22.9.15

Tele-transporte-fotos


a) Das vantagens de ter um biólogo marinho especializado em mamíferos a bordo:






(Que além do mais é bom fotógrafo).

b) O autor das fotografias:

Mai-lo armador e o skipper.





Diário de Bordos - Copenhaga, Dinamarca, 22-09-2015

Posts da viagem, na desordem e incompletos, por enquanto.

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Dias tensos, contrastados. Eufóricos e esmagadores, tudo parece levitar de um lado quando do outro o porta-aviões prepara-se para ir ao fundo.

Já aqui estive e nunca aqui estive. Ninguém esteve, apesar de ser a dor mais universal do mundo.

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Ninguém vai para o norte da Europa em Setembro e espera encontrar bom tempo. Se se engana tanto melhor. Se não, encolhe os ombros e aprecia o que a viagem tem de bom: a tripulação, a novidade é - deixo de propósito para o fim - o barco. Um Hero 107, coisa de que nunca até aqui ouvira sequer falar. O que prova que não sou nórdico. Este modelo teve bastante sucesso na Noruega, de onde é. Rápido, sensível, com uma passagem na vaga que parece uma faca a cortar manteiga no Verão.

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O plano original era atravessar a Holanda toda pelos canais. Mas a informação que tinha não era boa e tivemos de sair mais cedo. Confesso que não me importo por aí além. Por muito bonito que seja, o tédio é tédio.

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O canal de Kiel tem noventa e oito quilómetros e meio, todos eles bastante bonitos. Infelizmente, os últimos sessenta são uma seca.

Com a excepção da "marina" de Giesenau, claro: dois pontões na margem de pequeno canal lateral, no meio de rigorosamente nada. A calma é absoluta, o silêncio total. Quase tenho pena de T., que salta do barco para procurar um restaurante.

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Ainda Portugal não era nascido e já os chineses viajavam havia séculos. Os amarelos percebem de viagens. É por isso que dizem que metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa. Os romanos também percebiam de viagens e se calhar é por isso que a inicial é V. Ao princípio é tudo bom e a descer. Depois começa a subida.

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É raro entender-me com armadores. Aliás: é raro entender-me com quem quer que seja que me queira dar ordens e a quem não reconheço capacidade para tal (por capacidade quero dizer conhecimento técnico do assunto). Não que seja uma prima dona, como fui uma vez acusado - não sem uma pontinha de razão, é preciso reconhecer -. Mas porque (como, de resto qualquer marinheiro) a única hierarquia que aceito é a do saber. Nomes, linhagens, fortunas ou feitos são-me total - e lamentavelmente, por vezes - indiferentes.

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Je fais le convoyage avec un équipier qui est l'incarnation du gendre idéal et l'armateur, un hippie norvégien de mon âge que l'on dirait sorti directement de la conjuration des imbéciles. Pas intelectuellement. Mais tout le reste. Il n'est pas fumeur : il est une machine à fumer des cigarettes. Avant le petit dej il en est à sa dixième clope, au moins. Le reste est à l'avenant. Sa diète consiste en un mélange indescriptible de saloperies - ce qui d'ailleurs semble être une condition sine qu'à non pour l'intégrer : Snickers, Coca Zero (il faut que ce soit zero), cacahuètes frites au miel, bonbonneries diverses, etc. Je ne puis le laisser seul dans le cockpit : il est là, debout (il a été marin, il y a longtemps ) et regarde. Mais l'on dirait que la connexion entre ses yeux et son cerveau est coupée. Il regarde mais ne voit pas et par conséquence ne réagit pas. Il faut border une voile, corriger le cap, loffer, abattre, enfin faire quoi que ce soit? Notre statue, notre monument au marin de quart, notre contemplatifo - mystico - attentivo n'est pas là. S'il voit une lumière il crie "lumière"; de même s'il voit une bouée : "bouée!". Mais c'est tout. Bon, pas tout. Le temps de crier "bouée" il a fumé deux clopes et avalé une plaquette de chocolat Milka. Là oui, c'est tout. Il ne lui passe pas par la tête voire ce que fait la lumière (la dernière fois c'était un bateau qui croisait notre cap perpendiculairement à au moins trois milles) ni de descendre au plotter voir quelle est la bouée et pourquoi est-elle là (dernière car ce fut la dernière fois que je l'ai laissé seul de quart. S'il faut me faire réveiller par des conneries autant être déjà réveillé).

Le bateau (un superbe, sublime mono de 10,7 m qui est une simple merveille d'efficacité et beauté) fait penser à un cendrier flottant. Point de hyperbole: mes cendriers au Marchand étaient plus propres.

Notre Ignatius à nous se plaint - c'est d'ailleurs sa seule plainte - de ne pas trouver de femme. C'est effectivement étonnant. Il n'est pas riche mais a du fric; il est sympa et du moins superficiellement généreux; il s'habille avec des T-shirts Frank Zappa (son musicien favori, ce qui démontre qu' il a du goût) ou autres musiciens - pour autant que les t-shirts soient criardes, comme les bombons. Il est gros, porte les cheveux - quasi blancs - longs et attachés en queue de cheval; et pourtant n'arrive pas à attirer une femme. Mon âme se remplit à la fois de compassion (pour lui ) et de compréhension (pour les femmes en général ).

Je l'aime bien. Il est un peu un phénomène, un petit phénomène pour ainsi dire. Il contemple la mer, il fume et il me fait penser à cet insondable gouffre qui est l'homme.

Enfin. En mer, à quelques heures de laisser les Pays Bas et entrer en eaux allemandes. Derrière moi une averse gigantesque essaie de me rattraper. Elle y parviendra, j'imagine: on peut compter par les doigts d'une main les averses qui m'ont raté. Mais pour l'instant je suis reconnaissant à celle - ci. L'ensemble du soleil brillant et clair sur le bord du nuage gris et menaçant, la pluie qui se devise sous les deux - soleil et nuage - font un contraste saisissant.

Et un merveilleux complément aux gouffres de l'humain.

PS - l'averse m'a loupé. J'ai "resquillé la chance et j'ai gagné". (Ai-je entendu ou lu cette expression ou viens-je de l'inventer? Je ne sais pas. Toujours est-il que je l'aime bien. Voyageur clandestin du hazard j'ai eu de la chance. )


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Les opinions politiques de mon Ignatius à moi sont cohérentes avec le reste. Les américains sont méchants, les capitalistes, si on leur donne une cour de récréation
(sic) libre ne songent qu'à nous faire leurs esclaves; et, sommet de l'horreur: l'actuel gouvernement de Norvège pense que ceux qui ne travaillent pas sont des fils de pute paresseux et du coup oblige les gens à habiter des villes où ils ne veulent pas vivre rien que pour trouver du travail.

Une violence.

Ignatius - pardon, T. - a aussi des points de vue très intéressants sur le 11 septembre, mais malheureusement mon cerveau a une capacité très limitée de recevoir de l'information et a décroché.

Retratos imagináveis

Não era um homem, era um senhor. Tinha mais defeitos do que uma máquina de lavar roupa desenhada por um engenheiro francês mas nunca os usava sem deles abusar. Como se fossem direitos, ou guloseimas.

Auto-quase-retrato

Viajante clandestino no comboio do acaso fui mais vezes apanhado pela sorte do que pelo azar, os seus dois revisores.

15.9.15

Diário de Bordos - Scheveningen, Países Baixos, 15-09-2015

Regresso à Holanda pela primeira vez em dois anos. Ou terão sido três? Não sei. Pouco importa. Da última vez cheguei num barco a motor de vinte e seis metros, Agora, num veleiro soberbo de dez e setenta. O resto não mudou: tempo cinzento e frio, mulheres construídas como vigas de telhados, uma língua que parece um ataque de catarro.

A marina é bonita, enorme, com barcos bons e bem tratados. Barcos de quem gosta de mar e tem dinheiro para isso. Que longe estou de uma marina francesa e  respectiva colecção de antiguidades, velharias, improvisos e ruínas flutuantes.

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Que dizer da viagem? Um barco magnífico (Hero 107, uma coisa norueguesa rápida, confortável no mar, bem construída, manobrável, sensível ao leme); armador simpático e tripulante confiável. Bom tempo em geral: entrámos em Scheveningen antes do temporal chegar. Só tivemos uma noite de porrada. Pouco vento - das cerca de cento e trinta e duas horas de mar cem foram a motor -; nenhum susto em particular; agência decente, que paga a tempo e horas e tem mais trabalho.

Parece-me que mudei de planeta, finalmente.

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La Coruña é uma cidade comestível: é praticamente impossível comer mal. Da carrada de restaurantes retive dois:

- A Pulperia de Melides, na Praça de Espanha 16. O polvo não estava excelente na textura, mas pareceu-me mais questão de azar do que de competência. O tempero estava perfeito. A fila de espera faz-me crer que não sou o único a pensar assim.

- O Viñedo de Tito, Travessa Estrecha de San Andrés, 4. Uma tascazinha escondida e longe do bulício, bonita, com excelente comida, serviço e ambiente.

Em Scheveningen até agora só um, bastante recomendável: Browcafé Dehofnar, na marina. T. queria comer um bife. Ficou desiludido. Eu não. Carne boa e tenra bem assada não me desilude nunca.

Já que estou em fase de recomendações (ou registos para so futuro, vá lá saber-se): um hotel barato e bom no Porto: S. Marino, Praça Carlos Alberto 59. Perto da Cedofeita, numa praça bonita e calma.

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Ontem no Browcafé Dehofnar.

Quero pensar que o casal à minha frente é um casal adúltero, mas não é preciso. Salta aos olhos de um cego. Ela chegou primeiro. Ele uns dez ou quinze minutos depois. Começou por sentar-se à frente da senhora, cara bonita mas não laroca. Mostra-lhe o computador que acabou de comprar - ainda está na embalagem (é um Toshiba. Sabe o que quer). Falam de banalidades. (Não percebo uma palavra de holandês, mas percebo de banalidades).

Ele depressa muda de lugar, senta-se ao lado da senhora, mas de frente para ela, costas para a sala. Não é preciso ser um especialista em comunicação não-verbal. Dele só vejo as costas. Dela a face, à qual raramente aflora um sorriso. Mais frequentes são as lágrimas, contidas, breves.

Pouco se tocam. Quero pensar que estão a reavaliar a relação. Tão pouco é preciso. Ela não pára de mexer os dedos, não como se estivesse a malaxar plasticina mas como se os próprios dedos fossem de plasticina.

