28.11.07

Retratos possíveis

A senhora que está à minha frente parece-se com a Marlene Dietrich. Uma Marlene Dietrich de mercado de peixe.

26.11.07

Definição

Um baiano ("soteropolitano" para os íntimos) é, dizia-me um deles recentemente, um tipo que se o mundo acabasse hoje só morreria daqui a três dias.

25.11.07

Clubite

Não percebo nada de futebol, e não quero perceber. Mas quando estou com pessoas que se interessam por essa actividade, por uma simples questão de empatia, finjo que me interesso, e faço perguntas e tudo.

Hoje tive a melhor resposta a essas perguntas de conveniência: perguntei a um fanático do Bahia com quem jogava o seu clube hoje. "Contra ninguém", foi a resposta.

Isto sim, isto é clubite.

23.11.07

A ler

Dois posts num dos meus blogs favoritos.

Uma história deliciosa, aqui.

22.11.07

Diálogos possíveis

- Devia ser possível comprar paciência nos supermercados. "Dê-me um quilo de paciência, se faz favor". Em barra, em pó, em líquido...
- Líquida já se vende. Chama-se "whisky".

21.11.07

Salvador da Bahia - VII

Por onde começar, por que tragédia? Se Fellini quisesse, um dia, abandonar o grotesco, começaria por aqui, provavelmente: um bar - melhor, um espaço - para reggae com miúdos de 9 e 10 anos (já dando margem para a aparência enganadora, etc.) a fumar charros sob o olhar admirativo de miúdas da mesma idade, que preferem cigarros - salvo uma ligeira excepção ou duas, que condescende no charro. Os seios das miúdas já se vêem claramente sob as T-shirts quase transparentes de tão usadas. Para acrescentar à desorganização caótica habitual, hoje é dia da Consciência Negra.

Não há uma única pessoa bonita - seja ela mulher ou homem -, uma única pessoa atraente. Só se vêem miúdas de onze anos, mulheres gordas ou muito gordas, velhas; um verdadeiro jardim zoológico humano.

18.11.07

Salvador - VI

Precisamos de uma banda, e ontem fui ao Bairro Alto de Salvador à procura de uma. "Bairro Alto" é uma hipérbole: tudo se passa numa rua. Mas que rua! Pessoas a pé, sentadas, a dançar, a beber, a comer nas barracas, carros em sentidos contrários (só pode passar um de cada vez, as discussões são inimagináveis), com sistemas de som de fazer inveja a muitas discotecas, mais pessoas, motas e motas e mais motas, os sistemas de som parados em segunda fila, uma cacofonia indescritível, o cheiro da comida, das bancadas de caipirinha e caipiroska e frutas e espetos, estímulos para todos os sentidos. No porta-bagagens aberto de um automóvel um Coleman e um bocado de cartão com, escrito à mão, "Promoção: Latão R$2,00". Um carro da polícia avança e ficamos, ele e o nosso táxi, entalados porque um grupo de três miúdas estava a beber cerveja encostado a um carro estacionado e não achou necessário deslocar-se: as garrafas estavam pousadas na rua, não fosse a pintura do carro estragar-se, provavelmente, e o chauffeur do táxi não queria entornar-lhe a cerveja. Só ao fim de um largo momento decidiram mexer-se.

O nosso destino era a Associação Ilé Aiyé, uma associação cultural para a difusão da cultura negra, um enorme hall de dança que me fez pensar em África (tudo me fazia pensar em África - só hoje vi que aquilo é o maior bairro negro de Salvador, com 600,000 habitantes), ou numa versão gigante do Ritz Club; depois da nossa conversa com o director do centro, ficámos um bocado mais, a ouvir um dos grupos da noite, Araketu & Convidados, uma banda cuja cantora tem uma energia que cansa só de a ver, mas que faz abortar em segundos qualquer tentativa de ficar parado "a ver".

O site do Ilé Aiyé merece uma visita. O local muitas.


Centro Cultural Senzala do Barro Preto
Rua do Curuzu 228
Liberdade
Salvador

Até que enfim

Uma reacção normal, sã, direita, à história da jovem saudita violada e condenada. Aqui.

17.11.07

Brasil

Uma vez conheci um tipo cuja alcunha era "Brasil": tinha um quotidiano de merda, mas não parava de sonhar com futuros brilhantes - foi assim enquanto nos conhecemos, e sempre foram uns 50 anos.

Uma noite disse "desta vez é que é a boa", e morreu. Estava num hospital, e a enfermeira que o ouviu não percebeu a piada.

Socorro! ou: Isto é um meta-post.

Não sei, sinceramente, que fazer, e preciso de ajuda: há pessoas que pensam que tudo o que escrevo aqui na primeira pessoa é escrito no primeiro grau. Pensam, por exemplo, que só tomo banho uma vez por semana porque mais seria um desperdício de água, ou que os retratos ficcionados que aqui deixo são auto-retratos, e dizem - isto é verdade, acreditem ou não - que os males de Portugal vêm de haver muitos indíviduos como eu à solta. Devem acreditar também que ando à caça de caixeiras nos supermercados, e sei lá que mais. Confesso que acho o equívoco delicioso, e a primeira reacção foi não dizer nada.

