29.2.24
Farrapos
28.2.24
Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 26-02-2024
Hoje fui, pela primeira vez, fazer compras com o bote. Entrei assim na categoria a que os americanos chamam "rabos molhados". No caso particular deste dinghy não molho o rabo mas ando com os pés molhados. Wet feet seria mais apropriado, portanto.
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O T. estava num apéro com os colegas e convidou-me a ir ter com ele. Acabámos por jantar juntos. O único momento em que um pai se sente mãe é quando ouve elogios ao filho, vindos de todos os lados - colegas, patrão, amigos.
Elogios unânimes, acompanhados por descontos na empresa aonde ele trabalha. A boca só vale quando o porta-moedas está ao lado e a confirma. Dito de outra forma: o que sai dos lábios é ar, o que sai da carteira é metal.
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Pequenos problemas para resolver no S. D. Não se pode dizer que eu seja grande apreciador de construtores franceses, salvo raras e honrosas excepções. Neste caso, estou eternamente grato à Jeanneau. Agora tenho com que ocupar-me, sem ser as malditas «plataformas».
Isto é meia mentira e necessitaria de meia-hora para a explicar. Resumindo, fica assim:
- Um filho porreiro e amado por toda a gente;
- Trabalho a valer no S. D.;
- Ida à Europa daqui a um mês;
Chega para fazer uma maionese decente.
25.2.24
Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 24-02-2024
A rota directa seria de vinte e quatro milhas mas desde que saímos da baía de Fort-de-France viemos numa bolina cerrada até ao fim. Tivemos direito a um squall, o T. passou um dia horroroso, enjoado de não poder falar. Ou seja, fiz tudo sozinho até quase à chegada e estou morto. Qualquer ideia de navegação longa em solitário teria morrido agora, se não estivesse já morta e enterrada há muito tempo.
Restam-me, contudo, várias satisfações. Primo, claro, estar no mar. Foi um gozo do princípio ao fim. Secundo, ter encontrado rapidamente os gestos. Ao fim de três viragens de bordo saíam-me perfeitas. Tertio, ter conseguido fazer mais de metade do Cul-de-sac du Marin à bolina (e só não o fiz todo porque queria fazer batota com a marina (consegui). Quarto, ter ficado a conhecer o S. D. na sua função primeira, que é navegar (isto discute-se, mas isso é outra história. Ou então fica para depois).
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Martinique: um país em que as pessoas ou são de uma gentileza e simpatia extremas ou são agressivas, mal-educadas e desagradáveis. Os funcionários da marina que me foram buscar para me rebocar fazem parte deste segundo grupo. A senhora que me atende no restaurante Sous les manguiers também, em menor escala. Estou demasiado cansado - e feliz - para me chatear. Aproveito o Viognier a quinze euros a botelha (espero que não seja como no Zanzibar) e antecipo com prazer a proximidade do bote. Em menos de dez minutos estarei a bordo. E isto porque ando à velocidade de uma pata com dez crias atrás.
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Apanhei um escaldão. Estava tão precisado!
24.2.24
Diálogo, tempo
- Ainda tenho arrepios e um bocadinho de desconforto mas já não tenho dores. O tempo vai fazendo o seu trabalho. Em breve estarei como novo.
Como novo? Meu caro, o tempo vai fazendo o seu trabalho, sem duvida, mas como o mar vai erodindo a costa. Nunca mais estarás como novo. Pelo contrário: estás é cada vez mais como velho.
- Começo finalmente a corresponder à idade que tenho. Sempre andei atrás dela e agora o tempo resolveu apanhar-me.
- Ou esperar por ti. Tens finalmente as curvas do tempo e da idade alinhadas e em fase.
- Não posso dizer que seja desagradável. É só estranho.
Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM-TOM França, 23-02-2024
Em Fort-de-France há sítios (bares, cafés, restaurantes) maus e caros e sítios bons muito caros. Estou aqui há mês e meio, notoriamente insuficiente para se conhecer uma cidade e como amanhã vou para o Marin é pouco provável que a situação mude: permanecerá uma desconhecida. Não consegui substituir as velhas referências por outras novas. Da memória sobrevive apenas o L'Impératrice, aonde hoje regressei. A direcção do hotel enviou-me um pedido de desculpas que para mim fechou o assunto. Para o idiota do empregado creio que não mas esse problema é dele e infelizmente não o posso ajudar.
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Último dia nos Z'Abricots. A marina é porreira, o pessoal impecável, os vizinhos uma simpatia; mas está longe de tudo e com excepção de dois restaurantes (categoria muito caros) não tem nada. Relativamente perto há um pequeno Carrefour, duas lavandarias - uma das quais de auto-serviço - e mais duas ou três lojas aonde nunca entrei. É preciso um carro para tudo. A minha ideia de ir viver para o campo sofreu um forte abalo.
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Da outra lavandaria veio hoje a roupa da cama, lavada e a cheirar bem. O camarote ficou assim também: lavado e a cheirar bem. Chateei-me com as senhoras porque o preço foi outra vez diferente, mas desta vez não lhes escrevo. Amanhã vou-me embora. Que se lixem. A verdade é que a roupa veio limpíssima e isso chega-me.
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Fevereiro passou a galope. Amanhã é Março e depois de amanhã Abril. Amanhã ao fim do dia vou a Palma. Depois de amanhã atravesso para Lisboa. Se Deus existisse teria decerto a simpatia de me fazer os dias assim, todos curtos, todos a galope.
23.2.24
Sul, claro
Sal / Sel / Sil / Sol / Sul
Ou seja, em cinco fonemas dois são inúteis, dois bastante necessários e um essencial. Pergunt número um: qual é o essencial?
Pergunta número dois: há outro monossílabo português com tantas formas úteis como este?
Reminiscências
Vinha para bordo com uma daquelas vontades de cozinhar contra as quais não se pode lutar. No caminho para Fort-de-France lera um texto pequeno, daqueles que nos abalam. Falava de paisagens, passeios e de «reminiscências de nostalgias não vividas», uma sequência de palavras que poderia ter sido escrita para mim. Não foi, claro, mas a nostalgia que me tem acompanhado os dias encontrou ali um eco, uma reminiscência. Queria um jantar como um longo e lento passeio.
Chegado, pus uma cebola a refogar em manteiga, reli o texto, pus o Wazimbo - para mim o melhor músico moçambicano, ele e o Jimmy Dludlu, este num registo diferente - servi-me um ti'punch blanc (não os há de outra cor, de qualquer forma, excepto para turistas e néscios), reli o texto, cortei tomate em cubos pequenos, piquei a salsa, cortei metade da beringela em rodelas e pu-la a dégorger (? - Se alguém me ajudar a traduzir isto agradeço, a tradução do google é ridícula). o cheiro das cebolas a refogar em lume muito muito fraco enchia-me o barco, a música, o texto. Quando as cebolas estavam mais do que translúcidas e menos do que castanhas juntei-lhes o tomate e a salsa. Acrescentei as especiarias, mexi tudo muito bem e o gás acabou.
Mudar a garrafa é um projecto que exige tempo e que será melhor fazer à luz do dia (passo os pormenores). Da minha vontade inicial - escrever enquanto o jantar cozia, lentamente - ficou a reminiscência de um molho que será comido amanhã e a ideia de que sim, os lugares dão-se-nos, com generosidade e sem pedir nada em troca, enchem-nos de reminiscências de vidas que um dia teremos, de tudo o que um dia seremos. Há lugares que não são só lugares - são projecções de nós, são aquilo que nós seríamos se fôssemos uma paisagem. E há passeios assim, também, passeios nesses lugares que deixam de ser lugares e se transformam em nós, como se ao olhar para a paisagem estivéssemos a olhar para dentro.
