As fotografias são da Lena, os votos meus: Feliz Natal e Ano Novo Próspero a todas e todos os leitores do Don Vivo.
22.12.11
Diário de bordos - 221211
O AVOCET tem com a bolina e a velocidade a relação que eu tenho com os cem metros barreiras: sabemos que existe, temos imensa admiração e respeito pelos senhores e senhoras que praticam a modalidade, mas não é para nós, obrigado. Verdade seja dita que com o peso e o guarda-roupa que tem já muito faz ele.
(A maioria dos navegadores que conheço pensa que há um compromisso entre o conforto de uma embarcação e a sua velocidade. Não há: o maior conforto de um barco é ser veloz. Não incluo na equação as máquinas de regata, claro - seria preciso criar uma categoria diferente.)
É um plano Van de Stadt de 1971. É um barco bonito - quase todos os Van de Stadt o são - e poderia ser rápido - idem. Mas tem um mastro "Cape Town" (um metro mais curto do que o normal), as velas são de antes da invenção das velas e - como todos os barcos que servem de casa, sem excepção - tem toneladas de coisas em tudo quanto é sítio. Uma casa acumula tralha ao longo dos anos, é sabido. Um barco acumula dez vezes mais, num espaço dez vezes menor. A diferença é que numa casa esquecemo-nos do que temos, e num barco não: o dono sabe exactamente o que tem, onde e de que caixote do lixo o recuperou.
Junte-se a este cocktail um vento fraquíssimo e o resultado é 40' num dia.
O AQUARELLE tinha três velocidades: 1, 2 e 3 nós; o AVOCET, que é do mesmo clan mas um bocadinho maior, tem 4: 1,2,3 e 4 nós.
...............
Ainda é muito cedo para contar a história, tanto mais que ainda não acabou. Estamos na marina de Rivière Sense, em Basseterre, Guadaloupe, onde cheguei rebocado por uma vedeta do SNSM (o equivalente francês dos nossos Socorros a Náufragos).
Foi a primeira vez na vida - e espero que seja a última - que chamei um reboque para entrar num porto por causa de uma avaria. Mais do que justificá-lo, creio que as condições o exigiam: o vau de bombordo (sotavento) no convés, o de estibordo pronto a seguir-lhe o caminho [estava seguro por um centímetro de aço, numa circunferência de 15].
Passámos, a Lena e eu, quatro horas num semi-rígido que mete água mais depressa do que se consegue tirar e perde ar mais depressa do que se consegue encher. Um motor de 15 cavalos, e, num saco de plástico metido dentro de outro, o telefone - o VHF do AVOCET não funciona -, um pacote de bolachas e uma garrafa de água. Quatro horas a rebocar uma embarcação que deve fazer pelo menos 12 toneladas, com um mar felizmente não muito mau mas tão pouco chão.
Tirávamos a água com um balde, constantemente; assim que o nível baixava enchíamos os flutuadores (encher é um exagero - púnhamos-lhes ar, o que podíamos); nos intervalos tentávamos manter um rumo mais ou menos direito. Estávamos a vinte e tal milhas da costa e o objectivo era chegar a uma distância com rede para o telefone antes de a gasolina acabar.
Conseguimos cerca de meia-hora antes. Falar com o proprietário, acertar os pormenores, chamar a SNSM, descobrir que os serviços são pagos [oh quanto!], pensar nas inúmeras discussões de bistrot em que defendíamos que o deviam ser; e continuar o reboque, até a bateria do telefone se esgotar (já estava fraquinha no princípio) e a gasolina no tanque idem [boa decisão, os serviços da SNSM são pagos à hora e assim poupámos quase uma).
........
O AVOCET é uma magnífica embarcação, um plano Van de Stadt (já por aqui o devo ter dito) antigo. Não sou grande fã de quilhas corridas, poços centrais, velas grandes minúsculas e genoas a 170%, mas a verdade é que um grande desenho.
Infelizmente, sofre com a habitual combinação de falta de massa e viver a bordo - neste caso, em família, o que não ajuda: se numa casa a tralha se acumula sem que saibamos porquê, a bordo sabemos: chama-se o síndroma do "pode-vir-a-ser-útil". É um síndroma que ataca todos os navegadores, sem excepção. Uns mais, outros menos, mas todos o portam. Quanto menos massa se tem mais dele se sofre; se à falta dela se junta o facto de viver a bordo temos a sopa feita e entornada.
Assim por alto deve haver uma tonelada de material dispensável acumulado numa total desordem nos diferentes paióis e arrumações. Tudo: ferramentas, utensílios eléctricos (o barco tem um inversor), peças desconchavadas, bombas novas, bombas velhas, dois dinghies - o semi-rígido de que acabo de falar e um coco rígido, sem motor -, uma prancha de windsurf, porcas, parafusos, mosquetões, mais ferramentas, sacos de duche, material para fibrar, material para pintar, ferragens de toda a forma e feitio, cabos das mais diversas bitolas, três ferros - todos eles pesados de mais - jerrycans de gasolina, de água, de gasóleo, mais ferramentas diversas e mais de tudo isto. Tudo a triplicar, quadriplicar - o que não signica que tudo funcione. Há três alicates de pressão, mas todos eles enferrujados; não sei quantas chaves de fendas, mas só uma pequena fracção delas em estado de ser utilizada normalmente; duas caixas com pirotécnicos - mas os de uma delas expiraram em 2009 (e quando perguntei ao Ph. se os podia deitar fora - são perigosíssimos, os pirotécnico fora de data) disse que não.
Tudo isto mais velas , molinetes, escotas, "electrónica" (não resisto às aspas, apesar de estar um pouco nas tintas para a dita), mordedores - não há um único a bordo - adriças de outro tempo (por acaso aquele em que comecei a navegar em cruzeiros, pelo que nada disto é uma novidade). Mas imagino o espanto de um miúdo habituado a uma embarcação moderna.
O problema é que a manutenção é feita com cordéis, normalmente; e dos mais baratos - se alguma coisa correr mal encontra-se sempre uma solução. Neste caso o que correu mal foram os vaus, que estavam - descobri agora - a partir-se há muito tempo, sendo que a "solução" era ir fazendo marcas para medir a progressão das rachas.
O de bombordo foi-se por 15 nós de vento. Às três e meia da manhã estava a Lena de quarto; chamou-me: "o pau de spi despeou-se". Quando saí continuou "não é o pau de spi, é outra coisa qualquer". Era o vau.
Pouco havia a fazer: era o vau de sotavento, estávamos a avançar bem, o de barlavento parecia em ordem, de modo fiz pouco: amarrei o brandal para não andar a balançar-se dum lado para o outro, fiz o mesmo ao vau no convés, mas não voltei a deitar-me.
Às cinco e meia o vento caiu um pouco e fui lá acima, apesar de ainda não ser dia. Dava para ver que o vau não era reparável (ainda tive a esperança de que se tivesse simplesmente desencaixado) e - pior - tacteei o de estibordo e vi que estava a pouco de cá vir parar abaixo.
