31.12.17

Escrever, descrever

Dizer que é assim que eu gosto é um exagero; mas dizer que não gosto é um exagero maior ainda. Descrever não passa de uma escolha entre dois exageros. Escrever é pior: não temos comparativos.

É como saltar a um poço sem saber se tem água no fundo.

Ninguém escreve porque gosta. Escreve-se porque se tem de morrer e se tenta adiar essa morte. A outra já sabemos que há-de chegar.

29.12.17

Ausência, leveza

Costumava dar-me o braço, para onde quer que fôssemos. "Anda sempre atrelada" costumava pensar. Mas era muito leve, parecia uma pena, mal a sentia, como se flutuasse agarrada a mim nas ruas escuras e frias do Inverno ou nas mesmas quase outras do Verão.

Um dia deixou-me e hoje sinto uma terrível falta daquela ausência.

28.12.17

Geografias

Acorda a meio da noite lamentando ligeiramente não estar no Transiberiano, numa praia de Antigua ou num barco feliz a meio do Atlântico. Ligeiro, o lamento; quase sem peso, como a névoa não muito densa que mesmo sem ver sabe que está lá fora à espera do dia para se dissolver. É a possibilidade de movimento que lhe falta, mais do que um leito que se mexe impaciente ou inconformado. Não sabe onde deveria estar mas sabe que não está onde quer.

Querer e estar conjugam-se a ritmos diferentes, têm geografias desirmanadas: por onde anda um não está o outro.

27.12.17

Diário de Bordos - Lisboa, 27-12-2017

O restaurante tem uma iluminação péssima, cadeiras piores, é triste, solitário e completamente adequado ao meu estado de espírito. O prego é bom (melhor seria se não fosse) e barato, o serviço rápido, atencioso - às vezes até simpático -. Venho cá jantar de vez em quando, fica a caminho de bordo e não faz muito sentido quando se está sozinho e teso ir a um sítio caro e bonito. 

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Continuando na gastronomia de alto nível: estão muitos espetos ao lume. Um deles sairá bem. Dito de outra forma: de todas as bolas no ar uma delas cairá na mão. Ou: de cem tiros um acertará no alvo.

Se este tiver sido bem escolhido, claro.

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A sorte dá muito trabalho, toda a gente sabe. O azar também.

Ou mais: é preciso trabalhar para os dois, o azar que foi e a sorte que há-de ser.
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A vida em terra: ver as previsões meteo e olhar também para as da chuva.

(Lembrar-me do Senhor de Castilho: pronunciar "mete-o". Nunca se vive em terra: está-se em terra de passagem, como quem procura um quarto de hotel numa cidade cheia por causa de um congresso).

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"Não quero ser a única", diz-me A. I. Nem eu quero que tu o sejas, minha querida: ninguém pode acumular tantas unicidades.

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A minha estadia no F. está quase a chegar ao fim. Em breve vai saracotear-se para outros. Espero que quem o veja saiba apreciar-lhe a elegância tão bem como eu.

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Os nossos partidos preparam uma chapelada; o governo quer salvar um banco com a massa da Santa Casa, que mal ou bem lá vai funcionando. Hesito entre John Huston, Raoul Walsh ou Ed Wood como realizador para esta desgraça. Uma coisa é certa: Hitchcock não seria de certeza. Não há suspense, tudo é esperado.

Un long fleuve tranquille

Um amor pode evoluir em amizade. Já o contrário - uma amizade transformar-se em amor - é mais dificil. Para começar não seria uma evolução, mas sim uma regressão. Depois, a amizade sobrevive sem amor, mas este sem aquela morre de morte súbita (e tantas vezes incompreendida).

Melhor deixar o rio correr tranquilamente. Nem ele sabe quando deixa de ser rio e passa a mar.

