20.7.13

É a literatura, estúpido

Imaginemos alguém que de Portugal só tivesse lido Eça de Queirós e vai fazer uma viagem a Lisboa.

Imaginemos que essa pessoa fala português e percebe o que se passa. Reencontraria facilmente no Portugal de hoje aquele que conhece, o do século XIX.

Tal como ainda hoje percebemos a América por causa de Tocqueville ou eu sei onde estou por causa de Garcia Marquez.

Tristezas, viagens.

A tristeza é tão portátil como a felicidade; ligeiramente mais pesada, só.

Panamá

Quando quero comer pouco tenho de ir a um restaurante caro. Que saudades tenho das tapas de Palma.

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 19-07-2013

Hoje é um dia importante nesta viagem, nesta vida: foi dado o primeiro passo para a travessia do Canal do Panamá.

Ao meio dia e meia hora, quase uma da tarde, um senhor veio a bordo "medir" a embarcação. Não mediu nada excepto a distância da roda de leme ao painel da popa, coisa que até hoje nunca tinha visto e nunca mais, decerto, verei. Mas preencheu montes de papéis, deu-me muitos mais a assinar - se fosse um futebolista ou um cantor célebre nunca mais trabalharia, tantos foram os autógrafos - e aqui estamos: o comboio deixou a estação. Se tudo correr bem daqui a nove ou dez dias atravesso de novo o Canal, desta vez de Sul para Norte, do Pacífico para o Atlântico.

A viagem que me trouxe aqui foi linda, dramática, maravilhosa, terrível, assustadora, determinante. Todas as viagens deviam ser assim (ligeiramente mais felizes, quando muito). Nunca vi tanta vida marinha - golfinhos, baleias, tartarugas, mantas, focas (repetir quase ad nauseam); nunca pensei que o mar não conseguisse curar as maleitas todas, e não conseguiu. Mas foi lindo. Tive uma tripulação maravilhosa, tive vento - muito, pouco, nada - horas de motor, dias maravilhosos, mágicos, desde San Francisco até à chegada ao Panamá.

Agora - após um mês e meio de refit que correu pior do que tudo o que eu tinha imaginado e normalmente bem para as pessoas que conhecem o país - estou de partida. Vou de um oceano para outro, de uma metrópole para um lugar praticamente deserto.

A cidade do Panamá é uma mulher muito feia e horrivelmente atraente que ora cheira mal dos sovacos ora se maquilha como se estivesse a descer os Champs-Elysées na Carrosse Royale. Nunca sabemos se temos de ir ao supermercado comprar desodorizante ou à loja de perfumes comprar Fahrenheit.

"Atravesse o Canal do Panamá e seja feliz!" Podia elaborar este tema a noite toda: "Infeliz? O Canal trata disso"; "Se acha que do outro lado o espera um mundo melhor, experimente o Canal". Canso-me depressa. Começo a pensar naquilo de que um dia lembrarei da minha passagem pela cidade do Panamá, sinal seguro de que estou em modo partida.


17.7.13

Injustiça

Um gajo lê experienciar num brevíssimo extracto de uma tradução e já sabe que vai manter a sua política estricta de não ler livros em traduções portuguesas. Ou lê no original ou compra uma tradução francesa ou inglesa.

Voluntário, involuntário

Gorda e feia andam muitas vezes juntas, mas não deviam. É obeso quem quer; feio não.

Tratado de saber viver para uso das velhas gerações

Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti não nos dá o direito de lhes fazer aquilo que não nos importamos que nos façam a nós.

Sentimentos, cronologia

"Os sentimentos não têm cronologia".

Zoraida, a senhora que me vende os belíssimos colares e brincos que um dia oferecerei a quem eles, os colares e brincos quiserem ser oferecidos.

Como aqui contigo

É noite, cheira  a peixe frito, o local onde estou é muito bonito, La Finca del Mar, o barman é francês, chama-se Michael, da "Champagne-Ardennes", se há uma coisa com a qual os franceses são rigorosos é com as origens geográficas, podia ser Champagne, ou Ardennes ou Leste da França ou Nordeste, nada disso. Champagne-Ardennes. Também lhe ensinei a técnica delicada e subtil do ti'punch; não fora o vento (a ausência de vento) a tristeza (a ausência de felicidade) e sentir-me-ia na Martinique.