Arreei o pano todo, claro - a vela grande estava toda rasgada - e comecei a pensar no que fazer. Continuar estava fora de questão - pouco mais e teria o mastro no convés; fazer a reparação no mar - no estado de fadiga em que tenho andado parecia-me irresponsável. Uma queda seria mais do que provável, e para além de me magoar a Lena não saberia o que fazer; ir dormir e tomar uma decisão quando estivesse menos canssado - uma excelente solução, mais frequentemente do que se pensa - aborrecia-me porque a deriva nos afastava do caminho [depois vim a saber que derivámos pouquíssimo] e porque não descortinava solução a bordo em tempo útil: ou o vento caía muito, o que a meteorologia não previa, ou teria de passar um bom par de horas, ou vários, pendurado no mastro - perspectiva essa que não me atraía de todo.
Ou seja: precisava de um reboque. Nunca pedi um, apesar de já ter estado várias vezes em embarcações - e até um navio - que o pediram. É uma coisa que me repugna, tal como regressar ao porto que se acaba de deixar, ou rizar porque "pode vir mau tempo" (riza-se quando o mau tempo chega, não antes).
E para pedir um reboque ou esperava que passasse um navio e utilizava os pirotécnicos que estavam o prazo ou utilizava o telefone. Estávamos a 26 milhas da costa. Pouco mais e teríamos rede. Por isso passei quatro horas dentro de um dinghy a cair de podre.
A SNSM chegou duas ou três horas depois - o tempo de descansar um bocadinho e pôr ordem no bote.
O mestre fez uma manobra de atracção comigo de braço dado que me vai ficar na memória.
E cobrou um montante que calo, por vergonha. O senhor que me respondeu ao telefone "não sabia" o custo. Se soubesse talvez não os tivesse chamado e fosse dormir. Não sei.
Não sei funcionar com se, infelizmente. Talvez os tivesse chamado.
Felizmente os franceses são franceses e, por muitos defeitos que tenham têm também algumas qualidades, para além do queijo, do vinho, da Marguerite Duras, le Clézio, Camus, Jacques Brel (que por acaso era belga, mas pouco importa), Serge Gainsbourg, Cognac (prefiro Armagnac, mas não quero dar a impressão de ser pedante), Pineau des Charentes, Yves Montand, Raymond Aron (deixo o melhor para o fim) e muitas outras coisas; e lá consegui chegar a um acordo quanto ao pagamento [hoje enviaram-me um mail a dizer que se "tinham enganado" e afinal a factura era 25% inferior à que me deram inicialmente].
......
Saímos de Basseterre dia 20 às 17h30, areboque da mesma lancha do SNSM. Chegámos a Falmouth às 09h30 do dia seguinte - e podíamos ter chagdo ante, se eu não tivesse tido um daqueles esquecimentos em que sou mestre. A média absoluta é de 4,71 nós, mas na realidade viemos em permanência a 6 /7. Parafraseando uma das minhas frases favoritas, "this boat can move, given the right stimulus". O estímulo certo, neste caso, são 25 a 28 nós pelo través (enfim, um bocadinho por ante-a-vante do dito, mas não vamos agora picuinhar).
Os vaus aguentaram, e a vela grande também. esta última não sei por que milagre.
Algumas fotos do iPhone, mais ou menos completamente desordenadas:
| Ao fundo, meio escondida pode ver-se a lancha da SNSM. |
| A marina de Rivière Sens. |
| A reparação do vau de bombordo começou cá em baixo. |
| Fica sempre inquietante, um mastro sem um vau. |
| Peixaria no campo. |
| Pai em St. George's Town, Grenada |
| Whisper Cove Marina, Woburn Bay, Grenada |
| O nosso dinghy após um dia no porto. Antes também estava assim. |
| Ainda não está tudo. Aguentou quase 30 nós de vento e várias viragens de bordo. |
| Pai nas alturas. |
20.12.11
14.12.11
Diário de bordos - 141211
Parece que está tudo. Nas viagens há um momento assim: um gajo sente que tem de se extrair de onde está. Largamos esta tarde, eu com a esperança de cá voltar em breve, a Lena feliz com a estadia. Grenada é uma ilha magnífica, linda, acolhedora.
.......
Aconteceu há dois dias, na segunda-feira, mas tem ficado por contar porque é daquelas coisas que não se sabe bem por onde pegar. Apesar de ser fácil determinar o princípio da história: comprei um pacote de amendoins no mercado; eram demasiado doces. De maneira dei-os a um senhor que vendia colares. O homem ficou sensibilizado pelo gesto, suponho, e dez ou quinze minutos depois, já noutra secção do recinto, veio ter comigo e disse "tu és o homem que me ofereceu os amendoins". Respondi "sim, sou" e propus-lhe irmos beber um rum, para celebrar (ele estava um bocado grosso, e pensei que não recusaria).
Aceitou imediatamente e levou-me para uma loja numa zona esconsa, labiríntica, apertada. Pedi dois runs e veio uma garrafa pequena, dois decilitros e meio, talvez. Para a pousar e servir os copos só havia uma mesa a poucos metros da "tasca" (entre aspas, porque mesmo tasca é demasiado sofisticado para descrever o local); e nessa mesa quatro senhores jogavam às cartas.
O resto é fácil de prever: a garrafa de rum foi dividida por todos; e para nos agradecer começaram a cantar de improviso, primeiro à Lena ("you are beautiful, you are beautiful" etc., não percebi a maior parte da letra) depois a Portugal (perguntaram-me de onde era), depois à unidade entre os povos (ou pelo menos pareceu-me).
Foi um momento agradável, apesar de o rum não ser grande coisa: 70º e um sabor a álcool puro - mesmo assim menos pronunciado do que o que comprámos há alguns anos, o Júlio e eu, que fazia 75º e era totalmente intragável. Este só o era parcialmente.
.........
Vamos embora. Os dias em Grenada são bons, como o foram todos os que já aqui passei. E como serão os que passarei.
.......
Aconteceu há dois dias, na segunda-feira, mas tem ficado por contar porque é daquelas coisas que não se sabe bem por onde pegar. Apesar de ser fácil determinar o princípio da história: comprei um pacote de amendoins no mercado; eram demasiado doces. De maneira dei-os a um senhor que vendia colares. O homem ficou sensibilizado pelo gesto, suponho, e dez ou quinze minutos depois, já noutra secção do recinto, veio ter comigo e disse "tu és o homem que me ofereceu os amendoins". Respondi "sim, sou" e propus-lhe irmos beber um rum, para celebrar (ele estava um bocado grosso, e pensei que não recusaria).
Aceitou imediatamente e levou-me para uma loja numa zona esconsa, labiríntica, apertada. Pedi dois runs e veio uma garrafa pequena, dois decilitros e meio, talvez. Para a pousar e servir os copos só havia uma mesa a poucos metros da "tasca" (entre aspas, porque mesmo tasca é demasiado sofisticado para descrever o local); e nessa mesa quatro senhores jogavam às cartas.
