
18.10.06
17.10.06
Anti-depressivos
Há tempos, uma senhora de quem, às vezes, gosto muito do blog, intitulou especialmente uma série de posts que, suspeito, ela própria classificara de menos relevantes (para não dizer totalmente irrelevantes). O título genérico da série, era, se bem me lembro, "Meio Comprimido para Dormir".
Aos meus, semelhantes no género mas ainda mais irrelevantes, voire mesmo chatos, vou chamar "anti-depressivos", porque hoje, antes de escrever este post, tomei uma série deles:
- sair do escritório mais cedo;
- comer torresmos do 1/2-Maricas, uma mercearia perto de si, minha senhora;
- beber uma torrente, um riacho, uma ribeira, de Piña Coladas;
- ouvir um disco de Miles Davis no seu auge - ele só teve um (auge)...;
- ouvir um disco de um grupo obscuro chamado Spiritualized, muito bom;
- escrever uma dedicatória num livro oferecido a um amigo;
- escrever um post chamado "Anti-depressivos" (aqui já entramos numa de metacomunicação, fundamentalmente incompatível com o espírio dos posts).
A feitura de uma Piña Colada tem muito, mas muito, que se lhe diga: é preciso reunir um rum apropriado, um bom sumo de ananás, e leite de coco acima do correcto. A melhor Piña Colada que já bebi foi em Porto Rico, na casa que se orgulha de ter inventado a Piña Colada. Mas a melhor história de Piña Colada que tenho não é essa, que nem sequer é história, não passa de um episódio.
Uma vez (durante três anos, quand même), trabalhei num bar chamado Le Marchand de Sable, em Genebra. Um dia preparei um litro de Piña Colada (a base, só a base), para vender aos clientes. Mas, como era sexta-feira, a patroa - uma jovem e bonita mulher - veio ao café, e eu resolvi dar-lhe a provar a minha bebida.
"Luis", foi a sua reacção, "isto é bom demais para os clientes. Vamos bebê-la nós".



Eu não sou o do chapéu, com as máquinas fotográficas ao peito, fier touriste.
Aos meus, semelhantes no género mas ainda mais irrelevantes, voire mesmo chatos, vou chamar "anti-depressivos", porque hoje, antes de escrever este post, tomei uma série deles:
- sair do escritório mais cedo;
- comer torresmos do 1/2-Maricas, uma mercearia perto de si, minha senhora;
- beber uma torrente, um riacho, uma ribeira, de Piña Coladas;
- ouvir um disco de Miles Davis no seu auge - ele só teve um (auge)...;
- ouvir um disco de um grupo obscuro chamado Spiritualized, muito bom;
- escrever uma dedicatória num livro oferecido a um amigo;
- escrever um post chamado "Anti-depressivos" (aqui já entramos numa de metacomunicação, fundamentalmente incompatível com o espírio dos posts).
A feitura de uma Piña Colada tem muito, mas muito, que se lhe diga: é preciso reunir um rum apropriado, um bom sumo de ananás, e leite de coco acima do correcto. A melhor Piña Colada que já bebi foi em Porto Rico, na casa que se orgulha de ter inventado a Piña Colada. Mas a melhor história de Piña Colada que tenho não é essa, que nem sequer é história, não passa de um episódio.
Uma vez (durante três anos, quand même), trabalhei num bar chamado Le Marchand de Sable, em Genebra. Um dia preparei um litro de Piña Colada (a base, só a base), para vender aos clientes. Mas, como era sexta-feira, a patroa - uma jovem e bonita mulher - veio ao café, e eu resolvi dar-lhe a provar a minha bebida.
"Luis", foi a sua reacção, "isto é bom demais para os clientes. Vamos bebê-la nós".



Eu não sou o do chapéu, com as máquinas fotográficas ao peito, fier touriste.
"Isto anda tudo ligado"
Dois dos meus blogs favoritos (este e este), fazem referência a um dos meus filmes favoritos (este).
Nele, um polícia (e a metade masculina da plateia) apaixona-se por uma jovem senhora que nunca viu - nem nós, de resto. Quem amamos, quando amamos?
PS - e, qui plus est, outra Laura faz anos.
Nele, um polícia (e a metade masculina da plateia) apaixona-se por uma jovem senhora que nunca viu - nem nós, de resto. Quem amamos, quando amamos?
PS - e, qui plus est, outra Laura faz anos.
Serviço Público - Livros (e uma livraria)
"A Casa de Papel", de Carlos Maria Dominguez, é uma pequena pérola, daquelas que se lêem de um trago. Fala, em tom falsamente policial, dos livros e do amor por eles, com o amor, o outro, em watermark muito discreta. Menos discreto é o retrato dos meios universitários, deliciosa mistura de ironia fina e (pouco) sarcasmo.
Aconselho a leitura em espanhol: a tradução portuguesa tem alguns daqueles erros irritantes que, não sendo suficientes para estragar o prazer do texto, são chatos e desagradáveis. Na sua maioria, formulações em português de particularismos espanhóis. Porque é que não encontro esse tipo de erros nas traduções francesas e inglesas?
Eu tenho uma teoria, mas agora não me lembro dela. Leiam o livro, é um prazer e é esse que conta.
E aqui deixo um público "obrigado" à Caroline, da Livraria Galileu, que me aconselhou o livro - mais um seixo na enorme pirâmide da minha gratidão, pela quantidade de livros que me aconselhou, pela simpatia, por ter conseguido manter aquela que continua a ser a minha livraria favorita, uma verdadeira livraria e não, como dizia Pedro Támen hoje na rádio, "um supermercado de livros".
Aconselho a leitura em espanhol: a tradução portuguesa tem alguns daqueles erros irritantes que, não sendo suficientes para estragar o prazer do texto, são chatos e desagradáveis. Na sua maioria, formulações em português de particularismos espanhóis. Porque é que não encontro esse tipo de erros nas traduções francesas e inglesas?
Eu tenho uma teoria, mas agora não me lembro dela. Leiam o livro, é um prazer e é esse que conta.
E aqui deixo um público "obrigado" à Caroline, da Livraria Galileu, que me aconselhou o livro - mais um seixo na enorme pirâmide da minha gratidão, pela quantidade de livros que me aconselhou, pela simpatia, por ter conseguido manter aquela que continua a ser a minha livraria favorita, uma verdadeira livraria e não, como dizia Pedro Támen hoje na rádio, "um supermercado de livros".
Cinema (Uma breve teoria do)
Fui ver o "Little Miss Sunshine". O filme é fabuloso. Fez-me pensar nos primeiros Soderbergh, no "Lula e na Baleia", em dezenas de outros filmes americanos que vi. Deixemos de lado a historia do cinema independente, e essas coisas que só interessam aos críticos e aos empregados de café (dos cafés da moda, claro).
Os americanos, sejam eles independentes ou não, jovens ou velhos, não perdem muito tempo a tentar perceber, ou explicar, ou mesmo a interrogar-se, porque é que o cinema funciona: eles já sabem que funciona, ponto final.
Eles "perdem" tempo é a explorar as possibilidades do cinema, a criar personagens que são reais, mais reais do que aquelas que cruzamos na rua, a contar histórias fantásticas mas nas quais "acreditamos" porque as histórias são verosímis. Saímos de um desses filmes a saber mais da humanidade, do homem, da complexidade da vida, do que em 50 filmes de ensaio franceses.
(Claro que a clivagem não é essa: é mau cinema versus bom cinema. Resnais, Rohmer e Truffaut são franceses. Mas não estamos aqui para complicar as coisas, ou estamos?)
Os americanos, sejam eles independentes ou não, jovens ou velhos, não perdem muito tempo a tentar perceber, ou explicar, ou mesmo a interrogar-se, porque é que o cinema funciona: eles já sabem que funciona, ponto final.
Eles "perdem" tempo é a explorar as possibilidades do cinema, a criar personagens que são reais, mais reais do que aquelas que cruzamos na rua, a contar histórias fantásticas mas nas quais "acreditamos" porque as histórias são verosímis. Saímos de um desses filmes a saber mais da humanidade, do homem, da complexidade da vida, do que em 50 filmes de ensaio franceses.
(Claro que a clivagem não é essa: é mau cinema versus bom cinema. Resnais, Rohmer e Truffaut são franceses. Mas não estamos aqui para complicar as coisas, ou estamos?)
16.10.06
Self improvement
Todos os homens, todos sem excepção, casados e solteiros, deviam seguir os conselhos (este é um exemplo, mas há mais) da Passionária (que nick tão contraditório, para um liberal anticomunista primário mas sensível às coisas dos sentidos como eu).
Infelizmente, temos que reconhecer que uma grande parte da população feminina não gosta de nós como a Passionária nos descreve, mas como a natureza nos fez: imperfeitos.
O que explica que aqueles de entre nós que abrem as portas dos carros às senhoras, lhes oferecem flores regularmente, fazem o jantar se elas querem comer em casa ou as convidam para jantar fora caso contrário, lhes escrevem pequenos bilhetes à mão e lhes levam os sacos das compras, lhes dedicam poemas autógrafos, ou livros cuidadosamente escolhidos, que não gostam de futebol, as acompanham a casa das mães e inventam viagens profissionais a Paris só para as poder levar, aqueles de entre nós que falam com elas, ou mesmo, quem sabe, as ouvem falar - e emprego o verbo "ouvir" sem sombra de ironia, no primeiríssimo grau - esses, estão sozinhos.
PS Urgente - eu peço às minhas inúmeras, adoráveis e consequentemente infinitamente adoradas leitoras que parem de me enviar e-mails. Nesta última meia-hora a minha caixa de correio sofreu uma enchente que a levou a um DoS (denial of service, para quem não sabe). Comprendo, com toda a modéstia, que a resumida - oh!, quão resumida - lista das minhas qualidades, acima breve e sucintamente exposta, as leve a ter falsas ideias sobre mim.
Contudo, eu faço, forçoso é reconhecê-lo (a sinceridade é outro dos meus inestimáveis atributos) parte da esmagadora maioria dos homens: imperfeitos, prontos a casar com mulheres imperfeitas, e a fazer filhos, eles também, imperfeitos (não incluo neste plural a minha filha, porque ela está fora das categorias não-angélicas). Obrigado.
PS Urgente 2 - nem a mãmã, claro, pela mesma razão.
Infelizmente, temos que reconhecer que uma grande parte da população feminina não gosta de nós como a Passionária nos descreve, mas como a natureza nos fez: imperfeitos.
O que explica que aqueles de entre nós que abrem as portas dos carros às senhoras, lhes oferecem flores regularmente, fazem o jantar se elas querem comer em casa ou as convidam para jantar fora caso contrário, lhes escrevem pequenos bilhetes à mão e lhes levam os sacos das compras, lhes dedicam poemas autógrafos, ou livros cuidadosamente escolhidos, que não gostam de futebol, as acompanham a casa das mães e inventam viagens profissionais a Paris só para as poder levar, aqueles de entre nós que falam com elas, ou mesmo, quem sabe, as ouvem falar - e emprego o verbo "ouvir" sem sombra de ironia, no primeiríssimo grau - esses, estão sozinhos.
PS Urgente - eu peço às minhas inúmeras, adoráveis e consequentemente infinitamente adoradas leitoras que parem de me enviar e-mails. Nesta última meia-hora a minha caixa de correio sofreu uma enchente que a levou a um DoS (denial of service, para quem não sabe). Comprendo, com toda a modéstia, que a resumida - oh!, quão resumida - lista das minhas qualidades, acima breve e sucintamente exposta, as leve a ter falsas ideias sobre mim.
Contudo, eu faço, forçoso é reconhecê-lo (a sinceridade é outro dos meus inestimáveis atributos) parte da esmagadora maioria dos homens: imperfeitos, prontos a casar com mulheres imperfeitas, e a fazer filhos, eles também, imperfeitos (não incluo neste plural a minha filha, porque ela está fora das categorias não-angélicas). Obrigado.
PS Urgente 2 - nem a mãmã, claro, pela mesma razão.
15.10.06
Ao pequeno almoço
Um dia - se me deixares, claro, e quiseres ouvir - contar-te-ei a história toda. Ao pequeno almoço.
The real thing ou "Erros meus"
"I don't need anything. But if I am to have something, I want it to be the real thing". Mais do que qualquer outra frase que tenha ouvido, ou lido, esta resume um programa de vida com o qual me identifico inteiramente.
Elogio da preguiça
"Uma relação dá trabalho", dizes. Não te preocupes: conheço as virtudes da preguiça.
Serviço Público - Blogs
A ler, absolutamente: este post, e este. E já agora, este, também. Aproveito, caro Eduardo Pitta, para responder à sua pergunta, retórica que seja: não está a ver mal.
11.10.06
Solidão
Momentos como este, em que se está sozinho e se quer estar sozinho, têm a inestimável vantagem de tornar mais fácil acreditar que se está só porque se quer.
9.10.06
Não sei
Tenho que reconhecer que não sei como contar o dia de hoje. Seria fácil, repara: o Irish Coffee medíocre, o bar cheio de pessoas gordas e feias, a música - excelente - a pouca vontade que tenho de ir a Águeda e a Londres amanhã, o almoço, tão bom. Mas se quisesse fazer uma descrição digamos factual, da noite, e do dia, a verdade é que tu não farias parte dela. Não estás cá.
Mas fazes, apesar de não estares cá. Tu és o centro e a periferia dos meus dias, das minhas noites, das minhas ruas e da minha solidão. Tu és a minha vida, a minha deambulação, as minhas tripas, a minha pele. Tu és tu, e és uma grande parte de mim.
E assim fico sem saber como descrever este vazio.
Mas fazes, apesar de não estares cá. Tu és o centro e a periferia dos meus dias, das minhas noites, das minhas ruas e da minha solidão. Tu és a minha vida, a minha deambulação, as minhas tripas, a minha pele. Tu és tu, e és uma grande parte de mim.
E assim fico sem saber como descrever este vazio.
5.10.06
Vivre à Lisbonne, ou La douceur n'a rien d'extraordinaire
« Il est doux de vivre à Lisbonne, tu sais? Tout y est doux, en fait: le climat, les gens, la lumière, la cuisine, les prix, les yeux des femmes et leur sourire (bon, ils conduisent comme des handicapés mentaux, c'est vrai. Mais on peut ne pas y penser).
Maintenant je me trouve, par exemple, dans une rue piétonne. Je mange dehors, une soupe de poissons qui n’est certes pas magique; mais elle est honnête, c’est déjà bien. Je bois un vin agréable, un blanc légèrement fruité du Ribatejo, honnête, lui aussi, sans plus. Dans le restaurant en face un jeune musicien (je ne sais pas s’il est jeune, en vérité. Je ne le vois pas) joue Clapton, et beaucoup d’autres musiciens de notre adolescence.
La terrace est déserte, car ce restaurant, autrefois très réputé, est en train de passer une mauvaise passe (tout comme moi, d’ailleurs, me diras tu quand tu liras ce verbiage). Il est bon, mais les touristes lui préfèrent celui d’en face. Lequel est bon aussi, remarque, mais point meilleur, je pense en écoutant des morceaux de Clapton, Simon & Garfunkel, Dylan, McCartney. Il n’est pas extraordinaire, lui non plus – il me semble que cette soirée na rien d’extraordinaire… - mais l’écouter n’est pas désagréable. C’est une soirée Portugaise, il me semble, une bonne image du Portugal – rien n’y est extraordinaire, mais tout y est doux.
J’écris ces mots et je pense qu’ils ne sont pas justes : il y a des jours de voile extraordinaires, par exemple. Et des amitiés. Les plus belles, les plus anciennes, les plus complices de mes amitiés sont ici.
A Lisbonne j’ai aussi vécu quelques amours, mais pas beaucoup. Douces, calmes, tranquilles, elles se sont évanouies sans trace laisser, dans une mare de silences doux, eux aussi. Tout est doux, dans ce pays, mais rien n’y est extraordinaire. Sauf quelques jours de voile, quelques jours que j’ai passés avec toi, et l’envie que j’ai de tomber amoureux, maladivement amoureux, sérieusement, profondément, horriblement, passionnément, rationnellement amoureux (les amours vraies sont rationnelles, tu le sais, il n’y a que dans les mauvais ou les très bon romans qu’elles ne le sont pas; et la raison n’a rien contre la passion, bien au contraire). J’ai envie de tomber amoureux de toi d’une fois pour toutes, du début à la fin, j’ai envie de pouvoir dire que j’ai été amoureux de toi chaque jour de chacune de ces années. Mais dans ce pays tout est doux, et la douceur n’a rien à voir avec ce que je veux sentir pour toi».
Escrevi este texto em francês, o que é estranho, porque foi escrito a pensar numa senhora bem portuguesa. Na realidade o texto “chegou” em francês, não fui que escolhi a língua. É um sintoma: se um dia me apaixonar pela vizinha do lado acabarei por descobrir que ela é decerto hospedeira do ar, conferencista itinerante ou especialista no crescimento das antenas dos camarões machos das ilhas Aleutas. E que só está em casa nos dias em que eu estiver em Londres, em La Rochelle, ou numa ilha qualquer de um arquipélago perdido de um lago no centro de África.
A verdade é que gostaria de me apaixonar em Lisboa por uma portuguesa cuja ideia de viagem fosse a excursão semanal ao centro comercial e para quem exotismo, na verdadeira acepção do termo, fosse pôr piripiri nas amêijoas à Bulhão Pato ou fazer amor de manhã antes de ir para o trabalho (“cuidado, vou ficar cheia de marcas e eles vão ver, lá no serviço”). Em contrapartida, eu próprio deixaria de viajar – nunca mais um avião, nunca – excepto, claro, para ir ao Brasil de vez em quando “em trabalho”.
A minha vida nunca será o grande rio tranquilo com o qual sonho há tanto tempo. E tu nunca serás a ponte entre as duas margens de mim.
Continuarei a escrever-te, claro, em francês quando estiveres em Portugal, em inglês quando fores francesa, em chinês ou em swahili, essa língua que em tempos tanto desejei aprender; levar-te-ei a jantar em Nairobi ao Indy, que é o melhor restaurante indiano do mundo (pelo menos, do mundo que eu conheço), ir-te-ei visitar a Tegucigalpa, cozinhar-te-ei intermináveis pratos de cozinha Cajun, levar-te-ei a navegar no lago Tanganika (à frente da península de Burton, onde um dia quis ser enterrado), oferecer-te-ei rum em Bequia, pescarei para ti nas Tobago Kays, bater-me-ei em Cape Town, embebedar-me-ei em Nakhodka, conversarei horas a fio com uma puta no Panamá, mostrar-te-ei uma praia nas Filipinas, os dois numa scooter, bolinarei dias e dias sem fim para te encontrar, para te reencontrar.
E amar-te-ei, claro, de todas as formas possíveis, em todas as geografias do mundo e com todas as geografias do amor. Sans douceur.
Maintenant je me trouve, par exemple, dans une rue piétonne. Je mange dehors, une soupe de poissons qui n’est certes pas magique; mais elle est honnête, c’est déjà bien. Je bois un vin agréable, un blanc légèrement fruité du Ribatejo, honnête, lui aussi, sans plus. Dans le restaurant en face un jeune musicien (je ne sais pas s’il est jeune, en vérité. Je ne le vois pas) joue Clapton, et beaucoup d’autres musiciens de notre adolescence.
La terrace est déserte, car ce restaurant, autrefois très réputé, est en train de passer une mauvaise passe (tout comme moi, d’ailleurs, me diras tu quand tu liras ce verbiage). Il est bon, mais les touristes lui préfèrent celui d’en face. Lequel est bon aussi, remarque, mais point meilleur, je pense en écoutant des morceaux de Clapton, Simon & Garfunkel, Dylan, McCartney. Il n’est pas extraordinaire, lui non plus – il me semble que cette soirée na rien d’extraordinaire… - mais l’écouter n’est pas désagréable. C’est une soirée Portugaise, il me semble, une bonne image du Portugal – rien n’y est extraordinaire, mais tout y est doux.
J’écris ces mots et je pense qu’ils ne sont pas justes : il y a des jours de voile extraordinaires, par exemple. Et des amitiés. Les plus belles, les plus anciennes, les plus complices de mes amitiés sont ici.
A Lisbonne j’ai aussi vécu quelques amours, mais pas beaucoup. Douces, calmes, tranquilles, elles se sont évanouies sans trace laisser, dans une mare de silences doux, eux aussi. Tout est doux, dans ce pays, mais rien n’y est extraordinaire. Sauf quelques jours de voile, quelques jours que j’ai passés avec toi, et l’envie que j’ai de tomber amoureux, maladivement amoureux, sérieusement, profondément, horriblement, passionnément, rationnellement amoureux (les amours vraies sont rationnelles, tu le sais, il n’y a que dans les mauvais ou les très bon romans qu’elles ne le sont pas; et la raison n’a rien contre la passion, bien au contraire). J’ai envie de tomber amoureux de toi d’une fois pour toutes, du début à la fin, j’ai envie de pouvoir dire que j’ai été amoureux de toi chaque jour de chacune de ces années. Mais dans ce pays tout est doux, et la douceur n’a rien à voir avec ce que je veux sentir pour toi».
Escrevi este texto em francês, o que é estranho, porque foi escrito a pensar numa senhora bem portuguesa. Na realidade o texto “chegou” em francês, não fui que escolhi a língua. É um sintoma: se um dia me apaixonar pela vizinha do lado acabarei por descobrir que ela é decerto hospedeira do ar, conferencista itinerante ou especialista no crescimento das antenas dos camarões machos das ilhas Aleutas. E que só está em casa nos dias em que eu estiver em Londres, em La Rochelle, ou numa ilha qualquer de um arquipélago perdido de um lago no centro de África.
A verdade é que gostaria de me apaixonar em Lisboa por uma portuguesa cuja ideia de viagem fosse a excursão semanal ao centro comercial e para quem exotismo, na verdadeira acepção do termo, fosse pôr piripiri nas amêijoas à Bulhão Pato ou fazer amor de manhã antes de ir para o trabalho (“cuidado, vou ficar cheia de marcas e eles vão ver, lá no serviço”). Em contrapartida, eu próprio deixaria de viajar – nunca mais um avião, nunca – excepto, claro, para ir ao Brasil de vez em quando “em trabalho”.
A minha vida nunca será o grande rio tranquilo com o qual sonho há tanto tempo. E tu nunca serás a ponte entre as duas margens de mim.
Continuarei a escrever-te, claro, em francês quando estiveres em Portugal, em inglês quando fores francesa, em chinês ou em swahili, essa língua que em tempos tanto desejei aprender; levar-te-ei a jantar em Nairobi ao Indy, que é o melhor restaurante indiano do mundo (pelo menos, do mundo que eu conheço), ir-te-ei visitar a Tegucigalpa, cozinhar-te-ei intermináveis pratos de cozinha Cajun, levar-te-ei a navegar no lago Tanganika (à frente da península de Burton, onde um dia quis ser enterrado), oferecer-te-ei rum em Bequia, pescarei para ti nas Tobago Kays, bater-me-ei em Cape Town, embebedar-me-ei em Nakhodka, conversarei horas a fio com uma puta no Panamá, mostrar-te-ei uma praia nas Filipinas, os dois numa scooter, bolinarei dias e dias sem fim para te encontrar, para te reencontrar.
E amar-te-ei, claro, de todas as formas possíveis, em todas as geografias do mundo e com todas as geografias do amor. Sans douceur.
4.10.06
Versailles
O chá é de pacote, o que devia ser punível com pena de torturas chinesas até ao fim dos tempos, e os scones estão, eles também, longe de corresponder à beleza do lugar, à beleza das duas jovens na mesa ao lado, à beleza, inclusivé, que deve ter sido aquela senhora velhota na sua juventude.
Pouco importa. O lugar é lindo, o serviço irrepreensível, e o tempo faz-nos, cada vez que aqui vimos, o favor de ficar à porta.
Ou pelo menos de tentar. A Versailles tem igualmente os melhores croquetes do hemisfério norte, e de uma grande parte do hemisfério sul. Porquê só de uma "grande parte do hemisfério sul", e não de todo ele? Porque é possível, se bem que pouco provável, que um cozinheiro chamado Jonas, de Moçambique, ainda esteja vivo, e ainda faça croquetes. Jonas fazia os melhores croquetes de todos os hemisférios, de todos os universos, de todas as galáxias. Eram pequenos, redondos e fofos, saborosíssimos, desfaziam-se na boca antes mesmo de ela se fechar.
E o Jonas era, para além de um excelente cozinheiro, uma excelente pessoa. Não fazia queixas de nós aos nossos pais, por exemplo. E tinha sempre qualquer coisa para nos dar, invariavelmente boa, qualquer que fosse a hora a que uma quantidade sempre imprevisível e inesperada de adolescentes esfomeados lhe irrompia pela cozinha dentro. Depois do 25 de abril, quando nos preparávamos para deixar Lourenço Marques, o Jonas queria vir connosco para a então (ainda) Metrópole, e o meu pai disse-lhe que não. Nunca até ao fim dos dias se recompôs dessa decisão, errada, erradíssima.
Nunca deixou de me surpreender que, no Out of Africa, fosse também o cozinheiro o empregado que a Karen Blixen (ou seria a Meryl Streep?) mais custou deixar em África, não trazer para a Europa.
Talvez não seja o tempo que fica à porta da Versailles; talvez seja só o presente, abençoada seja.
Pouco importa. O lugar é lindo, o serviço irrepreensível, e o tempo faz-nos, cada vez que aqui vimos, o favor de ficar à porta.
Ou pelo menos de tentar. A Versailles tem igualmente os melhores croquetes do hemisfério norte, e de uma grande parte do hemisfério sul. Porquê só de uma "grande parte do hemisfério sul", e não de todo ele? Porque é possível, se bem que pouco provável, que um cozinheiro chamado Jonas, de Moçambique, ainda esteja vivo, e ainda faça croquetes. Jonas fazia os melhores croquetes de todos os hemisférios, de todos os universos, de todas as galáxias. Eram pequenos, redondos e fofos, saborosíssimos, desfaziam-se na boca antes mesmo de ela se fechar.