Vão-se embora juntos. Quando se separarão? Lá fora, daqui a uns dias, uns meses? Porque é que algumas caras têm "sofrer" escrito nos olhos, no olhar?

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Dois dias de mau tempo, dois dias de calma e outra vez dois de temporal. A viagem para Copenhaguen vai ser variada. De lá sigo directamente para a Grécia, levar um Hans Christian 48 para Marselha.

Gostava de passar pelo menos dois dias para conhecer a cidade, mas não sei se terei tempo. Sou imune a tentações totalitárias, mas cada vez menos o sou às turísticas.

14.9.15

O desaguar das necessidades

Uma incontrolável vontade de escrever  (ou será antes necessidade? ) e a quase-impossibilidade física de desaguam nisto.

A bondade dos impostos

Aqui há uns tempos apareceu um artigo no Público sobre os impostos na Dinamarca. A (creio) jornalista extasiou-se e tento extasiar-nos com as maravilhas dos serviços públicos dinamarqueses, possíveis, claro, graças à elevada carga fiscal e à beatífica atitude do povo face àquilo que no fundo não passa de extorsão. Tentam disfarçar "oferecendo" serviços que as pessoas poderiam livremente comprar se não tivessem começado por ser espoliadas.

Porém mesmo na Dinamarca os impostos são obrigatórios. Talvez não fosse má ideia lembrar que se os impostos fossem bons não seriam obrigatórios, seriam proibidos.

7.9.15

O cérebro e a responsabilidade

Acidente mortal num rally automóvel aqui perto. Grande emoção em La Coruña, bandeiras a meia-haste, parangonas, artigos, crónicas, entrevistas, declarações. Resumindo, a parafernália habitual da indignação. A culpa, claro, é de toda a gente menos das pessoas que não foram capazes de perceber por elas próprias que estavam num lugar perigoso.

Apresso-me a esclarecer que partilho inteiramente a dor que a morte de (até agora) sete pessoas, algumas das quais crianças (abro parênteses para pôr um ponto de exclamação: !) provoca. Mas fico surpreendido com o grau de irresponsabilização a que se chegou.

E com o de cobardia também: não acredito que seja o único a pensar que as pessoas nasceram com cérebro para o usar e não para delegar o seu uso em autoridades, sejam elas quais foram.

6.9.15

Sinónimos

Vejo-lhes a dança: os dois em carne viva afastam-se, aproximam-se, resistem, andam às voltas a eles e ao mundo porque tanto para um como para o outro os verbos amar e doer são sinónimos.

Diário de Bordos - La Coruña, Galiza, Espanha, 06-09-2015 / II

Começo por dar a mão à palmatória: não sei por onde começar a história. Creio que ainda não mencionei, pela razão simples e facilmente esgotável de que é banal, de tão frequente: esperávamos um tripulante que se atrasou. M., o dito senhor, que esperávamos e devia ter chegado ontem às quatro da tarde, ou coisa que o valha. Depois o avião atrasou-se e a chegada mudou para as sete e meia. Até nada se não banalidades.

Depois o avião atrasou-se ainda mais e ele teve de passar a noite em Barcelona e a chegada ficou para as três da tarde. Depois o avião atrasou-se  eu decidi ir fazer bancas (meter gasóleo ou combustível numa embarcação, para quem não sabe), esperar por ele no pontão do gasóleo e arrancar logo a seguir.

Tínhamos acabado de pôr o barco num canto do pontão quando ele me telefona.

- Luís, a companhia perdeu as bagagens. - Larguei numa gargalhada da qual o rapaz - um jovem biólogo marítimo com a cara bonita e os modos suaves de genro ideal - ainda não se recompôs. Quando acabei de rir perguntei-lhe se a companhia sabia ao menos onde está o saco.

- Está em Barcelona.
- Ok, vem para bordo, eu vou voltar para a marina onde estava (a qual não tem gasóleo, por isso preciso de ir para a outra).

Tenho sorte com a tripulação, com o barco, com o armador, com o tempo. Não são um dia ou dois perdidos que me farão mudar de opinião.

Começa por que seria necessário poder-se perder tempo em La Coruña. Não é.

Diário de Bordos - La Coruña, Galiza, Espanha, 06-09-2015

Estou de novo en La Coruña, cidade que trago no coração e em cada papila gustativa, cidade amável e degustável como nenhuma. A vaga de sorte continua: S., o Hero 107 que aqui venho buscar e levar para Copenhaguen é um barco soberbo, o tipo de embarcação que eu gostaria de ter: sólido, simples e bonito (estou a falar de um barco, não da senhora por quem acabarei por me apaixonar). Só é preciso ver como navega: T., o armador vive nele há seis anos e de per si reconhece que “tem coisas a mais”. O barco está a abarrotar como um ovo de galinha com um embrião de avestruz lá dentro. Mas é bonito e simples e eu aposto que vai navegar bem e também aposto que quando chegarmos à Mancha as previsões não se confirmarão e não teremos Leste até à Holanda, onde vamos parar um dia ou dois.

T. é um norueguês delicioso, simpático, que vive e sempre viveu sozinho e já fez tudo, desde marinheiro na Marinha Mercante até electricista na televisão norueguesa. Não é um marinheiro; vive no barco há seis anos mas ontem quando levei os mantimentos para bordo – para uma semana e contado curto, ando poupado como se estivesse amarrado a um elefante – disse-me que nunca tinha embarcado tanta comida de uma vez. “Normalmente compro comida para dez horas e quando chego vou comer a terra”. “Normalmente” deve referir-se à meia dúzia de viagens que fez com o S.: nestes seis anos viveu três na Irlanda, um no Porto e dois em La Linea, ao lado de Gibraltar. Para vir de La Linea aqui parou em todas as árvores do caminho.

É uma simpatia de pessoa, encantadora, da minha idade que se prepara para ir passar uns anos à Noruega a fazer um refit do barco. E provavelmente carregar as baterias da saudade. Por muito que goste – e gosta muito – da “Ibéria” deve estar com vontade de voltar à sua aldeia perto de Bergen. Quem o ouvisse falar do seu país pensaria que é habitado por seres humanos e não pelas máquinas frias, racionais e bêbadas que imaginamos.

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Conversamos imenso e ontem arrancou-me a história da minha “namorada” de Soleure. Namorada vai entre aspas porque só a vi meia dúzia vezes, talvez menos; e porque eu tenho pena, muita pena. Já aqui contei a primeira parte da história: o meu encontro com uma jovem guitarrista em Rijeka.

Eu estava a chegar de uma das minhas excursões pela Itália e pela então Jugoslávia. Regressava à Suíça, ou seja com pouco dinheiro, situação rara e recentíssima em mim. Em Rijeka encontrei uma rapariga a tocar viola numa praça. Estava sozinha. Aproximei-me para a ouvir enquanto esperava o autocarro e passado um quarto de hora ela perguntou-me para onde ia.
- Para a Suíça – respondi.
- Porquê?
- Porque é lá que vivo.
- Eu vou para as ilhas para casa de um amigo. Se quiseres vir podes vir.

A rapariga era bonita; que fosse feia: há convites que não se recusam. Lá fomos para uma ilha qualquer cujo nome só não esqueci porque nunca o soube. O amigo não estava em casa e acabámos a dormir na praia. Cada um de nós tinha o seu saco-cama, claro. Mas antes de dormir ela teve o cuidado de tirar de maneira a que eu visse uma enorme faca da mochila e deixou-a à mão.

Passámos uns dias naquela ilha, linda e deserta, porque ainda era cedo. Eu fazia palhaçadas às empregadas do supermercado, coisa que irritava bastante a rapariga da guitarra e da faca.
- Elas não estão aqui para rir, estão para trabalhar – repreendia-me.

Acabei por vir-me embora. Olhos verdes enormes e algum jeito para a música não chegam para tornar necessária a companhia de uma estalinista paranóica na Jugoslávia de Tito, um país que já de si não me tinha atraído por aí além.

Entretanto ficara sem dinheiro de todo, claro; tive de voltar à boleia. Já não me lembro dos pormenores do regresso à Suíça. Lembro-me de que acabei em Soleure esgazeado de fome, sem um cêntimo e que era tarde. Não devia ser muito tarde porque ainda havia um café aberto; mas já não era cedo porque era o único, ou um dos poucos abertos.

Isto passa-se na Primavera. Na Suíça ainda estava frio. A fome não ajuda a resistir-lhe; a combinação de frio e fome não torna ninguém atraente. Tive sorte com o café, era o “alternativo” do lugar; tinha pouca gente, lembro-me perfeitamente.

Sentei-me a uma mesa e quando a empregada, uma italiana pequenina, morena veio disse-lhe que estava tão cheio de fome como vazio de dinheiro. Passo alguns pormenores dos quais não me lembro. Sei que ela me trouxe comida e ou cerveja ou vinho e me perguntou onde é que eu ia dormir.
- Não sei. Não tenho nenhum sítio em especial. Num parque ou na estação de comboios, provavelmente. Amanhã vou para La Chaux-de-Fonds. (O diálogo está longe de ser verbatim, obviamente).
- Se me prometeres que não me fazes mal podes dormir em minha casa.
- Claro que prometo.
- Ok, espera aí enquanto eu fecho o café.

Depois de fechar ainda ficámos ali um bocadinho à conversa, fomos para casa dela ainda a conversar e no caminho fez-me prometer que não lhe faria mal. Insistiu bastante nisso.

Em casa preparou-me uma cama na sala e foi-se deitar. Não me lembro se fechou a porta do quarto à chave ou não. Lembro-me de que adormeci muito depressa e que a meio da noite veio ter comigo. Fizemos amor. Recordo alguns pormenores que não conto, evidentemente; recordo a ternura com que o fizemos, o tempo que levámos. Quando acabámos disse-me para ir para a cama dela. Fui e preprava-me para adormecer de novo quando vi que ela estava a chorar convulsivamente.

Perguntei-lhe o que se passava. Tive de insistir bastante.

- Fui violada há dois anos e é a primeira vez que faço amor depois disso.

Ainda voltei a Soleure duas ou três vezes mas não fizemos amor. Um dia ela tinha desaparecido do café e nunca mais a vi.

4.9.15

Diario de Bordos - La Coruna, Galiza, Espanha, 04-09-2015

A Renfe está de greve. Vou de comboio até Valença e daí em diante é camionetes: primeiro até Ferrol del Caudillo depois para a Coruña. Era isto ou esperar duas horas em Vigo; prefiro espreitar Ferrol, onde nunca estive. Em Vigo já, muitas vezes e não é cidade da qual goste particularmente, apesar de a Ria ser bastante bonita.

