20.9.17

Paradoxos e confirmações

Roubaram-me a carteira e dou por mim a pensar na sorte que tive: uma lição relativamente barata. Podia ter sido muito pior.

E a confirmação do que há muito penso: quando se tem dinheiro mais vale gastá-lo depressa. Se não formos nós a fazê-lo ele gasta-se sozinho.

17.9.17

Missa das seis

As tardes de domingo no café Tati em que o trompete do Gonçalo Marques está encantado, em estado de graça e acompanhado por um baixo que paira pelas mesmas alturas.

Bom filho...

Regresso à Vivenda Solidão, de onde nunca devia ter saído. 

Presente?

Gosto do futuro: é mulher e bonita. Já o passado se parece com o Brutus do Popeye. Ou será o presente? 

Mergulho

Mergulho lento na noite, no sono. Como se a dor fosse a prancha de uma piscina e as horas um longo e desgracioso arco no ar denso, ardente e viscoso da vida.

Não é, não são. Imagine-se um céu sem núvens, um mar sem vagas, uma porta sem chave. Um corpo sem desejo, uma mente sem ideias. Estariam mais perto do deserto.

Fossas

Vamos então por partes, pode ser? As baixas são o imediato, as altas o que vem mais longe.

No meio fica a fossa séptica do presente.

Misturas

A água e o azeite não se misturam bem. Resta saber quem é água e quem é azeite.

16.9.17

As cores dos velhos

Querem um mundo como um cubo de Rubik, já feito. As faces todas da mesma cor, nada de misturas nem desordens. Mundos tristes, monocromáticos, acordantes, cada cor no seu lugar.

São mais velhos do que os velhos contra os quais eu me rebelava quando tinha vinte anos.

Grândola vila morena / Para não dizerem que não falei de flores

Gente triste, tacanha, pequena. Quanto mais apregoa a igualdade menos sabe conviver com a diferença, aceitá-la, discuti-la.

13.9.17

Serviço Público - Restaurantes Portimão

Um restaurante em Portimão que lamento não ter conhecido antes:

Tapa Latina
Largo do Dique 16,
T: 282 459 129

(Isto apesar de embirrar com a porcaria do "tapas" em Portugal. Petiscos tem mais sílabas e é mais bonito). 

11.9.17

Diário de Bordos - Lisboa, 11-09-2017

Para quem não sabe: o melhor café do mundo é uma livraria e chama-se Ler Devagar. Fica em Lisboa - mais precisamente em Alcântara, numa coisa chamada Lx Factory -. É aqui que hoje me embebedo (devagar, porque sou um rapazinho obediente). Bebo Colonels fictícios - a Ler Devagar não vende sorvetes, de modo vou à geladaria que lhe fica à frente e só tem sorvete de limão com manjericão (também conhecido por basílico) - enquanto oiço Smiths, a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e apropriado ao dia, à tarde e ao espírito da coisa.

Devo dizer que comecei noutro sítio - num restaurante chamado Beira-Rio que por acaso (mas só por acaso) é um dos melhores restaurantes de Lisboa. Foi no Beira-Rio que a minha lenta e inocente escorregadela começou. O calor e a Lx Factory fizeram o resto.

Acho bem que as pessoa se embebedem devagar, como lêem, fodem ou cozinham (isto é considerar que faço parte do grupo "Pessoas", assumpção que não é líquida, por assim dizer). Estou contente: ainda não comprei um único livro (os livros são uma forma estúpida de gastar dinheiro que nos faz falta para bebidas, porque as bebidas actuam imediatamente e os livros têm, por vezes, de esperar duzentos anos) e tudo indica que resistirei - ou pelo menos comprarei livros baratos, cuja pressão sobre a consciência se não os ler é menor -.

