9.4.08
7.4.08
30.3.08
PROGRESSO
O Le Point tem um pequeno, mas maravilhoso artigo que eu gostaria de, generosamente, recomendar a todos os nossos amigos relativistas. Chama-se "Repúdio sob condições" (a tradução é minha) e fala de uma prática islâmica - entretanto banida de uma parte do mundo muçulmano, mas que perdura, Allah u Aqbar, em alguns países, entre os quais a Índia. Consiste essa prática, chamada Talâq, em repudiar a (ou uma das, o artigo não é claro) legítimas, bastando para tal pronunciar três vezes a palavra Talâq.
Ora bem. Para protejer as mulheres, diz o Le Point, a Índia fez uma lei "controversa": imagine-se que doravante será proibido fazer Talâq por telefone, SMS ou Internet. É uma violência, claro, e é para mais "inútil", dizem os conservadores. Mas o Governo manteve a lei: não se pode fazer Talâq por telefone, SMS ou Internet, para protejer as esposas "de um acesso de cólera ou do estado de embriaguês" dos senhores maridos. (Sim, eu sei, os conservadores têm razão: alguém já alguma vez viu um muçulmano embriagado?)
Ora bem. Para protejer as mulheres, diz o Le Point, a Índia fez uma lei "controversa": imagine-se que doravante será proibido fazer Talâq por telefone, SMS ou Internet. É uma violência, claro, e é para mais "inútil", dizem os conservadores. Mas o Governo manteve a lei: não se pode fazer Talâq por telefone, SMS ou Internet, para protejer as esposas "de um acesso de cólera ou do estado de embriaguês" dos senhores maridos. (Sim, eu sei, os conservadores têm razão: alguém já alguma vez viu um muçulmano embriagado?)
27.3.08
Objectivos imaginários
Um dos objectivos que se fixara - e nunca atingira - era fazer com que o trabalho e o dinheiro deixassem de ser como água e azeite, imiscíveis.
O aquecimento global e a toponímia
Uma das vantagens (pouco explorada) do aquecimento global - que eu, confesso, gostaria imenso se materializasse rapidamente, sobretudo nestes dias glaciais - é que a Groenlândia voltaria, finalmente, a fazer jus ao nome.
Perspectivas
"Graças ao Euro, nós lutamos contra a inflação", diz Jean-Claude Trichet. Leio isto, e penso no chauffeur de táxi moçambicano a quem, recentemente, perguntei há quanto tempo não ia a Moçambique. "Há ...." - hesita - "quando é que começou o Euro? ... Há sete anos", respondeu finalmente. "Fui ferido pelo Euro", precisou.
25.3.08
Nova esquerda, velhas mentes
A esquerda de hoje só é incompreensível porque nós continuamos a olhar para ela à luz da esquerda da ciência, do progresso, da justiça social, do internacionalismo de antanho. É evidente que depois da União Soviética, da China, da Coreia do Norte, do Cambodja, de Cuba, do Vietnam, da Etiópia, de Angola, Moçambique, Albânia e tantos outras experiências de socialismo científico, popular ou "democrático", a esquerda de hoje não pode continuar a desfraldar essas causas: teria o ar ridículo, confrangedor e patético da meia dúzia de iluminados comunistas que prosseguem o “combate”, afrontando as forças da reacção - é assim que eles chamam à realidade - com a energia da cegueira.
A esquerda “moderna” viu-se portanto obrigada a adoptar outras causas. Claro que o substracto é o mesmo, mas as bandeiras são outras: o progresso científico foi para as urtigas - hoje, o progresso é inimigo do homem, e já não a salvação; a justiça social foi substituída pelo relativismo - é a única forma de se defender os palestinianos corruptos, anti-democráticos, machistas, anti-gay, contra os israelitas; e o internacionalismo foi substituído pelo direito à auto-determinação.
Uma ideologia que assentava em raciocínios falaciosos, em práticas ditatoriais e que levou aquilo que se viu (ou vê, em Cuba, na Coreia do Norte) está hoje condenada a defender Sadams e Ahmadinejads e a lutar contra a “globalização”, contra os transgénicos e contra os Estados Unidos, que representam o mal absoluto.
A esquerda “moderna” viu-se portanto obrigada a adoptar outras causas. Claro que o substracto é o mesmo, mas as bandeiras são outras: o progresso científico foi para as urtigas - hoje, o progresso é inimigo do homem, e já não a salvação; a justiça social foi substituída pelo relativismo - é a única forma de se defender os palestinianos corruptos, anti-democráticos, machistas, anti-gay, contra os israelitas; e o internacionalismo foi substituído pelo direito à auto-determinação.
Uma ideologia que assentava em raciocínios falaciosos, em práticas ditatoriais e que levou aquilo que se viu (ou vê, em Cuba, na Coreia do Norte) está hoje condenada a defender Sadams e Ahmadinejads e a lutar contra a “globalização”, contra os transgénicos e contra os Estados Unidos, que representam o mal absoluto.
23.3.08
21.3.08
A França e a Monarquia
A revolução francesa não acabou com a Monarquia: deu-lhe outra forma. Sarkozy, finalmente, verga-se e adapta-se. A partir de agora o poder em França será mais distante, mais formal. Carla Bruni chama-se Carla Sarkozy e não aparece em lado nenhum (o que não deixa de ser, digamos, lamentável) e Sarkozy diz que muda a forma, não a substância. Não acedito muito: um povo que elegeu e reelegeu Mitterrand e conviveu quase 40 anos com Chirac terá aquilo de que gosta: distâncîa e imobilismo.
Man Ray
A rectrospectiva em Paris de Man Ray não é tão grande como a sua publicidade diz (faltam, por exemplo, as obras mais conhecidas ). Mas é uma exposição interessante porque cobre toda a vida criativa de Man Ray e mostra a criatividade, as influências, a sua relação com o que fazia. Na Pinacothèque, Madeleine.
20.3.08
Serviço público - Restaurantes Paris
Duas boas moradas, em Paris:
La Muse Vin, 101 rue de Charonne, metro Charonne: cozinha excelente e criativa a um preço razoável (30 euros o menu), e uma colecção de vinhos enorme: "naturais", "bio" (não conhecia a diferença), "travaillés" e mesmo "normais"... decoração mista: rústica / sofisticada, serviço eficaz. Tel.: +33 1 40 09 93 05 (atenção, só abre para jantar).
Chartier, 7 rue du Faubourg Montmartre: uma instituição, uma cantina, uma fábrica, uma excelente relação qualidade-preço: escolham. Magnífico. (Não vale a pena telefonar: faz-se bicha à porta).
E em bónus dois bares, ambos rue Montmartre: Café Noir, n° 65, e Le Coeur, 55. Jovens, boa música, bom ambiente.
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Bares Paris,
Restaurantes Paris
Carroucel
É uma seca, escrever no carroucel: acentos, ALT Code, letras "fora do sítio". Mas Paris vale bem uma uma missa...
Passeamos por esta cidade e a quantidade de pequenas lojas (mercearias, queijarias, livrarias, lojas de vinhos, talhos, peixarias) é surpreendente. Todas lindas, todas dão vontade de comprar a loja toda ali já e consumi-la de seguida.
Mas nada disto é sustentável: demasiado estável, demasiado estático, demasiado estatal; sustentado apenas por regulamentos sem fim e amores fingidos. Hoje leio no jornal que Sarkozy criou uma secretaria de Estado para fazer de Paris uma concorrente das grandes metrópoles...
19.3.08
Carroucel
O carroucel recomeça. Numa cidade estrangeira a solidão não existe. Deve ser por isso que tanta gente gosta de viajar.
18.3.08
Vela na Páscoa
Para a semana, inch Allah (como diria Mohammed, chauffeur de táxi em Casablanca) serei um feliz tripulante de uma destas embarcações.
PS - Esta fotografia de Philippe Schiller é linda.
No fundo, os velejadores são pessoas simples que se satisfazem com pouco (como se pode comprovar neste video):
PS - Esta fotografia de Philippe Schiller é linda.
No fundo, os velejadores são pessoas simples que se satisfazem com pouco (como se pode comprovar neste video):
17.3.08
Perplexidade II
Daniel Oliveira (por quem, forçoso e lamentável é reconhecer, não nutro especial admiração, simpatia, ou seja lá o que fôr de positivo) foi condenado a pagar 2,000 euros a Alberto João Jardim por lhe ter chamado "palhaço rico". Se lhe tivesse chamado "palhaço pobre" teria sido absolvido? E "simplesmente, Palhaço"? Ou "Palhaço dos charutos"?
