31.1.24

Desaçucarar, pieguice

«Todo en ti fue naufragio.

Todo te lo tragaste, como la lejanía.
Como el mar, como el tiempo.

Todo en ti fue naufragio.

Era la negra, negra soledad de las islas,
y allí, mujer de amor, me acogieron tus brazos.»

(Os versos são de Neruda, a música de Paco Ibañez. Procurar no Youtube, Ibañez canta Neruda, ou coisa que o valha.)

É preciso Paco Ibañez para desaçucarar Neruda. Ou melhor: é preciso Paco Ibañez para desaçucarar a pieguice, venha ela de onde vier. Ele e Patxi Andion dão à pé-de-salsice honras de salão. Isto é, despem-na e por baixo daquela rouparia toda descobre-se uma mulher linda. É o que eles fazem: despem a mariquice, verso a verso, compasso a compasso, sílaba a sílaba e ali fica ela, no meio da sala, despida e branca, um bocadinho tímida, porque por vezes calha ser púdica. Oiçam Palabras para Julia em modo de repetição e à milésima vez perceberão o que quero dizer. Depois troquem Julia pelo nome da vossa filha. Mas só depois.

30.1.24

Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM-TOM França, 30-01-2024

Voltemos então ao princípio da história: comprei queijo (camembert e brie), manteiga da Bretanha, daquela que é metade sal e metade natas. Comprei também pão e vinho tinto (Bergerac, tem a vantagem de não piorar se for bebido fresco). Tudo isto no Leclerc, o supermercado mais barato da ilha, ao que leio e vejo (se bem a minha amostra seja insuficiente para dizer «da ilha»). A carne que tirei do congelador de manhã vai ficar para mais depois. Acresce que chegado a bordo vejo que o camembert está no ponto certo, quase quase igual ao que há alguns anos comprei na rua Daguerre, em Paris e comi no quarto do hotel. Ninguém imagina o que um bom camembert pode fazer pelo trajecto que vai das papilas gustativas às sinapses. (O brie é Président. Sem comentários). Há, porém, aqui, alguns desacertos: nem cheguei a abrir o vinho para acompanhar os queijos. Estava com demasiada fome e mal cheguei saltou-me um planteur do frigorífico e olha, ficou para o almoço. Há mais desacertos? ¡Qué vaya! São insignificantes e não merecem sequer menção. 

O Leclerc fica no centro comercial La Galleria (sic), uma daquelas coisas absolutamente execráveis, enorme, aonde sinto que serei obrigado a voltar muitas vezes. O próprio supermercado é abominável. Para se encontrar o que se quer percorre-se um interminável labirinto cheio de coisas de que não se precisa - a única vantagem, no caso deste, sendo que o Minotauro à saída não é muito feroz. Enfim, as minotauras, as caixas são monopólio das senhoras.

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Retomo com vigor a luta contra o TCA (Terminal de Contentores de Alcântara). É muito pouco provável que ganhe - enfim, é impossível - mas não me rendo sem luta. Não sou um patriota por aí além - se fosse não teria vivido fora do país a maior parte da minha vida - mas suporto melhor a estupidez alheia do que a nacional. Talvez esta seja uma boa forma de amor pela pátria, não?

Talvez fosse preciso é convencer uma equipa de futebol dessas grandes a apadrinhar o projecto. Talvez assim este povo tão simpático quanto apático se mexesse e se apercebesse do horror que a CML e a APL estão a preparar. E não é só um crime de lesa-Lisboa. É o país todo que fica prejudicado. 

Mosquitos

Tenho andado a ser mordido pelos mosquitos. É bom saber que há quem usufrua do meu corpo.

Mona, carcaça

Nesta velha luta entre a mona e a carcaça, vale a pena lembrarmo-nos de que aquela pode fazer um monte de coisas sem a outra, mas esta sem aquela não faz nada.

A nossa idade é a da nossa mente, não a do corpo.

