celle qui relie les mots et leurs sens, les corps et leurs sens, la beauté et la vie?

Quel mot, quel corps, quel sens choisir? Quel arbre, au fond?

12.11.12

Jantar improvisado - frango com sobrasada

Há duas ou três coisas que se podem fazer quando se está demasiado tempo em terra. Uma delas é cozinhar. (É óbvio que no mar também se pode cozinhar. Mas não é a mesma coisa; isto é, não é tão necessário.) Em terra por vezes é preciso cozinhar, para não se ter a impressão de estar em terra.

Hoje para o jantar fiz um frango com sobrasada.

Comecei por marinar o bicho em limão, sal, cebola às rodelas, alho, pimento encarnado cortado (por "sugestão" da jovem senhora - entre aspas porque sugestão é um understatement -) em bocadinhos pequenos, cava (uma garrafa dele), sal e pimenta.

Depois foi ao forno; voltei-o a meio e molhei-o de vez em quando. A metade pensante de mim fez um arroz de espinafres para acompanhar.

Deve haver receitas mais simples; mas para frango, poucas são melhores. Pelo menos até hoje.

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 12-11-2012

Mudámos outra vez de casa; agora moramos perto da Plaça de Frederic Chopin. Não foi a música que nos trouxe, claro: foi o preço, bastante mais baixo do que a casa de A., e a localização. Estamos de novo no centro da cidade.

É marginalmente melhor estar encalhado no centro de uma cidade do que na sua periferia.

Há menos trabalho em Palma, e mais, muito mais gente à procura do que é habitual. De momento a única esperança mais ou menos concreta que temos é a de uma travessia no R. B., um nome feio para um barco lindo. Mas o capitão só chega no fim desta semana, e até lá não passará de uma esperança.

O senhor que me queria contratar para a Costa Rica adiou o projecto para Abril. Não sei onde estarei em Abril. A verdade é que quando estou sem trabalho sonho com um trabalho fixo; e quando estou embarcado fico feliz por o trabalho ser temporário. Nestes barcos passa-se muito tempo em terra, e apesar de tudo navega-se mais em freelance. Mas também se encalha mais. Não somos os únicos - o consolo é parco, mas é algum.

A Plaça Chopin também é de parco consolo - não é bem uma praça, é mais uma rua de peões com árvores de ambos os lados e bancos entre elas, onde à noite por vezes me sento para ter acesso à net.

Depois vou para casa tossir, ouvir a Tatiana (e toda a gente com quem falo, verdade seja dita) dizer-me que tenho de ir ao médico, tomar uma colherada de xarope e dormir. Os sonhos são maus, mas são melhores do que estar acordado.

A próxima vez que me apareça um trabalho fixo aceito-o, prometo; enfim, pelo menos prometo que pensarei nisso a sério, mais de cinco segundos.

Sanidade dominical

Uma ilha de sanidade, infelizmente só dominical.

11.11.12

Possibilidades v. capacidades

"Acima das suas possibilidades" e, talvez, muito abaixo das suas capacidades. A verdade é que o jornal estava uma porcaria. Comprei-o durante uma semana e mudei para o ABC, infinitamente melhor.

Mas enfim, nada como ver socialistas tomarem um banho de real.

10.11.12

Línguas e pátrias, Palma, 10-11-2012

G. pôs-se a ler "O Principezinho" no sofá. Olhava, aluado, o tecto como se fosse o céu e evadia-se nele. C. entrou na sala e perguntou-lhe: «O que estás a fazer?» Ele respondeu: «O atum! Ahhhh, estou a ler...» O livro estava ao contrário; G. pensava no que ia fazer para o jantar.

Noutra ocasião, C. decidiu rever com G. algumas conjugações dos verbos em castelhano. Há, no castelhano, um tempo verbal chamado "pretérito pluscuamperfecto". G. tinha a certeza de que de onde ele vinha, lá na Argentina, o nome era "Juan Luis Perfecto". Um senhor tempo verbal.

Estas foram duas das histórias que nos puseram a rir à gargalhada no jantar de despedida de C., num bar/tasca chamado Molta Barra, com um Pa Amb Oli delicioso e uma tapa de chouriços cozinhados em sidra a que chama "políticos a la sidra", vá lá saber-se porquê. C. emigrou para o Canadá, onde tem os filhos e, ao que parece, o futuro. «A Europa morreu», dizia-me H. no outro dia. Senti isso mais em Palma do que noutro sítio qualquer. Da gente estrangeira que aqui conheci, só uma pessoa quer ficar (e é porque vive em Inglaterra, onde o clima se pode tornar mais detestável que qualquer crise, real ou anunciada).

G. é um miúdo doce que partilhou a casa com C. e N. antes de nós. Fez uma despedida comovente a C.: como se esqueceu dos presentes no outro lado da ilha, colocou cartazes nas escadas do prédio dizendo piadas e ternuras. Como todos os argentinos, usa muito a expressão «que liiiindo». É um povo que já me está mais no coração do que a maioria dos cardiologistas aconselha.

Palma está cheia de argentinos. Só S., um argentino adorável que conhecemos em Antígua, tem uns 20 amigos argentinos por aqui. Numa noite conhecemos uns seis dos seus amigos, todos empregados de bares e restaurantes, todos simpáticos e sorridentes, quase todos giros, com buenos aires. E todos longe do seu país, como Gu., que o detesta e não cede à hipocrisia de dizer "que o adora mas não pode viver nele". Eu não sei, já, se gosto de Portugal. Não gosto de que os meus amigos estejam desempregados, ou que não possam mudar de emprego porque de certeza não encontrarão outro. Não gosto de que os meus amigos tenham de deixar um país onde gostam de estar porque não conseguem, nele, viver como viveriam noutro. As razões pelas quais deixei Portugal foram apatrióticas, mas voltar cada vez mais me parece um esforço, uma decisão difícil. Tenho saudades desses amigos e -- muitas -- da minha família. Mas não tenho do resto. Além de que ando a reler Eça de Queirós. Se me perguntam o que leio respondo, simplesmente, «Portugal».

