24.4.20

Para onde?

Há anos dizias que as viagens regressam inevitavelmente ao ponto de partida. Nem tu nem as viagens mudaram, mas hoje sabes que na verdade só há uma viagem que regressa inexoravelmente à partida. As outras limitam-se a acrescentar partidas, a baralhar e dar de novo, trocar as letras partida e chegada num daqueles copos de jogar aos dados.

Para onde voltas? Já vês terra?

Serei

Que parte da vida podes dispensar para que o que te resta dela seja vida ainda e não um ersatz? Que parte de ti é sagrada, aquela que mantém o fogo aceso? Se um átomo perder um electrão passa a ser outra coisa? Quantos electrões podes perder? Descontam-se aos que foste ganhando ao longo dos anos?

Tens que traçar uma linha, mesmo sabendo que não será direita, vai ser às curvas, às hesitações: para lá desta linha não há nada. Para lá desta linha, o que vires não será mais do que aquele conjunto de hipóteses a que os mais optimistas chamam memória e tu uma pergunta: este fui eu?

Este serei eu? 

21.4.20

Analogias? Adjectivos? Não. Analgésicos, pf

Se fosse uma cadeia montanhosa seria os Himalaias. Se fosse uma profundidade marítima seria a fossa das Marianas. Não é nada disso: não passa de uma dor de dentes inadjectivável.

PS - O título é falacioso e choramingas. Devia alterá-lo. Estou a ser medicado. Lamentavelmente a química não é uma ciência perfeita e muito menos imediata. 

Caderno de encargos

A função de um político não é transformar factos em decisões e estas em votos. Isso é o que um estadista faz.

Um político transforma (ou tenta transformar) percepções em votos.

20.4.20

Dispersas do dia - Palma, 20-04-2020

Imprensa

O El Mundo (um jornal decente) traz na primeira página - um quarto de página, nada de pequenezes - uma chamada para um artigo de duas páginas, duas (ditto) sobre... rufem os tambores... suspense ... O primeiro parto de gémeos em Espanha por uma mãe com Covid-19. Suspiro de alívio. A senhora não tem lepra, não tem peste bubónica, nao tem SIDA (não teria sido o primeiro, mas enfim), não é careca, não tem barba. Não, nada disso. Tem Covid-19.

É mais ou menos a isto que me refiro quando falo do suicídio da imprensa. O El Mundo não é propriamente um pasquim.


Suicídio

Outra forma de suicídio é a reacção de uma senhora ontem, entrevistada pelo Diário de Mallorca, jornal local com uma qualidade bastante semelhante à da imprensa regional francesa - isto é, muita. O governo das Baleares quer reabrir as ilhas mais depressa do que o resto de Espanha, com o argumento - numericamente imbatível - de que a infecção aqui foi muito menos grave do que em Madrid e que deve evitar o descalabro total do turismo.

Uma maiorquina reage: «não quero turistas estrangeiros!» Das  duas uma: ou a senhora quer suicidar-se e nesse caso devia talvez pensar nos outros e não fazer como aquele piloto austríaco que para morrer despenhou o avião nos Alpes com todos os passageiros. Aposto que nem todos queriam acompanhar o piloto. Ou, alternativamente, a senhora diz isto porque sabe que não morrerá (figurativamente, claro) e que alguém lhe dará de comer. Quem? Os alemães? Os neerlandeses? Os outros espanhóis? Destes, bem pode ela tirar o cavalinho da chuva, que já em tempos normais o turismo nacional é insuficiente para encher noventa por cento da capacidade hoteleira da ilha.


Desconfinamento, pânico

O que me leva a outro ponto interessante disto: como é que os governos que cederam ao pânico em vez de o enfrentar vão agora fazer marcha a ré? O pateta do Sánchez já fala em prolongar algumas restrições até Dezembro - suponho que pelo Natal lhe chegará uma vacina no trenó. Nem todos são do género de estar num buraco e continuar a cavar, mas gerir o dia a seguir parece-me bastante mais difícil e complicado do que fechar toda a gente em casa.

