17.6.06

  Posted by Picasa

Pergunta

Should I love you forever? Devia amar-te para sempre? Claro que sim. Entre o tempo e nós, só a vida se interpôs.

16.6.06

Retratos

Gostas de comida chinesa? Eu gosto, muito. Estou num restaurante chinês, a ver velhas fotografias - trinta anos, ou vinte e muitos. Gostas de fotografia? Não sei.

Na verdade, nada sei de ti. Por isso me fascinas, por isso gosto tanto de ti, por isso te quero: esta lenta (tão lenta) descoberta de mundos, vidas, sonhos - que descobrimos, que se descobrem, nos dois sentidos.

Retratos possíveis

Rosnava de prazer, mas quando furioso não se ouvia.

Neologismos

Eu blogo-te imenso, mas tu não me blogas nenhuma.

15.6.06

Diálogos possíveis

- Fica, porém, sabendo que sou um homem teimoso; e vou insistir, insistir, insistir até tu dizeres "sim!". Nesse dia serei feliz, também.
- Sim.

1.6.06

Silêncio, bis

Depois silenciaste-te, como de costume.

Quanto mais não seja...

...por causa deste post. Felizmente há mais.

Já agora: este também.

Requiem

A Casa do Largo morreu. Viva a Casa do Largo. Um boçal tomou conta dela. Que morra o boçal. Une tranche de vie s'en va, remplacée par une tranche de mode.

E o pimba, arquétipo do pimba, epítoma do pimba, paradigma do pimba, paroxismo do mau gosto, idiota alegre, está orgulhoso, contente, cheio de si mesmo: conseguiu reduzir o que era único ao banal, apogeu da ambição do pimba.

É revoltante.

O que está feito está feito: mais dez quilos na memória, menos dez no presente. É a isso que se chama "entropia", suponho.

31.5.06

Diálogos possíveis

- Porque trabalhas tu tanto?
- Porque gosto muito do que faço.
- Mais um amor não correspondido...

25.5.06

O fim da história

Não se pode dizer que a memória se dissipa: sais-me do corpo, do coração, mas não da mente. E, cada vez que vejo uma cabeleira loira mais alta que as outras, um corpo alto e esguio e belo como o de uma estátua dessas que comemoram um feito da humanidade, ou a igualdade, ou a justiça, sei lá, tudo coisas pelas quais lutas e nas quais acreditas, ainda sobressalto.

O aeroporto já não me parece vazio porque não vieste esperar-me, ou trazer-me; tal como a cidade, de resto. Ontem fui comer a um restaurante onde tantas vezes fomos; e passeei pelas ruas e vielas que me mostraste. Não foi tristeza o que senti; nostalgia, talvez. Queria comprar-te flores, mandar entregar-tas em casa, mas não tive tempo. Fica para a próxima.

Assim saímos da vida um do outro - se calhar, como nelas entrámos: devagar, sem amanhãs e sem ontens, sem grandes expectativas nem grandes medos: foi uma história bela porque tu és bela, rica por causa do teu humor e bonita por causa da tua inteligência. Uma história por ti e para ti.

20.5.06

Doca do Espanhol




A fotografia está sobre-exposta, contrastada, quase ilegível. É assim que gosto dela, é assim que foi tirada. A Doca do Espanhol era utilizada para os treinos de remo porque nela se podia medir um quilómetro.

Doca do Espanhol (re-post)




Fui muitas vezes, em criança, esperar o meu pai a este mesmo sítio da Doca do Espanhol. A sede da companhia (Sociedade Geral) era por trás do guindaste onde este senhor está sentado, e os navios da SG atracavam aí. Não sei porque se chama "Doca do Espanhol"; durante muito tempo, quando me falavam na Doca de Alcântara, não sabia que era esta, verosimilmente a primeira doca que vi, e de certeza a primeira de que tenho memória.

Vi muitas mais, depois - e em todas havia um senhor asssim, sentado, a olhar para um navio e a pensar "que faço aqui?".

Do outro lado, outro mundo




As montanhas do Riff vistas de Gibraltar, com o inevitável navio a passar pelo Estreito.

