7.8.24

Diário de Bordos - Palma, etc., 08-08-2024. Era: Limites do método empírico

Sempre fui distraído.  Deixo tudo em todo o lado, esqueço-me da roupa suja quando saio para a lavandaria, dos óculos, da carteira, do telefone. Esta incapacidade de viver o momento é misteriosa. Porém, algo hoje me intriga mais do que no passado: fico muito mais triste e zangado, furioso comigo, quando me esqueço de qualquer coisa do que ficava dantes. Hipóteses:

1 - Sempre fiquei tão zangado como agora fico e não me lembro;

2 - Esqueço-me mais vezes ou de coisas mais importantes;

3 - A velhice é menos tolerante do que a juventude.

Vou pôr estas hipóteses à prova, se bem nenhuma seja passível de alguma experiência empírica. Só o método dedutivo-analítico funcionará.

Se até lá não me esquecer, claro. 

........

ADENDA

Para esquecer os esquecimentos (desta vez o saco dos cabos e carregadores) levanto-me com o objectivo de ir ao 7 Machos beber uma margarita. A meio do caminho vem-me o bar Lisboa à memória, penso "Que bom! Afinal ainda me lembro de algumas coisas" e paro aqui para uma piña colada (no meu caso, pila desconada, mas passemos). Já não são os mesmos e a "pila conada" (aspas porque cito) é demasiado doce e cheia de gelo - que não passa de água, como toda a gente sabe. A música tão pouco é grande coisa e decido esquecer-me da carrer de Sant Magí, apesar da beleza da parte feminina da clientela. A do 7 Machos também é bonita, a música mais suportável e porra, penso eu, se aos trinta não ligava a ponta de um chavelho a estas coisas porque raio ligo agora? Nessa altura pensava que lhes faltava qualquer coisa e agora dou graças a Deus por lhes faltar qualquer coisa e vai daí perco-me pelos carreiros, caminhos e atalhos do pensamento e da memória - andam sempre juntos, como as autoestradas e as estradas "alternativas" e decido que o mau gosto tem limites, pago e vou setemachar, neologismo adequado para quem só não se esquece da cabeça por causa do pescoço. 

........

A margarita do Alex é melhor margarita do que a piña colada do outro é piña colada, a música melhor e com um volume mais aceitável, o bom gosto mais presente e o mau ausente e apercebo-me de que por vezes é bom esquecermo-nos do que é bom para sabermos (ou confirmarmos) o que é bom.

Termino a noite com um mezcal,  bebida que - toda a gente sabe - tem propriedades mágicas, dr entre as quais a menos importante não é seguramente fazer-nos esquecer aquilo que o esquecimento se esquece de nos fazer esquecer.

........

A noite recompõe-se. À margarita seguiu-se um mezcal, a este uma tequila de vinte e três anos (oferta da casa, mas prefiro o mezcal), o Alex faz-me de novo pagar um preço do qual me envergonho (ma non troppo), estou pronto a apostar que a BH Glasgow Vintage me levará direitinho a casa.

Estou igualmente pronto a apostar que o sono estará à espera da bicicleta mal ela chegue a bordo. Abençoada burra.

........

Ganhei a primeira aposta. Agora só preciso de não adquirir o hábito de apostar. 

A vida e a fome

Pois sim. Há muitas coisas para e outras tantas por contar. É assim a vida: vive-se metade e fica a outra metade na travessa. Já ninguém tem fome.

Não sabem o que perdem.

6.8.24

Diário de Bordos - Cala Mitjana, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-08-2024

A primeira coisa que me impressionou no homem foi a beleza. O gajo é lindo, não há outro termo. Cabelos encaracolados, os olhos azuis e o sorriso que os iluminava... É pouco frequente a beleza masculina impressionar-me, talvez porque a ache rara, não sei. Mas quando  me toca deixa-me de boca aberta. É uma injustiça da natureza, mais uma: para ser bonito, um homem tem de ser muito mais lindo do que uma mulher. À atenção das senhoras do registo feminista. Faz transportes, maioritariamente de lanchas a motor e é dono de um Fjord de onze metros e trinta anos (estes números são se memória, mas devo andar perto da verdade).

