2.5.23

Diário de Bordos - Dublin, Irlanda, 02-05-2023

A última tarde em Dublin foi passada a esperar ardentemente a ida para o aeroporto. Sabendo quanto gosto de aeroportos não deixa de ser inquietante. Mas enfim, ajuda pelo menos a perceber porque é que Beckett, Joyce, Wilde e os outros se puseram a cavar daqui, desta amabilidade lhana, honesta - não é sequer como a genebrina, que se vê à légua ser fingida e superficial - destes prédios todos iguais, duma monotonia esmagadora, excepto em alguns quarteirões mais recentes. Fui ao James Joyce Center, que tem muito de James Joyce e pouco de Center, tentei ir ao Museu da Emigração mas a dezoito euros o bilhete de velhinhos aquilo é para velhinhos ricos, tentei ir ao porto mas era longe, fui a um pub que tem um nome engraçado - chama-se Flowing Tide e ao princípio tomei aquilo por Floating Tide - mas acabei no meu bem amado Celt. Sou de amores rápidos: esta foi a segunda vez que fui ao Celt, mas o raio do lugar tem tudo o que faz de um pub um pub adorável. A começar pela luz, que consoante o sítio onde estamos sentados ora põe tudo a preto e branco ora faz ressaltar algumas manchas de cor aqui e ali, como gotas de um cocktail numa toalha branca - ou cinzenta, neste caso. A comida é decente, os preços dementes - o choque que apanhei a primeira vez em Kinsale já se desvanecera nas vagas da memória, claro - a empregada menos simpática do que a de ontem, mas pronto, lá passei um bom bocado (nos dois sentidos do termo bom). Depois fui dar um passeio pelas ruas pedestres do centro - não se distingue particularmente de outras ruas pedestres, excepto eventualmente para um conhecedor de marcas: a única que vi que conheço foi a Marks and Spencer, mas uma loja é uma loja, chame-se Marx ou Groucho. Há uma livraria pouco atraente, ainda parei em mais um pub horrível chamado Parnell, tresandava a peixe frito e tinha luz como um café de província português. 

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De maneira cá estou no aeroporto. Na bagagem emocional levo a apresentação do livro do V. no museu judeu, o jantar de aniversário da sua esplêndida namorada, o Celt e - só isto justificaria a viagem - a visita à The Last Bookshop, um alfarrabista que é o modelo paradigmático de todos os alfarrabistas. Digo paradigmático não só por pedantice mas também para não dizer abençoado ou santificado ou bendito ou algo assim, relacionado com a santidade. Comprei dois livros e hoje a caminho do aeroporto apercebi-me de que só paguei um mas já era tarde para lá voltar, de forma agora tenho uma poderosa razão para regressar a Dublin, mesmo que a culpa do «roubo» involuntário não tenha sido minha (e o montante seja pequeníssimo). Suponho que houve um problema com o sinal da máquina que o jovem senhor usou para processar o pagamento, coisa que de resto não me surpreende absolutamente nada: não deve haver muitos sinais que atravessem aquelas pilhas e pilhas de livros em todo o lado. Vá lá, pelo menos um passou-as. Resta saber se foi a do Joyce ou a do Don de Lillo.

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Fiz poucas fotografias. A luz estava uma merda e de qualquer forma nunca passei da primeira camada da cidade. Não sou daqueles fotógrafos (não sou fotógrafo de todo) que mal chegam a um sítio vêem o ângulo certo, a focal a usar... Já uma vez por aqui escrevi que fotografo como amo e ainda por cima desta vez o wifi da máquina não estava a funcionar bem e e e... Paciência. Haverá mais vezes. Há dois ou três recantos da cidade de que gostei - um deles as imediações do museu judeu, por sinal muito perto da escola onde Beckett estudou, isto ando tudo ligado.

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Oito euros um sumo de laranja e uma barrazita de chocolate. O que eu adoro esperar em aeroportos não tem descrição. Ainda por cima o avião atrasou-se mais de meia-hora. Quando penso que há quem não goste da TAP só me apetece urrar.

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Estou no meio de uma tempestade perfeita, com ventos de todos os lados, mar piramidal, voltas de mar a rebentarem-me no convés (atenção, isto não é uma aula de meteorologia do mau tempo), frentes quentes, frias e oclusas, cristas de altas pressões, aguaceiros, nevões. Tudo ao mesmo tempo, tudo de todos os lados. Não admira que a serenidade de Dublin me tenha saltado tanto aos olhos. Que contraste com o meu tumulto interior. Enfim, tumultos, no plural.

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ADENDA: Afinal o avião está atrasado uma hora e vinte.

1.5.23

Diário de Bordos - Dublin, Irlanda, 01-05-2023

Dublin é uma cidade em paz consigo própria. Inspira harmonia e expira amabilidade. Imagino que ao fim de algum tempo seja mortalmente aborrecida, sobretudo para artistas quando jovens. Para não-artistas velhos é bastante agradável. 

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O sistema de transportes públicos funciona bem: do hotel tenho autocarros para onde tenho ido. O único problema está nos pormenores, um problema habitual para quem tenha vivido na Suíça. É uma dúvida permanente,  esta: se o demónio está nos detalhes, a Suíça é a terra deles ou a terra onde não vivem? Por exemplo: o sistema de informação das paragens a bordo dos autocarros. Aqui já me enganei duas vezes (admitidamente devido à habitual mistura de distracção, negligência e burrice). Em Genebra não consigo enganar-me, por mais que tente: os monitores que indicam as paragens não o permitem, porque discriminam não só a próxima paragem mas também as três ou quatro seguintes (e a quantos minutos estão, um suíço sem um tempo seria como o mar Morto sem sal). Outro exemplo: os solavancos. Contudo destes não vale a pena falar. Não são pormenores. 

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Fui à The Last Bookshop, prometendo a mim mesmo que seria só para fazer duas ou três fotografias e não para comprar livros.

Cumpri metade da promessa.

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Voltemos à questão de há pouco: se o diabo está nos pormenores, a Suíça é um país de diabos ou um país sem eles?

Aceito palpites, achismos e opiniões fundamentadas. (A minha resposta - se a tivesse - seria uma mistura dessas três. Felizmente não tenho, o que remete a pergunta para as categorias "retórica" e "como adormecer esta noite".)

Inveja

Anda por aí muito escritor que escreve mais do que lê. Cada vez que penso nas agonias por que passo a cada vírgula tenho inveja deles.

Pobre sim, miserável não

Pode ser-se pobre, mas não se deve ser miserável. A linha que separa as duas é muito fina e não depende só da conta bancária. Há miseráveis com mais dinheiro do que muitos Senhores pobres. (Senhores vai de caixa alta, para se distinguir.) A pobreza é involuntária - com a possível excepção dos franciscanos, dos místicos indianos e dos marinheiros (e dos artistas, relembra-me a B., adorável artista). Ser-se miserável é uma opção. 

30.4.23

Diário de Bordos - Dublin, Irlanda, 30-04-2023

 Chuva, frio e pubs: a primeira imagem de Dublin não é propriamente uma surpresa. Já a sujidade das ruas (pelo menos das duas que até agora vi) é mais inesperada. Depois lembro-me da quantidade de pessoas que vi ontem à chegada (meia-noite) e a surpresa desvanece-se. Sábado à noite é sabado à noite e domingo de manhã a manhã seguinte, em todo o lado.

Saindo do centro as ruas compõem-se e a obesidade continua pervasiva. Compreende-se porquê: peço um café e uma bolacha e esta tem mais chocolate do que farinha. Provavelmente para justificar a obesidade do preço, vá saber-se. O B&B aonde ficarei estas duas noites é longe do centro, num daqueles quarteirões de casas matriciais de tijolo encarnado nas quais se imagina facilmente a burguesia que Beckett tanto desprezava. Hoje muitas estão convertidas em B&B (aposto que escolhi o pior deles...) bordejando uma rua larga cheia de automóveis  a toda a velocidade e de árvores enormes e paradas, a recuperar do inverno. O frio continua, o meu casaco de linho branco é notoriamente insuficiente e esqueci-me do computador na pensão. 

O pretexto para a vinda foi a apresentação do livro do V. V., em inglês e tudo. A verdadeira razão é que ando há anos para conhecer esta cidade e precisar de me afastar do P. e das suas rotinas. Eis-me portanto travestido de turista cultural (não há turismo existencial, pois não?)

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Qualquer pessoa medianamente culta conhece o Trinity College, mesmo sem nunca ter vindo a Dublin. Beckett deu lá uma aula que ficaria famosa nos anais da pedagogia moderna: uma hora a olhar para a janela, sem dizer uma palavra. (Essa ideia seria retomada mais tarde por Pirsig, no seminal Arte do Zen e da Manutenção de Motocicletas.) Hoje passei pelo Trinity, cheio de gente. Não sei qual a janela que Samuel usou para manifestar o seu profundo desinteresse pelos alunos, pelos dublinenses, pela Irlanda, pela profissão e a única coisa que retive foi a quantidade de pessoas. Não era propriamente um mar de gente mas andava lá perto.  Fica para outro dia. Por hoje fico com o tamanho daquilo: é enorme. Há muitos anos em Paris aconteceu-me o mesmo com a torre Eiffel, ou quase.

Conhecer a cidade fisicamente, passar da teoria à prática é isso: ser esmagado pela terceira dimensão. As duas primeiras só são apelativas intelectualmente. Passar para três faz entrar os sentidos na equação.

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Sou o pior turista do mundo e o pior é indiferença que isso suscita em mim: é total. Importo-me tanto com as minhas fracas qualidades de turista como com o que a minha avó fazia das fraldas dos quatro filhos que teve.

De modo que o dia de hoje acaba como começou: comigo cansado  a percorrer Dublin de autocarro no sentido N - S primeiro e depois no inverso.

Afinal o B&B é bastante agradável. Suponho que os pessimistas o são para poderem apreciar as inevitáveis boas surpresas. Talvez só diverjamos na quantidade destas.

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A Ryanair é a pior companhia do mundo. Não é só na categoria "companhias aéreas". É em todas. Hesitei antes de comprar o regresso com ela e vejo agora que devia ter hesitado mais. O sacana do irlandês percebe a potes de transporte aéreo mas o desprezo que tem por quem lhe pagou a fortuna só não é insuportável porque tem uma justificação: é mais do que merecido. Aceitar ser tratado como merda para poupar meia dúzia de euros é desprezível 

Enfim, de três em três ou quatro em quatro anos é necessário refrescar as alembraduras.

(Cont.)

29.4.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-04-2023

Que dia! Só me apetece beber rum e comprar roupa de linho, duas coisas que já fiz mas em quantidades notoriamente insuficientes. Além disso, esqueci-me de ir à Zara buscar a almofada que lá está reservada - mas não paga. Pode reservar-se mas não se pode pagar.

Palma está impossivel. É fim de semana e os city breakers inundam a San Miquel, a Sindicat e as outras todas por onde costumam andar. Ainda por cima, segunda é feriado. Penso como será isto no Verão, se agora já não se pode circular de bicicleta em metade das ruas.

Que se lixe. Vou passar o fim-de-semana a Dublin, ver o V. e conhecer a cidade. Com sorte, ainda irei buscar a almofada e beber mais um rum. Deixo a roupa de linho para depois. Comprei um casaco e um par de calças, deve ser suficiente até daqui a dez anos. Há demasiado barulho em todo o lado.

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Fui à Zara buscar a almofada,  tão miserável como confortável desculpa para beber mais um rum. Resta saber onde: na Cantina, no Antiquari, no Jaume? Um faz-me desconto, outro tem runs sublimes, outro  ainda nafa disso... Não sei.

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Estamos em dias de feira náutica e à habitual e inúmera quantidade de mulheres bonitas de Palma juntas-se a habitual e inúmera quantidade de mulheres bonitas dos boat shows. Sobretudo este, que é só de mega-iates para cima.

Um inferno, é o que é. 