Vi a Maria João M., cada vez mais bonita - aquela mistura de olhos nos quais me poderia afogar com cabelos brancos nos quais me poderia estrangular é uma promessa de morte deliciosa -. E vim à Ler Devagar, durante um ano a minha casa e que ainda hoje me faz pensar que Lisboa é para mim uma colecção de casas nas quais não vivo, uma colecção de ruas nas quais não durmo, uma colecção de cafés nos quais por vezes me embebedo devagar, uma colecção de miúdas das quais acho lindos os olhos, uma colecção de misturas nas quais por vezes poderia morrer e outras ressuscitar, uma colecção de vidas, mortes, olhos e livros na qual nado como se a felicidade fosse uma piscina (não é: não passa de uma ilusão de óptica).

Tudo isto com a cabeça em Évora, milagre daquela mistura de cabeça e de Évora que tem um nome começado por C., palavra esdrúxula (são as mais interessantes) e sorriso infinito.

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Data funesta, a de hoje.

10.9.17

Diversos (ternura, desejo, vida)

Não comparo vidas, nem pessoas; nem dias ou noites, apesar de saber que as há melhores algumas do que outras. Estou-me nas tintas: sejam o que querem ou podem ser. Eu faço o mesmo. Equilíbrio instável entre o que quero e posso. Estão empatados, com ligeira vantagem para o quero.

Isto aplica-se mesmo aos dias em que a realidade me cai em cima feita camartelo: essa realidade é a que eu quis, por defeito ou activamente.

Não vale a pena chorar: as lágrimas são coisas importantes demais para se dilapidarem em auto-comiserações absurdas: queixar-me da vida seria queixar-me de mim.

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- No fundo tenho sorte.
- Define "sorte" e "no fundo".
- Morte e mundo.
- Mais do que sorte tens vida.

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Vejo-te os seios e o sorriso: vejo-te o desejo.

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Planície a cavalo, ao contrário: tu por cima a galope eu por baixo a amar.

9.9.17

Mais do que fragmento

Amo-te de amar vasto, extenso amor. Olha nos olhos o olhar que olha o vento. Verás a vastidão azul do mar, esse azul que nos corre na pele no futuro nos lábios quando dizemos Amo-te. Amor azul, cor de amor e amar.

Dar cor aos gestos: tu és azul. Fogo lento, azul e verde.

Amo-te: azul e rosa, amarelo e toda; todas as cores.

(Para a C., na planície).

8.9.17

Santinímetro (Cascais)

Um gajo que anda - outra vez - a tomar a quantidade de remédios que eu tomo quotidianamente tem direito a gelados, rum, batatas fritas, vinho tinto e mai-lo raio que o parta (a ele, não ao leitor).

Hoje fiz uma mistura mais ou menos desordenada disso tudo, sendo que o gelado (e objecto desta nota) foi um Santini.

A história é longa e deve ser contada: no meu caminho para a estação fui pela Rua do Santini em vez de ir pela Rua Direita porque "é sempre bom confirmar que há uma bicha enorme à porta do Santini e portanto não há risco de poder comprar um" e porque tenho a melhor defesa contra a compra de livros na Galileu: uma angustiante falta de notas na carteira. Não há tentação que sobreviva à estratégia da carteira vazia, assim nomeada em memória dos dias de carteira cheia.

Fui portanto pela Rua do Santini. Folheei rapidamente meia dúzia de livros na livraria mas nem lhes olhei para o preço, nunca fiando; no Santini não havia bicha.

Calma. Chego ao âmago da questão.

O sabor marabunta e o sabor maracujá têm em comum as duas primeiras sílabas, o facto de serem ambos excelentes e o de não se misturarem bem. Isto é, de todo. O jovem brasileiro que me sugeriu a mistura ou ----, ou não percebe nada daquilo (os tracinhos substituem as hipóteses que os leitores acharem plausiveis).

Ou seja: mara sim, mas ou bunta ou cujá. Não as duas.