.........
Foi anteontem. Depois disso embarquei no LA PEREGRINA (menciono o nome porque é demasiado bonito para ser reduzido a uma inicial), um Sun Odissey trinta e seis de trinta anos - também - que está em bom estado para a idade e mau para charter. Os clientes são um grupo de miúdos de vinte anos, cinco raparigas e um rapaz, estudantes, adoráveis e insensíveis aos defeitos do bote. Ontem ao almoço comi massa com molho de tomate e salsichas e ao jantar pizza do supermercado. Felizmente hoje estaremos em Portocolom e amanhã acaba. Vá lá: pelo menos não há saladas. Passei a noite na cala Mitjana, bela, vazia e calma. Durante o dia está cheia a abarrotar de embarcações pequenas, mas as oito da tarde vai-se tudo embora.

(Cont., espero. Ainda há tanto a contar...)

3.8.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-08-2024

Prepara-se a noite para entrar, pé a puxar pé e eu deixo-me puxar por cada um dos pés, devagarinho, como se não quisesse nada com ela. Quero, claro. Abraçá-la, beijá-la, acolhê-la nestes braços sequiosos de sono e que em vez disso escrevem (disparates, ainda por cima). Amanhã tenho de acordar cedo - ou seja, à hora habitual - fazer o saco e arrancar. É preciso lavar o mastro, está infecto e envergar a grande para acabar de vez com o lazybag. E a genoa, ver se esta merda pode pelo menos navegar. Depois há os acabamentos, mas esses vão ser poucos. No meu dia de anos isto estará pronto. Vai ser a melhor prenda de aniversário da minha vida.

Hoje recusei um overnight de uma semana por causa dos day-charter. Que se lixe. É preciso pôr o P. a funcionar e andar põe essa ilha fora não ajuda.

Herdei do meu Pai esta incapacidade absoluta de não pôr o trabalho à frente de tudo o resto. O trabalho e a palavra, as duas prisões. 

(Cont.)


Chapéus, dores e outras coisas

Fui à farmácia,  mas claro que Tramadol nem pensar nisso. À mistura de Paracetamol com Ibuprofeno fui eu que disse não, obrigado. Ando a tomar essa merda há muito tempo. Que se lixe, a dor acabará por passar. Depois pensei nos chapéus de Verão. Tenho três: o que comprei hoje, o panamá de saída e o panamá de trabalho. "Chapéus há muitos..."

Tivesse eu mulheres como tenho dores - e chapéus.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-08-2024

Pus a bicicleta a reparar - precisava de uma afinaçãozita nos travões e nas mudanças - comprei um chapéu na sombreria Juliá e vim comer ao Infame. Há dias assim, dias harmoniosos como uma peça de música de Mozart, as coisas encadeiam-se como se fossem fruto do acaso, ou da necessidade, ou da inevitabilidade ou de uma mistura de tudo isto. Toujours est-il: gosto do meu chapéu novo, que me custou menos de metade do chapéu novo que comprei em Lisboa e de que estou farto e aproveitei vim ao Nafi comer umas beringelas recheadas e pensar que amanhã tenho de estar em Portopetro às dez da manhã (ou seja: nove) e pensar que a conversa com o Carl correu bem e vou conseguir recuperar a cana de leme que ele fez e está um simples horror - opinião com a qual ele concorda - e depois vou pedir ao Jaime para cobrir aquilo de couro e depois, ainda depois, vou conseguir dormir, que desde ontem - quando vi aquilo - não consigo.  

Resultado: bebo um vinho esplêndido enquanto olho para a BH e como uma beringela recheada num brevíssimo leito de húmus e me deixo invadir por este sentimento de serenidade. Invadir? Não. Inundar.

Cada vez me interessa menos saber o que é a felicidade e cada vez sou mais capaz de avaliar estes momentos. 

Avaliar? Não. Absorver.

.........

Os dilemas que um homem tem de resolver:

a) Como um sobremesa aqui ou vou directamente ao Claudio?

b) Se for ao Claudio, ponho-me na fila ou vou directamente à janela do lado?

c) Se comer a sobremesa aqui e depois for ao Claudio: vou para o Inferno dos diabéticos ou para o céu dos bem-aventurados?