Média
Uma vez li num artigo de jornal que a beleza seria - talvez, talvez - uma média: as mulheres mais belas seriam, dizia o artigo de jornal (citando uma dessas investigações de que os artigos no jornal são os felizes e provavelmente solitários ecos), as que teriam as proporções mais "médias": um nariz médio, olhos médios, bochechas médias, orelhas médias, lábios médios e assim por diante, médio.
Não sei se é verdade. Mas imagino facilmente que, se tirar a média das qualidades todas de todas a mulheres por quem jamais me apaixonei - admitidamente poucas - chegarei à definição de mulher ideal. E poder-lhe-ei, então, dizer "tu és a melhor média da minha vida".
Não sei é se ela apreciará.
Não sei se é verdade. Mas imagino facilmente que, se tirar a média das qualidades todas de todas a mulheres por quem jamais me apaixonei - admitidamente poucas - chegarei à definição de mulher ideal. E poder-lhe-ei, então, dizer "tu és a melhor média da minha vida".
Não sei é se ela apreciará.
Luta anti-poluição
Este Governo, que anda para aí com uma diarreia legislativa de fazer empalidecer Stakhanov - e muitas farmacêuticas - e que agora resolveu, seja Deus louvado e agraciado, o problema da poluição nicotínica nos lugares públicos, devia debruçar-se atentamente sobre o problema da poluição televisiva. Não se pode entrar num restaurante (exceptuo, espero, o Gambrinus et pares) que não tenha não uma, mas duas ou três televisões - ligadas, ainda por cima, aos canais que passam jogos de futebol.
É uma poluição sonora, é uma poluição visual - e inútil, o que ainda é pior: tenho andado a contar as pessoas que, nos restaurantes vêem televisão. É com orgulho que afirmo que estamos - nós, os que não olhamos para os malfadados aparelhos - invariavelmente em maioria (excepto nos dias de jogos muito importantes e não incluindo os empregados - parece que as televisões estão lá para eles, aliás).
É uma poluição sonora, é uma poluição visual - e inútil, o que ainda é pior: tenho andado a contar as pessoas que, nos restaurantes vêem televisão. É com orgulho que afirmo que estamos - nós, os que não olhamos para os malfadados aparelhos - invariavelmente em maioria (excepto nos dias de jogos muito importantes e não incluindo os empregados - parece que as televisões estão lá para eles, aliás).
Eficácia e lentidão
A lentidão das decisões em Portugal é exasperante; tal como a dos pagamentos, e da burocracia, de tudo. Às vezes dizem-me que essa morosidade é necessária, imprescindível para a boa gestão dos fundos públicos, ou das empresas privadas.
Eu fico um bocadinho perplexo: se a lentidão fosse uma coisa boa, nós devíamos estar entre os países mais ricos do mundo. E manifestamente não estamos - aliás, até estamos cada vez mais longe da nossa referência, a "Europa".
Por vezes, pergunto a mim mesmo se estas lentidões todas são verdadeiramente fruto da precaução e da boa gestão, e não, mais simples e prosaicamente, da incompetência, da preguiça e da impunidade.
Eu fico um bocadinho perplexo: se a lentidão fosse uma coisa boa, nós devíamos estar entre os países mais ricos do mundo. E manifestamente não estamos - aliás, até estamos cada vez mais longe da nossa referência, a "Europa".
Por vezes, pergunto a mim mesmo se estas lentidões todas são verdadeiramente fruto da precaução e da boa gestão, e não, mais simples e prosaicamente, da incompetência, da preguiça e da impunidade.
16.3.08
15.3.08
Calma
Vai por aí um (legítimo e mais do que compreensível) clamor contra a proposta do governo de legislar sobre piercings. Pessoalmente, acho um absurdo, um ataque à liberdade individual, uma perda de tempo num momento em que tanto há a fazer (ou em que cada vez menos tempo nos resta para fazer o que há a fazer).
Mas tenhamos calma: alguém conhece uma lei neste país que seja cumprida?
14.3.08
Tarde, vida
É a tarde das tardes todas, uma tarde sem manhã nem noite, sem horas nem dias nem pôr-do-sol, sem passado nem futuro; é uma tarde imóvel, suspensa nas tardes que foram e serão, uma tarde na qual nada há e fora da qual nada é; uma tarde parada, e dentro dela dois vultos imóveis iriam se se movessem de um sítio qualquer para lado nenhum.
É a tarde, é uma vida, é a vida.
É a tarde, é uma vida, é a vida.
12.3.08
11.3.08
Empregos
A senhora tem, forçoso é reconhecer, um emprego horrível: vende compaixão, piedade, hipocrisia e boa-consciência à porta do supermercado. Todos os dias, faça sol ou faça chuva, lá está, sentada directamente no chão e com um cartaz na mão a dizer que tem dois filhos e a solicitar a nossa ajuda "à família".
Eu não compro. Declino, gentilmente. Mas, num quarteirão popular como este que atravesso todos os dias para vir trabalhar, vejo que tem muitos clientes - suponho que mais para a linha "compaixão" e "piedade" do que para a "hipocrisia" e "boa-consciência".
Deve ser muito aborrecido, como emprego, mas ela leva-o a sério: contorce-se, mima intoleráveis dores, dirige-se directa e frontalmente aos passantes, é histriónica, convincente. Quando vejo o que pago à minha mulher a dias, imagino o que esta senhora ganha por mês - mas gabo-lhe a dedicação, o esforço, o espírito de sacrifício.
Eu não compro. Declino, gentilmente. Mas, num quarteirão popular como este que atravesso todos os dias para vir trabalhar, vejo que tem muitos clientes - suponho que mais para a linha "compaixão" e "piedade" do que para a "hipocrisia" e "boa-consciência".
Deve ser muito aborrecido, como emprego, mas ela leva-o a sério: contorce-se, mima intoleráveis dores, dirige-se directa e frontalmente aos passantes, é histriónica, convincente. Quando vejo o que pago à minha mulher a dias, imagino o que esta senhora ganha por mês - mas gabo-lhe a dedicação, o esforço, o espírito de sacrifício.
10.3.08
Maison Tropicale
Três casas pré-fabricadas de um designer francês dos anos 50 são enviadas de França e construídas na África Colonial (Niamey, no Níger, e Brazzaville, no Congo).
Recentemente, uns "brancos" (nunca são nomeados, não têm nome, são brancos) vão a essas duas cidades, compram as casas - que estavam, basicamente, ao abandono - põem-nas em contentores de regresso a França, recuperam-nas e vendem-nas como obras de arte (que realmente são, tanto de um ponto de vista estético como de engenharia e da história).
Este é, basicamente, o tema da Exposição de Ângela Ferreira no CCB. Não estou de acordo com os pressupostos políticos da instalação (os quais são, de resto, muito mais visíveis e explícitos no filme "Maison Tropicale", que acompanha a exposição) - os brancos pilharam África durante o colonialismo e continuam a pilhá-la agora - mas acho que se deve realmente ir vê-la (incluindo o filme).
Em primeiro lugar, pela inteligência e sensibilidade com que a questão é colocada; é uma questão complexa, nada fácil, e eu imagino que para Ângela Ferreira, que tem um ponto de vista diagonalmente oposto do meu, é tão complicado responder-lhe como o é para mim. Em segundo pela qualidade estética da exposição; Ângela Ferreira tem uma capacidade de extrair dos objectos a sua essência, sejam eles os mais comuns ou os mais raros, e torná-la visível em obras de uma aparência simples, lineares - mas cuja simplicidade e linearidade traduzem perfeitamente a complexidade, a essência, dos objectos. Em terceiro, por uma razão que a certa altura do filme o director do Museu de Serralves menciona e que há muitos anos me tem chamado a atenção: África está ausente do nosso imaginário, da nossa produção artística, o que é incompreensível.
Recentemente, uns "brancos" (nunca são nomeados, não têm nome, são brancos) vão a essas duas cidades, compram as casas - que estavam, basicamente, ao abandono - põem-nas em contentores de regresso a França, recuperam-nas e vendem-nas como obras de arte (que realmente são, tanto de um ponto de vista estético como de engenharia e da história).
Este é, basicamente, o tema da Exposição de Ângela Ferreira no CCB. Não estou de acordo com os pressupostos políticos da instalação (os quais são, de resto, muito mais visíveis e explícitos no filme "Maison Tropicale", que acompanha a exposição) - os brancos pilharam África durante o colonialismo e continuam a pilhá-la agora - mas acho que se deve realmente ir vê-la (incluindo o filme).