Já fui muito infeliz na Martinique, não vão os leitores pensar que na Martinique só se pode ser feliz, longe disso; mas é um sítio tão bom para ser feliz que nos esquecemos de quão infelizes lá fomos. E agora, no Casco Antiguo da Cidade do Panamá num restaurante chamado Finca del Mar cujo barman francês viveu em Cuba doze anos bebo um ti'punch e penso que me falta o vento. Tudo se pode substituir, tudo; menos o vento.

Gostava de ter um chapéu como o dos empregados; o Michael garantiu-me que o ceviche é feito como no Peru, o peixe fica sólido, rijo, isto quase podia levar aspas, a citação é quase verbatim, quase, no Panamá acaba sempre demasiado cozido.

Tanto assim é que lhe pergunto se tem um charuto "não", diz ele "mas vou conseguir-lhe um" e pede-o ao senhor da mesa ao lado, por coincidência também francês, deve ser um dos donos.

Gozo o meu charuto a fundo, apesar das desculpas do vizinho da mesa ao lado, "é panamiano, não é cubano"; acho simpático, é curioso como os franceses conseguem este equilíbrio permanente entre ser detestáveis e adoráveis.

Entrou vento, fraco, uma térmica, nada de especial, mas refresca como o charuto panamiano.

Intuitivamente penso em L., claro, penso sempre em L. seja ou não intuitivo.

A minha casa tem duas divisões, a solidão e a tristeza, mas são tantas as vezes que consigo lá ser feliz, nas duas. À vez ou ao mesmo tempo.

Como aqui contigo, como serei em breve, como serei em breve, para sempre.

Inspiração, expiração

Inspiração é um falso alarme. O que conta é a expiração.

Anti-Casanova

Raras são as mulheres que merecem o trabalho que nos dão para as seduzir. E muitas as que valem a dor que nos causam quando as perdemos.

16.7.13

Situações

Ela estava entre mim e a vida; eu entre ela e a morte.

Poesia

Os portugueses são relativamente bons a escrever poesia (apesar de não tão bons como normalmente se crê, na minha opinião modesta) mas horrorosos a recitá-la.

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 15-07-2013

Os meus passeios (é provocação) pelo Panamá continuam. Hoje fui à ilha de Contadora a - pelo que me disseram - ilha mais desenvolvida (se bem não a maior) das Islas las Perlas.

Fui de ferry, Artie ainda está nas mãos dos diferentes fornecedores. (Digo diferentes, mas é um esforço: são todos iguais. Mentirosos, careiros, incompetentes. Enfim, exagero, como de costume. Mas a verdade é que é frustrante, irritante sentirmo-nos enganados todos os dias e nada poder fazer.)

As ilhas - a ilha - é muito bonita. Água clara, transparente - há quanto tempo não vejo areia no fundo do mar? - muitas árvores, ruas cuidadas. Pouco admira: é o refúgio dos ricos do Panamá.

Não há melhor maneira de avaliar um país do que pelo gosto dos seus ricos. Não são os pobres que fazem um país. Esses são feitos por ele. Os ricos são o seu cartão de visita, o seu lado apreciável (ao contrário de comentável, ou escandalizável). E Contadora diz-me mais sobre o Panamá do que vinte passeios pela cidade. Mau gosto, ostentação, kitsch, kitsch, ostentação, mau gosto. Contadora é isto, rodeado de uma incrível beleza - incrível porque sobrevive, porque se vê, respira e sente.

As outras ilhas devem ser fantásticas, porque "menos desenvolvidas". Há cento e sessenta, das quais cinco ou seis habitadas. Tenho pena de não poder cruzeirar um bocadinho por aqueles lados.

........
"O Panamá é um misto de cultura americana e de cultura centro-americana", diz-me Soraya, a quem acabo de comprar uns brincos não sei bem porquê (porque são bonitos, e um dia oferecê-los-ei). "Talvez. Mas dos maus aspectos de cada uma delas" respondo. "Se queres ver essa mistura com os lados bons, vai a Puerto Rico". Mas Soraya não está interessada em conselhos viajístico-culturais. Quer vender a sua bijuteria, ponto. Agradece-me com um vigoroso aperto de mão e vai-se embora.

Tenho um par de brincos bonitos para oferecer.