Deus meu... que era um mau escritor, eu sabia (também não pretendo ser um escritor de todo - ou já não pretendo, obrigado Don Vivo); agora ser tomado por um Orson Welles da blogosfera enche-me de espanto, seja Deus louvado. Há muito tempo que me delicio com a expressão "Playboy da Reboleira", ou "D. Juan das praias" que ouvi a algumas miúdas (não, por favor, não referindo-se a mim. Ou terá sido?). Vou juntar mais uma: "Orson Welles da bloga" (não o faço: tenho-lhe demasiado respeito e admiração, coitado).

Mas primeiro tenho que parar de rir. Eu sabia que um dia cairia num pecado que muito critico: rir-me da parvoíce, ignorância ou falta de cultura alheias - parece-me um pouco como gozar com a pobreza (material ou de espírito). Acho que só se deve troçar das coisas que dependem de alguém, sei lá, de umas calças roxas, por exemplo, ou de camisas às flores, ou de um amor desmedido por animais (animais no sentido literal, just in case). E ninguém escolheu ser parvo: é, pronto, sei lá, nasceu assim, ou foi educado para o ser. Tal como a cultura: acho que se pode gozar com quem exibe uma cultura que não tem, mas não com quem não é culto de todo.

Enfim, não sei que fazer, e todas as sugestões são bem-vindas (menos, claro, escrever no fim de cada texto: “isto é para ser lido no primeiro grau”; “isto é ironia”; “isto é ficção”; "isto é verdade" – a ser assim, teria que juntar, a cada post: “isto é uma merda”, e disso não tenho vontade: os leitores que se apercebam por si próprios).

Se calhar nem é assim tão mau: afinal de contas, há pessoas que acreditam. Obrigado! Salvaram-me um sábado do qual não esperava nada de bom. Rir talvez não seja o melhor remédio, mas é um grande, grande remédio.

Santé

Hoje encontrei um site interessante (não foi só hoje, manda a verdade). Chama-se Adegga. É um site de vinhos (digo-o porque pelo nome não se advinharia) feito por portugueses, mas com uma vasta escolha de vinhos estrangeiros. Bem estruturado, bem organizado, convivial. Santé.

(Via Breaking Posts)

"Este déspota vem a Lisboa"

Caro Pedro Correia,

Gosto da sua série de posts sobre os ditadores que vêm a Lisboa. Por mim, não aceitaria nenhum, nem o Mugabe nem os outros. Afinal, são eles que nos custam as fortunas que custam e são o contrário de tudo aquilo por que a Europa lutou até hoje.

Na verdade, só perdemos tempo com África porque, se esperarmos o suficiente e deixarmos de lhes dar dinheiro, aquilo cai-nos nas mãos outra vez. E isso seria, reconheça, uma "çatice" muito grande.

Porém, uma coisa me parece verdade: a Europa devia deixar de ser unicamente um mecanismo para dilapidar dinheiro com agricultores franceses e com governos portugueses. E um grande passo nesse sentido seria ouvir aquilo que os ingleses têm para nos dizer, que é muito, e bom.

A.

Por duas vezes a A. e eu estivemos quase a passar ao acto; e das duas vezes fui eu que recuei. Estava em casa dela e do marido: acolheram-me quando voltei do Brasil, com uma mão à frente e outra atrás, desfeito, vazio, de rastos. Hospedaram-me em casa deles, deram-me de comer e não me pediram para falar: o suficiente para recuperar, para pôr um pé no estribo, como diz a versão consagrada da coisa. De qualquer forma, não foi a primeira, e não terá sido a última vez, que recomecei.

A. é uma mulher grande, morena e bonita, muito bonita. Tem olhos verdes e cabelos pretos densos, lisos, compridos, que ela usa para os mais variados fins: esconder-se, seduzir, provocar, enfurecer ou – no meu (e noutros casos) – desnortear.

Por duas vezes a desafiei, por duas vezes ela disse que sim – e por duas vezes eu voltei atrás. Foram recuos difíceis, porque na altura eu estava sozinho, sem dinheiro, partido em mil bocados e não conseguiria arranjar uma mulher – nem, pensava por vezes, pagando, quanto mais sendo “pago”. Ainda por cima ela é grande, e eu gosto de mulheres altas, e linda, linda. O marido, um escritor de sucesso e da moda em Paris, engana-a com tudo o que a cidade tem de saias, e são muitas. Ela, que tem a outra metade da cidade a correr-lhe atrás, vinga-se dizendo que não.

Digo “vinga-se”, mas não tenho a certeza que o verbo seja correcto. “Mortifica-se” talvez seja mais exacto - se bem a mortificação não passe de uma das formas da vingança. Enfim, a verdade é que A., que dizia “não” a toda a gente, disse-me “sim” – e fui eu que lhe disse “não, querida, não quero, não seria correcto”, etc. e tal e outras baboseiras do género, duas vezes.