Na minha primeira viagem como jovem oficial da marinha mercante tive a sorte de passar por todos os pontos míticos da navegação marítima: (por ordem) o canal do Panamá, o canal de Suez, o Bósforo e o estreito de Gibraltar, de todos o único que conhecia. Gibraltar não tem a carga mítica de nenhum dos outros - mas é, já era, voltou a ser um dos lugares da minha memória. E nada há de mais pesado que a memória.

Mais tarde passei pelo cabo da Boa Esperança, num navio velho, lento, a cair de podre - foi a sua última viagem, de resto. Falta o Horn, que quero passar à vela, e o Leewin, idem.

Fotografia de Júlio Quirino.

O fim do quarto




A bordo de uma embarcação há dois tipos de tripulantes: os que "dão oito horas ao navio" e os "de quarto" (o comandante está, naturalmente, fora desta classificação, mesmo que faça quartos). Estes, períodos de 4 horas, são os seguintes:

Das 0000 às 0400 e das 1200 às 1600: terceiro quarto;
Das 0400 às 0800 e das 1600 às 2000: segundo quarto;
Das 0800 às 1200 e das 2000 às 2400: primeiro quarto.

As designações de "primeiro, segundo e terceiro" quarto referem-se ao oficial que deles é responsável: terceiro quarto é o do terceiro piloto, porque é o pior e mais desconfortável; segundo quarto o do imediato, porque é ele o encarregue da navegação; primeiro quarto o do comandante (ou primeiro piloto, se o comandante não fizer quartos), porque é o melhor e é o que apanha a meridiana, que permite calcular a singradura do navio (distância navegada de meio-dia a meio-dia) e determinar as ordens para a próxima singradura.

Numa embarcação de vela e em regime de cruzeiro os quartos são mais curtos (duas ou três horas, geralmente), menos rígidos e muito, muito mais cansativos - como esta bela fotografia da Lena pelo Júlio Quirino tão bem documenta.

Nós




Fotografia de Júlio Quirino

O escorrega dos deuses




Pelo menos, de alguns...

(Fotografia de Júlio Quirino)

Em Julho. Em Portimão.










Multi Cup 60' Cafe Ambassador
I Grand Prix de Portugal - Portimão, de 13 a 16 de Julho.

As mais eficazes, mais velozes, mais espectaculares máquinas de navegar à vela vão estar em Portimão de 13 a 16 de Julho para o primeiro Grand Prix de Multicascos Open 60' jamais realizado em Portugal.

The Rock




Vi esta imagem pela primeira vez há trinta anos. A magia é a mesma: o Rochedo contra a luz do sol nascente, a esperança de que aquilo nunca deixe de ser inglês, a ideia de que para lá fica um outro mar, tão diferente do Atlântico, que é duro e honesto. O Mediterrâneo é traiçoeiro, de extremos ("do motor para o estai de tempo e deste para o motor outra vez, em menos de uma hora"), e começa - ou acaba - aqui, em Gibraltar.

Tal como o mundo já começou, e acabou, aqui.

Fotografia de Júlio Quirino.

12.5.06

Dedicatória

"A perfeição, querida, é muito difícil de encontrar; e dar-lhe as mãos é ainda mais difícil. Satisfaçamo-nos com o bom, que é a sua forma humana..."

Um amor de blog

E foi preciso chegar a esta idade para descobrir que isto é uma grande verdade...

4.5.06

Pachorra

"Pachorra" é uma palavra bonita. E "não há pachorra" uma expressão ainda mais bonita, tanto mais que é, oh quantas vezes, tão verdadeira, tão justa.

Oração

Protege-me, Deus, da estupidez, que é a única coisa com a qual não sei lidar.

3.5.06

Pena

A pena é um sentimento difícil de exprimir, ou pelo menos tornar credível. Talvez por isso dizemos tantas vezes que não lamentamos nada...

24.4.06

Diálogos possíveis

- Quantas línguas falas?
- Posso trabalhar em quatro, e namorar em cinco.

Memória

Dela, tenho uma uma forma muito fragmentada, incompleta: lembro-me de um seio, de um pedaço de coxa, do sorriso permanentemente irónico.