22.2.24
Passaporte
21.2.24
De Passagem
De Passagem é um conjunto de fotografias e de textos feitos nos sítios por onde passo. É essa a única coisa que têm em comum: são feitos nos lugares por onde estou de passagem. As fotografias não ilustram os textos e estes não as explicam. São simplesmente duas formas diferentes de falar da mesma coisa. Poder-se-ia talvez comparar as fotografias e os textos a prosa e poesia. A analogia não seria perfeita mas tão pouco seria completamente desadequada. Talvez um triângulo isósceles seja uma boa ilustração: na base estão a fotografia e a prosa e a uni-los estão os lugares, os momentos, a luz, as formas, as palavras - enfim, aquilo de que uma fotografia e um texto são feitos.
Porém, ao contrário daquilo que se poderia pensar - ao contrário daquilo que eu próprio penso - De Passagem não é só uma colecção de lugares. É uma atitude. Ou melhor: uma maneira de ser. Um feitio. Um carácter, uma personalidade. Não estou de passagem. Sou de passagem. Até por mim estou de passagem.
Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM-TOM França, 20-02-2024
A maionese não me saiu muito boa. Quando muito, boa. Já fico contente: é sinal de que a minha menstruação está a passar. Ou no meu caso, como dizia uma piada da minha infância, monstruação. Deve estar a acabar. Para acelerar o processo procuro os Cânticos da Liturgia Eslava no Youtube pelo coro dos monges de Chevetogne, farto de saber que não há o disco da Musique d'Abord completo. Não faz mal: oiço o que há e penso no que falta, como na maionese penso no que falta - na verdade, no que está a mais - para ter ficado muito boa e não só boa. Penso também no clarete de Bordeaux com que acompanhei os fish fingers, nos runs com que os precedi, no prazer que me vai dar ir no sábado para o Marin sem motor mas com o T. para me ajudar e talvez um vizinho de pontão, vamos ver, dar-me-á uma resposta amanhã. E eu que sonhava com navegar por essas ilhas fora...
Não me queixo. Mais vale este Inverno do que muitos que tenho passado nos últimos anos. Pelo menos posso escrever frases infindas, com montes de vírgulas em tudo quanto é sítio, ao ritmo dos cânticos, não há melhor maneira de nos ligarmos à eternidade, digam o que disserem. Não é ligar. É entregar. Não há melhor maneira de nos entregarmos à eternidade, mesmo para um ateu como eu. Não tem nada a ver, não depende sequer do nome que se dá à eternidade, seja ele Deus seja outro qualquer, como amor, por exemplo, ou mar, ou vida ou seja lá o que for desde que seja profundo, infinito e azul. Sim, azul. É a cor do infinito, a cor infinita. As outras não passam de Pantones.
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Fiz queixa do puto do Impératrice. No sábado excedeu-se. Fi-lo não só por estar verdadeiramente chateado com ele mas também por curiosidade. É a segunda que faço aqui. A primeira foi contra uma empregada de uma agência de rent-a-car. Serviu para demonstrar que a rapariga tem as costas quentes e - sobretudo - que nestas latitudes há valores mais importantes do que o serviço ao cliente. Pergunto-me se desta vez o resultado vai ser o mesmo. Enviei uma queixa à direcção do hotel - duvido muito que chegue - e outra à direcção do turismo. A ver vamos, como dizia o ceguinho. Aceitar certas coisas porque são pretinhos ou porque não sabem é uma forma de racismo e de paternalismo que não suporto. Estou-me nas tintas para a cor da pele. Pode ser preto, amarelo, castanho ou encarnado - antes disso é empregado de mesa, ponto. Detesto esta espécie de racismo que consiste a desculpar pessoas por causa da cor da pele. Enfim, na verdade detesto todas as espécies de racismo. Como também, de resto, detesto os gritos de «racismo» quando o racismo não tem nada a ver com a causa dos gritos.
