12.4.10

Fecundação

Por vezes gostava de ler Pedro Arroja, e li-o até me aperceber de que não passa de uma pequenota fraude. Uma fraude rasca, que só tem audiência num país alheio ao debate de ideias, no qual o debate público é baseado na provocação; e "o canudo" é invocado como argumento por quem provoca e aceite por quem ouve. Não me parece que se possa perder muito tempo com o senhor. Confrontar aquilo que ele diz com a realidade, quantificar, seria como pôr um castelo de cartas no meio de uma ventania.

Isto a propósito deste monte de baba intelectual, ao qual cheguei, entre outros, via o Meditação e o Provas de Contacto.

O método consiste em pegar em premissas das quais algumas são verdadeiras e outras não; imaginar qual o ângulo que vai causar mais uivos na plateia de meninas e meninos sempre prontos para se escandalizarem, coitados - não ler não lhes ocorre; e, pior, escandalizam-se a maioria das vezes pelas razões erradas - ; acrescentar duas ou três proposições que são, tal como as premissas, ora falsas ora verdadeiras; malaxar, amalgamar as premissas com as proposições e os condimentos encontrados na segunda fase; babar um bocadinho ao prever o coro que por aí virá; e servir. É pouco, por interessante que ao princípio possa parecer.

Às vezes daquelas mastigações sai uma conclusão verdadeira - ou falsificável, que acho preferível -; mas como vem envolta na baba da auto-satisfação e da provocação as pessoas tendem a ver o continente e não o conteúdo. O que ainda enche de mais satisfação o senhor, claro.

PS - apresso-me a esclarecer que não tenho nada, muito antes pelo contrário, contra a provocação; desde que seja um meio, e não o fim.

Desafio - III

O primeiro grupo
(Aveiro
Beira*
Caracas (enfim, La Guaira)
Kinshasa
La Chaux-de-Fonds
Nairobi*
Porto*)

pode eliminar-se sem dificuldade. Quando muito seria interessante escolher a pior cidade do mundo (do meu mundo, repito): Kinshasa ou Nairobi? A resposta seria, sem hesitar, Nairobi primeiro logo seguida de Kin, para os íntimos. La Chaux-de-Fonds é feia e odiei lá viver, mas ainda tem alguns charmes - bem expressos de resto no slogan "a cidade que escolheu viver no campo". As outras forma-me mais ou menos indiferentes. Ainda me lembro que quando fui viver para Aveiro um amigo me disse "Luís, não é assim tão mau, só está a 250 quilómetros de Lisboa" (não seriam talvez 250, mas isso é, e era, irrelevante).

Já o segundo grupo
(Barcelona
Bern
Bujumbura
Dunkerque
Düsseldorf
Funchal
Genève
Johannesburg
Kindu
Lubumbashi
Lüderitz*
Marseille
Milão*
Quelimane (acho que se qualifica como cidade)
Salvador
Tuapse
Zürich)

tem um interesse lateral: que perspectiva adoptar - a autocêntrica, pela qual escolheria a cidade na qual vivi as coisas mais intensas, ou belas (Lubum, Buja, Kindu, Lüderitz, Dunkerque, Barcelona, por exemplo, a lista não é exaustiva); ou uma perspectiva exocêntrica, e escolher a cidade pela sua beleza intrínseca (Milão, Marselha, Jo'burg - sim, eu sei. Mas eu acho-a bonita -, Zürich)? Questão interessante, mas que por agora se põe de molho. Fica para depois. Aliás até pensei em fazer uma tabela, coisa que felizmente não me sairá da cabeça; ou sair-me-á, mas não para aqui.

Fica o terceiro grupo:
(Berlin
Bukavu*
Cape Town
Gibraltar
La Rochelle
Londres
Lourenço Marques / Maputo
Paris
Rio de Janeiro
Veneza*
Lisboa, claro)

Bukavu é das cidades mais lindas que até hoje vi; mas gostaria de lá viver? Não. A resposta é menos óbvia, mas muito pouco menos óbvia, quanto a Cape Town - ainda hoje acho que um dos grandes erros da minha vida foi não ter ficado quando se podia ainda lá viver, em 78. Voltei ao Cabo em 98, vinte anos depois. O fascínio mantinha-se, mas viver lá era impossível. E sê-lo-á cada vez mais. Assunto arrumado.

Critério esse que nos ajudará a eliminar mais umas quantas: Maputo, Rio de Janeiro, Veneza, La Rochelle, Gibraltar: cidades lindas - ou apaixonante, no caso de Gibraltar, que não é muito bonita mas é mágica - nas quais vivi vidas (não é um jogo de palavras) mas nas quais não voltaria a viver. As razões são diferentes, é certo; mas o mesmo o resultado.

Ou seja, ficamos com Londres, Paris, Berlim e Lisboa (claro).

Acho que isto vai ter mais uma fase ou duas.

PS - Seria interessante listar as cidades que não entraram na lista: Toulouse, Madrid, Florença, Ancona, Verona, Amsterdam, la Coruña, as cidades todas do sul de França (St. Trop, Nice, Sète) e de Espanha (Cartagena, Almeria, Valencia), New Orleans, Mobile, Balboa, Manila et al, só para ver o que dava? Creio que não.

Everything was illuminated

Everything was illuminated até eu ter chegado ao Jonas, e aquilo estar a fechar. O mesmo com o Azimute. E no Salamandra não haver Burritos. Everything was illuminated no meu espírito até o real achar que devia redefinir "everything". Ou "espírito", vá saber-se.

Misturas, confusões

Se se pegar num frasco cheio de uma mistura de azeite e água e se se o agitar vigorosamente os dois líquidos confundem-se; mas não se misturam. Já o resultado será diferente se no frasco estiverem, por exemplo, água e café: não só se confundem como também se misturam. Se procurarmos bem encontraremos decerto no universo matérias que se misturam, mas não se confundem.

A tristeza e a alegria; o optimismo e a melancolia; a felicidade e o cepticismo; por exemplo. Podemos pegar noutros pares de coisas: os seios e as mãos; os olhos e os olhares; os nossos ventres, um no outro; a luz, nas pedras brancas e sujas de Lisboa; a água e o rio, o mar e a vida. E dizermo-nos que se misturam, mas não se confundem.

11.4.10

Sol

Em dias destes sou uma piscina para o sol; como se o sentisse nadar dentro de mim.

Castigos e recompensa

Ontem ouvi um bocadinho do Congresso do PSD na televisão. Devo dizer que depois de ouvir aquilo a minha atitude face à corrupção, ao nepotismo, aos jobs for the boys mudou radicalmente. Quem se sujeita a xaropadas daquelas por um lugar na administração pública precisa, naturalmente, de ser recompensado. A dúvida que mantenho é se merece, mas isso é outra história.

Greve na CP

Os revisores da CP iniciam hoje uma greve. Lutam pela extensão da rede ferroviária, melhoramento do serviço prestado aos passageiros, meios para captar passageiros pendulares. Como se pode ver aqui.

União

"PSD/Congresso: Sarmento não discursa para PS não pensar que tem "algum aliado" social democrata".

"Era uma casa / muito engraçada"

Dúvida

Em caso de dúvida Bartok tem a resposta.

10.4.10

Táxis, ilusões de óptica, metamorfoses

A circular por Lisboa a toda a velocidade, num táxi voador. "Voa, táxi, galopa mais, desce às camadas da cidade sem fundo, para onde tendem as solidões". "Oh, mãe, quando é que me ensinas a comer com pauzinhos?" O miúdo pergunta mas a mãe não tem coragem para lhe dizer "eu também não sei, filho" e balbucia qualquer coisa mais ou menos ininteligível do género "mas aqui é difícil, filho". Não percebi bem, e pouco me importa. O miúdo é gordo, obeso, mas apesar disso a mãe deixa-o comer profiterolles à sobremesa. Estou febril, com fome, com vontade de rir do que me aconteceu hoje. Disse ao táxi "ande por todas as ruas que conhece cujo nome começa por P", mas ele pensou que eu estava a gozar ou bêbedo. Perguntei-lhe "quer que eu lhe pague 20 euros adiantados?" "Sim", claro. Eu paguei, e quando chegámos à rua do Patrocínio disse-lhe "fico aqui, se faz favor" e como o taxímetro só indicava quatro euros e cinquenta cêntimos ele perguntou-me se eu queria o troco. Eu disse-lhe "guarde o troco, senhor chauffeur, guarde o troco", assim mesmo com o chauffeur em itálico, espero que o homem tenha percebido.