Não esperes

Nadas num mar de paz? Nem por isso. Não é um mar, é um lago. Tem um fim, quer à vista quer não. Sabes que vai acabar, não sabes o que te espera nas margens. O essencial é nadares, não te afundares nessa aparência de calma. Não te esqueceres daquilo por que nadas: a beleza, a decência, o amor, a sabedoria. 

(Ou melhor: o saber, conjunto de peças com o qual se constrói a sabedoria.)

Sabes nadar, tens as direcções. Não esperes.

Modernidade, desenraizamento

Nunca fiz inteiramente parte daquilo que me rodeava. Sempre estive - às vezes um pouco, outras muito - do lado de fora.No navio tinham de me ir chamar para as AGT (Assembleia geral de tripulantes, se por acaso), para as festas de Natal ou de Passagem de Ano; nunca fui de grandes admirações, nunca tive ídolos - nem o Tabarly, (coitado de mim)... Isto não é inteiramente verdade. No sétimo ano do liceu não saía de casa sem ouvir pelo menos uma faixa do Jimi Hendrix. Mas no essencial, ou na maioria se preferirem, está correcto. No meu Vaurien - de seu nome ADN - navegava quase sempre sozinho. 

Isto tudo porque me apercebo agora de que a minha indiferença não é pela modernidade, ao contrário do que muitas vezes penso e digo.

29.1.24

Entre duas mortes

Descubro a pele nua de uma alma nua. Isto é: descubro uma pele e uma alma. O corpo está algures no meio, como um separador numa autoestrada. Como um nariz entre os dois olhos. Como um cérebro entre duas orelhas. Como uma vida entre duas mortes, o nascimento e a outra. 

Indubitável

"Vida" é uma palavra que define a mistura de Leonard Cohen, mar, rum e paz.

Não tenho a certeza de que estes quatro elementos sejam imprescindíveis: se fossem, não teria vivido até hoje.

Coisa que indubitavelmente fiz.

Agradeço

Hoje disse a alguém, pela primeira vez na vida (a minha), que estou em paz. É verdade. Estou. Sei que este sentimento é passageiro, sei que paz é um conceito fluido, sei que tudo isto ("tudo isto" sendo o conjunto de vários conjuntos) é tão instável como o pião de uma criança inábil (é o que eu sou. A analogia é fácil).

Tudo isto é fácil e inquestionável.  Só tenho uma pergunta: a quem devo agradecer?

O que aí vem

Olha, querida. Vou dizer-te a verdade. Mudei de rum. Repara: não troquei o rum por whisky, vodka ou gin. Não sou volátil, tu sabes, agora que me conheces bem. Sou fiel. Rum é rum, seja ambré, como até agora ou blanc como agora. Simples questão de economia e de gestão de stocks, nada a ver contigo. Troco de runs mas não troco de mulheres.

Isto é: troco tudo: ventos, barcos, mares, vidas. Só não troco futuros. Esses não os tenho feitos. E preciso de ti para fazer este que aí vem.

Paráfrase

Cioran dizia «é espantoso que a perspectiva de ter um biógrafo não impeça ninguém de viver» (a citação é de memória e traduzida por mim. Deve ter várias falhas).

Gosto de a parafrasear: é espantoso saber que há quem me leia e mesmo assim continue a escrever.

Se por acaso

Não vá dar-se o caso de alguém algum dia me perguntar e eu me esquecer: a maior canção de todos os tempos chama-se Avalanche e é de um senhor chamado Leonard Cohen.

Todas as outras de todos os outros são aproximações. 

Basta viver

Já Janeiro se foi e entra Fevereiro, o melhor mês: é o mais curto, o último do Inverno (para quem tem Inverno). Depois vem Março, marçagão, manhã de Inverno tarde de Verão. Vivi muitos anos sem Inverno e um dia vi neve em Março, foi tão bom!

A pergunta é: há ele alguma coisa que não seja boa? Basta viver e tudo é bom.

Claramente

As coisas têm de ser ditas e ditas com clareza. Onde não há clareza não há coisas. Há palavras, quando muito e palavras não são coisas. São sons. 

