16.2.26

O espelho imperfeito

Decúbito fetal. Joelhos o mais perto possível do queixo (mesmo assim, ficam longe: as tuas capacidades de contorcionismo são limitadas), mãos sobre os ombros (ditto. Cruzadas: a direita sobre o esquerdo, a esquerda sobre o direito), queixo no V dos antebraços. Apertas-te como se abraçasses alguém que amas e não vês há muito tempo. Não são os casos, nem um nem outro. O teu amor por ti próprio não anda muito longe da tua agilidade, da tua maleabilidade; convives contigo quotidianamente, por muito que desejes abandonar-te como a alma deixa o corpo, para sempre, sem possibilidade de regresso. Prosaicamente, procuras apenas gerar calor, aquecer-te, dando ao pronome dois sentidos, activo e passivo. Como se estar encolhido numa cama, debaixo de três camadas de cobertores pudesse ser uma acção. É. Pode. Concentras-te nela. Pouco a pouco o corpo aquece-te, a manhã aproxima-se a grandes passos do relógio. Escrever traz-te de volta ao frio. Traste. Divides-te entre duas necessidades que se excluem: aquecer-te, escrever-te. Como se o papel em que escreves fosse o ecrã de um telefone. É. Como se esse ecrã fosse um espelho. É, mas imperfeito. Regressas à tua posição,  apertas-te com a força da saudade: estiveste ausente de ti. O reencontro é caloroso: apertas-te com força, reencontras a paz da imobilidade, aqueces-te, esqueces-te. Talvez um dia te ames, até. Hoje o objectivo é mais modesto: limar as imperfeições do teu espelho. 

15.2.26

Diário de Bordos -Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 15-02-2026

A festa de inauguração da casa foi auspiciosa. O chili saiu bem, a companhia foi óptima e a casa está bonita, graças à L. Hoje é o after-party, que é quase tão bom como o party ele-mesmo. Lavar loiça, limpar a casa, relembrar os momentos marcantes. Quem tem amigos tem tudo e quem tem comida e bebida para oferecer aos amigos também. Dois tudos que se adicionam. Agora tenho comida e vinho para seis meses, se não comer nem beber cinco e meio deles. E memórias deste jantar para mais vinte anos, seja quantos forem desses os que viverei.

Oiço a música melancólica de Eleni Karaindrou, bebo um copo de vinho e penso nas vantagens da amizade sobre o amor: é aberta e múltipla, não é possessiva. Tem desvantagens? Tem, às vezes.

Penso na memória, no tempo, no presente, esse conjunto de camadas geológicas de um e de outra, alternadas, mil-folhas com alguns mata-borrões de intermédio. Tão necessários que são...

13.2.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 13-02-2026

O DV tem andado mais calado que vivo, coitado. A razão é simples: ando muito ocupado e igualmente preocupado. Mudar de vida é fácil. Difícil é ter a certeza de que a nova vida me permitirá ter uma vida, coisa que está longe de ser segura. A pergunta que mais me ocorre nestes dias é: quanto tempo leva uma cobra a mudar de pele? Ou uma lagosta? Ou uma crisálida a transformar-se em borboleta? (Esta analogia não é muito boa, mas não faz mal. Por agora fica.) Quanto tempo leva um nómada a sedentarizar-se, esse verbo que tanto usei e depois saiu do meu horizonte e do meu vocabulário? Luto em duas frentes: a casa e o trabalho. Duas frentes diferentes: uma sei que a ganho, na outra sei que até agora perdi cada vez que tentei regressar a Portugal. Mais vale acreditar nas infinitas capacidades da aprendizagem, na qualidade inexpugável do trial and error, empirismo no seu melhor, no velho compincha que dizia «êxito é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo». Sem perder a classe, acrescentaria eu se pudesse. Não posso acrescentar nada a nada: tenho os livros arrumados, a casa composta, o futuro em construção, o passado em recomposição, o presente esquivo e no leitor um disco de música sefardita pelo Hespèrion XXI.

Chama-se Diáspora Sefardí e a mente foge-me para a vertente fácil da «diáspora interior» e outras tretas do mesmo calibre. Nuno Júdice  (?): «Comecei a fugir para dentro. É cada vez mais difícil deixar de fugir para dentro".

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Tudo isto para viver os dez anos que segundo as estatísticas me restam ou os quinze que o optimismo prefere.