26.12.17

Sheila

A ideia era chamar-lhe Sheila: a primeira sílaba pode ser lida Sei ou Ela, consoante. A segunda é sempre Lá. Sei Lá, Ela Lá. Ela lá sabe? Não sabe ela nem sei eu nem sabemos nós. Sheila, mulher de trinta anos e outros tantos amores. Magra, alta, cabelos ruivos encaracolados, olhos verdes de matar vocações, dizia um desses amores, mais breve ainda do que os outros. Solteira, professora de literatura escandinava numa faculdade inglesa. Está em Portugal de férias, com a intenção de se encher de sol, areia, vinho verde e um ou outro homem "desses que agarram touros".
-Quem se atira a touros despreza vacas -, respondi-lhe em português. Ela não percebeu.

Ainda bem. Estávamos numa praia da Costa Vicentina. A água não estava tão fria como de costume, o aquecimento global tem as suas vantagens. Fazíamos amor dentro de água, longe da costa mas provavelmente à vista dos binóculos dos Nadadores-Salvadores. Pouco me importava: veriam quando muito duas cabeças perto uma da outra, dois braços agarrados a um colchão, dois corpos que se possuíam mutuamente, um dos quais se afogava devagar e não era no mar.

Sheila tinha o amor vivo e expressivo das ruivas; eu a vergonha do macho latino que se vê enleado na liberdade alheia. Daí o vaca, claro: era despeito-próprio.

Antes de irmos para a pensão onde toda a gente nos olhava de soslaio parávamos no bar da praia e bebíamos uma garrafa de vinho verde.

Ao fim de uma semana Sheila disse-me: - Não consegui o que queria.
- O que é que te falta?
- Pensei que ia ter vários homens e afinal um chega-me. Estou a ficar apaixonada por ti. Espero que passe depressa.

O bar da praia fica no lado Norte, em cima de uma pequena falésia. É de madeira escura, tratada só com óleo. Sheila fala baixo, numa voz arranhada pelo tabaco, pelo whisky e pela fúria. Mais tarde, muito mais tarde referir-me-ia a ela como "As Fúrias" porque eram muitas as que continha de manhã à noite. Vamos jantar a uma tasca na vila e em seguida ao bar du Sud, assim mesmo em francês. Jean, o dono é um suíço versado em whiskies, cocktails e psicologia nocturna. Abafava a erudição numa vasta careca, pequena estatura e uma reserva educada, quase caricatural. Chamava-me Senhor e My Lady a Sheila. Fazia os melhores Alexander da galáxia. "Isto devia ser pago pela Segurança Social", dizia-me My Lady. Fazia-lhe que sim com um acenar de cabeça e tratava de os beber o mais depressa possível. Também eu queria que aquilo me passasse depressa.

25.12.17

Uma livreira no sonho

Sonhei com uma livraria no meio do nada na Califórnia. Era uma livraria muito grande, meio em tenda meio em cimento, com uma livreira bonita e todos os livros que pedia. Não percebo porque estava na Califórnia, no meio do campo e era uma construção tão estranha, híbrida. Como se metade fosse para ir e outra metade para ficar. O sonho foi bonito e durou muito tempo. A livreira ficou, lembro-me que lhe acenei com a mão quando cheguei à porta, pouco antes de acordar.

Recordo vagamente a cara dela. Era loira, olhos azuis e tinha um daqueles barretes de Pai Natal que realça a beleza de algumas faces (poucas) e torna ridículas as outras todas. Não sei de que livros falámos ou sequer se comprei alguns.

Acordei no meu F. querido, que agora não se saracoteia. Talvez por despeito - ou mais provavelmente porque não há vento -.

Continuei deitado a modorrar. De vez em quando, entre dois sonos, tentava lembrar-me da livreira e da sua livraria híbrida no meio do nada californiano, ver se o sonho voltava. Já me aconteceu uma vez, um sonho de cowboys que durou uma semana. Cada noite um episódio novo, a continuar o anterior.

Com este da livreira não tive sorte: o sonho acabou e a única forma que tenho de o prolongar é escrevendo-o. Assim posso continuá-lo para onde quiser, mudar-lhe a parte móvel da livraria para outro sítio qualquer, comprar-lhe livros como nos sonhos.

23.12.17

Se pudesse

É sempre a mesma palavra: mudança.

