"The traveler has to knock at every alien door to come to his own."
Rabindranath Tagore
"Etrange l'homme sans rivage, près de la femme, riveraine."
"S’en aller ! S’en aller ! Paroles de vivant !"
Saint-John Perse
"C'est en faisant semblant d'être écrivain qu'on le devient vraiment."
J.M.G. Le Clézio
"Whether at Naishapur or Babylon,
Whether the Cup with sweet or bitter run,
The Wine of Life keeps oozing drop by drop,
The Leaves of Life keep falling one by one. "
Omar Khayyam
"All that is from the gods is full of Providence."
"It is a shame for the soul to be first to give way in this life, when thy body does not give way."
Marco Aurélio
"Rien n'est plus lent que la véritable naissance d'un homme."
"L'amour est un châtiment. Nous sommes punis de n'avoir pas pu rester seuls."
Marguerite Yourcenar
31.5.13
Largar, chegar
Largo amanhã. Se tudo correr bem chego na segunda-feira. Uma viagem que começa com o dia de chegada sendo mais importante do que o da largada é rara.
A chuva e a beleza
Não gosto de chuva; em Golfito chove todos os dias, mas apesar disso acho o lugar de uma beleza de tirar o fôlego. A verdadeira beleza de um local mede-se nos dias de chuva, cinzentos e tristes.
Este princípio também se aplica às pessoas.
Este princípio também se aplica às pessoas.
Fusos horários
Parece-me por vezes que não há melhor metáfora para a vida do que as vidas que se vivem em fusos horários diferentes.
Muito diferentes, quero dizer. Duas ou três horas não conta.
Muito diferentes, quero dizer. Duas ou três horas não conta.
30.5.13
Diário de bordos - Golfito, Costa Rica, 30-05-2013
Hoje começa chover mais cedo do que o habitual. E mais forte, a primeira bátega foi quase "africana". Fui comprar os mantimentos para a viagem cedo de manhã, em vez de à tarde como tinha pensado. Mesmo a tempo: a chuva começou quando eu estava a chegar ao portão da marina.
Não sou muito dado a solipsismos nem a poderes sobrenaturais, mas não consegui impedir-me de pensar que se calhar a chuva veio porque eu fui fazer compras mais cedo. Preparar-nos para o que aí vem pode ajudar o que aí vem a acontecer.
........
A marina Terra e Mar consiste numa casota flutuante (à qual estou atracado) ligada à terra por um portaló. Em terra há outra construção, sobre palafitas. A "marina" (fica melhor com aspas) é a mais barata, mais artesanal, mais tudo aquilo que se costuma designar por "familiar" das quatro ou cinco de Golfito. É propriedade de um casal que navegou muito antes de parar aqui.
Os meus sentimentos a respeito da marina são ambíguos: por um lado gosto do espírito da casa; por outro, o senhor fala muito, muito, muito. E não olha para as pessoas com quem está a falar, desvia o olhar meio para baixo e para a frente, como se estivesse à procura de um anão.
Enfim, é bastante prestável, e se conseguirmos cortar na raiz (depois é tarde) as suas tentativas de entabular conversa o lugar revela-se agradável, sem a pressão de ter de consumir seja o que for, ao contrário das outras.
........
A Costa Rica é um país caro. Por vezes pergunto-me como fazem os locais para viver. Hoje no supermercado comentei isso com a senhora da caixa e fiquei mais ou menos estarrecido quando percebi que as minhas compras para cinco ou seis dias de mar custaram quase metade do salário mensal da senhora. E não comprei caviar, tão longe disso como se pode estar na pirâmide de custos alimentares.
Não sou muito dado a solipsismos nem a poderes sobrenaturais, mas não consegui impedir-me de pensar que se calhar a chuva veio porque eu fui fazer compras mais cedo. Preparar-nos para o que aí vem pode ajudar o que aí vem a acontecer.
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A marina Terra e Mar consiste numa casota flutuante (à qual estou atracado) ligada à terra por um portaló. Em terra há outra construção, sobre palafitas. A "marina" (fica melhor com aspas) é a mais barata, mais artesanal, mais tudo aquilo que se costuma designar por "familiar" das quatro ou cinco de Golfito. É propriedade de um casal que navegou muito antes de parar aqui.
Os meus sentimentos a respeito da marina são ambíguos: por um lado gosto do espírito da casa; por outro, o senhor fala muito, muito, muito. E não olha para as pessoas com quem está a falar, desvia o olhar meio para baixo e para a frente, como se estivesse à procura de um anão.