Em primeiro lugar, pela inteligência e sensibilidade com que a questão é colocada; é uma questão complexa, nada fácil, e eu imagino que para Ângela Ferreira, que tem um ponto de vista diagonalmente oposto do meu, é tão complicado responder-lhe como o é para mim. Em segundo pela qualidade estética da exposição; Ângela Ferreira tem uma capacidade de extrair dos objectos a sua essência, sejam eles os mais comuns ou os mais raros, e torná-la visível em obras de uma aparência simples, lineares - mas cuja simplicidade e linearidade traduzem perfeitamente a complexidade, a essência, dos objectos. Em terceiro, por uma razão que a certa altura do filme o director do Museu de Serralves menciona e que há muitos anos me tem chamado a atenção: África está ausente do nosso imaginário, da nossa produção artística, o que é incompreensível.
Auto-retrato possível
África continua a fazer parte de mim, como o mar, a luz ou as palavras. E continuará.
Uma questão interessante
"Portugal é, decididamente, um prodígio de sobrevivência. Conseguir viver tanto tempo com tão maus governantes e povo tão impassível perante a sua própria desgraça é coisa rara, digna de figurar nos anais do sobrenatural."
Não me parece que seja sobrenatural (não é sequer único). Mas lá que é uma boa questão, é sem dúvida.
Não me parece que seja sobrenatural (não é sequer único). Mas lá que é uma boa questão, é sem dúvida.
9.3.08
Retratos possíveis
Uma mistura de perseverança e whisky, em proporções variáveis.
(Perseverança: esperança, raiva e melancolia, em quantidades iguais).
(Perseverança: esperança, raiva e melancolia, em quantidades iguais).
8.3.08
Não! não-verbal*
Que posição tão esquisita, a desta senhora na mesa ao lado: da cintura para cima está perfeitamente direita, paralela à mesa, engagée; da cintura para baixo - a parte que o senhor que está com ela não vê - está de lado, fechada, defensiva.
* Será que duas negativas fazem uma positiva?
* Será que duas negativas fazem uma positiva?
Táxis
Li recentemente um post sobre Táxis que me fez pensar nos táxis em que já viajei. Estava em Marrocos, quando o li, e a primeira memória, ainda fresca, foi a de Mohammed, o "meu" táxi de Casablanca.
Há dois anos tinha que ir para o aeroporto e fui com o Mohammed. Já tínhamos preparado a corrida, e combinado que ele me encontraria num sítio qualquer, não interessa, e o preço. Quando nos encontrámos faltavam-me dez ou quinze dirhams (em duzentos, creio), já não me lembro porquê, mas ele concordou em levar-me. Chegados ao aeroporto, viu que eu esvaziava a carteira para lhe pagar, e disse-me "não me dês tudo o que tens, guarda alguma coisa para ti, podes querer beber ou comer enquanto esperas pelo avião". Dei-lhe o dinheiro todo, claro, e guardei o número de telefone dele. Desta vez, telefonei-lhe para me vir buscar, e paguei-lhe com juros, muitos juros, os dez dirhams da outra.
O carro de Mohammed estava ainda pior do que há dois anos, claro, cheio de ferrugem e buracos - mas como ele me disse no caminho "não importa com o que vais, importa com quem vais". É uma grande verdade, Mohammed.
Os meus táxis favoritos, de longe, muito longe, são os do agora Congo, ex-Zaire. Aí importava com o que ias: os carros eram monumentos à engenharia ocidental (normalmente francesa), ao engenho dos proprietários, eram peças de arqueologia industrial, milagres em quatro rodas. Uma vez, em Kolwezi, entrei num cujo "depósito" de gasolina era um jerrycan de 5 litros colocado entre os pés do passageiro da frente. Os bancos eram as molas originais, suponho, com um cobertor por cima. Mal cheguei à cidade troquei de táxi, claro - para descobrir, duas horas e muitas andanças depois, que neste o "depósito" (igual) estava colocado no sítio da bateria, ao lado do motor (a bateria estava no porta bagagens, e os cabos atravessavam alegremente todo o veículo) - os bancos eram iguais, mas disso apercebi-me imediatamente, claro. Os sul-africanos pediram ao senhor para os deixar tirar fotografias, e ele deixou, orgulhoso.
Os chauffeurs de táxi zairenses são os melhores do mundo, qualquer que seja o critério pelo qual os avaliemos: têm uma cultura política equivalente à de futebol dos nossos - numa viagem de meia hora fica a saber-se quem é quem, quem é caro e quem não é, quem está com ou contra quem; e quantas vezes uma hora de conversa na praça com os personagens citados confirmou tudo o que o (ou, mais frequentemente, os) condutores interrogados nos tinham dito.
Mas não é só na política que eles são bons: desafio qualquer condutor do mundo a fazer mais quilómetros com uma dada quantidade de gasolina do que um chauffeur zairense - o que, para além das evidentes vantagens ambientais, dá origem à condução mais suave, menos abrupta, com menos solavancos que jamais me foi dado experimentar.
Na Rússia os táxis funcionavam como mini-autocarros - o preço era por pessoa, e não por trajecto. Andavam sempre cheios a abarrotar, claro. Frequentemente, o cheiro a álcool era tal que uma pessoa pensava que tinha entrado numa destilaria de vodka. Os chauffeurs eram brutos como as casas - mas um dia encontrei um com quem discuti Dostoievsky a viagem toda. Comprei-lhe os lugares todos do carro, para podermos falar à vontade, e no fim fomos beber um copo, os dois. Quando o deixei estávamos os dois perdidos de bêbedos - ele levou-me até ao porto gartuitamente, e não sei como o carro não saiu da estrada algumas cinquenta vezes, naquelas estradas geladas e cobertas de neve.
O mesmo princípio vigora nos "táxis co" da Martinique ("co" é a abreviatura de colectivo), mas aí a viagem é uma festa, com as pessoas a entrar e a sair de cinco em cinco metros, todo o mundo em animada discussão, incluindo o condutor; por vezes, no intervalo dos diálogos, ele até olha para a frente, e consegue sistematicamente evitar as cabras, galinhas, cães e gatos que se lhe atravessam à frente (os peões desviam-se sozinhos).
Pensei também nos táxis em que nunca andei: os chapas de Moçambique, por exemplo (uma vez contei vinte e sete pessoas, vinte e sete, num minibus de nove lugares, incluindo condutor). Enfim, exagero, talvez, mas se não eram tantas eram pouco menos: só nove ou dez estavam sentados nos sítios que os fabricantes tinham previsto para vidros e janelas, com as pernas para dentro e os rabos todos de fora, como sacos de batatas. Uma vez o Governo moçambicano resolveu implantar o respeito pelos sinais de trânsito e multar os condutores que passassem com o sinal vermelho. Foi o levantamento geral - um dos chauffeurs, numa entrevista à televisão, justificava a sua recusa perante tão bárbara e violenta regra dizendo, com uma convicção incomparável, "eles têm de perceber que nós estamos a trabalhar!"
Deixo de fora outros táxis, mais próximos, mas não menos exóticos: os de Londres, por exemplo, nos quais se tem a impressão de estar a ser conduzido por um chauffeur privado (nos cabs. Os minicabs são outra história, mais banal); os de Paris, que me fazem pensar nos seus colegas portugueses, com um pouco de patine em cima. Ou aqueles que são a minha nemésis taxística, os de Genebra, cujo preço - mesmo para a mais pequena das corridas - equivale à prestação de um automóvel novo.
Há dois anos tinha que ir para o aeroporto e fui com o Mohammed. Já tínhamos preparado a corrida, e combinado que ele me encontraria num sítio qualquer, não interessa, e o preço. Quando nos encontrámos faltavam-me dez ou quinze dirhams (em duzentos, creio), já não me lembro porquê, mas ele concordou em levar-me. Chegados ao aeroporto, viu que eu esvaziava a carteira para lhe pagar, e disse-me "não me dês tudo o que tens, guarda alguma coisa para ti, podes querer beber ou comer enquanto esperas pelo avião". Dei-lhe o dinheiro todo, claro, e guardei o número de telefone dele. Desta vez, telefonei-lhe para me vir buscar, e paguei-lhe com juros, muitos juros, os dez dirhams da outra.
O carro de Mohammed estava ainda pior do que há dois anos, claro, cheio de ferrugem e buracos - mas como ele me disse no caminho "não importa com o que vais, importa com quem vais". É uma grande verdade, Mohammed.