O resto é fácil de prever: a garrafa de rum foi dividida por todos; e para nos agradecer começaram a cantar de improviso, primeiro à Lena ("you are beautiful, you are beautiful" etc., não percebi a maior parte da letra) depois a Portugal (perguntaram-me de onde era), depois à unidade entre os povos (ou pelo menos pareceu-me).
Foi um momento agradável, apesar de o rum não ser grande coisa: 70º e um sabor a álcool puro - mesmo assim menos pronunciado do que o que comprámos há alguns anos, o Júlio e eu, que fazia 75º e era totalmente intragável. Este só o era parcialmente.
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Vamos embora. Os dias em Grenada são bons, como o foram todos os que já aqui passei. E como serão os que passarei.
13.12.11
Diário de bordos - 131211
A coisa começou com "pagas-me o bilhete de avião e eu trago-te o barco, e em troca páro em meia dúzia de sítios no caminho". Chegávamos domingo [chegámos] e largávamos segunda. Não havia nada a fazer no barco, o dono vinha antes e preparava tudo.
Mas houve uma greve dos pilotos da LIAT e o Ph. saíu de Antigua na quinta-feira, como previsto; pousou em St. Lucia e ficou lá o dia todo, mai-la noite; no dia seguinte voltou para Antigua. De modo cheguei no domingo e tive [tenho, ainda não acabou] de preparar o bote para a viagem. E não, não vamos parar em lado nenhum, que tenho trabalho à minha espera em Antigua.
Hoje estava tudo quase pronto: só faltava o gás (encher a garrafa) e a clearance (e as cartas, mas isso é outra história). Porém a companhia de gás recusou-se a encher a garrafa. Diz que tem demasiada ferrugem. Eu olho para ela (garrafa) e vejo inúmeros pontos sem ferrugem, mas eles devem ver as coisas diferentemente de mim.
De forma saímos amanhã, mas já não de manhã cedo. De forma acabo a tarde no Whisper Cove a ouvir Cesária Évora, Joan Armatrading e a beber rum com coca-cola, beta para os íntimos. De forma de novo se confirma a ideia de que é imprescindível ter um plano se se quiser não o respeitar; e mais uma vez se confirma a ideia que a felicidade está ali ao virar da esquina, e que a esquina está em nós.
Ou numa praia do sul de Grenada, que é onde vou levar a minha filha para vermos, ambos, o fim do dia no mar, não vá o fim do dia atrasar-se, ele também.
Um pai a toda a velocidade.
O S/Y "AVOCET", a nossa casa para os próximos dias.
Forçoso é reconhecer que a celeridade era justificada.
Mas houve uma greve dos pilotos da LIAT e o Ph. saíu de Antigua na quinta-feira, como previsto; pousou em St. Lucia e ficou lá o dia todo, mai-la noite; no dia seguinte voltou para Antigua. De modo cheguei no domingo e tive [tenho, ainda não acabou] de preparar o bote para a viagem. E não, não vamos parar em lado nenhum, que tenho trabalho à minha espera em Antigua.
Hoje estava tudo quase pronto: só faltava o gás (encher a garrafa) e a clearance (e as cartas, mas isso é outra história). Porém a companhia de gás recusou-se a encher a garrafa. Diz que tem demasiada ferrugem. Eu olho para ela (garrafa) e vejo inúmeros pontos sem ferrugem, mas eles devem ver as coisas diferentemente de mim.
De forma saímos amanhã, mas já não de manhã cedo. De forma acabo a tarde no Whisper Cove a ouvir Cesária Évora, Joan Armatrading e a beber rum com coca-cola, beta para os íntimos. De forma de novo se confirma a ideia de que é imprescindível ter um plano se se quiser não o respeitar; e mais uma vez se confirma a ideia que a felicidade está ali ao virar da esquina, e que a esquina está em nós.
Ou numa praia do sul de Grenada, que é onde vou levar a minha filha para vermos, ambos, o fim do dia no mar, não vá o fim do dia atrasar-se, ele também.
Um pai a toda a velocidade.
O S/Y "AVOCET", a nossa casa para os próximos dias.
Forçoso é reconhecer que a celeridade era justificada.
Palavras
Se o meu interlocutor fosse a vida, agora só teria duas palavras, ambas em maiúsculas, gritadas, urradas: SIM! e OBRIGADO!
Um vocabulário reduzido, eu sei. É como se houvesse uma relação inversa entre a vida e o vocabulário.
Um vocabulário reduzido, eu sei. É como se houvesse uma relação inversa entre a vida e o vocabulário.
Diário de bordos - 121211
São nove da noite. O Whisper Cove está a fechar, ao som de um pianista que não consigo identificar, mas suponho seja Brad Mehldau [não é. É uma antologia], dos múltiplos guinchos de toda a espécie de insectos, rãs, etc. e de algumas gotas de chuva que se atrasaram.
É pouco provável que consiga sair amanhã, mas não mudo o ETD; continua para amanhã ao fim da tarde.
A felicidade está ao virar da esquina. Basta encontrar a esquina certa. Um dinghy a toda a velocidade nas águas prateadas (é noite de lua cheia) e lisas de uma baía no sul de Grenada; um bar que fecha ao som de uma antologia de jazz; uma filha que se refere à viagem que aí vem como "também, são só cinco dias [de mar, sem escalas]"...
Ou as esquinas. Talvez haja muitas. Não sei. Percebo pouco de felicidade, muito menos do que do seu contrário, ou da sua ausência. Questão de prática: a felicidade é um empirismo. Requer prática.
.....
Yves Montand, vento, sol, verde, azul, calor. Há esquinas francamente simples.
O Gilles e a Marie-France são dois canadianos do Quebec que abriram uma pequena marina em Wobourn Bay, no sul de Grenada. Têm um restaurante, um mini-minimercado, WIFI e a melhor carne que tenho comido por estas paragens. E a melhor música, também. São encantadores.
Algumas nacionalidades têm esta característica: não conseguimos, por mais que tentemos (e apesar de sabermos que os há), encontrar-lhes um gajo antipático, idiota, palerma. Os canadianos do Quebec e os sul-africanos são assim. Ainda não conheci um (em viagem) que não fosse uma pessoa porreira, não há outro termo.
É pouco provável que consiga sair amanhã, mas não mudo o ETD; continua para amanhã ao fim da tarde.
A felicidade está ao virar da esquina. Basta encontrar a esquina certa. Um dinghy a toda a velocidade nas águas prateadas (é noite de lua cheia) e lisas de uma baía no sul de Grenada; um bar que fecha ao som de uma antologia de jazz; uma filha que se refere à viagem que aí vem como "também, são só cinco dias [de mar, sem escalas]"...
Ou as esquinas. Talvez haja muitas. Não sei. Percebo pouco de felicidade, muito menos do que do seu contrário, ou da sua ausência. Questão de prática: a felicidade é um empirismo. Requer prática.
