10.4.25

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 10-04-2025

O dia foi de trabalho árduo e ainda não acabou: agora falta enviar ao proprietário o resultado do inventário exaustivo (e exaustante, mas isso são contas de outro rosário). Ainda faltam a mesa de navegação e o material de segurança, que ficam para amanhã, também é dia.

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Como de costume, a felicidade tem muitos componentes. É como aqueles cabos eléctricos compostos por um feixe de cabos mais finos. Um desses cabinhos é a tripulação, uma maravilha, dois jovens nos vintes - um isaelita de vinte e quatro e uma americana de pouco mais. A americana estudou jornalismo mas está descontente com o caminho que a profissão leva e anda à procura de outra vida. A miúda é adorável, bonita e inteligente, três qualidades (das quais duas não são culpa dela, verdade seja dita, mas não estragam nada). O israelita ainda não percebi o que faz. Sei que aos vinte e quatro anos já tem cinco anos de mar na marinha de guerra de Israel e que tem exactamente as mesmas qualidades do que a rapariga, se bem uma delas me toque menos.

(É mentira. A beleza não tem sexo, estúpido.)

(Cont. - Falai no mau...)

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Encontrei finalmente uma coisa no Lagoonies que não aconselho: os nem  de porco, (Agora sim, continua.)

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandeses, 09-04-2025

A civilização ocidental afasta-se da biologia como um iceberg da calote polar? Sim e não. Sim porque se afasta, não porque o iceberg não vai desfazer-se. E também porque começou há muito tempo. Os icebergs desfazem-se mais depressa. Vem do cristianismo,  a mais anti-biologia das religiões monoteístas. Não comento sequer os milagres, como transformar a água em vinho - uma impossibilidade tal que nem os alquimistas a tentaram - andar sobre a água ou acreditar que uma pombinha na cabeça nos ensina a falar todas as línguas do universo. Nada disso. Refiro-me a coisas mais picuinhas, como acreditar que somos todos iguais, que devemos dar a outra face se alguém nos bate numa e por aí fora. Claro que o cristianismo teve vantagens e muitas. A menor das quais não foi ter feito de Deus um ente portátil. Podemos dar a volta ao mundo sem deixar de O encontrar. Mas a verdade é que os seus ensinamentos estão na base desta deriva da biologia que hoje todos vivemos. Acontece que a biologia vencerá. Por muito espaço que Deus ocupe terá sempre de se apoiar em células e troca de fluidos.

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Caraíbas: hoje bebi os primeiros ti'punch da temporada e tive a bordo o mecânico da Yanmar. Amanhã começa o trabalho a sério e continua a caça ao tripulante: já se me meteu na cabeça que vou ter um cozinheiro a bordo. Vamos a ver o que se segue. Até ver não me posso queixar, muito antes pelo contrário.

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Em St.-Martin as línguas oficiais são o francês e o holandês, as moedas oficiais o euro e o NAF - Netherlands Antillian Guilder mas toda a gente fala ou inglês ou criolo e usa o dólar americano como moeda corrente. Gosto desta a-territorialidade, deste sentimento de estar aqui como se estivesse numa nuvem um num tapete voador. Hoje fui ver a P. e o J.-B. ao Sous Marin em Marigot, beber os tais ti'punch ao Arawak, mesmo ao lado e fui jantar com a tripulante a um indiano mediano aqui perto (se se for de dinghy. De carro é um pouco mais longe e hoje aluguei um, que foi de resto o que me permitiu ir a Marigot. O dinghy já está nos turcos e não tenho muita vontade de o tirar de lá.)

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Estou outra vez a fazer o que gosto: preparar um barco, mais ou menos a mesma coisa do que fazer a corte a uma mulher, esperando que ele me retribua com uma viagem sem problemas. Ou ela com uma vida sem eles, duas coisas que não andam assim tão longe uma da outra como se poderia pensar,

9.4.25

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, 08-04-2025

Estou no Lagoonies. Já bebi um rhum punch (dois, na verdade.  Um à tarde outro agora, enquanto espero o jantar, que vai ser um hambúrguer). O barco está a cinco minutos daqui, se for a pé. De dinghy está a um minuto. É um Lagoon 40 e tem um nome adorável, tanto que lho escarrapacho aqui: MADRIGAL VI. A música está demasiado alta, eu demasiado cansado e - porque não? - demasiado encantado com esta traversia. Vamos ser cinco, um dos quais chef (já não há cozinheiros. Pergunto-me o que fazem as sociedades de protecção dos animais a respeito de tão nefasta extinção de tão  importante e tão necessária espécie). O bote parece estar em condições. Amanhã vão mudar o trocador de calor de um dos motores. Não perguntem, não tenho pormenores. Acho esquisito mudarem só um, mas enfim, amanhã saberei mais. A tripulação - ou pelo menos a parte dela que conheci hoje - é porreira. Uma miúda americana gira e jovem (isto cada vez mais me parece um pleonasmo, não sei porquê. Deve ser da idade) e um gajo daqui, profissional e sério. Faltam dois. Um chega amanhã,  o outro para a semana. Com um pouco de sorte ainda terei um ou dois dias de férias.


8.4.25

Envelhecer bem

Vou dizer-lhe a verdade, meu caro. Estou a envelhecer. Todos estamos, dir-me-á. Sim, mas não à mesma velocidade. Isto é, não estamos todos no mesmo ponto do envelhecimento. Sabe as montanhas russas, aquelas subidas começam devagarinho, com um ângulo pequeno e depois tornam-se cada vez mais íngremes? Sim, a velhice para mim é uma subida, não uma descida. Melhoramos com a idade, passe-me por favor o chavão. Claro que se atentarmos aos pormenores poderíamos pensar que não, que a velhice é uma decadência, uma degenerescência. Ele é a força física cada vez menor, a farmácia cada vez maior. Pormenores, meu caro. Pormenores. Prestamos cada vez menos atenção aos detalhes e fixamo-nos na imagem geral. A limpidez da imagem aumenta, claro. Já viu? Picuinhices para que vos quero? Vejo menos, oiço menos: quem é que quer ver tudo? Só um tarado. Ou ouvir, é a mesma coisa. Só os loucos e os jovens acreditam na importância de um pentelho, passe-me o pleonasmo e a expressão, por favor. Nós, velhos, não nos preocupamos com pelinhos, venham eles de onde vierem. Nem com o sítio de onde vêm, de resto. A minha farmácia está cada vez maior, é certo, já estive em metade dos hospitais da cidade. Não somos feitos para envelhecer: tudo o que vem depois dos cinquenta anos é um bónus, dizem os biólogos. No meu caso, vivi até aos cinquenta e cinco, sessenta anos. Depois disso o carrinho começou a subir e eu nele, agarrado para não cair, a olhar para cima, para o céu. Envelhecer é isso: ver o céu cada vez mais perto e os pentelhos cada vez mais longe. Envelhecer bem é perceber a imensa sorte que isso representa, meu caro.

7.4.25

Diário de Bordos - Comboio Caminha - Lisboa, Portugal, 07-04-2025

O comboio saiu da Campanhã exactamente a horas, à tabela, como dantes se dizia. Vamos ver quanto atrasa no caminho? Nem por isso. Que se lixe o potencial atraso - que até Coimbra é de zero minutos, acrescento. Não preciso de correr à chegada a Lisboa: tenho tempo, demasiado tempo. O avião é às cinco da manhã. O plano é refugiar-me num bar até às duas, hora a que aquilo fecha e só depois ir para a Portela, ver se me lembro de todos os aeroportos aonde já dormi - acrescentando as estações de comboios, já agora. Foram muitas e se tudo correr bem esta não será a última (se tudo correr muito bem sim, mas é pouco provável).

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Posso pelo menos esperar um excelente sono nos aviões, se não tiver que me chatear com o serviço de apoio ao cliente da KLM. Uma hora de espera, com música que faria uma cantora chamada Ágata passar pela Angélique Ionatos se se pudesse chamar música àquilo. Enfim, entre telefone e blogue o tempo passa depressa - cada palavra devendo ser escrita pelo menos três vezes, graças ao maravilhoso rodado oval destes comboios. 

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Daqui lanço mais uma vez um apelo à CP: façam carruagens sem telefonemas, já que os pais destes senhores não os ensinaram a não chatear os outros com os seus assuntos pessoais, profissionais, afectivos ou de simples entertenimento. Conseguem interromper uma viagem agradável com insuportáveis momentos de calvário.

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Parece-me importante referir que chegámos a Lisboa Oriente «no horário previsto». É pouco provável que até Sta. Apolónia haja um atraso significativo. Deve tomar-se nota destas ocorrências, que são raras.

5.4.25

Inferno, chamas

Sem ela a vida é um inferno sem chamas. Com ela, as chamas aparecem e desaparece o inferno.

4.4.25

Diário de Bordos - Caminha, Alto Minho, Portugal, 04-04-2025

O dia começou com uma seca de duas horas a ouvir gente falar da «economia azul», discurso que conheço vai para mais de vinte anos. Admiro a capacidade dos políticos portugueses falarem, falarem, falarem (o Asterix dizia «falazarem») e ninguém os confrontar com o que (não) fazem, (não) fazem, (não) fazem. Nem fazem nem deixam fazer, dupla incapacidade, duplo espanto, duplo desgosto, duplo esgoto.

Continuou bem: um grande almoço no Maria Perre (ou coisa que o valha) em Viana do Castelo e uma tarde na Centésima Página, em Braga, uma livraria que é como todas deviam ser e algumas são: ponto de confluência de muitas artes, muitos saberes.

Ou seja: um dia a fingir que sou rico, depois destes meses todos a fingir que sou pobre.

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Está uma frente a passar, não pára de chover, refugio-me na livraria.

- Refugias-te de quê?
- Do tempo e dos ruídos do tempo e do mundo.
- A livraria é um mundo.
- A livraria é um oásis, não é o mundo.

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Hoje Caminha caíu-me em cima. Caíu a ficha, como eles dizem. Lembrei-me da canção do Cohen:
«I've seen the future.
It's murder.»

Tenho sorte: há um oásis em Caminha e não é uma livraria.

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- Tenho problemas gravíssimos. Inexplicáveis. Não diga a ninguém, por favor. Por exemplo: não vejo nada. Já nem um par de mamas consigo ver sem o apalpar. As mulheres queixam-se, reclamam, algumas até chamam a polícia. Só me resta beber. É daí que vem o «inúmeros»: são muitos copos, todos os dias, todas as noites. Porém, verdade seja dita: beber não é um problema. Não ver é. Não ouvir também. Não oiço nada. Nunca ouvi, para dizer a verdade, mas antes escolhia o que não ouvia. Hoje não. Tudo me escapa. Não vejo, não oiço e pouco falo. Toco. Mamas na rua, livros que não consigo ler na livraria, discos que só aos berros me dizem porque os oiço. Não diga a ninguém por favor: as pessoas não gostam de reclusos, de eremitas internos. Não sabe o que é um eremita interno? É alguém que se encerrou um dia no seu próprio corpo ou que o seu próprio corpo encerrou um dia. A literatura está cheia de exemplos, a música também. E o cinema. O teatro. Só a escultura escapa a esta maldição: ninguém acredita que dentro da estátua de mármore ou de bronze há um corpo vivo. Um corpo, vivo ou morto. Por isso me refugio no álcool. Enfim, refugiar não é a palavra certa. V. compreende, não é? Antes fujo, a cavalo no vinho. A cavalo na música. A cavalo na noite, esta noite, deserta como um inferno sem chamas. Lembra-se do Celan:

«Senhor, estamos perto,
perto e ao alcance.