O restaurante é muito bom, kitsch como todos os restaurantes chineses devem ser, até tem uma árvore lá dentro, de plástico, claro, ou borracha ou o raio que a parta mas come-se bem, realmente bem.

A senhora fala com o filho que terá para aí oito anos, talvez nove (com os gordos nunca se sabe) como se ele fosse um adulto atrasado mental com quem ele deve fazer cerimónia. Não é de estranhar que o puto seja obeso. Eu não: sou gordo, mas é uma gordura sã, daquelas que nos mandam desta para melhor num ápice, se Deus quiser. O que me impressiona cada vez que vou a um restaurante chinês em Lisboa é as pessoas não saberem comer com pauzinhos. Não há uma única mesa, uma só que seja, a comer com pauzinhos. E com uma tigela em vez de prato então ainda há menos.

"Voa, táxi, voa depressa". O Mei Kwei Lu é servido nos copos apropriados, pequenos e com uma senhora nua no fundo, que só se vê quando o copo está cheio. Continuo a circular no táxi, "quero um táxi de várias cores, quero que ande depressa porque vou partir para prados cheios de flores e só um táxi de várias cores pode servir". De repente parece-me ver Z. entrar. É possível que seja ela, mora ali perto. Como seria, se lhe encontrasse o marido e lhe dissesse "não percas a tua mulher, porque pessoas como ela não há muitas nos perdidos e achados"?

Estou a 200 à hora em Lisboa, mas afinal não era a Z., nem a A. nem a B. nem o alfabeto inteiro. Era uma ilusão de óptica com duas pernas feias e uma cara bonita. Contrariamente a Z., cuja cara só era bonita quando se a via por dentro (também de passagem seja dito, são as únicas que interessam). Continuo no táxi; agora recitamos os dois, o chauffeur e eu, o poema de Reinaldo Ferreira:

Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sózinho
Sem um cavalo de várias cores?


Ele sabe-os todos de cor. Acelera, faz as curvas com os pneus a guinchar, passa sinais encarnados ou, pelo contrário, fica neles parado tempos sem fim.

Mínimo sou, começa,
mas quando ao nada empresto, continuo;
os dois: a minha elementar realidade
num grito, em uníssono o nada é só o resto.

Os outros condutores olham para nós: estamos num semáforo há pelo menos duas mudanças de luz; ninguém ousa buzinar. A cidade cala-se. Arrancamos. A noite é propícia a ilusões de óptica. "Devíamos esperar pelo dia".

Juro que foi isto que ouvi: "devíamos esperar pelo dia" (este texto é o relatório hiper-realista do que me aconteceu hoje entre as nove da noite e a meia-noite; não iria mentir). Mas a voz tinha mudado, e o condutor do táxi também. Agora já não era um chauffeur, mas uma chauffeur. Uma mulher. Que me dizia "devíamos esperar pelo dia" com uma voz grave; ou melhor: rouca. Mais rouca do que grave.

Sou muito sensível à voz das mulheres; e as vozes roucas atraem-me de uma forma dificilmente explicável. Havia uma, antigamente, que dava aulas de português na Internet. Nunca lhe vi a cara, mas ouvi-lhe a voz, muitas vezes. Era especialista em português e em música bantu; e criava (ainda cria; não morreu, graças a Deus) caracóis. Tinha uma voz extraordinária, mágica, grave e rouca. Há muito tempo que não a oiço, essa voz. Pelo que hoje, quando o condutor se metamorfoseou em condutora e me disse, com uma voz quase, quase igual "devíamos esperar pelo dia" eu pensei "claro". São vozes que nos impedem de pensar, notem: vão directamente à parte irracional de cada um de nós (não é irracional, é tectónica).

De maneira quando a senhora me disse aquilo eu pensei "claro" e disse "sim". E logo a seguir: "deixe-me descer, por favor". Mas já era tarde.

Os bois pelos nomes

Há pouco tempo tive um casal de amigos ingleses em Lisboa. A certa altura ele perguntou-me, um pouco a medo, porque havia tantos prédios em ruínas na cidade. Eu dei-lhe a resposta habitual: por causa da lei das rendas, etc.. Não é verdade, claro. Há prédios em ruínas, como há lixo e buracos nas ruas porque os portugueses não se importam de viver nesses ambientes.

Depois não digam que não se sabia, etc.

"The man playing South Africa's death card"

Memória, monstro

A memória é um monstro que come todos os dias, mas só se alimenta de vez em quando.

Kefir

Todos os dias bebo uma caneca grande de kefir, um kefir espesso, muito saboroso, amargo. Já não sei a que propósito isto me ocorreu. Provavelmente por causa da Ingrid, a alemã que pela primeira vez me deu kefir a provar. Foi há muitos anos.

Hoje via-de novo, acreditem ou não. Estava com o marido no Martinho da Arcada. Ingrid é violonista, toca numa grande orquestra suíça, ou francesa. Ela disse-me qual, mas eu não me lembro. O marido é grande, parece um urso. É escritor, ou poeta, qualquer coisa no género.Chama-se Joseph; é muito doce quando fala, muito tímido, retraído. O contrário do que parece. Estavam no Martinho por causa de Pessoa, claro. Tenho que reconhecer que gosto imenso de Pessoa, mas estou ligeiramente farto dele; um bocadinho, só.

Pois Ingrid estava no Martinho da Arcada com o marido. Fui eu que a reconheci: quando nos conhecemos eu tinha uma barba muito grande e era magro. O namorado dela era psicólogo. Só há dias, por intermédio da S. soube que ele tinha ficado muito triste com a aventura que tivemos em Cabo Verde, quando eles estavam de férias e eu à espera de uma peça para o motor do barco onde na altura trabalhava. Pensava que ele não sabia de nada. Há coisas que são difíceis de esconder, suponho. E é uma coincidência: há três semanas estava com a S., com quem fui casado todos aqueles anos; estávamos em casa de uma cantora de ópera e eu falei em Ingrid, que é bastante conhecida (nunca falei a S. dos meus casos, apesar de ela os conhecer todos). Foi então que me disse "o D. ficou muito triste com a vossa história em Cabo Verde". Eu fiquei com pena do D. claro. Mas agora é tarde para fazer o que quer que seja. Ele foi trabalhar para a CARE e casou-se com uma senegalesa muito feia. Nunca mais o vi, soube isto porque conheci um tipo da CARE que trabalhara com ele não sei onde.

Hoje vi Ingrid e o marido, que estão em Lisboa de férias. Há muitos anos estive com ela 15 dias em Cabo Verde, e depois disso duas ou três vezes nas montanhas, onde ela vivia. A última vez que fizemos amor ela tocou para mim; uma improvisação muito lenta, lancinante, linda. Ingrid tinha uns cabelos longos, loiros. Tocava nua, com os cabelos pelas costas. Os seios mexiam-se devagarinho, a acompanhar o movimento dos braços e do corpo. Era muito emotiva, vulcânica.

Eu fui-me embora nesse dia, de manhã. Disse-lhe "não nos podemos voltar a ver". Ela perguntou-me "porquê?" "Porque se nos virmos de novo começará a ser adultério". "Até agora não foi?" "Não". Deu-me um bocado de kefir e pediu-me para tomar conta dele, acontecesse o que acontecesse.

Não consegui, claro: foi há muitos anos, muitas vidas. Mas volto sempre a ter kefir, sempre. Amanhã vou ao hotel onde eles estão e vou deixar-lhe um frasco. Na recepção; não a quero voltar a ver. É bom, saboroso, espesso; muito amargo.

9.4.10

Hildegarde - II

Se o silêncio fosse música.

