15.5.05
Sucesso
A corrida ao sucesso tem várias linhas de partida, e uma só meta: um epitáfio, ou um nome e duas datas numa lápide.
Amar, v. int.,
Ainda hoje ama todas as mulheres por quem se apaixonou, e todas aquelas por quem se apaixonará. Para ele, o verbo amar não tem pretérito (excepto o imperfeito, por vezes): só tem presente e futuro.
14.5.05
7.5.05
Retratos imaginários
Ele era um feminista convicto: gostava de mulheres, de todas as mulheres, não por razões meramente estéticas, afectivas ou sexuais; não: ele pensava realmente que as mulheres eram melhores do que os homens "in every way", como diz o Calypso: mais inteligentes, mais poupadas, mais fiéis (e melhores mães, acrescentava).
Contudo, um dia conheceu uma mulher por quem se apaixonou seriamente, ao lado da qual as outras perdiam o sabor, e a substância - e descobriu assim que afinal a maioria das mulheres se parece muito mais com os homens do que até aí pensara.
Contudo, um dia conheceu uma mulher por quem se apaixonou seriamente, ao lado da qual as outras perdiam o sabor, e a substância - e descobriu assim que afinal a maioria das mulheres se parece muito mais com os homens do que até aí pensara.
6.5.05
Serviço Público / Restaurantes
Na Linha há três tipos de restaurantes: os maus, os outros e o Meson Andaluz. Estou a ser injusto, claro. Esqueço o Visconde da Luz, o Beira-Mar (ambos em Cascais), o Refúgio, no Estoril, e dois ou três mais.
Mas o Meson Andaluz é o Meson Andaluz, mesmo neste infecto centro comercial; e é esplêndido. Deixem o contabilista e a Ministra das Finanças em casa e vão lá já - para festejar uma ocasião, para esquecer outras, para pensar em ti, para ajudar a suportar a tua ausência - vão à Meson Andaluz, já.
PS - e não começem tractações sem uma canja de perdiz.
Cascais Shopping, Cascais. Tel - 214 600 659
www.mesonandaluz.net (site não testado).
Mas o Meson Andaluz é o Meson Andaluz, mesmo neste infecto centro comercial; e é esplêndido. Deixem o contabilista e a Ministra das Finanças em casa e vão lá já - para festejar uma ocasião, para esquecer outras, para pensar em ti, para ajudar a suportar a tua ausência - vão à Meson Andaluz, já.
PS - e não começem tractações sem uma canja de perdiz.
Cascais Shopping, Cascais. Tel - 214 600 659
www.mesonandaluz.net (site não testado).
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Restaurantes Cascais
5.5.05
4.5.05
Não digas nada
Não digas nada, não digas mais nada, está tudo dito e feito, está tudo hoje como será amanhã, e depois. Não digas nada, não vale a pena: e não faças nada, não poderás desfazer o que fizémos, o que fizeste, o que fiz. Não digas, não mexas, não faças mais nada: atravessemos o tempo que nos resta como fotografias imóveis, estátuas de mármore; atravessêmo-lo como luz, não como sombras. Se um dia alguém conseguir tirar uma fotografia ao tempo, poderá dar, à dos momentos que passámos juntos, o nome singelo, e verdadeiro, de "Felicidade"; ou outro, falso mas igualmente singelo, de "Esperança"; ou "Amor", que não é singelo nem verdadeiro nem falso.
Não digas nada. "Lie still", dizia o Dylan Thomas, não era? Lembras-te, de como o líamos gulosos - "Do not go gentle into that good night", não era? "Do not go gentle into me" dizias-me, e eu obedecia, claro. "Lie still", ordenava-te.
Mas não era do Dylan Thomas, o verso. Era do Byron:
THERE be none of Beauty's daughters
With a magic like thee;
And like music on the waters
Is thy sweet voice to me:
When, as if its sound were causing
The charmèd ocean's pausing,
The waves lie still and gleaming,
And the lull'd winds seem dreaming:
And the midnight moon is weaving
Her bright chain o'er the deep;
Whose breast is gently heaving,
As an infant's asleep:
So the spirit bows before thee,
To listen and adore thee;
With a full but soft emotion,
Like the swell of Summer's ocean.