Tenho de fazer uma árvore de decisões, enquanto acabo o vinho e encomendo a sobremesa. 

.........

P.: Como resolver dilemas?

R.: Vir ao Otaku beber sake.

2.8.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-08-2024

Jantar no Celler de Sa Premsa, mais cantina do que recordava mas bom como tinha na memória. O restaurante é bonito e o serviço também, no sentido em que ser servido por um senhor dos seus cinquenta anos que visivelmente gosta do seu trabalho é bonito. Depois fomos ao Claudio, ponto de paragem pós-prandial obrigatório. Começo a ter vergonha de saltar a fila desta maneira mas o raio dela está cada vez maior e eu não tenho paciência e vou à janela do lado e o Cláudio serve-me à frente de toda a gente e eu perco a vergonha toda.

(Cont.)

Diário de Bordos - Cala ses Hortigues, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-08-2024aleares

Um bimbo é um bimbo é um bimbo? Sem dúvida. Mas é forçoso reconhecer que um bimbo francês endinheirado (estes são provavelmente mais do que endinheirados) tem pelo menos a vantagem de ser simpático, engraçado - mesmo que o humor francês não seja o meu favorito - e, neste caso particular e raro, não ser pedante. Ou seja, não tenho de fazer esforços hercúleos de hipocrisia. A da boa educação chega.

..........

Surgiu-me a possibilidade de fazer uma semana de charter à partida de Marselha e como era de esperar todas as boas resoluções sobre não fazer mais overnight voaram em estilhaços. Hyères, Porquerolles, rever la Bonne Mère e la Cannebière e ainda por cima com clientes portugueses, que são os melhores? Só me falta arranjar quem me substitua nos três dias de day charter que tenho nessa semana.

.........

Os meus franceses são donos - entre muitas outras coisas, suponho  - de um enorme restaurante, mini-brasserie, mais de quinhentos couverts por dia. Hoje usei o termo prandial com um deles, só para tirar dúvidas. Não sabia o que era.


..........

Pertenço a um grupo de pessoas que se comove quando vê a luz de um farol.

31.7.24

Reclamação. Abaixo as minis!

Quero deixar aqui uma reclamação, alta e clara, contra a ou as pessoas que inventaram as cervejas em garrafas mini. É o maior atentado ao bom senso, ao bom gosto e ao planeta (tema que me preocupa bastante, como é sabido) de que tenho memória. Aquela merda acaba-se num instante,  as garrafas acumulam-se, um gajo quer beber cerveja e não pode estar constantemente a abrir o frigorífico. Além disso, estou pronto a apostar que quatro minis saem mais caro do que três médias, apesar de a diferença de quantidade ser ínfima. 

Abaixo as minis! Viva as médias. No meio está a virtude! Nem litrosas nem minis!

Diário de Bordos - Sa Calobra, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-07-2024

Ando farto de comer saladas, que é o que todos os clientes comem, naturalmente. Não está tempo para um coq au vin.

.........

Hoje ouvi os clientes mas eles não me ouviram. Resultado: ferro e corrente presos, aquele numa rocha e esta noutra. Tive de chamar mergulhadores de Soller. Trezentos e cinquenta paus. Propus-lhes pagarmos a meias porque em última análise o responsável sou eu. Recusaram e assumiram a totalidade. Franceses mas vivem na Bélgica por motivos fiscais. São simpáticos e a mulher de um deles, romena, é gira que se farta, o que não estraga nada. O outro veio sozinho. Ao todo, cinco: a família de quatro e o amigo / sócio. Ou seja: tenho um camarote! Com o calor que está não me vejo a dormir no peak de vante (detesto chamar coelheira àquilo, apesar de a alcunha ser merecida).

.........

Depois da "aventura" (aspas porque é irónico) viemos para Sa Calobra,  mas estou demasiado exausto até para dormir, quanto mais para ir à terra.