Talvez haja uma explicação para não ter saudades: «O essencial é invisível aos olhos»; o atum, se não há, também.

8.11.12

Dissonâncias indignadas

A malta que clama contra Isabel Jonet é a mesma cuja palavra chave é solidariedade, que há alguns anos cantava "somos todos iguais, braços dados ou não", acha Zeca "traz outro amigo também" Afonso o maior cantor nacional, se emociona com o voluntariado para a ONU, vai aos concertos Aids, We are the world, e acha que a OXFAM merecia o prémio Nobel da paz, não é?

Analogia

Tal como não preciso de perceber de anatomia para saber se uma senhora tem um corpo bonito ou feio, não preciso de saber de economia para perceber que Sócrates foi uma catástrofe. 

Poço da morte

O sabor do dia, para os indignados do costume são as declarações de Isabel Jonet. Uma das coisas que me fascina é Portugal é a profundidade do buraco. Do poço, se preferirem.

Eu ouvia-as parcialmente, e o que pensei está dito aqui: "meia dúzia de banalidades moralistas, inócuas"; outras que são simples bom senso; enfim, nada de especial vindo de alguém que prefere distinguir-se pelo que faz, em vez de pelo que diz.

Mas o poço da imbecilidade portuguesa não tem fim. Não tem limites. É incontrolável. Caiu o Carmo e a Trindade em cima da senhora. Por um lado por causa da forma, como diz o Lourenço; por outro porque a esquerda (eu confesso que hesito em usar a palavra esquerda como sinónimo de estupidez, mas cada vez me parece mais inevitável) acha que a caridade é má. É melhor fazer pobres, através de políticas económicas de resultados comprovados do que ajudá-los.

Não é uma surpresa, num país que preferiu Sócrates a Manuela Ferreira Leite porque esta era feia e falava mal; Sócrates era bonito, falava bem e vestia melhor - tudo qualidades, como se viu, de incalculável valor num primeiro-ministro.

Não é surpresa; surpreendente é a dimensão do vazio que vai por essas cabeças dentro.

5.11.12

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 05-11-2012

Dizem que a vida é assim: uma coisa mais ou menos caótica (embora ordenada, de alguns pontos de vista -- nascimento, vida, morte) e imprevisível, como acontece quando por exemplo ouvimos um tema do Chick Corea, cheio de vento, borboletas, fantasmas, chuva e sol, ondas e fogos de artifício, choros de viúvas e de recém-nascidos, e por aí em diante até não sabermos se aquilo é triste ou alegre ou se é só, passe a redundância, a vida como dizem que ela é, uma coisa mais ou menos caótica, embora ordenada de alguns pontos de vista, como o nascimento, a vida ou a morte, mais certas do que dois e dois serem cinco.

De maneira que estou outra vez sem trabalho e isso dá-me cabo do juízo. Não tenho jeito para a instabilidade. Felizmente, alguma estabilidade restabelece-se: o Luís, ao meu lado, fala mal da esquerda portuguesa, sinal de que está a recuperar da gripe (graças a Deus, não sabia, como se ouvisse um tema do Chick Corea, se havia de rir com a sua infantilidade tão surpreendentemente tardia ou de chorar com a fragilidade que me assustou tanto e me fez temer-lhe pela vida, apesar de ter sido só uma gripe. Adenda importante: o Luís não é piegas, insulta a tosse com os pulmões que lhe restam, enraivece-se com a doença com o ânimo que ainda lhe não lhe escapa, chama-lhe puta, pífia, e depois sucumbe à exaustão como uma criança birrenta ao sono, ou eu às preocupações).

O melhor que uma pessoa pode fazer é render-se, li não sei onde, ou disse-me não sei quem. «Tenta mudar o que dizes a ti própria; em vez de dizeres "eu não posso ser assim" ou "as coisas não podem ser assim", diz "eu sou assim" ou "as coisas são assim" e procura força para aceitar o facto de as coisas serem assim». disse-me L. A verdade é essa: as coisas são assim e não posso, por agora, fazer muito mais para que deixem de o ser. Ora vejamos: dockwalking, responder a dezenas de anúncios sem sequer ter direito a um "não, obrigada", comer sempre em casa gastando o mínimo possível, passar um modesto 25.º aniversário cujos únicos luxos foram ter saúde, amor do que me estava perto e dos que me estavam longe (e que chegou em força por ondas electromagnéticas, abençoadas sejam) e um bolo de chocolate de peso, tamanho e preço pecaminosos. 

Paciência. É das qualidades que mais me faltam e das de que mais preciso. N., o nosso ex-senhorio (é verdade, deixámos a rua mais bonita de Palma hoje), tem-na de sobra. Ontem passou quatro horas a limpar a bicicleta de três mil euros que pesa menos dez vezes do que eu (que, na contrapartida do dinheiro que tenho, cada vez peso mais), passa outras tantas horas a arreglar os móveis que decora e a tocar batuques. Gabo-lha. E a bondade, e a organização, e o bom aspecto. Gabo-lhe tudo, até a estranheza de me tentar convencer de que o furacão Sandy foi provocado para que Obama ganhasse as eleições, entre outras teorias da conspiração. Foi bom viver em sua casa. Agora, à maneira caótica do mundo, estamos num limbo chamado "bairro acima da Plaza de España", numa casa agradável que partilhamos com a russa A. e o seu gato Casper (na verdade, uma das razões pelas quais respondemos ao anúncio foi o sentido de humor de uma das regras da casa: «No cat killing»).

Amanhã ou depois decidimos o que fazer. Ou a vida decide por nós. Não tenho jeito para a instabilidade. Paciência.

Um singular singular

Para o Público, plural começa nos quatro.

"Três em cada dez lisboetas é obeso, revela estudo"

4.11.12

"Parede de casa de banho"

O nome do blog é no mínimo infeliz; mas tem a PR, e só por isso merece visita e vai já para o reader.

