30.6.07

Lua cheia

Os aviões saem de trás da Torre como se o terrorismo não existisse, ou se quisesse redimir; o rio está cor de prata, e a música flui das entranhas da terra e do tempo. A lua está cheia,a rebentar.

A solidão é relativa. Chata, mas relativa.

28.6.07

Diálogos imaginários

- E depois? Na pior das hipóteses, morro.
- Estás enganado. Na pior das hipóteses sobrevives.

27.6.07

Fair play

É por coisas destas que se tem de gostar do Reino Unido.

(Via 31, até o título, porque não havia outro).

Jeu de maux

J'aimerais bien lettre, mais je consonne, et pas de voyelle.

IPPAR

Vai por aí muito alarido porque Fernando Negrão se enganou e disse que queria extinguir o IPPAR. Eu só tenho pena é que tenha sido um lapso: isso sim, seria um programa pelo qual valeria a pena votar.

26.6.07

Gerir

Há, entre o controle de danos e a gestão, a mesma diferença que entre a reparação de estradas e a construção de auto-estradas.

A mesma que há entre gerir uma empresa que depende maioritariamente do Estado português e a gestão tout court.

Os ministros e os legisladores

O Diário Económico tem hoje uma notícia gira: "TGV vai ter de vender bilhetes ‘low cost’". Lendo o resto do artigo, percebe-se que os "bilhetes low cost" estão lá por imposição do Governo.

Pode ser que eu esteja enganado, claro, estou-o muitas vezes, mas com ou sem Governo, o TGV terá de ter "bilhetes low cost, competitivos com o transporte aéreo", não por causa da Senhora Ministra (esta, ou a que lá estiver quando aquilo estiver pronto), mas pela simples razão que se os não tiver, aquilo andará às moscas, ou aos muito ricos.

O legislador que determinou isto chama-se "Mercado", e é um dos melhores que conheço.

Entretanto, em Valência...

... 2 a 1 para a Nova Zelândia, numa regata de se roer as unhas até ao cotovelo.

24.6.07

Nice Nico

Frozen warnings:

Arrogância

Há uma arrogância na perseverança que não tem nada a ver com a verdadeira arrogância: na realidade, não é mais do que uma das formas da fatalidade.

For the record

Está neste momento a começar, ou vai em breve começar, em Cascais, o Campeonato do Mundo de Vela da ISAF. Parece-me evidente que o evento é bom para Cascais, e disso não vale a pena perder muito tempo a falar.

Em contrapartida, já vale a pena discutir se é a melhor coisa, na área dos eventos náuticos, que Portugal podia fazer com oito milhões de euros (deixo de fora outros oito, porque foram usados para a construção de infrastruturas mais do que necessárias).

Para começar, parece-me um atestado de menoridade que não cessamos de passar a nós próprios, esta necessidade de forças exteriores para construir infrastruturas que se justificam de per si; por outro, com oito milhões de euros podiam fazer-se 40 eventos de 200 mil - e penso (posso, claro, estar enganado) que dois ou três anos de eventos mais pequenos teriam um impacto maior, mais duradouro, mais profundo, na economia de Cascais e no tão desejado cluster da vela do que um mega evento, por muito importante que seja; e - terceiro - haveria provavelmente eventos mais prioritários do que um Campeonato do Mundo de Vela Ligeira, mesmo que se quisesse, para compensar a perda da America's Cup, gastar uma pipa de massa num evento megalómano (não é forçosamente pejorativo, note-se).

Enfim, o evento está aí, e Cascais vai viver um grande período de euforia dionísiaca. Aproveitem, e venham ver a Baía cheia de barcos, os Pubs cheios de gente bonita, as ruas cheias de bicicletas, e barcos, barcos por todo o lado.

"Que importa o preço da festa, se ela for boa?"...

Da lepra, e outras verdades

Não é só, claro, a falta de dinheiro que faz de uma pessoa um leproso. A sinceridade também. Repare-se que não tem nada a ver com "dizer a verdade", ou "as verdades", ou coisas da mesma estirpe. Uma coisa é aquilo que pensamos, e outra, nem sempre igual, a verdade.

Mas o resultado, forçoso é reconhecê-lo, é o mesmo: quando se diz o que se pensa, quer o que se pensa seja a verdade quer não, o resultado é semelhante: o ostracismo, a quarentena, o leprosário.

23.6.07

Final countdown

Ainda estamos, claro, muito longe do fim - isto é, do dia 4 de Julho. Mas o primeiro passo foi dado, e quem vai à frente é o Alinghi.

A Taça pode ir sendo seguida aqui, ou aqui.

Num gesto que é, eu sei, extremamente frequente noutros desportos, especialmente no futebol (esse desporto de gentlemen), o Challenger está na regata porque Ernesto Bertarelli, dono do Defender, lhes emprestou, do seu bolso e sem juros, o dinheiro necessário para montar o desafio. Com um argumento bonito, sobretudo para quem gosta de futebol: "Uma America's Cup sem a Nova Zelândia é como um Campeonato do Mundo [de Futebol] sem o Brasil", explicou. Estou mesmo a ver Joe Berardo, ou Pinto da Costa, esses ícones do savoir-vivre, da classe e do desportivismo, fazer o mesmo (será que o dinheiro com que corrompia os árbitros vinha do bolso do senhor, ou dos cofres do Clube?).

Diz que leimer: eu não tenho nenhum preconceito contra o futebol, como não o tenho a favor da vela, claro. Seria, aliás, impossível: não se pode pôr no mesmo plano um desporto rasca, e uma das formas nobres da vida.

Food for thought

Ontem comprei um livro num restaurante. O Frango à Passarinho estava saboroso, mas seco; já «O Elogio da Sinceridade», de Montesquieu, traduzido por Miguel Serras Pereira e posfaciado por José Manuel Heleno, publicado pela Editora Fenda, é uma perfeita delícia, da qual só o posfácio está ligeiramente a mais, ou ao lado.

O restaurante chama-se Os Bichos, é na rua Poiares de S. Bento, nº 108, e o frango não estava tão seco que não me desse vontade de lá voltar, para testar uma lista maioritariamente alentejana, uma decoração simples mas cuidada, um serviço simpático e eficaz - e para experimentar outros livros.

17.6.07

Remédio d'alma

Um bocadinho da tua voz ao levantar, e outro ao deitar, foi o que o médico receitou.

Tempo Circular

"Andei pela memória à procura de saída,
e encontrei becos, muros, abismos; fui
ao futuro, sabendo que aí é a porta de ontem;
cruzei-me com velhos, almas penadas,
sombras; e voltei ao presente,
com as suas mesas de agora. Limpei-as
de toalhas e copos, risquei a madeira
onde uma frase se inscrevia, deixei
tudo sem nada e as palavras
em branco.

Então, recomeço tudo, entre passado
e futuro, no campo do presente."

Nuno Júdice, in Geometria Variável, Dom Quixote, Lisboa, 2005

Again, Suzanne, again

Suzanne Vega

Uma bonita canção. De amor, claro: todas as canções bonitas são de amor.

(Suzanne Vega, Gypsy)

Ou quase todas, pelo menos:




Suzanne Vega, a capella, naquela que é, para mim, a sua melhor canção: