14.9.26

Cartas - II

Minha querida L.,

Foste a minha primeira paixão a sério, lembras-te? A primeira pessoa que me fez ir a correr, mal acordava, à caixa do correio para ver se havia uma carta tua. O primeiro beijo de línguas enredadas, como se quisessem fazer nós, fazer-nos. Por ti fui para o Brasil com o dinheiro do FAOJ no bolso, três contos de réis e um bilhete de ida simples. Contigo e com a tua família descobri a beleza da educação, da cultura, da delicadeza, da cortesia, da amabilidade.

Regressei do Brasil, acabei o curso, embarquei, dei a volta ao mundo desembarquei e um dia saio de uma discoteca em Cascais, madrugada, meto-me num táxi, digo-lhe para ir para o aeroporto (passando por casa para ir fazer um saco de roupa). No aeroporto perguntei para onde ia o primeiro avião. "Milão". "Quero um bilhete, se faz favor".

Acordo quando o avião aterrou:  a hospedeira sacudia-me furiosamente para apertar o cinto. Lembro-me repentinamente de que tu estavas na Itália porque o teu Pai lá tinha sido colocado. São oito ou nove da manhã, ainda no aeroporto roubam-me a carteira aonde tinha divisas - naquela altura era um sarilho encontrar moeda estrangeira - troco escudos por liras, meto-me num táxi para o consulado do Brasil. Ou embaixada, talvez. Ainda estava fechada. Sento-me nos degraus, ainda com a roupa da véspera, provavelmente a cheirar a tabaco e álcool.  Quando as portas abrem, pergunto à funcionária do balcão em que cidade está o teu Pai. Diz-me que não pode dizer. Eram os anos de chumbo, das Brigadas Vermelhas e eu não estava propriamente apresentável. Proponho uma alternativa à senhora: ela telefona ao teu Pai e se ele concordar diz-me aonde está.

Estava em Milão, recebeu-me como se eu fosse a pessoa de que precisava para que o seu dia fosse perfeito e informa-me de que tu ainda estavas a dormir. Pequeno-almoço. Falar com o dr. Luiz Octávio (ou Octávio Luiz?) era uma das duas melhores maneiras de passar o tempo. Apareceste, demos um beijinho casto - afinal tinhas-me despedido há mais de um ano.

Fomos para Veneza. Lembras-te da pensão aonde ficámos, com uma hospedeira cujo marido também era marinheiro e andava pela casa com um papagaio no ombro (e em camisa de noite, ou será imaginação minha?)

Voltaste para Milão, eu fiquei em Veneza, um dia telefono à minha Mãe para lhe dizer aonde estava, diz-me que vão todos para a Venezuela e pergunta-me se quero ir. Digo que sim. Não voltei a ver-te e nunca mais deixei de pensar em ti. Fizeste-me muito do que sou hoje (ou pelo menos uma grande parte da parte boa de mim).

A canção de amor mais bonita de sempre chama-se L'un part, l'autre reste. É de Charlotte Gainsbourg. Parece que foi escrita para nós. Ainda estás em Tegucugalpa? Já voltaste para o Rio? Ainda te lembras de mim?

Escrevo-te e beijo-te de Palma, de Milão, do Rio, de S. Domingos de Rana, de Veneza, de Lisboa, de Lourenço Marques,  aonde nos conhecemos, de todos os lugares por onde andei e de todos aqueles por onde passarei. Les grandes amours n'ont pas d'adresse / quand l'un part et l'autre reste.

Teu,

Luís

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