Há quanto tempo o esquecêramos, lembras-te? Há quanto tempo nos servíamos de palavras cuja origem ignorávamos, de que só o cheiro e o sabor nos interessavam?
Não digas nada. Não sorrias sequer, não te mexas, não assustes o vento das velas, não mudes de lugar a sombra, não digas "lua" nunca mais, "mar", "cama", "amor", "do not go gentle into that good night", "do not go gentle into me", "rage, rage, rage".
Não digas. Não digas nada. Não olhes sequer para trás, não afagues o ar como me afagavas a mim, lembras-te?, ao pequeno almoço enquanto espravas a torrada, o dia, e me sorrias "with a full but soft emotion, like the swell of Summer's ocean".
Não digas nada. "Lie still", dizia o Dylan Thomas, não era? Lembras-te, de como o líamos gulosos - "Do not go gentle into that good night", não era? "Do not go gentle into me" dizias-me, e eu obedecia, claro. "Lie still", ordenava-te.
Mas não era do Dylan Thomas, o verso. Era do Byron:
THERE be none of Beauty's daughters
With a magic like thee;
And like music on the waters
Is thy sweet voice to me:
When, as if its sound were causing
The charmèd ocean's pausing,
The waves lie still and gleaming,
And the lull'd winds seem dreaming:
And the midnight moon is weaving
Her bright chain o'er the deep;
Whose breast is gently heaving,
As an infant's asleep:
So the spirit bows before thee,
To listen and adore thee;
With a full but soft emotion,
Like the swell of Summer's ocean.
Há quanto tempo o esquecêramos, lembras-te? Há quanto tempo nos servíamos de palavras cuja origem ignorávamos, de que só o cheiro e o sabor nos interessavam?
Não digas nada. Não sorrias sequer, não te mexas, não assustes o vento das velas, não mudes de lugar a sombra, não digas "lua" nunca mais, "mar", "cama", "amor", "do not go gentle into that good night", "do not go gentle into me", "rage, rage, rage".
Não digas. Não digas nada. Não olhes sequer para trás, não afagues o ar como me afagavas a mim, lembras-te?, ao pequeno almoço enquanto espravas a torrada, o dia, e me sorrias "with a full but soft emotion, like the swell of Summer's ocean".
Conselho
"Do not try to emulate success; avoid failure" - este foi, sem sombra de dúvida, o melhor conselho que recebi nos últimos anos.
Pois
Uma dor de cabeça violenta, um fim de tarde sem sol com sol sem sol com sol, um passeio deserto, exceptuando a loira e a morena que andam depressa, tão depressa que não tenho tempo para lhes ver as caras, uma vela paralelipípeda, um jantar que espera, um chinês que espera, um mundo que espera, um cachorro batido que ladra a um homem a quem falta uma perna - apercebermo-nos-íamos, se tudo isto existisse, da sua horrível frustração por não poder dar um pontapé ao cão.
No mar, uma baleia de bossa adolescente abalroou um navio; magoou-se e, para não dar parte de fraca, pôs-se à frente de um trimaran que tentava bater o record da New York - S. Francisco (o anterior record estava com uma senhora chamada Isabelle Autissier, e antes dela com um clipper cujo nome me escapa, é de resto para isso que os clippers são feitos, para escapar - seria Flying Cloud? É possível, com um nome tão bonito estava fadado para bater records). A tarde escoa-se, lentamente, esgota-se como bonbons na loja à hora da saída da escola, o tempo derrete-se como um gelado deixado fora do congelador, e a noite chega, cega, surdo, muda.
Em terra, uma senhora zanga-se outra vez com um candeeiro que ali está, à espera dela, há anos. "Deixa-me de mão, larga-me, vai ver se estou ali, vai dar uma volta, vai passear o cão, vai morrer deitado, vai chorar para outro lado, deixa-me" - mas não se lembra que o candeeiro não pode, coitado, andar, e que se a fita com o seu grande olho único é porque não pode olhar para mais lado nenhum.