Experimentei tudo o que sei para safar o ferro, mas os mergulhadores - dois sul-africanos simpáticos e eficazes, passem os pleonasmos - confirmaram: sem mergulhadores teria sido impossível. Como o ferro estava a vinte e cinco metros de fundo... A única coisa que consegui foi comprovar que a carcaça não merece todas as críticas que lhe faço. Só algumas. Ainda está aí para as curvas.

..........

Não me lembro quase nada do meu SCARLETT, um Casamance que trouxe sozinho de St.-Malo para Lisboa. Posso contudo afiançar que os Fontaine-Pajot actuais são uma merda. Por exemplo: o ferro está colocado de tal forma que não se lhe pode pôr um arinque sem o bote (forçoso é reconhecer que pela descrição dos saffas de nada teria servido).

.........

Dêem-me por favor clientes que não sabem. Os que "sabem" (ditto) deviam pagar um suplemento e caro.

.........

As baterias não aguentam a noite, de maneira tenho de fazer uma hora de motor antes de adormecer e uma a meio. O marido da senhora romena precisa de um aparelho para respirar quando dorme e tenho de deixar o inversor ligado porque aquilo só funciona a duzentos e vinte. 

Só lamento é que com uma mulher tão bonita tenha de usar máscara... (Lamento nada. Só tem de usar aquela coisa para dormir.)

.........

A semana que vem só tenho três dias de day-charter. O meu P. precisa de mim. Ganho menos de metade mas trabalho um quarto do tempo, de maneira as álgebras equilibram-se.

30.7.24

Queres apanhar outra?

Esta mistura de pele lisa e fresca, acabada de sair do duche e uma dor de cabeça mediana faz-me pensar em ti. Nunca me disseste que te doía a cabeça, sorte a minha e sempre tiveste a pele assim, de se lhe pôr a mão em cima e não se ser capaz de a tirar, alquimia física. Um dia tinhas os cabelos todos espalhados pelo meu baixo-ventre enquanto um polícia te multava o carro, nem ele sabia o que fazias nem tu o que ele fazia nem eu, que acabava de acordar e só via essa vaga de cabelos negros espalhados por tudo quanto eu tinha de coxas e barriga e quando chegámos ao carro vimos a multa e rimo-nos. "Foi merecida", disseste-me. E eu perguntei-te: "Queres apanhar outra?"

O fim

Os orgasmos acontecem no fim e não no princípio. Não é por acaso: a vida deixa o melhor para quando tudo está a acabar. 

Vida, o que quiserem

Vou abandonar aquelas ideias tontas do "isto é que é vida", "saber viver é...", "a vida é assim."

Não sei o que é a vida e de viver só tenho uma noção muito empírica. Nada conceptual. Viver é aquilo que faço todos os dias, pela razão simples e irrefutável de que não quero deixar de o fazer (os: o que faço e viver). Ando por sítios bonitos, às vezes aborreço-me outras não, às vezes tenho dinheiro (quando chove), a carcaça ora reclama ora me leva de Cascais a Lisboa de bicicleta sem um ai. Nada disto me parece complicado porque a nada disto atribuo qualidades mágicas. É certo que gostaria de escrever mais e melhor, como fotografar, de resto. Há imensas coisas que gostaria de fazer e outras que adoraria não ter feito. Ou dito, sei lá. 

Mas estão ditas ou feitas ou pensadas e contra isso não há filosofia que valha. É isto a vida? Não sei. É o que faço quotidianamente: misturo erros e acertos e as proporções por vezes saem certas, outras erradas.

Chamem-lhe o que quiserem.

29.7.24

Diário de Bordos - Sant Elm, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-07-2024

Outra vez em Sant Elm. Os milagres continuam. Não sei se se pode chamar milagres ao que nos acontece porque o esperávamos e procurámos. Desta vez almocei no Flexas. Bom, correcto sem mais. Isto é: se não contar com simpatia da Malena, uma maiorquina da minha idade (mais coisa menos coisa) que herdou aquilo da mãe. A carta não é nem enorme nem particularmente original, mas é honesta - tal como a jovem filha, que me disse que o peixe vinha todo da piscicultura, tal como eu pensava. Prometi-lhes que para a próxima vez tentaria levar lá os clientes. Jantar no Es Raor, a convite dos clientes. O arroz negro continua o melhor que já comi nesta vida e nas outras. Gelado de manga no Tigy's com o milagre do rum a acontecer de novo - um gajo vai comer um gelado e na mesa aparece-lhe o dito e um copo de rum. O vento caiu completamente, como previa a previsão, o que por um lado é chato por outro não. O sono está aí a abanar-me o ombro, quer que eu pare de escrever.  Clientes impecáveis. Dores diversas controladas com uma mistura de paracetamol e ibuprofeno. 