Hildegarde

Às vezes pergunto-me o que aconteceria se as pessoas escavassem muito dentro de si próprias. Provavelmente a esmagadora maioria chegaria a Hildegarde Von Bingen. Não tem nada a ver com inconscientes colectivos, ou raízes colectivas, ou denominadores comuns. Tem a ver com humanidade. Da mesma forma que todos os homens têm duas pernas, dois braços e dois olhos todos temos uma Hildegarde von Bingen dentro de nós.

Não sei como explicar isto. Cada vez que a oiço - e agora só tenho um disco dela, mas já tive vários - parece-me que os cânticos não se dirigem a Deus, mas a si própria; Deus é um pretexto. Cantar para dentro: não porque Deus esteja no interior de cada um, mas porque o âmago de cada um é um mundo com o qual só se pode comunicar desta forma: com tempo, lentidão, sopro, mistério.

Hildegarde von Bingen é a música ideal para os Mistérios, de Hamsun, por exemplo: ambos lidam com os tréfonds (o dicionário online dá-me "profundidades". Não sei. Não me chega).

Ouvem-se estes canto sublimes e apercebemo-nos de que nada do que façamos é relevante; tudo se dilui no sublime do mundo infinito que há em nós. Um mundo do qual nós somos muito, infinitamente menos do que a ponta do iceberg. Um mundo que Hildegarde nos mostra, cuja existência nos dá a conhecer, hoje como há mil anos.

Excessos, resistência

Ainda há meia dúzia de semanas, como digo num post ali em baixo escrito talvez o ano passado, resistia muito bem aos excessos. Hoje não: já não tenho resistência. Nem excessos, apresso-me a esclarecer os leitores ou, sobretudo, uma eventual leitora que tenha mais interesse no assunto.

Quando muito, uns mini-excessos; uns arremedos de excesso; uns excessos de trazer por casa. Se participassem numas olimpíadas de excessos não seriam sequer qualificados.

PS - o que não deixa de ser um bocadinho aborrecido. É como ir à missa e não poder comungar.

Segunda fase

Grupo I

  • Aveiro
  • Beira*
  • Caracas (enfim, La Guaira)
  • Kinshasa
  • La Chaux-de-Fonds
  • Nairobi*
  • Porto*


Grupo II

  • Barcelona
  • Bern
  • Bujumbura
  • Dunkerque
  • Düsseldorf
  • Funchal
  • Genève
  • Johannesburg
  • Kindu
  • Lubumbashi
  • Lüderitz*
  • Marseille
  • Milão*
  • Quelimane (acho que se qualifica como cidade)
  • Salvador
  • Tuapse
  • Zürich


Grupo III

  • Berlin
  • Bukavu*
  • Cape Town
  • Gibraltar
  • La Rochelle
  • Londres
  • Lourenço Marques / Maputo
  • Paris
  • Rio de Janeiro
  • Veneza*
  • Lisboa, claro

Milagre

Multiplico whiskies mais depressa do que Jesus pão e vinho. Mas dava-me jeito que Ele fizesse um pequeno milagre e me desse a resistência de há meia dúzia de semanas.

Mudez, abençoada

Frank Zappa entra-me pelas orelhas a plenos pulmões; tu entras-me a plenos poros. Prefiro-te: a pele é muda, e surda.

Saber,

...não sei; mas a utilidade de saber é-me obscura. Muda pouco, e o pouco que muda é irrelevante. Não sei; se um dia te parecer que sei, estás enganada. Ou eu.

Livro de horas brancas

Ando há anos a dizer que não passo de um livro de horas com as páginas em branco. E: as horas que não foram brancas foram negras.

Depois penso em ti; e nas horas, essa luz.

Lixo

Não sei se já vos disse: em casa tenho flores; Frank Zappa grita a plenos pulmões (da aparelhagem, claro); em breve as flores estarão boas para o lixo. Eu estou há muito tempo, mas não há quem me deite para lá.

Meta-beleza

Se isto tivesse acontecido teria sido mais ou menos assim. É um grande se.

Um pequeno bar de jazz; estou sentado na mesa do patrão, à esquerda quando se entra. Cortesia do dito. Passo duas etapas. A miúda era linda.

Há dois tipos de miúdas lindas, não sei se já viram: umas dizem "eu sou linda". Outras "eu estou a dizer-te que sou linda". São estas as mais interessantes. "Eu estou a dizer-te que". Um dia fui remar no lago Léman com uma dessas. Isto é: ela remava; eu ia ao leme e olhava para ela. Território proibido. Ela sabia: território proibido; e "eu sou linda e quero que tu saibas que o sei". Foi uma manhã dolorosa. Bonita, mas dolorosa. Ela ganhou: não transgredi. Excepto mais tarde; ela disse-me: "gosto de homens que me sabem ler". E eu respondi "gosto de mulheres que se sabem escrever".

Hoje não. Eu estava no canto do bar e ela entrou. Nem me viu, claro. Era linda. A mensagem que transmitia a quem via era: "eu sou linda e estou a dizer-vos que sei que sou linda".

Entretanto a banda começou a tocar. Foi a coisa mais fascinante que ouvi nos últimos tempos. Imaginem duas guitarras (uma solo, ou ritmo ou o que quer que seja, a outra baixo), e uma bateria. O baixo tocava como se fosse ritmo; o ritmo como se fosse Frank Zappa; e o baterista tinha a suprema qualidade de um baterista: não se ouvia, e quando se ouvia era excelente, sublime. A verdade é que entrei para beber um whisky na brasa e não foi bem assim. E depois ela entrou (só a vi enquanto ela passou: tinha o olhar vago, coisa para a qual não sei olhar). Vinte anos. Alta, magra, cabelos morenos longos, olhos verdes; metade da barriga à mostra. Normalmente isto não chegaria para a qualificar. Linda.

Ora bem: de um lado temos uma banda na qual o baixista toca como se fosse um ritmo; o baterista só se ouve quando tem que se ouvir, o que é raro; e o solo toca como se fosse Zappa (isto é um exagero grosseiro, mas pouco importa). Do outro um bar cheio, uma miúda linda e uma gaja feia que não pára de olhar para mim, mesmo quando beija o senhor que está com ela (o que acontece com uma certa frequência, de passagem seja dito).

É desagradável. A senhora é feia, mas não deve ser burra; tem um olhar inteligente, vivo.

II
Não era de nada disto que queria falar quando comecei.

III
Recomecemos. Meta-beleza: era disto. Beleza é a que se dá a ver, ou a que se deixa ver?

IV
Não. A miúda é linda. De Frank Zappa não conhece nem a letra "F". Não sabe o que é um meta-discurso. Abençoada seja.

V
Prefiro a beleza que se sabe à beleza que se oferece.

VI
A beleza deve saber-se. Se não, não sabe a beleza.

VII
Hú um dever na beleza. Um dever de reserva? Não: de auto-consciência.

8.4.10

Desafio

Omito os adjectivos do título: são muitos os possíveis - interessante, apaixonante, irrecusável. Vai demorar um bocadinho, provavelmente. Mas vou participar.

Por fases. Primeira fase :

Genève
La Chaux-de-Fonds
Zürich
Bern
Londres
Paris
La Rochelle
Marseille
Dunkerque
Düsseldorf
Berlin
Veneza*
Milão*
Barcelona
Gibraltar
Rio de Janeiro
Salvador
Bujumbura
Lourenço Marques / Maputo
Beira*
Quelimane (acho que se qualifica como cidade)
Kinshasa
Lubumbashi
Kindu
Bukavu*
Lüderitz*
Cape Town
Johannesburg
Nairobi*
Nakhodka
Tuapse
Caracas (enfim, La Guaira)
Porto*
Aveiro
Funchal
Lisboa, claro

Os critérios para a pré-selecção foram a) estadias profissionais (excepto Veneza e Milão, mas acho justificável incluí-las); b) mais de quatro semanas de estadias ou estadia mais curta mas particularmente intensa (assinaladas com *). Agora há que marinar em memória, um dia ou dois.

7.4.10

Apagar

No fundo, escrever consiste em apagar palavras.