E o Jonas era, para além de um excelente cozinheiro, uma excelente pessoa. Não fazia queixas de nós aos nossos pais, por exemplo. E tinha sempre qualquer coisa para nos dar, invariavelmente boa, qualquer que fosse a hora a que uma quantidade sempre imprevisível e inesperada de adolescentes esfomeados lhe irrompia pela cozinha dentro. Depois do 25 de abril, quando nos preparávamos para deixar Lourenço Marques, o Jonas queria vir connosco para a então (ainda) Metrópole, e o meu pai disse-lhe que não. Nunca até ao fim dos dias se recompôs dessa decisão, errada, erradíssima.
Nunca deixou de me surpreender que, no Out of Africa, fosse também o cozinheiro o empregado que a Karen Blixen (ou seria a Meryl Streep?) mais custou deixar em África, não trazer para a Europa.
Talvez não seja o tempo que fica à porta da Versailles; talvez seja só o presente, abençoada seja.
Desejo
O desejo é uma coisa estranha, que sobe, desce, aparece, cresce, diminui, desaparece, ondula; não tem a bela, previsível, irrefutável regularidade das marés, ou da lua.
1.10.06
O passado não passa
"Le passé ne passe pas", leio hoje num texto de homenagem a Sebald escrito por Jan Peter Tripp, um pintor amigo dele. Não só não passa, como passamos o futuro a refazê-lo.
"Rien ne se perd jamais, tout est constamment présent et le moindre coup de vent fait remonter à la surface ce qui se trouve tout au-dessous."
Jan Peter Tripp, in "Séjours à la Campagne", antologia de textos de W.G. Sebald, ed. Actes Sud, 2005.
"Rien ne se perd jamais, tout est constamment présent et le moindre coup de vent fait remonter à la surface ce qui se trouve tout au-dessous."
Jan Peter Tripp, in "Séjours à la Campagne", antologia de textos de W.G. Sebald, ed. Actes Sud, 2005.
Diálogos possíveis
- Quanto mais vivo, mais me apercebo que só o presente é que conta.
- Tens razão, é com ele se constrói o futuro, e o passado.
- Tens razão, é com ele se constrói o futuro, e o passado.
Solo una cosa no hay...
Às vezes penso nesse dia, e pergunto-me como seria, se fosse hoje? Estamos incessantemente a refazer o passado. O futuro é uma colecção de passados que se vão construindo à medida que o tempo passa.
28.9.06
Douce France - II
Não gosto muito da Fraaaaance, e pouco dos franceses - excepto de alguns, e algumas, de quem gosto, e muito. Mas forçoso é reconhecer que por vezes gostaria que a minha língua materna fosse o francês.
Douce France
"Faut-il avoir honte d'être Français?", perguntava recentemente na capa uma conhecida revista francesa. Um povo que elegeu sucessivamente François Mitterrand e Jacques Chirac está dispensado de fazer essa pergunta.
27.9.06
Viagens
Já dei uma volta ao mundo porque uma determinada senhora não quis fazer amor comigo; e já aluguei um automóvel e guiei 400 km porque uma outra mo pediu. Nunca mais vi nenhuma delas; não me lembro da primeira, mas penso muitas vezes na segunda. O que prova que mau sexo é melhor do que nenhum sexo.
23.9.06
Todos os dias
Todos os dias ia de casa para o escritório, a pé, duffle coat abotoado até acima, la banque à gauche et l’eau à droite. Todos os dias voltava do escritório para casa, duffle coat abotoado até acima, la banque à droite et l’eau à gauche. Todos os dias. No inverno era noite e no verão o rio reflectia o sol nascente à ida, poente à vinda. Todos os dias.
À noite voltava para casa, mas tu não estavas lá. Estavas ao telefone, ou doente, ou cansada, ou cheia de trabalho, todos os dias.
L’air était vif et sec et tonique, le matin; à tarde tudo estava cansado, o ar, o relógio da torre no meio do rio, a água, a minha imagem reflectida pelos vidros do banco, decorado com maquettes de navios, antigos e modernos, muitas, todas elas bonitas, mas cansadas, também, à tarde. Todos os dias chegava ao escritório, e todos os dias chegava a casa. Não me lembro das crianças, nessa altura. Já eram duas, mas não me lembro se me viam partir de casa, duffle coat abotoado até acima, ou voltar, todos os dias.
Lembro-me de ti ao telefone, ou doente, ou cansada, ou cheia de trabalho. E lembro-me do meu duffle coat com botões de osso, abotoados até acima, reflectido nos vidros do banco. Nunca me vi no rio, mas era lá que queria estar, todos os dias. Até hoje.
À noite voltava para casa, mas tu não estavas lá. Estavas ao telefone, ou doente, ou cansada, ou cheia de trabalho, todos os dias.
L’air était vif et sec et tonique, le matin; à tarde tudo estava cansado, o ar, o relógio da torre no meio do rio, a água, a minha imagem reflectida pelos vidros do banco, decorado com maquettes de navios, antigos e modernos, muitas, todas elas bonitas, mas cansadas, também, à tarde. Todos os dias chegava ao escritório, e todos os dias chegava a casa. Não me lembro das crianças, nessa altura. Já eram duas, mas não me lembro se me viam partir de casa, duffle coat abotoado até acima, ou voltar, todos os dias.
Lembro-me de ti ao telefone, ou doente, ou cansada, ou cheia de trabalho. E lembro-me do meu duffle coat com botões de osso, abotoados até acima, reflectido nos vidros do banco. Nunca me vi no rio, mas era lá que queria estar, todos os dias. Até hoje.
15.9.06
11.9.06
Serviço público - Receitas
Podia estar com grandes descrições, mas não vale a pena. Está tudo dito, aqui. A sobremesa ideal é, claro, um Alexander, porque convém variar a ementa. Felizmente não tenho tendência para engordar, porque se tivesse seria uma maçada.
9.9.06
Vento
Está vento, muito, hoje em Cascais. E eu estou em terra. Gosto do vento, claro, mas não consigo impedir-me de pensar que, em terra, o vento não passa de uma punheta.
7.9.06
Pois,
e depois? Não sei, não posso e - sobretudo - não quero, fazer outra coisa. Hoje não há vento, amanhã quem sabe?, e depois de amanhã choverá. Que importa? É assim que as coisas se vão passar, e não de outra maneira: "ya todo está", lembra-te, o que vamos fazer, o que a cada dia construímos, o que, à nossa frente, todos os dias desaba; ruínas, todos os dias ruínas novas, futuros radiosos. "Ya todo está".
Excepto, claro, os teus reflexos no espelho que só amanhã verei, ou depois.
Por agora, Gould desfaz as Variações Goldberg, o Alexander flui, o futuro constrói-se, outra vez. Há sempre, minha querida, um futuro, uma ruína, outro futuro e outra ruína, e assim, sem fim, se vai construindo a vida.
Excepto, claro, os teus reflexos no espelho que só amanhã verei, ou depois.
Por agora, Gould desfaz as Variações Goldberg, o Alexander flui, o futuro constrói-se, outra vez. Há sempre, minha querida, um futuro, uma ruína, outro futuro e outra ruína, e assim, sem fim, se vai construindo a vida.
6.9.06
Serviço Público - Blogs
"A direita liberal, ao contrário do beco sem saída em que se meteu a esquerda, acredita na pessoa humana. Esta realidade faz toda a diferença. Tanto no conceito de segurança social, como no planeamento da reforma, na defesa de programas de ensino livre, na saúde e em todas as demais áreas das políticas sociais, o discurso da direita é o de devolver o poder aos cidadãos. Na conquista do voto, onde a lei do mercado também funciona, vence sempre quem tem o discurso positivo. A direita liberal defende a liberdade e a dignidade humana. Acredita que as pessoa são capazes. Aceita, por estas mesmas razões, a própria incerteza inerente à condição de ser humano . O Filipe Moura pode até ficar muito triste, mas o futuro, meu amigo, já não está na esquerda."
Aqui.
Aqui.
3.9.06
Retrato
A boca nem muito grande é, mas ocupa toda a largura do rosto. Aquilo não é uma cara, é uma faca.
2.9.06
Concorrência
O Expresso pode ter todoss os defeitos que lhe quisermos apontar - e tem alguns deles. Mas "Sol" é foleiro a olho. "Dê-me o Sol, por favor". A resposta vem rápida: "Ó vizinho, quem me dera, mas com o dia que está acho que só vamos ter chuva".
- Quuero o Sol, por favor.
- Também eu.
- Tem o Sol, por favor?
- Tenho, mas está dentro de mim. -(Esta é improvável, mas...)
- Quuero o Sol, por favor.
- Também eu.
- Tem o Sol, por favor?
- Tenho, mas está dentro de mim. -(Esta é improvável, mas...)
1.9.06
Um jantar improvisado
O ponto de partida foi uma intolerável vontade de caril de frango, e a forçosa lembrança do tão recente caril de lulas. Para conciliar uma e outra:
Óleo numa caçarola, frango (neste caso, do campo - parecia um perú, ou uma avestruz) a alourar. No mesmo óleo, retirado o frango, refogar cebola e, quase no fim, alho. Juntar o frango, envolver em concentrado de tomate (ma non troppo) e juntar as especiarias: caril, claro, pimenta, gengibre, açafrão-das-índias, tomilho e cominhos moídos. Deixar evoluir, muito devagarinho, até chegar a altura de se juntar leite de côco, 2 latas 2, e água para cobrir o conjunto.
Coze lentamente, claro, e durante a cozedura vão-se ajustando os pós. Pouco antes do fim: coentros picados, um pouco, muito pouco, de sumo de limão e pepino às rodelas.
Nessa altura já o arroz cozia alegramente. O resultado foi bom, muito bom. Ainda sobram cerca de dez porções...
A sobremesa foi um Alexander. As consequências, a nível logístico, muito graves. John Vickers e Heather Harper cantam, ele Peter Grimes e ela Ellen Orford. Longe, uma vida espreita.
Óleo numa caçarola, frango (neste caso, do campo - parecia um perú, ou uma avestruz) a alourar. No mesmo óleo, retirado o frango, refogar cebola e, quase no fim, alho. Juntar o frango, envolver em concentrado de tomate (ma non troppo) e juntar as especiarias: caril, claro, pimenta, gengibre, açafrão-das-índias, tomilho e cominhos moídos. Deixar evoluir, muito devagarinho, até chegar a altura de se juntar leite de côco, 2 latas 2, e água para cobrir o conjunto.
Coze lentamente, claro, e durante a cozedura vão-se ajustando os pós. Pouco antes do fim: coentros picados, um pouco, muito pouco, de sumo de limão e pepino às rodelas.
Nessa altura já o arroz cozia alegramente. O resultado foi bom, muito bom. Ainda sobram cerca de dez porções...
A sobremesa foi um Alexander. As consequências, a nível logístico, muito graves. John Vickers e Heather Harper cantam, ele Peter Grimes e ela Ellen Orford. Longe, uma vida espreita.
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Receitas
31.8.06
Nunca é demais insistir
Via Nova Floresta: é surpreendente o pouco impacto destas coisas. Onde andam os paladinos "da verdade"?
Tens sem dúvida razão,
...querida,
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
And dance me to the end of love
Yeah, dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
And dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love... both of us above
And dance me to the end of love
Yeah, dance me to the end of love
Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
And dance me to the end of love
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand... touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
mas faz-me um favor: não dances demasiado depressa, está bem?
...
There is a crack in everything
That's how the light gets in...
Leonard Cohen, "Dance me to the End of Time", in Various Positions, e extracto de "Anthem", in The Future.
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
And dance me to the end of love
Yeah, dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
And dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love... both of us above
And dance me to the end of love
Yeah, dance me to the end of love
Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
And dance me to the end of love
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand... touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
mas faz-me um favor: não dances demasiado depressa, está bem?
...
There is a crack in everything
That's how the light gets in...
Leonard Cohen, "Dance me to the End of Time", in Various Positions, e extracto de "Anthem", in The Future.
Web life
É muito raro ir ao Technorati, mas hoje, graças a ele, conheci três blogs três. Um deles tem imagens do Schiele. O outro tem posts com bastante humor. O terceiro, apesar do nome, tem óptimos textos. Os três têm um defeito: a música que nos impede de ouvir a que estávamos a ouvir antes de lá irmos. São raros, mas há dias em que vale a pena ir ao Technorati.
30.8.06
Alexander
A primeira vez que bebi um Alexander foi em Cape Town, teria 15 ou 16 anos. O meu pai foi lá em trabalho e levou-me. Ficámos no Herengacht Hotel (não há link, já deve ter desaparecido). O bar era no último piso, e tinha, claro, uma vista fascinante sobre a cidade, que, já de si, é fascinante.
Mas eu não olhava sequer para fora - o bar estava cheio de mulheres, lindas, todas elas. Nunca tinha visto tantas mulheres tão bonitas ao mesmo tempo. O meu pai não se apercebeu que eu ia diluindo a minha líbido sobre-excitada em Alexanders, servidos por uma jovem da qual consigo ainda reproduzir a cor do T-shirt - era azul, igualzinha à dos olhos - e a do cabelo, amarelo-palha de surf e cerveja. Lembro-me sobretudo do sorriso dela, à medida que os Alexanders iam entrando e o meu desejo saindo, ao mesmo ritmo.
No dia seguinte fui à tabacaria do hotel, comprar o jornal, ou coisa que o valha. Cruzei-me com uma senhora que saía e parei, estacado - como a mulher de Lot, lembrei-me um dia, mais tarde, porque foi também por causa do olhar. Nunca tinha visto uma beleza tão bela, tão sensual (enfim, acho que naquela altura até uma burra de saias era sensual). Estaquei, hirto. Ela apercebeu-se - teria uns trinta anos, provavelmente - sorriu-me e, ao passar por mim, piscou-me o olho. Ainda estava com a ressaca dos Alexanders da véspera, e ela deve ter pensado que os tremores e a transpiração lhe eram devidos, exclusivamente.
Drante muitos anos não bebi Alexanders, mas agora não consigo passar muito tempo sem eles: o site do post anterior tem muitas receitas. Gosto da minha, porque não é muito doce:
Brandy e licor de cacau em quantidades iguais, um pouco menos de natas. Shaker com muito gelo durante pouco tempo, e polvilhar com noz moscada - isto é importante, porque em muitos bares deste país servem-no com canela, uma abjecção.
Cheers! A todas as mulheres bonitas.
PS - já agora: A Mulher de Lot
PS2 - O fim de um dilema: o Alexander é com Brandy.
PS3 - A noz moscada era a droga dos antigos marinheiros. Provocava uma ressaca horrível.
Mas eu não olhava sequer para fora - o bar estava cheio de mulheres, lindas, todas elas. Nunca tinha visto tantas mulheres tão bonitas ao mesmo tempo. O meu pai não se apercebeu que eu ia diluindo a minha líbido sobre-excitada em Alexanders, servidos por uma jovem da qual consigo ainda reproduzir a cor do T-shirt - era azul, igualzinha à dos olhos - e a do cabelo, amarelo-palha de surf e cerveja. Lembro-me sobretudo do sorriso dela, à medida que os Alexanders iam entrando e o meu desejo saindo, ao mesmo ritmo.
No dia seguinte fui à tabacaria do hotel, comprar o jornal, ou coisa que o valha. Cruzei-me com uma senhora que saía e parei, estacado - como a mulher de Lot, lembrei-me um dia, mais tarde, porque foi também por causa do olhar. Nunca tinha visto uma beleza tão bela, tão sensual (enfim, acho que naquela altura até uma burra de saias era sensual). Estaquei, hirto. Ela apercebeu-se - teria uns trinta anos, provavelmente - sorriu-me e, ao passar por mim, piscou-me o olho. Ainda estava com a ressaca dos Alexanders da véspera, e ela deve ter pensado que os tremores e a transpiração lhe eram devidos, exclusivamente.
Drante muitos anos não bebi Alexanders, mas agora não consigo passar muito tempo sem eles: o site do post anterior tem muitas receitas. Gosto da minha, porque não é muito doce:
Brandy e licor de cacau em quantidades iguais, um pouco menos de natas. Shaker com muito gelo durante pouco tempo, e polvilhar com noz moscada - isto é importante, porque em muitos bares deste país servem-no com canela, uma abjecção.
Cheers! A todas as mulheres bonitas.
PS - já agora: A Mulher de Lot
PS2 - O fim de um dilema: o Alexander é com Brandy.
PS3 - A noz moscada era a droga dos antigos marinheiros. Provocava uma ressaca horrível.
29.8.06
Serviço Público - Web
Este post (ou artigo, como preferirem), é, ou devia ser, de leitura obrigatória.
23.8.06
Günter Grass
Pergunto a mim mesmo quantos, daqueles que agora acusam Günter Grass, fizeram parte de partidos comunistas, juventudes vermelhas e coisas semelhantes.
20.8.06
Agosto
Uma pessoa senta-se num restaurante. Comer um hamburger, beber uma cerveja. O restaurante é pequeno, familiar, conhecido da pessoa, que lá vai muitas vezes. Na rua, uma procissão ininterrupta de gente lembra-lhe que é verão: turistas, t-shirts, gelados em bocas que se arredondam para os receber, gulosas. Os gelados vêm do Santini: a história passa-se em Cascais. A pessoa está sozinha: “Agosto”, leu recentemente algures, “é o mês das piores solidões”. “Não é verdade”, pensa. "Não há solidões piores que outras. Há solidões que se aguentam sozinhas, e solidões que precisam de outras solidões para se manterem".