Os meus táxis favoritos, de longe, muito longe, são os do agora Congo, ex-Zaire. Aí importava com o que ias: os carros eram monumentos à engenharia ocidental (normalmente francesa), ao engenho dos proprietários, eram peças de arqueologia industrial, milagres em quatro rodas. Uma vez, em Kolwezi, entrei num cujo "depósito" de gasolina era um jerrycan de 5 litros colocado entre os pés do passageiro da frente. Os bancos eram as molas originais, suponho, com um cobertor por cima. Mal cheguei à cidade troquei de táxi, claro - para descobrir, duas horas e muitas andanças depois, que neste o "depósito" (igual) estava colocado no sítio da bateria, ao lado do motor (a bateria estava no porta bagagens, e os cabos atravessavam alegremente todo o veículo) - os bancos eram iguais, mas disso apercebi-me imediatamente, claro. Os sul-africanos pediram ao senhor para os deixar tirar fotografias, e ele deixou, orgulhoso.
Os chauffeurs de táxi zairenses são os melhores do mundo, qualquer que seja o critério pelo qual os avaliemos: têm uma cultura política equivalente à de futebol dos nossos - numa viagem de meia hora fica a saber-se quem é quem, quem é caro e quem não é, quem está com ou contra quem; e quantas vezes uma hora de conversa na praça com os personagens citados confirmou tudo o que o (ou, mais frequentemente, os) condutores interrogados nos tinham dito.
Mas não é só na política que eles são bons: desafio qualquer condutor do mundo a fazer mais quilómetros com uma dada quantidade de gasolina do que um chauffeur zairense - o que, para além das evidentes vantagens ambientais, dá origem à condução mais suave, menos abrupta, com menos solavancos que jamais me foi dado experimentar.
Na Rússia os táxis funcionavam como mini-autocarros - o preço era por pessoa, e não por trajecto. Andavam sempre cheios a abarrotar, claro. Frequentemente, o cheiro a álcool era tal que uma pessoa pensava que tinha entrado numa destilaria de vodka. Os chauffeurs eram brutos como as casas - mas um dia encontrei um com quem discuti Dostoievsky a viagem toda. Comprei-lhe os lugares todos do carro, para podermos falar à vontade, e no fim fomos beber um copo, os dois. Quando o deixei estávamos os dois perdidos de bêbedos - ele levou-me até ao porto gartuitamente, e não sei como o carro não saiu da estrada algumas cinquenta vezes, naquelas estradas geladas e cobertas de neve.
O mesmo princípio vigora nos "táxis co" da Martinique ("co" é a abreviatura de colectivo), mas aí a viagem é uma festa, com as pessoas a entrar e a sair de cinco em cinco metros, todo o mundo em animada discussão, incluindo o condutor; por vezes, no intervalo dos diálogos, ele até olha para a frente, e consegue sistematicamente evitar as cabras, galinhas, cães e gatos que se lhe atravessam à frente (os peões desviam-se sozinhos).
Pensei também nos táxis em que nunca andei: os chapas de Moçambique, por exemplo (uma vez contei vinte e sete pessoas, vinte e sete, num minibus de nove lugares, incluindo condutor). Enfim, exagero, talvez, mas se não eram tantas eram pouco menos: só nove ou dez estavam sentados nos sítios que os fabricantes tinham previsto para vidros e janelas, com as pernas para dentro e os rabos todos de fora, como sacos de batatas. Uma vez o Governo moçambicano resolveu implantar o respeito pelos sinais de trânsito e multar os condutores que passassem com o sinal vermelho. Foi o levantamento geral - um dos chauffeurs, numa entrevista à televisão, justificava a sua recusa perante tão bárbara e violenta regra dizendo, com uma convicção incomparável, "eles têm de perceber que nós estamos a trabalhar!"
Deixo de fora outros táxis, mais próximos, mas não menos exóticos: os de Londres, por exemplo, nos quais se tem a impressão de estar a ser conduzido por um chauffeur privado (nos cabs. Os minicabs são outra história, mais banal); os de Paris, que me fazem pensar nos seus colegas portugueses, com um pouco de patine em cima. Ou aqueles que são a minha nemésis taxística, os de Genebra, cujo preço - mesmo para a mais pequena das corridas - equivale à prestação de um automóvel novo.
5.3.08
Blogosfera
O Voz do Deserto, de Tiago Cavaco, a única pessoa que conheço que demonstra ser possível simultaneamente acreditar em Deus e não perder a piada ao dizê-lo faz 5 anos. E a Tatiana regressou - a blogosfera deveria engalanar em arco e lançar meia-dúzia de foguetes.
3.3.08
O vocabulário da cidadania
O blog Cidadania Cascais tem em curso dois inquéritos (Não sei fazer links para as perguntas: "Acha que o Edifício Cruzeiro... ...Deve ser demolido? ... Deve ser recuperado"; e "Acha que o Hotel Atlântico deve ser: ... Demolido? ... Recuperado?").
A meu ver, as perguntas estão mal formuladas, empregam o verbo errado. Experimentem com o verbo "poder", em vez de "dever".
A meu ver, as perguntas estão mal formuladas, empregam o verbo errado. Experimentem com o verbo "poder", em vez de "dever".
2.3.08
Os cilícios, por favor.
Há erros que são imperdoáveis. E ainda mais imperdoáveis são quando nada há que possamos fazer para lhes piorar as consequências, as tornar mais pesadas, mais furiosamente insuportáveis.
28.2.08
Diálogos possíveis
- Chego do mar ensolarado, salgado e azulado.
- Ensolarado e salgado sim; já o azulado tem fortes tons de encarnado vivo.
- Bom: cheio de sol, de sal e de azul.
- E encarnado como uma lagosta.
- É o sol, cá dentro.
- Ensolarado e salgado sim; já o azulado tem fortes tons de encarnado vivo.
- Bom: cheio de sol, de sal e de azul.
- E encarnado como uma lagosta.
- É o sol, cá dentro.
Cidade, vida

Um dia saiu de casa e sentiu na pele as ruas, a luz, o jardim, a pastelaria, as pedras da calçada, o trajecto até ao escritório, a loja de ferragens da esquina, o talho com a carne toda pendurada (mais arrumada do que casacos num alfaiate), a ginginha, a senhora do restaurante que lhe dá uma aguardente que "não é caseira, é só de uma marca diferente da que está na garrafa", o rio, o senhor dos jornais, o tráfico, já intenso, o Claustro da Sé ou o dos Jerónimos, o Cabaret Maxime e o Hot Club, a vista da Rua do Jasmim para o Tejo, o Clube de Jornalistas, o calor, o calor; tudo isso sentia na pele, e pensou "é uma relação erótica, a que eu mantenho com esta cidade". Leu os jornais, bebeu o café, e corrigiu: "Com a vida".


27.2.08
Palavras lindas
Desde que li o termo "paleocéfalo" (já agora: na Ética, de Morin) ele não me sai da mente. Por exemplo:
- Querida, o meu paleocéfalo está completamente possuído por ti.- O teu paleocéfalo? Tens outro?
26.2.08
Olhos bonitos
A zanga torna os olhos da senhoras, é consensual, mais bonitos. Quando os olhos são verdes, isso ainda é mais verdade - constatação essa que me enche de alegria, apesar de desconhecer a razão de tão estranho fenómeno.
Palavras bonitas c / hierarquia
Para designar causalidade a expressão "derivado a" é incontestavelmente mais bonita do que "por via de", e ambas preferíveis a "por causa de".
Exemplos: "derivado ao teu sorriso gostava de te ver mais vezes"; "por via dos teus olhos fiquei doido por ti"; "por causa do teu feitio danado todas as outras me parecem sopinhas de pão sem sal".
Desprezo
Quando ele chegou ela já estava sentada à mesa do café. Estavam, saltava aos olhos, zangados um com o outro. Assim que ele lhe disse "bom dia" ela deu-lhe uma sonora e espectacular bofetada. A reacção dele foi muito bonita e afogou-me num mar de empatia. "E agora", perguntou-lhe, "que devo fazer? Responder-te na mesma moeda, como nos filmes sobre a violência doméstica, ou dar-te um beijo, como nos filmes de amor?" Ela não achou graça. "Nunca conseguiste pensar pela tua cabeça", respondeu-lhe, não sem uma certa injustiça e com um tom de desprezo na voz que me deixou gelado.
25.2.08
Ensandeceu, coitado.
PSD: semana de luta da Frente Comum vai marcar ponto irreversível na popularidade do Governo. Esperemos que saia depressa, se não qualquer dia vêmo-lo por aí de funil na cabeça.
Palavras feias
"Pacificante" é uma palavra feia, bárbara, um galicismo; mas é também a que melhor define as Vésperas, de Rachmaninoff.
Uma piada africana
Uma velha e pedagógica piada africana fala de um senhor muito bêbado que estava numa planície onde só havia um búfalo e uma palmeira. O búfalo carregou, claro (são animais extremamente territoriais e agressivos, é bom saber-se, pode vir sempre a dar jeito). O senhor estava, repito, muito bêbado e via duas palmeiras e dois búfalos. Escondeu-se atrás da palmeira que não era, e veio o búfalo que era.
