6.3.09

Tu, o mundo, a pele

Penso em ti, e vejo o mundo. Penso no mundo e vejo-te, luminosa e sorridente: não há mundo sem sol, não há rio sem foz, nuvem sem vento, pele sem mão.

Espera, hesitação

Não devíamos esperar tanto, sabes? Hesitar é bom, esperar é um dos caminhos da morte .

Resumo

Amo-te: duas palavras resumem uma vida, um futuro, e explicam um passado. Não deve haver muitas com tantas responsabilidades, tanto peso.

Incompreensão, fatalidade

Tudo é ultrapassável, excepto formas diferentes de entender a fatalidade.

Onde

Onde estaria eu, onde tu não estivesses?

Post scriptum

Uma vida como um post scriptum: útil, mas não essencial.

5.3.09

Audiências da vela

Um interessantíssimo artigo de Elaine Blunt, aqui.

Mares Olhares

O Instituto Camões vem juntar-se às entidades (CPLP, CNC) que divulgam o projecto Mares - Olhares da Língua Portuguesa.

Obrigado.

E obrigado também ao João Severino, do Pau Para Toda a Obra, e à Io do Amor e Outros Desastres - é possível que haja outros, a quem agradeço também, naturalmente, mas estes dois são os únicos que vi.

PS - O Technorati não me parece muito fiável. Já por várias vezes me apercebi de links para o DV que eu conheço e ele não menciona. Por isso, se alguém tiver mencionado o projecto, agradeço me avisem.

Fado dos contentores

Fado dos Contentores

Já ninguém parte do Tejo
Para dobrar bojadores
Agora olho e só vejo
Contentores contentores.

E do Martinho Pessoa
Já não veria o vapor
Veria a sua Lisboa
Fechada num contentor.

Por mais que busques defronte
Nem ilhas praias ou flores
Não há mar nem horizonte
Só contentores contentores.

Lisboa não tem paisagem
Já não há navegadores
Nem sol nem sul nem viagem
Só contentores contentores.

Entre o passado e o futuro
Em Lisboa de mil cores
O sonho bate num muro
De contentores contentores.

Por isso vamos cantar
O fado das nossas dores
E com ele derrubar
O muro dos contentores.


De Manuel Alegre

4.3.09

As Quintas do Esplanada - II

O jantar de amanhã, quinta-feira, já tem 29 pessoas inscritas, das quais 21 confirmadas. Aguardo com impaciência as últimas inscrições. O objectivo destes jantares é relativamente simples: juntar pessoas de quadrantes diferentes, passar um bom momento, conversar e rir (não muito, que isto é uma coisa séria e com coisas sérias não se brinca).

Aqui fica o menu, para relembrar:

- Mezze mediterrânico (tapenade, houmous, tzatziki e mais, consoante o mercado);
- Galinha do Campo de Outono;
- Mousse de banana e limão verde.

E, para terminar onde começou, chá marroquino.

O preço, bebidas incluídas, é de 20 euros.

Por favor inscrevam-se, divulguem, venham, tragam a família, os amigos e os - ou as - namoradas (não todas ao mesmo tempo, a ocasião quer-se pacífica).

Inscrições para Lserpa@gmail.com.

PS - O restaurante Esplanada do Príncipe Real fica no jardim do Príncipe Real.

Imprescíndivel

Um jogo perverso

04/03/09 00:01 | Fernando Gabriel

Este artigo é imprescindível. Finalmente, começa a ler-se na imprensa mainstream aquilo que se murmurava - é o termo, os exércitos da correcção moram lá, também - nos corredores de algumas agências da ONU.

"Pressionado a retractar-se, em Fevereiro de 2005 Clay pediu finalmente desculpas -pela moderação da linguagem, por ter subestimado a dimensão do saque e por ter permanecido em silêncio durante tanto tempo.