........
Havia um concerto de violino no Teatro do Coleguo de San Augustin. Não consegui ir: quando cheguei de Contadora tive de ir encher os tanques de água e a coisa escapou.

Foi o primeiro sinal de que há vida em Panamá para além do Casco Antiguo.

Palavras, silêncio

- Palavras. Estou farta de palavras.
- Mas sem palavras não há amor, minha querida. Já pensaste nisso? Há muitas coisas, mas não há amor.

Jantava num restaurante chamado Antigamente, na zona velha de São Luís do Maranhão. À minha esquerda um velho gordo e careca chorava; à minha direita um casal discutia as funções da palavra no amor.

Apetecia-me dizer ao velho para não chorar (para que serve, dizer a alguém que precisa de chorar para não o fazer?) e ao casal que ele tinha razão: sem palavras não há amor.

As palavras são a fundação da casa onde vivemos. Das casas, todas: o amor, a amizade, a atracção física (sabem o que é fazer amor com alguém que não partilha uma língua connosco?) Seja do que for.

O silêncio é a ausência de palavras. Não existiria, se elas não existissem.

15.7.13

Línguas, casa

O inglês é a língua mais habitável do mundo.

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 14-07-2013

É preciso imaginar uma estrada muito bonita, estreita mas arranjada, lisa, com as linhas bem visíveis; contorce-se como um daqueles gajos do imobiliário a receber pontapés nos tomates de minuto a minuto. Poucos são os bocados que têm cem metros a direito e planos.

Tal como o senhor do imobiliário está rodeada de beleza; mas ao contrário das que normalmente o rodeiam é uma beleza selvagem, que só por vezes se mostra civilizada - áreas desflorestadas para pasto, geralmente. O resto é floresta tropical, selvagem, luxuriosa, sensual, voluptuosa, violenta. E é assim durante quase hora e meia.

Sai-se do alcatrão e entra-se numa estrada de terra batida. A flora muda - tenho pena de não saber identificar e nomear a mudança - torna-se menos densa e há palmeiras, coisa que antes não se via.

No fim está a marina de Turtle Cay, setenta postos de amarração, água e electricidade. Um pequeno (e bom) restaurante debaixo de um telhado de palma, uma praia linda e praticamente deserta - é isto.

E é nisto que está um Peterson 37 chamado PURA VIDA que é neste momento aquilo que de mim mais se aproxima de um objecto de desejo. Mas isso fica para depois.

........
No caminho enganei-me e passámos pelo Canal. A ponte fica nas eclusas de Gatun, e tivemos de esperar que passassem dois navios.

Aquilo que o homem pode fazer da natureza - aquilo em que ela se transforma devido à força, à inteligência, persistência do homem - é esmagador. E ainda mais esmagador pensarmos que não controlamos nem uma pequena parte dela.

14.7.13

A música e o choro

A melhor música para se chorar é o hip hop. Pode sempre dizer-se que é por causa da música que choramos. Já o deep house não se presta tão bem, porque às vezes é bastante agradável.

Tristeza, eu

Estou tão farto desta tristeza que já não é dela que estou farto. É de mim.

Exercício, mojitos

Faço muito exercício físico: ando de bar em bar à procura do melhor Mojito da cidade. Como vou sempre a pé chamo-lhe ambar. Vou ambar. Ambo. Ontem ambei que me fartei.

(Claro que dizer à procura do melhor Mojito pode induzir em erro quem me lê : tudo se resume a confirmar que o Mojito da Rana Dorada é o melhor do hemisfério.)

Tempestades interiores

Quando digo às pessoas que sou marinheiro duas questões aparecem muito rapidamente: "Marinheiro... Uma mulher em cada porto, não é?" e "Já passaste por muitas tempestades?"

Só hoje me apercebi de que a resposta às duas questões é a mesma: não tenho uma mulher em cada porto, mas cada mulher foi um porto para mim. Um porto no qual me abriguei das tempestades interiores, que não são inferiores, muito longe disso, às outras. Não se vêem, não se ouvem, mas sentem-se; e são, sempre, mais violentas.

(Um marinheiro está preparado para lidar com tempestades; é como para um padeiro lidar com um forno. Mas ninguém está preparado para as tempestades que vêm de dentro.)

13.7.13

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 13-07-2013

Pouco a pouco retomo os meus passeios. Mais curtos e mais lentos, que não quero que o tornozelo siga o meu conselho e vá desta para melhor.