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Yves Montand, vento, sol, verde, azul, calor. Há esquinas francamente simples.
O Gilles e a Marie-France são dois canadianos do Quebec que abriram uma pequena marina em Wobourn Bay, no sul de Grenada. Têm um restaurante, um mini-minimercado, WIFI e a melhor carne que tenho comido por estas paragens. E a melhor música, também. São encantadores.
Algumas nacionalidades têm esta característica: não conseguimos, por mais que tentemos (e apesar de sabermos que os há), encontrar-lhes um gajo antipático, idiota, palerma. Os canadianos do Quebec e os sul-africanos são assim. Ainda não conheci um (em viagem) que não fosse uma pessoa porreira, não há outro termo.
9.12.11
Diário de bordos - 091211
Tinha previsto uma viagem calma, lenta, com várias escalas. Não vai ser assim: tenho que chegar o mais depressa possível. Uma escala rápida em Bequia e será mar, mar, mar. Não é pior: estou a precisar de uns dias de mar.
Factos relevantes:
- Ontem perdi a máquina fotográfica. Caiu à água, por dez metros de fundo. Ficou lá;
- Hoje fui à praia;
- A febre do boat show já passou. É uma feira para profissionais e voltaram para os seus países respectivos. Quando voltar, Falmouth Harbour estará calmo. A maior parte dos mega-iates terá ido para St. Martin. Há menos mulheres, e deixaram de ser todas iguais;
- Já não posso dizer que nunca entrei num ginásio: tenho ido todos os dias, pelo menos duas vezes por dia e às vezes três. O duche da marina é lá.
Vivemos em Antigua, mas conhecemos Falmouth Harbour, Jolly Harbour e a capital, St. John's. É pouco, nada. E não me refiro só às paisagens: a Lena dizia-me recentemente que as pessoas do mar parecem viver noutro planeta. É verdade. O mar é um planeta diferente, quase auto-suficiente: temos os nossos supermercados, os nossos bares, a nossa língua, os nossos códigos. É pena; e a verdade é que me integro tão pouco neste mundo como no outro. As conversas do Skullduggery são as mesmas de qualquer bar de marinheiros em qualquer porto do mundo, e tão chatas.
Ocorrem-me os versos na parede do restaurante em Bequia: "I know them. I am one of them".
Preciso de mar como de respirar. Preciso de mar para respirar.
Factos relevantes:
- Ontem perdi a máquina fotográfica. Caiu à água, por dez metros de fundo. Ficou lá;
- Hoje fui à praia;
- A febre do boat show já passou. É uma feira para profissionais e voltaram para os seus países respectivos. Quando voltar, Falmouth Harbour estará calmo. A maior parte dos mega-iates terá ido para St. Martin. Há menos mulheres, e deixaram de ser todas iguais;
- Já não posso dizer que nunca entrei num ginásio: tenho ido todos os dias, pelo menos duas vezes por dia e às vezes três. O duche da marina é lá.
Vivemos em Antigua, mas conhecemos Falmouth Harbour, Jolly Harbour e a capital, St. John's. É pouco, nada. E não me refiro só às paisagens: a Lena dizia-me recentemente que as pessoas do mar parecem viver noutro planeta. É verdade. O mar é um planeta diferente, quase auto-suficiente: temos os nossos supermercados, os nossos bares, a nossa língua, os nossos códigos. É pena; e a verdade é que me integro tão pouco neste mundo como no outro. As conversas do Skullduggery são as mesmas de qualquer bar de marinheiros em qualquer porto do mundo, e tão chatas.
Ocorrem-me os versos na parede do restaurante em Bequia: "I know them. I am one of them".
Preciso de mar como de respirar. Preciso de mar para respirar.
Cinco minutos
Se soubesse escrever escrever-te-ia cartas de amor, longas cartas de amor cheias de encadeamentos brilhantes entre as estrelas e a tua pele, ou entre os teus olhos e as profundezas de uma gruta qualquer na Serra dos Candeeiros (não digo Fossa das Marianas não vás tu pensar que te ando a enganar com uma, ou várias, Marianas. E não digo Canhão da Nazaré porque não gosto de canhões; mas são ambos profundos, repara, e dariam belíssimas analogias com os teus olhos, tão profundos que eles são).
Mas não sei escrever e devo limitar-me a agitar-te palavras à frente como se te dissesse "olá amor acorda está na hora temos de ir trabalhar" e tu estremunhas e esfregas os olhos (primeiro um depois o outro, nunca os dois ao mesmo tempo) e dizes-me "quero dormir mais cinco minutos" e eu respondo "sim", claro, porque já sabia que as minhas palavras não te acordariam tal como as minhas mãos de manhã não te acordam tal como estas palavras que te agito à frente dos olhos são mais um cobertor nestas manhãs frias e tu aconchegas-te nelas e dormes mais cinco minutos e não são dedos que te percorrem como o vento percorre a superfície do mar e nela deixa uns traços que se desvanecem logo a seguir.
Ao menos isso, repara, embrulhas-te nas palavras e dormes; talvez sejam elas que te percorrem a pele e nela deixam traços que não se vêem a menos que tenhamos olhos particularmente treinados - tal como os cinco minutos de sono que todas as manhãs me pedes só se vêem se olharmos muito bem para eles.
São cinco minutos só, repara, passam num instante mas é assim que começamos o dia, tu embrulhada nas palavras e eu em ti, no teu sono, nas tuas coxas tão duras, no arfar simples das palavras "deixa-me dormir mais cinco minutos" "sim" "sim" "sim".
Mas não sei escrever e devo limitar-me a agitar-te palavras à frente como se te dissesse "olá amor acorda está na hora temos de ir trabalhar" e tu estremunhas e esfregas os olhos (primeiro um depois o outro, nunca os dois ao mesmo tempo) e dizes-me "quero dormir mais cinco minutos" e eu respondo "sim", claro, porque já sabia que as minhas palavras não te acordariam tal como as minhas mãos de manhã não te acordam tal como estas palavras que te agito à frente dos olhos são mais um cobertor nestas manhãs frias e tu aconchegas-te nelas e dormes mais cinco minutos e não são dedos que te percorrem como o vento percorre a superfície do mar e nela deixa uns traços que se desvanecem logo a seguir.
Ao menos isso, repara, embrulhas-te nas palavras e dormes; talvez sejam elas que te percorrem a pele e nela deixam traços que não se vêem a menos que tenhamos olhos particularmente treinados - tal como os cinco minutos de sono que todas as manhãs me pedes só se vêem se olharmos muito bem para eles.
São cinco minutos só, repara, passam num instante mas é assim que começamos o dia, tu embrulhada nas palavras e eu em ti, no teu sono, nas tuas coxas tão duras, no arfar simples das palavras "deixa-me dormir mais cinco minutos" "sim" "sim" "sim".
Usque ad finem
Usque ad finem significa até ao fim. Reconhecer que as coisas têm um fim é um progresso; e que se deve tocar esse fim como o nadador toca a borda da piscina antes de voltar para trás.