História sem palavras

É tarde, na rua ouvem-se passos; mas são poucos, hesitantes. Como se a pessoa - em breve saberemos que é uma mulher - nem sempre pusesse os pés no chão. Mal se ouvem, afastam-se devagar, agora um sim agora um não agora outro não. Tu estás deitado. Sabes que os passos vêm da mulher que há pouco deixou o teu leito, com quem há pouco fizeste amor também hesitantemente. Ela agarra-se a ti, aperta-te com força, chora e deixa-te ir. 

Pouco depois agarra-te de novo. Tu compreendes que a amas, mas não sabes como dizer-lho, nem mesmo fazendo-lhe amor. Ou então é ela que não compreende, não quer compreender.

A mulher avançava pelo amor como agora pela rua escura, deserta; sabe dar mais do que receber: recebe-te com medo, hesita, abraça-te, suspira, diz "não me ames como eu te amo, cala-te, cala-te".

Tu ouve-la, baixinho e sabes - não é a primeira vez - que dali a pouco ela percorrerá a rua com os seus passos inseguros, como se a cada um quisesse largar a correr e estivesse a lutar contra a tentação. "Ou como se não quisesse ir-se embora", pensas.

"Qures ficar cá esta noite?" "Não, obrigada". Sabes que se chama Teresa e ela sabe que tu te chamas António. Trabalha numa loja das redondezas. É muito tímida, parece que saiu de um filme do Rohmer. Tu gostas desta ideia de um amor secreto, hesitante, silencioso.

Não compreendes bem como começou, nem porquê - não sabes sequer com antecedência  quando é que ela vem  a tua casa. Ouves a campainha da porta, sempre tarde, depois de jantar, vais abrir, ela diz "Olá" tu respondes "Entra" ela vai directamente para o teu quarto.

A primeira vez era inverno, tu recordas-lhe o sobretudo pesado, antigo, mas bonito. Agora é verão. Ela veste-se "recatadamente", pensaste um dia: blusa ligeira mas opaca e com mangas, um decote pouco profundo, saias pelos joelhos.  É muito bonita, com os seus grandes olhos verdes que te olham de frente, sem vacilar.

Quando sai não te olham, sequer. "Não te levantes. Não é preciso. Obrigada."

E ouves o seu passo na calçada, hesitante. "Com que palavras acabará esta história?", perguntas-te.

Sem palavras.

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 04-11-2012

Não foram dois ou três dias; vai no sétimo, e só agora começa a dar sinais de abrandar. Mas tão pouco foi de mata-caballos, como diz N., o senhorio: pelo menos não me matou.

Mas abalou-me muito. Foi forte, grossa, traiçoeira, viciosa, brutal, repelente. Pôs-me quase de rastos - na quinta e na sexta-feiras o quase é dispensável - e deixou-me fraco, exausto, partido.

Mas teve uma vantagem: descobri as virtudes miraculosas do chá de cebola contra  a tosse. Até hoje nada tinha visto de melhor. E descobri as qualidades anti-tudo e pró-vida da Tatiana. Enfim, essas já as conhecia, só nunca as tinha visto postas em prática com tanto carinho e eficácia.

De maneira agora emerjo de uma semana por assim dizer difícil. Só não o foi mais porque ao quase de quarta-feira - que ainda não se apagou - um outro se veio juntar. Não se excluem, e seria justo que nos caíssem os dois; mas o mundo não costuma ter achaques de generosidade desta dimensão e com uma das duas já nos satisfaríamos e muito.

Como de costume,

aos domingos está tudo aqui

1.11.12

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 01-11-2012

E pela primeira vez em muito tempo tenho uma gripe; uma daquelas teimosas. Já por duas vezes me levantei, e por duas vezes ela me mandou de volta para a cama. Odeio estar doente. Só me apetece estrangular os vírus todos um a um, afogá-los em chá de limão, besuntá-los de mel, engrossá-los com vinho tinto.

Triste maneira de celebrar o quarto de século da Tatiana, que o festeja hoje, coitada; mas enfim, o século tem muitos quartos, muitas salas, corredores, cozinhas, caves e sótãos. Temos muito tempo para explorar algumas dessas divisões.

Ao menos as escapadelas serviram para algumas coisas boas - uma das quais descobrir o Bar Dia, um prodígio de qualidade e preços baixos em plena Llotja, o quarteirão mais turístico de Palma; outra foi confirmar o Ca na Chinchilla como uma grande bodega - em itálico para não haver confusões. Fomos lá ontem para celebrar a partida do G. e da A. Vão para Antigua via Polónia (A. é polaca). Em breve seremos nós, espero; e que a nossa festa seja tão agradável como a deles.

É uma via crucis, mas pelo menos as estações são agradáveis.

Os nossos amigos vão-se todos embora; no final do mês que hoje começa pouca gente haverá que conheçamos. E poucos barcos, também. Temos duas semanas no máximo para encontrar um embarque. Felizmente, após uns dias de interrupção, reapareceram alguns quase. Gostava de confirmar um e depois ir a Portugal passar meia dúzia de dias. Parece-me um plano sensato e espero que o ou os tipos que coordenam as coisas lá por cima partilhem esta opinião. Se é que há alguém a coordenar isto, coisa em que nunca acreditei e cada vez menos.

Visto de longe e quase só pelos blogs Portugal é giro. Parece composto por bandos de galinhas que ouvem um grito num lado e fogem apavoradas, cacarejando muito, para o outro sem sequer tentar perceber o que foi esse grito; depois cheira a milho e lá vão todas, cacarejando muito outra vez, ver se lhes calha um grão. Andam sempre juntas, cacarejam sempre muito, não conseguem ir mais fundo do que o buraco que o bico faz no chão quando esgravatejam quaquer coisa para comer. Permanentemente entre gritos que as apavoram e  milho que as atrai.

E a cacarejar muito, sempre, ininterruptamente, indignadas.

De modo é assim: enterrar a gripe, arranjar um embarque e ir a Lisboa. Acordar no mar, que tanta falta faz. Pode começar já, por favor.