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Há um exercício de malabarismo difícil mas que toda a gente devia conhecer: é o equilíbrio muito instável entre ser pobre e ser miserável. Aquele não tem nada de errado, este é um nojo desde a letra m até à letra l.

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Acabo no Atlantic, que de horrível só tem a música, a decoração e a barmaid (esta não tanto, mas enfim). É um clássico e por isso nunca cá ponho os cotos. Tem o Jaume de estar fechado e ser demasiado cedo para o Big Foot.

Um rum bebe-se depressa, os olhos fecham-se e a rapariga - magra, alta, espigada e loura, igual a cerca de quatro milhões de outras - mal se deixou ver.

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A única parte desagradável de uma viagem de avião ocorre entre a ida para o aeroporto de embarque e a saída do de desembarque. Antes disso e a partir daí é só prazer.

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Consegui finalmente comprar a BH ao Ivo. Dei-lhe a Órbita e um par de zeros. Ficámos os dois a ganhar. 

Gosto do Ivo. As suas actividades consistem em filosofar e reparar, alugar e vender bicicletas. Sob dois princípios de base: trabalhar o menos e o melhor possível, duas coisas geralmente antinómicas mas que ele concilia maravilhosamente. 

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Uma série de primeiras vezes: na parte alfandegada do aeroporto de Palma (felizmente o cartão de cidadão é suficiente), em Dublin, na Ryanair sem ser por razões profissionais (desta não estou seguro a cem por cento, mas não faz mal), primeiro voo na Aer Lingus (o voo está atrasado...)

Única surpresa: a dimensão desta área do aeroporto. Não é tão grande como a outra, mas é enorme.

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O restaurante onde dantes havia Warstein e wurst variadas acabou e foi substituído por uma merda sem nome que vende sandes de presunto manhoso e ovos estrelados com batatas fritas.

Acredito na entropia, mas bolas, não é preciso espetarem-me com ela a cada passo.

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A senhora do táxi que me trouxe ao aeroporto diz que vai votar Vox, por causa da gestão da pandemia. Há pelo menos um partido português que poderia pensar nisto, se não fosse tão tarde.


(Cont. - a sério?)

27.4.23

Iris, vidas

Quantas vidas tem um homem? A única maneira de responder é: tantas quantas as mulheres da vida dele. Eu tive três mulheres da minha vida. Ou seja, tive três vidas. Só? Tive mais. A minha teoria é falsa. Ou me faltam mulheres ou me faltam vidas. Ou então, uma das mulheres conta por várias vidas. Essa mulher chama-se Iris (pronuncia-se Áiris, a senhora é inglesa) e anda agora a passear o seu esplendor por Paris. Ou seja: anda a dar vida a Paris, que tão pouca tem. A questão é: de onde lhe vem essa vida, a que ela dá a Paris? Vem de mim? Não. Vem dela? Sim. A Iris tem mais vida do que um gato tem vidas e eu tenho eus. É de resto por isso que eu gosto dela: gosto da vida e a Iris tem muitas, vidas, vida.

Neste bar, cujo nome nunca recordo mas onde vejo a Iris a cada milímetro quadrado, bebo um rum como ela o beberia se aqui estivesse. Infelizmente não está: passeia-se por Paris (e a minha vida com ela).

O bar onde estou chama-se Big Foot, vi agora no menu. Pedi mais um rum e descobri que ainda amo a Iris, apesar de não a ver há anos. Deve ser a isso que se chama "a mulher da minha vida": amo-a de um amor que não dói, uma ligeira mas permanente dor de cabeça, tão ligeira que se toma uma aspirina e a dor não passa e pensa-se "Não faz mal. Posso viver com esta dor". Com este amor, que eu sei me vai acompanhar até ao fim dos meus dias, mesmo que nunca mais ponha os olhos (ou as mãos, sonhar não custa) na Iris.

Há amores inevitáveis, amores cuja força vem não da intensidade mas da permanência. Estão sempre lá, mesmo que a pessoa que caminhe ou durma ao nosso lado seja diferente. Eliot tem um verso sobre isso, aliás. 

"Who is the third who walks always beside you? 
... 
There is always another one walking beside you."

Invisível para os outros (e outras), a Iris está sempre ao meu lado. Eu é que não estou ao lado dela, mas isso é outra história. 

26.4.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-04-2023

Entro em Palma como me despedi de Lisboa: passo a passo, porta a porta. Xisco, Paz (não estava, mas comprei um monte de postais, tenho a escrita em atraso), Joan, Bradley (este é noventa por cento trabalho, de que gosto tanto como do que não o é), Joan outra vez, Plaza Mayor, François (outra vez, não estava em nenhuma das duas mas o Antiquari continua o Antiquari). Tal como, de resto, o bar Rita: um porto de abrigo ao qual só falta a Rita, a outra, apesar de a sua ausência - a da Rita - lhe dar mais densidade, mais peso, mais inevitabilidade. Como seria o bar Rita com a Rita, a outra? Seria possível? Podem não acreditar, mas sim, seria possível. É sempre possível mais Rita, mais paz, mais harmonia, mais beleza, mais solidão.

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Reencontro a alegria infantil de ser recebido em todo o lado de braços abertos, sorrisos de orelha a orelha, abraços apertados. É infantil? Sim, claro. Mas alguém tem alguma coisa contra a alegria das crianças?

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Continuo a desembaraçar novelos de linhas profissionais e pessoais, todas misturadas. É extenuante. 

O que eu gosto de situações extenuantes não tem descrição.

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Passei pela Babel mas estva fechada, tal como de resto a Paloma, que fica ao lado. Reservei uma mesa no Tom para amanhã. Regressar a Palma é como reatar com um velho amor: a palavra que mais se ouve é «lembras-te?»

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O Antiquari é o único bar que conheço que tem mais mulheres do que homens. Estou na sala da frente: dez pessoas e eu. (Depois não venham dizer-me que não sou feminista, por favor.) Das dez, pelo menos sete são bonitas (e ainda há quem pense que não sou um esteta). A escolha de runs é fraca, mas o Barceló salva tudo. A música continua excelente e num volume quase imperceptível, o que é só um nível acima do que devia ser.

O Antiquari é um cantinho de Paris em Palma e um cantinho de mim na vida.

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Aluguei a BH ao Ivo, que como de costume me fez um preço favorável. Se tivesse de fazer um pódio de bicicletas, ficaria assim: em cima a Alps, à direita a BH e à esquerda a Órbita (a única que é minha, o que é uma excelente metáfora da minha vida).

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Penso no peso da inevitabilidade de que acima falei. É o único peso suportável, não é?

É.

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Reencontro com alegria o meu uniforme: bermudas (hoje azuis) e pólo branco. Vai ser assim até Outubro, mutatis mutandi. (Em Setembro vou à Suécia buscar um barco. Duvido que este uniforme sirva.)

Resistência

A tecnologia deu voz à imbecilidade, à indigência intelectual, à incapacidade de dialogar (ou sequer de perceber raciocínios, mesmo simples). Essas coisas não são novas - basta ter frequentado tabernas e cafés para o saber - mas agora têm voz e a audiência excede largamente o balcão de mármore de antanho.

Isso é bom, sem dúvida; mas a inteligência, o bom-senso, a Razão não devem ceder às superioridades numérica e de volume da incultura. É preciso manter ilhas de resistência no meio dos oceanos da "indignação" (entre aspas porque é uma metáfora).

(Para o Miguel A. Baptista, uma dessas ilhas.)

25.4.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-04-2023

Regresso a Palma, regresso a casa. Às casas: Núria e Roberto, Cláudio, Gibson, Puente, Cantina, numa desordem total, tão cronológica como afectiva. Estou cansado, exausto, só me apetece beber mais um rum no Gibson mas nem a empregada acha necessário: não me liga nenhuma, não vem perguntar-me se quero mais um. Hesito. Penso nas casas que tenho para visitar nos próximos dias: Jaume, Joan, os dois do Gustar de cujo nome nunca me lembro (Tom e Fidel), François, a Insular para comprar postais e enviá-los às pessoas que não estão aqui e deviam estar,  porque contribuem tanto para fazer da cidade o que é como as que cá estão. 

(Da função social/essencial da ausência.)

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Estou-me tão nas tintas para o 25 de Abril como para o Natal, a Páscoa ou o aniversário da senhora Idalina da mercearia. 

Não sei se estou mais vezes sozinho do que acompanhado por ser assim ou se sou assim por.... etc. Venha o diabo e escolha.

Ou diaba, se preferir.

(As feministas deviam pensar nisto: referimo-nos sempre aos demónios, diabos e outros males no masculino. Cf. mal, mâle, males, mâles.)

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Não devia ter pedido o segundo rum no Gibsons, eu sei (ou melhor, sabia). Mas que é um regresso senão acumular arrependimentos? (Afogá-los?)

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A gravidez do P. está quase a acabar. Terá durado um pouco mais de cinco anos, quando finalmente eu pegar no bote para o levar para a Costa Brava.

Terá a montanha parido um rato? Ou um rato a montanha?

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É fácil viver sozinho: basta saber dançar com a solidão. Imagine-se uma longa valsa, maravilhosamente dançada nas maravilhosas ruas da cidade por um casal do qual só se vê uma das pessoas, seguido num travelling fluido, sinuoso e escuro. Uma valsa bonita, bem dançada. Viver sozinho é isso, se bem nem sempre a valsa venha bem dançada. 

Presentes, ausentes

Uma cidade é feita de pessoas, repito-me. Não é feita de pedras, monumentos, ruas bonitas ou prédios desenhados por arquitectos XL. É feita de e pelas pessoas que habitam esses prédios, povoam essas ruas, flirtam nos seus bares e cafés, comem gelados feitos por outras dessas pessoas, as presentes. 

Mas uma cidade é também feita de pessoas que não vivem lá e estão longe e nós gostaríamos de ter ao nosso lado quando passeamos nas ruas, olhamos para os prédios e comemos gelados numa esquina.

Uma cidade é tão feita de presentes como de ausentes. Uma cidade somos nós: tu, eles, eu. Nós.

24.4.23

Arcos-íris

Já percorri todos os arcos-íris do mundo... Enfim, todos não. Milhares deles. Nunca encontrei um pote de ouro. Talvez não os tenha percorrido até ao fim. Talvez eles tivessem o ouro mais profundamente enterrado do que eu cavei. Talvez não fossem arcos-íris auríferos. Talvez alguém la tivesse chegado antes de mim. Talvez - mais simplesmente - não haja ouro de todo no fim deles.

O ouro é difícil de encontrar. Ninguém vai usar um anúncio gigante para indicar onde está o tesouro. Os verdadeiros tesouros estão escondidos, não se vêem à vista desarmada. 

Apesar disso, os arcos-íris são belos. Apetece tocar-lhes, percorrê-los com a palma da mão até ao fim e por vezes, até, resistir à tentação de esgaravatar a terra em busca de mais um tesouro. O que temos na mão chega. Ou nos olhos.

Culpa, clima

Todas as religiões pensam que o Homem é culpado de tudo, se bem sóo cristianismotenha o conceito de pecado original. O catolicismo inventou a fórmula "Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa" (a dizer batendo no peito) que tem por função exorcizar essa culpa. A religião ambientalista encontrou o CO2 como bode expiatório - é a função do demo no catolicismo - e portanto atribui à humanidade a culpa de fenómenos que ela não pode de todo controlar. O clima anda a mudar há milhares de anos - graças à paleoclimatologia já se tem uma visão relativamente clara dessas "alterações climáticas" - mas a necessidade de se bater no peito é transversal a todas as religiões. O ambientalismo consegue, contudo, o prodígio de ser mais nocivo do que o catolicismo: o Armaggedon climático é para amanhã e se não nos arrependermos o Apocalipse seguir-se-lhe-á inevitavelmente. Infelizmente, para os crentes ambientalistas, para salvar a humanidade não basta bater no peito e dizer mea culpa: é preciso levar a civilização ocidental à miséria para nos salvarmos todos - ao contrario do cristianismo, que é uma religião individualista (a salvação é individual) - o ambientalismo é uma religião colectivista (ou nos salvamos todos ou morremos todos. Não é por acaso que os ambientalistas atribuem ao capitalismo, a que eles chamam neoliberalismo, o papel do Demónio). 