Decantado

- Não digas a ninguém, mas sou o resultado de todas as asneiras que fiz, todas as palermices que disse, todas as situações em que fui irrecuperavelmente ridículo.
- E na receita, não incluis nada de bom, nada que tenhas feito bem?
- Não.
- Acreditas na transmutação da matéria?
- Não. Acredito na decantação. 

Breviário do Mediterrâneo

O Breviário do Mediterrâneo,  de Predrag Matvejevich e traduzido (do francês) por Pedro Tamen sofre de dois defeitos. Um chama-se Secretos del Mediterráneo, de Lluís Ferrés Gurt; o outro são os erros de tradução no que respeita ao vocabulário náutico. São erros pequenos, de pormenor e provavelmente passarão despercebidos à maioria dos leitores. Mas há quem gostaria que o léxico náutico português  não desaparecesse, arrastado pelas embarcações de recreio que têm três quartos com camas de casal e uma janela cada um e espaço para uma televisão na parede, infelizmente sem uma marreta que ensine os respectivos armadores a falar correctamente.

A essas pessoas (isto é, à maioria) o Breviário parecerá o que é: uma excelente descrição do Mediterrâneo, escrita de um ponto de vista mais histórico do que o seu involuntário concorrente, que tem um leque mais  vasto de abordagens.

O Mediterrâneo é um mar que suscita ódios e paixões, ambos muito bem descritos ao longo da história. O Breviário (tal como os Secretos, aliás), pertence à segunda categoria, a das paixões.

O que só o torna mais irritante para os puristas do linguarejar náutico, que não atam ou desatam nós - fazem-nos e desfazem-nos - para quem uma abita de amarração é um pleonasmo e que ainda por cima naquele caso é um cabeço e não uma abita, distinguo só aparentemente leviano. Sendo que para entornar o caldo, o leitor francófono percebe imediatamente a origem do erro: bite d'amarrage. Em português: cabeço. (Não tendo os Secretos sido traduzidos não sofrem deste mal.)

Isto dito, os leitores farão muito bem se não ligarem a estes resmungos e comprarem a obra. É uma panorâmica histórica e geográfica do Mare Nostrum, um mar difícil de navegar, contrariamente ao que se pensa, fascinante, múltiplo, complexo, dividido em mil ilhas, mil penínsulas, mil línguas e outros tantos povos e estranhamente uno, misto, como se de uma ânfora que se tivesse partido alguém tivesse reconstituído a forma, deixando à vista as fracturas coladas.

19.4.20

Arquétipos

«Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento. Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem?»

(Fernando Pessoa, 8-4-1915 in Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão. Lisboa: Ática, 1979. - 1.)

Há cada vez mais provas de que o confinamento é ineficaz como remédio para a pandemia e cada vez mais certezas de que vai custar demasiado caro. A minha objecção à celebração do 25 de Abril na AR não tem rigorosamente nada a ver com ele.

Tem a ver com o tipo de relações que os nossos governantes têm com os governados. Essa relação é - há centenas de anos - enviesada, assimétrica. Os governantes mandam, os governados fazem pela vidinha. «O povo é quem mais ordena» foi uma ilusão passageira, o verso de uma canção que mobilizou as pessoas - isto é, as iludiu durante um curto período da nossa história. Mal essa ilusão passou, voltaram todos à sujeição inicial.

É portanto com um certo optimismo que vejo a petição contra as manifestações já ir em mais de sessenta mil subscritores. Não é, quanto a mim, a forma correcta de lutar contra essa abjecção - isso seria pura e simplesmente ir toda a gente para a rua, ignorando as ordens de reclusão - mas é um passo.