Saberá o candeeiro que o resto do mundo existe?
No mar, uma baleia de bossa adolescente abalroou um navio; magoou-se e, para não dar parte de fraca, pôs-se à frente de um trimaran que tentava bater o record da New York - S. Francisco (o anterior record estava com uma senhora chamada Isabelle Autissier, e antes dela com um clipper cujo nome me escapa, é de resto para isso que os clippers são feitos, para escapar - seria Flying Cloud? É possível, com um nome tão bonito estava fadado para bater records). A tarde escoa-se, lentamente, esgota-se como bonbons na loja à hora da saída da escola, o tempo derrete-se como um gelado deixado fora do congelador, e a noite chega, cega, surdo, muda.
Em terra, uma senhora zanga-se outra vez com um candeeiro que ali está, à espera dela, há anos. "Deixa-me de mão, larga-me, vai ver se estou ali, vai dar uma volta, vai passear o cão, vai morrer deitado, vai chorar para outro lado, deixa-me" - mas não se lembra que o candeeiro não pode, coitado, andar, e que se a fita com o seu grande olho único é porque não pode olhar para mais lado nenhum.
Saberá o candeeiro que o resto do mundo existe?
Retrato
O seu único objectivo na vida era, ou parecia ser, apaixonar-se. Objectivo esse que atingia, em média, uma vez por semana, com uma mulher diferente. Era enjoativo, ouvi-lo falar de cada uma das paixões como se fosse a definitiva, a verdadeira, a última, a melhor de todas.
Na semana seguinte recomeçava, com outra.
Na semana seguinte recomeçava, com outra.
Amo-te Porto - II
Outra coisa de que gosto sem fim no Porto são os táxis. Há alguns meses, um estudo da DECO demonstrou que no Porto 100% dos taxistas enganaram as pessoas que fizeram o teste. Em Lisboa, esse nº foi de 70%, creio - o que explica os intensos estágios que a ANTRAL está a organizar no Porto para os nosso taxistas (em Lisboa, se o estudo se cingisse aos taxistas do Aeroporto, a percentagem seria de 300% ou mais - eles conseguem o milagre de enganar várias vezes o mesmo passageiro).
Recentemente, fui de táxi, no Porto, do ponto A ao ponto B - e paguei 4 euros e qualquer coisa. No regresso, do ponto B para o ponto A, mandei parar o táxi quando o taxímetro ia nos 9 euros - e ainda tive que andar dez minutos a pé para regressar ao ponto de partida. Tenho que reconhecer que não me zanguei com o condutor - ele foi de uma gentileza inexcedível: até me explicou o caminho, apontando para a direcção contrária daquela para onde seguíamos (se fosse em Lisboa, ele ter-me-ia enganado também na indicação do caminho a pé, e teria sido mal-criado).
Recentemente, fui de táxi, no Porto, do ponto A ao ponto B - e paguei 4 euros e qualquer coisa. No regresso, do ponto B para o ponto A, mandei parar o táxi quando o taxímetro ia nos 9 euros - e ainda tive que andar dez minutos a pé para regressar ao ponto de partida. Tenho que reconhecer que não me zanguei com o condutor - ele foi de uma gentileza inexcedível: até me explicou o caminho, apontando para a direcção contrária daquela para onde seguíamos (se fosse em Lisboa, ele ter-me-ia enganado também na indicação do caminho a pé, e teria sido mal-criado).
Porto
Imagino que um dos posts abaixo vai revoltar os meus amigos portuenses, e desde já quero aqui deixar uma grande e inequívoca declaração de amor pela cidade do Porto - afinal, não é preciso um lugar ser civilizado para se gostar dele, para ser amável. Eu gosto, por exemplo, muito do Burundi e do ex-Zaire e são dois países que estão longe, muito mais longe do que o Porto, da civilização.
