14.6.21

Duas ilusões e uma farsa

Gosto de me sentar no Mercat de l'Olivar e ver passar mamas e olhares. Sou mais sensível a estes do que àquelas, mas aprecio os dois (ou quatro, para os mais preciosistas). Gosto de ver um par de olhos bonitos, é verdade; mas o que lhes está por trás é mais importante. Sempre gostei de carinhas larocas, mas também sempre lhes preferi cabeças inteligentes. Das mamas tenho igualmente uma opinião ambivalente: tendo sido feitas (pela evolução) para ser tocadas, olhadas só mostram metade daquilo para que foram feitas. Porém, todas as mamas são bonitas, todos os olhos. Grandes, pequenas, médias, caídas ou levantadas, não há mamas feias, como não há olhos. Só conta o que os sustenta - e não me refiro ao soutien-gorge.

Ou seja: sento-me no mercado a olhar para duas ilusões, enquanto como secretos de porco  que são uma delícia (real) e penso no meu P.  Verdade seja dita, presentemente o meu cérebro só têm duas divisões: uma para o P., outra para a R. Quando não penso num penso na outra e vice-versa.

O meu alfabeto é tão curto, não é? (E eu tão mentiroso... A Covid tão pouco me larga.)

12.6.21

A farsa que mudou o mundo. 7 Machos. Palma.

Continuo a minha via dolorosa. Hoje vim ao 7 Machos beber uma Margarita como deve ser. A Lina lembra-se de como eu as quero (secas, com gelo em cubos), o Johnson está de regresso à cozinha e - prémio - o Mark agora trabalha aqui. Santa Catalina está a abarrotar, cheia de gente na rua e ninguém (enfim, quase) com máscara. No canto vizinho do meu, uma cubana (suponho) faz-me pensar na sorte que o meu Pai teve e no maldito elástico que tenho nas costas cada vez que me aproximo de Cuba: puxa-me para trás, não me deixa pôr pé em terra. Já tentei três vezes.

É curioso como as nossas apreciações mudam com as circunstâncias. Sempre detestei Sant Magi e nunca aqui vinha ao fim-de-semana, porque detesto esta boémia que mais parece uma ejaculação precoce a derramar-se pela rua abaixo. Hoje foi um gozo sem fim vê-la. O mundo não será decididamente o mesmo depois desta farsa. A farsa que mudou o mundo.

PS - A senhora não é cubana. É equatoriana. 

Prequelas

Sabe-se que a Covid pode ter sequelas graves. Menos conhecido é o facto - comprovado - de ter prequelas. As mais frequentes sendo: independência de espírito, indefectível sentimento de liberdade, espírito crítico e racionalidade.

Curiosamente, estas prequelas imunizam a pessoa e protegem-na ab ante.

Descarrilar

Ser contra a modernidade é como querer parar um comboio que vem a toda a velocidade contra nós? É, sem dúvida. De nada serve especarmo-nos no meio da linha e tentar pará-lo. Ele esmagar-nos-á.

Mais vale dar um passo para o lado e deixá-lo passar. Descarrilar, por assim dizer.

Tempos interessantes?

A modernidade erigiu o medo em virtude suprema. Ter medo é bom, é ser inteligente, altruísta, pensar nos outros. Já não se pode "negociar" com o medo (que é o que os valentes fazem. Ser valente não é não ter medo. Isso é ser idiota. Ser valente é lidar com o medo). Tem que se destroçar o que provoca o medo, destruir a causa do medo, aniquilá-la, reduzi-la a nada, suprimi-la. Ser valente, enfrentar o medo é ser irresponsável - e pior ainda, irresponsável social. Ninguém é nada pessoalmente: somos todos parte de um grupo, de uma "identidade".

O medo como valor, a biologia relegada para o caixote de lixo da ideologia, a mentira aceite se for em nome do medo, da paz social ou de outra fé qualquer, a crença no poder da palavra («os confinamentos funcionam porque funcionam, porque Macron diz que funcionam e porque Trump ou Bolsonaro dizem que não funcionam», por exemplo. Mas há muitos mais). Ouvir é preferido a ver, a olhar, a procurar: privilegia-se a passividade - o que não é de espantar: a única acção socialmente aceite passa-se nos monitores dos computadores. À rua, as crianças só vão acompanhadas, protegidas. O pensamento mágico ressurgiu, reemergiu após este breve período de racionalidade que o Ocidente viveu no século XIX e na primeira metade do XX.