Lembro-me do dia em que chegou a casa com um "Tratado da Felação": queria, explicou-me, "ser capaz de contextualizar". E lembro-me do dia em que se foi embora, parecia a Mary Poppins: disse-me adeus sem sequer se voltar para trás e apanhou a camioneta para o Algarve. Levava o livro debaixo do braço.

Às vezes imagino-a muito bonita, alta, esguia, loira e de olhos azuis. E leve, muito leve: tinha tanto de leve como eu de pesado; outras, parece-me baixinha, encorpada, morena, viva. Só os seios não mudam - ou melhor, o seio, aquele de que me lembro. Grande, redondo, firme como um dia de vento e com o mamilo voltado para dentro. Apercebi-me que o nosso amor chegava ao fim quando deixei de ser capaz de o fazer sair: por mais voltas que lhe desse, por mais que fizesse, ele continuava voltado para dentro, como a cratera de um vulcão extinto.

A verdade, a verdadeira verdade, a verdade irrefutável, escorreita e límpida e inexpugável é que ainda gosto dela. E que nunca mais encontrei quem me fizesse uma simples felação bem feita, quanto mais uma "contextualizada".

Súplica

Escreve, escreve-me, -te, -nos, diz, fala, existe. Ri, toca-me de novo com esses dedos tão ágeis, respira-me como eu te respiro cada dia, cada minuto.

S/Y PELLOC'H (sister ship de "CHICRAGNA")

Genève, Arbres et Lumières 2005





Bilene


F.P.

F.P.

F.P.

F.P.

12.4.06


Krueger Park

Retrato

Ela é muito bonita, muito simpática. Tem talvez um bocadinho de nariz a mais - mas se o tirasse, seria a mesma pessoa?

10.4.06

Um blog para quem gosta de ver navios

Blogue dos Navios e do Mar

Auspícios

Domingo cheguei à padaria e tirei a senha nº 69. Quando veio a minha vez, pedi à jovem, e bonita, funcionária "10 carcaças". "De bico ou das outras?", perguntou ela.

9.4.06

Semântica relacional

A ejaculação precoce é uma forma antipática e desagradável de se dizer a uma senhora que estamos fartos do que estamos a fazer, e que é altura de passar a outra coisa - dormir, por exemplo.

Regressão

Dantes, tinha de fazer amor para amar; agora, tem de amar para fazer amor.

8.4.06

Paris

é uma cidade bonita.

30.3.06

Orgulho e Preconceito

Vou para casa: Miss Elizabeth Bennet está à minha espera.

Selenitas

Ele costumava viver na Lua, até que se apercebeu que era para lá que os cães todos uivavavam. Nesse dia mudou-se.

Quoque tu, Julius?

27.3.06

Precaridade

Os estudantes (e não só) franceses lutam contra a precaridade. É compreensível: preferem a estabilidade do desemprego.

24.3.06

Arquitectura, psicologia

O Princípe de Salina (ou o sobrinho por ele), no Gattopardo, diz que "uma casa da qual se conhecem todas as divisões não merece ser habitada". O mesmo se pode dizer das pessoas, não é?

23.3.06

Meteorologia genebrina

Hoje houve sol, pela primeira vez em meia dúzia de dias. Durou pouco: o cinzento - ou melhor, os cinzentos - destes últimos dias voltaram. Houve-os de todas as gradações possíveis, do quase branco ao quase preto. Podia ser belo - mas hoje é apenas deprimente.

Esta cidade fascina-me: como é que um sítio com tantos ingredientes tão bons - o sistema político (para mim o melhor do mundo), a quantidade de mulheres bonitas (Genève deve ser uma das raras cidades do mundo em que o ratio mulheres feias / mulheres bonitas é inferior a 1), a organização, a oferta cultural, as lojas de discos e as livrarias que esta tem, os mercados, consegue ser tão invivável? Não é só o clima: é esta impressão de que nada se move (e pur si muove), este aspecto refastelado, esta ausência de sensualidade (das ruas, dos prédios, dos cafés, dos bares), esta impressão que tudo, e não só o céu, é cinzento...

