Debruço-me por vezes sobre o sorriso das pedras do caminho. Nada de especial: vou a andar e sem querer - sempre sem querer - dou um pontapé numa pedra.
Em resposta, ela provoca-me uma dor muito forte no pé e sorri-me abertamente.
Debruço-me por vezes sobre o sorriso das pedras do caminho. Nada de especial: vou a andar e sem querer - sempre sem querer - dou um pontapé numa pedra.
Em resposta, ela provoca-me uma dor muito forte no pé e sorri-me abertamente.
Dois tons de azul e muitos de verde. Quem quer que tenha estudado teoria das cores sabe que estas duas tem uma em comum: o amarelo. Penso imediatamente num triângulo isósceles: verde e azul com o amarelo no vértice. Dentro desse triângulo está o branco dos cumulus.
Dentro desse triângulo está a felicidade, da qual ele é parte integrante. A embrulhá-lo estão os alísios, hoje finalmente razoáveis (se bem um bocadinho fortes de mais para o que eu queria fazer logo de manhã, mas isso fica para outro dia). Azul, amarelo, verde, todos eles embalados por doze nós de vento, mais coisa menos coisa. Os sinais do escaldão do outro dia desvanecem-se e tenho de novo a pele sedenta de sol. Não tenho a certeza de que seja só a pele.
Aposto que a felicidade também.
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Fui a Fort-de-France no carro do T. Pergunto-me como fui capaz de fazer esta estrada todos os dias e respondo-me de seguida: o que tem de ser tem muita força.
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Em breve terei de lá voltar. A loja que vende uma das coisas de que preciso estava fechada.
Mas almocei no Pain de Sucre, que a cada vez avança na categoria "restos du coeur", fui beber um rum ao Impératrice, aonde o empregado se desculpou. Selámos o acordo com o aperto de mão. Comprei cigarros no Sun & Fish, devo ter apanhado pelo menos duas multas, deixo-me embalar pelos balanços do S. D. e pergunto-me se um triângulo isósceles com nuvens brancas no interior e ventos alísios no exterior não será uma das formas geométricas daquilo a que alguns chamam felicidade e eu também, às vezes.
Se bem plenitude seja igualmente aceitável.
Tens sorte, dizem-te. És capaz de adormecer no fosso da orquestra enquanto ela ensaia. Respondes distraidamente que sim, é verdade. Adormeces em qualquer sitio, a qualquer hora, qualquer que seja o barulho que te rodeia. Adormeces como os miúdos escorregam pelo corrimão de uma escada.
O que ninguém sabe é quão longa essa escada é. Pode vir de uma mezzanina como ser de um arranha-céus.
Acordo de manhã com o cheiro do café e do bacon misturados ao teu. Penso na sorte que tenho: bacon muito frito, café forte e tu, nua à minha frente quando saio do camarote e chego à cozinha. Talvez haja melhores maneiras de começar um dia. Talvez haja outros homens com esta sorte. Espero que sim, por eles; espero que não, por hoje. E por amanhã, claro. E por sempre, se bem ninguém saiba hoje o que sempre quer dizer.
Nem ontem se sabe, quanto mais sempre. Hoje sei: tu, o pequeno-almoço, o M. M. que navega leve e solto como se não houvesse outro tempo senão sempre.
Sempre é isto: qualquer coisa que só os dois sabemos, de manhã no Mediterrâneo, tu a sair de quarto e eu a entrar, a Tramuntana à vista. Lembro-me como se tivesse imaginado e não como se tivesse visto. Em breve o cheiro da terra chegar-te-á à pele desnuda. Em breve nos amaremos no poço como se sempre não existisse. Em breve dir-me-ás:
- Amo-te. Queres mais café?
Instala-te tranquilamente no fim do dia. Passaste-o a saltar de pedra em pedra como num riacho, não escorregaste uma única vez, a chuva e o vento tiraram-te uma das pedras de debaixo dos pés mas não te preocupaste muito. Mais muitos haverá, dias como este, pedras no riacho. Despedes-te gentilmente da luz, olhas à tua volta. A paisagem é-te familiar: habita-la há quase dois meses. Sentes que a calma esconde turbilhões, sabes-lhes o nome mas não os queres nomear. «Não se acorda o cão que dorme». Os aguaceiros - squall é não só mais bonito mas mais exacto - esperam-te. Sabes-te preparado. Mesmo quase ansioso: tudo é melhor do que estes fins de dia que se esvaem de seixo em seixo, tão redondos na aparência como escorregadios mal lhes pões um pé em cima. Os dias são esta mistura de espera, palavras, trabalho. Todos iguais. Só mudam as proporções.
Instalas-te tranquilamente numa pequena e calma torrente de palavras. Um riacho, se quiseres. No meio desse riacho há pedras, há pessoas e sonhos e ideias que o atravessam, pé ante pé. Algumas são escorregadias.