As injecções foram dolorosas; sobretudo a primeira. E os comprimidos deixam-me cheio de náuseas. Penso que esta estratégia de substituir uma dor por outra, na esperança de que as duas desapareçam faz sentido. Pena que não se aplique a todas as dores.

........
Os trabalhos no meu bem amado Artie continuam. Como os meus passeios; vagarosos e menores do que o que eu queria. Mas o barco vai sair deste período melhor do que nele entrou: mais bonito, mais funcional, mais simpático.

Em breve estará a trabalhar.

........
Os adeptos do movimento Slow Food (que de resto apoio inteiramente) deviam vir comer ao McDonalds da Avenida de Cuba. Ficariam certamente felizes com a lentidão da casa.

"Ó sombra fútil chamada gente"

As pessoas que todas as noites vivem a menos de dois metros da morte deviam ter este poema sempre em mente.

Era o poema favorito do imediato do RIO CUANZA. Sabia-o de cor, e cada vez que havia uma sessão de poesia no meu camarote começava com ele.


Se te queres matar, por que não te queres matar? 
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, 
Se ousasse matar-me, também me mataria... 
Ah, se ousares, ousa! 
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas 
A que chamamos o mundo? 
A cinematografia das horas representadas 
Por atores de convenções e poses determinadas, 
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím? 
De que te serve o teu mundo interior que desconheces? 
Talvez, matando-te, o conheças finalmente... 
Talvez, acabando, comeces... 
E, de qualquer forma, se te cansa seres, 
Ah, cansa-te nobremente, 
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira, 
Não saúdes como eu a morte em literatura! 

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! 
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... 
Sem ti correrá tudo sem ti. 
Talvez seja pior para outros existires que matares-te... 
Talvez peses mais durando, que deixando de durar... 

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado 
De que te chorem? 
Descansa: pouco te chorarão... 
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco, 
Quando não são de coisas nossas, 
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte, 
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros... 

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda 
Do mistério e da falta da tua vida falada... 
Depois o horror do caixão visível e material, 
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali. 
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas, 
Lamentando a pena de teres morrido, 
E tu mera causa ocasional daquela carpidação, 
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas... 
Muito mais morto aqui que calculas, 
Mesmo que estejas muito mais vivo além... 
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova, 
E depois o princípio da morte da tua memória. 
Há primeiro em todos um alívio 
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido... 
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente, 
E a vida de todos os dias retoma o seu dia... 

Depois, lentamente esqueceste. 
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente: 
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste. 
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada. 
Duas vezes no ano pensam em ti. 
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram, 
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti. 

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos... 
Se queres matar-te, mata-te... 
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ... 
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida? 

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera 
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor? 

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida? 
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem. 
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma? 

És importante para ti, porque é a ti que te sentes. 
És tudo para ti, porque para ti és o universo, 
E o próprio universo e os outros 
Satélites da tua subjetividade objetiva. 
És importante para ti porque só tu és importante para ti. 
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim? 

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido? 
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces, 
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial? 

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida? 
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente, 
Torna-te parte carnal da terra e das coisas! 
Dispersa-te, sistema físico-químico 
De células noturnamente conscientes 
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos, 
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências, 
Pela relva e a erva da proliferação dos seres, 
Pela névoa atômica das coisas, 
Pelas paredes turbilhonantes 
Do vácuo dinâmico do mundo...
Álvaro de Campos, in "Poemas"

Inteligência feminina

O grande problema daqueles gajos que só atraem mulheres inteligentes é que a melhor prova de inteligência de uma mulher é fugir deles mal os vêem.

Tornozelo

Tenho um tornozelo inchado. Fui ao médico, mas esqueci-me de lhe perguntar porquê.

Na verdade o que me espanta - e irrita - é que ele não esteja necrosado, como merece.

A BA do dia

Ensinei o rapaz do Lovaina a fazer ti' punch. Seria egoísta fazer-me mal sem compensar com uma boa acção.

Análises, autópsias

Qualquer dia vou fazer análises. Antes fossem autópsias.

Noite

A única qualidade da noite é ser curta.

Inesperadamente

Uma cidade inesperada. Se tivesse que definir a cidade do Panamá seria assim. Pensamos que estamos na América Latina e não estamos; pensamos que estamos na América e não estamos.