1.2.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 01-02-2026

Volto ao meu ritmo habitual de acordar muito cedo, como se quisesse encolher a noite, encolher o pesadelo. (Isto é kalimerice. Eu reduzo as noites e a L. reduz o pesadelo a um mau sonho. Deixo-lhe aquí o meu obrigado. Já à RN deixo a minha praga, nada encolhida.)

Os dias ficam mais compridos apesar de ainda ser noite.

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Hoje vou votar "em mobilidade". Voto no Seguro, não porque veja nele o salvador da democracia ou no outro palerma o seu demolidor (dela, democracia). É simplesmente porque prefiro a decência à indecência, a civilidade à boçalidade. Entre duas mediocridades prefiro a educada. O outro não passa de um idiota que fugiu da taberna de onde nunca devia ter saído, um socialista disfarçado de catavento.

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Esta semana começo uma carreira de professor de português para estrangeiros e em breve começarei os primeiros passos para os jantares "ler por aqui" (desculpa-me a apropriação cultural, M. Não é a designação definitiva). A versão para estrangeiros vai chamar-se "dinner by the book", ideia genial, obra do O. (?) a quem também deixo aqui um obrigado que vai de Caminha ao Porto.

Quem tem amigos não tem pesadelos. 

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E quem os tem (pesadelos) esmaga-os debaixo de vinte quilos de cobertores, bem esmagadinhos e espera que a sala aqueça - ou seja, sonha com ladrões. O único aquecimento para esta sala chama-se Verão, uma marca bastante presente no nosso país, graças a Deus e à geografía.

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O jantar de pendaison de la crémaillère será em breve. É outra forma de aquecer a sala e de esmagar pesadelos.

31.1.26

Fragmento

Abençoadas sejam a lã, a electricidade, as resistências eléctricas e as matérias sintéticas. Amaldiçoados o frio, o vento em excesso, a chuva e as latitudes demasiado elevadas - o limite sendo os 23° 27' dos trópicos.

28.1.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 28-01-2026

Descubro a casa - nos dois sentidos, descobrir e des-cobrir - e a tentação seria acrescentar descubro-me (num só dos sentidos). Não seria verdade. Sempre fui dual, marinheiro com um pé no mar e outro nos livros, cara ao vento e alma à lareira. Balanço e abalanço-me, que os badanais desafiam tanto no mar como em terra, por diferentes que sejam. 

Arrumo os livros, vejo quantos me faltam e quantos tenho, a ficção estrangeira está por ordem. Já só falta a poesia, a ficção nacional (desta vez decidi separá-las), as não-ficção - muitas -, as biografias e auto-biografias, a portugália, a marítima e a miscelânea. Duas semanas e duas estantes ou três. Duas navegações ou três. A lareira enche-me a casa de fumo, as paredes estão a ficar castanhas, o forno é novo, o fumo na casa faz-me pensar que estou a navegar no nevoeiro - estou, se se pensar que nevoeiro pode ter vários sentidos. A polissemia é a minha imagem de marca.

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Livros, electricidade, lareira, aquecimento, iconografia - tenho dezenas de imagens que quero pôr nas paredes e não tenho dezenas de paredes, porque preciso delas para os livros... Um caso de mais olhos que paredes. Isto é como navegar no mar do Norte: navios, correntes, baixios, bóias, nevoeiro. Forçoso é reconhecer que estou mais à vontade na Mancha do que em Vilarelho. Descubro, des-cubro e - sim - descubro-me. 

Descubro-me todos os dias, vai para quase setenta anos. Qual a novidade?

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Prova de que estou em terra: bebo vinho tinto enquanto navego. Vinhas de Xisto Reserva. Douro DOC de 2024. Não gosto de supermercados mas de vez em quando há que dar a boca a torcer.

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Chego a casa e o cheiro da madeira a arder na lareira diz-me que estou em terra. Inscrevi-me para votar "em mobilidade". Um dia votarei em imobilidade e o cheiro da lareira dir-me-á apenas que está acesa. 

21.1.26

Curiosidades do aeroporto de Lamentin

Por cima de cada urinol e de cada retrete das casas de banho do aeroporto Aimé Cesaire, no Lamentin, há uma pequena placa a dizer "Água não potável". Em cima das torneiras dos lavatórios essa placa está ausente.