Poço: muda tudo e cais no poço, nada muda e dele não sais. Ilusão: muda tudo e fica na mesma. Antes concentrar-te no tempo. Isto é,  no que não muda. Imanente. Perene. Intocável - aquilo que o tempo não toca, nem sequer aflora nem em sonhos, mesmo que o tempo sonhasse -. Somos hoje o que ontem fomos, corrigidos pelo que já éramos quando o tempo passou por nós. Não mudámos: afeiçoámo-nos ao que éramos e ficámos-lhe mais iguais do que já éramos.

Isto é: pele seios mãos pila; olhos. Mãos outra vez, a entrar pelo olhar dentro como um gato a estirar-se ao sol. Pele; uma gargalhada potente precedida por um sorriso. Pele outra vez. Joelhos: os teus apertam-me os meus sustentam-me. Amor, ouve-me: quem disser que mudei mente. Não mudei: amo-te como sempre te amei e quem disser o contrário não sabe do que está a falar.

Eu sei. Falo-te do sono, do amor, da luz e do rio da nossa cidade, do desejo e da paz, de olhar para a frente sabendo que à minha frente estás tu, pele da minha pele, olhar do meu olhar. Sou a mão que te leva a colher à boca da alma; tu és a alma que eu alimentaria se pudesse.

22.12.17

Família amiga

Família é aquilo que fica quando se expurgam os afectos de um grupo de pessoas; amizade o que fica quando se espreme o que há entre duas pessoas.

Isto é: ambas são essências. Família é um conjunto de pessoas que não precisam de amizade para serem parte do mesmo grupo; amizade é o que une as pessoas apesar de não serem família.

Dúvidas resolvidas a amizade tem a vantagem de ser voluntária e não cobrar dívidas.

21.12.17

Ruas, máquinas

Nas ruas da cidade cruzam-se a máquina de fazer sorrisos e a de fazer idiotas. Estas são mais numerosas e são portanto quem manda.

É pena: com um sorriso na boca até um palerma passa por gajo simpático. Com muitos sorrisos as ruas seriam bem mais hospitaleiras.

Pergunto-me como vão reproduzir a idiotice nos automóveis sem condutor. Será que vão pô-los a buzinar cada vez que passam por um ciclista ou essa função ficará reservada aos veículos-táxi? E vão programá-los para fingir que não nos vêem?

Que farão os idiotas todos que agora conduzem? Que será feito deles quando as máquinas de fazer palermas os dispensem?

20.12.17

Ângulos, redondos

Era um casal desigual. Ela cheia de ângulos e ele de redondos. Não ficaram juntos muito tempo: ele cansou-se de se lhe enrolar nas esquinas e ela de não ter quem lhas limasse.

[Tinha as pernas muito finas; pareciam palitos. A cada passo ele pensava que se iam partir e que a mulher nunca mais sairia de cama. A perspectiva assustava-o: nela até os guinchos do sexo eram facas.]

Dias, contas

Escrevo como cago: sai merda mas não consigo viver sem o fazer. Algumas pessoas discordam e acham que não, não sai merda quando escrevo. São poucas as opiniões discordantes às quais dou mais peso do que à minha, neste assunto.

Hoje tive o indescritível  (ia dizer injusto...) prazer de ouvir duas dessas vozes, duas pessoas que amo de amizade e respeito de admiração, duas pessoas cuja opinião tem peso, tanto como o da Senhora (caixa alta) que durante tanto tempo me encorajou. Há dias bons, inexcedivelmente bons. Se acreditasse num deus qualquer em vez de pensar que aquilo a que chamamos deus não passa de uma mistura de acaso, impotência e medo pensaria que dias assim são merecidos. Paguei-os adiantado, é tudo, ao contrário de outros que pagam a beatitude na outra vida.

Nunca deixarei de dar dar prioridade ao acaso, na grande desordem das coisas. Mas lá que às vezes acredito que paguei adiantado acredito. E dou por mim a desejar que haja mais dias assim, apesar de saber perfeitamente que se fôssemos a contas, a vida e eu estaríamos quites.