Ando a turistar imenso, ultimamente. Quem diria que viria a gostar de ir para um lugar qualquer só porque sim? Um lugar onde não tenho nada de especial a fazer... Enfim, não é bem assim: no Porto tinha e fiz. E em Ferrol não vou ficar tempo nenhum, excepto se não houver transportes, do que duvido muito.

A verdade é que gosto do meu trabalho. Permite-me conciliar algumas das coisas de que mais gosto e ser pago para isso. Não é nenhuma fortuna, claro. Se quisesse ficar rico seria infeliz. Estes últimos meses  (ou anos) têm sido de desordem financeira. Sou péssimo a gerir o meu dinheiro e ainda pior a falta dele. É muito cansativo viver comigo mesmo, pelo menos do ponto de vista monetário. Dos outros é melhor: viajo, cozinho, bebo e escrevo sem me chatear muito. Vez por outra lá me sai uma miúda gira na rifa... Se isto continua assim não tarda apaixono-me. Já estive mais longe. É  uma perspectiva que me assusta um bocadinho, confesso; mas enfim, nunca fui homem de fugir e não é agora que vou começar. As feridas da última já fecharam e sei o que fazer para não voltar a acontecer.

O veículo no qual saímos de Vigo devia ter uma avaria e trocámos ao fim de meia hora. A mudança foi rápida e linear mas o condutor reclama e explica que não sabe se vai poder regressar hoje ainda, por causa do descanso obrigatório. Gostei da troca : tenho um lugar melhor, à frente e à janela. Na outra estava atrás e no corredor. Cada vez que olhava pela janela a vizinha pensava que lhe estava a olhar para os seios pequenos e bonitos, arrebitados. Era jovem, 22 ou 23 anos e vestia-se à anos 50. Parece-me; na verdade pouco ou nada percebo de moda. Se calhar estou a ser influenciado pelo seu ar sóbrio, austero, de rapariga pouco dada a aventuras, cabelo enrolado num carrapito como já só se vêem no cinema.

Adormeci; acordei em Santiago de Compostela. Não passámos pela catedral e parece uma cidade como outra qualquer.

A escala em Ferrol  (como isto agora se chama. Deixaram cair o Caudillo) foi curta. Deu para comer a correr um prato de carne de porco "adobada" - o adubo era massa de pimentão - e beber um copo de Rioja. Tudo isto bastante bom, por sinal, apesar da pressa. A cidade é maior e mais bonita do que esperava. Quando cheguei a Portugal, em 74, navegava muito com um senhor que preferia Ferrol (então del Caudillo) à Coruña, mas eu nunca cá vim. E a  verdade é que gosto muito da Coruña "a cidade na qual ninguém é forasteiro".

3.9.15

Diário de Bordos - Porto, 03-09-2015

Fui à Lello. Já lá não entrava há duzentos e cinquenta anos, mais coisa menos coisa. A minha memória é fraca (em todos os sentidos que o adjectivo pode ter quando aplicado à memória, uma coisa já de si falível e duvidosa) mas desta vez funcionou. Lembrava-me de uma livraria muito bonita e má e reencontrei exactamente isso: uma merda de uma livraria linda como tudo.

Queria um livro de Marguerite Duras em francês. Um qualquer. No outro dia sonhei que preciso de ler tudo dela, tudo: reler o que li e ler o que não. Como o hotel que generosa e modicamente me acolhe é perto fui à Lello. Paguei os três euros de entrada - medida que me parece sensata e ao que parece resultou - e pedi a um jovem barbudo (isto agora é uma redundância, estúpida moda) o que tinham de Marguerite Duras em francês. Têm um título, um, e para estudantes.

Comprei-o, mais um Hammett e um Spillane em português. Onze euros e quarenta os três. O Duras vou guardar, provavelmente, mas os outros posso deixar para a troca. Gosto de deixar livros portugueses nas trocas de livros. Uma vez deixei um sobre o rio Parnaíba na Martinique, no Marin e desapareceu logo a seguir. Uma senhora brasileira, aposto. Pelo menos parecia.

Enfim, não nos dispersemos. Os sonhos são importantes na minha família. A minha Avó iniciou uma carreira na cozinha por causa de um sonho. É verdade, uma verdade histórica (história familiar, entenda-se). Ela não sabia fazer nada, era uma senhora rica que de repente enviuvou. Detestava a sogra, sentimento que a sogra retribuía, não sei se em proporções iguais se não. Para não depender dela (sogra) a minha Avó saíu de casa - propriedade dela (sogra) - e foi para casa de uns amigos pensar no que ia fazer. Um dia num sonho apareceu-lhe Santo António, que lhe disse:

- Filipa, o teu futuro é a cozinha.

A minha Avó comprou um livro de cozinha francês - ela tinha tido um cozinheiro francês até aos dezoito anos, ou coisa que o valha, quando o pai ficou arruinado - e aprendeu a cozinhar. Quando achou que sabia - os provadores eram os empregados da quinta para onde tinha ido -  comprou um carro de bois e foi vender bolos para a praia da Nazaré. Até morrer a Senhora chamava ao Santo António "o meu sócio".

Tal é o poder dos sonhos na minha família. Eu sonhei que preciso de ler a Duras toda e vou ler. Talvez acabe a vender livros numa praia francesa, quem sabe.

Devo dizer que hesitei: La Douleur é um dos raros livros de Duras que li e de que não gostei. Mas um sonho é um sonho e a um sonho obedece-se. Ainda por cima este volume é uma edição para estudantes, vem com aparelho crítico ("Texte intégral + dossier par Marie-Sophie Doudet", diz na capa). Não sei quem é a marie-Sophie mas tenho confiança nela. De qualquer forma raramente leio os dossiers. Não sou crítico literário nem estudante universitário.

Pouco importa. Agora bebo cervejas no café ao lado do hotel. Vou deitar-me cedo. Fui almoçar ao Buraco, na rua do Bolhão nº 95. É um restaurante que aconselho a quem tiver insónias. Comi rojões e queijo da serra e bebi vinho tinto, vinho do Porto e vinho branco (este para acompanhar umas petingas fritas que um amigo tardio encomendou). Já dormi uma sesta, bebi um rum, dois enos e três cervejas e ainda estou cheio - de comida e de sono -. Daqui a pouco vou deitar-me e dormir, inch'Allah.

Se não dormir não faz mal: tenho dois bons policiais e um Duras do qual não gostei quando li a primeira vez.

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A noite está boa, nem fria nem quente; e o Porto bonito. Aquela anedota do concurso - o primeiro prémio era uma semana no Porto com todas as despesas pagas. O segundo duas semanas em idênticas condições - já não funciona. Parece que a Europa chegou aqui, finalmente. Enfim, não parece: a Europa conseguiu finalmente entrar no Porto. O cerco acabou e quem ganhou foi a cidade, outra vez.

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Amanhã vou para a Coruña. levar um barco para Copenhaguen. Depois é possível que vá à Grécia buscar um para Marselha. Estou à espera da confirmação. Copenhaguen, Grécia, Marselha, Panamá, St. Martin, em barcos bons e pago normalmente. Isto é atacar abaixo da cintura um pobre desgraçado que quer parar.

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Recuperei o meu computador, finalmente. Agora tenho de passar horas a repô-lo como estava. Não sei quando vai ser, mas sei quando não vai ser: hoje. Cada vez detesto mais mexer em computadores e invejo os dias que passei a fazê-lo: o prazer que tinha a descobrir estas porcarias é simétrico do que sinto quando não faço nada, ou do que me chateio quando não posso fugir.

Cuidado

De manhã todo o cuidado é pouco, não chega. É de manhã que dizemos às senhoras coisas que depois se revelam verdadeiras. Coisas nas quais elas acreditam. Até nós acreditamos (por isso são verdade, de resto).

Dizemos e fazemos. Imagine o leitor por exemplo  (é um exemplo) que está no Porto e vai - naturalmente - à livraria Poetria. A livraria está fechada, mas à frente há uma loja de flores. De flores bonitas, viçosas, acrescente-se. Compra uma flor e oferece-a a uma senhora. Nada a dizer. É de tarde, o dia foi bom, é natural que se compre e ofereça uma flor.

Se fosse de manhã seria diferente. O leitor saiu de casa para ir comprar o jornal e beber um café. Passa à frente da florista da esquina. Está fechada, claro. É cedo. Vai ao quiosque do senhor Mário (por exemplo) e compra os jornais diários: Diário de Notícias, Público, Negócios  (o Económico não). Lê as notícias, as crónicas. Tenta não pensar na senhora jovem e nua que deixou em casa a dormir, de barriga para baixo, nas nádegas, nas pernas, nos cabelos espalhados pela almofada. Acabada a leitura e bebidos os cafés volta para casa. A temperatura subiu, o ar está cálido, menos picante e estimulante do que há pouco. A florista abriu. O leitor entra e compra uma flor. "Como se fosse a passar pelo jardim, a tivesse colhido e fugido a correr ", diz à senhora para lhe explicar porque não a quer embrulhar.

Em casa a jovem ainda dorme. O leitor pousa-lhe a flor ao lado. Será a primeira coisa que ela verá ao acordar. Vai para a cozinha escrever-lhe um bilhete.

Todo o cuidado é pouco.

2.9.15

Pessoas: vida e superfícies

A rapariga que estava a chorar já não está. O rapaz tentava consolá-la mas de uma forma tímida, distante. Devia estar a acabar o namoro com ela.

[Não sei. Já tive uma namorada que acabou comigo enquanto chorava como uma comporta que se abre. Confesso que na altura não percebi. Agora percebo, mas pouco importa]. A verdade é que a rapariga estava a chorar, o rapaz tentava consolá-lá ma non troppo, uma amiga deles chegou e agora a miúda está sorridente e leve. As mulheres ficam bonitas depois de chorar, é uma chatice.

O rapaz tem cara de parvo, coitado. Suponho que não pode, não sabe ou não quer fazer nada a esse respeito.

A amiga chegou - o mais bonito par de pernas que vi nos últimos cinquenta anos, pelo menos nas pernas que vi vestidas (vestidas neste caso é um exagero ou um lamento) -; bebeu um café e foram -se os três embora.

Mas isto passou-se a duas mesas da minha. Era um filme mudo.