Solidões: a repetição da palavra faz-lhe vertigens. A pessoa está sentada. Afinal comeu um spaghetti bolonhesa. O autor (40 anos, magro, cabelo ralo, míope) não sabe o que fazer dela, nem com ela. Homem ou mulher? Que idade? Porque acabou a comer uma coisa diferente da que tinha planeado? Porque olha para o passante como se os conhecesse todos, ou quisesse conhecer? O autor interroga-se.
Solidões: a repetição da palavra faz-lhe vertigens. A pessoa está sentada. Afinal comeu um spaghetti bolonhesa. O autor (40 anos, magro, cabelo ralo, míope) não sabe o que fazer dela, nem com ela. Homem ou mulher? Que idade? Porque acabou a comer uma coisa diferente da que tinha planeado? Porque olha para o passante como se os conhecesse todos, ou quisesse conhecer? O autor interroga-se.
Na verdade não tem 40 anos, não é míope, não é magro. A pessoa, decide, é uma mulher. Ela sim, tem 40 anos e é magra, mas não muito. Fala com o dono do restaurante, e parece conhecê-lo bem. Combinam um almoço para o dia seguinte? Serão amantes? Conhecidos? Porque estão sozinhos, ambos? Ele chegou de bicicleta quando ela terminava o prato. A senhora tem os olhos vermelhos – o autor só agora se apercebe disso. Esteve a chorar. Tem uns olhos bonitos, azuis-claros, que contrastam com os cabelos negros. O autor pensa que o encarnado do choro fica bem com o azul das pupilas. Tem uma cara redonda, bonita, e tenta disfarçar as lágrimas, a voz que treme, a tristeza: mas a alegria é fingida demais. O dono do restaurante apercebe-se e esboça uma pergunta. Ela não quer, visivelmente, falar. Diz “boa noite!” e vai-se embora, bruscamente. O homem encolhe os ombros e vai para dentro.
Para onde vai ela? Noutro restaurante, numa rua ao lado, uma pessoa, sentada sozinha a uma mesa, olha para ela como ela, há pouco, olhava para os outros. É um homem, está sozinho. Não tem 40 anos. O autor não sabe que fazer de mais uma personagem. Decide deixá-las entregues a si próprias, todas, cada uma para seu lado. A mulher na rua, acompanhada por centenas doutras mulheres, algumas com gelados; o homem no outro restaurante, a comer um prato qualquer, provavelmente indiano; o dono do restaurante onde a história começou está na cozinha, a fornicar a cozinheira, uma ucraniana que, todas as noites, sofre em silêncio, e de pé, os apetites do patrão. "Agosto", ele vai pensando, "não é um mês diferente: é só mais quente, e esta gaja cheira mais a suor e a cebolas e a coentros. Tenho que parar com isto. Tenho que parar com isto". Esforça-se por acabar o mais depressa possível, mas os cheiros, a imobilidade total da mulher, a memória dos olhos encarnados da outra não o ajudam.
Pouco a pouco, o mundo do autor vai-se povoando. É uma maneira como outra qualquer de se sentir menos só, neste mês de Agosto solitário, quente e abafado. Há muitos anos começou uma longa relação neste mesmo dia de Agosto, mas não sabe como escrever sobre ela. “É sem dúvida mais fácil escrever sobre a ausência de relações”, pensou.
Contudo, a mulher decide aceitar o convite mudo do homem que olha para ela sentado na esplanada. Dirige-se a ele, olhando-o com medo, com coragem, com ironia?
- Tem lume? - Pergunta.
- Não.
- Não faz mal. A verdade é que não fumo. Posso sentar-me? – Senta-se sem esperar pela resposta.
-...
- Não diga nada. Não me diga o seu nome, nem a sua idade, nem porque me olhava. Ofereça-me um café, ou um whisky, o que preferir.
Ele não sabe o que há-de dizer. Não a quer ali: “as solidões de Agosto”, lembra-se, “são impenetráveis; ela não tem o direito de irromper assim na minha vida, na minha noite, na minha mesa”. Que faz?
Encomenda um café? Um whisky? Diz-lhe para se ir embora? Na cozinha do outro restaurante, o dono lava o membro no lava-loiça. A mulher sobe as cuecas – limpou o sexo muito rapidamente com um bocado de papel de cozinha – sem olhar para ele, sem uma palavra. “Diz-me qualquer coisa. Insulta-me, bate-me – tudo menos esses olhos que não vejo, essa boca silenciosa, essas pernas que se abrem como se tivessem uma vontade própria e não dependessem de ti”. Mas ela não diz nada.
O dono faz um café, e vai-se embora. A cozinheira prepara-se para fechar a cozinha – já só lhe falta apagar as luzes, o patrão vem sempre no fim, quando tudo está pronto e já só falta ir-se embora. No café ao lado, a mulher bebe um whisky. O homem acha-a bonita, mas decide ir-se embora. Quer ficar sozinho, luta contra o desejo. Ela apercebe-se e diz-lhe que se pode ir embora, se quiser, ou ficar – “desde que não me peça para o amar, ou não diga que me ama”. Vai-se embora.
O autor está sentado num bar na praia. Não sabe se a história que acabou de contar aconteceu há uma hora, um dia ou uma semana - não sabe mesmo se ela aconteceu de todo. Apetece-lhe beber whisky, muito. Um dos seus favoritos é o Dewar's 12 anos, que antigamente se chamava Ne Plus Ultra. Um amigo diz-lhe que não devia mencionar as marcas das bebidas, nem os nomes dos restaurantes onde as suas histórias acontecem. Pessoalmente, não estou de acordo: é como dizer o nome do local, ou a marca do carro, ou mesmo - porque não? - o nome da personagem. Um nome é um destino, e não é por acaso que as personagens desta história ainda não têm nome. Mas o autor hesita. Está sentado num bar, face ao mar, e ouve blues - Howlin' Wolf, supõe.
As personagens desapareceram, todas - umas para casa, outras para outros bares e lugares. "Uma casa", pensa, "não é um lugar: é uma etapa, uma escala, um poiso, um degrau numa escada sem fim, uma tenda no deserto". Como uma mulher: um ventre não é um futuro, é uma sucessão de presentes. Um dia acabam, esses presentes.
As personagens desapareceram, todas - umas para casa, outras para outros bares e lugares. "Uma casa", pensa, "não é um lugar: é uma etapa, uma escala, um poiso, um degrau numa escada sem fim, uma tenda no deserto". Como uma mulher: um ventre não é um futuro, é uma sucessão de presentes. Um dia acabam, esses presentes.
Ana foi para casa. O indiano encomendou-lhe um café e levantou-se, com um pedido de desculpas que lhe pareceu insuportável, de tão sincero. Ela queria fazer amor com ele, mas não conseguiu retê-lo. Queria dizer-lhe: "venha para minha casa. Faça-me amor, bem ou mal, deite-me numa cama ou encha-me de água a banheira, leve-me um whisky à cama, entorne-me a garrafa de champanhe no sexo e beba-o, passeie-me as mãos pelos dedos dos pés e a língua pelos sovacos, esfregue-me a cabeça na nuca, passeie-me a ponta do seu membro teso pela pele toda". Mas disse-lhe uma coisa desajeitada, pareceu-lhe, e ele levantou-se e foi-se embora, com um pedido de desculpa límpido, claro, frontal, doloroso.
O dono do restaurante, do outro restaurante, também se foi embora, mas para um bar de putas, pensa o autor. Não tem a certeza: que iria lá fazer, depois de uma foda na mesa da cozinha, por muito limpa que a cozinha esteja? A verdade é que a mulher não se mexe, não mexe um músculo, uma pálpebra, nem o tímpano se mexe, parece-lhe. Ele chega à cozinha, faz-lhe um sinal com os olhos, ela vira-se, baixa as cuecas, ele penetra-a, ele vem-se, ele retira-se, ela limpa-se com um bocado de papel. "Uma puta, pelo menos, finge". O autor concorda e leva-o para um bar de putas.
Falta o indiano. Quem é? Que foi ele fazer, depois de ter deixado Ana na mesa com um whisky e um pedido de desculpas?
Ou seja: neste momento, o autor tem Ana em casa, o dono de um restaurante (cujo nome ainda não inventou) num bar de putas, um indiano à deriva e uma cozinheira ucraniana fodida, literalmente fodida. Senta-se, frente ao mar, e ouve blues, Howlin' Wolf. Pensa no que deve fazer das suas personagens. No que deve fazer da sua vida, talvez; no que deve encomendar a seguir, mais prosaicamente; como dizer à empregada que quer ir para a cama com ela, de tal maneira que lhe dê a ela vontade de dizer que sim; que nome dar ao indiano, e ao dono do primeiro restaurante; pergunta-se se Ana é o nome correcto para aquela personagem; e se a história tem um fim, ou um princípio.