Já alcançados, Senhor,
agarrados um ao outro, como se
o corpo de cada um de nós
fosse o teu corpo, Senhor.

Reza, Senhor,
reza-nos, 
estamos perto.

Afastámo-nos com o destino do vento,
afastámo-nos para nos inclinar
nas grutas e nas crateras.

Fomos beber, senhor.

Era sangue, era
o que derramaste, Senhor.

Brilhava.

Lançava a tua imagem para os nossos olhos, Senhor.
Olhos e boca estão abertos, Senhor.
Bebemos, Senhor.
O sangue e a imagem que estava no sangue, Senhor.

Reza, Senhor.
Estamos perto.»

Não diga a ninguém. Vou confessar-lhe qualquer coisa que nem a Deus disse: só gosto dos poetas na última fase das suas vidas. Enfim, há excepções: Herberto Helder, por exemplo. São poucas. Os poetas aprendem a escrever e nós a lê-los. É uma aprendizagem mútua, por assim dizer. Pense em Tamen, em Júdice. A vida é um imenso alambique e as últimas gotas destiladas são as melhores. Já o Outro o dizia: «Os últimos são os primeiros.» Há que aprender a viver devagar, morrer devagar, olhar devagar, tocar, ouvir. Chorar. Sobretudo chorar devagar. Com vagar. Ler. Escrever. Amar. Morrer. Devagar.

3.4.25

A monte

Ando a monte. Fujo da vida como se não houvesse morte.

Portanto

Se ela fosse a minha noite dormiria todas as noites com ela, nela. Mas não é. Nem minha, nem noite. É o dia resplandecente, o sol que o ilumina, esse dia tão luminoso quanto eu sou a escuridão. 

(Dia sem noite, portanto.)

O campo e os comboios

Viver no campo tem as suas vantagens, mas eu aconselho quem não tem nem quer ter carro a pensar duas vezes. O transporte ferroviário no nosso país é ligeiramente melhor do que o do Benin e talvez do que o da Gâmbia, mas está longe de ser satisfatório para quem acredita estar na Europa. 

Nunca mais me queixarei da "pontualidade" da CP, juro (aspas porque é irónico). Estar num comboio já é um bambúrrio.

Isto dito: sempre é melhor do que Mértola, que nem comboios tem.

Peregrinações

Não me importaria nada de fazer o "caminho de Santiago" (aspas porque cito) mas de avião. Ou de comboio, vá. A pé, de bicicleta, a cavalo num burro ou só a cavalo, de trotineta,  patins, de carro ou de mota dispenso, obrigado.

Apetece-me dizer o que o meu Pai dizia à minha Mãe quando a ia deixar à igreja para a missa semanal: "Reza por mim, mulher, que eu estou velho". Depois ia para o Refeba, ali ao lado, rezar a outros deuses e juntar-se a outros peregrinos.

2.4.25

À distância

Sempre vivi à distância de tudo e de todos. Até de mim.

Isto dito, amo-te

Não há expressão que tão bem demonstre a insuficiência da linguagem como "Isto dito".

Isto dito nada está dito, tudo está por dizer, falta dizer qualquer coisa, é preciso esclarecer o que antes ficou obscuro.

Isto dito: a linguagem é uma permanente morte na praia. Nada nada nada e morre à chegada. Não tem salvação. 

Isto dito: o que acabei de dizer não é mentira, é só insuficiente. 

Isto dito: há palavras a que não se pode acrescentar nada, que não aceitam clarificações nem complementos.

Por exemplo: amo-te.

Dormir, venenos

Toda a gente quer dormir mas quando se lhe propõe dormir para sempre, aí já ninguém quer. Ou muito poucos, vá lá. Ora se dormir fosse bom, dormir para sempre seria melhor, ou não?

Não sei. Talvez não. Talvez dormir seja bom exactamente por não ser para sempre. É como os venenos, que dependem da dose. Se esta for pequena são um medicamento e só se tornam venenosos se a dose aumentar. 

É como tudo, na verdade: não há nada que não  beneficie de comedimento, de matizes. Até as vitórias precisam de derrotas intercaladas para não se julgarem eternas.

1.4.25

Dispersas diversas

Dispenso o uso de bloco-notas, gravador ou o que quer que seja para anotar ideias.
É uma das vantagens de ter apenas uma ideia por dia.
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Dizem que sou gozão. Nada mais longe da verdade. Sou sarcástico, o que é diferente.
Ao contrário da troça, o sarcasmo é um elogio à inteligência de quem ouve.
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Em Portugal envia-se um e-mail a alguém e a resposta demora dias ou semanas a chegar. Faz-se a mesma coisa para lá dos Pirinéus e a resposta é imediata, chega no mesmo dia ou no seguinte. A explicação fornecida habitualmente pelos destinatários portugueses é a carga de trabalho. Estamos todos assoberbados de trabalho.

Já "lá fora" ninguém faz nada. Deve ser por isso que nós somos ricos e eles uns tesos.

31.3.25

Aprender a ler

 É isso: aprender a ler. Preciso de aprender a ler. Resta saber o quê,  que letras, que alfabeto. Conheço o das estrelas, o das nuvens, o das vagas do mar que me trazem notícias de onde vem o vento, qualquer que ele seja.  Conheço o alfabeto do teu corpo, de A a Z e de volta a A. Sei ler o Sol - ou melhor, as sombras que ele deixa, porque a luz cega. Não é ela que vemos, é aquilo que ela deixa ou quer que vejamos. Velhaca, a luz. Sei ler o tempo - não o dos relógios mas o outro, o que não se vê nem se ouve e se dá apenas a quem sabe que ele existe. Esse tempo que vejo no teu sorriso, na tua pele, esse tempo que nos leva aos princípios e aos confins e nos ensina que vai e vem, ir e vir são irmãos siameses. Andam sempre juntos, não vai um sem vir o outro. 

Sei ler a vida. Só me falta aprender a ler a morte.

30.3.25

Diário de Bordos - Caminha, Alto Minho, Portugal, 31-03-2025

O peixe chama-se negrão (aparentemente é uma taínha) e está muito bem grelhado apesar de ser escalado, a praia Moledo, o restaurante Palma, o vinho branco é excelente, estou sozinho mas não estou só, hoje de manhã trabalhei para  a minha nova casa - arrumei a escrevaninha que recebi da minha Mãe aos catorze anos - e para a tarde tenho o trabalho pensado e planeado; só falta escrevê-lo. Está calor - tive de arregaçar as mangas, no sentido literal. Se a vida fosse só e sempre assim ninguém compreenderia a origem das depressões. Infelizmente não é.

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Tenho imensa pena das pessoas que têm de ver televisão por motivos profissionais e não tenho nenhuma de quem a vê por querer. É que não são apenas os conteúdos  - anúncios de produtos que não interessam pensados e executados por e para cérebros digamos limitados, notícias que se prolongam por horas e horas e são todas iguais por muito zapping que se faça - a insistência na radio trottoir também conhecida por rádio-mentecapto. É na forma também. Hoje, por exemplo, ouvi um locutor - um profissional, note-se, não um transeunte - dizer que um determinado período na vida de uma senhora qualquer tinha sido muito desafiante. Bolas! Desafiante? Vai dar de comer aos papagaios, pá. Difícil, penoso, laborioso, angustiante, aflitivo  e muitos mais não te chegam?

(Não quer dizer que me considere melhor do que os outros. Antes pelo contrário, considero-me pior do que a média. É por isso que identifico a má qualidade do medium: conheço-me e sei o que é mau. Há um programa e só um que me parece decente. Infelizmente é na televisão francesa. Chama-se La grande librairie, é o digno herdeiro do Apostrophes e eu não sei como vê-lo quando estou em Portugal.)

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Esta é aproximadamente a vigésima quinta mudança em menos de cinco anos. A próxima vai ser para um sítio muito quente, decorado com cruzes, fitas pretas e cheio de amigos a chorar.

Ou a rir e bater palmas, vá lá saber-se.

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Março dura sempre menos tempo do que Fevereiro. Deve ser por causa das alterações climáticas.

Ou do neoliberalismo, como sábia e aparentemente invocou  o Boaventura para justificar a forma como tratava as mulheres.

("Aparentemente" é força de expressão. Não o ouvi mas já li duas pessoas que o mencionaram.)

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O estúpido do Trump, a continuar assim, não vai conseguir fazer aquilo que se propôs fazer.

O que de maneira geral é pena.

26.3.25

Solidão, solidões

Não gosto nada da solidão mas aprecio muito estar só.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 26-03-2025

Como toda a gente que faz o que eu faço, viajo muito de avião; como toda a gente que tem a família num país diferente daquele - ou daqueles - aonde vive e trabalha. Passo a vida em aviões e desenvolvi uma razoável aversão a tudo oq ue está com eles relacionado, logo desde a porta dos aeroportos. Durante muitos anos arranjava-me para chegar à última da hora, muitas vezes só não perdendo o bicho devido a correrias insensatas, a ultrapassagens em filas. Cheguei a telefonar para um check in, em Londres, a pedir-lhes para não o fechar que estava a caminho. A senhora ficou tão siderada que esperou por mim. Se bem me lembro, o avião não saiu atrasado e se saiu foi pouco. Esse tempo acabou. Agora é muito mais frequente chegar demasiado cedo ao aeroporto, como hoje. Ainda por cima, estando de maré baixa não posso beneficiar dos magníficos produtos a preços magníficos que o aeroporto de Genebra propõe aos passageiros com tempo - e dinheiro, claro. De maneira faço aquilo que faço sempre, qualquer que esteja o estado da maré: observo os companheiros de (para mim) infortúnio, tento identificar as línguas que oiço (cada vez menos...) e escrevo meia dúzia de linhas de disparates, sempre alivia a pressão. 

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Saio de Genebra como sempre: meio melancólico, meio feliz, meio indeciso sobre qual dos dois estados preferir. S. estando a maior parte do tempo fora em trabalho passo muito tempo sozinho, o que é uma benção; dou longos passeios por estas ruas simultaneamente conhecidas e novas; vejo amigos (poucos, mas dos mais queridos); faço fondue de queijo, um ritual que nem no Verão dispenso (isto discute-se. S. nem sempre está de acordo...); e agora - desde que os tenho - mormente, vejo os netos. Insuficientemente porque não moram em Genebra, mas vejo-os e estou com eles. São uma espécie de extensão do prazo de pagamento de uma dívida e tento aproveitá-la ao máximo.

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No salão do livro contactei uma revista de viagens que paga os artigos. Se pagar a tradução vale a pena; se não pagar, não vale. Ou então recomeço a escrever directamente em francês, perspectiva que não me atrai muito porque esta língua é tão bonita quanto maldita de ecrever.

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Ir ao supermercado aqui é uma dupla dor d'alma: os produtos "bio" (aspas porque cito) invadiram tudo. Como se os preços não fossem suficientemente dementes com os não-bio.

24.3.25

Incapacidade

Sou livre por absoluta incapacidade de o não ser e isso paga-se caro. É um handicapp, um defeito de fabrico.