Uma das melhores descrições de Portugal que conheço foi uma vez feita por José Miguel Júdice e foi, naturalmente bastante repudiada: «Portugal é um país de merdosos.» Entre merdosos e medrosos a distância fonética não é grande. Pode ser que este seja a primeira etapa para que deixemos de ser um e outro e passemos das assinaturas para a rua.

Pela razão simpes e irrefutável de que «eles» não são mais do que nós.

Prova dos noventa

Uma coisa é certa: quem diz que a nossa sociedade não liga nenhuma aos velhos está redondamente enganado.

18.4.20

Rage de dents

Não há de certeza no mundo coisa mais enraivecedora do que uma dor de dentes feroz. Já vou no terceiro Tramadol praticamente seguidos e nada. É como se tivesse a tomar um placebo. Os dentistas estão fechados. A senhora com quem falei e me receitou o antibiótico - que amanhã recomeço a tomar, apesar de ter sérias dúvidas de que funcione - disse-me que não pode abrir porque não tem material de protecção. «Vão todos para os hospitais», explica, compungida. É para onde eu tenho vontade de ir agora, mas não vou. Prefiro um copo de tinto, deve combinar bem com a merda do comprimido. Quando isto começou pensei que seria como uma travessia, mas não pensei que fosse assim tanto. Antigamente andava com morfina injectável a bordo mas agora deixei-me disso. Está cada vez mais difícil encontrar um médico que ma receite e, verdade seja dita, nunca a usei. Pergunto-me o que faria se a tivesse aqui. As dores são todas diferenes, umas são mais simpáticas do que outras. A da anca, por exemplo, responde bem ao anti-inflamatório (e provavelmente ao Tramadol também). Amanhã começo o antibiótico. Aposto que tudo o que conseguirei é criar uma resistência à Amoxicilina, um antibiótico simpático, eficaz e polivalente. O vinho está a ajudar. Mais um copo e isto passa para um nível aceitável. Raiva, não contra a máquina, mas contra os dentes. contra a maldita quarentena, contra a minha maldita negligência. É que ao fim e ao cabo vem tudo ter a mim. Já ando para ir tratar dos dentes há não sei quanto tempo, acusar os outros é sair pela esquerda baixa, não posso sequer gritar contra o Sanchez, contra o pânico popular, contra a histeria colectiva porque lá no fundo aparece-me uma puta de uma voz fininha a perguntar-me 'Porque é que não foste ao dentista quando podias?» «Porque pensava que a água oxigenada seria suficiente em caso de emergência, estúpido» «Pois, mas não é» «Cala-te» quase grito ela cala-se e eu bebo mais um gole de vinho, vá lá que não é uma zurrapa e se isto não passa abro outra garrafa, por agora chega de Tramadol. Vou ver à net se o tabaco piora a dor de dentes. Nao vejo nada. Comprei um maço, o terceiro desde que isto começou, não tenho mesmo problemas de tabagismo - nem qualquer outra dependência, apresso-me a esclarecer a quem me vier chatear com o vinho - mas tenho realmente um problema em conter esta raiva. Não sou suficientemente grande para a acolher toda, tem que extravasar para a porra da quarentena e da falta de máscaras e... Um dos dentistas que contactei disse-me que podia abrir, mas eram cento e cinquenta euros por sessão porque tinha de contar o tempo das limpezas antes e depois respondi-lhe que não muito obrigado, ainda por cima era longe para burro ele que vá limpar antes e depois quem quiser a mim não me limpa cento e cinquenta paus por sessão as dores levam-nos ao fundo da raiva, não é? Ao fundo mesmo, à raiz da raiva e não é um jogo de palavras, deve ser a pior forma de impotência uma vez em Cape Town disse a um dentista que preferia um ciclone no mar a ir a um dentista, sentei-me e adormeci. Tinha bebido uma garrafa de whisky inteira antes de ir para lá. Quando acabou o homem acordou-me - com uma certa dificuldade - e disse-me que gostaria muito que todos os clientes dele fossem como eu. Emborrachou-se só com o hálito, suponho. Antes de adormecer ainda tive tempo para lhe pedir que verificasse o tratamento que a dentista russa me tinha feito um ano antes. «Está óptimo», disse-me à saída. Lembro-me da dor de dentes antes da chegada a Nakhodka, mas não me lembro de ter sido tão má como esta e deve ter sido muito pior, lembro-me que nem respirar pela boca podia por causa do frio. O Boca d'Ouro levou-me ao hospital no dia a seguir à chegada, ainda estávamos fundeados, foi a sessão de dentista mais alucinante da minha vida, uma sala enorme cheia de manchas de sangue em tudo quanto era sítio, a broca que devia ser do século passado (isto é do século XIX), a dentista a falar com a enfermeira enquanto me brocava o dente e de vez em quando perguntava «ballit?», foi a primeira palavra que aprendi em russo, significa Dói? e a certa altura doeu mesmo, afastei-lhe a mão, levantei-me e fui-me embora, o Boca d'Ouro estava lá fora e quando cheguei a brdo disse-lhe que queria outro dentista. Dois dias depois levou-me à mesma - as mesmas filas à porta, o mesmo edíficio antigo, velho e decrépito eram dezenas de pessoas e nós passámos à frente delas todas, como tínhamos feito da outra vez - e fui tratado como um rei. Só à saída de Nakhodka viemos a saber que o Boca d'Ouro, além de agente de navegação era o chefe da KGB local, ceci explicant cela. Tenho tido dores de dentes épicas, mas esta deve ser o Adamastor das dores de dentes. Mudei de vinho. Quem não tem whisky caça com vinho. Amanhã compro uma garrafa de rum, não vá o diabo tecê-las. Pareço uma farmácia ambulante. Aposto que lá por dentro está tudo podre, estômago, fígado, pâncreas, intestinos, tudo. A puta da dor acalmou um bocadinho. Acabo o tintol - até rima com Tramadol, não deve ser coincidência - e vou outra vez ver se durmo. A raiva não é um bom somnífero, eu sei. E não se dilui bem em vinho, antes pelo contrário. ¡Qué vaya! ¡Me cago en la rabia! O vinho é bom, valha-me isso. É um Petit Verdot de Alicante, ecológico, com pouca entrada mas bom fim de boca e alguma adstrigência, talvez complemente bem o sacana do analgésico. A uma dor de dentes os franceses chamam une rage de dents, uma raiva de dentes. Uma raiva contra os dentes, con.