Mistérios

Gostamos das pessoas enquanto as consideramos excêntricas, ou originais, ou diferentes; e deixamos de gostar delas quando descobrimos que são apenas tolas.

Cidade, calma

São duas da manhã; a cidade está calma, como nunca a vi. Inquieto-me: estará tudo bem?

Carris

Os autocarros da Carris devem ser a dependência do Júlio de Matos onde os doentes que se julgam Fittipaldi são acolhidos.

(Forçoso e honesto é reconhecer que os casos não são tão graves como os do Porto.)

Escrever

É como ter azar com um filho: fazê-lo é bom, o resultado lastimável.

Borderline

As palavras devem andar sempre no limite. Se não, não passam de putas.

Cidade

Era tão difícil, e útil, tirá-lo da cidade como tirar uma pedra de gelo já dissolvida de um whisky.

Dinheiro, ou falta dele

A única vantagem da falta de dinheiro é que nos mostra que somos muito mais fortes do que aquilo que pensamos. No fundo, a falta de dinheiro devia reforçar a auto-estima.

Escrever

Escrever é um prazer contraditório: quanto menos palavras se usarem para exprimir uma ideia, melhor.

6.4.10

Mau

Hoje fui ver um filme sobre Nikias Skapinakis. Era tão mau que passei o filme todo a pensar "isto é tão mau que podia ter sido escrito por mim", e resolvi apagar o blog. Depois decidi que não: só aqui vem quem quer e, ao contrário do filme, a visita pode ser rápida. Mas estou seriamente a pensar tirá-lo do Networkedblogs. Logo se verá (quando encontrar a maneira, não está fácil).

O filme era péssimo: longo, pesado, oco (o vazio às vezes - quase sempre - é pesado), pedante, déjà vu; a dicção péssima; toda a gente bateu muitas palmas e gostou muito: com excepção do primeiro e do último qualificativos, exactamente o que penso do do Don Vivo.

Faltas

Problemas da evolução

É mais fácil escolher entre dois prazeres do que entre dois sofrimentos (ou mais, claro: as dores raramente andam aos pares); ora devia ser exactamente ao contrário: definir (e optar, claro) pela dor menor devia ser mais rápido, mais evidente, mais fluido do que definir o prazer maior.

A ler

"Um partido que acredita que Meneses pode ser primeiro-ministro merece o que lhe aconteceu". A totalidade do texto está aqui, e deve ser lida de fio a pavio.

PS - uma pequena nota para as pessoas que dizem - com razão - que Pacheco Pereira não escreve muito bem, e diziam - igualmente podres de razão - que Manuela Ferreira Leite não sabia falar. Temos a sorte, o privilégio, o orgulho de ter um primeiro-ministro que sabe discursar. O resultado está à vista. Há pessoas que preferem o poder encantatório das palavras aos factos; merecem a sorte que têm (o que me admira é que haja pessoas cultas e inteligentes entre os defensores deste poderoso argumento: "prefiro um mau primeiro-ministro que sabe falar a um bom que não sabe"). Também os havia, igualmente cultos e inteligentes, que diziam que Ferreira Leite não servia para primeiro-ministro porque era feia. Deviam pensar que o PM serve para dormir com os portugueses. Gostam de ser embalados, sem dúvida.

Uma analogia, sem dúvida

Os 700 metros até ao Rato são muito mais "curtos" do que os mesmos 700 metros noutro sítio. Talvez porque no primeiro caso são a direito, lógicos; e no segundo às curvas, fragmentados. Não há nunca mais de 100 metros seguidos na mesma direcção.

Ideais, idealistas

Admiro muito as pessoas que têm ideais; mas admiro ainda mais quem os teve e os perdeu. É preciso mais coragem do que para não ter tido, ou para continuar a tê-los. E, sobretudo, muito mais honestidade.

A semântica do calão

Há uma diferença muito grande, apesar de semanticamente serem parecidas, entre "vergar a mola" e "dobrar a espinha". Eu vergo muito a mola, mas dobro pouco a espinha. Handicap que, sem dúvida, explica algumas coisas; mas justifica-as todas.

Insónia, de novo

A insónia é a forma que o corpo encontra de se vingar por estar sozinho. Ou se sentir sozinho: uma insónia partilhada não é insónia, é uma alegria.

Redifusões

Não por estar sem nada para dizer que faço estas redifusões: nunca tive nada para dizer. Gosto de ver o que ainda é; o que já foi não me interessa.

Redifusão - 9

"Cada vez me interesso menos, mas em algumas áreas abro excepções.

The Keys to Your Heart

You are attracted to those who are unbridled, untrammeled, and free.
In love, you feel the most alive when your lover is creative and never lets you feel bored.
You'd like to your lover to think you are optimistic and happy.
You would be forced to break up with someone who was emotional, moody, and difficult to please.
Your ideal relationship is lasting. You want a relationship that looks to the future... one you can grow with.
Your risk of cheating is zero. You care about society and morality. You would never break a commitment.


Não acredito nestes "testes", claro. Mas este fascinou-me. Ele há coincidências do arco da velha. É de 2005, creio.

Redifusão - 8

"Quatro coisas o interessavam: o mar, a luz, as palavras e as pessoas. A ordem variava; tudo o resto não passava de epifenómenos. Durante uma vida - ou várias - tentou misturar isto tudo."

Janeiro de 2009. "Vidas, misturas". Mais actual do que nunca. Um dia alguém me disse que devia usar esta frase como epígrafe para uma versão em livro do DV. Concordo. Pena não haver versão em livro do DV. Esta já basta.

Insónia

Uma insónia como um nevoeiro, espessa de cortar à faca. 

Autoretratos polissilábicos

"Monodactilógrafo" é certamente mais simpático do que "mono dactilógrafo". Mas não é mais verdadeiro.

Derrotas, janelas

Vencedora é uma pessoa que sabe fazer as derrotas escorrerem-lhe pela memória como gotas de chuva por uma janela fechada. Os perdedores esquecem-se de fechar a janela.

Isto dito

Há dias em que uma pessoa desce a rua do Alecrim e parece que está a descer para o sol, para o centro do sol.

5.4.10

Angélique Ionatos

E como estamos em Theodorakis:



E como estamos em Angélique Ionatos



(Aqui com Nena Venetsanou, num disco chamado Sappho de Mytilene, que é de longe o meu favorito dela. De muito longe. Comprei-o em Atenas.)

Milva - Ave Maria

Um longo poema, escrito lentamente: um verso uma vida.



Ou um dia:

Noite, sonhos

À noite transformam-se em sonhos. Deve ser por isso que gosto tanto delas; vivem de noite, e de ti.

As palavras

Pouco a pouco regressam a casa. Ora rebeldes, ora domesticadas; livres ou submissas. Depende de ti, dependem de ti.

Noite, espera

Há uma noite algures à tua espera.

Medo

Há poucas razões para ter medo: não é quando estás no meio das cataratas que te vais pôr a pensar. Melhor tê-lo feito antes. Agora desligas o cérebro e nadas. Ou danças, se queres morrer en beauté. Tão pouco deves tentar perceber se o rio é lindo ou feio; e se as quedas são altas ou baixas. Nada, ou dança. Não penses; nem - muito menos - fales. Não são as palavras, o medo ou as ideias que te vão tirar vivo daí.

O melhor é nadares, pensando bem. Morrer afogado no passado pode ser muito bonito, mas é estúpido. Afoga-te no futuro, se queres morrer em beleza. Sempre terás feito um bom bocado mais de passado; e a dança terá servido para alguma coisa.



Sam "le Pigeon Voyageur" Mangwana



[Bom, também podia ser "le Grand Pigeon Voyageur", não?]

Palavras, música



Só me apetece escrever sobre as palavras, mas elas cansaram-se de mim e refugiaram-se na música, as felizardas.

Diamonds on the sole of her shoes

E já que estamos on the mood for partying (as reminiscências não são sempre tristes, ora essa)...