As declarações do diplomata causaram incómodo não pelo grotesco, mas porque Clay ignorou as regras do jogo pós-colonialista. Neste jogo, os governos ocidentais prejudicam o crescimento dos países africanos através de políticas proteccionistas que diminuem a competitividade das exportações agrícolas. Em troca, pregam a superior virtude moral da ajuda financeira a África. Do lado africano, qualquer crítica à governação é denunciada como uma tentativa de "ingerência" e invocam-se imediatamente os pecados políticos do colonialismo. Todos devem abster-se de observar que este gigantesco exercício de cinismo é responsável pela pobreza, doença e corrupção da África subsaariana.

Às raras vozes que se atrevem a denunciar a perversidade sobrepõe-se a arrogância moral de redentores auto-designados como Bono ou Bob Geldof, armados de uma demagogia neo-puritana calibrada para as preferências culturais de um ocidente complacente, que adoptou o cosmopolitismo superficial da ajuda e do "comércio justo" como sucedâneos das teses sociológicas da dependência e da exploração.

Mas o jogo pós-colonialista não estava preparado para alguém como Dambisa Moyo. Natural da Zâmbia, completou um mestrado em Harvard e doutorou-se em Economia em Oxford. Trabalhou no Banco Mundial e na Goldman Sachs e acaba de publicar Dead Aid (Allen Lane, 2009) um argumento arrasador sobre os efeitos da ajuda sistemática, bilateral e multilateral, na corrupção e no empobrecimento africano.

África é abundante em exemplos espectaculares de corrupção. O mundo pasma-se com o descaramento de Mugabe, que pediu 2 mil milhões de dólares de ajuda para o Zimbabwe no mesmo dia em que gastou 175000 dólares a comemorar o seu aniversário, mas já poucos se lembram que a coroação de Bokassa como imperador custou 22 milhões de dólares em 1977, ou que os saques de Mobutu no Zaire e de Abacha na Nigéria terão superado os 5 mil milhões de dólares -cada. A evidência empírica disponível sugere que a ajuda internacional é o principal factor explicativo da corrupção africana e esta, através de diversos canais, tem um impacto negativo na taxa de crescimento, empobrecendo os países receptores e reforçando o ciclo vicioso da ajuda. Nos últimos trinta anos, os países africanos mais dependentes da ajuda externa conseguiram a proeza de diminuir a sua capacidade produtiva, registando uma taxa de crescimento média de -0,2%; entre 1970 e 1998, quando os valores da ajuda internacional cresceram até ao seu valor máximo, a pobreza africana disparou de 11% para 66% da população.

E no entanto a chuva de dinheiro ocidental continua a cair, impenitente. Tal como o puritanismo proibicionista foi instrumental no estímulo ao negócio de contrabando do álcool nos EUA dos anos 20, também o puritanismo dos redentores de África é instrumental na sustentação do negócio da ajuda externa. Pelos cálculos de Moyo, entre o Banco Mundial, FMI, ONU, ONG e agências governamentais, mais de meio milhão de ocidentais trabalham na indústria da ajuda internacional - um dos principais motivos da persistência no erro. Apesar disso e das inúmeras declarações sobre a necessidade de uma revisão profunda das instituições financeiras internacionais, ninguém se atreverá a recomendar a extinção do Banco Mundial na próxima reunião dos G20. Do mesmo modo, a ronda de Doha continuará a arrastar-se, como se o proteccionismo não fosse um dos maiores impedimentos ao crescimento.

Enquanto europeus e americanos agem como se a realidade fosse imutável, o resto do mundo continua a transformar-se e até África se está a cansar de aturar os seus benfeitores crónicos. Moyo defende que os países africanos não devem esperar mais pelo ocidente e precisam de incentivar as trocas comerciais com os que estão disponíveis: Índia, Brasil, Turquia e, sobretudo, China. Angola, por exemplo, já é o principal fornecedor de petróleo ao mercado chinês e na última década o comércio entre África e a Europa caiu de 40% para 26%. Enquanto os ocidentais oferecem prelecções sobre ‘sweatshops', os chineses investem e oferecem uma possibilidade de desenvolvimento. Ou os ocidentais corrigem os erros estratégicos, ou acabam a explicar a sua superioridade moral a países imaginários - o que até nem será muito diferente da atitude actual."