Diário de Bordos - Cascais, Portugal, 08-09-2017

Está uma noite linda, muito calma, vento Norte mas fraco, o barco em bom estado, limpo, tudo funciona, o arrais é porreiro e eu estou com o telefone desligado porque não tenho muita bateria mas ligo-o só para dizer isto: está uma noite linda, muito calma e por aí fora. Estou para norte de Aljezur, não sei o nome da terra da qual vejo as luzes, mesmo à direita do trilho da lua no mar que ainda está um bocado alaranjado. Na amura de estibordo vejo o farol do Cabo Sardão e o meu cotovelo de vez em quando - largamente de vez em quando - tenta lembrar-me que existe mas eu não lhe ligo peva. Um sacana que me fez a cena de ontem não merece consideração nenhuma. O motor parece um relógio suíço e o armador era uma simpatia. Vi-o talvez três minutos, se tanto.

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E agora cheguei, vim comer um hambúrguer ao Skipper e aproveito de caminho bebo um rum ou dois. A marina continua na mesma, dizem-me pessoas e vozes: a marina mais mal gerida do hemisfério ocidental, um santuário de incompetência, coio de incapazes numa localização que desmente aquela máxima do imobiliário: localização repetida três vezes.

Estou-me ligeiramente nas tintas. Tudo tem remédio e o que não tem remediado está. Agora o objectivo é fechar Outubro, que está aberto escancarado. E fechar-me a mim, que estou pior ainda e só na quinta-feira tenho médico.

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As minhas viagens de inspecção turística dos hospitais do país continua. O último foi o de Évora. Se alguém conhece um Tripadvisor para hospitais é favor dizer. Sei lá, Sickadvisor, por exemplo.

Aborreço-me, chateio-me, espumo ainda mais porque isto nada tem a ver com nada se não a minha negligência.

O hospital foi porreiro. Em menos de duas horas tinha uma receita para duzentos e cinquenta medicamentos e uma sugestão: "vá à faca". É frequente os médicos pensarem que a minha negligência comigo próprio tem a ver com o medo. Não tem. É simplesmente uma lacuna do meu egocentrismo, associada a uma total ausência de hipocondria.

Talvez no fundo seja simplesmente mais doente e menos narcísico do que sempre pensei.

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O Soggy Dollar está quase destruído, vi uma fotografia. Sorte o Painkiller ser património imaterial da humanidade...

5.9.17

Diário de Bordos - Comboio Lisboa - Évora, Portugal, 05-09-2017

Começo pelo fim, que foi o princípio do dia de hoje: dar graças ao senhor revisor da CP que me autorizou a bicicleta no comboio, desincentivou a compra de um suplemento primeira classe por causa da dita bicicleta e me disse para a trazer para o bar (infelizmente fechado; mas se estivesse aberto não a poderia ter comigo aqui), neste comboio cujas rodas são ovais, a julgar pelos solavancos
[o revisor diz-me que "vamos a duzentos quilómetros por hora", quando faço a observação. É bom ver pessoas com brio profissional, apesar de me parecerem demasiados quilómetros para tão poucas horas].

A Peugeotte [Le Mans, vejo agora] aguenta-se, apoiada nos tamboretes de bar; eu lá vou falhando regularmente a pontaria dos dedos nas teclas. Mas portamo-nos todos bem: ela, eu, as minhas diferentes dores e os meus sacos. Fazemos um conjunto coerente, parece que vamos a caminho de um livro de Beckett. "Miguel ressuscita"... Humm, demasiado optimista para título do Samuel, mas "Miguel tropeça e cai" não é verdade. Faltaria "e levanta-se, feliz da vida".

Enfim, mais ou menos. Não me queixo, essa é que é a verdade: aspiro a uma vida mais calma, é tudo. Desde que continue a incluir Painkillers no Soggy Dollar, pintxos na 5ª Puñeta (fica em Palma e chama-se mesmo assim), mar e vento e sol e velas no mar (numa embarcação em bom estado), tapas em la Coruña, rum punches no Lagoonies em St. Martin, livros em todo o lado, poesia no Povo às segundas-feiras e jazz no Tati aos domingos.