É curioso ver que as outras grandes religiões - o Islão e o Budismo - não produzem outras sub-religiões laicas. Nos paises budistas e muçulmanos os movimentos ambientalistas são inexpressivos.  

O ambientalismo devia criar um mecanismo individual de expiação da culpa e deixar de acreditar que o homem tem poder sobre mecanismos que claramente o excedem. A hubris ambientalista vai dar mau resultado, como todas as hubris.

22.4.23

Diário de Bordos - Lisboa, 22-04-2023

«Silêncio orgânico», Vai entre aspas mas não me lembro a quem ouvi esta noção fundamental. Creio que foi na apresentação do livro da Rita Tormenta, O Pequeníssimo livro de ti, mas não tenho a certeza. Não tenho a certeza de nada, já aqui o disse tantas vezes que lhes perdi a conta. Não tarda começam a chamar-me Luís Não Sei, em vez de Luís Miguel (já ninguém me chama assim...) Silêncio orgânico é melhor do que silêncio telúrico, por exemplo, que é uma contradição nos termos. A Terra fala, diz hoje a D. G. num post. 0 - 23 Hz, diz ela, se bem eu não perceba nada disso. Lá está - mais um «não sei» a juntar-se aos outros. A D. é tão pouco tonta quanto é bonita e inteligente: isto é, bastante; por isso tendo a acreditar no que ela diz, se bem não acredite em esoterices. Não si como se pode medir uma frequência de zero Hz, por exemplo. Ou pode? Não sei.

Ainda da apresentação: «um bolo de chocolate denso e pesado». Não me lembro a que se referia. Não gosto de bolos densos e pesados. Aliás, não gosto de nada que seja denso e pesado. Gosto mais de coisas etéreas e leves, como todas as coisas são quando somos felizes. Só quando não o somos elas são densas e pesadas. Vamos a ver e a leveza ou a densidade estão em nós e não nas coisas ou nos bolos de chocolate.

Tão pouco gosto de chapéus espalhafatosos. Chapéus ou outra coisa qualquer cuja função seja dizer aos outros «Olhem para mim, vejam quão original sou». Os meus chapéus são clássicos, escolhidos a dedo. Infelizmente é muito raro os panamás durarem-me mais do que um Verão. Já os de Inverno duram mais. Decidi começar a diversificar o meu guarda-chapéus. Mas só com formas clássicas. Não sou um tipo muito original e dou-me bem com isso. 

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Ando a dar voltas ao penico para não falar do essencial: o terceiro livro e a exposição de fotografia, ambos a caminho. Verão o dia juntos, se tudo correr de acordo com o plano. Lá para Outubro, Novembro. Inch'Allah.

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Amanhã vou a Torres Novas, passar o domingo. Volto na segunda, com uma imensa lista de coisas a fazer antes de ir para Palma, para o P. Ninguém saberá definir  impaciência se não souber por que estou a passar: é como se estivesse a nadar numa piscina de impaciência.

Torres Novas é a terra de origem da família da minha Mãe, mas não terei muito tempo para fazer genealogia no terreno. Teria vontade, se o tivesse? Duvido. 

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Um dos piores períodos da minha vida está a chegar ao fim mas vai ser preciso esperar antes de o ver: talvez a D. G. saiba explicar-me quanto tempo levam Hertz negativos a desvanecer-se. E que marcas deixam, como cicatrizam.

PS - Com a chuva regressa um velho dilema: é melhor regar pouco muitos jardins ou regar poucos correctamente?

Gastar dinheiro

Há uma maneira de gastar dinheiro digna, apaixonante, dionisíaca, catártica, ritualística, exorcizante, simultaneamente profilática e terapêutica, sacrificial: gastar dinheiro como um marinheiro bêbedo. E há a outra, desinteressante, estúpida, desgraciosa: gastar dinheiro como um marinheiro sóbrio.

Um bom marinheiro tenta gastar dinheiro apenas quando está bêbedo. Sóbrio, só compra coisas de que realmente necessita, como chapéus,  canetas de tinta permanente e vinho tinto.

ADENDA: um marinheiro bêbedo gasta dinheiro para provar que sobreviveu. Está vivo e pronto para a próxima. Venham mais cinco, qu'ainda não foi desta que fui desta para melhor. Nada a ver com a sobre(sub)vida e respectivos gastos mais planos do que o tampo desta mesa onde o copo de vinho espera, paciente, a minha atenção. 

20.4.23

Ir a bancas

Acontece muitas vezes: a fome da alma e a do corpo confundem-se, manifestam-se uma na outra. "Estou a morrer de fome", pensas-te e vais ao Roda Viva, comes metade do prato que o Chamba tão amorosamente preparou e está bom de morrer e chegas a meio e não consegues comer mais, porque quem estava com fome era a alma e não o corpo e ir ao Chamba é como ir a bancas (1) para a alma.

(1) - Ir a bancas: (náutico) meter combustível.

Harmonia

A parte boa do cansaço é um tipo chegar à cama e sentir que está a dissolver-se. Essa é a verdadeira harmonia: a do corpo com um bom colchão.

Nuvens, contornos

Os ingleses dizem que não há nuvem negra que não tenha um contorno a prata. Confirmo e acrescento: não há nuvem de prata que não tenha um contorno preto.

17.4.23

Diário de Bordos - Lisboa, 17-04-2023

No dia seguinte à noite em que tomo Flexiban para dormir fico mole, molengão, preguiçoso. Hoje foi um desses dias. O que me chateia mais é ter tomado a porcaria do comprimido por preguiça, simples preguiça: de suportar as dores do ombro direito (mas ao Flexiban acrescentei um Tramadol, maldita mandriice), preguiça de pensar na R., de pensar no P., de pensar tout court, preguiça de tudo. Depois de um dia extenuante a não fazer nada, quase nada - dois ou três telefonemas, um e-mail, duas micro-compras - peguei na bicicleta e vim por aí abaixo a pedalar o mais devagar possível, o estrictamente necessário para a manter na vertical, até ao Señor Ibérico, o meu espanhol favorito de Lisboa e de algumas partes de Espanha. Esta tortilha bate-se de igual para igual com as melhores de Palma, apesar de levar cebola, coisa que acho prescindível numa tortilha. É onde agora bebo um copo de tinto enquanto espero pelo M. e oiço dois gajos insuportáveis na mesa ao lado. Não sei se são brasileiros, portugueses ou espanhóis - o espanhol deles é fluente, isento de sotaque e quando falam português por vezes descambam para o brasileiro. Porém, seja qual for a língua que falam só dizem disparates. Dois machos alfa nos trinta e muitos, quarenta e poucos que me fazem sentir um esboço de uma sombra de um princípio de simpatia pelo feminismo. Felizmente foram-se embora pouco depois do M. chegar. 

Está calor, uma temperatura que acompanha bem a gentileza das pessoas (em geral, não especificamente dos dois primatas da mesa ao lado) e a moderação dos preços. Que mais há a prender-me em Lisboa? Os amigos, a cultura, as livrarias (estas são parte do item anterior), os sítios como o Señor Ibérico, as coisas que aqui vivi. Nada que não se encontre noutro lado qualquer? Há mais uma: olho para os prédios à minha volta e sei como são por dentro, apesar de nunca neles ter entrado.

Não sei. Esta é a expressão que mais me vem à mente nestes últimos tempos. Espero que ceda rapidamente o lugar a outra. Qual outra? Não sei.

15.4.23

Estultícias

Há pessoas com quem discutir (no sentido de conversar, debater ideias) é a mesma coisa do que explicar a um louco no manicómio que um funil na cabeça não faz dele um Napoleão. Começa por nos retorquir que não percebemos nada de funis e menos ainda de napoleões, continua a revelar-nos que na verdade há uma cabala escondida para descredibilizar os portadores de funis na cabeça e promover os que vêem nos regadores de plantas um meio de controlar a humanidade e submeter o mundo vegetal à escravidão e acabamos a ser acusados de estultofobia pela turba à volta.

14.4.23

O velho que escrevia cartas (a si próprio)

O homem escrevia cartas a si próprio, de tão só. Aplicava-se meticulosamente, com a língua ligeiramente mordida num canto da boca, caneta de tinta permanente já velhinha, mata-borrão no lado direito da escrivaninha, dicionário à esquerda. Detestava dar erros e não era adepto dos dicionários publicados na Internet. Contava-se tudo, o dia todo desde manhã à noite, incluindo as intermináveis insónias. Enfim, não tudo: não mencionava as idas à casa de banho, por exemplo; omitia igualmente os pensamentos concupiscentes que regularmente o assaltavam - e respectivas consequências -, o nome da mulher por quem estava apaixonado, se houvesse uma. Nem sempre era o caso. Todos os dias de manhã, logo a seguir ao pequeno-almoço, ia ao correio, comprava um selo e punha a carta da véspera no marco. Quando a recebia deixava-a fechada durante um ano. Só a abria na data do carimbo. Era fácil porque as tinha arrumadas por ordem de chegada. De vez em quando faltava uma: ou chegavam fora de ordem, ou as de sábado e domingo chegavam tarde, porque nem todos os fins-de-semana tinha paciência ou saúde para ir a estação de correios do aeroporto,  a única que permanecia aberta aos sábados e domingos. Os funcionários dos correios já o conheciam e sabiam que o destinatário das cartas era ele.

António - é este o nome por que o autor designa as personagens masculinas a quem não sabe que outro nome dar - não tem pretensões literárias. Limita-se a escrever factualmente: "hoje o meu dia começou com cereais, como quase todos ". "A senhora dos correios olhou para mim com um olhar que me pareceu de comiseração, mas não tenho a certeza se era ou não". "A seguir ao correio fui ao jardim olhar para o chafariz. A câmara reparou-o, finalmente. Não choveu, ao contrário da previsão. Saí com a gabardina beige e o chapéu castanho, o que aguenta melhor a água. Precauções inúteis: não caiu uma gota." "Para o almoço fiz frango com natas, o prato favorito da A. M. Depois fui dormir a sesta." Dias factuais, por assim dizer. Nada de «sonhos», entre aspas para mostrar o desprezo que os votava. Nada de divagações metafísicas sobre o sentido da vida, da morte ou do bife com batatas fritas que de vez em quando se oferecia, acompanhado por um bom tinto do Tua. Tão pouco expunha a si próprio as «opiniões», mas isso é porque não as tinha sobre quase nada. António pensava que só se deve formular uma opinião - um julgamento, que é a mesma coisa - sobre matérias que se conhecem bem.Como considerava que não sabia nada de quase tudo e pouco do resto, abstinha-se. De as exprimir, quero dizer. Fazê-las, fazia: tentativas de opinião, degraus de uma escada que sabia longa, escada sinuosa e ziguezagueante. As ideias, opiniões, «julgamentos» eram provisórios, sujeitos a retornos e mudanças de direcção, consoante a evolução dos seus conhecimentos. A certeza é uma padrão óptimo para medir a ignorância: quanto mais de uma, mais da outra.

Por isso as suas cartas eram factuais, descritivas: «hoje comi um ovo estrelado. Fi-lo como gosto quando tenho tempo, separando a clara da gema.»   

António tem setenta anos, vive de um pequeno pecúlio que foi juntando ao longo da sua vida, enquanto trabalhava como maquinista de comboios. Já teve um cão, mas agora vive sozinho. Não quer contactos nenhuns com o governo - excepto na área da saúde. Continua a usar o serviço público porque, diz, «é a única área da minha relação com o Estado em que fico a ganhar. Ao fim de uma vida de perdas, não faz mal a balança inclinar-se para o meu lado, por pouco que seja.»

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Aldeia do Frados, 10/10/1995

«Caro António, 

Hoje tive ecos longínquos da B. e suas grilas histéricas. Parece-me tão longe, tudo isso. É como aqueles filmes que vimos há muito tempo, de que recordamos o título e alguns dos actores, o tema geral e mais nada. Como Providence ou Dersou Ouzala, lembras-te?» 