Pergunto-me como seria, esconder-me atrás da vida que não foi, e vir a que é.
Pergunto-me como seria, esconder-me atrás da vida que não foi, e vir a que é.
24.2.08
A lascívia, o multiculturalismo e os paradoxos de ambos
O título é bom, sem dúvida. O resto ainda é melhor: às quintas, sextas e sábados no restaurante Flor da Laranja, rua da Rosa 206, Bairro Alto. É imprescindível reservar.
O título é: Dança Marroquina ao Jantar.
O título é: Dança Marroquina ao Jantar.
Parler vrai
"Disparaît, pauvre con"
O senhor do Fim de Semana tem razão: a direita portuguesa anda um bocadinha calada sobre o Sarkozy. Na verdade, há muito que ando para escrever sobre ele (mas como não sou a direita portuguesa, não me senti obrigado a fazê-lo): politicamente, chateia-me, mas nada que não esperasse (não estamos à espera de ver em França um presidente liberal, pois não? - Deve ser como para a esquerda querer um presidente socialista nos Estados Unidos. E imagine como teria sido com a outra senhora). Humanamente, cada vez o acho melhor: chega de políticos de plástico, que mantêm casamentos por causa da imagem, e só comem senhoras bonitas às escondidas.
Não acha?
PS - o video cheira a montagem à légua, pero ¡qué vaya!, é bom na mesma.
De Fim de Semana Alucinante, via Breaking Posts.
O senhor do Fim de Semana tem razão: a direita portuguesa anda um bocadinha calada sobre o Sarkozy. Na verdade, há muito que ando para escrever sobre ele (mas como não sou a direita portuguesa, não me senti obrigado a fazê-lo): politicamente, chateia-me, mas nada que não esperasse (não estamos à espera de ver em França um presidente liberal, pois não? - Deve ser como para a esquerda querer um presidente socialista nos Estados Unidos. E imagine como teria sido com a outra senhora). Humanamente, cada vez o acho melhor: chega de políticos de plástico, que mantêm casamentos por causa da imagem, e só comem senhoras bonitas às escondidas.
Não acha?
PS - o video cheira a montagem à légua, pero ¡qué vaya!, é bom na mesma.
De Fim de Semana Alucinante, via Breaking Posts.
Um adeus curto
A cena passou-se em Paris, num daqueles cafés em que as mesas estão encavalitadas umas nas outras e é impossível não ouvir as conversas do lado. Neste caso, estava tão perto que não ouvi só a conversa; ouvi também o que ele estava a pensar.
- Adeus. Vou-me embora. Estão aqui as chaves. Já dei ordens no correio para reencaminharem a correspondência. Não digas nada, por favor. - Ela acabou de dizer isto, levantou-se e dirigiu-se para a porta. Era uma mulher grande, loira, elegante. Ele ficou sozinho, imóvel, mudo.
- (Não te vás embora. Volta para trás. Senta-te. Não te vás embora. Lembra-te do éramos, do que fomos, do que podemos ser. A vida recomeça. Quero casar-me contigo, viver contigo, envelhecer contigo. Não te vás embora. Não me deixes especado nesta mesa, neste mundo. Volta para trás. Senta-te. De que serve uma vitória sozinho? Não passa de uma meia-derrota. Não é tarde. Quero casar-me contigo, começar cada dia com teu nome nas mãos, quero-te como eras, como és, imponente, com o destino nas mãos, o tempo. Senta-te. Volta para trás. Troco todos os dias de sol que estão para vir por uma manhã de chuva contigo, por um dia contigo. Não te vás embora. Volta para trás. Volta). Garçon, l'addition, s'il vous plaît.
- Voici, Monsieur.
Ela saiu do café, e ele voltou-se para trás para a seguir com os olhos. Um homem esperava-a.
- Adeus. Vou-me embora. Estão aqui as chaves. Já dei ordens no correio para reencaminharem a correspondência. Não digas nada, por favor. - Ela acabou de dizer isto, levantou-se e dirigiu-se para a porta. Era uma mulher grande, loira, elegante. Ele ficou sozinho, imóvel, mudo.
- (Não te vás embora. Volta para trás. Senta-te. Não te vás embora. Lembra-te do éramos, do que fomos, do que podemos ser. A vida recomeça. Quero casar-me contigo, viver contigo, envelhecer contigo. Não te vás embora. Não me deixes especado nesta mesa, neste mundo. Volta para trás. Senta-te. De que serve uma vitória sozinho? Não passa de uma meia-derrota. Não é tarde. Quero casar-me contigo, começar cada dia com teu nome nas mãos, quero-te como eras, como és, imponente, com o destino nas mãos, o tempo. Senta-te. Volta para trás. Troco todos os dias de sol que estão para vir por uma manhã de chuva contigo, por um dia contigo. Não te vás embora. Volta para trás. Volta). Garçon, l'addition, s'il vous plaît.
- Voici, Monsieur.
Ela saiu do café, e ele voltou-se para trás para a seguir com os olhos. Um homem esperava-a.
Box office
Têm sido tempos ricos em cinema. Aqui ficam algumas notas de filmes que vi recentemente:
"The Darjeeling Limited", Wes Anderson - algo descabelado, com uma boa interpretação de Adrien Brody. Um bom filme mas que, a meu ver, não merece as laudas com que foi acolhido.
"Lust, Caution", Ang Lee - Soberbo. Um hino sublime e belo à luxúria, à sensibilidade, à incerteza.
"3:10 to Yuma", James Mangold - Uma boa história de redenção, bem filmada e bem contada.
"PS - I Love You", Richard LaGravenese - Simultaneamente medíocre e frustrante, o que normalmente seria contraditório. A história nas mãos de um director capaz daria um bom filme. Hillary Swank de vez em quando lembra-se que foi dirigida por Eastwood. Imagino Jacqueline Bisset no seu lugar. Desta série, o pior.
"Charlie Wilson's War", Mike Nichols - Uma boa história contada com ritmo, humor, bons diálogos. Continuo a não estar convencido pelos dotes de Julia Robert como actriz, mas os seus outros dotes compensam largamente.
"There Will Be Blood", Paul Thomas Anderson - A história (homem possuído pela obra destrói tudo e todos à sua volta e destrói-se) não é nova. Mas nunca a vi tão bem contada, tão bem filmada. A interpretação de Daniel Day-Lewis é arrasadora (literalmente, no que me toca, e imagino que para ele também o será). Em "Gangs of New York" Day-Lewis não me convencera inteiramente - o seu jogo raiava o cabotinismo demasiadas vezes - mas neste filme é sublime, desvastador. Tudo em "There Will be Blood" é bom: o fundo sonoro, a luz, a direcção de actores. Uma obra-prima a ver e rever.
"The Darjeeling Limited", Wes Anderson - algo descabelado, com uma boa interpretação de Adrien Brody. Um bom filme mas que, a meu ver, não merece as laudas com que foi acolhido.
"Lust, Caution", Ang Lee - Soberbo. Um hino sublime e belo à luxúria, à sensibilidade, à incerteza.
"3:10 to Yuma", James Mangold - Uma boa história de redenção, bem filmada e bem contada.
"PS - I Love You", Richard LaGravenese - Simultaneamente medíocre e frustrante, o que normalmente seria contraditório. A história nas mãos de um director capaz daria um bom filme. Hillary Swank de vez em quando lembra-se que foi dirigida por Eastwood. Imagino Jacqueline Bisset no seu lugar. Desta série, o pior.
"Charlie Wilson's War", Mike Nichols - Uma boa história contada com ritmo, humor, bons diálogos. Continuo a não estar convencido pelos dotes de Julia Robert como actriz, mas os seus outros dotes compensam largamente.
"There Will Be Blood", Paul Thomas Anderson - A história (homem possuído pela obra destrói tudo e todos à sua volta e destrói-se) não é nova. Mas nunca a vi tão bem contada, tão bem filmada. A interpretação de Daniel Day-Lewis é arrasadora (literalmente, no que me toca, e imagino que para ele também o será). Em "Gangs of New York" Day-Lewis não me convencera inteiramente - o seu jogo raiava o cabotinismo demasiadas vezes - mas neste filme é sublime, desvastador. Tudo em "There Will be Blood" é bom: o fundo sonoro, a luz, a direcção de actores. Uma obra-prima a ver e rever.
23.2.08
C'est ainsi qu'elles nous aiment
"Un homme qui préfère la voix de sa conscience à celle de son amour, peut être un héros aux yeux des hommes. Mais il est certain qu'il n'est pas mon homme, dis-je tranquilement."
"Pénélope", in Paix à Ithaque, Sándor Márai.