23.3.25

Adormecer, a ponte do sono nascente

Para adormecer, F. põe-se de sentinela numa das extremidades da ponte que o liga à noite. É por ela que o sono chega. A vigília é sui generis: consiste em relaxar todos os músculos do corpo, um a um. Tarefa a que F. se dedica com a aplicação que põe em tudo o que faz. Começa por fechar os olhos, deitar-se de lado, cruzar os braços e pôr as mãos nos ombros - a direita no esquerdo e a esquerda no direito - encolher as pernas, bem dobradas, como se quisesse levar os joelhos ao queixo, respirar fundo durante pelo menos um minuto e depois distender-se lenta mas completamente. O sono chega pela tal ponte - a ponte do sono nascente, como ele lhe chama - umas vezes ruidosamente, outras muito de mansinho. 

Os obstáculos ao avanço do sono são dois: palavras e números. Nunca andam juntos, deo gratias. E não atacam todo as noites. Só algumas, aquelas em que a ponte fica mais longa.

(Cont.)

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 23-03-2025

A primeira surpresa do dia foi no autocarro para o salão do livro: ia cheio a deitar por fora. Domingo, nove da manhã. A segunda foi já no salão propriamente dito: no bengaleiro não paguei nada, porque "sou escritor" (aspas porque me cito). Ou seja: poupei nove francos, pouco mais de a nesma coisa em euros. Ainda há quem diga que ser escritor não compensa financeiramente. 

Do salão não guardo muitas recordações: meia dúzia de cartões de visita, uma reunião amanhã (para as fotografias). Não incluo nesta ausência, nesta dúvida, nesta ambivalência os momentos que passei com a minha filha, inapagáveis manifestações da alquimia genética. 

Nem o facto de me ter deixado enganar por um vendedor e ter comprado um livro que é uma merda - si tant est qu'il y a des bouquins merdiques, chose que je sais très bien n'existe pas. É simplesmente um livro de que não gosto. Tenho uma desculpa: fala do Burundi e do Ruanda; duas: o vendedor era de uma eficácia redoutable; três: a L. também o queria. Combinámos que o leria e lho passaria. Comecei a folheá-lo no autocarro de volta para casa e lamentei imediata e amargamente a compra. O que me pôs perante um dilema paterno-interessante: dou-lhe aquela porra ou empresto-lha, somente? Opto por emprestar-lha, somente. Por um lado não dou coisas de que não gosto e por outro pode ser que dali saque qualquer informação interessante. 

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Hoje à noite há fondue de queijo. Vem cá a G. Já bebi um kirsch, para ir preparando o estômago. 

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Amanhã: reunião na Vent des Routes, ver se querem vender as caixas de fotografias.

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Agora; sesta, ver se estes passeios  interiores me servem para alguma coisa. 

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(Cont.)

22.3.25

Sistemas

F. procurava palavras como um gato ratos e elas fugiam-lhe como ratos do gato. Às tantas imaginou uma linha que não o era porque tinha três dimensões, enrodilhada sobre si própria. Apesar de ser caótica imprimiu-lhe um movimento turbilionário e esperou. As palavras, curiosas como são, começaram a entrar, mas devagar. F. pensou que lhes devia alterar a viscosidade a fim de aumentar a fluidez daquele circuito. Contudo, a força centrífuga atirava-as para as paredes do túnel e o débito do sistema era baixo. Um pouco de vibração fazia visivelmente falta. Como, porém, introduzir vibração num dispositivo giratório? Como vencer a força giroscópica? F. decidiu parar o movimento giratório, introduzir pedras mais leves no tubo, agitá-lo caótica e aleatóriamente ("para qualquer coisa um pleonasmo servirá", pensou).

Conseguiu. Do outro lado, pouco a pouco, começaram a aparecer vocábulos. Primeiro monossílabos; depois, progressivamente, o número de sílabas comecou a crescer, à medida que o peso das palavras metidas no tubo ia aumentando. 

Baptizou o mecanismo com o nome de Sistema digestivo para palavras, patenteou-o e ganhou uma fortuna. No escritório das patentes o funcionário estava reticente. Coçava a cabeça, que tinha redonda e guedelhuda e perguntava: "mas para que é que isto serve?"

Pacientemente, F. explicou-lhe que servia para produzir a mesma coisa do que o outro sistema digestivo mas com matéria prima diferente. 

Falares, gravatas e outros rigores

Por onde começar a analogia - escolher as palavras como se escolhem as gravatas ou estas como aquelas? Talvez não haja um princípio. Talvez isto esteja tudo ligado, redondo, «inteiro» como dizia o outro e se deva escolher do mesmo modo gravatas, palavras, cafés, livros, vinhos, uma rota - e não continuo a enumeração por pudor. Talvez se possa ir mais longe e escolher os dias, a Lua, o vento com o cuidado e o rigor que se põe na escolha de uma gravata, na elaboração do nó de maneira a que a extremidade fique no sítio certo, o pescoço respire e possa voltar-se (discretamente, muito discretamente) para observar um pormenor que passa fugaz no sentido oposto. Talvez o rigor se aplique tanto ao trabalho que a sorte dá como ao esforço que o azar requer, são de igual intensidade; ou à escolha de uma tecla no piano em detrimento da do lado, à selecção de um olhar em vez de outro - porque o olhar é mais importante do que os olhos que olham e deve escolher-se o olhar de que somos alvo tal como escolhemos o poema que queremos ler, dizer ou ouvir. 

Talvez no fundo a arte seja viver engravatado sem ser engravatado. Sem, sequer, ter uma gravata.

O vento, os caminhos

No inverno - e em muitos dias da Primavera e do Outono - a luz de Genebra é muito branca, parece diluída em clara de ovo. Isto deve-se às nuvens altas. Estão sempre por cima da cidade, como se a quisessem proteger de qualquer coisa demasiado violenta, sabe-se lá o quê. Do Sol não é de certeza, estamos a quarenta e seis graus de latitude. Um grau mais do que o meio caminho entre o Equador e o pólo. Quando aqui vivia achava isto desesperante. Agora, que venho cá de passagem, de visita, gosto. Tudo fica suave, arredondado, como se não houvesse ângulos agudos ou arestas na geometria da cidade. As formas e as sombras diluem-se e agora, Primavera, as árvores ainda nuas contrastam com as cores garridas das ubíquas flores. Ando muito a pé, como se fosse um turista e vejo melhor os contrastes, as construções modernas, regra geral feias lado a lado com as antigas, lindas, maciças e imponentes, de janelas enormes para deixar entrar essa tal luz.  Dentro desses apartamentos tudo é suave também, tudo é fluido, regular, ordenado, sem arestas. (Não é, mas isto é literatura e não sociologia, antropologia ou outra logia. É assim que vejo a cidade e lhe oiço a ausência de ruídos). Na verdade agora buzina-se mais do que há vinte anos mas os automóveis eléctricos, as bicicletas e as trotinetas - omnipresentes, como as flores - absorveram a diferença. Não há muita gente nas ruas. Ou trabalham ou estão em casa. Nos cafés só reformados, com a óbvia e natural excepção das ruas perto da universidade. Penso no que a cidade mudou, no que eu mudei e apercebo-me com espanto que essas duas mudanças nos aproximaram em vez de nos afastar.

A ausência de arestas - visíveis - tem efeitos nas pessoas, consequências que por sua vez a causam. Este movimento circular, harmonioso, atraente, quase uma vertigem, é magnético, faz-me sentir como se estivesse a cair no poço da Alice. 

Fui à livraria de viagens. Chama-se Le Vent des Routes. O nome é adequado a um marinheiro que sempre andou com, pelo ou contra o vento.

21.3.25

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 21-03-2025

O sistema de saúde suiço está doente, praticamente desde pouco depois de o actual modelo ter sido posto em prática. É bastante instrutivo e bem podia ser usado como ilustração daquele velho provérbio segundo o qual de boas intenções está o inferno cheio. Quem quiser ter uma ideia do que se passou e falar francês (ou souber como usar tradutores em linha), pode ir aqui. Resumindo muito: após uma série de referendos e iniciativas populares, projectos e contra-projectos todos recusados pelo «soberano» (designação local para povo), em 1994 a actual lei é aceite, por uma curta maioria (51,8%). Os debates até chegar aqui foram - como sempre, mas mais do que o habitual - acesos e muitos. O povo suiço tem uma saudável desconfiança de tudo o que lhe cheira a poder central e foi preciso toda a habilidade política de uma senhora chamada Ruth Dreifuss, socialista (cela va sans dire) que o projecto passou a rampa (o cerne aqui sendo que o seguro de saúde passaria a ser obrigatório e não voluntário como até ali. Enfim, parcialmente voluntário. O seguro contra acidentes já era obrigatório). Para dourar a pílula, passem-me por favor o galicismo, a senhora Dreifuss imaginou um sistema no qual os seguros teriam duas componentes. Uma, a de base, incluiria um mínimo de prestações, as mais usuais e frequentes. Quem quisesse mais  teria de subscrever uma apólice «complementar» (aspas porque cito). Nos primeiros anos o seguro de «base» aguentou-se como tinha sido lançado; mas dai a um político a ponta de um dedo e em menos de um fósforo ele ter-vos-á comido o braço. E o que os opositores do projecto tinham previsto aconteceu: não se passava um ano que o governo não incluísse mais coisas no seguro de base. E que faziam as companhias de seguros? Aumentavam os prémios, está bem de ver. O que ninguém previu foi o estado catastrófico, monstruoso, a que isto chegou. O seguro de saúde é hoje um dos principais centros de custo para os suíços e é enorme, desmesurado. 

Ainda por cima, como é próprio dos políticos, não aprenderam, Agora andam a esbracejar para ver se conseguem baixar o preço das apólices mas em vez de decidirem acabar com a porcaria do seguro-base e deixar cada seguradora decidir o que inclui na apólice, que fazem? Aumentam a franquia mínima. Não reduzem o custo, mas reduzem »a progressão de custos».

Se fossem dar uma volta ao bilhar grande também a reduziriam e muito mais depressa.

Nota bene - a democracia directa tem pelo menos uma vantagem: os suíços têm o que quiserem ter, mesmo que a maioria tenha sido curta. Não houve cá martas temido a impor fosse o que fosse.

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Ontem lá consegui ler qualquer coisa, conjunção feliz de vários factores: estava muito sol, o livro tem as letras grandes e o autor é Umberto Eco. Chama-se Reconnaître le fascisme (na tradução francesa. O Original é Ur-fascismo, creio mas não tenho a certeza).

Eco afirma que o fascismo, contariamente a outras ideologias totalitárias, não tem um corpus teórico específico e criou o conceito de ur-fascismo, uma espécie de englobante com catorze características que, segundo ele, ajudam a reconbecer os traços de fascismo numa ideologia. Para que uma ideologia seja fascista não é preciso que os tenha todos. Basta aliás um qualquer para que o fascismo se possa sedimentar a partir daí. 

Esses catorze pontos são:
- Culto da tradição;
- Conservatismo aliado à rejeição do moderno, dissimulado sob o manto do capitalismo. Rejeita-se o capitalismo e tudo o que se seguiu à revolução francesa, à independência dos Estados Unidos. A «depravação» do mundo moderno começou com o Renascimento;
- O culto da acção pela acção. Os homens não pensam, agem;
- Rejeição do pensamento crítico;
- Rejeição da diversidade;
- Exploração da frustração (sobretudo das classes médias);
- Obsessão com o complot. O fascismo precisa de um inimigo exterior, internacional;
-  Obsessão com a riqueza e a força do «inimigo»;
- A vida é uma guerra permanente. Uma vez vencidos todos os «inimigos» virá um período da paz, uma nova idade de ouro;
- O elitismo. Cada cidadão pertence ao melhor povo do mundo - mas precisa de quem o guie e governe;
- O culto do heroísmo;
- O controle das mulheres. O homem verdadeiro é machista. Um homosexual não é um homem a sério;
- O povo é uma entidade coesa e tem uma vontade comum. Não há lugar para vontades próprias;
- O empobrecimento da língua, que é simplificada e controlada.
(Para escrever esta lista fui aqui.)