Como é aquela maldição chinesa sobre viver tempos interessantes?

Gente perigosa

"Solo viaja la gente peligrosa: soldados, mercenarios y traficantes de esclavos", leio no Prólogo de El infinito em un junco, de Irene Vallejo. É uma história do livro, li recentemente uma crítica bastante positiva e fiquei curioso.

Mas o que me interessa não é isso. É: "Só a gente perigosa viaja". Nunca me vi como perigoso, longe disso, mas à face da Covid compreendo e ilumino a frase. Nós nómadas somos perigosos. Com ou sem vírus, o  nómada é aquele que viu outras coisas. Que viu e não pode desver o que viu. Aprendeu o cepticismo pela via da prática e não pela teoria. Nós nómadas sabemos que há várias verdades, porque as vemos; e sabemos que a nossa é a melhor porque a transportamos connosco, porque resiste, porque se adapta, acrescenta. A cada paragem a nossa verdade engorda e confirma-se, num processo dúbio, biunívoco, fágico. Por isso somos perigosos: aprendemos, comparamos, vivemos com e pela diferença. 

O nómada é perigoso numa ordem estática, tal como o sedentário seria perigoso numa tribo nómada: a erva é mais verde no prado do vizinho.

Isto tudo dito, concordo com a asserção inicial: a gente que viaja é perigosa. 

11.6.21

Inevitabilidade

A noite estival cai em Palma como a mulher de um casal antigo sobre o homem que conhece há trinta anos: com uma mistura de desejo e inevitabilidade. 

Palma, Cohen

Palma chama por mim e diz-me adeus ao mesmo tempo. Parece uma história de amor de Leonard Cohen.

A praça e os copos esvaziam-se ao mesmo ritmo: lento. O ritmo de uma história de amor que chega naturalmente ao fim. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-06-2021

Se bem me lembro, a Via Dolorosa tinha doze estações. Uso o pretérito imperfeito porque agora já só uso a expressão num sentido jocoso. A Via Dolorosa jocosa de Palma tem muito mais do que doze estações: Lo Divino, Antiquari, Mise en Place, La Cantina, Bodega Bellver, La Bodeguita del Centro, Gustar, Abracadabra, Quinta Puñeta, Mini-restaurante Casa Julio (sic), La Quadra del Maño, Makaria, Sete Machos, Bar Rita, Ca na Chinchilla, Viniloteca, Mercat de l'Olivar (só aqui há quatro ou cinco estações), Plaça D'en Coll, o Toni na praça de Sta. Eulália, onde agora como uma tortilha  e duas almôndegas (estas presente da casa)... a lista é interminável e bom praticante que sou vou percorrendo o caminho todo, cruz aos ombros e copo na mão. Ontem bebi metade do álcool que Palma tem disponível (sou um rapazinho sensato. Se não fosse teria esgotado os stocks) de modo hoje o percurso vai mais lento e mais frugal. Cada vez que me reencontro com Palma ela entra-me pela boca abaixo, pelos olhos acima, pelo espanto: chego aqui e é a primeira vez, cada vez. As mulheres continuam lindas e mascaradas mas as ruas têm hoje mais gente do que da última vez e menos do que da próxima, aposto. Palma vive e respira, apesar de estar ainda manietada. Já eu ando mais solto. O I. não tinha a Órbita pronta e a minha reacção foi je m'en fous, me dá igual, poco importa, who cares. Tê-la-ei amanhã, palavra mágica que acolhe a metade do mundo que já foi e a metade que está para ser. Tudo aconteceu amanhã, dia em que tudo vai acontecer.

.........
«Aluguei» uma BTwin ao I. (entre aspas porque se se atreve a cobrar-me seja o que for... eu pago, ponto. Sei que não vai cobrar-me nada), pedalo por essas ruas fora e sinto-me como se estivesse num tapete rolante daqueles dos ginásios: pedalo imóvel e a cidade desliza por baixo de mim, ela mexe-se, chama-me, acena-me e eu sentado imperialmente na minha burra vejo-a passar e páro em cada estação, na medida do possível. 