(in Diário Económico, ed. nº 4581)

Tratado das regras da vida doméstica para uso das novas gerações - II

Um jovem e simpática leitora fez-me ver um erro crasso de concepção deste Tratado: comecei pela loiça, quando a montante há - como pude não o ver? - a divisão geral das tarefas domésticas; na qual a lavagem de loiça se inclui, naturalmente.

O problema parece no mínimo espinhoso (não é, como se verá) - daí provavelmente o meu lapso que assim adquire uma aura freudiana, de respeitabilidade. O ponto de partida para a sua resolução deve portanto ser - não é novidade - conceptual: os jovens casais devem começar por ter em conta que a igualdade absoluta não só não existe - nem no casamento, nem no amor, nem na generalidade dos afectos humanos - como pode até, se perseguida cegamente, ser perniciosa. Cito, para exemplo, o casamento que há anos conheci de uma jovem suiça-alemã com um igualmente jovem alemão que acabou em fanicos dada a procura obsessiva, racional, quantificada ao centésimo de igualdade na divisão das tarefas domésticas. Nesta área (e só nesta) o bom-senso é quem deve mandar - e do bom-senso faz parte integrante a aceitação de certas assimetrias (se virmos bem, não há nada mais maravilhosamente assimétrico do que um homem e uma mulher - peço desculpa aos dias que correm, mas não sou muito bom em casais simétricos, se bem não tenha nada contra).

A primeira pergunta a fazer é saber quais as tarefas de que cada um gosta, e quais as que lhe são essenciais (já partilhei, por exemplo - por breves, muito breves meses, verdade seja dita - a vida de uma senhora para quem fazer a cama era imprescindível. Para mim, nessa altura, não era). Aprendemos assim que um não suporta o pó nos livros, outro a roupa do dia nas costas do sofá da sala - e pode estabelecer-se uma lista (mais ou menos informal e flexível) das coisas a evitar ou a fazer absolutamente. Esta lista pode ir-se fazendo, não é necessário estarem os dois, entre o padre e o notário, sentados num degrau das escadas a decidir se pode viver sem aspirador ou com camisas mal passadas (a resposta é "não", em ambos os casos).

Podemos, também, definir as coisas que só podem ser feitas por um dos membros do casal (nesta área nós, homens, temos a vantagem da força: quando é preciso mudar o piano de sítio, quem é que o vai mudar? Já coser um botão ou passar uma camisa a ferro qualquer pessoa pode fazer - se souber, claro. E desde já aconselho todos os jovens de sexo masculino a aprender estas tarefas básicas, tradicionalmente reservadas às senhoras. Não imaginam quão úteis poderão vir a ser). A partir daqui torna-se relativamente fácil passar para o segundo ponto:

O qual é baixamente comparativo. O que é melhor? - Retomando o exemplo acima: Viver sem a senhora, ou fazer a cama todos os dias? Mudar de roupa no quarto ou vê-la ir-se embora? Insistir em ter a loiça lavada no dia do jantar, ou ... (esta pergunta não é boa)?

O terceiro item nesta lista de pontos prévios é quantitativo: de todas as tarefas, quais as que se podem externalizar, contribuindo assim para a economia e para o bem estar de uma família na Ucrânia, ou no Brasil?

Estas etapas concluídas, a divisão das tarefas domésticas torna-se um jogo de crianças (o que ela é, verdade seja dita): as tarefas vitais para que o casal se mantenha durante os previsivelmente 7 ou 8 anos que vai estar junto devem absolutamente ser feitas - ou por uma pessoa externa, ou por aquele dos dois que é mais apto (ou retira mais prazer) da sua execução, ou pelos dois, alternadamente. As outras podem ser objecto de negociações au cas-par-cas. Deve sempre ter-se em conta, como dizia o Marquês de Sade, que de todos os actos humanos se pode retirar prazer (ele exceptuava a acção de se barbear, quotidiana e matinalmente - o que só demonstra que sabia do que falava); e poder: a minha Avó, que já aqui mencionei uma vez a propósito de uma outra confusão que frequentemente envenena a vida dos jovens casais, proibia-me, por exemplo, terminantemente de entrar numa cozinha - com o pretexto, para ela irrefutável e para mim, naquela altura, bastante aprazível, de que "a cozinha não é para os homens".