Na mesa ao lado a peça era diferente. Uma jovem senhora - meia dúzia de anos mais velha do que a anterior - fala com uma (provavelmente) amiga mais velha, feia e gorda do que ela. Deve ser o calvário das amigas mais velhas feias e gordas, ter de ouvir os dramas de amor das outras, as jovens bonitas e magras.

É um drama, um verdadeiro drama. [São colegas: a mais nova trata a outra por você e conta-lhe pormenores da família que a outra conheceria se fossem amigas]. Se tivesse de lhe adivinhar a profissão diria que é psicóloga ou médica, apesar das unhas pintadas de verde. A conversa é sobre um homem que lhe ofereceu um anel de noivado e depois (muito depois? Pouco? Não sei) não lhe respondeu ao telefone "para não pagar roaming". A mulher ficou escandalizada. [Nunca recusei uma chamada por causa dos custos de roaming. Fico contente por ver esta opção validada por uma jovem desconhecida, bonita e faladora que provavelmente ignora que quem não recusa chamadas por causa do roaming é capaz de gastar dinheiro descontroladamente nas coisas mais estranhas].

A mais velha quase não fala. A outra ocupa o espaço todo. Eu fujo dele e regresso por episódios. Agora estamos num colega que se apaixonou por ela. Tenho pena de me interessar menos pela vida das pessoas do que pelas pessoas propriamente ditas. Andam juntas, não andam?

Não são colegas. Se eu estivesse mais atento conseguiria descobrir o que fazem, cada uma delas - ou pelo menos a que fala - e qual a relação entre elas. Assim não: fico-me pela cara, muito bonita; pelos brincos, intrigantes; e pelas unhas, verdes.

Migrantes?

Não percebo o drama. Migrantes é um sinónimo bonito e conciso de Ser Humano.

"Ser" substantivo e "Ser" verbo.

Saber, aprender

Eu sei. Não o devia ter feito. É impressionante a quantidade de coisas que sei mas não aprendo.

1.9.15

Porto, uma definição

O Porto é como aquele paradoxo dos corpos: quanto mais temos mais queremos e quanto menos melhor sem eles passamos - até, claro, nos apercebermos de quanto tempo passou desde a última vez.

Jim, outra vez

- Ich liebe dich, ya lublu tibia, ti amo, amo-te, I love you, je t'aime, te quiero... Não sei em quantas línguas já menti. - Jim estava pensativo. Paola dormia no camarote de vante, para onde ele despachava as miúdas depois do sexo. "Não gosto de acordar ao lado de uma mulher", explicou-me um dia. "É de manhã que lhes dizemos mais disparates".

- O pior nem sequer é eu ter-lhes mentido. É te-lo feito sem necessidade nenhuma. Noventa por cento daquelas a quem o disse dispensavam - e dispensaram - o meu amor; as outras dez por cento nem sequer se deram ao trabalho de fingir que acreditavam.

- Não percebo nada do que me estás a dizer, Jim. O amor é uma prisão da qual há muito tempo fugi.

Jim tinha feito parte de um grupo de teatro amador na faculdade. Nunca perdeu o gosto pelo efeito dramático nem pelo solilóquio. A verdade que lhe interessa é, diz-me "a verdade ficcional". A outra é "árida e desinteressante como um espelho".

Há dois anos que é meu tripulante, há dois anos que o vejo levar miúdas para bordo como se as trouxesse do supermercado e nunca lhe ouvi o mais pequeno arroubo sentimental. Nunca o ouvi dizer amo-te a quem quer que seja, fosse em que língua fosse, de manha à tarde ou à noite.

Paola conseguira visivelmente arrancar-lhe palavras. Mas não as que ele queria.

- É a densidade, percebes? Gosto de mulheres mais pesadas do que o ar.

A analogia fez-me sorrir: entre as dezenas de mulheres que vi entrar a bordo nestes dois anos havia feias, bonitas, altas e baixas, loiras morenas ou ruivas, com ou sem sardas - mas não havia uma única gorda. É no Brasil que se chama avião a uma mulher bonita, não é? Talvez. Não sei. Vou beber café, pensar nas metáforas de Jim e começar a procurar outro tripulante. Não me apetece nada ficar aqui parado por causa de um linguista / piloto amador / poliglota apaixonado.

31.8.15

Diário de Bordos - Porto, 31-08-2015

 Adormeci e fui parar a Famalicão. Pelo menos cheguei directamente a S. Bento, uma hora e meia depois do previsto e onze euros mais caro do que o que poderia ter pago. Outra vantagem: prefiro um comboio em movimento a uma esplanada, ainda que seja ao lado da estação, bonita a luz do fim do dia, agradável a temperatura, bom o vinho verde e linda a empregada (uma - soube-o mais tarde - lituaniana alta, magra, loira e sorridente. Conjunto que raramente falha numa mulher).

O restaurante chama-se Tapabento. Já foi uma tasca; agora não é (mas tem uma à esquerda e outra à direita). Parece bom. Na mesa atrás de mim está um casal francês que vive na Guadeloupe e um senhor inglês agora residente na Tailândia (não sou curioso e sou surdo, mas a esplanada é pequena e o senhor francês fala alto). Todos deliciados com as tapas que comem.

Não percebo por que raio de carga de água chamam tapas aos petiscos, mas enfim.

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Belíssima imagem do Porto, de resto. Mudou muito e em tudo menos no essencial.

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Aveiro também mudou, mas estive pouco tempo lá. gostei de ver os canais arrumados, limpos, cheios de moliceiros a passear turistas.

Salvo dois ou três sítios nada me indicou que já ali vivi um ano. Em 1981 ou 82 é certo:terá havido vida no passado?

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A viagem de Évora a Aveiro faz-se num instante: cinco horas, dois jornais, uma sesta e um lanche medíocre na estação do Oriente.

Não há estação no Universo mais feia e menos prática do que aquela. Talvez seja bonita por fora; fotogénica. Mas o interior é um pesadelo cinzento, opressor. Parece uma teia de aranha desenhada por um aprendiz de Piranesi.

Apesar disso e enquanto como o pior lanche da minha vida ocorre-me que devia escrever um manual sobre a sorte. Ou talvez sobre a inconsciência: só uma ou outra conseguiriam explicar porque me sinto tão feliz, apesar de não ter um tostão.

E não sou daqueles que pensam que o dinheiro não faz a felicidade; faz. Não a compra, o que é diferente.

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Pergunto a mim mesmo se as pessoas que pensam que a saúde é um direito natural e deve ser gratuita trabalham de borla para os médicos, enfermeiros e respectivos auxiliares, hospitais, centros de saúde farmacêuticas e todos os fornecedores de tudo o que a medicina envolve.

Banalidades de base

Fala-se muito na banalidade do mal e no mal da banalidade; menos na banalidade do bem e no bem da banalidade. Os quais todavia são pelo menos tão frequentes como os primeiros.

Cada vez gosto mais da banalidade e a ela aspiro como uma nuvem que se derreia em chuva. A vida um largo rio tranquilo entre duas margens banais, esmagadoras de tão banais.

30.8.15

Voltas, Évora

Évora é uma cidade circular. Literal, não metaforicamente. Gosto de cidades circulares, de saber que para ir de onde estou para onde quero ir ou vou no sentido dos ponteiros do relógio ou no sentido contrário (sentido directo, para quem se interesse por estas coisas. Aquele chama-se sentido retrógrado, um bocadinho contraditoriamente).

Claro que se pode também cortar a direito, traçar uma diagonal, mas dada a configuração das ruas essa opção é quase sempre mais demorada do que ir à volta.

A qual volta tem uma vantagem adicional: se se a completar regressa-se a onde se estava a última vez que aqui se esteve.

Idade

A partir de certa idade querer ir para a cama com uma senhora é uma consequência e não mais uma causa.

Chama-se a essa idade a idade certa.

29.8.15

Diário de Bordos - Lisboa, 29-08-2015

Vou comprar os jornais, beber um café e comer um croquete à Versailles. O ar está fresco, limpo, a rua vazia. É pela manhã cedo que se amam as cidades e as mulheres.

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Namoridos: ouvi ontem pela primeira vez esta expressão, mistura de namorado e marido. Deve haver poucas palavras que dêem tanta vontade de casar como esta.

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Planeamento de longo prazo: sei o que vou fazer e onde vou estar nos próximos dois meses.

28.8.15

Bom melhor óptimo

Ia escrever "Já tive as melhores e as piores mulheres do mundo" e depois descobri que não é verdade. Só tive as melhores.

Aquelas que eu pensava serem as piores eram simplesmente outras das muitas formas do bom.

Santuário portátil, sacrário: Tabernáculo


Este bar vai abrir em breve e quando abrir será, não tenham a menor dúvida, o melhor de Lisboa (não conto, claro, o Procópio na categoria "Bares de Lisboa" porque primeiro o Procópio não é um bar, é uma casa; e Segundo não é de Lisboa é doutra galáxia que por acaso aterrou em Lisboa. O Procópio é a melhor casa do Universo e não se pode portanto comparar a outros estabelecimentos aparentemente semelhantes).

Fica na Rua de S. Paulo, pertence ao meu irmão Hernâni e eu estou chateadíssimo por não poder estar cá quando ele inaugurar aquilo.

PS - Tem rum. Varadero 7 anos.

Tele-turis-fotos: Summertime blues






26.8.15

Jim

- Só consigo apaixonar-me por uma mulher que me obrigue a escrever - Jim fez uma pausa, sorveu o whisky como se aquilo o enjoasse (aquilo podendo ser o whisky ou o que acabara de dizer) e olhou para mim. Parecia que se perguntava de onde me conhecia. - Não! Por uma que me faça escarrar as palavras, cuspi-las, que mas arranque como dentes, sem anestesia.

Jim é meu tripulante há dois anos. É um escocês alto, ruivo e atormentado. Nunca o vi bêbedo no mar nem sóbrio em terra. A miúda a quem ele se referia é uma italiana bonita, professora de literatura inglesa na universidade local. Encontrámo-la anteontem num concerto ao ar livre, uma dessas organizações nas quais as câmaras municipais gastam dinheiro que não têm para fazer os munícipes esquecer a maneira como o dinheiro deles é dilapidado (isto dito o concerto foi óptimo, música clássica árabe tocada por um grupo grande de músicos, todos eles bons).

Estava ao pé de nós; Jim convidou-a para beber um copo quando aquilo acabou. Anuíu. Fomos a um bar ali ao lado, um antigo clube desportivo que agora compõe a vasta panóplia de bares da praça, recentemente reabilitada.