Por exemplo: a música de Evanthia Reboutsika, de Eleni Karaindrou, de Angélique Ionatos, de Nena Venetsanou é maravilhosa. Digam o que quiserem, eu não me importo. Em Portugal temos uma assim, uma senhora que cantava com os Madredeus. Teresa, se bem me lembro. Nogueira? (Salgueiro, estúpido.) Assim que de repente me lembro é a única. Ah, e há também o Vasco Abranches, que compõe música como deve ser.  Isto é, música que não seja jazz ou medieval, renascentista, barroca ou até pós-romântica, porque essa é sempre como deve ser. Até Britten que morreu ontem à tarde tem boa música. Quem não gosta de Mahler levante o braço. Ou de Rachmaninov. São sons? Não. É clareza feita música. Quem não gosta de Ahmad Jamal ou de Mingus sai da sala. De Hildegarde von Bingen. Arvo Pärt. Chavela Vargas.

Podia passar a noite toda a recitar nomes, mas o objecto deste texto não é a música. É a clareza. A função das palavras. Dizer A e significar A. Dizer «Amo-te» e deixar bem claro que «amo-te» significa «quero amar-te. Quando te conhecer, daqui a cinco ou dez ou quinze anos, amar-te-ei». Dizer: «Não sei» e significar «Não sei». «Não sei quanto tempo levarei a conhecer-te porque o amor não é uma pomba que nos cai do céu, é uma parede que se constrói todos os dias, tijolo a tijolo, talocha a talocha.» «Não sei quem sou, porque contigo serei diferente. Se não for, de nada não serve estar contigo: o amor serve para nos mudar. Se for para ficar na mesma, mais vale mantermo-nos cada um no nosso canto.»

Por exemplo: «não sei» significa «não sei». Ou seja: um mundo. A quantidade de coisas que não sei é infinitamente superior às que sei. Este copo de café que agora bebo, esta música que oiço (Eleni Karaindrou, "Beatriz"), este rum (HSE ambré), este salão aonde escrevo (S/Y S. D.)... Que sei eu de tudo isto, sem o cimento aglutinador do amor? Sem o amor nada sabemos, com ele tão pouco mas pelo menos ficamos mais perto, é para isso que serve o amor, para ficarmos mais longe do que não sabemos, mais perto de saber qualquer coisa. Se eu ouvir Evanthia Reboutsika contigo oiço a mesma que oiço sem ti? Não sei.

Não sei. Conheço caminhos mas nem todos os caminhos são iguais. Interessam-me os caminhos que não conheço? Nem sempre. Às vezes gosto da segurança de um porto cujas ruas, cafés e bares já percorri. Gosto do sorriso que umas flores te dão. Acredito na capacidade unificadora de um olhar. Acredito na capacidade unificadora das palavras claras.  Acredito nos gestos simples, na capacidade apaziguadora de uma carícia, no desafio de uma dúvida. Acredito em tudo aquilo que quero acreditar porque não saberia acreditar no que os outros acreditam, mesmo que quisesse. 

Por isso acredito no amor: esta parede que fui construindo a várias mãos fez de mim aquilo que sou hoje, aquilo que amanhã serei contigo. Depois de amanhã não sei. Depende da qualidade dos tijolos e do cimento, do jeito dos pedreiros - nós. Há poucas coisas na vida que não sejam uma incógnita e «nós» é a maior delas todas. Há que dizê-lo claramente.

Introspecção, diáspora

Num momento de introspecção aguda descobri que sou a diáspora de mim próprio.

28.1.24

Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM-TOM França, 28-01-2024

O almoço foi uma rouille de seiches "à la martiniquaise": enchi aquilo de cebolinho, pimenta da Jamaica (aqui chamada bois d'Inde) e malaguetas. Uma das poucas vantagens que vejo em viver sozinho é poder fazer a comida picante como gosto dela. Gosto muito. E acompanhá-la com a música de que gosto: primeiro medieval, depois barroca - duas espécies de rock avant la lettre.