........
Hoje varei o P. Vi-o claramente a fazer cabriolas de alegria - também ele sente o fim próximo, já estamos na última linha do último parágrafo e qualquer dia viramos a página. Ó tempo abensonhado, como lhe chamou o Mia Couto, se não me engano. Abensonhado, tanto que eu sonhei com ele a bem, tanto que desesperei dele, tanto que o insultei e lhe rezei. Está aí, à porta, a última linha do último parágrafo deste capítulo. Não tarda começa outro.

.........
O amor bateu-me à porta e eu abri-a. Tem nome de flor e é uma flor. Deixei-a entrar e fechei a porta: daqui não sais, daqui ninguém te tira.

10.6.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha - 10-06-2021

Regresso a Palma vazio de emoções. Ou melhor: vazio de emoções que não tenham a ver com esta fraude que me enche, recheia, hipnotiza, asfixia. Entra-se no aeroporto e ouve-se «A máscara por cima do nariz» e é até ao sacana do táxi, seis horas depois - por inacreditável coincidência o mesmo que me trouxe da última vez, quando tivemos quase a mesma conversa. Quase, porque na altura ainda não me pegava por sistema, como hoje tenho tendência a fazer. É um puto novo, trinta e poucos anos, mas acredita firmemente que quando a pandemia acalma é por causa das medidas e quando desacalma é porque as pessoas se portam mal. Os países protestantes talvez sejam melhor para viver este tipo de crises, não? Não sei.

A verdade é que este «vazio de emoções» não é inteiramente verdade: penso no Harry Belafonte e na «little girl» que ele deixou em Kingston Town.

But I'm sad to say I'm on my way
Won't be back for many a day
My heart is down, my head is turning around
I had to leave a little girl in Kingston Town

Penso nas «casas» que vou reencontrar em Palma: a Chinchilla (cf. infra), Lo Divino, que reabriu agora que as regras «aliviaram» (isto de as pessoas ficarem contentes com esse "alívio das regras" é como uma senhora ser violada e ficar agradecida porque o violador lhe oferece um lenço para se limpar), o Antiquari... todas, todas.

(Cena de hoje na Chinchilla: antes de me ir embora deixei vinte euros para pagar uma despesa de quatro, porque o táxi chegara e não podia esperar. Hoje, o A. deu-me o troco, que estava guardado. Foi há quase um mês...)

E assim o dia / noite vai decorrendo. Sublime jantar de boquerones fritos e involtini de pez no Divino, um Dark and Stormy que não é nem dark nem stormy e é carérrimo depois. 


6.6.21

Hipocrisia, irracionalismo

No fundo, aquilo que agora se designa por hipocrisia não passa do irracionalismo que o Ocidente erigiu em sistema de "pensamento", entre aspas porque é um oxímoro. «Tanto a Ilíada como a relatividade são filhas da imaginação», diz Veyne. Verdade incontornável, mas isso não as põe no mesmo plano. No mesmo cenário, digamos. Cenários esses que a modernidade confunde, talvez por causa do relativismo, que faz equivaler todas as verdades. Estranhamente, esse relativismo esvai-se perante sociedades que o não partilham. Isto é: todas menos a ocidental. Só defendemos as nossas opções em casa. Fora, aceitamos sem vacilar as regras do outro. Não por deferência ou educação, mas porque nos esquecemos das nossas.

On n'a pas gagné

«Ce n'est donc pas une histoire édifiante que nous racontons ici, celle de la raison contre le mythe. Car la raison n'a pas gagné, on le verra...» 

P. Veyne, in Les Grecs ont-ils cru à leurs mythes?

5.6.21

Granito, sorriso, tangível

Nada disto é simples. Quero dizer: se por exemplo deres uma volta ao mundo e regressares ao lugar de onde partiste - a chamada volta ao mundo perfeita - o lugar mudou durante a tua ausência; e tu mudaste, mesmo estando sempre presente em ti. As coisas acontecem com ou sem nós, como se não  passássemos de meras ilusões ópticas. Ou tácteis, se preferires, tu que tanto gostas de tocar, do que é tangível.