A mais feroz das prisões é não te poderes queixar.
Não é a primeira vez, longe disso, que tenho este problema: os proprietários ou funcionários de um restaurante "adoptam-me" e começam a servir-me doses desproporcionadas de comida. Ou, neste caso (K., mantenho o anonimato não vá o diabo tecê-las), bebidas. Desde há alguns dias, os meus ti'punch perderam o prefixo. Transmutaram-se em Giant'punch.
Não me queixo, claro, por muito que tenha de esbracejar para acabar o segundo.
Por muito apaziguadora que seja a palavra rotina, é forçoso - ou sensato, se preferirem - reconhecer-lhe os limites. Amar, por exemplo, a mulher da tua vida nunca será uma rotina. Se fosse, ou não seria amor ou não seria a mulher da tua vida.
A chuva ainda não parou. Limitou-se a abrandar até ser quase imperceptível. Mas deitado no beliche oiço-lhe os pingos. Em miúdo li um livro que contava a vida a bordo de um submarino alemão na segunda grande guerra. Na altura impressionou-me bastante, tanto mais que a maioria dos livros de guerra que lia eram vistos pelo lado dos aliados. Uma das coisas de que me lembro é da descrição do que os marinheiros sentiam quando ouviam o ping de um sonar. Lembro-me sempre dessas páginas quando oiço a chuva assim, escassa, gota a gota, pingo a pingo.
(Claro que não é comparável, eu sei, escusam de me chamar exagerado ou pé-de-salsa ou coisa que o valha.)
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Mais uma conversa com o puto etíope. Desta vez falei também com a namorada dele, igualmente adorável. É novinha, deve ter pouco mais de vinte anos. Estão verdadeiramente apaixonados, querem casar ou viver juntos (pacser, para quem sabe o que isso é), mas isso implica uma estadia longa na Martinica e sem garantia de sucesso. O que ele quer, obviamente, é evitar que as autoridades o ponham num avião a caminho da Etiópia.
Disse-me que não precisa de um visa para entrar na Dominica. Vai tentar ir para lá. Acabei por convidá-lo a beber uma cerveja a bordo. Se não conseguir encontrar maneira de o trazer - ou de o fazer apanhar um avião - lembrar-me-ei dele como ainda hoje me lembro do terror dos submarinistas quando ouviam o sonar.
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E ainda há quem acredite na bondade dos Estados.
Talvez se deva tomar conta de uma embarcação como se de uma mulher se tratasse. Talvez. Não é garantido: uma mulher pode, se quiser e souber, tratar de si. Uma embarcação não, apesar de ser igualmente complexa. Talvez «tomar conta» não seja a expressão adequada. Devemos tratar de uma embarcação e acarinhar uma mulher? Sim. Não. Sem carinho um barco não vai a lado nenhum, acaba mais dia menos dia num landfill qualquer, enquanto que uma mulher pode sempre encontrar outro homem. Tanto a mulher como o bote precisam de carinho, mas este não sobrevive sem ele e aquela sim, se quiser. E souber, claro.
Uma embarcação tem mistérios - as baterias, por exemplo. A electrónica. A mareação dos panos, trimmar em linguarejar moderno é uma coisa que releva tanto da magia como da sensibilidade e quem diz sensibilidade diz ternura, não é? É. Ver para lá do que está visível.
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Descubro com espanto que estamos não só em dois mil e vinte e quatro mas também em Março. A minha relação com o tempo é da ordem do incompreensível. Incompreensão mútua: nem ele me compreende, nem eu a ele. Não sei se compreender é o verbo correcto. Talvez «aceitar» seja mais adequado.
No seguimento de uma agradével conversa no FB a respeito de leituras e livros apercebo-me de que devo absolutamente começar a elencar os livros que leio. Ou melhor: não os que leio mas os que penso que um dia deverei reler.
É fácil: basta encontrar um sítio para arrumar os meus livros.
Aproveitei o empurrão de um impulso e peguei no bote para vir a Sainte-Anne. A meio caminho ainda pensei puxar até às Salines, mas entrou vento, lembrei-me de que provavelmente à tarde vai chover, o bote não é grande coisa (apesar de ser uma coisa grande) - não é de fundo rígido e para viagens de mais de uma piscina ou que não sejam numa torna-se rapidamente desconfortável - de maneira regressei ao plano original. Sainte-Anne é a estância turística do sul da Martinica. É uma vilazita bonitita e com uma boa vibração, seja lá isso o que for.
O único inconveniente de escrever é ter de me reler. É como beber cerveja quente.