Não sei que nome dar a uma sequência de milagres. Não sei sequer se são milagres.

28.7.24

Idade, je m'en foutisme

Idade confortável: a carcaça reclama mas lá vai andando e a cabeça não só funciona mas também atingiu um nível de paz, autoconfiança e tranquilidade (numa palavra: estar-se nas tintas, em português. Em francês seria je m'en foutisme, termo de que sou grande apreciador) que só pode degradar-se, não melhorar.

Sorte a minha. Nunca ninguém viu a idade regredir.

26.7.24

De empréstimo

Vim ao Gambrinus beber um homónimo (epónimo?) e pensar que quem veste Vilebrequin de empréstimo bem pode vir de empréstimo ao restaurante da rua das Portas de Santo Antão. Antigamente vinha aqui muitas vezes, mas sempre de empréstimo. Comia uns croquetes, uma vez uma fatia de uma coisa de perdiz que eles têm e é uma maravilha, bebia uns gambrinus, um café, às vezes um porto (como hoje, Casa das Carvalhas, maravilha). Nunca me sentei a uma mesa, que me lembre. Estava aqui de empréstimo, como hoje, como sempre, como partout. Como quando ponho calções de banho da marca Vilebrequin, de empréstimo.

Ando emprestado à vida. Espero que ela me devolva no mesmo estado em que me recebeu. 

25.7.24

Amizade, evolução

As amizades começam por ser uma celebração da similitude e evoluem para se tornarem sobretudo uma gestão das diferenças. 

[Adenda: pensei acrescentar "cuidadosa" a gestão, mas não o fiz. Por um lado seria um pleonasmo; por outro um oxímoro. A amizade não precisa de ser gerida.]

24.7.24

Diário de Bordos - Lisboa, 24-07-2024

Apesar de todos os esforços que faz em contrário, Lisboa continua a cidade encantadora que sempre foi. O calor não é culpa dela, claro; os buracos nas ruas tão pouco; nem o barulho, a sujidade, os mendigos, os prédios modernos e asquerosos, passe o pleonasmo. Nada disso consegue vergar esta cidade, nada nem ninguém conseguirão tornar banal esta cidade. Não tem nada a ver com a pastelaria aonde tomei o pequeno-almoço, com as livrarias Snob ou Palavra de Viajante por onde passei como quem vai a Fátima de joelhos (isto é um exagero só literariamente aceitável), com o quisoque S. Paulo aonde comi dois pastéis de bacalhau como não os há em mais parte nenhuma do mundo (nem de Lisboa, quanto mais), nem com o restaurante Tentações de Goa, um dos dois melhores goeses da cidade. Não tem nada a ver com nada de preciso - pastelarias, livrarias e restaurantes são como chapéus - mas sim com o que lhes fica de permeio. Ou dentro, não sei. Faço parte daquele grupo de gente que pensa que uma cidade é feita sobretudo de pessoas e não apenas de monumentos, arquitectura ou história e Lisboa tem o melhor conjunto dessas coisas todas que conheço. Queixam-se do turismo? Credo! Lembrem-se de como era a cidade antes dos turistas e calem-se.

.........
Ontem fui a Cascais. Morei na Linha entre os três e os oito anos e depois dos dezassete aos dezanove, mais coisa menos mês. Voltei em dois mil e dois... Na verdade nunca deixei verdadeiramente Cascais e continuo ainda hoje a perguntar-me se o meu amor por aquele mar e aquela vista é um amor objectivo (há amores objectivos?), se o meu patriotismo tem a ver com a memória mais do que com o certidão de nascimento, se as inquantificáveis horas de navegação naquele mar serviram para fazer de mim o que sou. A pergunta é retórica. Claro que sim. Sem Cascais eu seria outro.