Enfim, é bastante prestável, e se conseguirmos cortar na raiz (depois é tarde) as suas tentativas de entabular conversa o lugar revela-se agradável, sem a pressão de ter de consumir seja o que for, ao contrário das outras.
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A Costa Rica é um país caro. Por vezes pergunto-me como fazem os locais para viver. Hoje no supermercado comentei isso com a senhora da caixa e fiquei mais ou menos estarrecido quando percebi que as minhas compras para cinco ou seis dias de mar custaram quase metade do salário mensal da senhora. E não comprei caviar, tão longe disso como se pode estar na pirâmide de custos alimentares.
Piada privada
Se pudesse voltar atrás no tempo mataria o senhor Graham Bell. Ou enfim, pelo menos deixá-lo-ia em estado de não poder inventar fosse o que fosse.
Mutantes
No que toca à morte de Deus Nietzsche enganou-se de várias formas, infelizmente. Deus está vivinho da costa e fresco como uma sardinha; e quem deixou de acreditar nele transferiu a crença para outras entidades - um partido político, um clube de futebol, a igualdade, a escolha é vasta.
Talvez a necessidade de fé esteja, como alguém recentemente afirmou, inscrita no nosso código genético. E as pessoas incapazes de se filiarem em clubes, partidos, grupos ou o que quer que seja, cépticos por natureza, independentes, agregários sejam mutantes.
Talvez a necessidade de fé esteja, como alguém recentemente afirmou, inscrita no nosso código genético. E as pessoas incapazes de se filiarem em clubes, partidos, grupos ou o que quer que seja, cépticos por natureza, independentes, agregários sejam mutantes.
O violino do João
As novas gerações perderam o contacto com o violino do João. De certa forma compreende-se: na minha já era ténue. Nunca vi o filme, por exemplo. Só o conheço porque o meu pai, cada vez que via uma sombra de auto-comiseração aparecer na minha conversa o invocava de imediato.
Essa lacuna na cultura geral das novas gerações é de lamentar. Como ferramenta pedagógica, o apelo ao violino do João era imbatível.
Essa lacuna na cultura geral das novas gerações é de lamentar. Como ferramenta pedagógica, o apelo ao violino do João era imbatível.
Palavras, encantações
O símbolo do mal do nosso tempo é Hitler, não é Staline, Mao ou mesmo, estranhamente, Pol Pot; apesar de cada um deles ter morto mais gente do que o austríaco (com a excepção deste último, o qual apesar dessa pobre performance detem o invejável recorde de ter conseguido matar vinte e cinco por cento, um quarto, da população do seu país).
Isto deve-se ao poder encantatório da palavra. Por uma razão que não descortino, o nosso tempo é mais sensível ao que se diz do que ao que se faz. Se eu te matar "para teu bem" sou perdoado; se eu te matar porque não gosto da cor dos teus cabelos sou um facínora. Que o resultado para a vítima seja exactamente o mesmo é coisa que deixa uma grande parte dos nossos contemporâneos de mármore.
Enfim, talvez não seja de hoje. Ou seja uma manifestação tardia da frase de abertura de um livro muito conhecido, que diz "Ao princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus".
.........
Outra palavra encantatória, com poderes mágicos é "conscientemente". Dei-te um pontapé nos tomates, mas não o fiz conscientemente, portanto não sou culpado de nada.
Esta é mais recente, claro. Antes de Freud, um pontapé nos tomates era um pontapé nos tomates; hoje, para o ser, tem de ter sido dado conscientemente. O inconsciente não magoa.
Isto deve-se ao poder encantatório da palavra. Por uma razão que não descortino, o nosso tempo é mais sensível ao que se diz do que ao que se faz. Se eu te matar "para teu bem" sou perdoado; se eu te matar porque não gosto da cor dos teus cabelos sou um facínora. Que o resultado para a vítima seja exactamente o mesmo é coisa que deixa uma grande parte dos nossos contemporâneos de mármore.
Enfim, talvez não seja de hoje. Ou seja uma manifestação tardia da frase de abertura de um livro muito conhecido, que diz "Ao princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus".
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Outra palavra encantatória, com poderes mágicos é "conscientemente". Dei-te um pontapé nos tomates, mas não o fiz conscientemente, portanto não sou culpado de nada.