Tens, é certo, uma noção peculiar do que é tangível: um sonho, um seio, um ventre, uma vaga, meia dúzia de sílabas juntas ou separadas... Nada do que te toca te foge ao toque. Tudo o que te toca é imediatamente tangível. Há uma certa ingenuidade nisso, ambos o sabemos: acreditar que a pessoa com que agora sonhas é tangível porque o seio com que sonhas o é demonstra - estou seguro de que concordarás - uma certa inocência, uma espécie de virgindade do espírito, a lisura aquática de um lago num dia sem vento, o luar que nessa lisura se reflecte sem querer, o sonho de uma folha de árvore desse dia sem vento, o sorriso da jovem que de repente descobre que já não é adolescente e te pode esperar ao seu lado, nessa noite lisa, sem vento e prateada.

Todo este tempo a realidade limou as garras em ti mas tu não lhe sentes as marcas, envolto nessa ingenuidade tangível que construiste com o pó das garras que a realidade foi deixando em ti. Cicatrizas depressa, cais e levantas-te ainda mais depressa, sorris como se não soubesses chorar.

Tu, que tanto e tão bem choras, sorris e tocas a ausência, a presença, o mundo do qual e ao qual regressas com uma granítica e palpável certeza.


(Para os meus filhos T. e H.)

3.6.21

Abismo, gravidade, amor

Deixa-me explicar-te: amar é um risco. Só um imbecil se entrega ao amor como se mergulhasse em água de que desconhece a profundidade, sem ao menos pôr os braços à frente. Como se mergulhasse de cabeça com os braços ao longo do corpo, soldadinho de chumbo atirando-se para as chamas do fundidor. Nada disso. Amar-te é um risco porque amar é um risco mas ser amado por ti é um risco ainda maior. 

Não te esqueças: o metalúrgico está lá em baixo, a nossa espera. À espera do primeiro que caia. Mergulhemos sim, mas com precauções: passo a passo. Mais vale cair devagar no abismo, minha querida.

Verdade seja dita: não temos escolha, pois não? Conheces algum abismo que resista à gravidade? Eu não. 

Vergonha, decência, passado

Post em linha recta.

Pergunto-me se a decência de um homem se pode medir pela quantidade de coisas de que se envergonha no seu passado?

Talvez no fundo a decência não seja mais do que o cúmulo dos erros, asneiras, actos e omissões que vão ficando para trás e não se repetem por... porquê?

Diário de Bordos - Bissau, Guiné, 02-06-2021

Hoje tive sorte: saí do Kais a pensar que teria de voltar a pé para o hotel e em dois minutos pára um moto-táxi à minha frente. Hoje tive sorte: voltei ao Kais, a música era aceitável, a caipirinha "tropical" era excelente. Tive sorte: o caldo verde de caldo verde só tinha o nome e a boa vontade do cozinheiro, mas o hambúrguer era quase um hambúrguer e o vinho não era mau.

Na mesa ao meu lado estavam sentadas três jovens "não governamentais". Uma era obesa, portanto não conta, perdoem-me os inclusivistas todos. As outras duas eram giras. Há uns anos teriam sido... Como se diz em português? Caça? Terreno de jogos? Desafio? Não sei. Pouco me interessa hoje o que hoje não me interessa de todo. (Isto faz lembrar aquela fábula do La Fontaine, não faz? Faz.)

África ainda é para mim o mesmo turbilhão de há uns vinte anos. Porque aceitamos aqui o que não aceitaríamos nos nossos países: ruas que são esgotos a céu aberto, com mais buracos do que as crateras lunares, pobreza (verdade seja dita: não vi miséria, aqui), nepotismo, o desprezo das castas superiores pelas inferiores, a pesporrência, o desperdício? Porque continuamos a viver na ilusão de que as independências foram boas, que trouxeram liberdade e prosperidade a esta gente? Porque desprezamos tanto estas pessoas que alimentamos tantas ilusões? Porque aceitamos lidar com estes governos corruptos?

Hoje olho para trás, lembro-me dos dez por cento de comissões que pagava (indirectamente. A agência para a qual trabalhava ignorava totalmente que estava a fazê-lo) ao governador da província na qual decorria a operação (trinta e seis mil pessoas, entre refugiados e IDP) lembro-me de quando ele nos veio pedir quinze por cento e lhe dissemos não, lembro-me disso tudo e admiro o meu pragmatismo. Hoje não seria capaz de fazer a mesma coisa.

Isto revolta-me. Cada vez sou menos capaz de compactuar com a mentira, com a hipocrisia, com o sofrimento alheio. Deve ser a isto que se chama velhice, não sei. Se for, a velhice não é tão má como a pintam.