Na verdade falta-me uma enorme quantidade de paciência para o racismo, seja ele qual for. Sempre fui dermo-daltónico e não é agora que vou ficar sensível às dermo-cores.
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Afinal parece que o disco está todo no youtube. Há sempre um lugarzinho para o infinito, não é?
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Avanço no Labro, um nome que conheca muito mal quando andava por aqueles lados e agora lamento. O homem é brilhante. É uma espécie de faz-tudo: cinema, jornalismo, romances, rádio, televisão. Acho que o meu livro devia ter-se chamado Alheado, em vez de De Passagem.
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Hesito entre um rum e um copo de vinho e opto por lavar a loiça. Chama-se a isto pensar fora do copo.
20.2.24
Auto-disparates
Input, entropia e pensos (inclui um exercício)
A médica insiste em que eu arranje uma enfermeira para me fazer os pensos e eu insisto em fazê-los eu.
(Penso-me, logo existo.)
A verdade é que acredito na capacidade regenerativa da carcaça. Por velha que esteja, vai aguentando e vai-se reconstruindo. Com falhas, claro, a entropia faz o seu trabalho. Apesar de tudo o que ponho como entrada no sistema, ele consome mais e vai-se gastando. Andamos às voltas, o "meio de transporte" e eu, em simbiose. (Como se pudéssemos andar separados.)
Exercício: rearrume os pronomes reflexos na oração "Penso-me, como e gasto-me".
18.2.24
Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM - TOM França, 17-02-2024
Posso estar enganado, claro. Estou muitas vezes. Mas o homem tem todo o aspecto de ser «artista» e está acompanhado por duas senhoras que têm todo o aspecto de ser «senhoras que acompanham artistas». Tudo isto entre aspas porque posso estar enganado.
O restaurante é caro. É o tipo de lugar de que os artistas gostam, sobretudo quando são de esquerda, passe o pleonasmo e aonde nós, mortais meros, vamos quando precisamos de alguém que nos acarinhe e só nos temos a nós próprios para isso.
O que é a qualidade? Ainda não sei. Em contrapartida, sei que preciso dela como um peixe de água e aqui estou, finalmente em França. Hallelujah! Finalement, la vraie France!
O problema sendo: aonde arrumam eles o passado?
Se este restaurante escrevesse à mão como seria a sua escrita?
Não sei. Sei que estava a precisar de um havre de qualité. Um abrigo de qualidade. Um porto de abrigo. Saio daqui com a camisa cheia de nódoas - culpa de um bocado de pão que me caiu na sopa - a cabeça cheia de bem-estar e a carteira bastante mais vazia, o que só prova que os contrários se equilibram.
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Num país em que até à mediocridade é cara, como poderia a excelência não o ser?
17.2.24
O resto é conversa
A minha geração (e muitas outras antes dela, verdade seja dita) atribuía qualidades mírificas ao coito. Ele era «encontro de almas», «descobrir o outro» e sei lá que mais. Tretas, claro. Como dizia uma namorada que um dia tive: conversas de iroku (a namorada do pai era japonesa e ela não gostava por aí além da senhora).
A verdade é que molhar o pincel é bom e não molhar é mau (ou pelo menos é uma ausência de bom, o que para certas idades são equivalentes). O resto é conversa de encher chouriços, versão portuguesa da tal senhora. A verdade foi muito bem expressa por Reiser numa série de cartoons: «On ne baise plus, on s'aime». Basta fazer uma pesquisa no Google e eles aparecem.
O resto é conversa.
Definição ( ceci n'est pas un cour de mathématiques)
O que é o luxo? É uma combinação de bom gosto e de ostentação nas proporções correctas. Noventa e nove porcento de bom gosto e zero vírgula zero um por cento de ostentação.