Irish Pubs

Dessy Walls

O Pub onde o ouvi pela primeira vez, em Kinsale:

Depressão

O melhor remédio para uma depressão é uma pessoa cansar-se dela. As depressões não aguentam a falta de atenção.

Olhos nos olhos - Maria Bethânia

Que fosse eu a deixar ou o deixado as rupturas sempre me deixaram mal, ferido, magoado. Até que um dia apercebi-me de que já não era sempre assim. Não sei se fiquei a ganhar com a troca, mas acho que sim. Espero, pelo menos.

"Chocantes" e "Obscenos"

Segundo o Público de hoje, António José Seguro considera "chocantes", "imorais" e "obscenos" os valores das remunerações de António Mexia (3,1 milhões de euros). Eu não tenho assim grande opinião sobre isso; à partida não me choca muito.

O que me choca realmente, e acho obsceno e imoral, é que haja pessoas a receber pensões de 200 e 300 euros mensais; pessoas a receber o salário mínimo nacional; pessoas a receber o RMI como complemento a outros ganhos. Isso sim, acho realmente chocante.

Até o caso do jovem administrador da PT me parece mais chocante, obsceno e imoral, apesar de a PT ser muito mais "privada" do que a EDP: é que para além de tudo o mais, o senhor tinha uma chocante e obscena falta de qualificações para aquele lugar. Coisa que de Mexia, pelo menos - e por muito que se possa pensar - não se pode dizer.

Publicidade interessada

No Hotel da Lapa, no dia 15 de Abril (uma quinta-feira) às 18h00, mais uma actividade Ler por Aí: Il Gattopardo. Um livro fabuloso num local de sonho.

Sócrates, Simplex, PRACE e "isto"

Esta entrevista é brilhante, imprescindível e, parece-me, paradigmática do modus faciendi de José Sócrates. A ler absolutamente. Como ponto de partida uma boa ideia que se desfaz no caminho porque o objectivo não é o conteúdo, é o show. A prova (como se fosse necessária; mas enfim) de que temos funcionários públicos de excelente nível (volto a pedir desculpa por ter de o sublinhar). Uma machadada muito grande em quem tem esperança de que "isto" melhore. "Isto" só vai melhorar para quem já está bem, pela razão simples e irrefutável de que não é por falta de saber que "isto" está como está: é por falta de vontade. E essa não vai aparecer tão cedo, porque para que "isto" melhore para todos, aqueles para quem "isto" está bem vão, forçosamente, perder regalias. E isso eles não querem, natural e compreensivelmente.  

O fim de um dia

O dia chega ao fim; não é só um dia, nem só um fim. É o de muitos dias, de muitas coisas; um fim bom. Amanhã é outro dia. O primeiro de uma infinita série de amanhãs.

Redifusão - 7

Percorrer-te como percorro Lisboa, cada colina passo a passo, dedo a dedo, milímetro a milímetro; esperar por ti como espero pelo vento num dia de calmaria, ou pela calma num dia de tempestade; fazer em ti os dias de calma, e contigo as tempestades; olhar-te e ver nos teus olhos o raio verde e nos teus cabelos negros o fim de um quarto de noite, no teu sorriso o nascer do sol. Olho-te e vejo-te, Lisboa e mar: navegar-te, percorrer-te, tocar-te, fender-te. És um mar, amor, és uma vida, uma rua de Lisboa, as ruas todas, os telhados, a luz, és o vento nas vagas. Amar-te, percorrer-te, navegar-te, fazer de um suspiro teu o vento, na tua pele o mundo, em ti a vida.

[Havia uma fotografia da Luísa no original. As redifusões são umas mais outras menos editadas. Não há critério nenhum para a escolha dos posts, se não o facto, a confirmar eventualmente, de. Esta é de Janeiro de 2008, creio. O título era "Lisboa, amar, mar". Há poucas coisas que me irritem mais do que procurar um determinado post do qual recordo o tema e uma ou outra frase e não encontrar. O que não deixa de ser uma sorte para os leitores: já não bastaria uma vez, ainda teriam que levar com asneiras  dobradas.]

4.4.10

Caixas de comentários

Uma das coisas que me fascina em alguns comentários de um outro blog onde escrevo é ver a quantidade de iliteratos funcionais que há neste país. É pura e simplesmente inacreditável a quantidade de pessoas que sabe ler mas não percebe o que lê, e reage emocionalmente, como se estivéssemos a escrever para as atacar pessoalmente.

V. M. Bhatt

Já agora...

Ry Cooder & John Lee Hooker

Estou a ouvir um disco de Ry Cooder com V. M. Bhatt chamado "A meeting by the river". É uma coisa linda de morrer, e vim ao Youtube procurá-la. Não encontrei.

Mas em contrapartida encontrei esta pérola, de uma beleza arrepiante:



Adenda: está aqui.

Pensamento mágico

Não é preciso ser grande matemático para se ver que quanto mais tempo uma loja estiver aberta mais empregos cria. Mas é preciso ser sindicalista luso (e não só luso, verdade seja dita; mas com o mal dos outros os outros que se amanhem) para se achar simultaneamente que o desemprego é uma praga  (é, sem dúvida) e que as lojas devem ter horários extremamente rígidos e controlados não pela procura mas por uma administração qualquer.

Corporativismo

Porque é que as corporações têm tanta força em Portugal? 

Çanta paciência


A CP (uma empresa que, relembro, acredita que o TGV é uma prioridade) fez recentemente uma mudança de bilhética. Uma mudança catastrófica de bilhética; alguns adjectivos são importantes e não devem ser escamoteados. Em breve será, creio, estudada nas escolas de gestão como exemplo do que não se deve fazer. Quem, como eu, utiliza a linha de Cascais de uma forma que não justifica a compra de um passe mensal deve, cada vez que o faz, sofrer a confrangedora (e não só confrangedora; revoltante: a CP custa muito dinheiro aos contribuintes) incompetência daquela administração. Hoje na estação do Cais do Sodré era o caos: as máquinas instaladas não têm débito para tanto movimento (e não vale a pena virem-nos dizer que as viagens se podem comprar adiantadamente - os turistas não seriam talvez a maioria dos passageiros que pretendiam comprar bilhetes, mas eram em número significativo) pelo que as bichas eram monstruosas; algumas das máquinas estavam avariadas; os poucos funcionários da CP presentes faziam corajosamente face aos protestos dos passageiros fugindo (com uma notável e honrosa excepção). Estive mais de dez minutos numa bicha que avançou talvez de dois ou três lugares porque as máquinas são lentas, não são intuitivas, e - aquela onde estava - não aceitava notas. Acabei por apanhar o eléctrico até Belém - onde ainda há máquinas das antigas, e lá comprar o bilhete.

Não tenho nada, note-se, contra a bilhética sem contacto. Em Paris e Londres é esse o método usual e funciona muito bem. O que está errado em Lisboa é a forma como a transição foi feita - parece que foi gerida por um adolescente sob LSD. Cada vez que apanho o comboio em Cascais ou Lisboa para Lisboa ou Cascais tenho que tirar o bilhete da carteira três vezes: uma para entrar na estação, outra para o mostrar ao controlador e outra para sair; apesar de serem iguais na forma (ou semelhantes, há uma diferença nos cantos) os cartões com viagens da CP não podem ser usados na Carris ou no Metro - o que de novo obriga a tirar o respectivo bilhete da carteira (isto apesar de haver passes combinados - se há passes, porque não bilhetes?); ao princípio costumava ter várias viagens no cartão, mas depois descobri que se tiver por exemplo uma viagem Lisboa - Cascais já não posso carregar uma Cascais - S. João do Estoril.

Pergunto-me se a CP não devia dar prioridade a melhorar o que tem, em vez de sonhar com TGV.


Precursores

Cada vez que um católico sente uma irreprimível necessidade de falar com Deus de uma forma pessoal vai ter com um padre e confessa-se; um blogue (enfim, certo tipo de blogues) deve ser mais ou menos a mesma coisa, mas substituindo Deus por vida: quando quero falar com a vida escrevo. Nos outros momentos vou à missa. Às missas. Todas as missas.