O meu saco de pedras - todos nós carregamos um aos ombros - aligeirou-se bastante: as pedras grandes saíram e foram fazer brita para cimento; as outras deixaram de chocalhar. Brevemente juntar-se-ão às grandes na britadeira. A verdade é que nos últimos tempos não tive grande disponibilidade para fazer muita coisa. (Quando olho para trás, vejo que a entrevista com o ministro foi ontem, só. Chamar "últimos dias" a um dia e quase meio é um exagero.)

Não sei se tudo isto vai servir para alguma coisa, mas sei que prefiro tê-lo feito a não o ter feito. Talvez no fundo seja este o critério: não sei se perdi dinheiro, se perdi tempo,  mas sei que prefiro tê-los perdido a não ter sequer experimentado. Há sempre um moto-táxi à minha espera, nos momentos mais complicados.

1.6.21

Crenças, Covid e religião

Há quem acredite que comprar bilhetes do totómilhões é um investimento razoável ou que Jesus transformou água em vinho; na Idade Média, quase toda a gente acreditava que os surtos de  peste foram debelados graças às orações e ao Divino. Há uma certa racionalidade nisto: a melhor explicação para um fenómeno é a mais fácil, a mais evidente, a que está à mão de semear, por assim dizer. Já a ciência, o método científico exigem investigação. Um cientista investiga, não crê. Põe em causa, não aceita. Por outro lado, as religiões sempre foram o antídoto para o medo. Os marinheiros eram religiosos porque precisavam de um aliado na sua faina num meio que eles sabiam ser infinitamente mais forte do que eles. O medo - um fenómeno eminentemente racional ou pelo menos racionalizável - leva naturalmente à religião, à crença de que alguém está ali para nos ajudar.

O que se está a passar com a Covid tem tudo de um fenómeno religioso: o pânico levou à crença histérica em procedimentos que são tão eficazes na «luta contra o vírus» (esta expressão faz-me lembrar «luta contra o mar», como se alguém alguma vez na vida tivesse sequer sonhado com lutar contra o mar) como as rezas dos marinheiros eram para aplacar os temporais. Não aplacavam nada senão o medo. Davam-lhe um porto de abrigo. Acolhiam-no e levavam-no para o céu. Quantas vezes com os ditos marinheiros atrás, de resto.

A crença religiosa e a crença na aficácia das vacinas têm muito em comum. Incluindo, apercebi-me hoje quando espicaçado por um amigo pró-Covid, de que a comunhão também tem duas fases, como as vacinas: a «Tomai e comei, este é o meu corpo» segue-se «tomai e bebei, este é o meu sangue». Primeira fase e segunda fase. QED.

Noite, olhar

Deixa a noite cobrir-te com um lençol, qual olhar de quem amas: não a vês, mas sente-la, leve e acolhedora como esta noite, como este lençol. 

Nota bene : feitiços

Há feitiços que não duram para sempre, mas marcam para sempre, não é?

Capirinhas, passado e presente

Há muitos anos li um livro de Luís Sepúlveda.  Pouco depois li outro. Do primeiro gostei bastante, o segundo achei uma xaropada intragável. 

Retrospectivamente, apercebo-me de que o primeiro também era uma xaropada. Há um nome para isto: retroacção,  feedback retroactivo, não é? Isto é, quando o presente ajuda a definir o passado e ilumina os nossos erros de julgamento? Claro que se pode pensar que a minha primeira apreciação era correcta e a segunda incorrecta, mas não acredito nessa hipótese. 

Nada a ver com a força do negativo. Já me aconteceu o contrário, bastas vezes. O Dersu Ouzala, por exemplo. Saí da sala a pensar "Que merda de filme" e nas semanas seguintes não conseguia deixar de pensar nele, até chegar à conclusão de que era o que é: uma obra-prima.

Luís Sepúlveda não é nenhuma obra-prima. É um chato xaroposo vestido à moda. Enganadoramente, como todas as modas fazem. (É para isso que servem, de resto.)

Não sei porque penso nisto agora, mas deve ter alguma relação escondida com as caipirinhas do Papa Loka. Como se elas servissem para me rearreanjar o passado, em vez de me ajudar, simplesmente, a interpretar o presente.