António começou a dirigir-se a si próprio, a nomear-se como se escrevesse a um amigo. Não o fez com propósito ou vontade explícita. Apareceu, simplesmente. Aliás, sentia que ao contrário de toda a gente que lia, ouvia ou via a maioria das coisas que lhe aconteciam eram fruto de uma falta de vontade mais do que do excesso dela.


 (Cont.)

13.4.23

Saloiices angélicas

A saloiice nacional é inextinguível. Vem de cima, como a chuva ou os anjos.

Pergunta

Será que esta mania de corrigirem livros se vai estender a quadros, esculturas (cf. David), filmes, etc.? 

Repugnâncias, coerências, certezas

Tudo começa com Cioran, claro: "Rien ne dessèche tant un esprit que sa répugnance à concevoir des idées obscures". Em lugar de "ideias obscuras" pôr "ideias incoerentes": Nada seca tanto um espírito como a sua repugnância em conceber ideias incoerentes. Ou incertezas: a desonestidade de um pensador mede-se pela quantidade de certezas que produz. ("La malhonnêteté d'un penseur se mesure à la somme d'idées précises qu'il avance".)

É preciso voltar às origens: Beckett e Cioran. Ambos nos dizem o mesmo: nada é seguro. Usa as ideias como um cachorro um osso de borracha. Duvida de tudo com a inevitabilidade de uma queda de água. Avança pelas ideias como os heróis de Beckett nas suas paisagens desoladas: devagar, coxeando, usando como bengala as incertezas. Mas avança. 

Je ne sais pas où je suis, je ne le saurai jamais, dans le silence on ne peut savoir, on doit juste avancer.” (Samuel Beckett, in L'Innomable)

12.4.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 12-04-2023

O meu café favorito em Genebra é o da livraria Payot nas Rues Basses. O café propriamente dito não é grande coisa. Mudaram dos cafés Carasso para uma coisa chamada Brew Society e saiu porcaria, claro: demasiado torrado, amargo, feito numa máquina de expresso perde-se toda a fineza e subtileza do café "betula bourbon" (entre aspas porque nunca tinha ouvido falar) colombiano. Mas... ainda não chegou o tempo em que se vai a um café para beber café. Vai-se para beber café, o que é diferente. 

Há outro café assim, o Chez Slatkine, na Vieille Ville. Mas o Slatkine é um editor, não é uma livraria e a maioria dos livros nas estantes são naturalmente os seus. Aqui há mais, muitas vezes mais. E a clientela é mais variada.

Escrevo, portanto e bebo café, leio o jornal, oiço meio distraído meio involuntária meio inevitavelmente a conversa das duas jovens senhoras à minha esquerda, ambas no início da trintena, uma com a filha de quatro cinco anos ao colo. Os diálogos entre as três desenrolam-se em francês mas quando se cingem à mãe - filha passam para o inglês. Na mesa a seguir dois senhores discutem um livro, mas estão demasiado longe para que eu possa perceber mais do que alguns farrapos de frases.

À minha direita está outra jovem mãe, esta com duas filhas. Uma mesa mais longe outro conjunto mãe/filha discute a compra de varios livros pela miúda (às quartas-feiras não há escola, donde tantos miúdos em idade escolar). O futuro da livraria Payot - e por extensão, das outras - parece promissor. Mesmo que um dos clientes seja um velho teso que olha para os livros como um eunuco para as mulheres nas montras de Amsterdão. 

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Lidar com os nossos preconceitos não é difícil: basta mantermos com eles um diálogo permanente. 

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Chemiserie Centrale: uma camisa - linda, por sinal - a duzentos e cinquenta francos suíços (um pouco mais em euros). Que tipo de trabalho é preciso ter para poder pagar isto? Conheço gente para quem este montante representa menos de um quarto de dia de trabalho - um sexto, para ser preciso. Mas pergunto-me se na verdade a única forma decente de pagar duzentos e cinquenta francos por uma camisa não será com dinheiro ou herdado ou roubado.  

Neologismos e cães de caça

No seu afã de lutar contra as discriminações e pela inclusão - também conhecido por palermice - o PS de uma pequena comuna de Genebra (o cantão, não a cidade) quer lutar contra a «glotofobia». Traduzo directamente de «glottophobie», que é, segundo a wikipédia, um neologismo. Significa discriminação baseada nos sotaques. O PS de Vernier teve de ir buscar um neologismo para juntar uma causa à sua longa lista delas (fui ver o site. É ilegível por causa da escrita inclusiva, outra aberração mas mais antiga). Nada disto seria muito importante: os PS de todo o mundo são feitos de moinhos de vento contra os quais lutam os valentes D. Quixotes que os compõem - pelo menos aqueles que mantêm a honestidade primeva. Nos outros, mais actualizados, são verbos de encher os bolsos, mas isso é outra história. 

Nada disso seria muito importante, dizia, se não ocorresse num país pequeno composto por vinte e seis países minúsculos que partilham três idiomas (de facto. Na propaganda oficial são quatro). Cada uma dessas línguas tem um sotaque diferente em cada vale (tão identitários que por vezes têm nomes: baseldeutsch ou züritüütsch, por exemplo, são duas das inúmeras variantes do schwizertütsh (ou switzerdeutsch). O alemão dos Appenzell Rhodes-Intérieures é diferente do dos Appenzell Rhodes-Extérieurs e por aí fora.

Acresce que não há provavelmente no mundo país no qual seja melhor, mais confortável, mais indiferente ser-se estrangeiro do que na Suíça. Pelo menos no meu mundo não há de certeza. Que o PS de uma aldeola do cantão de Genebra precise de levantar lebres (virtuais) com a sofreguidão de um cão de caça (real) demonstra simplesmente que não têm mais nada que fazer. O que é, reconheça-se, bom sinal. 

9.4.23

Preferências

As minhas estações do ano favoritas são quatro: a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno (por ordem cronológica).

8.4.23

Querido diário (Genebra, 08-04-2023)

Querido diário:

Aqui entre nós que ninguém nos ouve, deixa-me dizer-te que és um chato. É verdade que hoje me deste um dia porreiro e relativamente bem comportado (se não fosse o jantar teria sido perfeito); isso, porém, não chega. Por favor trata-me da porra da artrose no ombro direito e da dor de cabeça. Impede-me de passar na cozinha o tempo que hoje lá passei. E, sobretudo, deixa de me chatear com a confusão que te espera em Lisboa. Não há nada que por enquanto eu possa fazer e quando puder farei o que puder, nem mais nem menos.

Notações

Mau, medíocre, suficiente, bom, muito bom. Com excepção dos dois extremos, podia acrescentar-se a cada nota um mais ou um menos: medíocre mais, bom menos. Esta classificação era muito mais exacta e é de longe preferível à quantitativa. 

Como um paquete

Atravessar a noite como se atravessa uma rua muito movimentada. No meio há uma ilha para que os peões não tenham de correr toda a largura da via. Questão de segurança, dizem. Não sei quem regula os sinais, quando os há. Está verde: avança, dorme. Encarnado: pára. O sono abandonou-te. Tens de esperar na tal ilha, parada a meio da noite como um paquete encalhado numa praia.

Depois a maré sobe, tudo se repõe em movimento e o sono volta, abençoado seja.

7.4.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 07-04-2023

Vim à estação fazer umas compras pequenas, nada de muito urgente. Muito provavelmente, "compras" não passa de um pretexto mal enjorcado para sair de casa, passear, andar a pé, ver gente, fazer uma fotografia ou duas. Acertei em todas, com uma pequena excepção: a Migros estava a abarrotar, de tal forma que me vim embora a meio. O que falta fica para amanhã, haverá menos gente de certeza e ao pé de casa.

Os genebrinos continuam a recusar a abertura de supermercados com horários alargados. Safam-se os do aeroporto e os da estação, que são território federal e por isso escapam à legislação cantonal. Mas como não proibiram as pessoas de fazer compras aos domingos, feriados, cedo de manhã ou tarde à noite (enfim, até às dez da noite) e ainda por cima os espaços são pequenos, e ainda por cima é dia de partida de férias, as lojas ficam rapidamente a parecer aquelas molhadas do rugby, com gente a empurrar em todas as direcções. 

Despachei-me e vim ao La Petite Reine beber um copo e acalmar as pulsações. É uma dessas tascas alternativas-ecolo-bobo-baba-cool (se ainda houvesse baba-cool, a espécie desapareceu do léxico e suspeito que não só) das Grottes, mesmo por trás da estação. A música é irritante, a decoração condizente, o vinho uma merda mas enfim, pelo menos está vazia. Além de que o nome é atraente: petite reine é uma das designações de bicicleta (num dos lados há um estacionamento com capacidade para meia dúzia de milhões delas e no outro uma loja de aluguer e reparação de burras, para além de «integração», outro «grottismo». Daí o nome, aposto).

O céu estava cinzento de feio. Um nimbus daqueles a poucos tons pantone do negro absoluto cobria-lhe um quarto. Entretanto choveu e a nuvem afastou-se, de maneira o caminho de regresso está mais ou menos aberto.

Tenho pela proa uma semana sozinho em casa, provavelmente com algumas ocasionais visitas de amigos que tenham ficado por cá durante as férias. Não sou crente nem praticante mas há dias em que me apetece cantar laudas a quem determina estes feriados e férias.

6.4.23

Bis repetita

Não gosto de me meter na vida dos outros. Nem na minha me meto.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 06-04-2023

Querido diário:

Ando a comer demasiados chocolates e doces. É como se quisesse compensar as dezenas de anos que passei sem tocar numa doçaria. Vou cortar e conto contigo para me ajudar. Como sabes, és o meu confidente para estas coisas importantes. Só a ti oiço, mais ninguém. Já agora, seria bom que me ajudasses a pôr ordem na carcaça, se não te custar muito. Hoje portou-se mal, logo desde manhã cedo. Conto contigo, querido diário. 

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Hoje vi o meu neto e dormi muito, duas coisas boas. Fiz as mesmas sestas que ele. Vi também como funciona o «teletrabalho» para uma jovem mãe com uma cria em casa. Posso estar enganado, mas não auguro muito futuro ao método. O mais provável é acontecer a mesma coisa que aconteceu nos anos noventa: meio mundo entusiasmado com a perspectiva de poder trabalhar em casa e em menos de dois anos ninguém falava no assunto.

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O suplício está quase a acabar. Quase? Esta maldita palavra não me larga. Devia ser banida, como fazem aqueles ingénuos que acreditam que mudando as palavras mudam o que lhes está subjacente.  Deixa de se dizer preto, ou maricas e o racismo desaparece e nunca mais ninguém goza com um gay. Deixa de se dizer quase e tudo acontecerá nos prazos. Eu, por exemplo, estou quase a ser feliz.

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Em Prangins fiz mais uma recolha de livros gratuitos: três na mercearia - aonde há sempre livros espantosamente bons - e um num «abrigo para livros» num jardim. Este último foi o La Cité de la Joie, de Dominique Lapierre. Lembro-me mal do livro, que li há muitos anos, mas achoque vai emparelhar bem com o Londres de Céline que comprei ontem na Recyclables. Quando conseguir ler de novo vai acontecer o mesmo que com os chocolates...

À atenção dos acordados

"Ao princípio era o Verbo e o Verbo era Deus".

Sem dúvida. Mas depois Deus apercebeu-se de que a palavra não era suficiente e criou o resto.

Sem o qual resto a palavra em breve se esgotaria e não serviria para nada. As palavras por si só não fazem nem mudam o mundo. 

5.4.23

Enter, fogueiras

Não sou historiador e posso estar enganado. Estou muitas vezes, felizmente. Mas assim que de repente me lembre, creio que nunca na história da humanidade teve a doxa tanta força, esteve tão imiscuída nos mais pequenos interstícios e recantos da sociedade como hoje. As labaredas não são físicas, é certo. São virtuais e fugazes, duram o tempo que um átomo leva a dar a volta à notícia. Em contrapartida, são aos milhares. Não há computador ou telefone no qual não se queime um pecador por dia, pelo menos. 