Nunca nestes dois anos vi Jim envolver-se afectivamente com quem quer que seja. Normalmente arranja uma mulher que leva para bordo e fode vigorosa e competentemente (há coisas que num monocasco de cinquenta pés não se podem ignorar). No dia da largada, quando começa o processo de desengrossamento já esqueceu o nome da senhora.

- Percebes? - O monólogo continua. - Cada vez me chateia mais ir para a cama com uma mulher só por ir.
- A sério? Não se nota, Jim - o sarcasmo passa-lhe ao lado. Fala consigo próprio, como se escolhesse os dentes que amanhã vai pôr no papel.
- Não são os olhos. Não são os lábios - faz uma pausa. - Não são as mamas. Quero dizer, não são as mamas - (Paola tinha um belíssimo conjunto delas. Percebi claramente a hesitação de Jim). - É tudo. Tudo. A pele.

Jim escreve bem. Já por mais de uma vez tive de lhe dizer que o Livro de Bordo não é o suporte adequado para escrita criativa e implorar-lhe que escreva num caderno que deixo ao lado com esse fim. Escreve claramente, tanto descreve as pessoas que encontramos como um amanhecer no mar de uma forma límpida, escorreita, sem floreados. Nunca me pareceu que precisasse de alguém para o forçar a escrever.

Ontem perguntou-me se podia convidar Paola para jantar. Disse-lhe que sim, desde que não fizesse haggis (é inútil. Gosta tão pouco daquilo como eu). Não bebeu uma gota de álcool o dia todo. O jantar correu bem. Fez um lombo de porco com tapenade, um dos meus pratos favoritos. Bebeu pouco. Paola é uma companhia adorável, Sabe conversar; quando não está de acordo com qualquer coisa mantém o seu ponto de vista e defende-o com firmeza mas sem agressividade. É bonita. Veste-se bem, com gosto e sem ostentação.

Percebi que em breve terei de começar a procurar outro tripulante e vim dormir para um hotel. Convivo bem com o barulho do sexo, mas não suporto o do amor.

25.8.15

Silke

Ela ia descer do comboio no Entroncamento e desafiei-a a vir até Lisboa. Disse que sim, passámos o resto do trajecto a falar não sei de quê e mal chegámos fomos para minha casa para o meu quarto para a minha cama e fizemos amor a noite toda, um amor selvagem, não violento mas feroz, impetuoso, bravo como se fôssemos dois soldados de regresso da guerra como se estivéssemos a lutar e não a amar como se estivéssemos possuídos e não a possuir, como se adivinhássemos que uma vez passada aquela noite nunca mais nos veríamos e quiséssemos exorcizar tal desgraça.

Saí de manhã cedo, ainda ela estava a dormir. Deixei-lhe um bilhete: "Podes ficar até quando quiseres. Beijo. Pedro" e fui-me embora, nessa altura tinha um barco em Belém, peguei nele e naveguei para Oeste. Passei os Açores, voltei para trás, pouco antes de chegar a Lisboa virei para Norte até quase ao meio da Biscaia, voltei para trás porque já não tinha comida a bordo. Parei em La Coruña, comprei mantimentos, embebedei-me e quando acordei estava no mar outra vez, para Sul. Atraquei em Belém quase três semanas depois de ter largado. Foi assim que descobri que sou um idiota, certeza essa que me tem acompanhado desde então.

Ela não deixara resposta para além do nome, por baixo do meu: Silke.

Conselho: princípes

Um conselho às inúmeras senhoras que encontro por esse mundo fora à espera de um princípe encantado: um princípe desencantado é muito melhor.

24.8.15

Almoço improvisado - Miscelânea de chouriços com legumes

Comecei por fritar os diferentes chouriços num bocadinho de azeite; na gordura que daí resultou refoguei cebola, pimento e rabanetes, por esta ordem - uns cortados às rodelas finas, os outros cortados em bocados nem grandes nem pequenos.

Uma vez fritos chouriços, cebola, pimento e rabanetes fiz o mesmoa duas beringelas cortadas em fatias. As quais foram fazer companhia aos colegas numa panela, mais quatro ou cinco tomates pequenos devidamente cortados e descaroçoados.

Juntei água, coentros secos, orégãos, tomilho (faltou louro, não teria perdido nada. Muito antes pelo contrário) e deixei cozer um bocadinho.

Resultou um almoço agradável, veranil, cujos restos serão comidos amanhã frios porque quase faz alembrar uma ratatouille. Quase.

Fragmento

"Dieu a été généreux avec moi: ce qu'il ne m'a pas donné en fric m'a restitué en bonheur. Je sors gagnant."

Palavras, redescoberta, vida

De repente redescobri as palavras. Penso que percebem o que quero dizer: é como estar muito tempo debaixo de água, vem-se à superfície e inspira-se como se a atmosfera toda entrasse em nós e fica-se bêbedo de ar.

Sou um rapaz temperado, detesto os excessos excepto aqueles de que gosto demasiado para fingir que sou temperado mas os outros, sem os quais posso passar, dispenso-os facilmente.

É por isso que gosto de redescobrir as palavras assim tão subitamente, em excesso e não me importo nada de as perder outra vez. Aquele momento à tona de água em que a vida entra em nós e nós somos a vida e a ausência de palavras se esvai em segundos dura uma vida.

Jantar improvisado - ovos mexidos com cebola, pimento e gengibre

Numa frigideira refoguei cebola salpicada com gengibre raspado fino; acrescentei bastantes coentros picados finos também, que isto ou há moralidade ou se picam todos, e pimento encarnado, se bem essa não seja a minha cor favorita. À falta de pimentos azuis faz-se o que se pode.

Bati os ovos com queijo picado - pena não ter sido queijo da ilha - paprika e os inescapáveis cominhos secos.

Depois baixei (ainda mais) o lume, misturei tudo e fui mexendo devagar até estarem os ovos contentes. Isto é: antes de secarem.

No frigorífico havia um branco redondo que se juntou à festa e foi isso mesmo - uma festa.

Instruções

Não se salta nem de uma embarcação nem de um sonho. Desce-se, como se o sonho estivesse tão próximo da vida como o barco deve estar do cais antes de dele sair.

23.8.15

Saudades

Que saudades tenho de um bom verbo e respectivo pronome reflexo.

Navegar, como se

Vou navegar por essa liberdade fora como se pedalasse as estradas do teu corpo, como se nos navegássemos os dois felizes e livres, como se as estradas e o mar e o vento fôssemos nós, como se um sonho parisse um mundo e o respectivo tempo, como se a vida e o futuro fossem feitos de um olhar e um sorriso. Os teus.

Haver, não haver

De todos os lugares não há um lugar, há muitos. De todos os dias, todas as luzes, horas. De todas as mulheres não há mulheres, hás tu.

Excesso e temperança

Dia lindo: calor mas não demasiado, vento, núvens e sol idem, tráfico e gente em quantidades moderadas.

Só pode fazer a apologia do excesso quem conhece as virtudes da mediania.

Tele-tripulante-foto



O dia começou bem.

(Fotografia de T. Paoli)

Marte, Portugal

As pessoas que querem ir viver para Marte não deviam visitar Portugal: perderiam toda a vontade.

Isto é a versão boa de Marte (ou Júpiter, ou Saturno ou outro lugar qualquer do espaço exterior).

Diário de Bordos - Lisboa, 23-08-2015

Ontem fui navegar. Belém - Cascais - Belém. Não sei quantas vezes fiz este percurso desde que em 1974 cheguei a Lisboa. Centenas, largas centenas: um ano tem 52 semanas. Deduzo todos os anos que não estive cá e acresço as semanas em que o fiz vezes.

Ainda me lembro de quando a linha era um conjunto de povoações separadas umas das outras por manchas de verde. Os edifícios encarnados nas Trafaria ao qual aproávamos no regresso de Cascais desapareceram, as manchas de verde entre as vilas também. A Nortada e a beleza mantém-se. Nem os sacanas dos pescadores mai-las malditas bóias conseguem estragar aquilo.

........
Anda tudo ligado e cabe-nos a nós ligar o que não está. Navegar com alguém que sabe o que é um oxímoro, uma nemésis e consegue argumentar correcta e sorridentemente um ponto de vista é melhor do que navegar com alguém cujo conhecimento se limita a navegar - se bem isto já seja muito bom, forçoso é reconhecer.

Navegar é bom, conversar também, uma boa conversa num maravilhoso dia de vela ainda melhor. Como dizia a jovem tripulante, ontem "não trabalhamos numa mina". Não, muito longe disso, graças sejam dadas a quem a elas tem direito.

........
Regressei a casa de táxi. Já não apanhava um há tanto tempo que não sabia como fazer. A ideia original era apanhar um autocarro e descer onde ele me deixasse (reminiscências dos dias sem dinheiro em Paris: metia-me num autocarro e fazia o trajecto duas ou três vezes), mas isso é difícil num táxi cujo chauffeur está nervosíssimo por causa do relato do jogo de futebol - quarenta mil pessoas, diz o relator numa das poucas frases cujo sentido percebi. Quarenta mil. Ia acrescentar patetas, mas sei que não é verdade e isso ainda torna a constatação mais dolorosa. Quarenta mil pessoas -.

Acabei por alterar o trajecto duas ou três vezes e num supermercado. Podia ter sido pior.

Cansaço

Nado numa piscina de sono e cansaço. Alambuzo-me de camembert, Syrah, carne de porco e piripiri (tudo isto envolvido em cansaço como uma empada) e surpreendo-me: não é uma fatiga física. Não é sequer uma fatiga urgente: é plácida, inevitável como um dia de sol.

E a felicidade: sólida, tangível. Um paralelipípedo que nada comigo na piscina do sono.

21.8.15

Também é verdade

Também é verdade que as mulheres deviam nascer todas com trinta anos já feitos, para nos poupar esta horrível e longa espera.

Publicidade

Vou rentabilizar o DV com publicidade. Se alguém tiver produtos compatíveis com o espírito do blog e os quiser promover aproveitando preço promocionais pode ligar para o número 123 456 789.

Alguns exemplos de produtos aceites:

  • Desodorizante para sonhos;
  • Escova de almas;
  • Livro de instruções melancólicas;
  • Borrachas para memórias indeléveis;
  • Pílulas para dourar ambições;
  • Panelas sem fundo;
  • Frigideiras a frio;
  • Colheres sem cabo;
  • Facas sem angústias;
  • Cicatrizantes para feridas invisíveis;
  • Colírio para os olhos da alma.


A lista está longe de ser exaustiva. Se o seu produto não está mencionado é decerto por falha do autor. Não hesite em contactar a direcção.