........
Regresso a Lisboa num Uber. O chauffeur chamava-se Imra e é bangladeshi. Está a aprender português. É a sexta língua que fala. A maioria dos idiotas do Chega (há excepçóes) mal consegue balbuciar uma, a que lhes saiu na rifa do nascimento.

.........
Há uns anos - meia dúzia deles, provavelmente - a M. T. mostrou-me os preços dos fatos de banho Vilebrequin. Fartei-me de rir, um riso incrédulo, só mitigado pela leitura de Baudrillard, que ajuda a percebê-los. Desde aí, quando penso na moda e ou leio posts de uma senhora que no Facebook escreve bastante sobre o tema lembro-me dos calções de banho Vilebrequin, para mim um epítoma da debilidade do edíficio todo. Modas, marcas, m'as-tu-vu repousam sobre pilares feitos de consenso social, que requer primeiro um reconhecimento (para não dizer conhecimento, que é mais o meu caso) e depois sobre uma valorização de factores aos quais não atribuo muita importância - por exemplo, ter dinheiro e necessidade de o dizer (não tenho e não tenho).

Ontem vesti uns Vilebrequin emprestados e recusei a proposta de ficar com eles. Algumas mentiras não são defensáveis. Não quero induzir ninguém em erro. [Escrevo isto e penso nos meus calções Napapijri. Concluo que não é a mesma coisa. Para começar só os compro nos saldos; depois a marca não é imediatamente visível; depois ainda, há razões objectivas para se comprar bermudas dessa marca. São objectiva e inegavelmente melhores do que os outros. Nos Vilebrequin não notei qualquer diferença que justificasse o preço astronómico que custam.]

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-07-2024

Estou em Palma e não estou em Palma. Estou em Cascais a ver netos, filha, ex-mulher (e presente amiga) e o resto da tribo: irmãos, amigos, sobrinhos e por aí fora. Vagabundeio sem direcção. Deixo a burra decidir -  normalmente escolhe melhor do que eu. Desta vez viemos à Rambla, a uma esplanada perto de onde era a saudosa Ca na Chinchilla. Nunca comi aqui, mas a conversa com o empregado dá-me vontade de experimentar. A cena passa-se quando ele vê que o meu tinto de verano acabou e me vem perguntar se quero mais alguma coisa. Hesito, pergunto-lhe qual o vermute que tem.
- Rivera, de grifo. - Diz-me isto como se estivesse a propor-me o supra-sumo dos vermutes, coisa que o Rivera está longe de ser. 
- Quanto é que custa?
- Não sei. Deixa-me ver. Creio que é cinco e cinquenta, mas não tenho a certeza. 
- Cinco e cinquenta? Um Rivera? Nem penses nisso. - De repente a dúvida invade-me. - Quanto custa o tinto de verano?
Aqui chegados ele já encontrou os preços: 
- Quatro e cinquenta o vermute e cinco o vinho.
Olho para ele e faço um comentário qualquer sobre o preço absurdo do tinto e rimo-nos os dois, descrentes deste absurdo. Uma bebida composta pelo pior vinho tinto da casa e gasosa cinco euros? Só a rir é que se acredita. Não há mais nada a fazer. Claro que peço o vermute. É feito na Galicia e tem um marketing agressivo. Está em todo o lado. Não é grande coisa.

Já a Rambla é. Adoro esta avenida, mais pequena e bonita do que a de Barcelona. O vento ainda não caiu, está fresco, o meu cansaço espairece e espalha-se por estas filas de plátanos fora enquanto vê a cidade passar por ele, por mim, por este domingo suave em Palma-a-calma.

..........
O dia começou mal: cheguei demasiado cedo ao aeroporto e o taxista que aqui me trouxe roubou-me dez euros.

(Era para ter continuado, mas não continuou. Paciência.)

21.7.24

Diálogos

- O futuro não existe. Só há hoje e a eternidade.

- E o passado, aonde o pões?

- No presente, claro. Não passa de uma acumulação de passados.