(Para a F. V. e o M. M., com um beijo e um abraço).

Auto quase retrato

Olham para mim e vêem um tipo que sabe ler, escrever e comer de garfo e faca. Não vêem o troglodita tímido que está por trás do tipo. 

19.12.17

Liberdade é poder escolher as suas prisões

Não ter dinheiro é uma prisão; escolher não o ter uma liberdade.

Pequena nota à margem

As palavras devem entrar sozinhas numa frase, escorregar sem ajuda para dentro dela. Se precisam de vaselina - ou, pior ainda, de um martelo - está a frase estragada.

Dia sem fim / Diário de Bordos - Lisboa, 18-12-017

Fui ao Povo e levei o casaco de couro que a miúda me deu. Era do pai dela e fica-me melhor - diz a A. I. - do que o que comprei em Gibraltar por cem euros. Acredito que sim, claro. Não percebo nada destas coisas de ficar bem. Não me aperta e é quente, como se a miúda estivesse ali comigo. É por isso que gosto dele. A poesia foi boa, mas gostei mais da malta que por lá encontrei; e gostei da viagem de regresso para bordo, apesar de me ter parecido demasiado curta. Apetecia prolongar o gozo um bocadinho, mas a verdade é que tenho de me levantar cedo e sem a miúda nunca adormeço muito depressa, fico sem pele e dói.

O almoço também foi bom, em casa do A. G. Voltei de comboio, meio sonolento meio a ver a paisagem e meio a pensar que se isto não é ser daqui então não sei o que é ser daqui. Isto era o estado de comoção em que vinha, o sol, a barra, tudo azul e a ponte ao fundo, o almoço que foi comida para o corpo e para a alma, o comboio que agora pára sempre em todas lá vinha a fazer-me o favor de fazer aquilo durar, como faço eu à miúda, fazer durar o gozo e a comoção e essas mariquices todas.

De maneira assim foi o dia, porreiro e amanhã vou falar com um armador que se tudo correr bem será o meu armador e o dia será teu, miúda. Muito longo, muito nunca-mais-acabes, um sem-fim de dia, como quando estamos os dois juntos numa cama, tu e eu. Coisas boas que nunca mais acabam. Levam é muito tempo a começar, mas isso é outra história. 

18.12.17

Auto-confiança ou confusão?

"Persigno-me e sigo" será sinal de auto-confiança excessiva, auto-confiança dubitativa ou, no mais benigno dos casos, simples confusão? 

Gatos e vidas

Convivi muitos anos - uns catorze, mais coisa menos coisa - com uma gata com quem não falava. Ela retribuía. Partilhámos vários apartamentos e casas - a Masha, a minha então mulher e hoje amiga querida, dona do animal, e eu - sempre sem trocar uma palavra que fosse. Tratava da bicha, mudava-lhe a areia e dava-lhe de comer em silêncio. Ela não-agradecia exactamente da mesma forma, como se o silêncio fosse uma viagem de comboio com bilhete de ida e volta. Partilhávamos o espaço, o desprezo mútuo e uma pessoa que amávamos os dois e nos amava aos dois.

Assim aprendi que mais do que partilhar camas, casas de banho ou projectos de vida o maior e mais sólido sinal de amor é partilhar gatos.

17.12.17

Ler, escrever

Quanto mais um gajo escreve menos lê. É pena: o que se lê é sempre melhor do que o que se escreve.

Vinho deste mundo

Janto vinho tinto e disparates, na esperança fátua de que estes sejam menos maus do que aquele.

Fátua e não vã: o vinho é péssimo e o copo grande, graças à gorja que dei ao empregado, o que me trouxe o copo anterior, tão pequenino. O rapaz até me apertou a mão, coitado. Não deve estar habituado, porque a gorja não era nada do outro mundo.

Ou sim. Valeu-me um copo com o dobro da capacidade e o mesmo preço. Fosse o vinho um Haut-Marbuzet, por exemplo, e estaria no outro mundo.

Isto de olhar para as coisas como elas são e não como poderiam ser também tem os seus limites.