20.8.15

Desde, para

O que vem de sempre dura para sempre.

Poderes

Há pessoas que atribuem às palavras poderes que elas não têm. Desculpa, por exemplo. Três sílabas que se lançam para o ar, ordenadamente. E depois tudo continua na mesma, como se nada tivesse sido feito.

Ou dito.

Azar

É forçoso reconhecê-lo: os automobilistas são na sua esmagadora maioria pessoas civilizadas, corteses, educadas. Cedem gentilmente passagem aos peões, não usam a buzina se não com fins altruístas, nunca estacionam nos passeios nem nas passagens dedicadas a quem anda a pé, deixam passar os autocarros e outros meios de transporte em comum.

Eu é que tenho azar e só apanho imbecis malcriados e agressivos.

(Esmagadora, literalmente: hoje o senhor automobilista sentiu-se na obrigação de me dizer: "a próxima vez passo-te por cima"; ao que eu não respondi "se faz favor" porque a) não é verdade e b) ele já estava demasiado longe).

Reedição - Escola voodoo de economia, sucursal portuguesa

"Isto não vai acabar bem." Assim acaba um post de João Galamba, no Jugular. É bom augúrio. Se a Jugular School of Economics diz uma coisa, o mais provável é que seja o contrário que se verifique: temos alguns anos de experiência com os governos Sócrates para o saber.

(Além de que dá um certo espanto ver alguém ligado ao PS e que sempre defendeu Sócrates dizer "isto vai acabar mal". É verdade que estava tudo optimamente, ele era TGV, autoestradas, expansão do terminal de contentores de Alcântara, ele era amigos e consultorias e dinheiro pela janela a rodos, e agora é esta malta que vem estragar tudo; mas um mínimo de decoro não faz mal a ninguém).

[Este dá um prazer especial. A prospectiva não é a minha especialidsade].

02.09.11

Reedição - A fé dos convertidos

Vejo que a esquerda reclama - podre de razão, desta vez - com os aumentos de impostos. É bom ver este lado do espectro político preocupado com a capacidade do Estado para gerir os nossos impostos. Esperemos que dure, e quando for a vez de um governo PS (longe vá o agoiro) se oponham com igual veemência à pirataria fiscal.

A continuar assim ainda vai reclamar cortes na despesa.

(02.09.11)

Reedição - A força das coisas

Contigo sou todo e sou muito; sem ti não chego nem a metade e bem pouco sou, quase nada.

(11.09.11)

Diário de Bordos - Lisboa, 20-08-2015

Os franceses têm uma expressão da qual gosto muito: c'est comme pisser dans un violon. É excatamente o que penso dos tratamentos auto-receitados a uma porra de uma dor no joelho que há dois meses não me larga (e agora aumentou, filha da mãe). São como mijar num violino.

Hoje resignei-me e marquei uma consulta no médico. É passar um atestado de incompetência ao corpo, não é?

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Ontem estive perto de um transporte nos Estados Unidos, de Rhode Island ao Texas. Perdi-o por causa do visa. Curioso como esta admiração que tinha pela terra dos bravos se desvanece pouco a pouco. Começou com a absurda regulamentação de tudo e mais alguma coisa - aquilo está transformado numa terra em que o absurdo manda -; e depois veio por aí abaixo, até desaguar em coisas comezinhas como esta.

Lá terei de fazer a merda do visa.

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Médico, visa... Há pessoas que incensam o real. A mim parece uma colecção de merdices. Cheias de força, é certo, Mas merdices.

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Ando a escolher receitas. O DV tem cinquenta e quatro - pelo menos as devidamente etiquetadas -. Não as vou refazer todas, mas vou andar lá perto, o mais perto possível.

Uma viagem gastronómica pelo passado recente (o DV é velho, mas relativamente. Doze anos pouco mais é do que uma vida. Vida e meia, se quiseremos ser precisos).

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Temos visto filmes na televisão, a minha anfitriã e eu. Um por dia, escolhidos por consenso. Mais uma vitória do real: não é tão bom como ir ao cinema, mas é melhor do que não os ver de todo.

Ontem calho a vez a um filme giro, na versão original chamado Copying Beethoven. Interpretação majestática de Ed Harris, na diagonal oposta do cabotino do Day-Lewis (enfim, um cabotino genial, reconheço).

Um bom actor, argumento excelente e actriz gira (e boa, também). É preciso tão pouco, não é? Talento. A sequência da interpretação da Nona (o leitmotiv do filme) é digna de antologia.

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Lisboa destapou-se das núvens e cá está, radiosa e limpa. Pelo menos no céu, que as ruas continuam uma desgraça.

Com graças inesperadas: descobri um restaurante na rua de Arroios chamado Delícia de Arroios. A amostra ainda é demasiado pequena para falar; mas não vai ficar assim por muito tempo.Há muito tempo que não como um pica-pau tão bom, tão eficiente e simpaticamente servido.

19.8.15

Picar, morder

Gosto de mulheres que picam; detesto as que mordem.

18.8.15

Desconfiança

Devemos desconfiar mais do óbvio do que do desconhecido.

17.8.15

Racionalidades

- Então foste despedido? O que é que fizeste? - Perguntam-me.
- Nada.
- Nada? Isso não pode ser. Alguma coisa hás-de ter feito.

É espantoso. Apesar de todas as histórias que ouvem - ou vivem - quotidianamente as pessoas continuem a acreditar que as empresas sáo geridas racionalmente, por máquinas frias e calculistas cujo único objectivo na vida é ganhar dinheiro.

Não são, claro. São geridas por pessoas; a razão ou objectivos límpidos, lineares tais como ganhar dinheiro estão tão presentes como em tudo o mais que as pessoas fazem: muito longe da primeira linha.

As empresas são humanas: só ocasionalmente são racionais.

Memorandum

"Golden rule

After university, Naipaul decided the way he had written undergraduate essays was not “proper writing”. He set himself the task of learning to write all over again, this time using only simple direct statements. “Almost writing ‘the cat sat on the mat’. I almost began like that.” For three years he stayed with those rules. He recently provided a list of seven rules for beginners at the request of an Indian newspaper: (1) write sentences of no more than ten to 12 words; (2) make each sentence a clear statement (a series of clear linked statements makes a paragraph); (3) use short words—average no more than five letters; (4) never use a word you don’t know the meaning of; (5) avoid adjectives except for ones of colour, size and number; (6) use concrete words, avoid abstract ones; (7) practise these rules every day for six months."

16.8.15

Lisboa, núvens

Lisboa tapa-se com um novo lençol de núvens, liso e acetinado. Por baixo a alegria habitual.

Amanhã acordaremos, nus e felizes: tu destapas-te das núvens e eu de ti, cidade.

15.8.15

Definição

Pena de morte é um oxímoro.

(Isto ainda estava nos rascunhos e afinal acabo de ver que já tinha sido publicado. Fica. Faz de conta que é uma reedição. De qualquer forma já reduzi o número de posts para muito menos de nove mil, com os rascunhos que apaguei. Devia era apagar tudo, mas acho pena. Escrever é uma das raríssimas coisas que não faço porque quero [adenda: como de resto se pode facilmente avaliar pelo resultado]).

Biblioteca online - The Picture of Dorian Gray

"Those who are faithful know only the trivial side of love: it is the faithless who know love's tragedies."

"I can stand brute force, but brute reason is quite unbearable. There is something unfair about its use. It is hitting below the intelect."

"Philantropic people loose all sense of humanity. It is their distinguishing characteristic."

"Faithfulness is to the emotional life what consistency is to the life of the intelect - simply a confession of failure."

Oscar Wilde, "The Picture of Dorian Gray"

(Quase directo dos rascunhos)

Noite, verdade

A noite é um ventre.

(De um poema de José Anjos:
"a partir de certa hora
café escuro
noite clara
noite fora"

E de Alice Pinto Coelho:
"– ...A noite é uma lente: aumenta o bonito e o feio")

Beleza (cont.)

Uma vez tive um sonho que continuava de uma noite para a outra, como aqueles filmes a que antigamente se chamava trinta e uma partes. Todas as noites o sonho pegava exactamente onde tinha acabado na noite anterior. Não me lembro dele, mas lembro -me do prazer que tinha quando o sonho recomeçava. Durou uma semana.

Refiro-me sempre ao sonho, no singular. Talvez devesse dizer os sonhos. Não sei.

.........
Penso nisto porque olho para X., a minha ex-mulher. X. não é a inicial do nome dela; é a do diminutivo. Gosto de me referir a ela como X., não se sabe se é singular ou plural.

A maior parte das pessoas pensa que é singular, claro. Só eu e - provavelmente um ou outro dos seus amantes - sabemos que X. é o plural de X. Isto é, que há várias pessoas dentro dela.

Tontice. Todos somos muitos; uma guerra civil, como dizia aquele francês. E com mais facções do que a da Síria. De resto não sei sequer se ela tem amantes. Espero que sim. De vez em quando ainda fazemos amor, mas é mais de vez em quando do que amor.

Quando a conheci, quando nos casámos uns anos depois, quando R., o nosso filho nasceu X. era linda. Era uma mulata muito clarinha, vinte e cinco por cento, dizia ela quando lhe apetecia gozar alguém (felizmente acontecia frequentemente. Tinha um sentido de humor devastador, cáustico que nem a si própria poupava).

Depois começou a ficar feia. Nem sequer engordou. Ficou feia e um chaço, assim quase de repente. Quando o nosso segundo filho R. nasceu já não a podia ver.

X. é uma excelente mãe, inteligente e culta como não conheço outra mulher. Só tem este problema da fealdade: cada vez que olho para ela vejo-a como foi e não como é.

Os miúdos estão crescidos, cada um para seu lado. Bem educados, bons empregos. Obra dela. Eu pouco tratei deles. Demasiado absorvido com o trabalho e com a política (faço parte da assembleia municipal da nossa vila já lá vão cinco mandatos. Toda a gente queria que eu fosse mais longe, "voos mais altos", mas declinei. Não acredito que o poder valha o que custa).

Separei-me de X. há cinco anos, mas ainda penso nela todos os dias e todos os dias tento encontrar-lhe um defeito - para além da fealdade, quero dizer -. Não encontro. Isto é : aquilo que para os outros poderia ser tomado como defeitos para mim não o são. Características, quando muito.

Sinto -me traído. X. enganou-me. Ou ela ou o tempo.