Há, porém, momentos fantásticos - e um deles deve estar quase a chegar: é o primeiro dia de calor, o primeiro dia em que as raparigas saiem para a rua "nuas", sem as roupas de inverno, e de repente apercebemo-nos que o frio acabou, ou está quase para acabar. As esplanadas enchem-se, as caras sorriem, tudo se torna mais leve, mais claro, parece uma sala à qual se limpou o pó de anos. Hoje foi quase esse dia, quase. No domingo a temperatura vai subir bastante, mas não estarei cá e estará a chover, de qualquer forma.

No Outono acontece o contrário: as raparigas vestem-se e as janelas fecham-se, na cozinha os guizados, os ragoûts e os tintos pesados substituem as saladas e os brancos alegres, e tudo o que durante alguns meses cintilou volta ao normal, cinzento. É como se a luz, a festa, os sentidos, fossem uma interrupção, uma aberração.

Serviço Público - Blogs

Navegando no Tempo e As Fadas Também se Enganam no Caminho?, da mesma autora: óptimas fotografias, textos interessantes (como na Playboy).

E este (excerto: "Por isso, utilizo este blogue, para espetar, dilacerar, furar aos poucos, queimar com pontas de cigarro, esfregar com gotas de álcool numa ferida exposta, dar beliscões, vomitar cá para fora, despejar pequenas doses de veneno. A mim própria. Que se foda ainda ser quarta. Nunca liguei ao calendário.")

Um gigantesco passo

De Villepin recua. A França vai, uma vez mais, dar um gigantesco passo para não sair de onde está.

Diálogos possíveis

- Berkeley dizia que ser é ser percepcionado.
- Ser é ser tocado por ti.

21.3.06

Suite et pas fin (il n'y a jamais de fin, hélas)

Encontrei a senhora no comboio. Ofereci-lhe um ramo de flores, enorme.

Ela não sabia que as flores não eram minhas: sou empregado de uma florista sem dinheiro, que me obriga a entregar as encomendas de metro, autocarro, comboio. Já lhe pedi uma bicicleta, ao menos, mas nem para isso a minha patroa tem dinheiro. Ela não sabe dizer que não a um cliente.

Toujours est-il que je l'ai vue dans le train, cette dame. Aussitôt suis-je tombé amoureux d'elle: ni trop belle, ni trop laide, son sens de l'humour ressortait dans son regard comme la marque de lunettes de soleil dans un visage bronzé.

Dei-lhe as flores num gesto impulsivo: gostei dos cabelos despenteados, dos traços finos, do olhar trocista. Estávamos longe da próxima paragem; devia falar com ela. Não lhe disse nada. Nada. "Ofereço-lhe, minha senhora, estas flores porque simpatizei com a sua cara; porque é bonita; porque as merece; porque oferecê-las me coloca numa situação periclitante". Nada. Quando muito: "Algo em si atraiu estas flores, não fui eu que lhas dei". Quando muito. Talvez lhe tenha dito isso: "Não fui eu: foi você que se ofereceu estas flores por meu intermédio. Um pobre imbecil veio cá comprá-las hoje de manhã. Queria, disse-me, um bouquet "conservador" - "conservador", foi este o termo que empregou".

- Ofereço-lhe, minha senhora, estas flores. Espero que goste delas. Se não gostar, por favor, não me diga.

"Se não gostar, por favor não me diga: prefiro a ignorância, sabe? É ela que me faz viver. Ou a esperança, são a mesma coisa". O comboio parou. Era um desses comboios suburbanos, cheio de caixeiras de supermercado, de vendedoras de roupa de marca, de contabilistas e de bêbados precoces. Saí sem a ver, e só no cais me apercebi que ela saíra também. Tinha um andar desengonçado, como se quisesse ter uma perna mais curta que a outra. Levava as flores bem altas, visíveis, e olhava em frente. Eu queria voltar para trás, ir buscar mais flores, refazer a encomenda original.

Claro que não: queria segui-la, ir para casa dela, deitá-la numa cama e apaixonar-me. Nessa altura procurava, desesperado, uma mulher, se possível sem filhos, quarentona recente ou trintona tardia (gosto de mulheres mais velhas do que eu, sempre gostei), com sentido de humor e um aspecto geral, como dizer?, sensual. Objectivos esses inalcançáveis sem me apaixonar, claro. Por isso me apaixonava: por uma professora indiana entrevista à porta da universidade, por uma empregada ucraniana no café, pela secretária da pessoa com quem me iria encontrar para um emprego, por essa pessoa mesmo se tivesse dento do critério "sexo", "idade" e "aspecto". Apaixonava-me a torto e a direito, mas nunca tinha oferecido flores - que não eram, ainda por cima, minhas.