Curioso, não é?

19.1.26

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 18-01-2026

É quase meia-noite e acabo de passar duas semanas horrorosas, muito para baixo do muito mau. Qual a relação entre estas duas orações? O fim do horror está próximo. É razão necessária e suficiente, não é? É. Claro que cem por cento da responsabilidade é minha; tal como noventa e nove por cento da culpa. Já tenho idade para a) não acreditar em tudo o que me dizem, b) seguir a minha intuição e c) pensar em mim, egoisticamente, à la Ayn Rand. Falham-me a d), e), f) e por aí fora até à z). 

Que se lixe. Sou como sou e é tudo o que sou. 

Ou, se me permitem uma auto citação, como sou me dou. Convivo bem com os meus defeitos, condição primeira para amar alguém. Esse alguém sou eu? Tanto melhor. Esse alguém faz-me passar dias como os que passei? Paciência. 

Isto dito, saiu-me mais uma borderline na rifa. Gostaria bastante - e agradeceria ainda mais - que esse alguém me explicasse que mal fiz eu a Freud - ou à psiquiatria em geral - para as atrair desta maneira. Esta última juntava umas gotas de OCD à borderline (BPD, para os íntimos, amantes de acrónimos e de maiúsculas). Ou seja; passo os pormenores. Mais de mil euros em aviões, mais de quinhentos em hotéis e em alimentação, alguns duzentos em táxis... A loucura sai cara, sobretudo para quem não é louco. Costumo dizer que trabalho para fazer o que quero mas tenho de reconhecer que também trabalho para fazer o que não quero. 

Um dia trabalharei para não fazer o que não quero. Por exemplo: trabalhar. Ou andar de avião.

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A música no bar do lado não pára. Quanto menor a latitude mais alto o volume de som. É por isso que nunca serão ricos. Nem sequer civilizados, etapa prévia e essencial.

17.1.26

Diário de Bordos - Marigot, St.-Martin, DOM-TOM França, 16-01-2026

Os dias têm sido de insónia. As noites também, a fortiori. Ontem dormi no melhor quarto (de hotel, pensão ou simili) dos últimos duzentos e cinquenta anos - anos de memória, leia-se. Hoje durmo no meu bem-amado Centr'Hotel. Amanhã não sei. Preencho a insónia com uma indomável vontade de amanhã acordar tarde, Santo Agostinho e vozes femininas. Sandy Denny à qual regressarei mal a Baez acabe de cantar, Maddy Prior, Karen Dalton. Sandy Denny: Who knows where the time goes; Baez: Sad eyed lady of the lowlands; Maddy e Karen: ainda não sei. As insónias não têm placas a indicar a direcção. Nada tem, de resto. "La où les routes sont tracées je perds mon chemin". Quem é que disse isto? Tagore (lê-se Togore)? St. John Perse?

Tagore:

"Où les routes sont tracées, je perds mon chemin.
Sur la vaste mer, dans le bleu du ciel, il n'y a point de lignes marquées.
Le sentier est caché par les ailes des oiseaux, le feu des étoiles, par les fleurs des saisons différentes.
Et je demandais à mon cœur : ton sang ne porte-t-il point la connaissance de l'invisible chemin ?

"
Maddy Prior: I live not where I love. Eu não vivo aonde não posso ouvir-te, Maddy, mesmo que seja num telefone merdoso, porque tu és um desses invisíveis caminhos. Há vozes assim, vozes invisíveis, vozes que nos fazem ver o invisível. A Nico tem uma dessas vozes.  A Dalton também. Vozes que nos fazem agradecer a falta de sono, considerá-la uma dádiva, uma sorte, uma bênção. 

Nico: I'll be your mirror.

Agostinho: "Se os pecadores usam mal a lei, que é boa, os justos usam bem a morte, que é má."

Nico: The fairest of seasons (escolha do youcoiso, da qual näo me queixo).

Agostinho: "a vida é eterna para os justos, a morte eterna para os pecadores." (Cito de memória.) Péssimo incentivo, deixa-me dizer-te. Antes a morte eterna.

Ou seja: Chants de la liturgie slavonne, pelos monges benedictinos de Chevetogne, aonde um dia irei em peregrinação. 

Karen Dalton: esta voz vem das entranhas da terra. Dá-nos a ver as tripas. Impede-me de ler.