"Pénélope", in Paix à Ithaque, Sándor Márai.
22.2.08
A baixa qualificação dos empresários portugueses...
... reflecte-se, é um dado comum, na sua (deles) resistência a contratar pessoal qualificado. Eu, que por acaso sou empresário, português, não tenho nenhum curso superior, só contrato pessoal superiormente formado (e, inclusivamente, já ofereci cursos de post-graduação) começo a estar um bocadinho farto desta ladaínha.
Não sei que dizer: o português escrito é, no mínimo, confrangedor, e obriga-me a corrigir tudo o que sai da empresa; a cultura geral é nula, abaixo de nula, nauseante; línguas, só de gato; a vontade de aprender é pequena - tanto o português como a cultura são coisas, aparentemente, "em desuso", ou "de velhos". A maioria das ou dos jovens não sabe o que é uma percentagem - isto é, não percebe o conceito de percentagem (já tive quem me pedisse uma calculadora para calcular 10% de um preço, e não foi só em Moçambique) - não sabe falar, escrever ou vestir-se, e só está na empresa porque não tenho dinheiro para contratar pessoas mais velhas, com ou sem curso superior. Caso contrário estaria onde deveria estar - isto é, no desemprego.
"A face visível da baixa qualificação dos empresários portugueses reflectida nos números do desemprego do pessoal mais qualificado do país. Quem não detém o conhecimento, não o valoriza: para a maior parte dos nossos empregadores, mais qualificação apenas significa aumento de custos com salários. Daí a necessidade de desenvolver políticas que revertam esta situação, conjugando acções de formação e de sensibilização do nosso tecido empresarial com incentivos ao emprego de pessoal qualificado ".
O desemprego dos jovens formados é a face visível da fraquíssima qualidade dos nossos ensinos secundário e superior, e não da "baixa qualificação" dos empresários. E as únicas "políticas a desenvolver" são as do ensino - não seria sequer preciso inventar muito (seria mesmo melhor não inventar nada).
Não sei que dizer: o português escrito é, no mínimo, confrangedor, e obriga-me a corrigir tudo o que sai da empresa; a cultura geral é nula, abaixo de nula, nauseante; línguas, só de gato; a vontade de aprender é pequena - tanto o português como a cultura são coisas, aparentemente, "em desuso", ou "de velhos". A maioria das ou dos jovens não sabe o que é uma percentagem - isto é, não percebe o conceito de percentagem (já tive quem me pedisse uma calculadora para calcular 10% de um preço, e não foi só em Moçambique) - não sabe falar, escrever ou vestir-se, e só está na empresa porque não tenho dinheiro para contratar pessoas mais velhas, com ou sem curso superior. Caso contrário estaria onde deveria estar - isto é, no desemprego.
"A face visível da baixa qualificação dos empresários portugueses reflectida nos números do desemprego do pessoal mais qualificado do país. Quem não detém o conhecimento, não o valoriza: para a maior parte dos nossos empregadores, mais qualificação apenas significa aumento de custos com salários. Daí a necessidade de desenvolver políticas que revertam esta situação, conjugando acções de formação e de sensibilização do nosso tecido empresarial com incentivos ao emprego de pessoal qualificado ".
O desemprego dos jovens formados é a face visível da fraquíssima qualidade dos nossos ensinos secundário e superior, e não da "baixa qualificação" dos empresários. E as únicas "políticas a desenvolver" são as do ensino - não seria sequer preciso inventar muito (seria mesmo melhor não inventar nada).
Palavras bonitas II
Paleocéfalo - repetir uma, cinco, dez, vintes vezes: a cada uma é ainda mais bonita.
Biografia
Uma mistura de coisas que foram com outras que podiam ter sido e com muitas que não deviam ter acontecido. Fraco, para uma biografia.
21.2.08
Publicidade canina

Devo dizer que conheço pessoalmente os cachorros, e o S/Y "NAGUAL". Quanto aos primeiros, não sei: exceptuando algumas centenas de gramas, parecem-me todos iguais, e igualmente bonitos. Já o S/Y "NAGUAL" é uma embarcação única, com uma tripulação única - a mãe dos cachorros, por exemplo, faz frequentemente leme e o pai é um proa assíduo.
Fuga
Este texto foi composto durante o concerto de Tomasz Stanko na Culturgest. Deve-lhe muito. Deve, também – menos – ao senhor de cerca de 50 anos que estava sentado ao meu lado e que aos 15, provavelmente, se zangou com os desodorizantes. Aos 20 esqueceu definitivamente a existência deles e agora é tragicamente tarde para se aperceber dos inúmeros progressos da química.
Eu não fugi. Fui-me embora, o que é bastante diferente. Era uma da manhã e deixei-te, exausta, no quarto da estalagem. Não choraste, claro: eras demasiado orgulhosa para isso. Fui para o barco, larguei as amarras, naveguei dez ou quinze milhas para sul, arreei o pano todo e fui dormir. Acordei eram dez da manhã, tinha passado a noite toda a pairar e a manhã e pairei durante muitos anos, cada vez que pensava em ti.
Estávamos exaustos, os dois, todas as noites nos exauríamos – até o suor se nos esgotava, um dia disseste-me “não tenho nem mais uma gota de suor para transpirar”. “Eu também não”. Fui para o largo e fiquei a dormir, nunca dormi tanto tempo seguido sozinho num barco no mar.
Sempre foi assim, sempre, desde o primeiro dia, em que acabei de fazer uma reparação no motor, estava coberto de óleo e tu lavavas a loiça, tinhas as mãos cheias de detergente, isto não se inventa, foi assim mesmo que aconteceu, e quando demos por nós estávamos na cama e depois no duche e depois de jantar outra vez a cama e assim durante o mês ou dois que passámos juntos. Eras pequenina, tinhas os cabelos negros retintos e eras a pessoa mais bonita, mais inteligente e mais sensual a quem jamais me dei, que jamais se me deu.
Insisto: não fugi. Fui-me embora. Tu procuravas as tuas raízes, dizias-me, e eu pensava que tinha encontrado as minhas. Mentira, claro: as raízes nem se perdem nem se encontram, estão onde nós estamos e nunca saem do seu lugar, e pouco há que possamos fazer a este respeito. Umas putas, as raízes, enganaram-nos aos dois, e enganam meio mundo.
Nessa altura era skipper de um barco de charter, e tu eras dançarina, jornalista, fotógrafa e “ocasionalmente empregada de mesa”, acrescentavas sempre. A maioria das pessoas acreditava mas anos depois, quando a internet apareceu, pus o teu nome num motor de busca e descobri que eras bastante conhecida em Nova Iorque, onde nasceras e vivias, jornalista e fotógrafa, e que o “empregada de bar” tinha sido um artifício para vires para bordo.
Só não encontrei referência à “bailarina”, mas dessa não precisava, porque todos os dias tinha os teus músculos em mim, o ventre contra o qual esbarrava como horda de bárbaros contra a muralha da China, as coxas que me apertavam como tenazes com um bocado de carvão ardente sobre um tapete raro, os braços e as mãos com as quais me passeavas o corpo para lá do descritível, para lá das palavras, para lá.
Tinhas um nome de deusa, o corpo a sensualidade e o olhar de uma deusa, e olhos azuis como um dia de sol no mar, e eu fui-me embora. Não fugi.
Eu não fugi. Fui-me embora, o que é bastante diferente. Era uma da manhã e deixei-te, exausta, no quarto da estalagem. Não choraste, claro: eras demasiado orgulhosa para isso. Fui para o barco, larguei as amarras, naveguei dez ou quinze milhas para sul, arreei o pano todo e fui dormir. Acordei eram dez da manhã, tinha passado a noite toda a pairar e a manhã e pairei durante muitos anos, cada vez que pensava em ti.
Estávamos exaustos, os dois, todas as noites nos exauríamos – até o suor se nos esgotava, um dia disseste-me “não tenho nem mais uma gota de suor para transpirar”. “Eu também não”. Fui para o largo e fiquei a dormir, nunca dormi tanto tempo seguido sozinho num barco no mar.
Sempre foi assim, sempre, desde o primeiro dia, em que acabei de fazer uma reparação no motor, estava coberto de óleo e tu lavavas a loiça, tinhas as mãos cheias de detergente, isto não se inventa, foi assim mesmo que aconteceu, e quando demos por nós estávamos na cama e depois no duche e depois de jantar outra vez a cama e assim durante o mês ou dois que passámos juntos. Eras pequenina, tinhas os cabelos negros retintos e eras a pessoa mais bonita, mais inteligente e mais sensual a quem jamais me dei, que jamais se me deu.