Claro que a divisão de tarefas domésticas não passa, o mais das vezes, de um repositório de tudo o que não funciona num casal - e muitos preferem limitar as suas discussões a esse tópico e não abordar os outros, mais importantes. É uma opção válida; se bem, para mim, um pouco triste: entre acabar um casamento por causa da loiça ou porque o amor, essa maravilhosa tragédia que de vez em quando se abate sobre nós (e nos abate, mas isso é outra história) não funcionou, ou acabou, ou nos sufoca, quem prefere a primeira?

3.3.09

Outono

Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

Matsuo Bashô, in "O Gosto Solitário do Orvalho, seguido de O Caminho Estreito", Assírio & Alvim.

O tempo do amor

De certa forma, o amor é uma permanente assincronia: com o nosso actual parceiro tentamos corrigir os erros que cometemos com o anterior (andamos sempre um amor atrasados...). E amar alguém não é na realidade amar o que é, mas o que vai ser: o que será o futuro, o que o será o ser amado, o que serão os dois juntos. Amamos o que pensamos que vamos descobrir, enquanto o descobrimos - e deixamos de amar (porque o amor acaba, não porque o queiramos) quando pensamos que nada mais há a descobrir.

O tempo do amor é o futuro, sempre; e o passado, às vezes - naqueles casos, tão raros, em que o amor morreu sem surpresas, sem dor, sem futuro.

(Com uma vénia a esta senhora)

Tratado das regras da vida doméstica para uso das novas gerações

Sob este título genérico tenciono deixar para a posteridade algumas normas simples sobre a convivência doméstica para jovens casais. Começo, naturalmente pelo ponto mais sensível, aquele que, histórica, estatística e empíricamente mais obstáculos levanta na vida do jovem casal. Refiro-me, os generosos leitores com mais de 40 - vá lá, 45 anos - já o terão adivinhado, à lavagem da loiça.

Poder-se-ia pensar que com as modernas máquinas de lavar o problema estaria resolvido, mas não está. Além de que inúmeras são ainda as ocasiões em que o jovem casal não dispõe dessa tecnologia - a qual, de resto, é barulhenta e anti-ecológica (duvido, mas fica sempre bem, nestes tipo de tratados, mostrar uma certa preocupação com o ambiente. Mesmo que não ajude a vender não nos leva directamente para as estantes dos ostracizados).

Posto isto, devo previamente prevenir (anda por aqui um cheiro a pleonasmo) os jovens casais que me vão ler do meu gosto pela prática saudável, relaxante e, repito, amiga do ambiente da lavagem manual de loiça: ou seja, este post não é objectivo, eu reconheço.

Há duas razões pelas quais a maioria das pessoas não gosta de lavar a loiça: mau timing e desorganização. É evidente que após um magnífico jantar, com toda a gente na sala a conversar, beber cognac, whisky e outras coisas, a tecer comentários elogiosos ao que acabou de comer ninguém tem vontade de lavar a loiça - como não a teria de passar a ferro ou passar o aspirador, por exemplo (a diferença sendo que estas duas actividades domésticas nunca são agradáveis, ao contrário da lavagem de loiça). Nada disso; a loiça deve dividir-se em duas fases: uma pré-arrumação, depois de os convidados saírem - dividindo os diferentes constituintes por categorias que vão do menos ao mais sujo; e a lavagem propriamente dita, no dia seguinte logo de manhã cedo. Nada há de mais agradável do que reviver, através da loiça, o alegre convívio da véspera.

Em seguida, a desorganização: a maioria das pessoas que tenho visto lavar loiça fá-lo de uma forma desordenada - o que tem um impacto negativo tanto na eficácia da acção como no prazer que dela se retira. Idealmente deve dispôr-se de dois lava-loiças, um cheio de água com sabão e outro de água sem sabão. A ordem de lavagem é a seguinte:
- Copos;
- Talheres (estes dispõem-se no fundo do lava-loiças, por agora),
- Pratos de sopa;
- Pratos de sobremesa;
- Pratos do principal.
(Frequentemente, consoante o nº de convidados e o menu, chegados a este ponto convém mudar de água - lavando então os talheres, claro).
- Panelas, frigideiras e demais utensílios, por ordem crescente de sujidade.