17.4.20

As luzes apagaram-se depressa de mais

Só quem acredita mais em propaganda do que em números ainda pensa que os lockdown serviram para outra coisa além de aplacar o pânico popular. Para "conter" a epidemia, "achatar a curva" ou poupar os serviços de saúde não serviram com certeza. Há números, gráficos, artigos e videos suficientes para o provar.

O problema não é esse. É: porque é que quem utiliza números e a razão para analisar situações que os exigem é visto como um ser inumano, frio, sem compaixão? Como é que uma característica do ser humano - que eu saiba, os animais não sabem contar, por muito antropomorfizados que estejam - pode ser desumana? As crenças irracionais provocaram historicamente mais mortos do que a razão.

Porque é que o século XVIII acabou tão depressa?

16.4.20

Ali onde os dias vão morrendo, como a luz nas altas latitudes

É noite e o teu cemitério está cheio de vivos. Os mortos abandonaram-te. Estás sozinho à entrada, não vês luzes e o silêncio pesa, tanto mais que sabes não haver mortos ali. Quem está  respira tanto como tu, espera, deseja, pensa. Não se manifesta, é tudo. Avanças pela noite cega, a ausência de luz é total. Conheces o caminho: já ali viveste, já foste um deles. Um dia decidiste morrer, trocaste de mundo e agora avanças de novo pelas alamedas desertas. Os vivos estão por baixo das campas. Só tu, morto, vives.