........
Agora estou casado com uma cabra que esconde a maldade de que é feita por trás de uma nuvem de gentileza, choro, pedidos de desculpa, disponibilidade para os outros, a família, os cachorros, tudo. E beleza, muita beleza, uma infinita beleza.

Sinto-me um esterco, incapaz de amar a mulher que outrora amei porque é feia; e de amar uma velhaca e de a desculpar e lhe perdoar tudo porque é bela.

Galambezes e galambices

O programa de ajustamento deste governo ficou muito aquém do que poderia e deveria ter sido; mas está a dar frutos, como seria de esperar. Claro que isto é um problema para os galambas, para os adeptos da espiral recessiva e outras espirais. Como solucioná-lo? Há várias formas; nos tempos mais próximos vamos assistir a alguns contorcionismos interessantes. Uma delas consiste em dizer que a recuparação portuguesa se deve - entre outras - à espanhola.

Que teria o PS dito (ou disse) sobre o programa de ajustamento espanhol?

14.8.15

Combustível

Ando cansado, demasiado cansado. Será que o tanque de tolerância está a acabar?

Prodígios, perseverança

Se incluirmos trinta e quatro rascunhos o DV chega hoje aos nove mil posts. Metade são fotografias, músicas e citações. A outra metade é merda. Ficam nove mil prodígios: posso não ter nada para dizer, mas digo-o com perseverança.

Michelle, I. (Cont)

"Estou de rastos, desfeita, frágil, vulnerável, cansada e por cima disto tudo, zangada." Michelle falava-me num bar do centro de Barcelona. Quem a visse e não ouvisse - o bar inteiro, eu por vezes incluído - pensaria que me estava a dar notícias dos filhos, a contar um episódio particularmente divertido das férias ou a inventar uma história cómica. Michelle - uma rapariga catalã de pai e mãe franceses - tem uma surpreendente e encantadora capacidade de dissociar a expressão do discurso. "Podia anuncia a morte do pai a rir-se", pensei, enquanto tentava ouvi-la. Fala com um sorriso de orelha a orelha mas fala baixo, e quem a conhece sabe que quanto maior for a dissociação entre o discurso e a expressão e quanto mais baixo falar mais triste está. São essas as maneiras de dizer Estou triste, mortalmente triste.

Estamos num bar do centro de Barcelona chamado Casa Almirall, um bar bonito, antigo e com excelente música. É sexta-feira, o bar está cheio. Michelle é uma habituée. Bebe muitos Vermutes, servidos na Casa Almirall à moda antiga, com um sifão (que ela não usa - isso não a impede de reclamar quando o barman, que a conhece há anos, não traz e põe ao lado do copo).


Laranja, verde



Diário de Bordos - Lisboa, 14-08-2015

Não sei se homem prevenido vale por dois; mas sei que aguenta por dois, três ou mais.

Hoje fui despedido. Já não trabalho, com grande pena minha, em Alvaiázere. A coisa não aconteceu brusca ou inesperadamente, pelo que me limitei a lamentar o fim de um tão bom interregno verde numa vida em geral azul.

Felizmente há sequelas: os tremoços do restaurante pescada real (ou real pescada, ou pescada do rei, ou rei da pescada - nunca me lembro -) estavam intragáveis - haverá tremoços depois dos da minha tremoceira de Alvaiázere? Duvido -.

O restaurante da pescada e do rei continua com dois problemas graves. Primo a imperial: boa de mais. Nunca consigo beber só uma. Secundo o frango assado. É demasiado bom. Mas enfim, são problemas com os quais consigo viver, apesar de pobre e doente. E podia acrescentar um terceiro: a simpatia do senhor que assa os frangos e "tem um tio que era maquinista nos barcos" e "quer ir ao Panamá e às Caraíbas".

Ou seja: estou em Lisboa.

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Aborrecido, mas não mais. Por uma insondável razão (ou conjunto delas) suportamos melhor o que confirma as nossas expectativas, por piores que sejam, do que aquilo que nos colhe de surpresa. O homem não gosta de surpresas (e se for alemão não gosta delas nem boas).

Resta-me descansar e escrever, objectivos antinómicos s'il en est.

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A viagem de regresso foi fluida: camionete, comboio e metro sucederam-se num caldo de curiosidade e sono, alternados como camadas de bebinka: passo de uma vida a outra como de um meio de transporte a outro, olhando, dormindo, sonhando, lembrando e imaginando como se se tratasse de mudar de tapete rolante num aeroporto.

Feliz aeroporto!

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O meu contacto com a alta burguesia rural portuguesa foi infelizmente curto e superficial. Tenho pena. Não porque goste particularmente de espécies em vias de extinção mas porque gosto das pessoas, todas.

Pelo menos até as conhecer.

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Encontrei o meu disco rígido externo. Posso de novo ouvir a minha música. Pergunto-me como ficarei quano o perder de vez e não gosto da resposta.

13.8.15

A burocracia dos países exóticos



Coimbra, 12-08-2015

Trocas, celebrações e ensinamentos

"...esta tradição secular teve início numa altura em que grande parte dos terrenos agrícolas da localidade pertenciam ao Mosteiro de Santa Cruz e, desta forma, os chamados "frades Crúzios" deslocavam-se até aos "caseiros" por alturas do Verão, para se abastecerem de legumes, cereais e outros víveres que os mantivessem durante o resto do ano. O povo, em troca, recebia celebrações e ensinamentos religiosos e espirituais."

In Diário de Coimbra, 12-08-2015 (Verbatim).

Não sei se é preciso acrescentar muito mais.

12.8.15

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 12-08-2015

Hoje fui a Coimbra. É uma cidade muito bonita (pelo menos a parte dela que conheci). Comprei um cinto, duas carteiras, dois toalhetes e três garrafas de vinho, cortei o cabelo e bebi uma quantidade razoável de cafés e aguardentes caseiras por menos do que em muitos países teria pago pelas garrafas de vinho ou pelas aguardentes - as quais não seriam caseiras, ainda por cima -. Fiz um amigo - um escultor de madeira - a quem encomendei um porta-chaves em forma de veleiro; e vi aguarelas fantásticas de um senhor que as pinta para poder beber, objectivo nobre e neste caso bastante bem sucedido. Bebe muito e pinta bem.

Fui de turista. Paradoxalmente cada vez gosto mais de o ser. Visitar lugares estranhos, falar com os autóctones por razões que não sejam de trabalho, ouvir as conversas na barbearia - o que eu gostaria de ser um bom escritor para as poder reproduzir - falar de vinhos com o senhor que mos vendeu, sair de um sítio com vontade de lá voltar.

Coimbra é uma cidade que eu aconselho vivamente; e à qual regressarei em breve, para ir buscar o porta-chaves e falar com os amigos que lá fiz.

A sedentarização deve ser isto, não é?

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Em Lisboa uma barbearia escolheu como estratégia de marketing proibir a entrada de senhoras. Confesso que me é relativamente indiferente; se proibissem a entrada a pretos, judeus, coxos ou idiotas teriam decerto mais problemas.

Na barbearia Irmãos, Rua Direita, Coimbra essa estratégia de marketing não funcionaria: as senhoras vão-se embora de moto proprio.

Permitindo assim uma interessantíssima conversa sobre as relações interraciais em Angola durante a guerra colonial (a média de idade da clientela é igual à dos barbeiros: alta. Eu era um dos mais jovens). Podia ter sido em Moçambique ou na Guiné, claro, mas não. Abordou-se, como convém, o tema por vários ângulos - inclusive o do famosíssimo martelo com que naquele tempo se curavam algumas das consequências menos agradáveis das mencionadas relações -. Já não ouvia falar desse martelo há muitos anos. Foi bom saber que não desapareceu do nosso imaginário.

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Quartas-feiras é dia de mercado em Alvaiázere. O céu vai ter de abrir as portas a mais uma pessoa: a senhora que me vendeu as sardinhas já lá tem um lugar reservado.

Dois: a tremoceira também.

Tele-turis-fotos, Inverness - Woolverstone / II




11.8.15

Tele-turis-fotos, Inverness - Woolverstone / I





Nomadismo

"Voar é o contrário de viajar" diz Italo Calvino. Detesto voar em qualquer avião que leve mais de dez pessoas, pilotos incluídos. Mas não partilho essa visão idílica, paradisíaca da viagem. O paraíso é onde estamos, não onde estávamos até lá chegar.

Menos do mesmo

Não é propriamente uma questão de estar sempre a voltar ao mesmo. É uma questão de descobrir mais no mesmo.

Diário de Bordos - Alvaiázere. Portugal, 11-08-2015

Regresso a Alvaiázere: vinho branco, peixe cozido e um grande passeio de bicicleta, na desordem. O dia começou com uma sopa de pedra em Almeirim e acaba com Gould a tocar Beethoven. Portugal é isto: uma deliciosa e interminável desordem de coisas boas.

Ou a vida, não sei.

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Não posso viver sem navegar, mas posso viver no campo.

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A Pátria é qualquer sítio onde o tinto seja bom, barato e abundante, o peixe e os enchidos deliciosos, baratos e abundantes, as pessoas simpáticas e hospitaleiras, o clima abençoado e o campo não esteja muito longe da cidade.

Assim de repente só me ocorre um, mas pode ser que haja mais.

Amizades

Numa coisa os "amigos dos animais" devem ser compreendidos: animais a defender animais.

Hierarquias

Na hierarquia dos privilégios fazer aquilo de que se gosta não está, ao contrário do que muita gente pensa no topo. Melhor ainda é não ter de trabalhar.

[Não é ironia. É inveja.]

10.8.15

Diário de Bordos - Aeroporto de Gatwick, Reino Unido, 10-08-2015

Jamie Oliver é um cozinheiro inglês que se tornou famoso por razões que ignoro totalmente. Não estou a ser irónico ou a insinuar seja o que for: desconheço realmente por que raio de carga de água o nome e a fotografia do homem estão em todo o lado. É impossível dar três passos seguidos neste país sem se ver a cara (para mim de parvo) do rapaz.

Há pouco fui comprar uma sandes, criada por ele ou, mais provavelmente, por alguém na empresa dele. Li, como sempre, a lista de ingredientes. Parecia uma lição de química.

Ainda por cima era uma porcaria.

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Mais do que o que aprendemos, a grande vantagem de ler é dar-nos ver a extensão do que ignoramos.

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Outra vez em Gatwick. Desta vez é pouco tempo: um par de horas. Não terei sequer tempo para esgotar a hora e meia de wi-fi gratuito que o aeroporto gratuita e generosamente dispensa.

Em Lisboa é ilimitada. E ainda há quem diga mal de Portugal.