Esta é mais recente, claro. Antes de Freud, um pontapé nos tomates era um pontapé nos tomates; hoje, para o ser, tem de ter sido dado conscientemente. O inconsciente não magoa.
Chuva
Qual será o contraponto urbano de rain forest? Rain city? Isto não é uma cidade, sequer. É um buraco. Rain hole?
Diário de Bordos - Golfito, Costa Rica, 29-05-2013
Volto para bordo. Espera-me o pão que hoje fiz, o mau cheiro dos tubos que não mudei (por causa da chuva, poderosíssima chuva), a certeza de que largo na sexta-feira. Enfim, na medida em que há certezas nesta vida, que é uma medida curta, muito curta.
N. aceita vir comigo por um preço razoável. Pareceu-me boa pessoa e competente; mas isso só o saberei na sexta-feira.
Por agora sei que quero chegar ao Panamá, pôr o bote no estaleiro e começar a trabalhar para o pôr a trabalhar o mais depressa possível. Do resto tratarei depois: amanhã é uma sequência de hojes, e cada hoje é muito curto, muito breve, um relâmpago.
N. aceita vir comigo por um preço razoável. Pareceu-me boa pessoa e competente; mas isso só o saberei na sexta-feira.
Por agora sei que quero chegar ao Panamá, pôr o bote no estaleiro e começar a trabalhar para o pôr a trabalhar o mais depressa possível. Do resto tratarei depois: amanhã é uma sequência de hojes, e cada hoje é muito curto, muito breve, um relâmpago.
Nós
Medimos as distâncias em dias, o nosso jardim é azul, a nossa casa é onde não estamos, a noite é a ausência de luz e o dia ausência de estrelas, pouco sabemos do que amanhã será feito. Não sabemos o que é estar, mas sabemos o que é não estar. Interessamo-nos pouco pelo nome das coisas, e muito pelas coisas; as pessoas valem para nós o que são, e não o que pensam, ou os outros julgam que são. Sem nós o mundo não seria o que é, mas não sabe quem somos.
Vivemos num "planeta paralelo". Somos nós.
Vivemos num "planeta paralelo". Somos nós.
29.5.13
Chuva, rum, trabalho
Chove de tal maneira que não dá nem para ir ao clube do lado beber um rum, quanto mais comprar tubos.
Pão
Gosto muito de fazer pão; desta vez tive sorte, em S. Francisco encontrei uma farinha integral que faz um excelente, saboroso, firme.
Começo por misturar quatro porções de farinha com a respectiva quantidade de levedura, um pouco de sal (não sei quanto, mas decerto mais do que a legislação portuguesa autoriza, infelizmente) e um pouco de azeite. Depois amasso isto tudo com uma porção de água, deixo levedar (aqui é muito rápido, em meia hora está pronto para ir ao forno).
O forno que tenho a bordo não presta para nada, mas enfim, lá me vou ajeitando. De resto, a melhor parte de fazer pão é amassá-lo, não é esperar que o fogão se decida a entregar-no-lo pronto e com um mínimo de queimaduras (tanto no pão como em nós).
A melhor maneira de amassar um pão é pensar numa pessoa que gostássemos de amar e odiemos; ou, inversamente, uma que tentemos odiar e amemos. A alternância de raiva e ternura, amor e ódio faz o pão mais tenro, mais saboroso, atraente. Como a vida, de resto.
Começo por misturar quatro porções de farinha com a respectiva quantidade de levedura, um pouco de sal (não sei quanto, mas decerto mais do que a legislação portuguesa autoriza, infelizmente) e um pouco de azeite. Depois amasso isto tudo com uma porção de água, deixo levedar (aqui é muito rápido, em meia hora está pronto para ir ao forno).
O forno que tenho a bordo não presta para nada, mas enfim, lá me vou ajeitando. De resto, a melhor parte de fazer pão é amassá-lo, não é esperar que o fogão se decida a entregar-no-lo pronto e com um mínimo de queimaduras (tanto no pão como em nós).
A melhor maneira de amassar um pão é pensar numa pessoa que gostássemos de amar e odiemos; ou, inversamente, uma que tentemos odiar e amemos. A alternância de raiva e ternura, amor e ódio faz o pão mais tenro, mais saboroso, atraente. Como a vida, de resto.
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Receitas
Sophie
Sophie tinha horror à solidão. O seu lema era "mais vale dois na cama do que um a voar"; nunca trocava de namorado sem ter o próximo já amarrado, deitado e fodido. "É mais seguro assim, compreendes?" perguntava-me. "Detesto voltar para casa e não saber o que vou comer."