Insisto: não fugi. Fui-me embora. Tu procuravas as tuas raízes, dizias-me, e eu pensava que tinha encontrado as minhas. Mentira, claro: as raízes nem se perdem nem se encontram, estão onde nós estamos e nunca saem do seu lugar, e pouco há que possamos fazer a este respeito. Umas putas, as raízes, enganaram-nos aos dois, e enganam meio mundo.
Nessa altura era skipper de um barco de charter, e tu eras dançarina, jornalista, fotógrafa e “ocasionalmente empregada de mesa”, acrescentavas sempre. A maioria das pessoas acreditava mas anos depois, quando a internet apareceu, pus o teu nome num motor de busca e descobri que eras bastante conhecida em Nova Iorque, onde nasceras e vivias, jornalista e fotógrafa, e que o “empregada de bar” tinha sido um artifício para vires para bordo.
Só não encontrei referência à “bailarina”, mas dessa não precisava, porque todos os dias tinha os teus músculos em mim, o ventre contra o qual esbarrava como horda de bárbaros contra a muralha da China, as coxas que me apertavam como tenazes com um bocado de carvão ardente sobre um tapete raro, os braços e as mãos com as quais me passeavas o corpo para lá do descritível, para lá das palavras, para lá.
Tinhas um nome de deusa, o corpo a sensualidade e o olhar de uma deusa, e olhos azuis como um dia de sol no mar, e eu fui-me embora. Não fugi.
20.2.08
Automobilismo
Não percebo nada de automóveis, e se estiver a dizer um disparate corrijam-me, por favor. Mas o Audi R8 é o mais nietszcheano dos carros: um corpo dionísiaco numa alma apolínea.
19.2.08
Serviço público - restaurantes
A quem, como eu, é obrigado a jantar todos os dias fora de casa (e não pode ir mais do que três vezes por semana ao Gambrinus, mesmo assim já com um bocadinho de sacrifício) a procura quotidiana de um restaurante para jantar desenvolve capacidades e sensibilidades que datam, penso, do nosso tempo de caçadores-colhedores.
Tornamo-nos atentos aos mais pequenos sinais. Um desses indicadores, inequívoco, de um restaurante no qual a relação qualidade - preço é indubitavelmente favorável ao cliente é a presença de velhinhos (se estiverem vestidos decentemente, ainda melhor).
(Devo reconhecer que, já perto do fim do jantar, dois senhores com o uniforme da construção civil beberam as suas cervejas pela garrafa, em vez de, como seria recomendável, por um copo. Tal é a força do preconceito: se já lá estivessem quando cheguei à porta, talvez não tivesse entrado).
Que importa? O jantar estava magnífico, e o restaurante tem, para além de velhinhos e velhinhas vestidos decentemente, uns azulejos simpáticos, preços mais do que correctos e uma qualidade acima da média do segmento. Quando for velhinho, vou vestir-me assim, para atrair os e as clientes mais jovens aos meus lugares favoritos.
Restaurante Alvarino, Rua do Sol ao Rato 3, tel. 213 887 141.
Tornamo-nos atentos aos mais pequenos sinais. Um desses indicadores, inequívoco, de um restaurante no qual a relação qualidade - preço é indubitavelmente favorável ao cliente é a presença de velhinhos (se estiverem vestidos decentemente, ainda melhor).
(Devo reconhecer que, já perto do fim do jantar, dois senhores com o uniforme da construção civil beberam as suas cervejas pela garrafa, em vez de, como seria recomendável, por um copo. Tal é a força do preconceito: se já lá estivessem quando cheguei à porta, talvez não tivesse entrado).
Que importa? O jantar estava magnífico, e o restaurante tem, para além de velhinhos e velhinhas vestidos decentemente, uns azulejos simpáticos, preços mais do que correctos e uma qualidade acima da média do segmento. Quando for velhinho, vou vestir-me assim, para atrair os e as clientes mais jovens aos meus lugares favoritos.
Restaurante Alvarino, Rua do Sol ao Rato 3, tel. 213 887 141.
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Restaurantes Lisboa
17.2.08
16.2.08
Via Dolorosa
Restaurante Flor da Laranja, Rua da Rosa 206 (Bairro Alto), Tel. 213 422 996 (Cozinha Marroquina).
É bom, é bonito, é barato e a dona / cozinheira / empregada de mesa é de uma simpatia que só em Marrocos. Não sei que pedir mais a um restaurante.
PS - talvez uma carta de vinhos um bocadinho mais, e um bocadinho menos. Só um bocadinho de cada.
É bom, é bonito, é barato e a dona / cozinheira / empregada de mesa é de uma simpatia que só em Marrocos. Não sei que pedir mais a um restaurante.
PS - talvez uma carta de vinhos um bocadinho mais, e um bocadinho menos. Só um bocadinho de cada.
Sete semanas
"Sete semanas para concluir o óbvio é que se afigura peculiar." A mim também: é anormalmente rápido.
Criatividade
E ainda há quem pense que "Fisco" e "Criatividade" são antinómicos: "Lei de 1991 proíbe utilização de acessório para captação de imagem". Só superficialmente.
(Via O Carmo e a Trindade).
(Via O Carmo e a Trindade).
14.2.08
Desejo
"You'll find out, Luis, that the sweet smell of success is in fact sweet and sour", dizia-me naquela noite em que estávamos os dois deitados na praia, em Moçambique. Falava-me dela e do seu trabalho, numa mistura de inglês, francês e espanhol, que eram as suas línguas, as suas vidas.
Na altura trabalhava para a BBC, ou para a MTV, não me lembro, como produtora. Tinha uma cabeleira enorme, preta como a noite para a qual olhávamos os dois. "Mi abuela me llamava Negra, à cause des cheveux". Tinha o corpo tenso de desejo, quase a sentia vibrar, as mãos espalmadas na areia e os seios a apontar para o negro da noite. Ouvíamos o barulho do mar e ela falava, cada vez mais devagar. Até que se calou, o desejo calou-a e ficou ali, entre os dois, dois corpos numa praia do sul de Moçambique, palpável como a noite negra e branca das ondas, dois corpos inexorável - e, para ela, incompreensivelmente - separados.
Fui visitá-la uns meses mais tarde, a Londres. "O desejo tem uma data de validade", explicou-me no aeroporto, quando me foi buscar. "E a tua passou". Deixou-me no hotel, e passámos três dias a ver museus, e a ouvir jazz.
Na altura trabalhava para a BBC, ou para a MTV, não me lembro, como produtora. Tinha uma cabeleira enorme, preta como a noite para a qual olhávamos os dois. "Mi abuela me llamava Negra, à cause des cheveux". Tinha o corpo tenso de desejo, quase a sentia vibrar, as mãos espalmadas na areia e os seios a apontar para o negro da noite. Ouvíamos o barulho do mar e ela falava, cada vez mais devagar. Até que se calou, o desejo calou-a e ficou ali, entre os dois, dois corpos numa praia do sul de Moçambique, palpável como a noite negra e branca das ondas, dois corpos inexorável - e, para ela, incompreensivelmente - separados.
Fui visitá-la uns meses mais tarde, a Londres. "O desejo tem uma data de validade", explicou-me no aeroporto, quando me foi buscar. "E a tua passou". Deixou-me no hotel, e passámos três dias a ver museus, e a ouvir jazz.
6.2.08
A ler
"Três lições americanas", aqui.
"A quem lhes fez as orelhas".
Um dos melhores posts de um dos melhores blogs portugueses dá isto.
"A quem lhes fez as orelhas".
Um dos melhores posts de um dos melhores blogs portugueses dá isto.
5.2.08
Estacionamento
Há vários pontos interessantes nesta série de posts (Pilaretes e Estacionamento) e respectivos comentários:
a) A "civilidade" dos estrangeiros quando comparada à dos portugueses: a mera existência de pilaretes nos exemplos apresentados deveria chegar para demonstrar que os "estrangeiros" não são mais civilizados do que os portugueses - se fossem, não precisaria de pilaretes. O que os distingue é que em vez de se lamentar sobre a civilidade ou educação das pessoas tomam medidas baseadas naquilo que elas (pessoas) são, e não naquilo que deveriam ser;
b) As reticências da CML têm, penso, duas razões de ser: uma é política - a verdade irrefutável é que não há parques de estacionamento em número suficiente, e começar a restringir agora o estacionamento sem dar alternativas provocaria decerto uma mais do que justificada revolta. A outra é económica: nesse paradigma da civilização que é Genebra, onde se andam a aplicar políticas de restrição à circulação automóvel há mais de 20 anos (e onde essas políticas são eficazes e as punições severas), houve há pouco mais de meia-dúzia de anos um debate na Câmara Municipal sobre o aumento das multas de estacionamento. O partido no poder (extrema-esquerda) propunha um aumento de 200% - de 20 para 60 francos a multa-base, digamos. Nenhum partido constestou a necessidade de aumentar o valor - mas alguns questionaram um aumento tão grande, argumentando que teria um efeito dissuasivo enorme e diminuiria radicalmente as receitas que as multas proporcionavam (o aumento foi de 200% e as receitas aumentaram, o que demonstra que a extrema-esquerda às vezes é capaz de decisões válidas de um ponto de vista económico. Infelizmente é muito raro).