Há coisas que eu adoro no Porto. Uma delas é a política social. Recentemente apanhei um autocarro do Aeroporto Sá Carneiro - terna ideia, esta, dar a um aeroporto o nome de uma pessoa que morreu num desastre de avião - e reparei que no Porto os atrasados mentais, em vez de estarem fechados em instituições psiquiátricas ou de vadiar, selvaticamente como em Lisboa, pelas ruas da cidade, conduzem autocarros. Acho a política excelente, porque assim andam uniformizados, e a obrigação de ir trabalhar todos os dias dá-lhes um aspecto quase normal. Claro que depois continuam incapazes de distinguir um autocarro de um automóvel de corridas, mas isso é um pormenor a que só uma mente doentia como a dos lisboetas (que ainda há bem pouco tempo tinham a mesma política, note-se) atribui importância.
No regresso apanhei a mesma carreira, mas com outro chauffeur, e a coisa repetiu-se: um atrasado mental a conduzir um autocarro cheio de passageiros, a fazer slalom nas faixas da auto-estrada (o que só faz jus à fama de poupados que os portuenses têm, porque assim pelo menos utilizava todas as faixas a que tinha direito) e a provocar uma animada e boa disposição entre os passageiros, alguns dos quais se precipitaram para as canetas e blocos para, suponho, ali deixarem escrito o testamento. Penso que ambos os chauffeurs tinham amigos cirurgiões, especialistas em operações às cervicais, porque as travagens e acelerações eram tantas e tão bruscas que eles só podiam estar a colaborar para o bem estar material dos seus amigos.
Também gostei imenso do Aeroporto - sobretudo da área das partidas - que deixei com um doce suspiro de saudades antecipadas.
Há coisas que eu adoro no Porto. Uma delas é a política social. Recentemente apanhei um autocarro do Aeroporto Sá Carneiro - terna ideia, esta, dar a um aeroporto o nome de uma pessoa que morreu num desastre de avião - e reparei que no Porto os atrasados mentais, em vez de estarem fechados em instituições psiquiátricas ou de vadiar, selvaticamente como em Lisboa, pelas ruas da cidade, conduzem autocarros. Acho a política excelente, porque assim andam uniformizados, e a obrigação de ir trabalhar todos os dias dá-lhes um aspecto quase normal. Claro que depois continuam incapazes de distinguir um autocarro de um automóvel de corridas, mas isso é um pormenor a que só uma mente doentia como a dos lisboetas (que ainda há bem pouco tempo tinham a mesma política, note-se) atribui importância.
No regresso apanhei a mesma carreira, mas com outro chauffeur, e a coisa repetiu-se: um atrasado mental a conduzir um autocarro cheio de passageiros, a fazer slalom nas faixas da auto-estrada (o que só faz jus à fama de poupados que os portuenses têm, porque assim pelo menos utilizava todas as faixas a que tinha direito) e a provocar uma animada e boa disposição entre os passageiros, alguns dos quais se precipitaram para as canetas e blocos para, suponho, ali deixarem escrito o testamento. Penso que ambos os chauffeurs tinham amigos cirurgiões, especialistas em operações às cervicais, porque as travagens e acelerações eram tantas e tão bruscas que eles só podiam estar a colaborar para o bem estar material dos seus amigos.
Também gostei imenso do Aeroporto - sobretudo da área das partidas - que deixei com um doce suspiro de saudades antecipadas.
Doce e boa Lisboa
O Restaurante Palmeira é bonito, tem um vinho tinto sublime - digo-o sem ironia: é muito bom, e com o que sobrar da pequena garrafa que se obtém encomendando um copo podem pintar as paredes da adega ou tingir os sofás da sala.
Lisboa é a melhor cidade do mundo, porque é a única cidade civilizada que conheço onde se pode engraxar os sapatos, comprar um pingalim de dressage lindo e almoçar no restaurante Palmeira por pouco mais de uma vintena (já uma vez engraxei os sapatos no Porto, mas depois comi pessimamente - o que no Porto é difícil - e além disso o Porto não é bem uma cidade civilizada, apesar de parecer e apesar de lá ter os ingleses do vinho há tanto tempo).