O primeiro dia do resto da vida

Hoje o Abrupto saiu do meu reader. O Jugular consegue ser melhor, apesar de tudo.

No dia em que deixar de carregar à hussarda e comece a apresentar soluções talvez o leia de novo.  

31.10.12

Alucinações

Às vezes um gajo lê coisas e parece que está a sonhar, ou alucinado. E que tal aumentarem o custo do estacionamento, para dissuadir as pessoas de utilizar o automóvel? E usar o estacionamento para gerir o tráfego e não como fonte de receita? As "famílias" poupariam bastante.

30.10.12

Vergonha na cara

Os temas do dia em Espanha são dois, estes dias: os separatismos basco e catalão e o resgate financeiro. Os espanhóis deviam lembrar-se disto, da próxima vez que se lembrarem de dizer que Gibraltar é deles.

"O desporto na Constituição"

O post está muito bom, como de resto é marca da casa; mas há duas ou três coisas que podem ser respondidas.

"Marinas às moscas"? Há. É um prodígio da vontade - quando se sabe a falta de lugares de amarração que vai por essa Europa fora é preciso querer muito para ter lugares disponíveis nas marinas portuguesas. Mas estão longe de ser todas. Aliás assim de repente só me ocorrem duas. As outras têm taxas de ocupação mais do que decentes, graças a Deus e a quem as gere.

"Construída nos Estaleiros de Viana do Castelo"? Não, ponto final. Infelizmente. para se chegar ali não chega o dinheiro; é preciso tempo também, muito tempo.

PS - "Feíssimo"? Por acaso não acho, mas prontes, isso são opiniães. E sou pouco fan do homem e nada das iCoisas.

29.10.12

Intuição é uma palavra que engana muito, às vezes. Outras não

Não é preciso ser grande espingarda em economia para perceber que este artigo não diz a verdade, ou a conta mal contada. Basta abrir os olhos e olhar em volta. Mas isto da intuição é coisa que engana muito, e mais vale combater a mentira com factos e com saber, como faz Bruno Faria Lopes aqui.

É pena que não haja em Portugal jornalismo sério - ou há, mas é pouco - e não se faça um programa igualmente com Bruno Faria Lopes - não desfazendo, claro; que o Presidente de Câmara de Montalegre lá deu uma lição de vida a quem pensa que as dívidas são para gerir, e que o desenvolvimento só se consegue à custa delas.

É que isto de dar voz sistematicamente ao mesmo lado do disco provoca cansaço no público.

28.10.12

História

Alguém me consegue explicar em que é que o PEC IV era diferente dos PEC I, II e III?

27.10.12

Pontuações

Ficou portanto estabelecido, após um longo e solitário passeio, duas noites e três sopas que, dois pontos:

Grande espaço em branco.

Depois voltei à habitual vida. É por isso que gosto de decisões, mesmo assim repentinas. Reticências.

Talvez depois de amanhã tome outra, ou confirme esta; talvez.  Parágrafo.

Por agora vou aceitando passiva e tranquilamente as decisões que os outros travessão ou as coisas travessão tomam por mim. Dois pontos: um Ricard numa esplanada; sopa de grão com espinafres; batatas salteadas em sobrasada; outro longo passeio. Ponto. Nenhuma destas foi uma decisão minha, vírgula, embora alguém exterior abre parênteses um marciano, por exemplo fecha parênteses o pudesse pensar legitimamente que sim foram.

O tempo, por exemplo. Pausa.

Tão pouco é uma decisão minha. Dez doze nós de vento, temperatura amena a tender para o fresco, nebulosidade fraca - cumulus e (poucos) stratocumulus. Nada disto é decisão minha, embora aprecie e beneficie deste tempo outonal, agradável, sentado numa esplanada a beber Ricard afagado pelo vento, pelo fraterno vento.

De onde estou não consigo ver se é norte sul leste ou oeste. Vejo pelas nuvens: sudoeste. O vento segue as ruas; tão pouco é decisão dele a direcção.

Sudoeste. Reticências. Ainda bem que não estou a caminho de Gibraltar. Ponto final.

Devia haver pontos iniciais,  pontos intermédios e pontos suspensos nas páginas, entre as palavras. Devia haver pontos em três dimensões, como a vida; vírgulas repentinas, como algumas decisões; e pontos de exclamação como cada olhar de alegria; pontos de espanto, como a sorte; travessões como o tempo entre um passo e outro; parênteses largos como a vida para arrumar as sopas, os Ricard, as batatas salteadas, o amor, a felicidade.

E o mar, que agora está entre parênteses, vírgula, reticências, ponto de interrogação.

Evolução

A ideologia matava aos milhões; a ganância rouba aos milhões. Ela por ela, prefiro a ganância.

(Via Delito.)

26.10.12

Simples

Tudo começou por causa do vinho tinto, um vinho bom, muito bom e simples. Cada garrafa custa dois euros e sessenta e cinco cêntimos, na loja do mercado onde compro as sobreasadas (e hoje comprei também um chouriço, excelente). É o senhor, ou ele e outros quem faz os enchidos, bons, simples; hoje vi que tinha vinho e resolvi comprar (dois euros e sessenta e cinco cêntimos é o triplo do preço do vinho mais barato do supermercado, mas a verdade é que para beber nunca comprei nada, excepto Cava, claro, a menos de três euros, portanto pensei na minha cabeça em voz baixa "estás a poupar 35 cêntimos e se o vinho for uma merda sempre servirá para a cozinha, não pode ser pior do que o que compras a um euro e meio no supermercado).

Mas o vinho não era uma merda, muito antes bem pelo contrário, é um vinho porreiro, bom, leve, fresco, simples. O ataque é melhor do que a saída, vigoroso, o que é frequente nestes vinhos; e o vinho é vinho, vinho só, simples, bom, o que é menos frequente.