Parece-nos estar aqui e estamos ali, estar ali e estamos aqui.

Verdades todas e verdades parciais

"Queres uma chupadita?", pergunta-me a rapariga no caminho de regresso ao hotel. "No, mi amor, gracias".

Aparentemente

Aparentemente há uma vida antes da morte. Para quê?

Sintamotologia

A depressão bate no peito e a ansiedade no ventre. É fácil medir a parte de cada uma a cada instante.

Perder, privilégio

A única coisa que um homem não aguenta perder é um privilégio. Quanto mais injustificado mais difícil.

12.7.13

Carrascos e carrascos

Se bem percebi Assunção Esteves chamou carrascos a uma centena de manifestantes ligados ao PC (ou aos sindicatos, é a mesma coisa). As intelligentzias do costume reagiram mal, coitadas. A frase vem de Simone de Beauvoir e referia-se aos alemães e utilizar a expressão para se referir a PC e companhia seria uma abjecção insuportável.

Talvez seja tempo - já é tempo - de as pessoas perceberem que nazismo e comunismo estão do mesmo lado da barricada, e que tudo o que se aplica a um aplica-se ao outro.

Diário de bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 11-07-2013 / II

O interior do hospital corresponde ao exterior.

........
Atirei-me ao exercício com um bocadinho de demasiada energia, parece. Subir quatro andares a correr é muito. Humm, não sei. A ver vamos, quando o puder fazer outra vez.

........
Hoje limpámos o fundo ao Artie. Enfim, limpou o mergulhador. Eu nem morto quero ir para dentro desta água. Não vou acreditar, quando me apanhar nas Perlas. Gosto da cidade e gosto (medianamente) desta; mas preciso de mar.

A tristeza dissolve-se melhor na água do mar do que no alcatrão.

........
Sobretudo neste. A minha irreprimível tentação pedagógica tem um novo alvo: ensinar aos condutores de Panamá para que servem as passagens de peões. Eu compreendo que seja um chato para eles; a avenida do hospital está em muito bom estado, tem quatro faixas (mais duas onde os carros estacionam) é longa e não tem sinais.

Não tem sinais mas tem passagens de peões, que é quase a mesma coisa. Tenho uma certa prática porque já fiz isto em Lisboa, muitas vezes, quando os nossos condutores ainda pensavam que as passagens de peões são para os estrangeiros, na terra deles.

Eu sou estrangeiro, é certo; mas esta é a minha terra, enquanto cá viver. E quero usufruir das passagens em paz. Enfim, por enquanto paz não é a palavra adequada. Tenho mais do que a minha dose quotidiana de adrenalina. Mas estou mesmo ao lado do hospital; se voltar a ser ter um carro mais teimoso e com menos reflexos não demoro muito tempo a chegar a quem me trate.

O do outro dia era teimoso, mais do que a maioria dos automobilistas. Mas menos do que eu. Deve ter apanhado um bom susto. Estava branquinho, quando me voltei para trás para lhe agradecer ter parado.

11.7.13

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 11-07-2013

Todos os dias vou ao hospital. Comer o pequeno-almoço: o meu hotel não tem restaurante e fica ao lado do Hospital Nacional.

A comida é boa, mas estranhamente pouco dietética; fritos, molhos, poucos vegetais ou legumes. O que mais me agrada é o estado de limpeza, a ausência total de confusão, a ordem. Parece um hospital suíço.

Mas a verdade é que também todos os dias me pergunto como serão os cuidados médicos. Os nossos hospitais são o que são (ao lado deste provocam um bocadinho de vergonha) mas a medicina tem qualidade. Aqui não sei. Isto é, por enquanto. Daqui a três horas saberei.

O meu pé esquerdo resolveu embicar comigo. De Dezembro a Fevereiro foi o calcanhar (verdade seja dita que numa semana se resolveu: bastou ir ao médico); de Março a Maio o peito do pé (este já foi tratado pelo tempo, só o tempo); desde anteontem o tornozelo. Há mais de dois dias que não faço os meus passeios matinais. Comecei imediatamente a tratar daquilo, mas apesar do Voltaren a dor tem vindo a aumentar. Já que vou todos os dias ao hospital resolvi aproveitar a simpática oferta do governo panamiano (um seguro de saúde gratuito, válido por um mês, a todos os turistas que chegam pelo aeroporto de Tucumen).