O Google diz que a temperatura exterior é de vinte e seis graus mas eu não acredito. Não passa dos vinte e três. Vinte e cinco talvez no interior, isso sim. Estou com frio, tapo-me com o lençol até ao pescoço, encolho-me bem, todo encostado a mim, depois fico com calor, destapo-me, estendo-me, o ciclo repetir-se-á até adormecer. Tenho uma das vigias aberta, é aquela em que entra menos chuva quando ela vier, sinto a corrente de ar fresco do exterior, a dor de cabeça acompanha todos os movimentos, encostada a mim e parece que não sabe se há-de desaparecer ou aumentar. Tomo mais um paracetamol, não me lembro se é de quinhentos se de mil mas que se lixe, era o último e já deitei fora o blister. Quero que a dor desapareça, que o frio (isto é um exagero. Não é frio, é fresco) se mantenha, que o sono apareça e que amanhã seja um dia bom.
Penso no miúdo, não paro de pensar nele, ainda me lembro de ter entrado ilegalmente em França um bom par de vezes, uma vez foi em Hendaia, saltei a rede que separava as duas áreas na estação, ainda hoje estou para saber como não fui apanhado. Era ágil, então. Doutra vez fui recusado, em Dover, meteram-me no ferry de volta para o Havre, se não estou enganado, com um R encarnado, enorme, numa das páginas do passaporte.
Vou comer um iogurte. Deixei de pensar no puto. O iogurte é delicioso, de lichi, "com bocados" aspas porque cada vez que como um iogurte de frutas penso num senhor a quem chamava meio-maricas, talvez injustamente (não sei para que lado caía a injustiça), tinha uma mercearia em Cascais ao pé da casa de uma rapariga com quem namorava (eu, não o meio-coiso). Uma vez fui lá comprar iogurtes e ele perguntou-me "pedaços ou sabores" e eu não fazia a mais pequena ideia do que quereria ele dizer com aquilo de maneira perguntei-lhe e o homem olhou para mim quase com a mesma cara do gajo da Madeira quando lhe perguntei "quem é o Ronaldo?" Só que menos agressivamente, claro. A verdade é que a coisa com a miúda não correu muito bem e separámo-nos. Amigos mas separados. Nunca mais a vi e tenho pena. Acho que há vinte anos eu era muito estúpido. Ou ainda mais estúpido do que sou hoje, não sei.
Enfim, há uma coisa que sei: essas asneiras todas contribuíram para fazer de mim um tipo melhor do que era, disso não tenho dúvidas. Só as tenho em relação à estupidez, mas essas são como a dor de cabeça. Acomodam-se em mim como se estivessem no sofá de uma sala com lareira e um cálice de Porto e um bom livro na outra mão.
Não há paracetamol para algumas dúvidas, pois não?
O puto entrou na Martinica de uma maneira completamente ilegal: veio num barco de Cabo Verde, mas como tinha perdido o passaporte no Mindelo o skipper do barco que o trouxe não o declarou à imigração. Agora quer ir comigo para Portugal. Tem a namorada em Paris.
É etíope, adorável, sabe navegar e tem o dinheiro que eu peço para a travessia.
Quem inventou a merda dos vistos e outras limitações às viagens devia ser pendurado pelos tomates e deixado a apodrecer ao sol.
Liguei para o ex-SEF na Horta e nem pensar em levá-lo comigo nesta situação. "Precisa de um visto Schengen", diz-me o agente M., de resto bastante simpático.
Não sei o que me revolta mais: se a merda dos regulamentos se eu ter crescido e ganhado juízo.
Nesta última opção, não é bem revolta. É mais desprezo. Auto-desprezo.
Fiz o que pude para o ajudar. Não lhe tinha ocorrido ainda falar com a embaixada da Etiópia em França. Vai ligar na segunda-feira. Rezo para que consiga resolver a situação e ir ter com a namorada, mesmo sabendo que se for esse o caso irá de certeza de avião e não virá comigo. Pqp os vistos.
O primeiro prego no caixão do Iluminismo, o bico do sapato que abriu a porta a esta lenta e terrível queda na Fé em substituição da Razão foi a natureza "científica" do socialismo do séc. XIX. Deixou de se poder discutir, porque era "científico".
Quem não se lembra do carácter forçosamente primário do anticomunismo?
Se a Bíblia fosse escrita hoje, «Ama o teu próximo como a ti próprio» seria substituído por «Ama o teu cão ou o teu gato como a ti próprio».
O debate de ideias hoje é impossível pela razão tão triste quanto inelutável de que elas foram substituídas por convicções morais. Ora estas não se debatem. Impõem-se, rejeitam-se, abominam-se, exibem-se, assinalam-se mas não se debatem. A translacção começou à esquerda mas propagou-se a todo o espectro político. Sobra talvez meia dúzia de liberais ("maus", "amigos dos ricos", "só querem explorar o povo", etc.) que sabem diferenciar uma ideia de uma fé; mas mesmo esses somos - temo - cada vez menos.