A Idade Média (a da mitologia, não a real. Essa foi muito diferente daquilo que se pensa) está de regresso. Espero que os meus netos revivam uma Renascença ou um novo século das luzes.  No nosso, há uma que se apaga cada vez que a tecla enter é premida num teclado.

3.4.23

Talvez bis

O post ia chamar-se Talvez e era um diálogo entre um esperançado e um céptico. Abria com uma referência a Eliot ("Talvez Abril deixe de ser o mês mais cruel") e fechava com uma dupla acusação:

"- Talvez te enganes.
- Talvez te enganes."

Apaguei-o por engano e não tenho vontade de o reconstituir. Penso no Herberto Hélder de Os comboios que vão para Antuérpia: "Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura. Penso que o mar dá uma qualidade especial à fantasia, ao desejo e à confiança. É uma propriedade misteriosa do espírito, e por ela se aprende a nada esperar, a não desesperar de nada. Talvez seja isso a inocência. Talvez só no mar nos seja concedido morrer verdadeiramente, morrer como nenhum homem pode." Estou em terra e por isso não posso morrer verdadeiramente. Só me é permitida esta espécie de semi-morte (nos dias bons, que são poucos) ou semi-vida (nos outros, maus e muitos). Uma coisa, contudo, é certa: aprendi a não esperar e a não desesperar. Qualquer uma das duas personagens dialogantes do meu post (verdadeiramente morto, ele, pelo menos na sua forma escrita) pode ter razão e pode estar enganado. Talvez.

- Talvez Abril deixe de ser o mês mais cruel e passe a ser o da ressurreição.
- Há mais de um ano que vives de talvez e de quase, duas palavras que enganam muito.
- Sem talvez não encontrarias o caminho nem numa floresta que conheces bem.
- Talvez não põe comida na mesa, não paga rendas e não repara embarcações.

...

- Talvez te enganes.
- Talvez te enganes. 

"April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire ..."

(T. S. Eliot, The Waste Land)

(Dedico este post à MdP, uma daquelas pessoas perto de quem o desespero não passa de uma fingimento. )

Poupança

As pessoas que têm um mundo interior muito rico e variado poupam uma data de massa em aviões e hotéis, não e?

2.4.23

Outra vez

O meu corpo muda. Trai-me. Não o reconheço de uma semana para a seguinte. É como se estivesse a passar por uma segunda adolescência. 

31.3.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 31-03-2023 / Cont.

Para dizer a verdade, a exposição não foi a única coisa que me trouxe a Carouge. Às sete e meia da tarde havia um concerto no templo. Estava um bocadinho desconfiado: Mozart, Schubert e Schönberg. Mas fui (era convidado, de qualquer forma. Teria sido mal-educado não ir), o que só prova que todos devemos agradecer à boa educação e à capacidade de vencer a desconfiança. O concerto foi absolutamente sublime. Aviv String Quartet, para quem estiver interessado. De todas as minhas imperfeições, a mais imperfeita, aquela com a qual mais me custa viver é esta incapacidade total para a música. Soube recentemente que isso tem um nome: amusia. 

De todas as formas do silêncio, a música é a mais bela. Invejo aos músicos esta capacidade de comunicarem entre si, unidos por aquela parte da música que não se ouve - ou pelo menos un amúsico não ouve. O mais parecido que conheço e vivi (há tanto tempo...) são as manobras numa embarcação de regata com uma tripulação treinada. Não há uma palavra. O táctico ou o navegador dizem «Cambadela (por exemplo) em três comprimentos»; «dois»; «um»; «cambar» e a tripulação une-se pelos olhares dois a dois porque cada tipo à proa tem um par atrás do mastro e a manobra arranca, executa-se e termina sem mais uma palavra. Obviamente, há uma diferença de complexidade e de duração entre uma peça de música e uma manobra, mas são estas que me deixam entrever a felicidade que leio nos olhares dos intérpretes - sobretudo quando, como hoje, estamos na primeira fila, a dois metros mal medidos do grupo.

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Os posts deste blogue parecem-me uma espécie de tsunami: começam pequeninos ao longe, mal se vêem porque estão perdidos numa esquina esconsa de sinapses e depois vão crescendo, crescendo até rebentarem na praia (são tsunamis pequenos, graças a Deus). O «turbilhão» foi assim: veio de lá de trás, sei lá quando, começou a tomar forma no autocarro do aeroporto para casa da S. - paradoxalmente por causa da suavidade das ruas, passa-se três quartos de hora num autocarro e não há um solavanco e pus-me a comparar com uma viagem no velhinho quarenta e cinco em Lisboa, ou no vinte e sete (vade retro)... Bom, pouco importa. Deixemos a suavidade para outras ondas.

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Depois do concerto fomos jantar a um restaurante italiano ali perto. Comi um spaghetti com algas espirulinas e ouriços do mar que estava simplesmente de cair para o lado. Não menciono o vinho e a sobremesa para não pôr os meus simpáticos leitores a correr para a praia mais próxima à espreita de uma gigante, uma onda avassaladora. 

(E depois, há que lembrarmo-nos: um turbilhão traz e leva para trás. Não tarda estarei feliz por me ir embora.)

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 31-03-2023

Genebra é um turbilhão que roda em torno de um eixo e leva para um lado os ventos do passado enquanto do outro traz os do futuro. Estou na Plage, um café que abriu enquanto eu trabalhava no Marchand. Nenhuma ou muito poucas das pessoas que está aqui era nascida em 1985, útimo ano em que trabalhei ali ao lado. Vim a Carouge porque quero organizar uma exposição das fotografias de Genebra e fui falar a uma espécie de galeria que fica no sítio onde há mais de vinte anos organizei a minha primeira exposição (vendi uma fotografia. Pergunto-me se não ganharei mais fazendo postais). A senhora ficou de me dar uma resposta, sinal seguro de que terei de continuar a procurar. Domingo vou estar com o L., que até herdar a fortuna do pai era fotógrafo aqui e dos bons. Talvez me dê algumas dicas.

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O eixo deste turbilhão é a S. Ou melhor, a amizade que nos liga. A analogia do vinho que melhora com a idade não é correcta: um vinho velho continua vinho. O que nos une agora não é o amor que nos uniu. É diferente. É amizade e é em torno desta que tudo roda, como num ciclone: forças centrífugas, forças centrípetas, ventos que nos afastam do centro ou para ele nos levam.

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O café está desagradável, barulhento e com uma música que não me agrada. A esta hora a idade média da clientela subiu ligeiramente, apesar de continuar largamente inferior aos quarenta. Há uma idade para tudo e a minha, para este tipo de sítios, já passou. (A empregada é linda, mas pronto, isso faz parte das coisas que nunca mudarão em Genebra.)

30.3.23

Fraquezas

O cabelo negro tapa-lhe metade da face, o meio-olhar que fica é meio de esguelha, o corpo está muito ligeiramente inclinado para a direita. Olha directamente para a máquina, que está um pouco à sua esquerda. Isto é, olha de frente para quem está a ver a fotografia. Do pescoço pende um crucifixo que conduz o olhar directamente para o seio direito. Deste os olhos vão para o esquerdo e dali baixam para o resto do corpo, mas esse movimento é interrompido pelos braços, pelas mãos juntas em cima do umbigo (aproximadamente.  O modelo está vestido. A imaginação trabalha tanto como os olhos). A camisola de lä, verde, as mangas arregaçadas, os seios firmes, pontiagudos, duros,  acentuam-lhe a energia que se adivinha naquele corpo, naquela mente. Tento decifrar a imagem, claramente de amador. A tensão vem toda do modelo, que desafia o fotógrafo e por arrasto quem a vê, apesar de o cenário ser banal, turístico. 

A fotografia tem trinta anos e prende-me no imediato momento em que a vejo: o meu fraco são as mulheres fortes.

29.3.23

A maior parte de mim

"Por que palavra começar, por que desordem?"

A cada chegada a Genebra é o mesmo turbilhão. Depois o remoinho acalma, volta a tranquilidade. Depois, ainda, a vontade de me ir embora. Eu não sou daqui. Daqui é só uma parte de mim, não eu todo. Não sou todo de lado nenhum. Nem ao mar, sequer, pertenço todo. Há sempre uma parte de mim numa parte qualquer do mundo.

Mas de que a maior parte de mim está aqui não pode haver dúvida. O futuro é sempre maior do que o passado e esse futuro tem nome. Chama-se Leonardo, Helena, Tomás. 

Diário de Bordos - Aeroporto do Porto, Portugal, 29-03-2023

Durante muitos anos especializei-me em chegar aos aeroportos à última da hora (e às vezes ligeiramete depois. Felizmente essas foram poucas). A primeira vez na vida que vi a necessidade imperiosa de um telefone portátil foi quando, em Londres a caminho de Heathrow, telefonei para um check in da TAP a pedir para não o fecharem antes de eu chegar. (Em rês etapas: Aeropoprto, TAP, balcão de check in. Tempos gloriosos, esses, em que a fantasia era possível. Hoje também é, claro, não é amanhã a véspera do dia em que ela vai desaparecer. Mas não é a mesma fantasia. É outra, diferente e mais débil, mais pálida, por assim dizer.)

Depois, pouco a pouco, por efeito de um factor qualquer que agora de repente não me ocorre, comecei a chegar a tempo. Daí a chegar cedo de mais foi um passo. De maneira fui assistindo, progressivamente, à subida de preços nos estabelecimentos cafeteiros dos aeroportos. Foram subindo: de caros a muito caros, de muito caros a absurdos, numa encosta bastante íngreme. Hoje atingi o ponto mais alto dessa encosta (para mim. Aposto que não vai parar aqui): quatro euros e trinta cêntimos por um Sumol de Laranja. Quatro vírgula trinta euros. Brinquei com a senhora, a troca de larachas cresceu e a certa altura ela diz-me:
     - Mais valia beber cerveja.
     - Ainda é cedo - respondo.
  - Isso depende da hora a que acordou.

Quem não gosta do Porto não percebe nada de aeroportos.

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Ainda não consigo ler a cem por cento, excepto num ecrã. Seja de telefone, seja do computador. A continuar assim, não tarda estou convertido aos livros electrónicos. Antevejo mal esse futuro.

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Quarenta e cinco minutos (isto hoje só me saem números) do hotel aos filtros de segurança do aeroporto, de metro. Tivesse vindo de táxi e teria demorado um pouco mais de metade por seis ou sete vezes o preço. Da próxima vez venho de bicicleta. Pelo menos poupo nos preços alucinantes do café onde escrevo estas linhas e passo menos tempo à espera da abertura do embarque. Viajar de avião consiste em alternar períodos de espera com chatices - filtros, walk through, Sumol de laranja a preço de ouro em pó. Feizmente aprendi a evitar filas de embarque - tento sistematicamente ser o último a entrar no avião e já desenvolvi ua série de técnicas para isso. Permite-me escolher o lugar, quando o avião não vai cheio a abarrotar e minimizar o tempo de espera dentro da aeronave. O qual está cada vez mais longo, agora que por causa da Covid as revistas das companhias aéreas desapareceram. A certa altura ainda alimentei o sonho de escrever para uma delas, mas como de costume deixei-o passar. 

Não preciso de correr atrás dos sonhos para que eles desapareçam. Basta-me não fazer nada. 

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ADENDA - O voo da TAP vai sair a horas, está quase vazio e como sempre o pessoal de cabine é simpatiquíssimo. E ainda há quem diga mal desta maravilhosa companhia.

Só é pena é sair-nos tão cara.

PPS - Os controladores aéreos em França estão em greve. Surprise, surprise.

Diário de Bordos - Porto, Portugal, 28-03-2023

Breve escala no Porto. Nada a fazer, esta cidade enfeitiçou-me. Está agora onde Lisboa estava há uns anos. Infelizmente o resultado será o mesmo: em breve teremos de ziguezaguear para encontrar restos do que era e evitar os foodie-gourmet-trendy-vegan-modern-style. Mas ainda não está assim e a transformação da cidade cinzenta e chuvosa que conheci para esta cheia de sol, de risos, de gente e de alegria é fulminante. Nos dois sentidos: foi rápida e deixa-nos fulminados.