Até agora a qualidade da coisa tem sido impressionante: o número de telefone que me deram no hospital respondeu imediatamente, ligou-me pouco depois a confirmar a consulta, fui chamado para o exame ainda não tinha acabado de preencher os papéis. Pouco depois informaram-me que o médico estava ocupado e me receberia às cinco da tarde.

Alguns dados: o Panamá tem um GDP per capita de aproximadamente quinze mil dólares; segundo a mesma fonte o de Portugal (ambos medidos em PPP) é de vinte e dois mil. A Cidade do Panamá tem uma população de 800,000 pessoas, pouco menos do dobro de Lisboa (se bem a população da área de influência seja menor, 1,2 milhões contra 2,9 - mas Lisboa tem muitos mais hospitais nas zonas periféricas).

Felicidade, preço

Toda a gente quer ser feliz, mas isso é um erro. A felicidade tem um preço elevadíssimo, paga-se demasiado caro e durante muito tempo.

Depressão, merecimento

Outra grande vantagem da depressão é devolver o seu verdadeiro sentido à expressão "eu não merecia isto".

Seres

Vem aí o sol e com ele a vida, as palavras, as cores.
Penso em Moustique, no Basil's: nunca lá estivemos.
Por causa das cores. Nada a ver contigo.
E da água, tão transparente. Nunca fomos transparentes, pois não?
Mudo de disco. É preciso saber tocar guitarra, é preciso saber escrever,
Saber cozer ovos, parti-los antes de os cozer, devagar,
Para um recipiente à parte, não vão eles estar
Podres como eu.

É preciso reconhecer que resisti até agora.
Há mais de uma semana que não oiço Leonard Cohen
Explicar-me que aquilo que eu sinto
Não é nada, rigorosamente nada.

Já foi sentido antes, e sentimentos em segunda mão
Pouco valem. Sentimentos usados, quero dizer.
Até podem nunca ter tido dono,
mas já foram usados.

As palavras.

Os lugares.

Tudo já foi usado.

A luz.

Um dia iremos a Bequia comer lagosta e seremos os primeiros seres na terra a comer lagosta em Bequia.

Um dia seremos os primeiros seres na terra. Tu serás a primeira mulher, a única, a última.

Na verdade pouco importa.

Tempo

O tempo é escrito a lápis. Pega-se numa borracha e apaga-se.

Diário de bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 10-07-13

A cidade não é amiga de quem não anda de carro: para os peões, passeios estreitos, esburacados, sujos, cheios de águas cuja origem é difícil de identificar; as passagens são olimpicamente ignoradas pelos condutores - hoje ia sendo atropelado, verdadeiramente atropelado, no sentido físico do termo -; para os ciclistas (isto é informação em segunda mão, nunca andei de bicicleta na cidade): os carros não nos respeitam, buzinam todo o tempo, são agressivos, é só autoestradas e vias rápidas.

O curioso é ser igualmente tão-pouco amiga dos automóveis. Os engarrafamentos são permanentes e monstruosos - piorados porque estão a construir um metro e a cidade está em obras -, as ruas esburacadas, o estacionamento uma lotaria.

A cidade não é amiga de quem quer que seja que nela se desloque, viva ou que simplesmente a visite.

É espantosa, surpreendente, inesperada, chiante muitas vezes. Mas não é amiga.


9.7.13

Jazz, espanto



Fumar

Não consigo fumar durante muito tempo, infelizmente. Já parei outra vez, apesar desta horrorosa vontade que de vez em quando tenho de fumar. Mas a verdade é que nem de comprar um maço tenho vontade, quanto mais de pedir um cigarro.

Passivos, activos

Há mulheres para as quais olhamos e ficamos imediatamente com vontade de as amar; com outras é o contrário: tudo o que queremos é ser amados por elas.

Prefiro as segundas, apesar de, de maneira geral, me ter dado mal com a fórmula. Sou demasiado activo para ser passivo, e demasiado passivo para ser activo.

As vantagens da depressão

A depressão tem pelo menos uma vantagem: faz-nos olhar para nós próprios com os olhos dos outros. Vêmo-nos como somos realmente.

Finalmente, acrescentaria se tivesse vontade de lhe acrescentar outra.