Ou seja: neste momento, o autor tem Ana em casa, o dono de um restaurante (cujo nome ainda não inventou) num bar de putas, um indiano à deriva e uma cozinheira ucraniana fodida, literalmente fodida. Senta-se, frente ao mar, e ouve blues, Howlin' Wolf. Pensa no que deve fazer das suas personagens. No que deve fazer da sua vida, talvez; no que deve encomendar a seguir, mais prosaicamente; como dizer à empregada que quer ir para a cama com ela, de tal maneira que lhe dê a ela vontade de dizer que sim; que nome dar ao indiano, e ao dono do primeiro restaurante; pergunta-se se Ana é o nome correcto para aquela personagem; e se a história tem um fim, ou um princípio.
A história tem princípio e fim, claro. Uma história acaba, ao contrário de um corpo, uma casa ou um período de felicidade. Uma vida acaba, também, mas deixa sempre um traço, uma consequência, um epitáfio, quanto mais não seja. A memória.
Ana está em casa. Recomeça a chorar. Não suporta a solidão, não suporta ter enganado Luis, o dono do restaurante, que agora se recusa a ouvi-la, não suporta ter-se oferecido daquela maneira ao indiano e ainda menos suporta ele tê-la recusado. Luis era marinheiro, passava muito tempo fora de casa. Ana costumava mandar-lhe fotografias dela nua, em poses mais ou menos sugestivas. “Para que”, dizia-lhe, “possas comparar as putas que andas a foder com o que tens em casa”. Auto-retratos, explicava-lhe Ana, feitos com a máquina em pose. Mas um dia, no canto de um espelho não era um tripé que segurava a máquina: era Ricardo, um dos amigos de Luis.
Ana era bonita, grande – tudo nela era grande: os olhos, a estatura, a personalidade, o sorriso. Tinha um corpo bem feito, equilibrado, o que é raro em mulheres grandes. Ao ver a fotografia, Luis ficou devastado: como qualquer marinheiro, ele sabia que a mulher o podia enganar; mas nenhum pensa que ela o faz verdadeiramente. Imaginar aquele corpo, no qual se sentia como no mar, nas mãos de um amigo, a oferecer-se-lhe... “Será que ela faz com ele o que faz comigo?” – a pergunta não lhe saía do espírito. A ideia que ele também a enganava – se bem que não fosse verdadeiramente um engano, pois ela “sabia” – ainda contribuía mais para a sua raiva, para o ódio que sentia por ele, pela marinha, pelo ex-amigo. O pior era não conseguir sentir fosse o que fosse contra Ana. Ele queria odiá-la realmente, chegar a casa e bater-lhe, fazer uma cena, barulho, móveis a voar pela casa toda, portas a bater – mas a sua imaginação saltava directamente para a reconciliação, na qual ela lhe pedia perdão, para a carta que Ricardo lhe escreveria a dizer que tinha sido um engano, um erro, uma vez só.
Nada disso aconteceu. Quando chegou dois meses depois a casa estava vazia; Ana tinha-o deixado de vez e estava a viver sozinha; Ricardo encontrara um emprego em Angola, no mato. E ele continuava “o impotente emocional que sempre fui”. Não sentia ódio por ninguém excepto por ele próprio. Não sei bem se os cornos crescem e ficam ad eternum na testa que os viu nascer, ou se, como todas as outras coisas, crescem e se vão embora, um dia, deixando a dita testa pronta para outros. Não sei. A verdade é que Luis deixou o mar, e abriu um restaurante ao qual deu o nome de Blue Marlin, onde come a empregada ucraniana e se detesta por isso. O ódio de Luis por si mesmo é o pilar central da sua personalidade, e ele faz tudo o que pode para o alimentar quotidianamente.
15.8.06
Morte
Morte por implosão - ele só não sabia se era o que se passava, ou se, simplesmente o desejava muito fortemente.
12.8.06
Pois, já o deviam ter feito há mais tempo
"L'armée israélienne progresse difficilement au Liban sud", no Le Monde de hoje.
E ainda bem que não esperaram mais: talvez nem conseguissem entrar.
E ainda bem que não esperaram mais: talvez nem conseguissem entrar.
11.8.06
Serviço público - Deambulações
Librivox.
(Via A Natureza do Mal II)
No mesmo movimento, mas noutro blog, este post, absolutamente impagável.
(Via A Natureza do Mal II)
No mesmo movimento, mas noutro blog, este post, absolutamente impagável.
Haiku eróticos
Enquanto "Agosto" entra e não sai, ou não sabe se sai se entra, ou se não entra mas sai, ficam algumas pequenas pérolas do livro "Haiku Érotiques", Traduzidos do japonês e apresentados por Jean Chlley, ed. Picquier Poche, 2000:
"Quand il dresse son mât,
l'épouse s'empresse alors
de prendre la barre"
"Sa belle-mère défunte,
sans plus de retenue l'épouse
éclate en sanglots"
"Quand à sa femme il fait
tourner le mortier à thé*
elle désaxe tout"
* - "Mortier à thé" designa uma posição em que a mulher roda as ancas sobre o homem.
"Quand il dresse son mât,
l'épouse s'empresse alors
de prendre la barre"
"Sa belle-mère défunte,
sans plus de retenue l'épouse
éclate en sanglots"
"Quand à sa femme il fait
tourner le mortier à thé*
elle désaxe tout"
* - "Mortier à thé" designa uma posição em que a mulher roda as ancas sobre o homem.
2.8.06
1.8.06
Já agora:
Que livro deveria uma jovem senhora ler para eu ficar encantado por ela?
Kama Sutra? Não, isso é um ponto de partida, espero que ela o conheça de cor. Beckett? Sem dúvida - mas já agora juntemos-lhe também a Yourcenar, pour faire bonne mesure; mas não chega, não chega. Le Clézio, Borges? Bons, mas tão pouco chegam.
Para ir direito ao assunto (sem jogo de palavras, claro) - Hit parade dos turn-ons: Wolinski, Reiser, Céline, Pedro Támen, Joseph Conrad, Hamsun - talvez não seja por esta ordem, mas não anda muito longe.
Kama Sutra? Não, isso é um ponto de partida, espero que ela o conheça de cor. Beckett? Sem dúvida - mas já agora juntemos-lhe também a Yourcenar, pour faire bonne mesure; mas não chega, não chega. Le Clézio, Borges? Bons, mas tão pouco chegam.
Para ir direito ao assunto (sem jogo de palavras, claro) - Hit parade dos turn-ons: Wolinski, Reiser, Céline, Pedro Támen, Joseph Conrad, Hamsun - talvez não seja por esta ordem, mas não anda muito longe.
Agora percebo, finalmente...
... aqueles posts e artigos em que os autores se queixam do preço dos inúmeros livros que compram, ou do peso, ou do espaço que ocupam lá em casa, e fazem listas sem fim de livros que leram, vão ler e não vão ler mas vão consultar, etc. etc.
Até agora pensava que era simples pedantismo.
(Via Educação Sentimental)
I bet you look good in the book store
"Not only can you judge a book by its cover, it seems you can judge the person reading it, too. According to a survey of over 2,000 adults carried out by internet pollsters YouGov for Borders bookstore, books play a crucial role in influencing our opinions of strangers. Half of those asked admitted that they would look again or smile at someone on the basis of what they were reading.
And it gets better. For those of you troubled by the lingering idea (instilled in youth by parents obsessed with the benefits of "enjoying the sunshine") that a life spent reading is a life half-lived, your worries are over. Not only does sitting with your nose in a book positively influence others' opinion of you, it could actually - get this - lead to sex. A third of those surveyed said that they "would consider flirting with someone based on their choice of literature". It's finally official, people. Reading is hot.
But before you trip off to the park clad in your most fetching sun hat and clutching your copy of the latest Jilly Cooper - be warned. Not just any book will do. Erotic fiction, horror, self-help books and the dreaded chick-lit were all, in fact, deemed turn-offs when it came to love between the covers. The genre most likely to help you pull - the itsy-bitsy-teeny-weeny yellow polka dot bikini of the books world - is the classics, followed by biography and modern literary fiction (think Zadie Smith and Sebastian Faulks, rather than Dan Brown and Martina Cole). Forget the gym: if you want to raise your dating game, head down to your local library and start borrowing.
It is, of course, tempting - in fact, it's all but unavoidable - to dismiss such a survey as a cynical marketing ploy designed to make us
a) feel smug about our superior reading habits,
b) believe that people will see beyond a disastrous haircut to the Casanova within as long as s/he is reading Dickens, and therefore
c) buy more books.