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Bebi um copo com o D. no Pipa Velha, o meu café-bar-restaurante-petiscaria-tudo favorito desta zona. Não está sempre a abarrotar como o Aduela, não tem aquele aspecto dep-chicos-parigot do Candelabro e ainda menos a pedantice da champagnerie (não me lembro do nome). Dos outros não falo porque não conheço. Há um bar de vinhos onde fui uma vez e gostei bastante mas hoje estava com o Pipa Velha fisgado e ali fiquei.

Depois voltei para "casa", com uma brevíssima paragem para bancas no Tarantino.  Conheci o dono, um "ex-comando". "Ex? Não sou ex-comando. Ainda o sou." Contas rápidas de cabeça levam-me a crer que o senhor tem mais quatro ou cinco anos do que eu. Gosto de pessoas assim: são o que foram porque o que foram é o que são. 

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Como esta minha "casa" aqui: o hotel San Marino. Cada vez que cá venho vislumbro o sentido da palavra hospitalidade e como ela se relaciona com hotel, simpatia e profissionalismo. Se não me engano as "autoridades" (aspas porque é ironia) atribuem-lhe duas estrelas. Eu atribuo vinte, pelo menos vinte.

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Hoje é a minha vez de entrar no sono com o garbo de um porta-aviões e as fintas de um destroyer numa luta anti-submarina.

Amanhã veremos a eficácia desta frota sui generis.

28.3.23

Diário de Bordos - Autocarro Alijó - Porto, Portugal, 28-03-2023

Estou gelado. Desde as mãos até ao futuro tudo é gelo dentro de mim. Do passado nada sei: nem como cheguei aqui, nem de onde vem tanto frio. Impossível prever quando chegará o calor. Impossível prever, de resto. 

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Mais do que saber quem me seduz é preciso saber quem seduz as minhas palavras. Elas sabem, antes de mim, a quem me devo dirigir. Poderia mesmo ir mais longe: são elas que escolhem.

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Na camioneta de Alijó para o Porto. Sentimentos confusos. "Vastas emoções e pensamentos imperfeitos" não é só um título magnífico. É a descrição de uma passagem interior que por acaso é a minha, tantas vezes. Amanhã estarei em Genebra de novo, para um par de semanas. É como parar para meter combustível. Ir a bancas, como diria se estivesse num navio. Ou no meu P., coitado, que tanto precisa de fazer bancas (a expressão vem do inglês bunkers, não tem nada a ver com bancos, se por acaso).

26.3.23

Irritações lexicais

Que estranho fenómeno levará gente inteligente a dizer "a minha pessoa" em vez de eu ou mim? O uso absurdo e abundante de "o mesmo" ou "a mesma" suscita a mesma dúvida. "A porta está avariada. É favor fechar a mesma." Porque não "é favor fechá-la"?

Deve ter a ver com o número de sílabas. Quantas mais, mais culto o orador se sente.

Bárbara, completa.

Ontem fui à livraria Poesia Incompleta ver os quadros da Bárbara Assis Pacheco. A livraria é muito mais do que o nome: é uma excelente e completíssima livraria especializada em poesia e merece todas as visitas que se lhe possam fazer.

A exposição poderia chamar-se «Bárbara a sonhar com leões». Infelizmente, este título tem por trás aquela carga sardónica da expressão «sonhar com ladrões» (de onde provem, de resto) e é pena: os sonhos são bons, poderosos, evocadores e dão-nos vontade de os comprar todos. Leões, piscinas e personagens femininas pintados nas cores plenas que é o estilo da pintora. Os meus conhecimentos teóricos de pintura são bastante reduzidos e não poderia dizer, mesmo que o quisesse, em que linhagem aquela obra se inscreve. Verdade seja dita, é-me indiferente: este é um daqueles casos em que «gostar muitíssimo» é insuficiente. Peca por defeito. Há várias coisas que me levam a gostar ou a não gostar de um quadro. A maestria técnica é uma delas. A história que conta outra. E a que não conta, a que está para lá do espectro visível. Creio que já aqui falei da exposição Bicharadona, em Montijo e do choque que senti ao entrar: no primeiro repente, a pintura da Bárbara parece infantil. Depois começa-se a olhar e vê-se que é tudo menos isso. É sofisticada, subtil e tem - como tudo o que é bom - vários níveis de leitura. Acorrei à Poesia Incompleta - a Bárbara não podia ter escolhido melhor lugar para expor estas obras, que são tudo menos incompletas. Como a livraria, de resto.

24.3.23

Combustível, insónia

Três e meia da manhã. A insónia entrou garbosamente pela noite dentro, como a proa de um cruzador a navegar a toda a força em mar chão. Mas agora o navio vai atracar. Falta de combustível? Talvez: o dia já foi remoído e  queimado.

Eu só sei dançar sozinho - Reedição

Por vezes toca-me à campaínha às três da manhã, ou quatro - a qualquer hora. Abro e nem "boa noite" oiço. "Ela abafou-me outra vez", explica. "Ela", eu sei, é a tristeza, a solidão. "Desce sobre mim como um cobertor, como o cobertor de quando a minha avó me aconchegava na cama e de repente o frio desaparecia, percebes? Abafa-me, aconchega-me; parece que se faz noite, apesar de já ser noite". Digo-lhe para entrar, preparo-lhe um gin tonic (com duas ou três gotas de bitter Angostura) e deixo-a falar. Uma vez perguntei-lhe "Desce como um abutre?" e ela respondeu "Não, que horror, se fosse um abutre eu estaria morta e não estou". 
    "Percorro a cidade, de noite, para saber aonde pertenço [where do I belong to, tinha feito a escola primária nas freiras inglesas de Belém e a Universidade em Londres]. Hoje fui ao Santiago Alquimista, conheces?" Acenei uma vaga negativa. "O espaço é muito bonito, mas está povoado de meninos de coro que se fingem artistas. Prefiro o contrário". "Depois fui ao Maxime". "Esse conheço", encorajei-a. "Menos meninos de coro, menos artistas. Um nojo: tudo sujo, o chão peganhento, montes de homens. Não era sítio para uma mulher sozinha". Alexandra dificilmente entrava na categoria "mulher sozinha". Era muito pequenina, magra, morena como se tivesse saído ontem do Rif - mas quando se deslocava parecia ter um exército com ela. Não por ser agressiva, mas porque enchia o espaço todo. "Enfim, uma merda. Acabei numa boîte cabo-verdiana. Sabes, dançar música africana não é difícil. Basta não te veres a dançar. É por isso que não gosto de tango: eles não dançam, olham-se." 
    São seis da manhã, Alexandra está deitada no sofá da sala com o copo de gin na mão; reclina-se regularmente para o beber. Não gosto de boîtes cabo-verdianas: aquela música dança-se sempre a dois e eu só sei dançar sozinho. Há poucos povos africanos que dançam sistematicamente a dois; e mesmo assim poucas músicas. No Zaire isso acontecia, por vezes. Uma vez tive uma namorada muito bonita, jovem, que todas as noites tentava ensinar-me a dançar na boîte de um maricas que tinha a música aos berros e onde íamos regularmente. Eu dizia-lhe, "Tsombé, eu não sei dançar a dois"; e ela respondia-me "Mas sabes fazer amor. Porque não consegues dançar?" "Porque se calhar faço amor sozinho". "Não sejas idiota". Como a minha hóspede, Tsombé era parca na fala, mas não hesitava muito na escolha de palavras. Alexandra continua deitada no sofá. Não me importo de a acolher, seja a que horas for: fala pouco, não me critica os silêncios - provavelmente até os agradece. Às vezes fazemos amor; mais frequentemente não: acabar na cama com ela faz-me pensar na Tsombé e em como é bom fazer amor quando se ama ou é amado (a reciprocidade não é essencial. Basta um amar, ou deixar-se amar). Com Alexandra a única reciprocidade é a do desejo; ela diz-me "fode-me, mas não vás mais longe do que a pele, porque para lá não há nada". Tsombé não era assim: sentava-se em cima de mim, apontava para o umbigo e dizia: "até aqui". 
    Alexandra acaba por adormecer. Fico na sala a olhar para ela. Daqui a pouco irei buscar um cobertor para a tapar. Eu só sei dançar sozinho

Definição - envelhecer

Envelhecer é um processo tão simples quanto inevitável que se traduz por:

a) Aprender a resistir à tentação de corrigir todos os males do mundo;

b) Aprender a corrigir os nossos próprios defeitos, deixando os dos outros em paz. Ou melhor: aprender a viver com os nossos defeitos e com os dos outros.

23.3.23

Caça às bruxas, neo-maccarthismo e outros demónios

Com o clima de intolerância que por aí anda, pergunto-me quanto tempo faltará para a caça às bruxas regressar? Ou quando teremos um novo McCarthy, à cata de «inimigos interiores»? Os demónios do bem andam à solta. São os piores.

Alvos colaterais

À longuíssima lista de violências que a Covid me fez devo acrescentar a de hoje: não poder fazer uma viagem  os Estados Unidos com o Alberto Gonçalves. Ainda por cima, esta sobe  directamente ao pódio. 

Claro está que a responsabilidade é minha: não sou vacinado contra a Covid e recuso-me a sê-lo. Não por medo das possíveis consequências mas por princípio, por teimosia, por - neste caso - masoquismo puro. De nada serve atribuir a culpa ao vírus, ao Biden ou à Big Pharma. A escolha é minha.

Mas lá que passei o dia a insultá-los passei.

21.3.23

Lisboa, pó-de-arroz

Lisboa é puta velha, dá-te mais do que te pede: já sacou das gerações anteriores tudo o que podia sacar.

Paradoxalmente, a miudagem que aí vem vai poder dizer o mesmo: Lisboa disfarça-se, cobre-se com camadas e camadas de bâton e pó-de-arroz e engana toda a gente. 

Amor, flechas

Num homem sem amor as palavras são como flechas sem alvo.

Deus, Diabo e alguém que os escolha

Fiquei ateu muito cedo, aos onze ou doze anos. Era ajudante de missa e tudo, mas o vírus da vela - e mais tarde o do mar - substituíram o da fé.  Porém, esse ateísmo tem vindo a evoluir. Antigamente não acreditava na existência do Diabo - sem Deus não há diabo e sem este não há aquele.

Uma pessoa vai crescendo e apercebe-se de que se o diabo não existe, existe alguém que se parece diabolicamente com ele. Já a ausência de Deus permanece. Nem Deus nem alguém divinamente parecido com Ele.

Aqui chegado, é forçoso reconhecer que não há nem um Diabo nem um Deus. Há muitos, tão entranhados um no outro que é impossível distingui-los. Entre Deus e o Diabo venha o homem e escolha.

Pagar para sonhar

Há uns meses dei por mim a sonhar com o que faria se ganhasse uma avalanche de massa e gostei do que vi: uma bicicleta (igual à Coluer mas em carbono), um barco (pedir propostas a VPLP, Hugh Welbourn e Ed Dubois para qualquer coisa monocasco entre setenta e oitenta pés, rápida, confortável e simples). Até pensei, imagine-se em casas e carros - prova provada, como se necessário fosse, de que por muito que se corra a idade corre mais depressa. Consequentemente, segunda-feira comprei um bilhete para o totómilhões, coisa que não fazia há mais de uma dúzia de anos.

Ganhei três euros e noventa e quatro cêntimos, o que representa um prejuízo liquido de um euro e seis cêntimos. Não acredito nas lotarias como método para enriquecer mas pagar cinco euros para ter um sonho bonito parece-me aceitável. 

Enfim, para dizer a verdade uma espécie de Coluer em carbono já me encheria de felicidade e para isso não preciso de um totómilhões. Também não preciso do resto: nem de um setenta pés, nem de um automóvel luxuoso, nem de uma casa minha (posso muito bem arrendar uma).