Noite, dia, vida

É tarde. Gosto tanto da noite como do dia. Enfim, não: um bocadinho menos. A noite é a essência do dia, e eu gosto - ou melhor, não me importo - das coisas em bruto, por lapidar. Viver é ter nas mãos um diamante acabado de extrair. Viver é uma transformação; uma viagem ao essencial. Começar com um diamante em bruto e acabar com o Shah Akbar. Tal qual amar, de resto.

Flores, vida

As bocas-de-leão continuam a abrir-se; juntei-lhes uma rosa cor-de-laranja. O conjunto ficou muito bonito. A vida devia ser assim: junta-se uma rosa, e tudo fica perfeito.

Je suis sou

Claude Nougaro: "Je suis sou".

Passei uma noite inteira com este senhor em Genève a beber e a honrar esta canção. Já não me lembro do que falámos. Tenho-a honrado muitas vezes. Não há razões para não a honrar todos os dias.

Île de Ré

"Ile de Ré". (http://www.musicme.com/. Claude Nougaro.)

Pedido

Se tivesse que pedir uma coisa, uma só, a Deus pedir-lhe-ia que me ensinasse a lidar com a normalidade. Pode parecer pouco, mas é pedir o mundo.

Verdade

A verdade não está nos ricos, nem nos pobres, ou remediados. Não está nos feios, nos bonitos, nas sensuais, nas distantes, altaneiras. A verdade não está na beleza, e muito menos na fealdade; não está na noite, no dia, no mar ou na montanha; não está num sorriso, num ventre que se oferece, ou te pede; numa pele.

A verdade não está num passeio ao longo dos cais de Genève, nas ruas de Paris ou nas de Londres, tão monótonas; não está nas navegações no lago Tanganika, nas montanhas do Sud Kivu, na Península de Burton, provavelmente a coisa mais bonita que vi na vida; nem nos 12 Apóstolos de Cape Town, num pôr-do-sol nos trópicos, no Rift, num dia de chuva nos planaltos burundeses.

Não está em ti - se bem tu sejas uma das imagens da verdade - nem em Bach, tocado por Gould; não está num cântico de Hildegarde von Bingen, num poema de Júdice ou de Pedro Támen, num conto de Borges, nos livros todos de Marguerite Yourcenar ou de Beckett.

A verdade não está num sorriso bonito, convidativo; na música de Steve Lacy ou nos pianos de Mal Waldron ou Keith Jarret, na energia tectónica de Miles, na voz de Jeanne Lee, num solo de guitarra de John Lee Hooker ou Jimi Hendrix, na emoção dos Deep Purple, na leveza de Lightin' Hopkins, na impetuosidade de Koko Taylor.

Não está na tristeza - longe disso - nem na alegria; não está naquilo que queremos, nem naquilo que nunca teremos (se bem esteja mais perto do que nunca teremos do que do que já temos); não está na estúpida e incontrolável vontade de descobrir o que não conhecemos, ou confirmar o que já sabemos.

A verdade não está nesta irreprimível vontade de me desfazer, desaparecer, diluir, esfarelar, ferir, magoar, morrer, arder. Nem na quantidade de páginas brancas que serão, quer queiremos quer não, obscurecidas com tinta. Não está no amor todo que te fiz, nem no que te farei. Não está no desejo, meu amor - não é a base do meu amor por ti, mas a consequência.

A verdade não está nesta noite, que ainda não começou e já acabou, nem na de amanhã; não está na tua ausência, nas inúmeras chegadas e partidas de que a minha vida é feita, nos maus whiskies ou bons vinhos que já bebi, e beberei, se Deus quiser.

A verdade não está em nenhuma destas coisas porque a verdade não está, é. E uma vida não é encontrá-la: é procurá-la.

Palavras à toa

Palavras à toa, visivelmente à procura de um destino. Afogam-se num copo de tinto, medíocre. A mesa tem chimpanzés que adoptam, futebolistas que se penteiam de uma forma especial para celebrar os vinte anos de um jornal, portugueses que aceitam trabalhar mais pelo mesmo dinheiro mas não o mesmo por menos. Palavras, palavras, palavras.

Palavras que esvoaçam como pardais perdidos, corvos saciados, abutres bêbedos. Palavras.

O melhor restaurante do mundo

Hoje fui jantar ao Café Buenos Aires. Acredite-se ou não consegui mesa apesar de não ter reservado. E pensei "isto é o melhor restaurante do [meu] mundo". ("Meu" é a palavra chave, para quem não percebeu). E depois pensei "o que é o meu mundo"?

Por isso aqui deixo uma lista dos melhores restaurantes do mundo [meu mundo; é um mundo pequeno, eu sei, quando comparado com o de outros. Mas é o meu. E foi vivido à exaustão], objectiva e - claro - definitiva.

Lisboa - Café Buenos Aires*;
Cascais - Melody;
Funchal - O Arco;
Faro - Aldeão;
Paris - Chez Janou*;
Salvador - Floresta Tropical;
Genève - dantes era o La Bourlingue. Agora aquilo está uma porcaria. Não sei. Gazelle d'Or;
Londres - India Club*;
Marselha - não me lembro do nome. Fica à frente de um restaurante judeu, não muito longe da Opéra. Sublime. Aberto até às seis da manhã. O judeu também é bom;
Valencia - Valentina (não conheci muitos, admitidamente);
La Rochelle - São muitos. Não me lembro de todos; come-se bem em La Rochelle, mesmo que não se queira;
Bujumbura - Kasuku;
Lubumbashi - o restaurante do Centro Hípico. Os melhores bifes da galáxia, sem qualquer exagero.
Nairobi - Indy;
Maputo - Piri-piri, mas sei que não é o único; Costa do Sol.
Jo'burg - É em Melville. Não me lembro do nome e não conseguiria lá chegar.
Cape Town - idem, mas em Camps Bay.

*- Deus, que escolha tão difícil.

Serviço público - Bares Lisboa

Quando penso "é tudo uma merda" tendo a dizer-me que quem está enganado sou eu. Hoje, graças a um jornal (não me lembro qual) confirmei essa opinião: Purex, na Rua das Salgadeiras.

(A rua é pequena e o bar descobre-se logo, para quem vá depois das onze da noite. É ao lado de uma galeria de arte que tem uma horrorosa, pedante, vazia, detestável, inútil exposição de fotografias de um fotógrafo chamado Mário Garrudo).

Magnífico: estou enganado.

"É assim"

Haverá maneira de se ensinar aos empregados de um bar, ou restaurante, ou assim, que não se responde à pergunta de um cliente começando com "É assim"?

Lamento

Posso viver sem ti; mas não sem os meus livros. Descobri isto hoje, dia trágico entre muitos. Desculpa.

Diferenças

Há uma diferença entre "ser pobre" e "não ter dinheiro"? Há, mas é uma chatice procurá-la.

[Ou "uma maçada", para quem preferir].

3.4.10

"LITORAL DE CASCAIS ASSASSINADO POR INDOLÊNCIA"

Não resisto a publicar na íntegra este post do Portugal Vela. Conheço o Miguel Lacerda há muitos anos; é das poucas pessoas pessoas no nosso país e nesta área por quem tenho um respeito sem fim; e acho incompreensível, dolorosamente incompreensível, como se deixou a situação chegar a este ponto.

"Infelizmente, virou a moda nesta semana Santa (Páscoa), a apanha de bivalves, moluscos e crustáceos (mexilhões, lapas, burriés ou caramujo e perceves).

Não seria preocupante se este facto se concentrasse no simples cidadão que vai apanhar 2 ou 3 kg para comer junto da família. Não é o que se está a passar, são profissionais que vão ás centenas e apanham em pouco mais de duas horas na baixa-mar, toneladas de organismos marinhos.

Já no ano passado denunciei (por escrito), este facto às autoridades competentes que fazem questão de ignorar o assunto, porque é incómodo, de difícil trato e muito comprometedor.

Na Quinta-feira passada, tomei a iniciativa de relembrar que isto iria voltar a acontecer. Mais uma vez ninguém se preocupou com o assunto. Esta mensagem vai no sentido de pedir ajuda aos meus amigos que, divulguem este facto. Espero assim conseguir surtir algum efeito a quem de direito.