No Restaurante Palmeira a média de idades é ligeiramente superior a 60 (anos), o que só por si indicia, como diria eu se fosse jornalista, que estamos no sítio certo para, mais do que comer bem, sermos apaparicados. A carta é dilemática, multi-dilemática: como escolher entre Caras de Bacalhau com Grão e Corvina Cozida (ambas a seis euros)? Como resistir a passar fome até amanhã e não encomendar já uma cabeça de Pescada a 12 euros (para duas pessoas, claro, e infelizmente só por encomenda)? Como resistir à simpatia do Sr. Rodrigo e não encomendar a carta toda, uma dose de cada, só para experimentar - Sr. Rodrigo esse que não me fez pagar a aguardente só porque não gostei dela?
O Restaurante Palmeira é bonito, serve comida boa, barata e rápida, e fica situado na Rua do Crucifixo, 69 - 73 (é nestes momentos que aprecio o facto de o Don Vivo ter tão poucos leitores: posso revelar estes endereços sem depois precisar de começar a reservar o restaurante com três meses de antecedência).
Lisboa é a melhor cidade do mundo, porque é a única cidade civilizada que conheço onde se pode engraxar os sapatos, comprar um pingalim de dressage lindo e almoçar no restaurante Palmeira por pouco mais de uma vintena (já uma vez engraxei os sapatos no Porto, mas depois comi pessimamente - o que no Porto é difícil - e além disso o Porto não é bem uma cidade civilizada, apesar de parecer e apesar de lá ter os ingleses do vinho há tanto tempo).
No Restaurante Palmeira a média de idades é ligeiramente superior a 60 (anos), o que só por si indicia, como diria eu se fosse jornalista, que estamos no sítio certo para, mais do que comer bem, sermos apaparicados. A carta é dilemática, multi-dilemática: como escolher entre Caras de Bacalhau com Grão e Corvina Cozida (ambas a seis euros)? Como resistir a passar fome até amanhã e não encomendar já uma cabeça de Pescada a 12 euros (para duas pessoas, claro, e infelizmente só por encomenda)? Como resistir à simpatia do Sr. Rodrigo e não encomendar a carta toda, uma dose de cada, só para experimentar - Sr. Rodrigo esse que não me fez pagar a aguardente só porque não gostei dela?
O Restaurante Palmeira é bonito, serve comida boa, barata e rápida, e fica situado na Rua do Crucifixo, 69 - 73 (é nestes momentos que aprecio o facto de o Don Vivo ter tão poucos leitores: posso revelar estes endereços sem depois precisar de começar a reservar o restaurante com três meses de antecedência).
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Restaurantes Lisboa
2.5.05
1.5.05
Pequenos passos
Sócrates preferirá ser o menos mau dos Primeiro-Ministros, ou um bom Primeiro-Ministro?
PS - A ler: Pequenos Passos versus Reformas Estruturais, I e II, no Bloguítica.
PS - A ler: Pequenos Passos versus Reformas Estruturais, I e II, no Bloguítica.
30.4.05
There's no place
"There's no place left to go"..., canta o Nick Cave, - "excepto a casa onde agora habitas, a da memória" - acrescento sem querer.
26.4.05
Retratos imaginários
- Vou passear os cães, - dizia-me. Referia-se a um pastor alemão e a um filho doente mental, que caminhava de cabeça murcha e sorriso leal. - Como um rafeiro, - explicava-me desgostado.
Gramática do amor
Quero amar-te, escrever-te letra a letra, milímetro a milímetro de pele, pôr os pontos nos seios e no teu ventre um ponto final, parágrafo; quero escrever-te, amar-te, em cada olhar uma oração, em cada silêncio uma sílaba, em cada desejo um verbo; quero amar-te e escrever-te em versos livres que és a minha prisão favorita, a minha gramática, a semântica dos meus sentidos, o predicado da minha vida, o tempo do meu futuro, um presente que o presente me deu.
Quero amar-te e escrever-te em longas frases silenciosas todos os dias, todo o dia, e dizer-te que quero percorrer-te letra a letra, sílaba a sílaba, palavra a palavra, murmúrio a murmúrio.
Quero amar-te e escrever-te em longas frases silenciosas todos os dias, todo o dia, e dizer-te que quero percorrer-te letra a letra, sílaba a sílaba, palavra a palavra, murmúrio a murmúrio.
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