Cheguei de novo a esta conclusão depois de comprar outro bilhete e os meus prejuízos passarem a seis euros e quatro cêntimos. Agora só volto a tentar daqui a uma dúzia de anos. Na verdade, não gosto de pagar para sonhar: posso fazê-lo de borla. Há menos milhões - e menos totós.

20.3.23

Noie, sono: instruções

A maneira correcta de entrar na noite é: com firmeza, determinação e obstinação. Posição fetal: pernas encolhidas até os joelhos tocarem no queixo, mãos apoiadas fortemente nos ombros (a esquerda no direito e a direita no esquerdo, claro), respiração lenta e profunda. 

Basta esperar três horas ou quatro para que o sono chegue.

19.3.23

Venham mais cinco

Nunca liguei a "dias". Dia disto, daquilo, Natal, Páscoa, aniversários... até do meu aniversário cheguei a esquecer-me. O Facebook veio mudar isso tudo. Impossível esquecer-me do meu aniversário ou de que hoje é dia do Pai. Não há quem não poste fotografias do "melhor pai do mundo" ou do "paizão" ou do "pai dos meus [dela] filhos".

Não acredito muito em nada disso. O dia do meu Pai é todos os dias que penso nele e ele já cá não está, são muitos, todos, vai quase para vinte anos. Dia da Mãe ainda são todos, faz menos tempo que foi ter com o tempo e com o marido. Soube recentemente da existência de um dia dos irmãos. E um para os filhos, há? Pouco importa. Todos os dias são dias de alguém que me é querido e em quem penso, todos os dias. 

Isto porque fez há dez dias cinco anos que comecei a trabalhar para o meu P. Uma viagem que era suposta durar uma semana transformou-se numa vida. Esqueci-me de celebrar esse aniversário, mas posso dizer - e digo - venham mais cinco. Obrigado, M., armadora - cliente - amiga com quem partilho os altos e os baixos do trabalho por me aturar estes anos todos, por me ter deixado fazer as asneiras todas que fiz e - sobretudo - por me ter deixado fazer bem tudo o que fiz bem, que foi muito mais do que o que fiz mal. Se em tudo o que faço sempre pus tudo o que sou, no P. tenho tudo o que fui, sou e serei. 

Cinco anos, P. Venham mais cinco. És teimoso e para teimoso, teimoso e meio. És lindo e mais lindo ficarás ainda. Dás-me água pela barba, mas eu sacudi-la-ei, não te preocupes. Ainda temos muitos dias pela proa, muitas chatices e muitas alegrias. Alcandoraste-te, por mérito teu e da M., ao difícil lugar de embarcação da minha vida e dele não sairás, nunca.

15.3.23

Amores, viagens, contrafortes e uma letra

Procuro as traduções portuguesas de butoir e de arc-bouter e não encontro nada de satisfatório na net. O Grande Dicionário Francês/Português Domingos de Azevedo, da Bertrand, edição de um pouco antes de Cristo não é grande coisa mas ajuda. Para butoir dá batente de portão.  Seja de portão, se quiser; mas não é só. Date butoir, por exemplo, é data limite, prazo, em inglês deadline. Para arc-bouter está mais longe: "entesar-se fincando os pés no chão".  Não é nada disso, Domingos. O que tenho em mente é o corpo da --- com os pés bem apoiados na cama, a cabeça na almofada e o resto todo no ar, fazendo um arco perfeito, entesado e musculado sim, mas curvo, Domingos, todo curvo, butoir perfeito para outro corpo entesado, Domingos, mas esse tão pouco tinha os pés no chão,  estavam bem perto dos da --- e o resto estava apoiado nos braços, Domingos, nos braços, só linhas rectas neste, contraste perfeito com as curvas e a curvatura do outro, mas disso não há dicionário que fale, só o da memória talvez, o do devaneio, o do desejo.

Tudo isto começou com date butoir, data limite, prazo final, que é daqui a um mês e daí vai um salto até arc-bouter,  que foi há treze ou catorze anos, as palavras dão saltos redondos como o "o" de arc-bouter, ausente de butoir mas isso é irrelevante. É tão bonito, arc-bouter, era tão bonita, a --- arc-boutée, raide comme un arc-boutant de cathédrale, une prière à deux, Domingos, como eu agora rezo para que a date butoir seja verdade e não mais uma dessas miragens que têm sido a minha companhia, aqueles cabelos loiros espalhados pela almofada como raízes de uma árvore caída na cama, como é que uma simples letra pode ser uma máquina de viajar no tempo, Domingos, tu sabes?

Como é que uma simples letra consegue acordar-me, tirar-me do sono e do quente, do peso dos cobertores para te ir consultar, já não te abria há tantos anos, Domingos? E voltar atrás, partir de butoir e acabar em arc-boutant, partir de um calvário cujo fim está à vista para uma festa,  uma catedral, um contraforte, um amor? 

Os amores são como as viagens: têm princípio mas não têm fim. E como as catedrais, que têm contrafortes mas não têm limites.

12.3.23

No man's land

Aninho-me em mim. Esta carcaça martirizada (isto é um exagero) acolhe esta mente martirizada (isto é um understatement). Enrolo-me, abraço-me, envelopo-me, aconchego-me. Deixo os lençóis, edredões, cobertores e a noite fazerem o seu trabalho de apaziguamento. O dia apaga-se mais devagar do que o candeeiro. Não há um só interruptor: são muitos e vêm de direcções diferentes. O corpo e a mente aceitam todos os carinhos e lutam denodadamente para afastar dúvidas e angústias. Não buscam certezas. Sentem-se bem naquele no man's land no qual se esbatem os medos e as certezas ainda não apareceram. É por aí que o sono se esgueira. Aí mora a paz. E eu, às vezes.

11.3.23

Loiça, burocracia

Percebo, finalmente, porque gosto tanto de lavar a loiça: vejo o progresso da acção. Começa-se por ordenar a loiça suja, lava-se, passa-se por água, põe-se a escorrer o que é para escorrer, seca-se e arruma-se o que é para secar e arrumar. Deita-se uma vista de olhos à cozinha (fica sempre qualquer coisa para trás) e hey, presto, acabou. A acção teve um princípio, um meio e um fim. Pode passar-se a outra coisa.

Isto é a antítese do que se passa quando se lida com a burocracia portuguesa: é um rio com mais meandros do que um rio africano e com a mesma abordagem ao desaguamento no oceano: há tempo.

Receita, vida

- Doutor, estou doente. Preciso de uma receita médica para viver.

- Viver é muito vago, meu caro. Se quiser, passo-lhe uma receita para um pequeno-almoço, um almoço e um jantar por dia.

- Ora, isso não chega. Viver não é só comer.

- O que é que você quer mais?

- Tanta coisa! Copos com os amigos, livros, teatro, cinema, viagens, conversas com quem discorda de mim e com quem pensa como eu, família, amor, um bom emprego...

- Isso é impossível de pôr numa só receita, tudo ao mesmo tempo. Tem de escolher.

(Cont.)

10.3.23

Diário de Bordos - Lisboa, 10-03-2023

Sexta-feira é o pior dia da semana. Acordo a pensar que o que não aconteceu nos quatro dias precedentes vai acontecer hoje, porque é o último de um ciclo; depois, lembro-me de que se não acontecer, esperam-me dois dias em que nem a esperança de que venha a acontecer há, que um novo ciclo recomeçará a seguir a esses dias vazios. Para quem espera, o fim-de-semana são os dias do desespero e sexta-feira o dia que o antecede. Como estar à beira do poço e saber que se vai cair nele, inexoravelmente. É o último dia que nos pode impedir essa queda. Último dia e queda que se repetem semana a semana.

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A autoflagelação é a pior forma de tortura: só nos podemos culpar a nós próprios. Ou a melhor: só nos podemos culpar a nós próprios. Não sei. Ser-se responsável (e culpado, também) por tudo o que nos acontece é simultaneamente carregar um peso e alijar esse peso. Talvez no fundo seja uma forma aceitável de misantropia. Uma forma humana, por assim dizer. (Como se houvesse uma forma marciana de misantropia...)

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Não há maneira de acabar, este Inverno. Não tem fim à vista. Ao frio e ao gelo seguem-se mais gelo e mais frio. (Este «não tem fim à vista» é mais do que uma expressão: enquanto os meus olhos não estiverem como deve ser nada terá fim à vista. Estou a ser atacado por todos os lados ao mesmo tempo, como se estivesse cercado. Vá lá, pelo menos dos olhos não posso dizer que sou responsável. Ninguém é. Se ao menos Deus existisse...

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E assim fecho o círculo: um dos temas desta manhã foi a existência de Deus. Claro que existe: é uma construção humana e «tudo aquilo em que um homem acredita é uma imagem da verdade», parafraseando Blake, esse grande visionário. O contrário é verdade também: Deus não passa de uma construção humana e como tal não existe autonomamente. É uma parte do homem. É um assunto que me é estranho. Entre a liturgia católica e os ritos voodoo a diferença é de estilo, não de substância. (Por isso tão pouco alinho na fúria anti-Igreja por causa dos abusos: a Igreja não é diferente das outras organizações humanas.)

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Cada vez que vejo a data para o título destes diários de bordos arrepio-me. Já Março vai em quase metade e o P. como estava há seis meses.

6.3.23

Diário de Bordos - Lisboa, 06-03-2023

Passo muito de raspão por um título do Público segundo o qual uma tartaruga bebé andou à deriva seis mil quilómetros. Não interrompi o zapping frenético para ler a notícia. Tenho algumas dúvidas sobre a adequação do verbo derivar mas a verdade é que estou mais preocupado com a minha "deriva" (aspas porque aqui tenho a certeza de que o verbo não é o adequado) do que com a possível deriva de uma tartaruga bebé. 

(Foi com a corrente do Golfo da Flórida à Irlanda, fui espreitar a notícia.)

Fico contente por ela e gostaria muito que esta surreal corrente burocrática na qual derivo chegasse ao fim, como a da tartaruga bebé, sorte a dela. Pensava que saído das garras da burocracia camarária tudo iria mais depressa, mas não: a burocracia bancária é quase a mesma coisa. A relação doentia, perversa e sádica (ou masoquista, se vista pelo outro lado) que os portugueses mantêm com a burocracia é-me dolorosamente incompreensível. 

No Burundi as agências vinham ao nosso escritório, deixavam um pedido de material, nós preenchíamo-lo e uma semana depois vinham buscá-lo. Um dia perguntei ao Anicet de quanto tempo precisava ele para executar o processo todo, do princípio ao fim. Disse-me que não sabia, nunca o tinha medido. Sentei-me com ele e juntos percorremos o caminho da A a Z: avaliar o pedido, verificar os nossos stocks, enviar aquilo para o armazém. Durou menos de dez minutos.

- Porque é que os fazemos esperar uma semana por uma coisa que nos leva dez minutos a fazer?
- Não sei - respondeu. - Sempre foi assim.
- A partir de agora vai deixar de ser. Em primeiro lugar, vais despachar todos os pedidos que tens pendentes. E o próximo que entrar é feito e entregue imediatamente. É idiota fazer esta malta sair do escritório deles, vir ao nosso, regressar aos seus trabalhos, voltar aqui e ir ao armazém quando isso pode ser feito de uma vez só (Bujumbura não é uma cidade enorme mas as deslocações eram lentas e não totalmente isentas de perigo).

Assim fizemos. Com tanta sorte que o primeiro pedido que entrou depois disto foi trazido por uma jovem que era das mais críticas do ACNUR. A moça era tão bonita quanto sarcástica e quando nos entregou o formulário fez uma observação do género "então agora venho cá para o ano, não é?"

Fi-la sentar, entretive-a com conversa de chacha até o Anicet me fazer sinal de que estava pronto e aí sim, respondi-lhe enquanto lhe dava o papel:

- Não precisas de vir para o ano. O pedido está aceite. Podes ir directamente ao armazém para eles preparem a ordem e coordenar a recolha. - A rapariga não queria aacreditar A notícia espalhou-se depressa pela comunidade da ajuda humanitária. O ACNUR aceitava ou (mais raramente) recusava pedidos de material em dez minutos.