De maneira oiço os Concertos para Oboé do Bach, saboreio a posteriori todas as matizes da rouille - feita e acompanhada com um Bourgogne Aligoté, não vá o diabo tecê-las. 

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Pouco a pouco, descubro uma condição que me era fugidia: a paz. Não sei de onde veio, nem se veio para ficar. Mas sei que está aqui agora e que ela nunca saberá quão grato lhe estou, por pouco tempo que fique.

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Esta paz é simultaneamente uma fuga para dentro e outra para fora: estou bem comigo e quero partilhar este bem-estar com outra pessoa. Estou bem sozinho mas estaria melhor com uma destinatária no outro lado das palavras, para não andarem desnorteadas, coitadas. 

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A música devia ser toda assim: ouvida trezentos anos depois de se composta. Ou mil.

Tempo, idade

O tempo e a idade andam sempre juntos, como gémeos, mas são diferentes. O tempo é uma linha contínua e formosa; a idade é uma escada com os degraus todos diferentes uns dos outros, alguns de lado, outros que faltam ou estão partidos.

Até que um dia se encontram e aí sim, fazem um conjunto harmonioso.

Amores, esculturas

Por muitas obras-primas que tenham dado à literatura mundial, nada há mais chato de ler, escrever ou viver do que um amor triste. Só cantados e ou filmados se podem tornar interessantes.

Ou esculpidos, se a senhora (no meu caso) for escultural. 

27.1.24

Um dia, no passado

Um dia, no passado, fotografarei todas as coisas, pessoas, paisagens, luzes que hoje quero fotografar. E escreverei a todas as mulheres a quem hoje quero escrever. E farei tudo aquilo que hoje quero fazer. 

Um dia, no passado, viverei a vida que hoje quero viver.

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 27-01-2024

As surpresas estão aonde menos se espera. Venho ao mercado do Marin. É um mercado pequenino e uma grande armadilha para turistas, mas gosto-lhe do cheiro e das cores - mesmo em dias como o de hoje, em que a luz não está grande coisa (e muda de cinco em cinco minutos).

Entro por uma das entradas laterais e vejo um senhor a vender abricots (nada a ver com os abricots europeus, que não passam de pêssegos). Não conheço a fruta e compro uma, que ele abre para eu provar. Conversamos um pouco e de chifre pergunta-me - ou melhor, diz-me:
- És português?! És pedreiro? 

O homem é martiniquês e vende "abricots" e água de coco a um preço exorbitante, é certo. Mas daí a identificar o meu sotaque em poucos minutos surpreende-me.

Continua:
- Só trabalho com portugueses.

Perante o meu ar interrogativo, clarifica:
- Quando preciso de fazer obras nas casas. Tenho dois apartamentos que alugo a turistas e quando preciso de fazer qualquer coisa neles só chamo os portugueses.

Fico assim a saber que há pedreiros lusos aqui. E que um tipo que vende fruta no mercado é dono de dois apartamentos. 

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Surpresa suplementar: o senhor do Bon Boudin está cá e tem a loja aberta. Enganou-se no nome: devia ser «Le Meilleur Boudin». Estaria ainda mais perto da verdade.

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Mais: a senhora que vende bijuteria artesanal é portuguesa. Está cá "há dezasseis anos. Já sabia que você é português".
-Sabia? Como?

Aponta para trás, para uma pessoa que não identifico e acrescenta:
- A Leila (?) disse-me. Sou amiga dela." 

Não sei de todo quem seja a Leila (?). Hoje deve ser o primeira vez em todos estes anos que falo com alguém que não a Sandrine do A la Maison e o senhor do Bon Boudin para mais do que "quero isto ou aquilo, por favor". Ou seja: o sotaque português é bem conhecido aqui. Não fazia a menor ideia 

Nós marinheiros vivemos nas margens. "Noutro planeta", como me disse um dia a minha filha H. Vivemos nas costas da terra, tenha este terra todos os significados que a forma permite.