But - and here's the thing - as a lengthy discussion in the Vulture's nest revealed, it may be cynical, but that doesn't make it any less true. All of us had book-related stories to tell, or preferences to air. I myself, on a first date with my swain of four years' standing, was delighted, on entering the pub, to discover him reading Wilkie Collins. A colleague told a story of a wedding she attended which had its origins in a chance meeting in a nightclub, during which the gentleman in question asked his future wife what she was reading. Obviously her reply - The Great Gatsby - struck the right note.
In terms of literary turn-ons, the arts editor confessed he'd love to start a conversation with anyone who was reading the poems of Elizabeth Bishop, although he "probably wouldn't have the nerve". Weaknesses for Elmore Leonard, Gabriel Garcia Marquez and, disconcertingly, Dante's Inferno were also expressed. Turn-offs, on the other hand, include Money by Martin Amis, "everything by DH Lawrence", and snobbishly, any book with a cover based on a recent film or TV adaptation.
So the question this Tuesday afternoon is - what, books-wise, does it for you? And are there any books that would put you off absolutely, no matter how attractive the reader?"
[Sarah Crown, Guardian Unlimited: Culture Vulture Blog]
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PS - Aconselho também a leitura dos comentários ao post (original): são deliciosos.
Até agora pensava que era simples pedantismo.
(Via Educação Sentimental)
I bet you look good in the book store
"Not only can you judge a book by its cover, it seems you can judge the person reading it, too. According to a survey of over 2,000 adults carried out by internet pollsters YouGov for Borders bookstore, books play a crucial role in influencing our opinions of strangers. Half of those asked admitted that they would look again or smile at someone on the basis of what they were reading.
And it gets better. For those of you troubled by the lingering idea (instilled in youth by parents obsessed with the benefits of "enjoying the sunshine") that a life spent reading is a life half-lived, your worries are over. Not only does sitting with your nose in a book positively influence others' opinion of you, it could actually - get this - lead to sex. A third of those surveyed said that they "would consider flirting with someone based on their choice of literature". It's finally official, people. Reading is hot.
But before you trip off to the park clad in your most fetching sun hat and clutching your copy of the latest Jilly Cooper - be warned. Not just any book will do. Erotic fiction, horror, self-help books and the dreaded chick-lit were all, in fact, deemed turn-offs when it came to love between the covers. The genre most likely to help you pull - the itsy-bitsy-teeny-weeny yellow polka dot bikini of the books world - is the classics, followed by biography and modern literary fiction (think Zadie Smith and Sebastian Faulks, rather than Dan Brown and Martina Cole). Forget the gym: if you want to raise your dating game, head down to your local library and start borrowing.
It is, of course, tempting - in fact, it's all but unavoidable - to dismiss such a survey as a cynical marketing ploy designed to make us
a) feel smug about our superior reading habits,
b) believe that people will see beyond a disastrous haircut to the Casanova within as long as s/he is reading Dickens, and therefore
c) buy more books.
But - and here's the thing - as a lengthy discussion in the Vulture's nest revealed, it may be cynical, but that doesn't make it any less true. All of us had book-related stories to tell, or preferences to air. I myself, on a first date with my swain of four years' standing, was delighted, on entering the pub, to discover him reading Wilkie Collins. A colleague told a story of a wedding she attended which had its origins in a chance meeting in a nightclub, during which the gentleman in question asked his future wife what she was reading. Obviously her reply - The Great Gatsby - struck the right note.
In terms of literary turn-ons, the arts editor confessed he'd love to start a conversation with anyone who was reading the poems of Elizabeth Bishop, although he "probably wouldn't have the nerve". Weaknesses for Elmore Leonard, Gabriel Garcia Marquez and, disconcertingly, Dante's Inferno were also expressed. Turn-offs, on the other hand, include Money by Martin Amis, "everything by DH Lawrence", and snobbishly, any book with a cover based on a recent film or TV adaptation.
So the question this Tuesday afternoon is - what, books-wise, does it for you? And are there any books that would put you off absolutely, no matter how attractive the reader?"
[Sarah Crown, Guardian Unlimited: Culture Vulture Blog]
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PS - Aconselho também a leitura dos comentários ao post (original): são deliciosos.
30.7.06
Inominável, again
O Maire, assumidamente homossexual, de Paris proibiu o bikini "fio dental" e o Topless nas "praias" do Sena (para quem não sabe, praias artificiais nas margens do Sena, dentro de Paris).
Pessoalmente, acho que o fio dental é uma abjecção estética, e que o topless devia ser obrigatório em alguns casos e multado noutros (podia mesmo imaginar-se um sistema de redistribuição de riqueza em que os montantes das multas de umas revertiam a favor das outras, em acção de graças).
Mas daí a proibi-los?
Pessoalmente, acho que o fio dental é uma abjecção estética, e que o topless devia ser obrigatório em alguns casos e multado noutros (podia mesmo imaginar-se um sistema de redistribuição de riqueza em que os montantes das multas de umas revertiam a favor das outras, em acção de graças).
Mas daí a proibi-los?
Breve divagação sobre a palavra "Inominável", o Público de hoje e outros temas
Num blog de que gosto muito, às vezes, a autora fala a certa altura de uma "inominável rebaldaria". Gosto dessa associação, que aliás me ficou no goto, de duas palavras bonitas. Inominável tem frequentemente, mas não devia ter, uma conotação negativa (já tive namoradas, por exemplo, de inominável beleza). Per si a rebaldaria è uma coisa boa, quase sempre - e tanto pode ser inominável de boa como inominável de má.
Agora inominável, inominável, inominável, sempre e sem excepção inominavelmente mau é a merda de um "cartoonista" (hesito em utilizar este termo, que é nobre e descreve uma nobre actividade) que aparece no Público chamado Vasco. Aquilo sim, é uma inominável merda, é uma merda indescrítível, é uma inadjectivável merda.
No mesmo Público de hoje, e na página seguinte à do impermeável "cartoonista", um artigo do provedor - figura essa de que ainda estou para perceber a utilidade - sobre os erros de ortografia dos jornalistas. Afinal o senhor serve para alguma coisa - quanto mais não seja, confirmar aquilo que já sabíamos...
Agora inominável, inominável, inominável, sempre e sem excepção inominavelmente mau é a merda de um "cartoonista" (hesito em utilizar este termo, que é nobre e descreve uma nobre actividade) que aparece no Público chamado Vasco. Aquilo sim, é uma inominável merda, é uma merda indescrítível, é uma inadjectivável merda.
No mesmo Público de hoje, e na página seguinte à do impermeável "cartoonista", um artigo do provedor - figura essa de que ainda estou para perceber a utilidade - sobre os erros de ortografia dos jornalistas. Afinal o senhor serve para alguma coisa - quanto mais não seja, confirmar aquilo que já sabíamos...
Dia não - dia sim...
Hoje não tomei banho, não fiz a barba, não andei a pé, não subi pelas escadas, não comecei a trabalhar mal cheguei ao escritório.
25.7.06
Pérolas à deriva
Derivo pela blogosfera e encontro pérolas destas: "Com a queda de Sadam e a consequente instalação da anarquia no Iraque. Era tão melhor, a ordem do Saddam! Que pena foi aqueles facínoras terem acabado com ela.
Já agora, se não se importam, continuo: é bom demais. O território de Israel, por mais que os defensores da causa se esforcem por tentar demonstrar o contrário, não estava a correr perigo sério e actual. Algumas populações vivem sob medo e tensão, seja por causa do terrorismo intermitente, seja por causa da proximidade a fronteiras hostis. Mas o território, a sua integridade, não estavam a ser ameaçados, até porque, neste momento, nenhum país vizinho tem capacidade para entrar em guerra com Israel, nem tão pouco Hamas e Hezzbollah têm arte ou engenho para ameaçar de modo sério a sua integridade territorial. (O post é o mesmo, dispensa link).
Invadir um país só porque meia dúzia de pessoas andava a levar com rockets na cabeça todos os dias! Credo, onde é que já se viu tamanha irresponsabilidade?
Já agora, se não se importam, continuo: é bom demais. O território de Israel, por mais que os defensores da causa se esforcem por tentar demonstrar o contrário, não estava a correr perigo sério e actual. Algumas populações vivem sob medo e tensão, seja por causa do terrorismo intermitente, seja por causa da proximidade a fronteiras hostis. Mas o território, a sua integridade, não estavam a ser ameaçados, até porque, neste momento, nenhum país vizinho tem capacidade para entrar em guerra com Israel, nem tão pouco Hamas e Hezzbollah têm arte ou engenho para ameaçar de modo sério a sua integridade territorial. (O post é o mesmo, dispensa link).
Invadir um país só porque meia dúzia de pessoas andava a levar com rockets na cabeça todos os dias! Credo, onde é que já se viu tamanha irresponsabilidade?
23.7.06
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