Algumas notas:

a) Um erro frequente que todos os jovens inexperientes cometem é passar a loiça por água quente antes de iniciar a lavagem propriamente dita. É fácil ver que se a comida se pegou às panelas, por exemplo, foi devido à acção do calor. Se lhes puseermos água quente, estamos a atrasar, e não a adiantar, o efeito de descolagem da água;
b) Não se deve deixar acumular muita loiça na bacia de água limpa;
c) Os copos ficam melhor (ao contrário de tudo o mais), se forem passados por água fria depois da lavagem;
d) A loiça deve dispôr-se arrumada no secador de loiça (pessoalmente, detesto secá-la. Quem goste pode passar directamente a essa fase) de forma a facilitar a sua posterior arrumação.

Resta, claro, o habitualmente espinhoso problema de definir a divisão do trabalho. Há duas escolas, ambas defensáveis: a que diz "um cozinha, o outro lava" - leva por vezes a certos abusos e deliciosas retaliações; e a que defende que quem cozinha lava (no meu caso, como prefiro cozinhar e lavar a loiça a, por exemplo, secá-la, ou passar o aspirador, opto por esta).

Seguindo estas normas simples, as novas gerações poderão eliminar a maior parte dos conflitos (ou pelo menos daqueles que têm a sua origem na lavagem manual de loiça).

O próximo artigo será sobre a roupa, desde a lavagem à passagem a ferro - incluindo, naturalmente, as reparações.

2.3.09

Exaustão

Na construção da personagem, recordar: nem um esquizofrénico consegue lutar em mais do que duas frentes ao mesmo tempo.

Poesia, outra vez

Lamento

a alma aflita anseia sempre pela calma,
mas, ai de mim, a desgraça sombria não se vai.
as minhas noites, no palácio de al-Zâhir,
eram sem mácula, como as de qualquer rei.

ventura, depois desgraça... uma apaga a outra.
por fim, a morte apaga toda a esperança.


Al-Mu'tamid, in "Al-Mu'tamid, Poeta do Destino", Assírio & Alvim, trad., prefácio e notas de Adalberto Alves.

1.3.09

Aguaceiro

Uma chuva de fotografias muito boas, aqui.

(Via A Vida dos Meus Dias).

Uma vida, amor

Uma vida é feita de vidas, e todas as vidas convergem para outra vida. Deve ser a isso que se chama amor.

Escrever

Escrever não é muito difícil; basta alinhar palavras umas atrás das outras, sujeito predicado complemento directo e esquecer que por detrás dessas palavras há sentimentos ou esperança ou emoção e coisas assim porque são essas coisas que estragam o que se escreve. E esquecer que há quem nos leia, quem imagine que percebe aquilo de que nós queremos fugir quando escrevemos, quem pense que sente a mesma coisa que nós que não sentimos nada, só alinhamos palavras e pontuação e advérbios e pensamos que não há nada a pensar, nada a sentir nada a dizer porque as palavras falam por si próprias e tudo o que há a fazer é escolhê-las criteriosamente já que não podemos escolher o que lhes fica por trás. É preciso escrever como se não se sentisse, como se não houvesse amor tristeza alegria esperança luta amizade morte, como se o teu sorriso não existisse nem o teu corpo nem as tuas mãos os teus olhos; é preciso escrever como se não houvesse nada excepto as palavras. É preciso escrever como se não houvesse tempo, como se amanhã não passasse de uma ilusão e ontem outra, como se amanhã ou depois não pudessem ser diferentes por causa do que se escreveu hoje; é preciso escrever e esquecer o que se escreveu porque as palavras não têm memória, a memória não tem memória, não sabe o que é. Basta escrever para que o mundo deixe de ser. Bastam as palavras.