De maneira passei o dia a pensar (acontece raramente, pensar; já as cacofonias são mais frequentes) na simplicidade. Fui cortar o cabelo ainda a pensar na simplicidade, à Peluqeria Bualde, a qual fica mesmo atrás de nossa casa e é uma barbearia simples, clássica, barata. Não sou muito bom a apreciar cortes de cabelo, ainda menos os meus, mas à primeira vista parece-me uma merda, contrariamente ao vinho.

Só me lembro de uma vez - não é uma imagem, é matemática - uma em que me levantei da cadeira do barbeiro e gostei de me ver ao espelho. É essa vez que agora me serve de padrão para avaliar os cortes de cabelo. Foi em Lisboa e a senhora chamava-se Zélia, se não me engano. Era alta, loira, muito bonita, linda; mas não é por isso que o corte ficou bem. É porque ela sabe cortar cabelos, ou então naquele dia estava inspirada.

A última vez antes desta foi em São Luís. O corte de cabelo mais rápido da minha vida: demorou menos de três minutos; cinco, vá. Deve ter ficado bom, porque só o cortei outra vez hoje, seis meses depois. Mas nada que se compare com o da Zélia. Não me lembro é se o corte dela foi simples. Ficou bem e foi barato, como o vinho de hoje.

O corte de hoje não; mas interessa-me pouco, para dizer a verdade. De qualquer forma não se encontra uma Zélia em cada esquina; estou habituado a ter cortes de cabelo medíocres (além de que é praticamente impossível transformar um velho troglodita como eu numa coisa visualmente apelativa, mas isso é outra história).

No Lizarrán a comida também é simples, boa e barata. E o ambiente é óptimo, festivo. No outro dia fui comer pintxos a um restaurante que não conhecia, chamado Origenes, em Santa Catalina. Eram uma maravilha, sobretudo o primeiro, de magret de cannard, e o último, de bacalhau confitado com tomate seco. Mas não eram simples, eram sofisticados, pensados, procurados.

Na verdade não há qualquer relação entre a simplicidade e a qualidade. São variáveis independentes. Nunca amei nenhuma mulher simples, por exemplo. Mas todas as que amei tinham qualidade, muita; e qualidades, claro.

A vida é uma coisa simples que nós passamos o tempo a tentar complicar. É por isso que a simplicidade é tão atraente (pelo menos a mim atrai, e muito - desde que não seja nas pessoas, é certo; e na música. Não gosto de música simples).

Mas gostei daquele vinho, tão simples, tão bom; gosto de algumas amizades - enfim, de todas: a amizade ou é simples ou não é amizade. Nunca tive amores simples; não sei como são. Já tentei várias vezes e nunca consegui. (Ainda bem.)

25.10.12

Romantismos III

Nem todos os romantismos são piegas.

Romantismos II

Para a série O romantismo de uns não é o romantismo de outros (acreditem se quiserem, mas este video está no tubo há pouco tempo).

Romantismos

O romantismo de uns não é o romantisnmo de outros.



(Um dia ouvi isto com uma letra em inglês e juro que é uma grande canção.)

24.10.12

Carta aberta a Palma de Maiorca

Minha querida Palma de Maiorca,

Sabes que te amo, e muito. Gostaria de ter nascido aqui, de ter conhecido as tuas ruas desde miúdo, de me ter banhado nas tuas águas e percorrido os teus montes a pé, de bicicleta, sozinho ou com o maior amor da minha vida.

Chega porém um momento em todos os amores, por mais amantes que os amantes sejam, no qual a separação é inevitável. Não por tua causa, ou minha, por causa de nada ou de ninguém. Simplesmente a ordem natural das coisas. Uma vida não é feita de alegrias só; contém também algumas separações (como se as separações fossem a única fonte da dor; não são, tu sabe-lo melhor do que ninguém).

Não és a única a dizer-me que o amor não chega. É preciso algo mais. Tens razão. O amor sem um bocadinho de dor, sem um bocadinho de distância, de separação, de - numa palavra - passado não existe, não faz sentido. O amor precisa de tempo (um sinónimo de passado, como sabes) para se reencontrar, encher ou perceber.

Uma vida, minha querida Palma, é feita de passados; e quem to diz é um amoroso de futuros, um gajo que pensa no futuro como alguns coxos na perna que perderam, o mar na praia na qual vai repousar, finalmente, a luz no dia que aí vem.

Mas eu tenho um passado em Antigua (tenho muitos em todo o lado, mas isso é outra história, agora não interessa); e Antigua chama-me como tu me chamaste há uns meses. Antigua chama-me; dói-me.

Não sei quanto tempo vai durar esta dor, ou este chamamento. Mas isso não é importante, pois não? O tempo é um falso curandeiro, dizia Malcolm Lowry, que percebia de curas e curandeiros como ninguém.

Eu acrescento: e uma falsa medida. O tempo não mede nada.  A única medida válida, Palma, é a intensidade. A verdade, se preferires.

E tu foste a minha verdade todos estes dias, estas semanas, estes meses. Antigua é a próxima verdade (que sorte saber o que aí vem, para onde vou. É raro).

II
Claro que podes dizer-me "gostas de Antigua porque entre mim e ela há o mar. É  mar que procuras, não Antigua; eu tenho mar também".

É verdade que preciso do mar. Tanto quanto pecisei de ti quando aqui cheguei. Sem a terra o mar é nada, sem o mar a terra não acaba nunca, é uma chatice sem fim. Sem o dia de que vale a noite, sem a noite para que serve o dia? Felicidade que não conheceu a dor é mulher que morre virgem, santo sem milagre, vinho sem copo.

III
Preciso de mar. Preciso de Antigua. Precisei de ti, Palma. Espero que compreendas e me desculpes. 