(Por falar em Tati: fui lá jantar, recentemente. É tão impossível comer mal no café Tati como ler uma frase má escrita pelo Garcia Marquez. Há pessoas assim, não é? Mesmo que quisessem não seriam capazes de fazer o que fazem mal feito).

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A patetice e o patético são dois postes de uma baliza que andam quase sempre juntos; nem sempre, claro: há muitos patetas que não são patéticos. Vice-versa. Ainda não percebi bem é se quando andam juntos se atenuam ou se pelo contrário se potenciam.

Não sei. Mas sei que a palermice tem uma forma estranha de lidar com as asneiras, a própria e a alheia: aquela não existe e esta é ubíqua. Ouvir um palerma falar da palermice é como ouvir um português falar dos portugueses: parece que é de Marte (ou Vénus, respectivamente).

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O Verão passou depressa, queixa-se um cartoon que vi hoje no Facebook. Também acho. Em Dezembro será pior ainda e eu estarei a caminho de St. Maarten, talvez. Estou inquieto com o Irma: é forte e vai passar mesmo por cima. Espero que os meus amigos lá atravessem esta prova e saiam ilesos.

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Embato de novo com o ritmo de trabalho português, com a falta de respeito pelos elos fracos da corrente e subserviência perante os mais fortes. "Portugal é um país de merdosos", disse um dia José Miguel Júdice. Não conheço a produção intelectual do homem mas esta é uma grande verdade.

Decidi porém que não me queixo: é mal-educado queixarmo-nos de um país que não é o nosso. Quem não está bem muda-se e eu não me mudo. Nem mudo.

3.9.17

Dores e flechas

A aljava das dores está cheia; mas o arco da esperança funciona. Não sei bem como é o mecanismo: tira uma dor como se fosse uma flecha e lança-a para longe? Ou pega numa dor, atira-a ao ar e trespassa-a com uma flecha? Não sei.

Sei que de um lado tenho um saco de dores e do outro uma forma de o esvaziar. Ou pelo menos aligeirar e é isso que me interessa: um índio pequenino quase nu que dispara flechas certeiras e cada uma dessas flechas leva ou trespassa uma dor.

2.9.17

Patologias e sociedade

Não deixa de ser paradoxal que a agorafobia seja uma patologia socialmente aceite.

Pelo menos espero que sim.

1.9.17

Diário de Bordos - Lisboa, 01-09-2017

Noite de tango no Irreal. O som é sofrível, há muitos casais que dançam para lá de bem, a atmosfera fantástica. O tango deve ter nascido assim: mais atento ao intangível do que à técnica.

Lembro-me - é inevitável - da tasca em San Telmo onde tive o privilégio de ouvir uma lição de tango que durou uma tarde e imagino que, exceptuando o tamanho, as noites de sextas e sábados de tango ali deviam ser como estas: escuras, quentes e bonitas.

Talvez aqui não haja casamentos improvisados. Não haverá de certeza. Já ninguém se casa, de qualquer forma.

Lembro-me das palavras de Rachel, professora de tango: "o tango é uma dança em que o homem manda, a mulher segue e os dois sentem".

Como será o mundo das pessoas que lutam pelo fim dos estereótipos de género, pelo fim da desigualdade, da violência, do capitalismo, da força, da injustiça, das touradas, da iniquidade, de tudo o que acham errado (E algumas coisas são, sem dúvida)?

Um mundo triste, ainda mais violento do que este, mais desigual, mais injusto. Não é acabando com as imperfeições que se alcança a perfeição. É fazendo-as anular-se.

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Amanhã vou confrontar-me com a mais horrível,  a mais injusta, a mais impossível das injustiças: a morte prematura de uma pessoa que não merecia morrer, uma mulher que a morte não merece, era bonita de mais, aérea, lunar, leve como o sorriso que nunca a largava.

A morte está-se nas tintas para a injustiça; e a vida também. Há uma dor que se vai juntar ao já largo alforje delas; e nós vamos continuar a viver e a carregá-lo. Não há mais nada a fazer se não esperar que o tempo o aligeire, no que for possível.