Humanismo
Não há ideologia menos humanista do que o comunismo, mas são poucos os comunistas que o sabem.
8.12.11
Anti pedagogia
O homem deu em anti-pedagogo. Depois de nos lixar o país, acha que é a vez das crianças.
PS - Isto dito, esta versão parece a boa, ao economicamente leigo que sou.
PS - Isto dito, esta versão parece a boa, ao economicamente leigo que sou.
7.12.11
Tadinho tadinho
Ver João Galamba acusar o Governador do BP de "sacrificar o rigor técnico da supervisão financeira para assumir uma linha política" é como ouvir o Pai Natal duvidar da existência do Natal.
PS - isto vindo de um artista da economia ainda é mais patético. Ou é mais triste, não sei.
PS - isto vindo de um artista da economia ainda é mais patético. Ou é mais triste, não sei.
6.12.11
Jean Boaventura Sousa Ziegler
Jean Ziegler está dois ou três níveis acima do nosso Boaventura na escala da má-fé e cegueira intelectuais.
Ou abaixo.
Diário de Bordos - Falmouth Harbour, Antigua, 05-12-2011
Falmouth Harbour está cheio, a abarrotar. O boat show dos mega-iates encheu isto de caras novas, todas iguais, apesar de algumas serem loiras, outras morenas, ruivas (poucas) ou pretas (menos ainda). São todas sobretudo barulhentas. "Estás velho", diz-me a Lena; "estás velho", ecoa P., quando lhes faço o comentário. "Pois estou. É bom estar velho. Eu gosto, pelo menos".
Descubro na minha filha uma excelente conversadora, com argumentos lapidares, justos, precisos. Deve ser por isso que faz leme tão bem (não sei qual é a relação, mas deve haver uma, escondida quelque part).
Não sou de muitos amigos, mas sou de grandes amizades.
Domingo que vem vamos para Grenada buscar o barco de Ph., um "clássico" de quarenta anos, sem motor e com um leme de vento, coisa que não uso há quase quarenta anos. Quase. É uma troca: em contrapartida posso mostrar à Lena os meus sítios favoritos nestas ilhas: Bequia, Bequia, Bequia, Deux Pitons, Wallilabou Bay; e Grenada, claro. Gosto de St. George's Town quase tanto como de Bequia, San Juan, e outras cidades nas quais nunca somos estrangeiros, mesmo que nunca lá tenhamos ido, ou só de passagem.
Vamos ouvir um casal de músicos espanhóis que nos apareceu aqui caído das nuvens. Parece que é bom. É ao lado do Skullduggery: se for mau não se perde muito tempo. E a rapariga é bonita; se for mau nem tudo está perdido.
Gosto muito das pessoas, mas não gosto da superfície das pessoas. Deve ser por isso que não sou de muitos amigos.
Qualquer dia a minha vida de vagamundo acaba. Só espero duas coisas: que acabe, e que esse dia venha longe.
O amor é uma coisa estranha: resiste a tudo menos à falta de amor. Já a vida não é assim: resiste a tudo.
Descubro na minha filha uma excelente conversadora, com argumentos lapidares, justos, precisos. Deve ser por isso que faz leme tão bem (não sei qual é a relação, mas deve haver uma, escondida quelque part).
Não sou de muitos amigos, mas sou de grandes amizades.
Domingo que vem vamos para Grenada buscar o barco de Ph., um "clássico" de quarenta anos, sem motor e com um leme de vento, coisa que não uso há quase quarenta anos. Quase. É uma troca: em contrapartida posso mostrar à Lena os meus sítios favoritos nestas ilhas: Bequia, Bequia, Bequia, Deux Pitons, Wallilabou Bay; e Grenada, claro. Gosto de St. George's Town quase tanto como de Bequia, San Juan, e outras cidades nas quais nunca somos estrangeiros, mesmo que nunca lá tenhamos ido, ou só de passagem.
Vamos ouvir um casal de músicos espanhóis que nos apareceu aqui caído das nuvens. Parece que é bom. É ao lado do Skullduggery: se for mau não se perde muito tempo. E a rapariga é bonita; se for mau nem tudo está perdido.
Gosto muito das pessoas, mas não gosto da superfície das pessoas. Deve ser por isso que não sou de muitos amigos.
Qualquer dia a minha vida de vagamundo acaba. Só espero duas coisas: que acabe, e que esse dia venha longe.
O amor é uma coisa estranha: resiste a tudo menos à falta de amor. Já a vida não é assim: resiste a tudo.
5.12.11
Palhaços, seguramente
A Jugular School of Arts não nasceu do vazio, claro. Esta é digna dos melhores artistas do circo (refiro-me aos palhaços, naturalmente).
PS - O Prelúdio de uma Resposta está cheio de comentários sobre a grosseria do Governador do Banco de Portugal - que aparentemente tem de ouvir impávido e sereno a coisas como "não é verdade" e não pode reagir; mas tem muitos poucos comentários técnicos. O que lá está desmente João Galamba. Talvez fosse interessante explicarem-nos porque é que um deputado pode dizer que alguém está a mentir e a pessoa que o ouve não tem o direiro de responder com um argumento que, aliás, é sobejamente vero: má fé intelectual. E, mais ainda, seria magnífico se apresentassem argumentos técnicos para contradizer o que Carlos Costa disse.
Mas enfim, vivemos num país de vítimas, e vitimizar-se rende decerto muito mais votos.
PPS - Isto para além de ser questionável a autoridade moral de um deputado que preferiu sair da sala a votar contra as instruções do "seu" partido (aspas porque João Galamba é "independente"). Carlos Costa, pelo menos, disse o que pensava.
PS - O Prelúdio de uma Resposta está cheio de comentários sobre a grosseria do Governador do Banco de Portugal - que aparentemente tem de ouvir impávido e sereno a coisas como "não é verdade" e não pode reagir; mas tem muitos poucos comentários técnicos. O que lá está desmente João Galamba. Talvez fosse interessante explicarem-nos porque é que um deputado pode dizer que alguém está a mentir e a pessoa que o ouve não tem o direiro de responder com um argumento que, aliás, é sobejamente vero: má fé intelectual. E, mais ainda, seria magnífico se apresentassem argumentos técnicos para contradizer o que Carlos Costa disse.
Mas enfim, vivemos num país de vítimas, e vitimizar-se rende decerto muito mais votos.
PPS - Isto para além de ser questionável a autoridade moral de um deputado que preferiu sair da sala a votar contra as instruções do "seu" partido (aspas porque João Galamba é "independente"). Carlos Costa, pelo menos, disse o que pensava.
4.12.11
Diário de bordos - 041211
Mais um ciclo que acaba: uma ida relâmpago a St. Martin, e hoje mini-regata daquelas "largamos daqui a 5 minutos, ok?".