"Mudar a alma"

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 24-10-2012

Pela primeira vez na vida achei uma bebida num bar demasiado grande. É preciso contextualizar, claro: a véspera tinha sido de chuva, aquela que nos Estados Unidos é verde e na Europa é cada vez menos. Abrigámo-nos em tudo quanto é sítio: pintxos no Lizarran, jantar na Taberna do Caracol (um endereço  a reter absolutamente) e - no meu caso, a metade pensante de mim estava cansada - noite no Bluesville. De modo no dia seguinte pedi um meio Ricard (sim, existe) no Antiquari para abrir o apetite, coitado, que estava um bocadinho fechado e a rapariga - uma mexicana muito bonita, suave, discreta - encheu-me um copo gigantesco daquilo. Deu para dois bem puxados, e como a jovem metade não gosta de pastis lá tive eu de me sacrificar, como sempre. 


Mas a verdade é que foi muito, dois Ricard antes de um almoço de depois da chuva.

Há uma relação entre a evolução e a bicicleta, pensei nisso o dia todo. Talvez apareça um dia uma coisa que se adapte melhor às deslocações urbanas do que a bicicleta - um Segway menos ficção científica, uns patins menos escultura viva ou brincadeira aplicada, qualquer coisa -; mas por enquanto a bicicleta parece-me o propósito da estação vertical. Temos duas pernas porque temos duas rodas e dois pedais para as complementar (e isto digo eu e não acredito em teleologias, sejam elas quais forem). É bom andar de bicicleta, quase tão bom quanto navegar.

O mini-restaurante Casa Julio ("Uma casa de comidas moderna", diz o título de um artigo de jornal que está emoldurado numa das paredes) confirmou: é um grande restaurante, no qual, após madura reflexão (retratada na fotografia abaixo) a jovem e pensante metade de mim concordou que a ideia de irmos a Portugal ver o nosso amigo Júlio não era má ideia, antes bem pelo contrário.


E eu lá bebi um copo de vinho tinto, para celebrar (antecipação dos muitos que vamos beber em Évora).


Hoje o passeio vai ser de carro. Também é bom.

23.10.12

Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 23-10-2012

«Esta cidade de bicicleta é outra coisa.» Tens razão. Gosto de coisas fáceis. Falmouth Harbour, por exemplo: chegar ao trabalho a pé em cinco minutos, chegar ao supermercado a pé em cinco minutos, chegar à praia a pé em cinco minutos, chegar ao bar a pé em cinco minutos, ter o mar no quintal. Palma de bicicleta é tão fácil que consegue fazer crescer a nossa simpatia por ela, coisa muito difícil. 

Mas mais difícil parecia ser conseguir alugar as bicicletas (pesadas, sem mudanças mas adequadas às ciclovias e estradas da cidade, muito planas e sem surpresas): primeiro, pediram-nos fotocópias dos documentos de identificação (o cubículo não tinha fotocopiadora); depois, as fotocópias não serviam, era preciso dois passaportes em vez de um passaporte e uma carta de condução -- eu prefiro deixar o passaporte em casa, não vá perdê-lo, de maneira que tive de ir buscá-lo a casa; à terceira foi de vez, mas demorou eras, porque a senhora não se decidia sobre que bicicletas nos entregar (uma delas, afinal, até tinha o cadeado avariado) e íamos ficando com o troco adiado, porque a senhora não o tinha àquela hora da manhã. Uma hora e meia depois pedalámos a caminho do Club de Mar, para fazer dockwalking (uma prática relativamente humilhante que consiste em ir de barco em barco pedir trabalho) e enfim, esta cidade de bicicleta é outra coisa. O frio outonal da manhã transformou-se rapidamente em calor. A viagem que nos levava quase uma hora a pé e uma eternidade imprevisível se esperássemos pelo autocarro fez-se em 15 minutos. Muitos barcos e conversas depois o desânimo desapareceu quase por completo: encontrámos conhecidos, enviámos CVs e tivemos alguns nãos, que são pelo menos mais certos que muitos talvez.

Fiquei a conhecer, ao almoço, a Casa Júlio onde decidimos, se a vida nos deixar, ir visitar o Júlio a Évora em breve. A comida estava uma delícia e os sorrisos dos empregados também. Não há nada melhor do que um restaurante sem turistas numa cidade turística, tirando, talvez, a casa de alguém que nos espera com a mesa posta.

À tarde, fizemos um passeio de bicicleta até ao Arenal. Uns oito quilómetros apenas, sempre à beira-mar, passando por praias e pueblos, novos de bicicleta, trotineta, cães de trela e velhos de bengala ou cadeira de rodas conversando com quem os cuidava. Os maiorquinos, tenho reparado, tratam bem os seus velhos. Dão-lhes carinho e atenção e, sobretudo, acompanham-nos na rua. Há muitos velhos sozinhos, mas os que estão acompanhados por gente mais nova são incomparavelmente mais do que os sozinhos, geralmente de aspecto mais teso que vulnerável. Gosto de uma terra que cuida dos seus velhos. Tenho saudades dos meus -- das minhas, agora, que os meus já estão, dizem, num lugar melhor.

O pôr-do-Sol na Baía de Palma é inesquecível como todos os outros. Ver algo de singular no mais banal e repetido dos fenómenos é como andar de bicicleta: nunca se desaprende.

Vida, um dia

Um dia passarei os dias deitado numa cadeira de repouso a beber whisky e a ouvir a 9ª de Bruckner, as Vésperas de Rachmaninov, o Bolero de Ravel (perdão pela banalidade), tudo pelo Gould, tudo da Hildegarde, Le Voyage Imaginaire de (ou melhor, por) Maria João Pires e mais meia dúzia de coisas que agora não me ocorrem e chamarei vida a isso. E será uma vida boa, seja Deus louvado.

Civilização

Porque é que os processos de independência da Escócia, da Catalunha e do País Basco são tão diferentes?

Lição

Começar por ensinar-te que ter feitio, carácter, personalidade ou o que quer que seja que uses como sinónimo de ser tem um preço; e que esse preço é elevado. Impossível saber quanto, mas é melhor sabê-lo de antemão. E estar preparado.

Continuar por dizer-te que há cumes e abismos; o que lhes está entre é desinteressante, quase inútil.

Terminar dizendo-te que tudo isto parece simples; mas foram necessários muitos anos, muitas vidas para o aprender. E todos os dias precisarás de rever a matéria dada.