Do uso das coisas e outras histórias
Gosto de ver as coisas usadas (mas não negligenciadas, que é muito diferente). Uma das razões da minha aversão aos «iates», sejam super, mega ou o raio que os parta vem dessa necessidade que eles têm de ter tudo sempre como se tivesse acabado de sair do estaleiro. Tudo tem de estar como novo, como se não fosse usado. Tem nada a ver com valor de revenda nem com a estética. É uma simples manifestação de poder - coisa à qual sou mais ou menos alérgico, forçoso é reconhecer. Uma coisa usada e bem tratada é, para mim, mais bonita e tem mais histórias para contar do que uma que parece não ter vivido um dia que fosse.
Claro que este princípio (mutatis mutandis) pode aplicar-se a pessoas, sobretudo se forem do sexo feminino. Mas isso é outra história.
A maravilha das verdades simples
16.2.24
Um comboio para lado nenhum
Nada disto aconteceu, nada disto se passou como digo que aconteceu. Toumani Diabaté não está a tocar as Mandé Variations, um dos discos mais belos que a humanidade produziu e que se lixe a world music, com f grande se faz favor; a ventoinha do meu camarote não foi apagada agora mesmo e não estou tapado com o lençol; a médica não me disse nada àcerca de cuidados enfermeiros; não me encharquei em rum - nem sequer acabei o copo; nada disto aconteceu num dos planetas em que habito. Destapei-me. Parei a ventoinha. Não bebi o rum todo até ao fim. Nada disto é verdade, nem isto nem o seu contrário. Acabo de beber quase um decilitro de água. Disse à médica que sim, tinha bebido quase dois litros de água por dia, a seguir à operação. Também lhe disse que nem numa semana bebi essa água toda, mas ela não ouviu. Tenho de treinar o meu talento de ventríloquo. Tenho de beber mais água. Tenho de ouvir o Diabaté mais vezes. A vida passa por mim como aquele comboio das feiras, que apanhamos mas nos quais não acreditamos - de qualquer forma não nos levam a lado nenhum. Não sei sequer se estou sentado ao lado do condutor se no meu lugar favorito, ao fundo da última carruagem, a dos retardatários, a dos que apanharam o comboio com mais dúvidas do que certezas. "Nesta carruagem não há lugar para certezas", poderia um cartaz dizer. "Só dúvidas". Penso na quantidade de músicos que poderia incluir na viagem mas são muitos. E excluir, claro. É muito tarde para fazer listas, destapei-me, parei a ventoinha, Diabaté faz-me desviar do que escrevo para o ouvir, sei que vou ter de beber mais água porque estou com sede e sei que vou acabar o rum. Quer se queira quer não o universo é um gato que cai sempre de pé, venha de onde vier.
Amanhã terei de ver se consigo resolver o problema do motor. Amanhã terei de ver se consigo resolver o problema do comboio da feira. Tem uma carruagem que diz "Só para boçais" mas ninguém se reconhece como boçal e a carruagem vai vazia. Talvez se soubessem escrever uma frase completa, com sujeito, predicado e complemento directo. Talvez.
Talvez devesse haver uma carruagem para quem desliga a ventoinha do camarote porque não sabe se prefere ter frio ou ter calor, se prefere tapar-se com o lençol ou destapar-se, se prefere caras ou coroas. Talvez.
Ou uma carruagem para quem gosta de beber água, dois litros por dia "para limpar os circuitos" (aspas porque me cito). A mesma pessoa poderá ocupar várias carruagens simultaneamente? Do género "não tenho certezas, não bebo água, gosto de Toumani Diabaté, bebo rum e abro excepções a todas estas afirmações". Todas elas são verdade e o seu oposto é igualmente verdade. Cada uma delas mereceria uma carruagem, se a justiça funcionasse. (Não sei de que justiça se trata aqui.)
Não sei e sei que não sei, o que demonstra que sei. O comboio não leva a lado nenhum senão ao lado de onde saiu, chamado precisamente "nenhum".
Não há esforços inúteis
"II n'y a pas d'efforts inutiles. Sisyphe se faisait des muscles."
Roger Caillois, citado por Philippe Labro in J'irais nager dans plus de rivières.