Não tenho automóvel e nada me irrita mais do que o estacionamento selvagem em Lisboa. Mas seria talvez útil começar por construir a casa pelas fundações: criar parques de estacionamento para locais, dificultar a entrada de automóveis do exterior, melhorar a rede de transportes públicos de superfície, e só depois agir sobre o estacionamento - por muito que nos custe ver como é Lisboa, e como poderia ser.
PS - até se poderia aplicar o dinheiro das multas de estacionamento para este objectivo. Não seria decerto suficiente, mas pelo menos daria uma boa razão para as pessoas estacionarem mal...
PS2 - esta história da falta de civilidade irrita-me sempre um bocadinho, mesmo que por vezes ceda, anche io, à tentação. E nesses momentos lembro-me sempre de uma história que se passou comigo há muitos anos, em Cascais: ia no carro de um amigo e um peão tentou atravessar numa passadeira à nossa frente. O condutor não só não parou, mas ainda gritou para o senhor "Pensas que estás no estrangeiro?". Naquela altura, dizia-se que os portugueses eram irremediavelmente selvagens e nunca aprenderiam a dar a prioridade aos peões. Hoje, os carros em Lisboa param nas passadeiras mais do que em qualquer grande cidade europeia, com a possível excepção de Londres.
O que mudou? Um chauffeur de táxi disse-me um dia que foi uma "medonha" (ou "pavorosa", já não me lembro) campanha de repressão. Não sei se é verdade ou não, mas vinte e tal anos de vida na Europa "civilizada" levam-me a crer que sim.
a) A "civilidade" dos estrangeiros quando comparada à dos portugueses: a mera existência de pilaretes nos exemplos apresentados deveria chegar para demonstrar que os "estrangeiros" não são mais civilizados do que os portugueses - se fossem, não precisaria de pilaretes. O que os distingue é que em vez de se lamentar sobre a civilidade ou educação das pessoas tomam medidas baseadas naquilo que elas (pessoas) são, e não naquilo que deveriam ser;
b) As reticências da CML têm, penso, duas razões de ser: uma é política - a verdade irrefutável é que não há parques de estacionamento em número suficiente, e começar a restringir agora o estacionamento sem dar alternativas provocaria decerto uma mais do que justificada revolta. A outra é económica: nesse paradigma da civilização que é Genebra, onde se andam a aplicar políticas de restrição à circulação automóvel há mais de 20 anos (e onde essas políticas são eficazes e as punições severas), houve há pouco mais de meia-dúzia de anos um debate na Câmara Municipal sobre o aumento das multas de estacionamento. O partido no poder (extrema-esquerda) propunha um aumento de 200% - de 20 para 60 francos a multa-base, digamos. Nenhum partido constestou a necessidade de aumentar o valor - mas alguns questionaram um aumento tão grande, argumentando que teria um efeito dissuasivo enorme e diminuiria radicalmente as receitas que as multas proporcionavam (o aumento foi de 200% e as receitas aumentaram, o que demonstra que a extrema-esquerda às vezes é capaz de decisões válidas de um ponto de vista económico. Infelizmente é muito raro).
Não tenho automóvel e nada me irrita mais do que o estacionamento selvagem em Lisboa. Mas seria talvez útil começar por construir a casa pelas fundações: criar parques de estacionamento para locais, dificultar a entrada de automóveis do exterior, melhorar a rede de transportes públicos de superfície, e só depois agir sobre o estacionamento - por muito que nos custe ver como é Lisboa, e como poderia ser.
PS - até se poderia aplicar o dinheiro das multas de estacionamento para este objectivo. Não seria decerto suficiente, mas pelo menos daria uma boa razão para as pessoas estacionarem mal...
PS2 - esta história da falta de civilidade irrita-me sempre um bocadinho, mesmo que por vezes ceda, anche io, à tentação. E nesses momentos lembro-me sempre de uma história que se passou comigo há muitos anos, em Cascais: ia no carro de um amigo e um peão tentou atravessar numa passadeira à nossa frente. O condutor não só não parou, mas ainda gritou para o senhor "Pensas que estás no estrangeiro?". Naquela altura, dizia-se que os portugueses eram irremediavelmente selvagens e nunca aprenderiam a dar a prioridade aos peões. Hoje, os carros em Lisboa param nas passadeiras mais do que em qualquer grande cidade europeia, com a possível excepção de Londres.
O que mudou? Um chauffeur de táxi disse-me um dia que foi uma "medonha" (ou "pavorosa", já não me lembro) campanha de repressão. Não sei se é verdade ou não, mas vinte e tal anos de vida na Europa "civilizada" levam-me a crer que sim.
4.2.08
Vin et Littérature
Vinho e literatura sempre se misturaram bem, seja a montante, nos escritores, seja a jusante, nos leitores. Mas se na mistura introduzirmos a presença de Bernard Pivot, lui-même, en personne, a mistura fica irresistível, pura e simplesmente irresistível.
(Não sou, verdade seja dita, grande fan de televisão; provavelmente uma das razões é não haver muitos programas como o Apostrophes, ou o Bouillon de Culture, nem apresentadores como Bernard Pivot).
Vendredi 8 février 2008
à partir de 19 h 00
Bernard Pivot
présent pour la sortie de son livre
Dicionário sentimental do vinho
(Não sou, verdade seja dita, grande fan de televisão; provavelmente uma das razões é não haver muitos programas como o Apostrophes, ou o Bouillon de Culture, nem apresentadores como Bernard Pivot).
Vendredi 8 février 2008
à partir de 19 h 00
Bernard Pivot
présent pour la sortie de son livre
Dicionário sentimental do vinho
IWBD
Mahommet não iria decerto à montanha para beber vinho, mas simpaticamente a Montanha traz os seus vinhos ao Clube dos Jornalistas.
3.2.08
2.2.08
E não se poderia...
Irracionalidade II
A esmagadora maioria das pessoas é, obviamente, inteligente - mas é igualmente óbvio que essa mesma maioria é pontualmente capaz da mais total irracionalidade (infelizmente, a minoria em que a irracionalidade é permanente também é esmagadora).
Essa irracionalidade temporária, pontual, episódica tem várias origens: a facilidade (é mais fácil reagir cegamente a uma situação qualquer - agradável ou desagradável - do que tentar percebê-la); a ignorância (se ignoramos a lógica que está por trás de um determinado comportamento e o percebemos como "estúpido" (isto é, desprovido de razão) tendemos a reagir irracionalmente); ou o simples facto de sermos humanos - Edgar Morin, no volume 6 do "Método" (A Ética), diz "a compreensão racional objectiva, desumaniza*".
Se bem haja aqui um problema de lógica: o que é humano é a razão. Ser homem é pensar; não pensar é mais fácil, certo, mas porque será "mais humano"? Porque associamos a humanidade ao erro, à emoção, à irracionalidade, quando é justamente o sermos capazes de nos libertarmos deles que nos define como homens? Estamos mais perto da verdade quando igualamos um comportamento irracional a um comportamento animal.
* - a citação é de memória, será verificada posteriormente.
Essa irracionalidade temporária, pontual, episódica tem várias origens: a facilidade (é mais fácil reagir cegamente a uma situação qualquer - agradável ou desagradável - do que tentar percebê-la); a ignorância (se ignoramos a lógica que está por trás de um determinado comportamento e o percebemos como "estúpido" (isto é, desprovido de razão) tendemos a reagir irracionalmente); ou o simples facto de sermos humanos - Edgar Morin, no volume 6 do "Método" (A Ética), diz "a compreensão racional objectiva, desumaniza*".
Se bem haja aqui um problema de lógica: o que é humano é a razão. Ser homem é pensar; não pensar é mais fácil, certo, mas porque será "mais humano"? Porque associamos a humanidade ao erro, à emoção, à irracionalidade, quando é justamente o sermos capazes de nos libertarmos deles que nos define como homens? Estamos mais perto da verdade quando igualamos um comportamento irracional a um comportamento animal.
* - a citação é de memória, será verificada posteriormente.
Irracionalidade
É mais fácil compreender (e frequentemente aceitar) a irracionalidade do que lidar com ela.
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