É preciso desconfiar das primeiras impressões. Ontem gostei de St. Martin (por causa de St. Martin, não da empregada brasileira do bar onde tive esta revelação). Foi um dia cansativo: chegámos às quatro da manhã; às oito estava no escritório da marina. Clearance, duches, pequeno-almoço - cheguei ao ship chandler às dez e saí de lá às 5 da tarde, com um breve intervalo para o almoço e a dupla epifania: desconfiar das primeiras impressões e gostar de St. Martin.
Em português um ship chandler é uma loja de aprestos marítimos. Um marinheiro - qualquer marinheiro - fica feliz quando vê um bom ship chandler, tão feliz como uma dona de casa num hipermercado das coisas exóticas, raras, bonitas com as quais ela sonhou toda a sua vida. Foi lá que passei o dia, acompanhado por um vendedor chamado Rex a fazer compras para a empresa. A lista de items era maior do que a lista de desejos de uma adolescente, mas a Island Water World tinha praticamente tudo aquilo que dela constava.
Almocei ao balcão de um barzito de uma das marinas da laguna. A empregada era brasileira, a salada de polvo não sei de onde e também era óptima; ouvia falar francês, inglês e espanhol como se estivesse no centro de traduções de uma conferência internacional. Enfim, não vale a pena tentar perceber: estava enganado.
Da viagem pouco há a dizer: dezasseis horas à ida e aguaceiros, vento, frio, chuva a jorros à vinda.
Dias: zero ou um, com pouco no meio, quase nada.
Para fazer leme é preciso paz; quero dizer, estar em paz. Fazer leme é português recente. Quando comecei a falar dizia-se governar. Em inglês é to steer e em francês barrer. Gosto mais de governar. Para governar é preciso estar em paz.
Cheguei cansado. Quando fui fazer a clearance sentia-me um zombie; depois recuperei. É curioso como o cansaço muda: dantes não dormia três dias e de repente caía-me em cima como um martelo. Hoje não durmo dois e a fadiga vai-se acumulando numa caixa que de vez em quando se entreabre e deixa sair um bocadinho. Como puns, uns mais malcheirosos do que outros.
Dormi dez horas seguidas. Não foi bem dormir, foi uma espécie de pequena morte, um coma profundo, reparador: não acordei, ressuscitei.
De uma forma geral - há excepções, claro - as brasileiras são feias. E são prodigiosas a fazer-nos esquecê-lo.
Um dia vou deixar de gostar de navegar; mas não consigo imaginar como serão os dias depois desse. De que serão feitos, de que tristezas, cansaços? Não há melhor cansaço do que o do mar, nem tristezas mais irrelevantes.
É preciso desconfiar das primeiras impressões. Ontem gostei de St. Martin (por causa de St. Martin, não da empregada brasileira do bar onde tive esta revelação). Foi um dia cansativo: chegámos às quatro da manhã; às oito estava no escritório da marina. Clearance, duches, pequeno-almoço - cheguei ao ship chandler às dez e saí de lá às 5 da tarde, com um breve intervalo para o almoço e a dupla epifania: desconfiar das primeiras impressões e gostar de St. Martin.
Em português um ship chandler é uma loja de aprestos marítimos. Um marinheiro - qualquer marinheiro - fica feliz quando vê um bom ship chandler, tão feliz como uma dona de casa num hipermercado das coisas exóticas, raras, bonitas com as quais ela sonhou toda a sua vida. Foi lá que passei o dia, acompanhado por um vendedor chamado Rex a fazer compras para a empresa. A lista de items era maior do que a lista de desejos de uma adolescente, mas a Island Water World tinha praticamente tudo aquilo que dela constava.
Almocei ao balcão de um barzito de uma das marinas da laguna. A empregada era brasileira, a salada de polvo não sei de onde e também era óptima; ouvia falar francês, inglês e espanhol como se estivesse no centro de traduções de uma conferência internacional. Enfim, não vale a pena tentar perceber: estava enganado.
Da viagem pouco há a dizer: dezasseis horas à ida e aguaceiros, vento, frio, chuva a jorros à vinda.
Dias: zero ou um, com pouco no meio, quase nada.
Para fazer leme é preciso paz; quero dizer, estar em paz. Fazer leme é português recente. Quando comecei a falar dizia-se governar. Em inglês é to steer e em francês barrer. Gosto mais de governar. Para governar é preciso estar em paz.
Cheguei cansado. Quando fui fazer a clearance sentia-me um zombie; depois recuperei. É curioso como o cansaço muda: dantes não dormia três dias e de repente caía-me em cima como um martelo. Hoje não durmo dois e a fadiga vai-se acumulando numa caixa que de vez em quando se entreabre e deixa sair um bocadinho. Como puns, uns mais malcheirosos do que outros.
Dormi dez horas seguidas. Não foi bem dormir, foi uma espécie de pequena morte, um coma profundo, reparador: não acordei, ressuscitei.
De uma forma geral - há excepções, claro - as brasileiras são feias. E são prodigiosas a fazer-nos esquecê-lo.
Um dia vou deixar de gostar de navegar; mas não consigo imaginar como serão os dias depois desse. De que serão feitos, de que tristezas, cansaços? Não há melhor cansaço do que o do mar, nem tristezas mais irrelevantes.
3.12.11
Aterrar
Um gajo chega a terra e há milhares de coisas importantes a fazer, ouvir e ler; e algumas menos importantes.
Esta faz parte das segundas; mas meu Deus, dá um gozo comparável às primeiras. Finalmente alguém desgalamba o Galamba.
Esta faz parte das segundas; mas meu Deus, dá um gozo comparável às primeiras. Finalmente alguém desgalamba o Galamba.
30.11.11
Dias, felicidade
Há dias muito felizes, e há muitos dias felizes; mas não há muitos dias muito felizes.
(Há, mas não interessam a ninguém. A felicidade alheia parece, e se calhar é, monótona.)
(Há, mas não interessam a ninguém. A felicidade alheia parece, e se calhar é, monótona.)
28.11.11
O desenvolvimento e a má consciência
O CIDAC (Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral) abre uma loja de "Comércio Justo" em Lisboa.
Como a maioria das "ajudas ao desenvolvimento" o comércio justo é uma coisa cujo principal objectivo é aliviar a má consciência da burguesia ocidental. Até aqui tudo bem - uns aliviam-na no confessionário, outros no comércio justo e cada um onde lhe apetecer.
O que me fascina não é o alívio da má consciência. É não perceber de onde ela vem: por que raio de carga de água há pessoas no Ocidente que se acham responsáveis pelas iniquidades dos regimes (maioritariamente) africanos?
Tão pouco percebo o que leva pessoas inteligentes e cultas a não querer ver que os problemas africanos são políticos, e não económicos. Tentar resolvê-los com medidas económicas não serve rigorosamente para nada - como de resto é facilmente confirmável por quem olhar para os resultados de 50 anos de "ajuda ao desenvolvimento".
Excepto, claro, para aliviar as consciências. De quê, continuo sem perceber.
Como a maioria das "ajudas ao desenvolvimento" o comércio justo é uma coisa cujo principal objectivo é aliviar a má consciência da burguesia ocidental. Até aqui tudo bem - uns aliviam-na no confessionário, outros no comércio justo e cada um onde lhe apetecer.