Retratos improváveis

"Namorei", dizia-me num bar de putas de Cólon, no Panamá "com uma rapariga que sabia quem era o Detective Cantor; com outra que tinha vergonha de andar à boleia; ou uma que me mostrou Paris de cima a baixo; outra sabia fazer aterrar aviões num aeroporto. Na verdade" - o homem não se calava - "namorei com uma quantidade incalculável de mulheres que sabiam fazer muitas coisas; algumas sabiam mesmo fazer tudo. Mas raramente namorei com uma mulher que me conhecesse. Antes, durante ou depois, contam-se pelos polegares de uma mão - vá, duas - as mulheres que realmente me conhecem."

Era um tipo baixo, gordo, careca, cinquenta anos; ouvia mal - estava ali claramente para falar, não para ouvir -; vestia-se bem, com roupa de marca mas não de moda. Não sabia o que lhe responder, por isso não disse nada.

"Durante muito tempo pensei que era demasiado complexo para ser conhecido por alguém, excepto talvez uma mulher excepcional, ou duas. Nada disso. É simplesmente difícil conhecer o vazio".

Qualidades

Gostaria tanto que um dia as minhas qualidades fossem reconhecidas pela lotaria ou pelo euromilhões.

8.7.13

Rousseau e as grandes empresas

Incientes do iniludível facto de que se matarem as pessoas as (grandes, o tamanho conta) empresas perdem clientes elas continuam, cegas e ávidas de dinheiro (coisa de que felizmente o merceeiro da sua esquina está isento) a tentar matar toda a gente.

Felizmente, meia dúzia de clarividentes, imbuídos de Rousseau (essoutro grande expoente do progresso e da liberdade, que de resto provavelmente nunca leram, ou leram mal) está a abrir-lhes os olhos (às empresas, não aos merceeiros da esquina).

Calor, ventoínhas e ar condicionado

O ar condicionado está para o calor como uma puta para o amor.

As ventoínhas são uma felação feita com amor: talvez sejam menos eficazes, mas são muito melhores.

Sede

Tenho sede. Preciso de beber água. É uma sede desprezível.

Asneiras, vontade

Poder fazer asneiras é um privilégio. Poder fazê-las consciente, voluntariamente é ou uma dádiva ou uma maldição.

Fealdade, beleza

Algumas mulheres só são feias depois de lhes fazermos amor. A fealdade verdadeira não é vísivel à primeira vista. (E algumas não o são nunca, mas isso é outra história).

Tal como a beleza, dirão decerto alguns adolescentes românticos e excitados, passem os pleonasmos.

Dieta

Mudei radicalmente de dieta. Comecei a andar mais depressa.

Amores, álcool

Tenho o álcool leve e o amor pesado. Antes assim do que ao contrário. Não por causa do álcool (só bebo quando preciso e felizmente não preciso sempre) mas pelo amor. Os amores leves são insuportáveis.

7.7.13

Camille

"Deixas-me mexer-te numa maminha"? Camille tinha os seios pequenos mas duros, bem feitos. Por baixo da t-shirt via-lhe o mamilo grande, com a ponta ligeiramente saída. "Só se me deixares apalpar-te um dos tomates. Que estúpido és, homem. Mexe nas duas, porra. E tira-me esse pau das calças que ainda as rasgas".

Camille tem muitas qualidades para além das mamas. Já a conhecia havia muito tempo, mas nunca falara com ela mais do que do tempo, do vinho ou dos políticos que tão bem se governam "neste vosso país". Chegara a Portugal três anos antes, vinda da Suíça. Dava aulas de francês na faculdade de letras de uma universidade qualquer, não quero lembrar-me de qual.

Encontrámo-nos num jantar de degustação de vinhos. Camille gostava dos mesmos vinhos que eu, adstringentes, com personalidade, vinhos que deixam uma marca, como algumas pessoas. "Nem que seja uma nódoa, mas que fique alguma coisa", dizia.

Naquele dia dei com ela por acaso na Taberna das Hortênsias, uma coisa em Lisboa que imita (ou imitava, não sei se ainda existe) vagamente uma tasca açoreana. O dono era um francês que vivera muito tempo em Ponta Delgada. "Vim-me embora", explicava a quem o queria ouvir, com um sotaque carregado. "Viver nos Açores é como estar morto noutro sítio qualquer".