Enfim, acabei por me ver em casa dela, em pleno campo e com uma cama enorme e ruidosa. Nesta ordem: primeiro ela, depois o campo, depois a casa, depois a cama, depois o ruído.

II

Fui despedido, claro, quando voltei à florista dois ou três dias depois. Mas fiquei a viver com a Isabel; - o que era, quase, um emprego a tempo inteiro. De manhã dava de comer e beber aos numerosos animais que ela mantinha: um porquinho-da-índia, um coelho anão, dois cachorros, meia dúzia de caracóis e um gato; passeava os cachorros no jardim à frente de casa; comprava os legumes frescos para o dia, no mercado biológico; passava o aspirador; fazia o almoço; lavava a loiça; dormia a sesta; passeava os cães; fazia o jantar. A todas essas tarefas me dedicava grato: tudo era melhor do que ter de oferecer flores no comboio à primeira senhora gira que encontrava.

Isabel não tinha uma perna mais pequena do que outra: tinha-as iguais, pequenas, bonitas, mas arqueadas. Montava a cavalo desde miúda, com a mesma energia e determinação com que me levara para casa. O cavalo, um alazão enorme, completo, chamava-se Red Promise e tinha uma potência ilimitada. Uma vez vi-o saltar um metro e sessenta parado. Parado. Nos concursos era um prazer vê-lo: arrancava num galope desenfreado para os obstáculos e quando parecia que ia levar tudo pela frente reduzia a velocidade, e levantava vôo na vertical, ou quase, como um helicóptero.

Era arquitecta, passava muito tempo em casa, e longos períodos fora, porque tinha obras pela Europa toda. Não sei o que viu em mim, eterno aprendiz de fotógrafo e moço de recados de uma florista falida. Eu sei o que vi nela.

III

Vous ne saurez jamais, très chère, combien d'heures de métro, combien de kilomètres de vie, combien de regards croisés m'ont conduit à vous. Un jour, quand je serai grand et libre, j’écrirai un livre que vous sera dédié, plein de mots de vingt ans, de mots de quarante ans, de mots du début des jours jusqu’à leur fin.

16.3.06

Evolução

Quando viajamos, ou fazemos amor, apercebemo-nos que a evolução não fez bem o seu trabalho - precisamos de mais braços, mais mãos.

9.3.06

A luz e as descrições da luz

"On eût dit qu'avant de mourir le soleil rejetait les combinaisons trop raffinées de teintes et semait toutes les couleurs principales de son prisme. Son dernier présent sur la terre, après la chaleur et la lumière, c'étaient des couleurs enfantines. Bientôt le monde ne fut plus éclairé que par du violet, de l'indigo, de l'orangé: la lumière, cadavre étincelant, se décomposait. Puis l'aubergiste vît le soleil disparaître; un peu d'écume jaune marqua au coin la fin de son apoplexie. et la terre enfin seule commença à vivre pour elle même."

Maurice Blanchot, in "Thomas l'Obscur, Première version, 1941", Ed. Gallimard, Paris, 2005.

(No seguimento disto, claro).

7.3.06

Semântica

"Brandos costumes" é o nome que em Portugal se dá à cobardia.

6.3.06

Parabéns

A ironia está para a cultura como o sal para as batatas fritas.

Retratos

I
Era uma míuda estranha: o pai educara-a na crença de que ela não tinha características, só tinha defeitos.

II
A esperança era a gasolina dele, e tal como um carro pára se não tiver combustível, mas volta a funcionar assim que lhe enchem o tanque, ele tinha uma capacidade ilimitada de se atestar de fé.

III
A unica coisa que queria era ser independente. Morreu cedo: deixou-se devorar pelo seu objectivo, em vez de ser ele a devorá-lo.

4.3.06

Pátria

"Contra os canhões, marchar, marchar".

Não deve haver frase que mais me ligue à pátria do que esta.