Como Umberto Eco diz, estes pontos são partilhados por muitas ideologias ditatoriais e os meus amigos reconhecerão decerto pelo menos uma delas.

O livro foi escrito a partir de um discurso na Universidade de Columbia a 25 de Abril de 1995. Sugiro fortemente a sua leitura. 

Umberto Eco, Reconnaître le fascisme, ed. Grasset, col. Les cahiers rouges, Paris 2024

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Hoje esteve menos frio do que ontem e ontem menos do que anteontem. Amanhã a máxima estará outra vez nos dezassete graus, mas a partir de domingo baixa de novo. A prima vera é instável, coitada. Tem súbitas e enormes variações de humor.

Espera, desnorte e outros diabos

Está desorientado quem não sabe aonde está ou para onde ir; e desnorteado quem não sabe o que fazer. Desocidentado não existe e desolado não é sequer para aqui chamado. Ou seja: certos e seguros só o sul e o ocidente - o que explica, sem dúvida, a velha expressão "vai para oeste, jovem" tão usada no cinema, na música e na má literatura. F. não estava nem desorientado nem desnorteado. Estava desesperado, mas a espera não sendo um ponto cardeal de nada lhe servia tentar encontrar soluções para esse doloroso estado. A menos, claro, que dissolvesse a angústia em água, sempre seria uma solução. F. pensava nisso seriamente.  Estava farto do café, vinho e sumo de  kiwi em que dissolvia os estados de profunda prostração que regularmente o submergiam. "Água", pensou, "é a solução. Resta saber se lisa se gasosa."

Dilema esse que não resolveu. O simples facto de ter de fazer uma escolha magoava-o. Passara a viver num café aberto vinte e quatro horas por dia, todos os dias. A cada meia hora consumia uma água, alternadamente com e sem gás. Pagava-as mal chegavam à mesa, para não dar pretextos de expulsão ao dono e aos empregados. Quand dormia, os empregados deixavam-lhe as águas na mesa. Pagava-as quando acordava.

Um dia acordou. Bastar-lhe-ia encontrar um norte e o caminho para lá chegar e deixaria de estar desesperado, apesar de continuar sem saber aonde fica a espera.

Ninguém sabe, excepto o Diabo.

20.3.25

Palavras, actos

"Só as palavras contam. O resto é conversa."

(Ionesco, citado por Umberto Eco in Reconnaître le facisme", ed. Grasset.)

Às vezes. Em geral, entre as palavras e os actos continuo a preferir estes àquelas.

19.3.25

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 19-03-2025

Ontem... (Não tenho a certeza de que um diário que começa por «ontem» seja de fiar. Não faz mal. Fica.)

Ontem fui passear. Trajecto habitual: casa - mercado de Plainpalais - casa por um caminho diferente. Para ir fui pelos Bastions, para regressar pela Rue de Carouge. É uma rua que salvas as devidas proporções - são muitas - e com um bocadinho de imaginação (grande) podia passar pela Almirante Reis de Genebra. Não é. Falta-lhe muita coisa e tem outras a mais, mas é o que me faz lembrar. Uma Almirante Reis mais pequena, mais limpa e mais civilizada, mas igualmente a ferver de vida. Fui aos Recyclables beber um copo de vinho tinto. Les Recyclables é uma livraria-café que começou por ser uma livraria de livros em segunda mão à qual se juntou um pequeno café. Hoje é um café que até pratos do dia serve com uma livraria ao lado. A livraria não é nada pequena, note-se. Continua a ter uma vastíssima escolha de livros, todos em bom estado e a preços «acessíveis» (aspas porque é irónico. Preços acessíveis em Genebra é o perfeito exemplo de oxímoro, se por acaso alguém precisar). Bebi um copo de vinho, comprei um postal e paguei mais do que teria pago por uma garrafa de qualidade média-baixa no supermercado.

Mas beber vinho em casa tem muito menos piada do que estar sentado num café a ouvir um bom jazz e a escrever um postal, não tem? Tem.

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À noite o L. e o S. vieram jantar. Com o primeiro tenho mantido algum contacto; já o S. não o via há quarenta anos, mais semestre menos semestre. É arquitecto naval. Foi uma soirée boa, a falar de barcos com quem sabe. O L. fez duas Whitbread, o S. tem um clássico de 1918  (em Veneza, que para meu grande espanto é um sítio barato para ter embarcações). Não falámos do passado - só de barcos e das derivas woke (pouco) e bebemos correctamente. Quando anunciaram que se iam embora não os retive. Envelhecer é isto e é bom. S. confirmou sem entrarmos em muitos pormenores o que eu fiz no P., coisa que depois da recente reunião com a dona do barco me alegrou bastante.

(Pequena nota à parte: quando mencionei o P., S. disse imediatamente: «O do Hugh Welbourn?» A pena que eu tenho das mãos em que aquele barco está. Enfim, das mãos não tenho pena nenhuma. Tenho do bote, que não as merece.)

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Falta uma referência ao Lindor, um chocolate da Lindt que continua a ser, para mim,  melhor chocolate de leite de sempre e para sempre; e outra aos TPG, os transportes públivos de Genebra, que tive a sorte de conhecer por dentro por lá ter trabalhado seis meses (no escritório, não nos autocarros). Genebra quis acabar com o excesso de circulação automóvel na cidade e para isso percebeu que tinha de melhorar os transportes públicos. 

Para quem não sabe o que é a excelência e quer saber, a solução é simples: faça uma viagem pela cidade utilizando os transportes à disposição: autocarros, eléctricos e barcos. Cereja em cima do bolo: são mais baratos do que em Lisboa, em PPP.

16.3.25

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 16-03-2025

Hoje ouvi um disco chamado Schubert: The Last Quartets pelo Quatuor Aviv. Como é que de Schubert só conseguia ouvir os Impromptus, tocados pela divina Maria João Pires e não gostava de tudo o resto? A resposta é fácil, claro: os anos servem para nos fazer descobrir o imbecil que em nós vivia. Camadas geológicas de estupidez e ignorância (por muito que se advogue que convém não as misturar, estas duas andam por vezes juntas). Descobrir no sentido de destapar, pôr à vista. Envelhecer é isso e é bom. 

Resta saber, claro, se essas camadas de ignorância não são simplesmente substituídas por outras, que só quando já só os vermes tiverem uma palavra a dizer serão descobertas. "Cuidado com o fígado", diz um. "É puro veneno". "O coração não está melhor", diz outro. "Com o cérebro não há problema", acalma um terceiro. "Está vazio. Não sabe a nada".

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Reflexões agradáveis hoje no trajecto para casa da filha. Começámos por ouvir o disco de Alcides, quanto a mim o melhor disco de música cabo-verdiana de sempre. Mas o dia convidava a outra coisa - o Alcides já vinha de ontem e já fora ouvido pelo menos duas vezes -, a S. tirou este Quatuor Aviv do sítio aonde guarda os CD e eu fiz a substituição. 

Que maravilha! O troço de planície entre Genebra e Gland é bonito - a Suíça é o país mais consistentemente bonito que conheço, não tem lugares feios. Só tem beleza em diversos graus - e o génio de Schubert  encaixa na paisagem, no cinzento do céu, na expectativa da raclette (que excedeu todas as expectativas), na antecipação do prazer de reencontrar a família, hoje com o tempo para nos encontrarmos que ontem nos faltou.

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R. E. enviou-me uma mensagem. Vai precisar de mim em Abril. Vou finalmente conhecer o país basco.

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S. vai estar fora a semana quase toda. Vou contactar dois ou três amigos, fazer tudo o que tenho para fazer - é muito - e passear. 

Por Genebra e por mim.

15.3.25

Diário de Bordos - Nyon, Vaud, Suiça, 15-03-2025

Terceiro aniversário do primeiro neto. A Suíça sendo a Suíça, há vinte adultos e quatro miúdos, incluindo o aniversariante (números aproximativos). Dos vinte adultos três são avôs e o resto está mais ou menos igualmente distribuído. Genebra faz uma vez mais jus à beleza das suas mulheres, a Suíça à ordem e à beleza da tranquilidade. É preciso envelhecer para apreciar este país. 

Tudo isto dito, não consigo impedir-me de pensar que Genebra é um cantão que os suiço-alemães vêem como uma espécie de circo, uma mistura de sul de Itália e norte de África disfarçada com as cores da Confederação. (A festa é no cantão de Vaud, mas é como se fosse em Genebra. Isto é malta exilada das rendas, que em Genebra são dificilmente suportáveis por jovens casais em princípio de vida.)

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E eu, como sempre nestas festas, intimido-me, sento-me num canto com um copo ao lado e o telefone nas mãos. Escrevo e navego pouco, há que aproveitar todas as oportunidades. 

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A minha neta é linda. Posso dizer com orgulho que contribuí duplamente para a beleza feminina da cidade: a actual e a futura.

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Está frio, chove e é Março. 

(A conjuntiva é desnecessária: está frio, chove, é Março.)

14.3.25

Louvor da bicicleta, merken e outros milagres

Coisas que só andando de bicicleta pela cidade podem acontecer: hoje descobri na Almirante Reis, já perto do Areeiro (lado direito de quem sobe, se por acaso) uma loja de produtos argentinos. 

Sim, têm merken. 

(É uma mistura de especiarias para pratos de carne. Enfim, não.  É um milagre para pratos de carne.)

Diário de Bordos - Avião Lisboa - Genebra, 14-03-2025

O avião é suíço. Está demasiado quente. Não me queixo: antes assim. Aviões, casas, lojas, autocarros, comboios, teatros, cinemas, supermercados, tudo estará sobreaquecido, nestes próximos dias. Também eu, à ideia de ver os meus netos, aqueço de impaciência até ferver. 

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Reunião com M. e advogadas. A presença destas senhoras foi um oásis de racionalidade. M. continua o poço de emoções mal controladas, por muito compreensível que seja a sua raiva. O que não é compreensível é ela não perceber a parte de responsabilidade que lhe toca. Penso na observação que alguém me fez sobre ela: "Ó mãe, quem comeu o chocolate foi o mano, não fui eu." 

Há sempre um mano, para a M. Nunca é ela. Salvam-se os quase sete anos que passei em Palma, com interrupções e muitas vezes dificuldades, mas enfim. Aquela cidade vale isso tudo e muito mais. 

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O voo é curto: pouco mais de duas horas. Sentei-me à janela na esperança de dormir qualquer coisa, mas o raio da reunião não me sai da cabeça. Resisto à tentação de catalogar M. na categoria de "qq coisa" rasca porque sei que aquilo é simplesmente um vulcão de emoções mal controladas. Como é que uma pessoa inteligente - ela é-o - consegue não usar a Razão, deixá-la ser varrida por um tsunami descontrolado? 

Não sei e gostaria de saber, ver se consigo dormir nem que seja um quarto de hora. 