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No país que nos deu a ver Julie Christie, Julie Andrews, Jacqueline Bisset (ámen), Helen Mirren, Charlotte Rampling (re-ámen), Helena Bonham Carter, Dirk Bogarde, Michael Caine, John Gielgud, Anthony Hopkins, Sean Connery e mais uma grande dúzia deles as pessoas são feias de morrer.

"O Império Britânico existiu porque os ingleses queriam melhor comida, melhor clima e mulheres mais bonitas do que as que tinham em casa", alguém disse - mais ou menos, cito de memória -.

Diário de Bordos - Ipswich, Reino Unido, 05 a 10-08-2015

Não é a primeira vez que estou em Ipswich, mas é como se fosse: não me lembro absolutamente nada do lugar, excepto de o ter achado mortalmente aborrecido. Desta vez não terá tempo de me entediar: daqui a pouco estarei no comboio a caminho do aeroporto a caminho de Lisboa a caminho de Alvaiázere.

O transporte correu bem, sem percalços de maior, se excluirmos os provocados pela minha incapacidade de gerir o meu dinheiro. Com a qual, de resto, cada vez lido pior. Começo por achar injusto que esta incompetência se manifeste apenas quando a massa é minha; com a dos outros sou o cuidado e a atenção personificados. Depois acho indecente ser-me cada vez mais difícil de aceitar: a prática devia tornar isto mais fácil, não o contrário.

Enfim, as coisas resolvem-se sempre. Penso em Attali: todos os Ulisses precisam de uma Penélope.

Sem Penélope Ulisses não passaria de um imigrante que se perdeu no caminho de regresso a casa.

Sonho com uma vida chata como o fundo de uma banheira.

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Hoje comparava as ausências de vento e de dinheiro. Têm um efeito comum: este devastador, esmagador, demolidor sentimento de impotência. Porém, a falta de vento aceita-se mais facilmente: não há nada que se possa ou pudesse ter feito para a evitar. A de carcanhol não: só provoca perguntas cujas respostas são na sua maioria desagradáveis.

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Saímos da Escócia com vento, chuva e frio. Passámos a "fronteira" com a Inglaterra e temos sol, calor e uma total ausência de vento. Nunca pensei que um dia olharia para a Inglaterra com carinho pelo seu clima (exceptuando a falta de vento, claro, que é uma seca).

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Amar como o vento, que toca e não fica.

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Uma viagem que começa a um largo (frio e chuvoso, mas um largo) e acaba com uma bolina folgada gloriosa não pode ser senão uma maravilha. Calor, sol, vinte nós de vento, mar chão, leme leve e barco alegre: não é difícil perceber porque um dia assim vale vinte dos outros.

(Ou, acessoriamente, porque se chama folgada a esta bolina).

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Quem é contra o aquecimento global deveria passar uns dias na Escócia. Não precisa de esperar pelo Inverno: o Verão chega perfeitamente.

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Começando no través de estibordo uma série de plataformas de gás (mais de dez, parece uma frota); a bombordo a lua a nascer, cor-de-laranja; céu limpo, mar que parece uma piscina. Vinte milhas pela amura os clarões das diferentes cidades na costa. Menos frio do que ontem. Nem o facto de ir a motor consegue desclassificar esta noite: é magnífica.

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Cheguei às três da manhã e dormi até às dez. Não dormi, morri um bocadinho. Não acordei: ressuscitei.

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A costa inglesa está chei de wind farms, parques eólicos. Feios monstruosos, horrendos (se bem, admito, melhores do que o décimo de uma central térmica que dez mil ventoinhas substituem).

É preciso ser inglês para chamar farm a estes horrores.

4.8.15

Tele-turis-fotos






Diário de Bordos - Inverness, Escócia, Reino Unido, 04-08-2015

Acabámos por encontrar um carro, um Fiat 500, e lá fomos os três turistar. Demos uma volta ao Loch Ness (para além de mim não havia monstro nenhum), parámos em Fort Augustus onde o Caledonian Canal sai do lago e regressámos por uma pequena estrada de montanha. Não vale a pena tecer grandes encómios à beleza do lugar. Seria como chover no molhado: toda a gente sabe que a Escócia é linda. Apetece ajoelhar perante esta força toda, esta beleza austera, quase ríspida, pronta a castigar quem sai da linha.

Já a ideia de que estava a confirmar um preconceito me deixou um bocadinho mais instabilizado. Continuo a preferir infirmá-los. Confirmar o que já se sabe ou espera é menos agradável do que descobrir que estava enganado e devo trocar uma ideia feita por outra, que penso estar mais perto da verdade.

É como acreditar que se estiver no quinto andar estou mais perto do sol, não é? É. Mas apesar disso prefiro substituir preconceitos a confirmá-los, por muito difícil que possa parecer fazer-me mudar de opinião.

Na verdade é: alguns prazeres de vem ser abordados com circunspecção.

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Largo hoje à tarde com a maré. As previsões não são muito boas, mas creio que vamos conseguir passar. O tempo tem estado uma espécie de bebinka meteorológica: calor, frio, calor, frio, sol, chuva, sol, chuva. Calor sendo vinte graus e frio onze ou doze. Já o sol e a chuva são menos distinguíveis, com a soberba excepção da tarde de ontem, ensolarada na sua grande maior parte.

Uma depressão que não sai de onde está, frentes oclusas e outra depressão, mais pequena, a sul da primeira. E ainda há quem diga mal de Portugal.

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Para lutar contra o capitalismo as religiões e as ideologias de esquerda - que no fundo são a mesma coisa - revelaram-se ineficazes. A maioria das pessoas sabe que o capitalismo é bom - ou pelo menos o melhor - e não o troca por nada, a não ser à força e mesmo assim temporariamente.

É por isso que os idiotas agora se voltam para a ecologia, o ambientalismo e essas novas religiões. Idiotas talvez não seja justo: afinal conseguem, como os católicos, comunistas et al., conciliar os seus sonhos de um mundo "melhor" e "diferente" com a ideologia que lhes permite concretizar esses sonhos e mudar o mundo: o capitalismo.

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O L. é um Bénéteau 37. Que prazer estar num barco "normal", depois destes anos a navegar em naufrágios flutuantes. E o que vou buscar a Shelter Bay para St. Martin é um X 50. A maré mudou, não há dúvida.

Inspira-se na minha forma de trocar de preconceitos, é tudo.

3.8.15

Diário de Bordos - Inverness, Escócia, Reino Unido, 03-08-2015

A perspectiva de passar quase onze horas num aeroporto não predispõe ao bom humor, claro. Se esse aeroporto for o de Gatwick não só não predispõe ao bom humor como esvazia o que dele resta. Quase, na verdade: é muito e os truques antigos e conhecidos: percorrer o aeroporto todo (com o saco, o check-in só abre quatro horas antes da descolagem), estudar cuidadosamente os possíveis refúgios para o dia, escolher um deles, gozar com a doce incompetência dos ingleses (e pensar que ela não os impede de ser um grande povo, se bem não o trocasse pelo meu nem por meia dúzia de outros que conheço por esse mundo fora).

Uma vez escolhido o ou os sítios regresso a eles, sento-me no primeiro, percorro a net, penso no que vou fazer - mas penso só, não faço mais do que isso - leio o FB, e os raros mails que me chegam, trabalho um bocadinho, bebo cafés duplos uns atrás dos outros (cafés duplos merecia aspas. Só não as leva porque a partir do segundo descobri que a senhora atrás do balcão é portuguesa e a partir desse momento comecei a ter direito a baldes de café e não mais a chávenas praticamente vazias -) Enfim, mastigo o tempo como se ele fosse um bocado de carne dura.

Depois vou almoçar, sento-me no outro sítio que tinha visto durante a repérage (é mesmo à frente do primeiro) trabalho mais um bocadinho, começo a planear a viagem, chateio-me com a previsão meteorológica (mas pouco: podia ser muito pior).

Enfim, mastigo o tempo e ele deixa de ser carne dura e amanhã só me lembrarei do tempero.

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Escrevi o que precede em Gatwick. O resto perdeu-se, para sorte de quem o leria.

O tempo piorou, claro. Tinha previsto largar hoje à tarde, com a maré; se conseguir largar antes de quarta-feira já ficarei bastante satisfeito. Está frio e chove; sinto-me num inverno algarvio.

Decidimos alugar um automóvel e ir passear. É a coisa mais sensata a fazer. O bote está pronto para a viagem; entre escrever tonterias e ir ver paisagens bonitas prefiro a escolha é fácil.

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Um dos tripulantes não vai ter tempo de fazer a viagem toda. Vou desembarcá-lo a meio. São os dois porreiros. Um cozinheiro reformado e outro engenheiro de telecomunicações.

O cozinheiro não se importa nada que seja eu a cozinhar. Ontem improvisei um frango; hoje vai ser frango outra vez, mas em leite de coco. Não é propriamente uma improvisação.

Sacana do tempo.

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Não há carros. Vamos de camioneta.

31.7.15

Apollinons

"Et moi aussi de près je suis sombre et terne"...

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"J'ai eu le courage de regarder en arrière
Les cadavres de mes jours
Marquent ma route et je les pleure..."

Apollinaire, in Alcools

30.7.15

Pro, por, a favor de

Um dos argumentos em favor das senhoras jovens é a pena que dá imaginar tão bonitas mamas nas mãos inseguras dos putos da idade delas.

Já as senhoras mais velhas têm uma grande vantagem: não há corpo novo que valha uma cabeça vivida.

29.7.15

Casa

Um dia cheguei a Lisboa às sete da manhã vindo do Brasil e ao meio-dia tinha um avião para França. Era Dezembro. Fui a casa trocar de roupa. Não disse ao táxi para esperar porque naquela altura ainda conseguia viajar só com bagagem de cabine e tinha tempo para regressar ao aeroporto de comboio.

Desta vez fico mais tempo em Lisboa, "Moro" (entre aspas porque não quero abusar ou dar a pensar que abuso da hospitalidade de quem gentilmente me acolhe) mais perto do aeroporto e tenho o metro à porta de casa. A diferença de temperaturas é menor: em Inverness estarão cerca de oito graus quando eu chegar e treze durante o dia. Entre Salvador da Baía e a Bretanha (o norte da Bretanha, para ser mais preciso) no Inverno há mais graus de amplitude térmica.

Mas o sentimento é o mesmo: a ideia de que as casas são feitas para viver nelas e não para trocar de roupa aparece-me cada vez mais cheia de sentido.

Casa:


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