Agostinho: "Desde que se começa a estar neste corpo, que há-de morrer, nunca se deixa de caminhar para a morte." A Dalton ilustra bem isso, mas não é a única. [Beckett também, mas disse-o de uma forma mais bonita e agora não encontro a citação.]

Comecei a insónia com o objectivo de escutar vozes femininas, com uma espécie de lista mais ou menos (mais menos que mais) definida. Aqui chegado, o tube apresenta-me Charlotte Gainsbourg - Un part et l'autre reste, a mais bela canção de amor de sempre - e Barbara: Dis, quand reviendras-tu? Deixo o Agostinho. Que sabia ele de amor, de distância, da ausência? (Não sei. Ainda não o li todo.)

Tenho vontade de voltar ao tema, mas a Annette Peacock interpõe-se e não lhe encontro pouso nesta série, passo ao Broken English da Marianne Faithfull ("what are you dying for? / It's not my reality") e penso inevitavelmente na Pietra Montecorvino. É ela quem me vai abrir as portas do sono. Notte che se ne va. Voz cheia de pedregulhos, saída de um tremor de terra.

12.1.26

Diário de Bordos - Fort-de-France, Martinique, DOM-TOM França, 12-01-2026

Turisto em Fort-de-France: almoço na Carole, gelado na cour Perrinon, rum na praça logo à frente, deambulo (em ziguezague) na retícula urbana, encontro uma loja com sabonetes mais baratos do que em St.-Martin (o que me faz pensar que os caminhos do mercado são insondáveis) e acabo, inútil é dizê-lo, aonde comecei: café L'Impératrice, o único sítio de Fort-de-France aonde não há um único branco e que é o mais bonito. (Não há relação de causalidade.) Não consigo decidir se gosto mais de Marigot se de Fort-de-France. Esta é mais bonita, mais complexa, maior - mas exala provincianismo, coisa à qual sou mais ou menos alérgico. O serviço é horrível, as lojas fecham à hora do almoço, a cidade inteira respira sono, tédio. Decido que o problema não o é, bebo o meu rum tranquilamente, deixo-me perspassar pela sonolência local e pergunto-me qual a receita do Impératrice para afastar os gringos.

O Pain de Sucre está fechado. Forçoso é reconhecer que é definitivo, o que lamento profundamente. Era um restaurante óptimo.

Fui comprar um cigarro ao Sun&Fly. Não consigo perceber porque não é permitido vender cigarros à unidade. Se as autoridades estivessem mais interessadas na saúde pública do que nos impostos tornariam obrigatória esta forma de vender tabaco. Não estão, claro. A ideia de que os políticos se interessam pelas pessoas é uma ingenuidade. Os políticos só se interessam pela nossa massa e pela forma de a transferir para os cofres do Estado. 

Toda a gente sabe. 

(Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte. Já viram algum político sem arte? Eu já, mas duram pouco.)

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ADENDA

Antigamente - isto é, até dois mil e dezoito - os transportes públicos na Martinica eram oprados por aquilo a que os ingleses chamam a man and a van. Chamavam-se taxico (abreviatura de táxis colectivos) e ligavam todos os pontos da ilha a todos os pontos da ilha, mesmo que por vezes fosse necessário apanhar dois ou três. O sistema funcionava perfeitamente, era barato e convivial.

Alguém nas esferas políticas decidiu que o sistema era demasiado «terceiro-mundista» e resolveu implantar autocarros, como nas grandes metrópoles. À boa maneira destas ilhas, a coisa levou anos e anos a ser posta em prática, mas lá foi inagurada, nesse ano.

Resultado: os autocarros andam vazios, não têm horários (se os têm não os cumprem) e as pessoas puseram-se a comprar automóveis (o objectivo «oficial» da medida era diminuir os engarrafamentos crónicos) e se alguém quiser vir de Fort-de-France para o Marin depois das sete da noite (mais coisa menos coisa) das três uma: ou vem de carro, ou paga cem euros por um táxi ou não vem. Os engarrafamentos aumentaram, a mobilidade ficou pior e como os políticos são políticos o sistema está mal concebido e funciona pessimamente. 

O fantástico nesta história é que há pessoas inteligentes que pensam que a solução para a maior parte dos problemas é o Estado. Não é. É um conjunto de homens e carrinhas ou o que quer que seja que faça o que estas fazem.