Durante muito tempo pensei que era estratégia. S. disse-me que não, que é assim mesmo, o que se vê é o que é. 
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Não dormirei. Chegamos daqui a vinte minutos. Temperatura: quatro graus. E ainda há quem se queixe do aquecimento excessivo do avião.

ADENDA 
Nada como uma ex-mulher que entre bastas outras coisas estudou e trabalhou e fez investigação em neuropsicologia. O comportamento de M. foi-me explicado em pormenor e mais: descreveu reacções e comportamentos da minha querida ex-armadora (o prefixo está  o sítio certo) que eu nem sequer lhe tinha contado. (Refiro-me à actuação durante a reunião. Da senhora já lhe falei amiúde.)

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A Suíça é um país para velhos. Aproximadamente uma hora depois de as rodas do avião terem tocado a pista estava a casa da S. O trajecto foi fluido como a descida de uma pista de ski bem cedo de manhã, com pouca gente e a neve ainda dura e bem compactada.

12.3.25

Diário de Bordos - Comboio Caminha - Lisboa, Lisboa, 12-03-2025

Talvez seja a sorte do principiante; talvez seja apenas uma sequência de má sorte; talvez seja simplesmente uma sequência de acasos sem sortes nem azares. Talvez não seja sequer acaso e tenha havido instruções superiores: já vou no terceiro revisor seguido que me recusa a transição para a primeira classe. Começa por «Tenho de ir perto da bicicleta» e depois desfiam um colar de razões, como se rezassem o terço - cada um tem as suas, diferentes das do anterior. Resultado: faço a maior parte da viagem no bar, a ocupar indevidamente uma mesa mas com ainda mais espaço e conforto do que na primeira - e igualmente longe da burra, coitada, que ali ficou amarrada com o cadeado. Desde «se acontecer qualquer coisa o senhor tem de estar perto da sua bicicleta» até «se vem aí um chefe sobra para mim» (verbatim), passando por «não há lugares disponíveis em primeira» já ouvi de tudo. . Só o futuro dirá, que o passado é mudo, toda a gente sabe.

Já sobre o atraso do comboio - vem de Valença e chega a Caminha, meia dúzia de metros depois, com mais de cinco minutos de atraso. Chegaremos a Lisboa vinte minutos depois da hora, no mínimo, e meia-hora em média. Ou sobre a ovalização das rodas. Ainda hoje comentava com a L. a desilusão que foi para mim a primeira vez que andei num TGV: vai-se a quase trezentos quilómetros por hora e não se sente a velocidade. Nestes comboios, a partir de cinco quilómetros horários (passe a piada) parece que vamos a trote num cavalo jovem.

O que não me impede de continuar a gostar destes trajectos. Agora, por exemplo, atravessamos um banco de nevoeiro e a paisagem desfila por trás de uma cortina de gaze, como se quisesse fazer-me concentrar no que escrevo e não perder-me em contemplações e pensamentos sobre o meu horror à névoa, o que eu a detesto quando estou no mar, por muitos radares e AIS e olhos que tenha a bordo. Aqui não: é quase confortável, se bem a carruagem do bar não tenha o aquecimento ligado, suponho que por causa de não quererem que as pessoas façam a viagem aqui sentadas com bilhetes de segunda classe...

A verdade é que prefiro cinco horas num comboio ao mesmo tempo num avião, se bem num caso o destino seja Lisboa e no outro pudesse ser, sei lá, talvez Cabo Verde ou Turquia ou outra coisa qualquer. Tenho para mais um ano de viagens e depois farei como o outro: viajarei à volta do meu quarto. Ou à volta do meu apartamento em Vilarelho, abençoado seja, que vai acolher os meus livros, a minha escrivaninha e o meu futuro, tudo junto e por atacado. Ou melhor: atado com os fios do passado.

Como eu costumava dizer: vou pôr o meu passado em ordem. (Duvido, mas isso fica para depois.) 

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Março é mês de aniversários na família (são três) e a minha filha L. decidiu fazer uma festa única. Quis a sorte que eu possa estar presente. Enfim, não: quis a sorte que eu possa sonhar em estar presente. Só logo à tarde o saberei ao certo. Não sou religioso nem crente mas há momentos em que me apetece sê-lo. Quando navego no nevoeiro, por exemplo. Ou quando espero a certeza de poder celebrar estes aniversários todos em Genebra. 

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Saída na Campanhã com quinze minutos de atraso. Talvez a CP devesse actualizar os horários, não? Ou então mudar o nome para SNCF(Pt).

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No Porto mudou o revisor e a sorte voltou. Para além de um bilhete de primeira classe fui recompensado com uma extrema gentileza (extrema mas, é preciso dizê-lo, frequente nestes senhores revisores) e uma explicação para os atrasos nos comboios. Parece que é só na linha do Minho e são devidos a ser via única. Ou seja: tudo volta ao normal. O mundo recompõe-se. Posso deixar o bar e ir para o meu lugar. Posso acreditar que o nevoeiro se levantará em breve. E que a saloiice do «cuidado com o espaço entre o degrau e a plataforma» um dia acabará, juntamente com o «portuguesas e portugueses», como muito razoavelmente mas sem exclusividade pede o MAB hoje no Facebook. É uma expressão que me faz dar saltos a cada vez que a oiço. Antigamente os políticos falavam bem e o povo tentava imitá-los. Agora falam ao nível do povo. Ou melhor: daquela parte do povo que é ignara.

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Lisboa

Vinte e três minutos de atraso. Respirei aliviado: na estação do Oriente pensei que chegaríamos com menos de vinte minutos de atraso, mas vá lá. A CP manteve garbosamente a média (a qual, verdade seja dita, é estimada).

Depois foi o adorável trajecto de Sta. Apolónia até ao Cais do Sodré. Choque de realidade: vou ao quiosque de S. Paulo, dantes um templo da boa e barata comida de rua. Paguei nove euros e noventa cêntimos por um copo de vinho tinto e uma empanada. Nove e noventa, assim discriminados: três e noventa e cinco a empanada - que estava boa até eu lhe ver o preço - e cinco e noventa e cinco por um copo de Papa-Figos, também e mais justamente conhecido por Papa-Tolos.

Sou liberal e aceito isto facilmente de um ponto de vista ideológico. Mas sou também um teso e revolto-me: mais um dos meus antros aos quais não poderei regressar tão cedo. Saudoso Maria Rapaz a dois euros, saudosos ovos verdes a não sei quanto mas pouco. 

Agora, Cascais. Senhora, porque me cascais? (Senhora pode ser substituído ad libitum.)

11.3.25

Diário de Bordos - Declaração de voto - Caminha, Alto Minho, Portugal, 11-03-2025

(Refiro-me à política nas democracias ocidentais. Nas ditaduras, autocracias e cardumes de robalos é diferente e muito pior.)

A política é um mal necessário. Consiste basicamente numa troca: uma pessoa com um ego muito grande, motivações diversas - que podem ir da megalomania ao altruísmo, com vários desvios e desvarios de permeio - promete às pessoas as coisas que ela pensa elas querem ouvir. Em troca, os eleitores elegem-na e esperam que ela cumpra as promessas ou pelo menos parte significativa delas. De vez em quando aparece um político cuja motivação pende mais para o lado do altruísmo, o que é louvável e desejável; não é, contudo, frequente. A megalomania e a vontade de «fazer coisas» são de longe dominantes. A única forma que o eleitorado tem de manter o acordo é ser exigente e não ser ingénuo, resignado ou esperar que da mesa do poder caiam algumas migalhas. Essa exigência, abundante em países como a Alemanha, os países Nórdicos, a Suíça e por aí fora falta em Portugal, o que explica a fraca qualidade da nossa política (fraca se aferirmos pelos resultados. Se o critério for outro a apreciação é diferente). Por isso é preferível julgar quem nos governa pelo que faz a pelo que diz. 

(Ou melhor: pelo que deixa fazer. Deus nos livre de políticos que fazem. Seria como um polícia sinaleiro que descesse do seu pedestal e começasse a conduzir os automóveis que por ali engarrafam. A paralisia não só não se resolveria como ficaria mil vezes pior - como de resto vemos no nosso país.)

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No sábado fui assistir à cerimónia de lançamento da candidatura de uma senhora à presidência da câmara de Caminha. A apresentação seguiu o cânone: discurso de amigos - cultura - mais amigos - video sobre a senhora - discurso da candidata. De entre os amigos ressalto o discurso do alcaide de La Guarda, o menos langue de bois de todos. A cultura foi representada por música tradicional portuguesa tocada ao cavaquinho e à guitarra, o que faz sentido. Jazz, música tradicional irlandesa ou togolesa não seriam adequados. O video foi um slideshow. A candidata sendo fotogénica a coisa passou bem. Chegou finalmente o discurso da senhora. Se há coisa a que resisto mal é a uma boa retórica. Há um elemento emotivo na política, por muito racionais que sejam os olhos com que a olhamos. A forma é um elemento fundamental na constituição dessa emoção. Resultado: decidi que votarei nessa candidata.

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Caminha é uma jovem bonita parada à beira da estrada à espera de uma boleia, mas o único carro em vista está parado por incapacidade do condutor. Penso - ou melhor, acredito - que a candidata cuja apresentação fui ver ontem tem qualidades para conduzir o automóvel e dar boleia à jovem - que de resto não é assim tão jovem, de onde o seu enorme charme. No que pessoalmente me toca, a actual câmara municipal parece uma corrida dos cem metros barreiras com atletas tetraplégicos. Entre estes e a senhora, a escolha é simples, inevitável: uma promessa de competência vale mais do que a paralisia comprovada. 

É claro que o meu voto não fará diferença nenhuma no cômputo geral dos votos. Não é por eu pensar que Caminha precisa de uma marina (e nisso estar envolvido), que a ponte sobre o Coura deve incluir uma passagem para peões e ciclistas (interesse próprio), que esta foz devia estar cheia de velas de miúdos a aprender a navegar ou que explorar lítio na serra de Arga é um disparate (para todos) que isso acontecerá ou não. Esse é o lado emotivo, quase camusiano, da política democrática. Mas, parafraseando alguém que muito admiro: a política sem emoção é uma vergonha, sem Razão uma chatice. 

9.3.25

Definição - Mulher

Mulher: faca de cortar o frio.

Todos os frios.

8.3.25

Ruína, arena

Chama-se envelhecer à entrada progressiva da saudade no desejo. O "touro furioso" deixa lentamente, pouco a pouco a arena, calmo e pacificado e esta vai desabando, ao mesmo ritmo.

Ruína apaziguada. 

5.3.25

Hierarquias

Na hierarquia dos saberes, saber vale menos do que saber vender e esta menos ainda do que saber vender-se.

3.3.25

Incêndios, frio

Duplo frio este que me chega de fora e vem de dentro também. Icebergs, estepes, glaciares... o arsenal inteiro, interior e exterior. Não há lareira que chegue, nem incêndio.

28.2.25

Leveza, amor e outras rábulas

Aprendi enfim a amar levemente, como a neve ou esta luz de fim de dia, de fim de vida, que cada vez mais tarde hesita em tornar-se noite. Dou-me bem com a leveza, eu tão pesado às vezes e tão leve quando quero.

Ou posso. 