O que me fascina não é o alívio da má consciência. É não perceber de onde ela vem: por que raio de carga de água há pessoas no Ocidente que se acham responsáveis pelas iniquidades dos regimes (maioritariamente) africanos?
Tão pouco percebo o que leva pessoas inteligentes e cultas a não querer ver que os problemas africanos são políticos, e não económicos. Tentar resolvê-los com medidas económicas não serve rigorosamente para nada - como de resto é facilmente confirmável por quem olhar para os resultados de 50 anos de "ajuda ao desenvolvimento".
Excepto, claro, para aliviar as consciências. De quê, continuo sem perceber.
Outro domingo passado em Shirley Heights
Desta vez chegámos mais cedo, e o céu estava nublado. Havia muito menos gente. E a jovem senhora deixou-se fotografar, o que é raro.
"Gente do Sul"
Este livro é um excelente. Raros são os autores portugeses de contos que me fazem pensar em O'Henry, um agora infelizmente esquecido contista americano que continua a ser, para mim, um dos expoentes do género.
Porquê, onde, como, etc.?
Os amigos de Sócrates acham isto dinheiro bem gasto. As únicas perguntas que me ocorrem são porquê?, onde, como? (e "o quê?", mas num tom diferente). Não são idiotas (nem mais nem menos do que os amigos de Manuela, Pedro ou Francisco), por isso deve haver outra razão. Será o "efeito multiplicador"? Se for, poderá alguém explicar-me onde foram parar os resultados da "multiplicação"?
"NAER investiu mais de 40 milhões a estudar construção do aeroporto na Ota"
"RAVE gastou 14,6 milhões de euros com TGV em quatro anos"
"Estado gastou mil milhões de euros com 14 empresas públicas"
26.11.11
Domingo passado em Shirley Heights
| Enquanto esperávamos o táxi, em Falmouth Harbour |
| Uma minúscula parte da steel band |
| Steel band, versão colorida |
| O vocalista da banda de reggae |
| E a... |
| "Levantem os braços" |
| E eles levantam |
| "Para a esquerda..." |
| Uma festa branca: |
| Vamos embora... |
| ... o bar está vazio. |
Independência ou...
Então afinal não querem independência?
"PSD-M não aceita que a Madeira “seja tratada como território estrangeiro” no plano de resgate"
"PSD-M não aceita que a Madeira “seja tratada como território estrangeiro” no plano de resgate"
"Suspeito"
Sinceramente, não percebo o que levou a polícia a suspeitar que este senhor é traficante de droga.
"GNR detém em Albufeira homem com 9170 doses de estupefacientes"
"GNR detém em Albufeira homem com 9170 doses de estupefacientes"
Fotografia e alguns caprichos
O reader torna-nos preguiçosos, ou esquecidos: faz-nos olvidar que há blogs que, por uma razão qualquer, não estão lá. O 4 Caprichos é um deles e hoje lembrei-me de o visitar. Há poucos, quase nenhuns, fotógrafos que têm este efeito em mim: dar-me vontade de voltar a fotografar, e regozijar-me por já não o fazer.
Santa inocência
Não sou grande fan, já por aqui algures o disse, das divagações teóricas de Belmiro de Azevedo, apesar de lhe reconhecer um inexcedível (em Portugal) valor como empresário. O mesmo se passa, mutatis mutandis, com as construções textuais de Fátima Rolo Duarte, par ailleurs uma excelente artista gráfica.
Este post é giro e tal e está bem escrito e coiso; está a milhas do que costuma fazer com fotografias e videos, mesmo abstraindo as diferenças ideológicas, que são muitas.
E tenho cá para mim que, se Fátima Rolo Duarte soubesse um centésimo do que se passa no mundo dos estivadores não os elegeria como exemplo do que quer que fosse. É como se um liberal felicitasse Al Capone por não pagar impostos.
Este post é giro e tal e está bem escrito e coiso; está a milhas do que costuma fazer com fotografias e videos, mesmo abstraindo as diferenças ideológicas, que são muitas.
E tenho cá para mim que, se Fátima Rolo Duarte soubesse um centésimo do que se passa no mundo dos estivadores não os elegeria como exemplo do que quer que fosse. É como se um liberal felicitasse Al Capone por não pagar impostos.
25.11.11
Lados e parasitas
A escolha é de JPT, do Ma-schamba. Mas subscrevo-a inteiramente, e reproduzo-a.
Escolher um lado
A psicologia parasitária
Asneiras e corações
Isto parece-me mais um auto-retrato (aproximado: não seria "de vez em quando"; mas "cada vez mais") do que um retrato do Otelo.
"Otelo tem "coração muito bom" mas "de vez em quando diz a sua asneira", diz Mário Soares".
"Otelo tem "coração muito bom" mas "de vez em quando diz a sua asneira", diz Mário Soares".
Palavras, vento
O vento enche-nos de palavras, como um adolescente os lençóis quando sonha com a professora de ginástica, ou de física.
Combinações, Stakhanov
Isto dito, postas assim as coisas, o valor é zero, ou quase. Dois dados na mesa, um quatro e, sei lá, um três ou um dois: zero.
Mas basta mudá-los um bocadinho e aparecem os dois ases. A vida está feita para os stakhanovistas das combinações: tudo é possível, depende apenas da maneira como está disposto na mesa. Há quem se dê ao trabalho de procurar, de lançar sem fim os dados.
Eu não. Limito-me a recordar os não que deviam ter sido sins, os sim que deviam ter sido nãos, e os sins e nãos justos, mesmo que na altura tenham doído (há sins que doem, magoam, ferem mais do que muito não). Os meus dados têm três faces apenas: sim, não e logo se verá (tendo "logo" o sentido muito lato de muitos anos a muitas noites).
"É assim", como dizem hoje as recepcionistas das empresa e das repartições públicas ("e não como nós queríamos que fosse", acrescentaria o meu pai se fosse vivo): anda por aí um Stakhanov qualquer a lançar dados e nós que nos amanhemos com o que sai.
Nós, ou quase. Eu contento-me com dados truncados e rum no Skullduggery, ou flûtes de espumante argentino no Hamilton's, nas noites mais melancólicas.
E com um sim diferido: há alguns que nada pode alterar, nem substituir.
Mas basta mudá-los um bocadinho e aparecem os dois ases. A vida está feita para os stakhanovistas das combinações: tudo é possível, depende apenas da maneira como está disposto na mesa. Há quem se dê ao trabalho de procurar, de lançar sem fim os dados.
Eu não. Limito-me a recordar os não que deviam ter sido sins, os sim que deviam ter sido nãos, e os sins e nãos justos, mesmo que na altura tenham doído (há sins que doem, magoam, ferem mais do que muito não). Os meus dados têm três faces apenas: sim, não e logo se verá (tendo "logo" o sentido muito lato de muitos anos a muitas noites).