As alamedas do cemitério não são rectilíneas. Circumvalações, labirintos, curvas, barreiras, portões - alguns abertos, outros fechados - degraus que não vês, não estavam ali quando lá vivias.

É aqui que os teus dias vão morrendo, deixando apenas quem neles vivia. Começam pelas noites, a gangrena sobe para as tardes e depois para as manhãs. Não te surpreendas: os teus dias morrem devagar. Quando chegarem, reencontrarás os outros, os que os povoaram contigo e agora te esperam vivos debaixo das campas.

Como a luz nas altas latitudes lentamente se converte em sombra.

15.4.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-04-2020

Resumindo muito resumidamente: o nosso central broker (ao contrário do que possa parecer, isto não é inglês. É linguagem universal) - uma peça central do charter (ditto) - pediu-me um antepara estanque. A ideia não é estúpida e eu próprio pensei nisso várias vezes, mas decidi não o fazer pois o pavilhão no qual vamos registar o P. não o exige. Mas uma coisa são as autoridades e outra o mercado. Se me é mais fácil vender lugares com uma antepara estanque, pois venha ela. Com o I. encontrámos uma solução não muito cara e que não obriga a grandes trabalhos. É difícil explicar o gozo que me dá dedicar-me finalmente àquilo que gosto realmente de fazer: tomar conta de embarcações de recreio, preferivelmente de vela. É certo que preferiria fazê-lo a navegar mas é igualmente certo que tudo o que tenho estado a fazer no P. aumentará o meu prazer quando chegar a essa fase.

Consegui também convencer o contramestre da marina a deixar-nos reparar o convés a nado. Vai ser preciso ir para seco antes de começar a época, mas prefiro fazê-lo o mais tarde possível.

Para já, o objectivo número um é sairmos de Mallorca. De momento ainda estamos a trabalhar a meio-gás - só pode estar uma pessoa de cada vez a bordo - mas não é impossível que daqui a um mês façamos as provas de mar. Inch'Allah!

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Entretanto em Portugal a novela principal - desta vez, mais do que justificadamente - tem uma sub-novela. Uma estação de televisão disse qualquer coisa sobre as pessoas do Norte e as armas da revolta levantaram-se em uníssono. Até um presidente de câmara por quem tenho certo respeito - a saber, Rui Moreira - se deixou levar. Não conheço bem o senhor (politicamente, claro. Pessoalmente não o conheço de todo) mas creio que o bairrismo é o ponto fraco dele.

O complexo de inferioridade do Porto relativamente a Lisboa já nao é nada do que foi - feliz e justificadamente - e este tipo de atitudes não serve senão para lhe retardar a agonia.

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Entretanto, os media começam timidamente a pensar que tudo isto vai ter um preço. Daí a reflectirem sobre o seu papel vai um passo de gigante. Que eles não estão prontos a dar, claro.

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Nunca votei nem votaria no PSD, mas lamento o papel de bombo da festa a que Rui Rio se presta. Talvez chegue onde quer - ser o número dois de Costa - e talvez até consiga daí subir um degrau. Espero que não.  O homem não tem uma concepção muito clara do que é uma democracia e como funciona.

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Tinha prometido não falar de política aqui no DV, mas isto não é política. É muito mais do que isso.

14.4.20

Sinais, deuses

Este sinal interior de ardor no peito não sinaliza coisa nenhuma. Não é sinal de nada. Um sinal para o ser precisa de um sinalizador e um sinalizado. Numa ilha deserta só há sinais quando alguém os vê. Antes disso não passam de palhaçadas destinadas a fazer rir os deuses.

Na verdade, não sabes se gozam ou invejam a tua solidão. Um deus nunca está sozinho, tem sempre quem martirizar ou perseguir ou amar ou salvar de um destino cruel. O teu sinal não vale nada: ninguém o vê e se por milagre ou engano divino alguém o vir não sabe o que fazer dele.