(Dada é mentira.)

22.10.12

Palma, too



Ou, Ainda em Palma.

Lasciate ogni speranza, voi che entrate

"Queremos a nossa vida de volta"

Não sei exactamente a que vida se referem as pessoas que recentemente se uniram para manifestar publicamente "queremos a nossa vida de volta". Suponho que seja a vida antes da entrada de Portugal na União Europeia, porque se por desgraça o governo decidisse ouvi-las seria a essa que regressaríamos em menos de um fósforo.

Eu lembro-me dessa vida: de ter que trocar dinheiro a cada fronteira, de ter ido para França por Andorra porque era mais "fácil" (em Hendaia corria-se o sério risco de não se poder entrar e ser recambiado), de ter que comprar bilhetes de ida e volta para ir à casa de banho, de ter que explicar que não, não tinha papéis cada vez que queria trabalhar num lado qualquer e aceitar salários em consequência.

Também me lembro de quando em Portugal não havia supermercados (havia o Pão de Açúcar: pelos standards de hoje, e da época "lá fora" seriam pouco mais do que lojas de bairro); era preciso licença militar para sair do país; as casas de banho dos restaurantes eram infectas; levantar um cheque num banco demorava uma ou duas horas; as taxas de juro chegaram aos 36%; era proibido "exportar" divisas - o que significa que se passava a vida a comprá-las no mercado negro -; levava-se seis horas para ir de Lisboa ao Porto; havia um canal na televisão (e tínhamos que levar com o Vasco Gonçalves, mas isso é outra história).

Este Portugal, que conheci em Setembro de 1974 pouco mudou (excepto politicamente, claro) até 1986, data da entrada na então Comunidade Europeia. Já havíamos passado por duas falências (1977 e 1983); muita gente, entre a qual me incluía, pensou que com a "Europa" o desvaria acabaria.

Não acabou, infelizmente; e a experiência diz-me que provavelmente não acabará nunca. Mas mesmo assim eu não quero a minha vida de volta. Quero poder continuar a andar por onde muito bem me dá na telha, entrar em França, Reino Unido, Espanha, Suíça, Holanda qualquer que seja a quantidade de dinheiro que levo no bolso (é sempre muito pouco), trabalhar onde houver trabalho e não quero pagar comissões estúpidas a tipos cujo trabalho consiste em receber as minhas notas e dar-me outras.

Não quero voltar a ouvir o Mário Soares nem ganhar contos de réis. Quem quiser a sua antiga vida de volta pode ir para África ou deliciar-se com as patetices do velho (é quase a mesma coisa).

Adenda - dispensaria duas ou três coisas da "Europa"? Sim, sem dúvida; duas ou três.

20.10.12

Vacas sagradas

Gosto muito de vacas iconoclastas.  As sagradas chateiam-me.

19.10.12

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 19-10-2012

Até que finalmente comecei a ouvir (enfim, a ler) nãos. Fiquei contente: um não é um sim que se enganou na porta; e muitos nãos fazem sim. Mas não há quantidade de nadas que dê qualquer coisa.

A vida em Palma-a-afável continua: procurar um embarque, passear (às vezes confundem-se; outras não), procurar um embarque, ler. Desta vez o dinheiro acabou-se antes de o trabalho chegar, mas como é só uma breve interrupção vamos aguentando com esses grandes pilares de uma alimentação económica que são massas, ovos e pão. Em breve voltaremos às tascas, aos pintxos, cañas, tapas, cava e vinho tinto. É como no mar: de vez em quando temos de rizar pano, pôr de capa e aguentar.

Depois desfazem-se os rizos, iça-se o pano todo e fala-se sobre o que aí vem, não sobre o que passou. E o que aí vem é bom: descobri que já não quero voltar para as Caraíbas. Quero ir para Antigua, é diferente.

Quero ir passear a English Harbour, beber copos no Mad Moongose, acordar no Reef Gardens






jantar no Rum Baba e (quando o rei faz anos ou as gorjetas forem boas) no Sun Ra. Aos domingos quero ir ouvir-te cantar a Pigeon Beach



comer uma pizza ao Road Runners


brincar com o Lager, um cão que assim de repente é parecidíssimo com um gato


e sobretudo beber uma quantidade infinita de rum no Skullduggery


a olhar para



Isto das raízes é uma treta. Podem plantar-se onde quisermos.

Cretinices, abismos

O poster que anda por aí a circular com um apelo a uma recepção a Angela Merkel é de uma cretinice tão grande, tão abissal, tão perfeita que se um dia houver um museu da cretinice ele figuraria de certeza logo na entrada, em lugar de destaque.

Diz o seguinte, sobre um fundo de Angela Merkel sorridente, em uniforme nazi e a fazer a saudação:

a) "Portugal, 12 de Novembro" - em fonte gótica, para que todos nos apercebamos bem do que se está a falar, não fosse escapar-nos;

b) "Vamos todos mandá-la à Merkel" - o jogo de palavras é fino, subtil, engraçadíssimo;

c) "Organiza-te" - dia 12 é uma segunda-feira e vai ser preciso faltar ao trabalho.

O melhor, claro, é a fotografia. A diferença entre Angela Merkel e um nazi é tão abissal como a cretinice do poster, pelo que até os cretinos que o fizeram e divulgam se devem aperceber dela. Posso estar enganado, mas algo me diz que essas pessoas saltariam indignadas - indignadíssimas - se alguém chamar escarumba a um preto, gordo a um obeso, maricas a um gay e puta a meia dúzia de senhoras que, coitadas. Mas chamar nazi a alguém que manifestamente não o é é permitido. Tal como ser palerma, de resto.