28.2.06

Blog novos (pelo menos para mim)

Este, muito bom. Exemplo:

"Queres palavras.

Aqui as tens. Para ti. Como dantes, quando nem sabia onde iam parar. Guarda-as, afinal és a razão tardia e maior pelas que hoje me sobram".


Ou este:

"Tão longe tão perto

a liberdade tornaria a solidão mais suportável?"

Serviço Público - fins de tarde em Lisboa


25.2.06

Balsâmicos bálsamos

O chili foi feito de uma forma banal: após o refogar das cebolas e da carne - em cubos, claro - 3 ou 4 horas de cozedura em água e cerveja, alternadamente (com uma preferência inocente para esta em detrimento daquela), malaguetas, cominhos, orégãos, colorau e alho em doses, digamos, equilibradas, pouco muito pouco feijão. Basta controlar a consistência e a coisa faz-se per si.

À parte fiz um molho de piri-piri de que gostei muito: malaguetas (não sei o nome, são grandes e redondas e picantes) e picadas, sal, azeite, cebola, alho, salsa e vinagre balsâmico, tudo muito picadinho e cuidadosamente esmagado. Muito vinagre balsâmico - é inacreditável o que este vinagre pode fazer por si e pelos seus cozinhados.

PS - Só agora vi isto.

Tarde de sábado com nada para fazer

... Your mind is an incubator for good ideas, it just takes a while for them to develop...Your thoughts tend to be huge, and they come on quickly - like an explosion...

... You've dated enough to know what you want...

...You seduce people by tapping into their dreams and desires.
And because of this sensitivity, you can be the ideal lover for anyone you seek...
...


"Ficaste cheio de ti", diz-me H.
"Sim", respondo, "enjoado, mesmo".

Better get drunk.

Figos

Figs

D. H. Lawrence

The proper way to eat a fig, in society,
Is to split it in four, holding it by the stump,
And open it, so that it is a glittering, rosy, moist, honied, heavy-petalled four-petalled flower.

Then you throw away the skin
Which is just like a four-sepalled calyx,
After you have taken off the blossom with your lips.

But the vulgar way
Is just to put your mouth to the crack, and take out the flesh in one bite.

Every fruit has its secret.

The fig is a very secretive fruit.
As you see it standing growing, you feel at once it is symbolic:
And it seems male.
But when you come to know it better, you agree with the Romans, it is female.

The Italians vulgarly say, it stands for the female part; the fig-fruit:
The fissure, the yoni,
The wonderful moist conductivity towards the centre.

Involved,
Inturned,
The flowering all inward and womb-fibrilled;
And but one orifice.

The fig, the horse-shoe, the squash-blossom.
Symbols.

There was a flower that flowered inward, womb-ward;
Now there is a fruit like a ripe womb.

It was always a secret.
That's how it should be, the female should always be secret.

There never was any standing aloft and unfolded on a bough
Like other flowers, in a revelation of petals;
Silver-pink peach, venetian green glass of medlars and sorb-apples,
Shallow wine-cups on short, bulging stems
Openly pledging heaven:
Here's to the thorn in flower! Here is to Utterance!
The brave, adventurous rosaceæ.

Folded upon itself, and secret unutterable,
And milky-sapped, sap that curdles milk and makes ricotta,
Sap that smells strange on your fingers, that even goats won't taste it;
Folded upon itself, enclosed like any Mohammedan woman,
Its nakedness all within-walls, its flowering forever unseen,
One small way of access only, and this close-curtained from the light;
Fig, fruit of the female mystery, covert and inward,
Mediterranean fruit, with your covert nakedness,
Where everything happens invisible, flowering and fertilisation, and fruiting
In the inwardness of your you, that eye will never see
Till it's finished, and you're over-ripe, and you burst to give up your ghost.

Till the drop of ripeness exudes,
And the year is over.

And then the fig has kept her secret long enough.
So it explodes, and you see through the fissure the scarlet.
And the fig is finished, the year is over.

That's how the fig dies, showing her crimson through the purple slit
Like a wound, the exposure of her secret, on the open day.
Like a prostitute, the bursten fig, making a show of her secret.

That's how women die too.