13.4.20

Refúgios

Se fizéssemos das palavras grutas? Isto é, de cada palavra un refúgio. Pega-se numa ao acaso. Pode ser um verbo, um adjectivo, um advérbio, uma preposição, um artigo definido ou indefinido. Palavras, cada uma delas uma gruta numa longa, interminável parede vertical, como as da ilha de la Gomera onde viviam os hippies tardios. Cada pessoa pode escolher um número infinito de grutas, mas não tem a exclusividade delas. Deve partilhá-las. Ter sido o primeiro a chegar não lhe dá direitos nenhuns.

Alguns refúgios são mais procurados do que outros. Amor, por exemplo. Felicidade. Estão cheios e tu detestas multidões. Tens de te afastar, encontrar um canto só para ti naquele longo corredor que entra pela rocha dentro, sem que se lhe possa vislumbrar o fim. Às vezes cruzam-se: amor e dor, sede e deserto, amanhã e pele,  pele e mão, olhar e quando.

Cada uma destas grutas é um refúgio e lá tu te encontras, quando te perdes de ti mesmo.

H. e o tempo

Voltas e mais voltas, como água que se escoa pelo ralo. Mas este não se escoa: é o tempo. Cola-se às paredes, às janelas, às portas, escorrega pelas mesas como os relógios de Dali. H. sentia-se como se lutasse contra uma gigantesca teia de aranha invisível, fenómeno físico do qual só podia observar os resultados. O processo - os fios da teia, os movimentos desesperados que fazia com os braços e as pernas para se libertar - não eram perceptíveis a olho nu.

H. apercebeu-se de que as próprias paredes se moviam: acompanhavam o seu esbracejar, os seus pontapés,  as rotações do torso. Solitário, sabia que não podia esperar ajuda exterior mesmo que, num inesperado e improvável momento de modéstia, submissão ou aceitação a solicitasse. Era o epítome perfeito do homem solitário: nascera só, vivera só e não é desta que morrerá só.

"O melhor é parar", pensou. "Fazer-me de morto, enganar o tempo: fazer um arco de agora para o futuro. Ocupado como está a tentar afogar-me não se aperceberá. Não é fácil enganá-lo, eu sei. Mas tão pouco é impossível. Passar um cabo a um dia longínquo, esperar que faça fixe a qualquer coisa e deixar-me puxar, imóvel. Como se num túnel estivesse parado e fossem as paredes a passar por mim. Como se?" H. riu-se. "Como se num túnel... Onde pensas que estás? Numa planície ao ar livre?"

H. monologava e apercebeu-se de que a pressão de teia se aligeirara. Pouco, mas pelo menos já não o asfixiava. "O meu cabo está a funcionar. Talvez seja esta a solução: o futuro sou eu. Está em mim, digamos assim."

Parou e esperou. Enquanto não chegar, não se saberá como acaba esta história: faz parte do tempo, ela também. 

Globalização

Uma coisa é certa: quem diz que nunca se viu nada assim está podre de razão. Uma histeria colectiva globalizada como esta deve ser a primeira da história. Nem as religiões o conseguiram.

12.4.20

Doenças demasiado recentes para serem nomeadas com precisão

Histeria colectiva induzida pelos media (HCIM ou MICH, no acrónimo inglês)? Ou Histeria colectiva alimentada pelos media (HCAM ou em inglês MFCH)? Prefiro MICH, é mais fácil de pronunciar. 

Sociedade de redes

Se fosse hoje, S. Jorge não mataria o dragão. Bloqueá-lo-ia nas redes sociais.

11.4.20

Rente às palavras

«For Watt now found himself in the midst of things which, if they consented to be named, did so with reluctance
(S. Beckett, in Watt)

A relutância das coisas em ser nomeadas é bem conhecida de quem tenta nomeá-las e um dia descobre, décontenancé, que há mais coisas a nomear do que palavras para o fazer.