Diário de Bordos - Comboio Lisboa - Porto, Portugal, 28-02-2025

Saio de casa do V. e a chuva não era sequer de molha-tolos. Mal chegava a molha-tolinhos, de maneira vim por essa Almirante Reis abaixo e só parei na Confeitaria Nacional para uma bica e um pastel de nata. Cada vez mais me sinto em Lisboa como um turista. Pouco a pouco a cidade afasta-se de mim - ou afasta-me, isso resta por esclarecer. Ele é buzinadelas, ele é obras, ele é gente e mais gente, ele é ruas com pavimentos mais adequados a bicicletas de montanha do que burras urbanas como a minha, ele é esta desafeição que pouco a pouco me entra pelos poros todos da pele. Claro que pode sempre contra-argumentar-se com o Roda Viva, pequena pérola nos limites de Alfama, ou com o Arcos de Paris, ou com a Confeitaria Nacional, resistente e linda como sempre; pode sempre argumentar-se com um montão de coisas porque a nossa ligação a uma cidade não se resume a restaurantes, é feita de pessoas e de paisagens, de memórias, de vidas. Enfim, isto não é um tratado sobre a pertença e muito menos sobre o desenraizamento. É sobre este sentimento estranho de me sentir turista na cidade que sempre amei e aonde nunca vivi muito tempo, talvez a contradição mais perene da minha vida: amor e distância andam juntos em mim desde a adolescência.

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Faço uma pausa no Porto sem nenhuma razão muito forte mas com bastantes fraquinhas - pelo menos em termos de expectativas. A energia e o optimismo - a certeza, por assim dizer - que punha em tudo desvaneceu-se, substituídos por um abulismo consciente, voluntário. O que for será; mover as bolas na mesa de bilhar com pequenas e espaçadas tacadas. Cépticas, sobretudo. Os buracos na mesa mexem-se, qualquer pessoa com mais de cinquenta anos sabe-o. E se não sabe devia saber. 

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No comboio há duas pessoas nas minhas redondezas a falar ao telefone. O que eu lamento a falta de carruagens «silenciosas», como há (ou havia) em França. Por que raio de carga de água não se levantam e vão falar para o espaço aonde não há ninguém? Se calhar, não são apenas carruagens «silenciosas» que faltam.

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Desta vez não tive sorte e não consegui mudar para primeira classe. O revisor não estava muito contente com a ideia mas lá acabou por ir «verificar» e não havia lugares. Escrevo um bocadinho apertado e rodeado de senhoras (enfim, duas) a falar ao telefone. Paciência, como dizia o Job, coitado.

(Cont.)

26.2.25

Sem ti, caminho

Sem ti é fria a noite e mais frios ainda os dias são. 

É longo o caminho que temos pela frente e pouco o tempo que nos resta.

Reflexão, período

A ideia é afinal bastante razoável: a vida continua. O passado serve para nos ensinar, não para nos fazer desistir. Ou seja: o passado serve para nos fazer insistir. É uma escola.

Ver no passado a mola que nos impulsiona mais longe no futuro. Em cada erro uma espiral. No fundo, a perfeição é a soma dos erros que cometemos até ontem. Hoje não conta: estamos em período de reflexão. 

Diário de Bordos - Comboio Caminha - Lisboa, Portugal, 26-02-2025

A CP tem algumas falhas: os comboios andam sempre atrasados, as casa-de-banho são inutilizáveis, o aquecimento (hoje, numa das carruagens) e as portas não funcionam ou funcionam mal, têm rodas ovais e carris tipo montanha-russa e a oferta no bar é fraca. Porém, tem um ponto forte: o pessoal - pelo menos os revisores. Aqui fica mais uma lauda aos senhores que na minha adolescência conhecia por «picas» e agora também, com mais ternura. A história de hoje está de novo relacionada com viajar com a bicicleta e o meu desejo de viajar em primeira classe, coisas que a CP acha incompatíveis. Felizmente os revisores que até agora tenho encontrado não partilham essa incompatibilidade. (Ainda só tive uma excepção: senhora jovem. Obviamente não se pode - ou melhor, não se deve - tirar ilações. Foi a única senhora e um dos poucos jovens que encontrei.)

De maneira cá vou: atrasado, em primeira classe, numa carruagem não aquecida - mas desta vez não paguei a diferença de preço da segunda para a primeira, custo que levar o anorak vestido desde o início da viagem cobre largamente. Escrever no computador deve ser semelhante a tentar fazê-lo montado num touro dos rodeos mas a paisagem é linda e a senhora que está sentada do outro lado do corredor também, apesar de estar calçada com sapatilhas brancas da marca Adidas, prática essa que me parece abominável diga o que disser uma senhora entendida em modas com quem troco comentários de vez em quando no Facebook. As sapatilhas são para courts de ténis, ginásios e outros locais de tortura, não para comboios ou qualquer outro espaço fora dos supra-mencionados.

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Dois ou três dias em Lisboa têm como pano de fundo o desejo de um dia trabalhar em Portugal. Sei que é difícil, mas se fosse fácil já estaria feito.

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A saúde do Papa interessa-me pouco, por assim dizer. Tal como empresas imobiliárias e políticos, trumpices, guerra na Ucrânia. A actualidade - essa forma fractalizada da modernidade - é pouco entusiasmante. Preocupam-me mais o estado da comunicação social, as ameaças à liberdade, o renascimento das religiões, sobretudo as laicas, preocupações essas que a beleza da luz lá fora, a  música da Idade Média italiana que oiço via Youtube, o perfil bonito e austero da senhora das sapatilhas, a ideia de que logo vou jantar com dois amigos próximos se encarregam com prazer de remeter ao seu lugar - o caixote do lixo.

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Vir a Lisboa não me excita particularmente. É como uma viagem de trabalho a um sítio aonde tenho amigos. Movimentações das placas tectónicas dos afectos, sem dúvida.

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ADENDA 

Há que corrigir injustiças. O revisor de hoje é jovem. Uso o presente do indicativo porque penso que ele não envelheceu entre a minha saída do comboio e a entrada na Merendinha do Arco, aonde agora me encontro. 

Com o objectivo óbvio de corrigir a segunda injustiça: Lisboa ocupa no meu coração um lugar permanente e tectónico-resistente. A ginginha Sem Rival, à rua das Portas de Santo Antão e o supra-mencionado restaurante Merendinha do Arco aí estão para o provar.

Mesmo que a ginginha venha em recipientes cada vez mais pequenos e cada vez mais caros. Old loves die hard. (Sugeri ao senhor Coelho que voltassem a usar os antigos copos, reservados à malta do antigamente, mediante palavra-passe.)

22.2.25

Diário de Bordos - Aeroporto de Madrid, Espanha, 22-02-2025

Último dia desta meteórica estadia em Palma. Mixed feelings é pouco para descrever o que sinto. Gostaria de ter ficado mais tempo para mostrar mais à L.: mais tramuntana, mais Malorca, mais Palma. Gostaria de ter mais certezas quanto aos trabalhos de que espero a resposta. Estou ansioso por ter a minha casa em Caminha, por ver os meus netos, por... por... por...  por tudo e mais alguma coisa, incluindo a adrenalina da ansiedade. Esperamos no aeroporto, um dos poucos sítios aonde a ansiedade é substituída por desolação pura e simples. São todos iguais, sobretudo quando os conhecemos como os conheço - agora o de Madrid, há pouco o de Palma. Em breve estaremos no do Porto, mas aí é a alegria que nos espera: estaremos perto. Vamos de aeroporto para aeroporto, de emoções para emoções, de medos para alegrias e destas de volta aos medos. Oscilo entre estar farto de mim e querer ver os meus netos crescer, entre querer uma casa e ter muitas, aonde quer que vá: «a pátria é um acampamento no deserto», diz Cioran citando um provérbio árabe, hesito entre pensar que faço o que quero e quero porque faço. Quatro horas no aeroporto de Madrid para poupar alguns euros, não sei bem quantos mas sei que prefiro quatro horas de espera - tenho-as - a não sei quantos euros - não os tenho. Prefiro aquilo que tenho àquilo que não como prefiro aquilo que sou ao que poderia ter sido. Prefiro aeroportos que não sejam centros comerciais a centros comerciais com portas de embarque associadas. Fui fumar um cigarro à «zona de fumadores» e perguntei-me quando haverá zonas para injecções de heroína, cocaína e outras drogas. Heroína do afeganistão, cocaína colombiana, hasch marroquino a preços de aeroporto... Enfim: antes esperar do que desesperar, já que estamos em maré de trocas. Antes ter uma casa para os meus livros do que tê-los em caixas. 

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Regresso a Caminha com quase tudo o que tinha em Palma, bicicleta incluída - se bem esta vá por outros meios. Chega para a semana. Aqui - ali, Palma - ficam os livros e pouco mais. Em breve se juntarão aos outros. Três casas - Lisboa, Palma e Caminha - transformam-se, pouco a pouco, numa só. É como navegar num banco de nevoeiro, não é? Não, não é. É como navegar para um banco de nevoeiro.

20.2.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-02-2025

Regresso a Palma e como sempre fico sem palavras - excepto possivelmente para desejar ao gajo que me roubou a máquina que torre no fogo do inferno para sempre, e isto digo de dez em dez minutos. 

A luz de Palma no Inverno é como a cidade: envolvente, suave, terna, carinhosa. Palma é uma cidade para amar e ser amado e hoje sou-o duplamente: esta cidade ama-me tanto qanto eu a amo.

O Antiquari fechou, aparentemente para sempre (vade retro!). O Fidel, o Jaume, o Mise en Place estão fechados para férias. Ontem jantámos no Sa Ronda. Ovos com rabo de toro, precedidos por um palo sifonado no Cliff (o Pep voltou e até sorriu quando lhe desejei as boas vindas). Hoje a ronda continua: l'Olivar, almoço no Morey, café no Miniones, re-café no Bosch. Está calor - vinte e un graus é calor, se bem não excessivo - a luz amortece o ruído, as mulheres continuam lindas e eu pergunto-me até que ponto posso fractalizar (?) a paz. Assim de repente e sem pensar diria: até ao nível atómico. Aposto que os átomos em mim estão em repouso, a girar mais lentamente em torno dos seus núcleos, como eu ando devagar à roda do tempo.

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Aperitivo no Moltabarra e jantar no 7 Machos. Amanhã vamos à Catedral. Ainda não tenho notícias de Barcelona. A paz foi sol de pouca dura. Alugámos uma bicicleta para a L. e temos percorrido a pedalar essas ruas sinuosas e familiares como todos os passados. Reencontro com indizível alegria a BH Glasgow Vintage e agora procuro forma de a levar para Portugal. O dinheiro está para as engrenagens da vida como WD-40 para dobradiças de uma porta que teima em não fechar.

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Para quem precise de almoçar em Barcelona perto da Plaza Catalunya: Restaurante Txapela. Comida basca no seu melhor, serviço impecável, quadro e preço agradáveis.

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A ausência de tele-Trump-visão é a cereja que encima o bolo de Palma. 

17.2.25

Como a Lua

Naquela noite era questão de florestas, de palavras, de estar perdido e de nelas procurar refúgio. Nelas florestas ou nelas palavras? Estar perdido é isso, não saber aonde se refugiar,  se na noite se na luminosa claridade de um ecrã todo branco. Termos como tristeza, melancolia, depressão são refúgios fáceis mas frágeis. Ao menor sopro esvaem-se em memórias. Transformam-se, por assim dizer e deixam-te de novo nu. Seria preciso uma muralha de palavras, com ameias, arqueiros, flechas, um fosso cheio de água à volta. Sabias que a função dos fossos cheios de água era impedir os assaltantes de penetrar no castelo por meio de túneis? Ou seja: por meio de palavras subterrâneas? Nem rastejantes, sequer. Só as aéreas te servem, as leves, voadoras, palavras que vêem longe porque altas vivem, como a Lua do outro.