Diário de Bordos - Quepos, Costa Rica, 28-05-2013
Hoje comprei uma tartaruga. De pedra, pequenina, um modelo "artesanal" que é feito em St. Lucia, se não me engano. Tenho muitas (todas diferentes, excepto esta. É muito prática, posso andar com ela para todo o lado - até a perder, claro). Destas tenho duas, mas não sei onde está a outra. Provavelmente no Estoril, com o resto das minhas coisas. Gosto muito de tartarugas, são o meu animal fetiche, o meu totem, o meu guia espiritual. A carapaça, por exemplo. A lentidão. A longevidade. Em Bequia há um centro que trata de tartarugas bebés e as liberta quando têm quatro anos. Foi lá que comprei a minha t-shirt verde, aquela que designo por t-shirt da esperança.
As probabilidades de sobrevivência das tartarugas quando saem do centro são muito baixas, mas algumas sobrevivem. Como a minha t-shirt, eu e a maior parte das pessoas. Acaba-se sempre por sobreviver.
Também gosto de elefantes. Em terra são os meus animais favoritos. Por causa da pele, da miopia, da força. Não sei se já viram elefantes de muito perto. Eu já; muitas vezes e de muito muito perto. É uma experiência única, sentir a vida, a força, a energia e pensar que ao mais pequeno grão de areia naquela engrenagem a vida, a força e energia se voltarão contra nós e nos espezinharão como nós esborrachamos uma barata - mas com menos desgosto, menos sentimento.
No Parque Nacional Manuel António não há elefantes, e as tartarugas não se vêem, estão demasiado longe. Só há árvores e macacos e aves, muitas aves, e muitos outros animais para além dos macacos. Mas são pequenos. As árvores não: são grandes, enormes, de todas as formas e feitios. Não sou muito sensível à flora, percebo pouco daquilo, cansa-me.
Mas apesar de tudo isso, apesar dos animais pequenos, daquelas árvores todas adorei o Parque. É de uma beleza que se sobrepõe a tudo o que possamos pensar antes. É fácil gostar daquilo que corresponde aos nossos gostos, aos nossos preconceitos. Muito mais difícil - e fascinante - é quando nos apaixonamos por alguém, ou coisa, ou lugar que não encaixa nas ideias feitas.
As probabilidades de sobrevivência das tartarugas quando saem do centro são muito baixas, mas algumas sobrevivem. Como a minha t-shirt, eu e a maior parte das pessoas. Acaba-se sempre por sobreviver.
Também gosto de elefantes. Em terra são os meus animais favoritos. Por causa da pele, da miopia, da força. Não sei se já viram elefantes de muito perto. Eu já; muitas vezes e de muito muito perto. É uma experiência única, sentir a vida, a força, a energia e pensar que ao mais pequeno grão de areia naquela engrenagem a vida, a força e energia se voltarão contra nós e nos espezinharão como nós esborrachamos uma barata - mas com menos desgosto, menos sentimento.
No Parque Nacional Manuel António não há elefantes, e as tartarugas não se vêem, estão demasiado longe. Só há árvores e macacos e aves, muitas aves, e muitos outros animais para além dos macacos. Mas são pequenos. As árvores não: são grandes, enormes, de todas as formas e feitios. Não sou muito sensível à flora, percebo pouco daquilo, cansa-me.
Mas apesar de tudo isso, apesar dos animais pequenos, daquelas árvores todas adorei o Parque. É de uma beleza que se sobrepõe a tudo o que possamos pensar antes. É fácil gostar daquilo que corresponde aos nossos gostos, aos nossos preconceitos. Muito mais difícil - e fascinante - é quando nos apaixonamos por alguém, ou coisa, ou lugar que não encaixa nas ideias feitas.
28.5.13
Tremor de terra
Ontem houve um tremor de terra aqui. Como foi verdadeiro e eu ando demasiado ocupado com os meus sismos metafóricos ia-me esquecendo de o notar. A sensação foi a mesma que tive na Grécia: parece que de repente estamos numa carruagem de metro. É excitante, mas muito breve.
Escrever, a.
Des fois j'aimerais écrire en français, cette langue "sophistiquée"; o en Español, un idioma bruto, violento, en el que mismo una palabra de amor suena como una batalla; or in English, a language in which things are non-said, rather than said. No fundo bastar-me-ia escrever, coisa que não sei fazer porque perco demasiado tempo a.
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