18.10.12

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 18-10-2012

Uma pessoa volta a casa e só lhe apetece praguejar. O Bob Dylan da Costa de la Pols é insuportável. Começa, invariavelmente, com "Knocking on Heaven's Door" -- pela meneira como canta, não me surpreende nada que não o deixem entrar -- e termina com "Baby Can I Hold You Tonight", uma profanação violentíssima do original de Tracy Chapman. Só sabe três acordes e aprendeu-os mal. Consegue transformar a belíssima "Angie", dos Stones, numa atrocidade chamada "Angel". A prova de que Deus é injusto é ter posto "o pior músico de Espanha" (nas palavras de N., o nosso senhorio, músico a sério) numa das suas ruas mais bonitas, a nossa Costa de la Pols. Das outras provas não vale a pena falar, todos as conhecemos.

Os dias foram demasiados e demasiado longos para deles falar. O D. é um barco antigo, decente, com espaços amplos e confortáveis, mas a tripulação não se entende. Senti-me atirada a uma trincheira antes mesmo de ter pisado o convés para a entrevista: encontrei num bar de Palma uma jovem conhecida que tinha acabado de sair do D. a mal e me fez ter vontade de não chegar a ser contratada. Quando cheguei percebi que achava cada um dos indivíduos da tripulação uma criatura impecável, mas que entre eles o ambiente era de cortar ao machado. Não foi fácil ser interrompida enquanto polia copos de tinto para me virem falar mal de A ou B, sabendo que eu só iria ficar no máximo dois meses a bordo. Fiquei um. O anúncio era para dois meses, mas fizeram-me um contrato de um com a explicação "se o dono gostar de ti ficas". O tanas, apesar de o dono ter gostado de mim. Cumpri o contrato até ao fim, fiquei a conhecer Valleta e passei uma hora em Paris, onde comi une baguette de camembert avec un verre de rouge. Estou a tentar tornar-me uma mulher sofisticada, já só me falta falar francês, usar maquilhagem, saltos altos e conseguir ter opiniões sobre política internacional. Verve não me falta.

A entrada no porto de Malta ficou-me no coração. A estibordo estava Valleta, árabe e barroca, com uma luz que desafia a de Lisboa com dignidade. A bombordo Birgu, o nosso porto, uma língua de terra amuralhada, com edifícios marcados pela guerra (os ainda destruídos e os recuperados na mesma medida) e uma frente de mar turística, com um casino e vários restaurantes. Em vez do táxi aquático até Valleta (3€ de ida e outros tantos de volta) optei pelo autocarro (2,60€ um bilhete diário e uma vista mais profunda da ilha). Fui com O., a cozinheira russa que também me ficou no coração, não só pelo que cozinha mas pela maneira fascinante como pronuncia o meu nome (entre os vinte diminutivos diferentes, Tanitschka foi o que mais me agradou, vá lá saber-se porquê).

Malta tem alguns pretos. Não muitos, mas alguns. Comparado com Queluz, onde morava antes de me mudar para as Caraíbas (onde há alguns brancos), não tem pretos nenhuns, mas para O. tinha imensos. Dizia-me "Há tantos, que impressão!" e eu respondia-lhe «Por amor de Deus, tu vives na África do Sul». Respondeu-me que não vinha à Europa para ver pretos e eu demorei três dias a digerir a conversa e a tentar não pensar em O. como uma pessoa horrível. Afinal, para o povo dela os georgianos eram pretos, por terem sido escravos. Senti, pela primeira vez desde que ando nesta vida, um choque cultural. Os malteses impressionaram-me muito mais do que os pretos.

São todos relativamente feios e encardidos. Os narizes são os piores que alguma vez vi na vida (talvez o dono do D., judeu, tenha escolhido a ilha como base por causa dos narizes, não sei); as raparigas pintam-se demasiado, vestem-se pessimamente e são barulhentas, não têm graça nem discrição. Os mais bonitos são os velhotes e as velhotas, mas sempre dentro do desengraçado. Apesar de tudo, a gente é simpática, prestável, tem sentido de humor e inspira respeito: o mal que os malteses sofreram durante a II Guerra Mundial e o bem que, em contrapartida, isso fez à Europa é digno dessa admiração.

Valetta foi mais bombardeada num mês do que a Alemanha inteira durante a II Guerra Mundial, o que explica uma certa esquizofrenia arquitectónica de que ainda hoje padece -- sem na verdade padecer, porque algumas misturas são tão surpreendentes que não conseguimos decidir se as adoramos ou detestamos. A sua posição estratégica fez com que fosse ocupada e disputada desde sempre pelos povos mediterrâneos. Pisar-lhe o chão, ver-lhe a luz e a trovoada é outra prova de que Deus é injusto: há privilégios que deviam ser de todos.

Agora volto ao de sempre. Sei para onde quero ir mas não sei para onde vou. Procuro trabalho e paz (desde sempre, aliás). Para já, nem um nem outro. Mas se Deus é injusto, porque nos fez tão justos? N. acaba de atirar um balde de água anónimo ao Bob Dylan da Costa de la Pols, que o calou imediatamente. Antes já tinha tido a honestidade de lhe dizer "a tua música é uma vergonha" e "és insuportável". Como resposta, recebeu um "vai levar no...". Felizmente, a água lava quase tudo.

Uma proposta singular

E que tal "Um conjunto de sindicatos ... propôs"?

17.10.12

Un nom, pas plus qu'un nom

Não é todos os dias que cito o Jugular para dizer concordo inteiramente. Enfim, inteiramente não: seria preciso substituir um pequeníssimo pormenor no último parágrafo (um nome, só um nome). Mas tudo o resto está correcto, très correct (descontando o título do post, revela uma certa e habitual confusão, mas isso é irrelevante).

16.10.12

O país imaginário - 2

Este é o partido que convidou Judas para se candidatar à Câmara de Cascais?

O país imaginário

Ao mesmo tempo que isto acontece um idiota queixa-se de ver a sua dignidade diminuida por não andar num automóvel de luxo.

Esperemos que seja inútil, tanto vozear

"Ninguém faz nada"? Puxa, que falta de auto-consideração, tão rara. O homem ainda não parou de ladrar, a ele já se juntou a habitual matilha, e ninguém faz nada? O que é que ele quer mais? Cocktails molotov?