The year is fallen over-ripe,
The year of our women.
The year of our women is fallen over-ripe.
The secret is laid bare.
And rottenness soon sets in.
The year of our women is fallen over-ripe.

When Eve once knew in her mind that she was naked
She quickly sewed fig-leaves, and sewed the same for the man.
She'd been naked all her days before,
But till then, till that apple of knowledge, she hadn't had the fact on her mind.

She got the fact on her mind, and quickly sewed fig-leaves.
And women have been sewing ever since.
But now they stitch to adorn the bursten fig, not to cover it.
They have their nakedness more than ever on their mind,
And they won't let us forget it.

Now, the secret
Becomes an affirmation through moist, scarlet lips
That laugh at the Lord's indignation.

What then, good Lord! cry the women.
We have kept our secret long enough.
We are a ripe fig.
Let us burst into affirmation.

They forget, ripe figs won't keep.
Ripe figs won't keep.

Honey-white figs of the north, black figs with scarlet inside, of the south.
Ripe figs won't keep, won't keep in any clime.
What then, when women the world over have all bursten into self-assertion?
And bursten figs won't keep?

20.2.06

Ao largo de Cascais


Oh, se foi! (foto de G. B.)

It was a good day! (Foto de P. P.)

Uma filha, uma ilha


Helena, 2006

Uma filha, uma ilha


Helena, 2006

S. João do Estoril, 2005

19.2.06

Dúvida semântico-erótica

Uma panqueca é uma queca à escala global?

18.2.06

Força de expressão

Por vezes ela exprimia uma vontade, uma só e sempre a mesma, com tanta força, e de uma forma tão directa, tão frontal, tão pura, que ainda hoje lhe sinto as palavras, o cheiro, o sabor delas, a luz, e ainda hoje tenho vontade de lhe satisfazer o pedido.

Vidas

A sua vida não era, como muitos pensavam, uma sucessão de derrotas. Antes pelo contrário: era uma sequência de vitórias - vitórias essas que foram sendo, em graus variáveis, abandonadas, desprezadas, mal-exploradas, deixadas de lado porque ele não sabia, simplesmente, o que fazer com elas. Ou não estava interessado, mais provavelmente.

17.2.06

Palavras bonitas

"Unbearable" é uma palavra insuportavelmennte bonita.

Evolução

A partir de certa idade, as pessoas vêm em kits completos: passado, filhos, "bagagem emocional"; - nada a ver com aquela simplicidade pela qual nos apaixonávmos quando éramos jovens: uma pessoa e um projecto. O que complica um pouco as coisas, claro: os pacotes são indissociáveis, e para gostar de um dos seus elementos temos que gostar de todos.

PS - e o pior é que a experiência ensina-me que devemos desconfiar de quem, a partir de certas idades, não vem em package...

11.2.06

Nem tudo é Chirac, lá para aqueles lados...

Ocorrem-me alguns posts (mais do que justificados) sobre a guerra do Golf em que se troçava da cobardia gaulesa - e aqui ficam posts no sentido contrário (Via A Origem das Espécies).

Charlie Hebdo
Canard Enchaîné

6.2.06

Ora bolas!

Foi só por causa dos posts sobre as caricaturas que cheguei a este blog. Ora bolas: os filhos da mãe dos árabes não podiam ter-se revoltado mais cedo, coitadinhos?

(Via Marretas, claro).

3.2.06

Serviço Público - Restaurantes

Passamos a vida a queixar-nos (enfim, eu passo) da falta de um restaurante simultaneamente italiano e decente em Cascais.

Mas a verdade é que há um, ao mesmo tempo bom e barato (também os há maus e caros, mas isso é outra história): trata-se da Pizzeria Il Siciliano, na Rua do Poço Novo, e tem uma empregada muito simpática, comida boa, alguns vinhos mais ou menos decentes (não tem, e é pena, Barolo), uma decoração assim assim; ainda por cima é facilmente acessível, e o Limoncello não é nada mau (nem a grappa, mas com esta a 3 euros mais vale beber Limoncello, a 2 e picos).

Rua do Poço Novo, 138 A, Cascais
T.: 214 868 357
Fecha às Terças.

Tempos novos

Que trarão, os tempos novos? As felicidades vão mudar e as tristezas também.