Aposto que se os nossos burocratas soubessem que dá muito mais gozo ser admirado do que desprezado - coisa que ou ignoram ou que aceitam pacificamente - a nossa burocracia minguaria como, aparentemente, a tartaruga bebé.

(O que é que acontece à carapaça quando as tartarugas emagrecem? Ficam largas como sapatos dois tamanhos acima do bom? Caem? Minguam também?)

ADENDA - Meia dúzia ou pouco mais de meses depois tinha o processo todo informatizado. A malta das agências só saía dos seus escritórios para ir ao armazém controlar a carga. Internet no Burundi em 1994. Basta querer (e ter uma equipa que acompanha). Um ano depois de me vir embora uma das antenas V-Sat foi alvo de um atentado - a que estava do lado zairense da fronteira -  e acabou-se a net, mas durante a urgência aquilo funcionou como um relógio suíço. Precisão: basta sermos muitos a querer.

Comboios, sonhos

Esta ideia tonta de a noite ser uma bola, ser redonda, não ter ponta por onde se lhe pegue, nem calor, nem sono,  ontem, hoje... Tem amanhã, vá lá, não se perde tudo. Dia é aquela parte do dia em que não estamos juntos porque vamos trabalhar os dois, ela para um lado eu para outro. Depois chega a noite, ela continua de um lado, eu do outro e a noite arredonda-se, fecha-se num círculo em que nada nem ninguém penetra.

Enfim, não é bem verdade. Entram as memórias, parece que estão no comboio: umas lêem, outras passeiam-se, às vezes vão ao bar buscar uma bebida ou uma club sandwich, assim em inglês porque é um comboio chique, este da noite. Ou da memória, se preferirem. O comboio é grande, anda devagar. O bar fica numa das extremidades, a que fica do lado do mar.

Nada estraga mais uma noite do que um comboio carregado de lembranças. Até os nomes das estações mudam. 

Se ao menos fossem carregados de sonhos.

"Sophia" e os lugares

Três poetas portugueses mais interessantes do que "Sophia": Ruy Belo, Pedro Tamen, Nuno Júdice.

Notas:

1 - Fernando Pessoa está obviamente em fora-de-jogo de posição;

2 - Os nomes vão sem qualquer ordem, nem sequer alfabética;

3 - Aspas em Sophia porque já enjoa, sem elas;

4 - Hoje ouvi no Panteão uma boa construção de textos da supra-mencionada "Sophia", que só pecou devido à trilha sonora, um bocadinho invasora. A dita construção de textos destinava-se a fazer "uma leitura dos lugares de Sophia" (aspas porque cito) e desempenhou correcta e eficazmente essa função: nem todos os "lugares de Sophia" são frequentáveis.

(ADENDA) 5 - Não menciono Herberto Hélder porque não o conheço tão bem como conheço os outros. Mas acho que é de incluir na lista, mudando o três para quatro.

5.3.23

Um brinde à distância

Nessa longa praia (do teu corpo) deixo-me visitar pelo tempo. "És inevitável", digo-te e tu respondes "como a morte?" e eu continuo como se não te tivesse ouvido "como o mar" "ou seja, como a vida" dizes e neste assim diálogo continuamos os dois como se nos ouvíssemos e nos tocássemos. Como se não nos amássemos, nesta longa praia dos nossos corpos enredados à distância. 

3.3.23

Despertice, ou: coisas que só uma insónia potente nos permite descobrir

Uma senhora chamada Teresa Guilherme, que é ou foi apresentadora de televisão, orgulha-se de saber muito de reality shows. Eu se percebesse pouco que fosse desse tipo de programas não o diria a ninguém. Teria vergonha. Na mesma entrevista, fala de outra senhora de quem ultimamente se tem falado muito, uma apresentadora que encontrou a virgem Maria num sapato. Nunca vi nenhuma delas e se vi foi por tempo insuficiente para me lembrar, mas prefiro marginalmente esta última. Parece-me mais esperta. Ou desperta, não sei.

Essa pele

Essa pele sedosa e branca que tantas vezes toquei e foram tantas e tão poucas, tão poucas, que hoje sinto como se fosse a minha porque já o foi, essa pele, dizia eu aqui calado de lábios colados nela, essa pele.

Vida circular

À economia circular, que me indifere, contraponho a vida circular, a minha. Infelizmente,  ao contrário do par de botas que calço nos dias de chuva ou quando vou para o campo - para alguma coisa há-de ser ir - a carcaça para nada servirá, quando se for desta. Fará fumo e cinzas ou alimentará insectos e bactérias, quando muito. Já das botas talvez alguém faça uma obra de arte, um cinzeiro, umas botas novas, uma casota para lagartixas, que sei eu?

Sei que mais vale circular ainda em vida e fazer desta uma circular, caminho de sonhos e outros corpos, carrinho de ideias, aprendizagens, leituras, "passos em volta", à volta, de volta. Carrossel de cavalos vivos, uns fogosos outros mortiços, carrossel ora avariado ora sobre-acelerado, às vezes cheio de cores outras a preto e branco. És de onde estás mas nunca ficas em de onde és. Circula, vida. Paradas ficam as botas, a albergar lagartos. Tu bebe e deixa-te beber, ama e sê amada, circula e faz-te círculo.

Passa por onde já estiveste mil vezes: a cada uma será a primeira. Começa e acaba: será a última. 

1.3.23

Diário de Bordos - Lisboa, 01-03-2023

Venho pela primeira vez a este bar. Chama-se Cockpit. Sei pelo C. M. F. que tem óptimos pregos, mas isso agora fica para próximos ventos, menos calmos. O bar aqui em baixo é pequeno, acolhedor, bonito, bem decorado. A música é demasiado lounge para o meu gosto - sobretudo vindo do Passevite, onde ela é superlativa - mas é suportável.

De repente ao meu lado rebenta uma conversa sobre futebol e a magia desmorona-se, estilhaça-se. Felizmente dura pouco e a harmonia restabelece-se. Ainda por cima o C. vem cá ter: a envolvente fecha-se.

........

- Está tudo bem ou estás desesperado? - a pergunta resume uma filosofia. Desespero é desespero e tudo o que não é desespero está bem. E ainda falta definir desespero: é quando tens a água pelo lábio inferior, os pés presos na poita, a maré a subir, as mãos amarradas atrás das costas e não podes excitar-te. Algo acontecerá, alguma coisa mudará, alguém aparecerá, o nó que te prende as mãos desatar-se-á, a Lua mudará de direcção e arrastará com ela as águas. 

Sim, R., minha querida: está tudo bem. Não estou desesperado. Estou com água pelo queixo. Está muito longe dos pulmões. Nunca lá chegará, sequer.

28.2.23

Diário de Bordos - Comboio Porto-Lisboa, 28-02-2023

No comboio de regresso a Lisboa. Ao fim e ao cabo as greves acabaram por me correr bem, apesar de dois ou três incidentes menores. O sistema de transporte de bicicletas é repugnante, os revisores são uma simpatia, o comboio está a horas, o wifi continua a não funcionar. Tudo está bem quando acaba bem e se bem não possa dizer ainda que tudo acabou, posso pelo menos dizer como o outro: até aqui tudo bem.

O olho esquerdo vai precisar de outra intervenção. Tenho a impressão de que se instalou uma espécie de competição entre ele e o médico. Uma teima, género “O mar bate no olho e quem se fode é o Luisinho”. Consolo-me sabendo que dessa vez poderei ficar mais tempo no Porto, ver os amigos, passear.

Esta do passear merece um bemol: de Campanhã para a Foz o passeio é glorioso; da Foz para a Campanhã  é-o bastante menos. A questão não sendo as subidas – não são assim tantas nem tão íngremes – nem os pisos. O pior são as as ruas estreitas, os trajectos sinuosos (e incompreensíveis, acrescentaria se quisesse arreliar os meus amigos do Porto), o trânsito que vem de todo o lado menos de onde se espera. 

Fiz duas ou três fotografias mas acho que ficaram boas. 

E é tudo. A única coisa que faz falta é avisar o sono.


ADENDA - Seria injusto não acrescentar que tanto à ida como à vinda os wifi acabaram por funcionar. Bastou um pedido aos revisores para fazerem um reset.

Diário de Bordos - Comboio Lisboa-Porto, 28-02-2023

 Mais uma viagem-relâmpago ao Porto, ver se vejo. Isto é: ver se vejo bem. Depois das operações, há dois anos, tive uns valentes meses a sentir-me no paraíso: ver como deve ser e sem óculos. Mas depois o olho esquerdo começou a ageniar e agora juntou-se-lhe o direito. Isto é uma maçada porque já nem sequer posso acusar a esquerda de só fazer merda.  

……..

Graças às greves o comboio vai cheio. Não arranjei lugar numa mesa, o wifi não funciona – excesso de utilizadores, suponho – e a palavra “seca” é  insuficiente para descrever a viagem. Dantes tinha uma definição para estar teso: não poder comprar roupa nem durante os saldos. Posso agora acrescentar outra: não poder comprar um bilhete de primeira classe nem com o desconto “velhinho”.

Vá lá que ao menos o dia está bonito. O verde e o azul conjugam-se harmoniosamente, um terço da viagem já passou, a paisagem é bonita desde que não haja casario. Mal aparecem casas tudo se estraga. Que mau gosto, o dos portugueses. Não sei como são  - ou melhor, eram – as casas na Ucrânia. Aqui bem mereceriam um tratamento igual. Sem as mortes, claro. Só destruir este casario horroso, desgracioso, cúbico, todo igual, recente, sem ponta por onde se lhe pegue excepto a ideia de que alguém chama àquilo “a minha casinha” e se sente bem ali. Opinião essa que prevale sobre a minha e deixo de pensar em bombardeios.

……..

Cada vez que vou ao Porto assim, toca-e-foge, de raspão, tenho pena de não ter tempo para ver os meus amigos portuenses, para passear pela cidade ou ir almoçar ao Buraco. Há uma correlação positiva e causal entre tempo e dinheiro, sem dúvida. Ter um é ter o outro.

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Conversa com o jovem e prestável revisor. Diz-me que não é sindicalizado: "Não posso queixar-me do salário e dar quinze ou vinte euros por mês a esses gajos", explica. Digo-lhe que a CP devia ser privatizada. "Ninguém quer isto", replica. "É tudo sucata com rodas." Pedro Nuno, não te escondas, rapaz.

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Viajo com a pele à flor da emoção (e olhos postos no futuro, já que do presente vêem pouco).

Facto notável do dia que ainda agora começa

Fui da Alameda até à rotunda do Aeroporto e não ouvi uma única  buzinadela.  Os táxis passaram-me bem ao largo (ia no meio da faixa BUS) e o ou os autocarros também.  Ninguém buzinou. Isto é suficientemente notável para ser anotado.

Será que a civilidade começa timidamente a insinuar-se nas mentes dos taxistas, motoristas de autocarros e condutores em geral ou isto foi apenas uma sequência feliz de acasos?

PS - De caminho, descobri onde me engano quando vou da gare do Oriente para o aeroporto. Aqui está um dia que começa bem.

27.2.23

Escolhas

Os americanos inventaram a slapstick comedy, a que Portugal replicou com a slapstick tragedy.

25.2.23

Diário de Bordos - Lisboa, 24-02-2023

As vanguardas ou morrem por falta de descendência ou sobrevivem e transformam-se em antecessores.

(A propósito de música letrista, trazida pelo Miguel Martins à sessão Long Play de hoje na Snob.)

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Fragmento 

- Que fazes na vida?
- Viajo. Sou nómada e contrabandista.
- E que contrabandeias?
- Às vezes levo medo para o lado de lá e trago alegria para cá. Outras, levo sonhos e trago sono. Também me acontece ouvir os cânticos da liturgia eslava, pelos monges de Chevetogne e ficar paralisado, um pé num lado o outro no outro, sem saber que levar ou trazer.