"É assim", como dizem hoje as recepcionistas das empresa e das repartições públicas ("e não como nós queríamos que fosse", acrescentaria o meu pai se fosse vivo): anda por aí um Stakhanov qualquer a lançar dados e nós que nos amanhemos com o que sai.
Nós, ou quase. Eu contento-me com dados truncados e rum no Skullduggery, ou flûtes de espumante argentino no Hamilton's, nas noites mais melancólicas.
E com um sim diferido: há alguns que nada pode alterar, nem substituir.
24.11.11
Assimetrias
Dois significados podem ter uma palavra, mas duas palavras não podem ter um significado.
21.11.11
Serviço público - restaurantes, Falmouth Harbour (Antigua)
Nas ilhas anglófonas come-se mal, regra geral. Há bons restaurantes, claro, mas são caros, não são o género de local onde se pode ir todos os dias. Os restaurantes baratos oscilam entre o péssimo e o mau.
O nosso escritório é o Skullduggery, na marina do Yacht Club, onde a Sandra e as suas colegas tomam conta de nós com uma eficácia e uma simpatia inexcedíveis.
É aqui que bebemos o café matinal e comemos as sandes do meio-dia, e às vezes as saladas da noite.
Vamos frequentemente ao Mad Mongoose, da Connie e do Bill (igualmente proprietários dos Reef Gardens, o albergue onde dormimos, por um preço módico e uma vista de tirar a respiração, todos os dias). É bom e não muito caro, tal como o Lime and Coconut, cujo dono, Lucas, é Suíço-Alemão.
Mas só ontem, meu Deus, encontrámos o restaurante que nos encheu as medidas. Chama-se Sun Ra, pertence a um senhor chamado Mirko, que "antes de ser marinheiro era fotógrafo de jazz" - fez 185 capas de discos (entre as quais, naturalmente, de discos do Sun Ra, que inspirou o nome do restaurante).
"Finalmente um restaurante para o qual também é bom olhar", diz-me a Lena. "Os italianos têm 2,000 anos de avanço em design", respondo. O Sun Ra vai passar (já passou) para o grupo dos meus restaurantes favoritos no mundo - é excelente, bonito, único; se algum dos meus tolerantes e simpáticos leitores vier por acaso a Antigua aconselho-o fortemente.
O nosso escritório é o Skullduggery, na marina do Yacht Club, onde a Sandra e as suas colegas tomam conta de nós com uma eficácia e uma simpatia inexcedíveis.
É aqui que bebemos o café matinal e comemos as sandes do meio-dia, e às vezes as saladas da noite.
Vamos frequentemente ao Mad Mongoose, da Connie e do Bill (igualmente proprietários dos Reef Gardens, o albergue onde dormimos, por um preço módico e uma vista de tirar a respiração, todos os dias). É bom e não muito caro, tal como o Lime and Coconut, cujo dono, Lucas, é Suíço-Alemão.
Mas só ontem, meu Deus, encontrámos o restaurante que nos encheu as medidas. Chama-se Sun Ra, pertence a um senhor chamado Mirko, que "antes de ser marinheiro era fotógrafo de jazz" - fez 185 capas de discos (entre as quais, naturalmente, de discos do Sun Ra, que inspirou o nome do restaurante).
"Finalmente um restaurante para o qual também é bom olhar", diz-me a Lena. "Os italianos têm 2,000 anos de avanço em design", respondo. O Sun Ra vai passar (já passou) para o grupo dos meus restaurantes favoritos no mundo - é excelente, bonito, único; se algum dos meus tolerantes e simpáticos leitores vier por acaso a Antigua aconselho-o fortemente.
19.11.11
Pategadas, pessimismo
As grandes justificações para se ser pessimista em relação a Portugal não são o provincianismo, a aversão à mudança, e por aí fora. Muito piores e mais preocupantes são as pateguices de quem não é patego, bem exemplificadas nas reacções ao "tratem-me por Álvaro" do nosso ministro da Economia.
É uma frase apreciável, louvável, que devia ter sido recebida, quanto a mim, com apreço. Contudo, as reaçcões da blogosfera - e refiro-me à sua parte "civilizada" - foram de gozo, apoucamento, desprezo. É isso que é grave e preocupante, a meu ver: o pateguismo está tão imbricado no nosso ethos que até pessoas cultas e viajadas se comportam como pategas.
É uma frase apreciável, louvável, que devia ter sido recebida, quanto a mim, com apreço. Contudo, as reaçcões da blogosfera - e refiro-me à sua parte "civilizada" - foram de gozo, apoucamento, desprezo. É isso que é grave e preocupante, a meu ver: o pateguismo está tão imbricado no nosso ethos que até pessoas cultas e viajadas se comportam como pategas.
Masculino / feminino
I
As mulheres acham - muito justamente, apresso-me a esclarecer - que sexo, só por si, não chega. Também acham - e eu, de novo, concordo inteiramente - que só amor não chega. Mas sexo e amor tão pouco chegam, para elas. Querem mais: ternura, solicitude, afecto, compreensão e um monte de coisas que para nós, homens, estão incluídas na dupla sexo e amor.
II
Há coisas que só acontecem aos homens, nunca às mulheres: redes que não funcionam, electricidade que se vai abaixo, baterias que se descarregam quando se emprestou o adaptador. São incidentes masculinos, que fazem de nós, homens, duplamente vítimas: dos incidentes e das mulheres que não sabem que estas coisas acontecem.
III
Os homens que gostam de mulheres têm mais sucesso (não sei se "sucesso" é o termo correcto, mas por agora pouco interessa) junto delas. O que não deixa de ser paradoxal, porque o objectivo das senhoras que seduzem (ou os seduzem, mais correctamente; mas por agora é igualmente irrelevante) é exactamente fazer com que eles deixem de gostar de mulheres, no plural, e comecem a gostar de uma só.
É como se uma senhora gostasse de um homem por ele ser magro e uma vez conquistado o enchesse de bolos, não fossem outras ter o mesmo gosto.
IV
As mulheres têm muitas vantagens sobre os homens: são mais inteligentes, mais bonitas e mais sensíveis, por exemplo. E não podem ter cornos; não lhes nascem na cabeça, faça um homem o que fizer.
III
Os homens que gostam de mulheres têm mais sucesso (não sei se "sucesso" é o termo correcto, mas por agora pouco interessa) junto delas. O que não deixa de ser paradoxal, porque o objectivo das senhoras que seduzem (ou os seduzem, mais correctamente; mas por agora é igualmente irrelevante) é exactamente fazer com que eles deixem de gostar de mulheres, no plural, e comecem a gostar de uma só.
É como se uma senhora gostasse de um homem por ele ser magro e uma vez conquistado o enchesse de bolos, não fossem outras ter o mesmo gosto.
IV
As mulheres têm muitas vantagens sobre os homens: são mais inteligentes, mais bonitas e mais sensíveis, por exemplo. E não podem ter cornos; não lhes nascem na cabeça, faça um homem o que fizer.
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