Noite, promessa

Espero a chegada do sono com a mesma paciência com que espero num aeroporto, enre dois aviões. O sono não passa do avião que me leva de um dia para o seguinte,  a vigília esse aeroporto, com a vantagem de te ter ao meu lado, de poder ouvir-te e tocar-te e sentir-te, piloto do avião que me faz ter vontade de te ver amanhã,  sem pressa, de acordar a teu lado, de te ver e sentir de novo amanhã, meu amor, meu voo, meu voto, minha promessa de amanhã, sem pressa.

15.2.25

A noite, talvez

Deixas que a noite desenrole perante ti o seu tapete negro mas quem o percorre é ela, negra como o Inverno, como o frio que erradamente e há tanto tempo associas ao branco e hoje ao negro, um longo tapete que perante ti te espera e de que não vês o fim, senão talvez que voltará a ser branco um dia e quente noutro.

Talvez.

14.2.25

Definição - privacidade

Àquilo a que chamamos privacidade dá a evolução o nome de fragilidade. No fundo, a privacidade não passa de uma cortina atrás da qual escondemos os nossos momentos de vulnerabilidade.

12.2.25

Diário de Bordos - Caminha, Alto Minho, Portugal, 12-02-2025

Uno, unidade são as palavras destes dias. Escamoteio a idade, não é para aqui chamada e pergunto-me a que unidade me refiro. Não existe unidade. O que há é unidades, esse infinito conjunto de pequenas coisas que nos define. Hoje cozinhei bastante. Fiz um escabeche para os carapaus fritos de ontem, fritei beringelas às fatias e nabo às rodelas finas. Tudo isto com muito azeite: a melhor cozinheira é a mais azeiteira, dizem os nosso vizinhos. Comprei feijão da Argentina e arrependi-me pouco depois, mas já era tarde para o trocar por feijão nacional. «É menos duro e coze mais depressa», disse-ne o senhor no mercado. Esqueci-me de comparar os preços, claro. Não sei porque me deixei ir na cantiga do homem. Prefiro produtos locais, o mais perto possível de onde estou mas não tenho explicação para essa preferência. Nada tem a ver com a salvação do planeta. Ele safa-se muito bem sem mim, obrigado. É uma das unidades, suponho. As beringelas é uma receita italiana, o escabeche árabe, os nabos não sei, o hummus que vou fazer amanhã é do Médio Oriente. Outra unidade. De manhã fui ao mercado, de tarde dormi e cozinhei. À noite escrevo e penso na unidade, neste ser uno que não sou. Sou muitos unos. Somos todos, claro. Já o Lartéguy dizia que todo o homem é uma guerra civil. São muitas, todas misturadas, uma embrulhada. Não gosto do Trump mas ainda gostava menos da outra. Unidade dividida. Este mundo chateia-me. A Ucrânia não devia perder a guerra, o Trump não devia ter nascido, Reagan e Tatcher deviam ter tido filhos.  Hoje li um texto (um post) de um conservador exultante com a chegada de Trump ao poder. Amanhã responder-lhe-ei, se a unidade e o uno me tiverem deixado. Não sei. Hoje fez menos frio. Tive de tirar a camisola para voltar para casa. Gosto tanto desta subida... A vida não pode ser só descidas. Ando a ver até onde chego em segunda. O objectivo é acrescentar dois metros a cada vez. Ou cinco, vá. Dois é pouco. Dez. Não sei. Os que forem. Espero ansioso a chegada da BH, mas ainda não é amanhã a véspera desse dia. Primeiro tenho de ir trabalhar a San Sebastián, no país basco espanhol e só depois poderei mandar vir as coisas de Palma. O que lá tiver ficado que agora quando voltarmos de lá já traremos muita coisa. Terça vou a Barcelona (na verdade é a Port Ginesta, fica entre Barcelona e Sitges) e daí seguimos para Palma. São as Primaveras a chegar, as duas, uma real outra metafórica. Unidades. Cada dia que passo aqui acho isto mais bonito e gosto mais das pessoas. A Coluer tem-se aguentado, mais coisa menos coisa. Eu também. Uno. Inteiro. Partilhado. Unidade. 

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Um dia perguntei a uma senhora se queria dormir comigo. Foi uma pergunta muito factual, muito simples, sem salamaleques nem tentativas prévias de sedução. A senhora era a secretária da S.,  então minha mulher. Vivia por cima de Lausanne, numa casa muito bonita, com um enorme jardim aonde o marido, que era muçulmano, plantava peras a partir das quais fazia a melhor aguardente de peras que me foi dado beber. Eu tinha lá ido dormir, já não sei porquê.  Provavelmente por causa de um trabalho qualquer. Também não me lembro do nome da senhora. Uns anos depois foi fazer um curso qualquer e tornou-se directora de uma instituição social. Deixou de ser secretária. Tinha imensa piada. Quando disse ao pai - protestante - que se ia casar com um muçulmano ele respondeu:

- Antes isso. Pior seria se fosse católico. 

O marido dela estava na Argélia, suponho. Era chauffeur de táxi. Nunca bebera nem uma gota da maravilhosa aguardente de peras que fazia, o que só demonstra os malefícios da intransigência e do fanatismo. As peras cresciam dentro de garrafas. Quando chovia interrompia o trabalho e ia a casa pô-las com o gargalo para baixo. Tinha sido dono de uma tipografia, mas com o advento do digital faliu. Acabámos de jantar - era uma cozinheira maravilhosa -  e eu disse-lhe:

- Vou deitar-me. Queres vir comigo?

Respondeu que não, obrigada e a coisa ficou por ali.

Quando cheguei a casa a S. pergunto-me se era verdade que tinha desafiado a outra e eu disse-lhe que sim.

- Mas foi só por gentileza, por boa educação. Sabia que ela ia dizer que não - acrescentei. 

Desatou a rir-se, eu também (mas menos. Acredito na importância da delicadeza e da educação) e fomos deitar-nos.

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Melancolia é uma palavra mais bonita do que depressão, apesar de ter mais letras e mais sílabas. 

Isto admitindo que designam a mesma coisa, ou uma coisa parecida.

Se houvesse justiça...

A minha fé absoluta na liberdade de expressão fica abalada quando leio ou oiço "ofertar", "vivenciar" e "experienciar".

Não é caso para pena de morte, mas merece pelo menos uma pena igual à de quem envenena o espaço público ou dá de comer aos pombos da cidade. 

Justificação de cepticismos injustos

O DV é um blogue essencialmente polissémico. Entre duas palavras escolhe sempre a que tenha mais sentidos porque os sentidos estão para uma palavra como para um corpo: quantos mais melhor. Parece-me portanto injusto desconfiar de uma exposição que tem no titulo a palavra polissemia. 

Talvez porque a uso de vez em quando mas sempre numa função irónica. Ou encantatória, é quase o mesmo.

Aventuras semióticas

O conceito que ontem procurava tem um substantivo e um adjectivo nas não tem um verbo. É  de situações como esta que nasceu o termo averbar: negar a uma palavra a possibilidade de agir.

Cama, palavras

Sabem aquela canção da Simone (chama-se Pedaço de Mim, creio que a letra é do Chico Buarque e é linda de se morrer) que fala da saudade e diz que é o pior tormento, pior do que o esquecimento, pior do que tudo e mais alguma coisa? Pois eu conheço um tormento pior. Pior do que ter sede e não ter uma cerveja no frigorífico, pior do que ter fome, pior do que amar e não ser correspondido. É procurar por uma palavra que tenho debaixo de mim - enfim, debaixo da língua, ali ao alcance dos dedos que a esperam freneticamente, estacionados no teclado do computador - e me foge, a sacana. Hoje aconteceu-me outra vez. Acontece-me todos os dias, com maior ou menor intensidade, maior ou menor duração. Desta vez foi aterrador. Procurei a partir de sinónimos - esses não escapam, estão todos lá, a mangar comigo - procurei a partir da definição, chateei amigos e nada.

Foi preciso vir deitar-me para que ela me aparecesse, feita virgem sorridente em cima de uma oliveira ou azinheira ou coisa que o valha. A cama, essa grande fornecedora de palavras desaparecidas, de frases perfeitas, de ideias luminosas e planos infalíveis devolveu-ma intacta, tal e qual eu a procurava. 

E ainda há quem seja contra os telefones portáteis na mesa de cabeceira.

11.2.25

Ou tão pouco, vá lá saber-se

Oiço música medieval, bebo um rum cubano, escrevo num computador «americano» (aspas porque provavelmente veio da China) e penso na minha relação com a modernidade. Logo a seguir penso que o post começa com uma mentira: ando a pensar nisto há semanas. A modernidade terá talvez não o monopólio da mistura - essa nasceu com a humanidade - mas tem de certeza o da facilidade com que a mistura se produz. Não é por acaso que um dos meus jantares temáticos, cujo tema foi a modernidade, teve como menu uma série de pratos de fusão, do princípio ao fim. Menu e música, de resto.

Bom, voltemos ao tema, que isto de andar à roda (há bocadinho ouvi o God Bless the Child pelo Dolphy, um dos meus solos de jazz favoritos há cerca de duzentos e trinta anos)...

A modernidade tem coisas indiscutivelmente boas. Por nada deste mundo voltaria a navegar com sextante ou com rádios portáteis a fazer de gónio, por muito bons que tenham sido os resultados. Chegar ao Havre (ou a qualquer outro porto) sintonizando uma estação FM local e orientando o rádio a bordo para termos a certeza da direcção no meio do nevoeiro é exaltante - quando se chega. Antes disso não é nada, pela simples razão de que estamos demasiado ocupados a lá chegar para meta-pensar a situação. Para pensar, sequer. Ou entrar em Cherbourg em solitário sem óculos quando se era mais míope do que aquela personagem dos desenhos animados. (Além de que o GPS não nos rouba os momentos de exaltação - a entrada em Bere Island que o diga-. Diminui-os, quando muito.) 

Bom, voltemos ao tema. Detesto a modernidade, ela detesta-me e mantemos uma relação da qual nenhum de nós consegue escapar. Não é só o GPS que me prende a ela, se bem seja uma das amarras mais fortes, se não mesmo a mais forte. Nem a fusão rum/música medieval/computador/casa confortável/telefone portátil/livro de poesia de Nuno Júdice/e-mais-sei-lá-que-mais. É sobretudo esta falta de vontade de pôr em prática a vontade de não a viver. Ela não merece tanto.

Ou tão pouco, vá lá saber-se.

10.2.25

O romantismo, a álgebra e o infinito entram num post

Para a álgebra do romantismo, um mais um é igual a um, dois menos um igual a zero, um mais zero igual a zero. O infinito, não sendo um conceito algébrico (peço aos meus leitores matemáticos que me corrijam se estou enganado) não é mencionado na álgebra romântica mas sendo um conceito filosófico está subjacente a tudo o que os românticos diziam ou pensavam.

Podres de razão. 