Até que uma vez não voltei atrás, não recuei, não me acobardei. Estava em casa; meteu-se no carro para vir ter comigo - já tinha "uma vida" – e nesse dia fui para a cama com ela, com os cabelos dela, com as lágrimas dela e com toda a raiva que tinha acumulado ao fim destes anos todos.

Há qualquer coisa de bom, de agradável, em ser um objecto sexual. A maioria das mulheres discorda, claro, mas eu gosto: gosto que me usem o corpo para o prazer, nada mais do que o prazer, sem exigências, sem ontens nem amanhãs, sem “já sabes que”, sem verdades nem mentiras nem consequências. Claro que a inteligência, ou a cultura, ou o humor, ou o conhecimento mútuo são os melhores afrodisíacos. ¡Qué vaya!, a relação sexual casual é a única forma de relação em que os dois sexos estão em posição de absoluta igualdade, e naquele caso era mais do que casual: A. veio para a cama comigo não por mim, não pelo marido, não pelas traições dele, mas porque eu era prático, porque estava à mão e não era precisa muita conversa, não eram precisos jogos nem sedução nem nada: bastava tirar a roupa, ir para a cama, vestir a roupa e ir embora.

Só que ela não se foi embora.

15.11.07

O Carrasco Infeliz

Durante anos desprezei as pessoas, trocei delas, gozei-as, escalpelizei-lhes os defeitos. Fazia-o em silêncio: era feliz, e podia dar-me a esse luxo. Gostava do meu emprego, dos meus amigos, da minha mulher, do dinheiro que ganhava, do reconhecimento e admiração que todos tinham por mim, das promoções anuais, dos automóveis e das férias e do meu futuro; não havia nada na minha vida de que eu não gostasse.

Um dia tudo mudou. Não importa porquê - na realidade, não foi num dia, foi num ano, ou dois. Descobri os limites da prisão que tão eficazmente fui construindo ao longo dos anos; pior ainda, descobri que não sou capaz de sair dela, não sou capaz de a deixar, não sou capaz de recomeçar. As qualidades que me deram a vitória nesta vida são as mesmas que me impedem de fazer outra. Tornei-me medroso; já não desprezo toda a gente mas não me calo com os outros, com aqueles que me são repugnantes, ou fracos, e não me podem fazer mal.

Refugiei-me no medo. A maldade, sua irmã siamesa, veio por acréscimo, por bónus; agora sou mau. Dá-me um prazer simples, puro, claro magoar alguém que eu julgue particularmente merecedor dos meus devastadores comentários. Uso e abuso da má-fé, aplicando minuciosamente aquele procedimento literário que consiste em tomar uma minúscula parte de qualquer coisa e ampliá-la, distorcê-la, até que ela se torne o todo, e faça dele uma coisa horrível; faço das pessoas figuras vivas de um quadro de Bacon. Aos poucos, todos os que me rodeavam e que eu desprezava ficaram a saber o que realmente pensava - e penso - deles. Foram-se embora, e agora vivo rodeado das poucas pessoas que admiro, pessoas do meu nível, vencedores como eu, pessoas iguais a mim. Ainda não sou feliz.

Provocação

"Arábia Saudita: vítima de violação condenada a seis meses de prisão e 200 chicotadas".

E não se pode sequer dizer que ela estava vestida de uma forma provocadora?

Daqui.

"O Capinar é Sozinho"

Mais um excerto ou dois desta maravilha:

"Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: - "Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho..."


"Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma! Porque existe dor....
...
Mas o demônio não precisa de existir para haver: a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo.
"

Progresso

É do Brasil que melhor se vê o longo, longo caminho que Portugal ainda tem por fazer. Os métodos de trabalho são iguaizinhos: a lentidão nas respostas, o "as coisas são assim, que quer?", a burocracia, a prepotência e indiferença dos funcionários públicos. É verdade que com mais sorrisos e simpatia, mas os resultados são os mesmos. "Em todo o lado é preciso conhecer as pessoas certas. Aqui, mais do que em qualquer outra parte" - quantas vezes não ouvi isto em Portugal?

Portugal está condenado a continuar no fundo da tabela europeia - se bem que progredindo, porque a maré está a subir, e quando sobe todos os barcos sobem com ela - como o Brasil está condenado a ser o país do futuro: em ambos, quem tem a ganhar com a mudança tem medo dela, e quem tem a perder não a promoverá, naturalmente.

As mudanças de Sócrates são óptimas para nos manter no nosso lugar, mas insuficientes para nos aproximar dos países da frente - mas a verdade é que a maioria dos portugueses rejeitaria as reformas necessárias para mudar o nosso lugar na tabela.

Assimetrias

"A esmagadora maioria dos eurodeputados aplaudiu hoje o anúncio formal da dissolução do grupo de extrema-direita Identidade, Tradição e Soberania (IDS), que tinha sido criado há menos de um ano".

Se o grupo fosse de extrema-esquerda também teriam aplaudido?

Uma frase bonita

"Existe uma enorme diferença entre sacrificar-se ou ser sacrificado; entre percorrer um túnel com luz ao fundo ou estar perdido num labirinto sem norte".

14.11.07