Vivemos num país a brincar, onde os projectos e as acções são de fachada, pouco comprometedores, ou então megalómanos de grande visibilidade e retorno imediato, nada que satisfaça a realidade e o bom senso. Quando é necessário tomar medidas mais embaraçosas ou drásticas, rabinho entre as pernas e desaparecem!

Foto a foto descreverei com mais pormenor o que se está a passar:



Isto é só um exemplo numa pequena área no mexilhoeiro na zona da Guia. São centenas de pessoas que na baixa-mar limpam por completo as rochas. Isto passa-se em toda a costa, em Cascais as zonas mais afectadas são quatro, Cabo Raso, zona da Guia, Bafureira e Avencas.

Queixamo-nos que cada vez temos menos peixe na nossa costa, pudera.. toda a acção que é feita é intencionalmente direccionada em sentido contrário.Como cascalense sinto-me ofendido de não ter servido de nada a minha denúncia e o meu aviso, e mais ainda de não ter visto ninguém fiscalizar esta acção.


Estas zonas acabam por ficar completamente desertificadas de qualquer ser marinho, são anos para se recomporem.

Fala-se e brinca-se muito de protecção, preservação, acções de sensibilização, mas quando é preciso tomar medidas sérias e verdadeiramente eficientes nestas áreas…É MENTIRA!

Aqui não existem gravatas, câmaras fotográficas, televisões nem público… como tal, pouco interesse tem!


É um pequeno exemplo de o que um indivíduo apanha durante cerca de 2,5h na baixa-mar, se repararem bem pode ter mais de 50Kg de organismos marinhos capturados, multipliquem isto por umas centenas de pessoas…em dois ou três dias.


Esta apanha é proibida feita desta forma, deve ser controlada e sazonal, quem o faz tem que ter licenças e métodos de captura, as autoridades fecham os olhos.


Esta inacção por parte das autoridades competentes, ou os focos centrados em coisas fáceis e fúteis, contribuem também para a degradação e empobrecimento dos nossos recursos marinhos.


Não sou fundamentalista, mas poderei afirmar que tenho uma noção muito exacta de como se encontra a nossa costa e o estado actual dos recursos marinhos.


Não é difícil perceber que algo de anormal se está a passar nestes dias, só as autoridades não o querem ver ou tomar medidas, pois não há lugares para estacionar junto aos locais críticos.

Ao fim da maré, foi ver centenas e centenas de sacas a entrarem nos porta-bagagens das viaturas… onde estava a fiscalização?


Queridas gaivotas, procurem outro lugar… pois aqui qualquer dia só têm pedra para comer… nessa altura vai aparecer um brilhante que tem a excelente ideia de salvaguardar a nossa costa.

Começa a ser típico… basta ver a Avencas!"


E, de passagem, aproveito para louvar o Portugal Vela e o magnífico trabalho de divulgação que está a fazer, e a agradecer-lho.

Cidade, calma

Manhã de um sábado de férias; a cidade está calma, silenciosa. É uma calma estranha, sensual, apaziguada. Não sei porquê sinto-me como se estivesse contigo no sofá de uma sala, no fim de um dia de trabalho. Tu lês e acaricias-me lentamente; eu bebo um whisky e deixo-me acariciar. Deve ser daí que me vem esta sensação: da ideia de estar a ser acariciado pela calma da cidade, na manhã de um sábado de férias. Deixo-me envolver pelas ruas, pelos prédios que tão bem conheço, pelo silêncio como por ti, pelas tuas festas doces, suaves, lentas. Não quer dizer que não goste da cidade nos dias buliçosos da semana: gosto, claro. Mas que seria de um amor se não houvesse calma? Que seria de mim sem as tuas mãos leves, ausentes?

Notícias da frente floral; ou: Burning pride

Os crisântemos estão a perder um pouco de frescura. Mesmo assim aguentaram-se bastante bem - e vão aguentar-se ainda mais, não os vou deitar fora. Já as bocas-de-leão estão sublimes. São bonitas e generosas: continuam a abrir-se, e o branco a crescer por ali acima. A mistura de crisântemos e bocas-de-leoa (gosto mais de leoas) tem tudo para dar errado, mas está a dar certo (onde é que eu já ouvi isto?) Vou pôr-lhes um bocadinho mais de água e pedir-lhes mais um par de dias. Sim, eu sei. Contento-me com pouco; mas entristeço-me com pouco também. Felizmente, contento-me e entristeço-me pouco. Não gosto de montanhas russas. Prefiro aquelas planícies onde íamos correr, apanhar flores, rir e fazer amor. Lembras-te? Não, claro. Ninguém se lembra do que não fez; excepto eu, quando olho para misturas improváveis. E penso em Dylan:

"Too proud to die, broken and blind he died
The darkest way, and did not turn away.
A cold, kind man brave in his burning pride

On the darkest day. Oh, forever may
He live lightly, at last, onthe last, crossed
Hill, and there grow young, under the rass, in love,

Among the long flocks, and never lie lost

..."

Está lá tudo. Por isso me lembro de tudo, mesmo do que não foi, e nunca será.

Ou seja

Ou seja. Este fim já acabou. Voltemos ao princípio de outro. Não nos conhecemos. Nunca nos vimos. Encontramo-nos num autocarro, ou na bicha do supermercado; ou naquele café tão simpático de onde às vezes tiro fotografias de árvores; onde quiseres. Um de nós mete conversa - melhor seres tu, eu sou tímido. O outro responde.

E assim por diante. Um fim constrói-se a dois, sozinho não se chega lá. Nem duma vez só. São precisas mais, às vezes. Ou seja, mais vezes.

Bomba aniversariante

Sete anos do Bomba é saber que dentro de meses o Don Vivo fará sete anos. Credo. Parabéns.

Retratos potenciais

A mulher tem as mamas, e o olhar inocente de uma barmaid irlandesa.

Aparências

Há qualquer coisa numa mulher magra e baixa, de cabelos pretos amarrados em rabo de cavalo que leva um homem ao amor, ou pelo menos ao desejo. O efeito é o mesmo, mas diversas as causas, se a senhora for alta e magra, loira e deixar escorrer os longos cabelos pelos ombros. É o mesmo, ainda e sempre, qualquer que seja o aspecto físico da senhora. O que leva um homem à loucura, ou ao desejo está em muitas e diferentes mulheres; mas não se vê. Ou melhor, vê-se. Mas não se traduz em palavras; nem numa aparência física.

2.4.10

Passado, passados

"Traz fotografias do passado", disseram-me recentemente. "Qual deles?", perguntei.

Matilhas

Nunca fui de matilhas, grupos, cardumes, bandos. Não gosto de unanimidades (apesar de apreciar os consensos, mas isso é outra história). Execro a doxa.

Ódios, forçoso é reconhecer, todos eles muito bem - e justamente - retribuídos.

Que maçada

"Que maçada", dizia o príncipe dentro do sapo. "Mais valia ser sapo dentro de um príncipe".

Contem comigo

Um lódão, dois lódãos, três lódãos. Por que raio de carga de água só pessoas destas, que não nos fazem falta nenhuma, é que vão para a política? Há quem diga que não os merecemos; eu acho que sim, por muito que doa: afinal alguém os elegeu. Uma maioria de alguéns.

Adenda: a farsa continua.

Princípio e fins

Bom, vamos a isto. É preciso voltar atrás, voltar ao princípio. Comecemos por definir "princípio": antes de nos conhecermos; ainda não existíamos um para o outro. Ou seja: não existíamos.

Sempre existimos. Não há princípio. Só há fim. Aliás: fins.

Sem ti

Já a noite vai a meio e eu a metade. Nunca saberei se é melhor meia noite se meio eu, mas suponho que seja a noite: quando anoitece anoitece por completo, ainda que a noite não passe de meio; já eu nunca passarei de metade. Sem ti.

1.4.10

Serviço público - Restaurantes Lisboa

Durante muitos anos frequentei regularmente o Porto de Abrigo. Era um excelente restaurante, com pratos como Pato com Molho de Azeitonas, Polvo no Forno, Vieiras Gratinadas com Mariscos. Depois fui-me embora, voltei, fui-me embora outra vez, regressei (várias vezes); e o Porto de Abrigo começou a ser como a casa daquelas tias de quem gostamos mas onde vamos para cumprir uma obrigação familiar, porque não as vemos há muito tempo. A cozinha não era bem aquela de que nos lembrávamos - mas as tias envelhecem, não é? - e o décor afinal de contas é o mesmo, e os primos iguais, mas mais velhinhos.

Hoje voltei lá com um amigo francês que apesar de viver em Portugal há mais tempo do que eu (vive aqui desde muito antes de ter nascido) precisa de vez em quando de um guia dedicado e desinteressado (enfim, não é bem verdade - estou muito interessado nos seus conhecimentos vínicos, no seu know how gastronómico, no seu espírito crítico).

O restaurante mudou. Isto é: não mudou. Melhorou. Melhorou muito, como se tivesse sido a prima (ou o primo, em certas famílias) a tomar conta da cozinha e tivesse deixado tudo na mesma - na realidade foi o neto do fundador, mas isso agora fica para depois. O pato com molho de azeitonas está igual mas melhor; o serviço idem; já da decoração não se pode dizer o mesmo: acrescentaram uma televisão, coisa que se a ASAE fizesse correctamente o seu trabalho e ele servisse para o que quer que fosse não seria permitido ("está sempre sem som", diz-nos o solícito e simpático neto); nem do esparregado: não está o mesmo, porque era pateticamente mau. Está exponencial, incomparavelmente melhor - melhor: está muito bom.

Uma morada esplêndida que volta a ser esplêndida: é esplêndido viver em Lisboa, tanto como ter morado.

Restaurante Porto de Abrigo
Rua dos Remolares 16
Tel.: 213 460 873

Fecha aos domingos.

Poemas no mundo flutuante

Que me perdoem as feministas e os talibans da língua, mas uma mulher condutora de eléctricos é uma wattman. Wattwoman seria, quando muito, uma personagem de Beckett.

Não é por aqui, eu sei, que devia ter começado a história. Assim não faz sentido. Eu vinha para casa no 15.

Melhor assim. Eu vinha para casa no 15. A wattman (uma jovem bonita, de longos cabelos pretos e sorriso claro) anunciou uma paragem. E logo a seguir, sem qualquer transição, começou a dizer Wasteland:

"April is the cruelest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.&
And when we were children, staying at the arch-duke's,
My cousin's, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.
In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in winter.


A maioria dos passageiros reconheceu-o imediatamente; claro. Estávamos todos siderados: a senhora dizia o poema num inglês primoroso, oxoniano, de cor. "Winter kept us warm", por exemplo; saiu perfeito. Podíamos ver o inverno do qual acabamos de sair (um bocadinho aos soluços, reconheça-se) e pensar "sim, estamos quentes".

Quando chegou a "I read, much of the night, and go south in winter" foi a apoteose. Levantámo-nos todos, batemos palmas calorosamente, e continuámos:

"What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water.


Foi muito bonito; a jovem senhora conduzia e dizia o poema ao mesmo tempo. Nós estávamos embalados: de pé, agarrados uns aos outros, declamávamos ao ritmo dos carris e dos abanões do eléctrico (que são, devo dizer, um dos seus grandes encantos) braços pelos ombros uns dos outros; "Who is the third who walks always beside you?" e olhávamo-nos para saber quem eram os terceiros.

Não havia terceiros. Nunca ninguém enganou ninguém naquele veículo. Celebraram-se vários casamentos entre Alcântara e a Praça da Figueira (enfim, dois; a verdade é mais pequena quando usamos números em vez de adjectivos, vá lá saber-se porquê) e nenhum divórcio.C'est dire.

Quando chegámos à Praça de Figueira desci e fui cumprimentar os pedintes, toxicómanos, skaters e prostitutas que por lá passam os tempos livres (ou ocupados, neste último caso, que esperar por um cliente também é trabalho, diga-se o que se disser). Nada disto teria importância se fosse frequente. Mas não é. Raramente apanho wattmen ou condutores de autocarro que conhecem Eliot. O mais das vezes ficam-se por Ary dos Santos, Natália Correia ou mesmo Manuel Alegre, não desfazendo.

Wasteland num dia de sol como hoje, com os passageiros numa inacreditável comunhão espiritual foi um dos grandes momentos da minha vida. Por isso não fui para casa e acabei a festejar no bar da Lourdes. Não sei se conhecem. É um bar do mundo flutuante, no primeiro andar de um edifício que agora é uma catedral mas antigamente era uma cervejaria, ou uma tipografia, ou assim. Confundo muito as coisas, coitado de mim. Por exemplo: confundo-te com um tall ship, e contudo sei que não passas de uma chata. Já com a Lourdes é ao contrário: parece uma chata e é um tall ship.

Bom, isto tudo para dizer que hoje comprei umas bocas-de-leão, pujantes, lindas, virginais (não sei porque as acho "virginais". Acho que gosto do som). Foram-me aconselhadas por uma senhora por quem não estive apaixonado nem dois meses, ou três. Deviam mudar-lhes o nome para "bocas-de-leoa", mas reconheço que isso é apenas porque gosto de leoas, sempre gostei, desde pequenino - coisas da mãe, de certeza; e porque cada vez que olho para elas tenho vontade de lhe voltar (refiro-me à senhora, naturalmente; não à mãe) para os braços, ou as garras, ou os dentes, ou os olhos, ou o sorriso, ou o humor, ou a pele. Não sei. Não sei nada, nunca. Nunca mais saberei nada. Mau.

Enfim. Já alguma vez apanharam um piloto de cacilheiros que recitasse um poema de Miguel Serras Pereira que é assim:

"Para fazer pairar
ao longe e ao alto
um tremular de mastros
na solidão do olhar

e para rasgar no corpo
a seara antiga
onde o tempo amou
e me deitará contigo

é que escutei na sombra
a vibração sem voz
da tua voz nas ondas
onde ecoa a morte
" ?

Há um ou dois, só, e não é muito fácil ter a sorte de atravessar com eles o Tejo. Logo a seguir há outro poema,

"O navio é o mar a bordo de quem nasce
a bordo de quem morre o mar é o navio

Jamais os dois navios porém se reconhecem
Olhe-os quem morre ou nasce

ou só o mar ainda
de que outros insistentes olhos de ninguém?
"

Há outros, mas os pilotos dos cacilheiros não os conhecem todos, sobretudo se estiver um dia de verão e a embarcação estiver cheia de suecas a caminho da Caparica. Tudo o que flutua é um mundo, mas o mundo não flutua. E as suecas tendem a fazer-nos esquecer a poesia; a nós e aos pilotos de cacilheiros, claro. Já quanto ao peso do mundo não sei se têm influência.

Depois é isto. Olho em volta e só oiço música. Escuto, e só vejo o mundo. Estendo a mão e ninguém a colhe. Regresso a Thomas (de onde nunca devia ter saído, há tanto tempo):

"Here in this spring, stars float along the void;
Here in this ornamental winter
Down pelts the naked weather;
This summer buries a spring bird.
...
"

Ou

"...
Seaports by a drunken shore
Have their thirsty sailors hide him
...
"

Dylan sabia o que é uma costa bêbeda, ou um marinheiro sedento. Eu não. Sei de ti, um pouco. Tomara não saiba mais. Sei de muitas outras. Sei de momentos que nos mudam o rumo (como se tivéssemos um rumo. Enfim. Isso é outra história). Sei de vidas que mudam por causa de um momento. É verdade. Sei de momentos que perduram uma vida (tenho dois desses, entre muitos outros). Sei de momentos que explicam uma vida. Sei de vidas que procuram momentos.

Sei de eléctricos onde se ouve Eliot; de cacilheiros de onde se vê o mundo; de pessoas com quem se reconstrói o universo; pouco mais.

(Para a Mariana e o Lourenço, como se. Com um beijo e dois abraços).