9.2.25

Crónica (lenta)

A ideia chegou-me via um post de Desidério Peixoto (nomeio porque é um pseudónimo) no FB. Apetece-me escrever sobre coisas simples, sobre o cacau em pó que comprei na Casa Chinesa do Porto mas as ramificações levam-me para a África do Sul, para bordo do M/T ALTAIR, aonde o Miguel me preparava uma mistura de café e cacau à qual juntava brandy e com isso me curava as ressacas quotidianas; dali passo directamente para hoje, para a elaboração do cacau, que deve ser espesso e levar pouco açúcar, o mínimo possível e lembro-me das discussões teológicas do século XVII para saber se o cacau era um líquido ou um sólido, tema importante porque determinava se podia ser comido nos dias de jejum ou não. Mexo devagarinho o cacau, ao qual juntei um pau de canela, açúcar mascavado e antecipo com prazer o prazer que terei ao bebê-lo, misturado com um bocadinho de leite, bebido devagar como foi cozinhado. Cada vez cozinho mais devagar, só uso lume forte se preciso de selar uma peça de carne rapidamente e depois vai directamente para lume fraco, para tempos longos, deixar que seja o tempo a cozinhar, o tempo e a memória aos quais se juntam os diferentes prazeres, os da espera e os do palato, os antigos e os novos, tudo isto acompanhado pelo piano mágico de Mal Waldron, pelo baixo de Charlie Haden, por música barroca tocada à guitarra, por um vinho quente bebido devagar, como foi feito: devagar. Uma lenta mistura, como lento é este domingo frio e chuvoso, cinzento e constipado, os lenços de papel voam e apercebo-me de que são eles a única coisa rápida do dia. No mar não me constipo, não sei porquê. É tão grande, a quantidade de coisas de que ignoro a razão mas agora dou-me ao luxo de as ignorar devagarinho, é a melhor forma de não saber qualquer coisa. O espaço da ignorância é demasiado grande para ser percorrido a correr, corre-se o risco de nos cansarmos antes de lhe chegar ao fim. O cacau acabou - foi ao pequeno-almoço - o vinho quente está a acabar - é a sobremesa do almoço - e esta mescla não tarda dispersa-se pela tarde de domingo, dedicada ao Desidério e às coisas simples como o cacau da Casa Chinesa, o vinho quente, o Missouri Sky ou, sobretudo, a lenta jouissance da ignorância.

8.2.25

Filosofia na alcova

Preocupam-me mais os sentidos na vida do que o sentido da vida. Tal como a esperança, que mais parece a minhoca que o pescador põe no anzol para capturar o peixe (mas esse peixe somos nós). Mais vale estar de esperanças do que ter esperança, apesar de isto só se aplicar à parte fértil da população feminina. Enfim, é um jogo de palavras. 

A vida não tem sentido nenhum, com a óbvia excepção daquele que cada um de nós lhe dá. Não é a vida. É a nossa vida que tem um sentido. A esperança para nada serve, ao lado daquilo que temos de fazer para dar sentido à nossa vida. 

Não é a esperança, é aquilo que fazes, com esperança ou sem ela. Não é a vida, é aquilo que dela ou com ela fazes.

(Ou com elas.)

7.2.25

Evocação, luz, Júdice

O primeiro livro de Nuno Júdice que li chama-se Nos braços da exígua luz. Dele ficou-me um poema ou dois - "Comecei a fugir para dentro. É cada vez mais difícil não fugir para dentro." - e, sobretudo, um imenso amor por este poeta, que se acentuou com a entrada na escola de cinema. São poemas que contam histórias, muitos poderiam servir de base para filmes.

Penso na contradição que "exígua luz" é, na beleza que reduzir a exiguidade uma coisa por natureza infinita e daí parto para outras aventuras. Como, por exemplo, separar a natureza da luz em dois: de um lado os fotões, do outro as ondas. Já foi assim, depois deixou de ser, mas isto não é uma aula de física e muito menos da sua história.

É simplesmente a evocação de uma noite em que me imaginei onda sem corpo associado, onda luminosa sem luz, sem comprimento de onda nem amplitude e me perguntei se seria exígua, essa onda, ou infinita, essa ausência de luz.

PS - Ou terá antes sido Crítica doméstica dos paralelipípedos?

6.2.25

Diário de Bordos - Caminha, Portugal, 06-02-2025

O caminho de Santiago (O Caminho, para os entendidos) está outra vez na moda. Não há dia que não veja passar um gajo de mochila às costas. Às vezes andam aos pares. 

Um dia fá-lo-ei,  eu também. De avião. 

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Por falar em aviões. Subi ao Monte de Santa Tecla, na margem espanhola do rio, para ver os baixios. Serviu de pouco, porque está de maré morta e apesar de ser baixa-mar ainda havia muita água. É preciso esperar quinze dias.

A vista é deslumbrante. Lembrei-me de quando ia com o meu Pai inspeccionar as barras dos rios da Zambézia. Enfim, ele inspeccionava. Eu ia à pendura.

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Poupamos quase quarenta cêntimos por litro indo a bancas em Espanha. Ainda há quem seja contra a União Europeia? Eu não sou.

5.2.25

Uma, muitas, a mesma

Regresso à vida entre dois países, à vida de construção do ecossistema, à vida de dar corpo a uma ideia. Tudo é novo, tudo cheira a novidade e tudo foi já vivido, como o cheiro da terra depois de cada chuvada: é o mesmo e é diferente.

Abençoados sejam o tempo e a sua circularidade, abençoada seja esta vida que me poupa ter de esperar pela próxima para ser múltipla.

4.2.25

Reclamação contra a não-renovação da carteira profissional de Elisabete Tavares

Exmos. Senhores,
Enquanto consumidor de notícias, cabe-me escolher quem mas fornece. Os corporativismos - de que reconhecidamente a nossa sociedade é prenhe - não têm muito que os recomende. Essa insuficiência é em condições normais pouco visível. Todos nos habituámos a conviver com ordens disto e daquilo e foi preciso uma Covid para que a nocividade da ordem dos Médicos (para citar um exemplo) tenha vindo à luz do dia.

A CCPJ - um organismo de que até há bem pouco tempo eu desconhecia a existência - veio agora provar que a autoridade moral das ordens para definir quem pode e quem não pode fazer parte delas é reduzida. Nula, por assim dizer. Inexistente. Com que autoridade recusam V. Exas a Elisabete Tavares a «carteira» profissional? Não me refiro à autoridade legal. Provavelmente tê-la-ão mas sim à já mencionada autoridade moral. 

Que a sociedade portuguesa está meio putrefacta é um facto ilustrado pelo, entre muitos outros exemplos, estado lamentável a que a nossa comunicação social chegou. Com, apercebemo-nos agora, a cumplicidade activa de corpos sociais como a CCPJ, que expele uma das melhores jornalistas portuguesas por... porquê? Bem, por ser uma das melhores jornalistas portuguesas.

A CCPJ tem todos os direitos - morais, legais, sociais - de ser o coio dos medíocres «jornalistas» nacionais. Não tem, contudo, o de definir quem é e quem não é jornalista. Esse cabe aos consumidores de notícias e não a vis, reles, torpes funcionários de associações corporativas cuja herança todos sabemos de onde vem - e que ao fim de cinquenta anos já devia ter acabado.

Luís Serpa
(Leitor e subscritor do Página Um)

3.2.25

Diário de Bordos - Caminha, Portugal, 03-02-2025

No fundo é da construção de um novo ecossistema que se trata e por isso é tão jubilatório. Ideia associada à de que a passagem será longa, desta vez. A de que "sou de onde estou" reganhou toda a força que nos últimos anos perdeu. 

Ao Buraco - a cabidela estava uma delícia e doeu-me ter de deixar metade - juntaram-se a Casa  Chineza, a Sanzala e uma oficina de bicicletas com um nome esquisito que é a mais antiga do Porto. Existe, diz a tabuleta, desde 1944. É minúscula e está cheia de burras, faz-me lembrar a loja do santo Ivo em Palma.

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A Coluer adapta-se às ruas do Porto e lá se vai safando. Os problemas com a corrente só se manifestam nas velocidades altas e como aquilo é só subidas - não há descidas no Porto. As ruas sobem mas não descem - tudo correu bem.

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Comprei cacau e café da Indonésia e do Burundi, este a metade do preço do da loja de Viana do Castelo. A diferença de preço compensa largamente a diferença de duração da viagem de comboio. Viana fica para outros meios ambientes. Café, cacau e chá pertencem ao do Porto.

Às portas da morte

Sou o orgulhoso possuidor de duas gripes anuais nos anos normais e uma nos bons. Zero gripes só me aconteceu naqueles períodos em que não tive invernos, o que, ironias à parte, não é tão bom como pode parecer. Uma vez, num desses anos fui a Genebra em Março ou Abril e a primeira coisa que fiz foi ir a uma montanha aonde havia uns restos de neve. Não me engripei mas regressei com prazer às primeiras vezes que vi neve, ao largo do Japão e depois durante um interminável Inverno em Nakhodka.

As minhas gripes ocorrem normalmente no princípio e no fim do Inverno, naqueles períodos em que ainda é mas já não é Outono, ou já é mas ainda não é Primavera. São gripes simpáticas, pesadas, honestas que se tratam com três ou quatro dias de cama, uma quantidade copiosa de chá preto com rum branco numa proporção de metade metade (sou pela mestiçagem) e algumas terapias farmacêuticas, dependendo estas da pessoa que me está a "tratar".

Há quem troce dos efeitos que uma gripe tem num homem. São pessoas insensíveis, essas. Um homem não "parece" que está a morrer. Um homem morre com uma gripe. Um homem desvanece-se, deixa de ser, desfaz-se em suor e fica sujeito às ordens e ao sarcasmo de uma senhora (geralmente, no meu caso. Nós homens não sabemos "tratar" gripes alheias). Uma gripe está para a parte masculina da humanidade como a mudança de casca para uma lagosta: é um período de fragilidade intensa a que se segue uma ressurreição. 

Hoje creio ter escapado tangencialmente a uma dessas maleitas precoce. É a natureza a avisar-me, na sua bondade: prepara-te e avia-te, Luisinho. Não tarda estarás às portas da morte, que te acolherão com a hospitalidade do costume e te expelirão de regresso à vida real alguns dias depois, com a acrimónia de sempre.

2.2.25

Ainda é cedo. Está quase

De Fevereiro vê-se Março a olho nu.

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Chegou Fevereiro. É o Inverno a fazer uma vénia de despedida, muito rápida porque está aflito para fazer xixi. Pede a Março que venha para o palco. Março acede. Traz a Primavera no bolso, mas ainda é cedo para a mostrar.

Não sonhas, sequer

De costas para o muro, com o pelotão de fuzilamento à frente, conseguiu fugir trepando a parede com a ajuda de dois balões de hélio que se lhe vieram amarrar aos ombros. Um terceiro esvaziara-se nos soldados, levando-lhes as balas que estavam dentro das armas.

- Estás a sonhar com ladrões - dissera-lhe A.

- E tu não sonhas, sequer - respondera.

A indomável verdade é que os balões o elevaram nos ares. Quando se viu livre das inexistentes balas deixou-se cair. Aterrou na cama de A., que o acolheu de braços e olhos abertos. 

- Tem sido assim desde que a adolescência me deixou, sozinho e nu, face aos soldados todos do mundo. Salvo in extremis por três balões de gás. Às vezes quatro: reservo um para os sonhos.

A. não o levou a sério, claro. Este mundo não é para quem acredita no poder salvífico dos gases mais leves do que o ar.

Ou dos sonhos, pesados que sejam.