Camille estava sozinha, eu também; jantámos juntos e fomos depois beber um copo à Rumaria. "Não percebo nada de runs, talvez me possas ajudar".

Daí até à maminha, ao pau fora das calças e na boca dela, até estarmos os dois na cama a lutar violentamente por um orgasmo passaram alguns runs, uma ceia tardia - ovos mexidos, queijo, vinho tinto - uma viagem de táxi até casa dela e um "espera, vou trocar de roupa, já venho. Põe música se quiseres.".

Pus um disco da Hélène Grimaud, um concerto de Rachmaninov que não conhecia. A mulher é bonita, o que não estraga nada; e toca como se fosse filha do Gould. Camille aprovou a minha escolha. "Tens bom gosto. A mulher toca bem. E é bonita, o que não estraga nada".

Não sei muito bem de que é feito o amor; mas sei de onde vem a atracção física, a vontade de entrar num corpo e lá ficar para sempre. Ouvir uma mulher dizer, exactamente com as mesmas palavras, aquilo que eu acabo em silêncio de pensar é uma das origens dessa vontade, muito mais do que a beleza da senhora ou o tamanho das suas mamas.

Foi por isso que não ouvi o concerto, mas posso dizer mais ou menos quanto tempo levámos a lutar: foi muito e foi bom.

Dois meses depois estava a viver em casa dela. Dois anos casávamo-nos; três, nasceu-nos o primeiro filho, Serge. Cinco, o segundo, uma rapariga a quem chamei Hélène.

Camille sugeriu que chamássemos Pan ao primeiro, mas recusei. "Só tenho uma".


II
Morreu. Atropelada por um automóvel à saída da faculdade. Nunca mais a ouvirei dizer "é tão bom foder, meu Deus, tão bom" sentada em cima de mim, com os braços levantados como se estivesse a dançar. Nunca mais me pedirá "deixa-me tocar flauta" de manhã, antes de se levantar para ir tratar do pequeno almoço. Nunca mais me dirá "come-me, por favor. Mas sem garfo, só com a faca".

III
É possível que haja ausências piores do que a morte. Obrigo-me todos os dias a pensar que sim, que algumas ausências são piores do que a morte. Mas não consigo. Não há. Conseguimos esquecer uma pessoa viva, mas não conseguimos esquecer uma que morreu, e não nos matou.

Não sei

Talvez não sejam milhares; mas são centenas de pessoas que andam no meu cérebro, determinadas. Vêm de todas as direcções mas dirigem-se todas para o mesmo ponto, em grandes filas desordenadas. Visivelmente conhecem-no: nenhuma hesita, nenhuma pára ou sequer abranda. Não sei quem são, o que procuram, de onde vêm ou para onde vão.

Por uns momentos penso que fogem do tinitus, que me massacra hoje mais do que o habitual por causa da grande quantidade de vinho branco que ontem bebi. Claro que não: elas não o podem ouvir.

Não sei como sei que é o meu cérebro. Talvez não seja, talvez seja outra mente qualquer.

É o meu.

Não sei.

Um cérebro não é um passeio público. Dirijo-me apressadamente para o ponto para o qual convergem as pessoas. Nenhuma o atinje, apesar de todas andarem depressa. Eu sim; afinal é o meu cérebro, posso ir onde quiser nele. Faço grandes gestos para que as pessoas párem, voltem para trás, me deixem em paz.

De repente tenho o espírito vazio; desapareceram, foram-se embora. Não as matei, não morreram. Desapareceram, simplesmente.

Talvez cada pessoa fosse um dia, uma semana, um mês. Não sei.


Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 06-07-2013

A Cinta Costera tem três quilómetros; os meus dias começam portanto com um passeio de seis. Para Oeste vejo o Casco Antiguo, a parte velha da cidade. Para Leste é o bambuzal de arranha-céus. No meio fica a "vida real", quase me apetece pensar. Quase: na verdade só os arranha-céus me parecem irreais, E de certa forma são. Se os prédios reflectissem um país seria mais o Casco Antiguo, lindo, com casas a cair e outras renovadas que melhor o representaria. Os bambus de cimento mostram a faceta aberta e cosmopolita daquilo que Alexis, o meu taxista, designa por mi Panamá com um misto de ternura e ironia.

Mi Panamá é um país surpreendente, complexo, pobre vestido de roupas ricas; a cultura dos americanos, que aqui estiveram tanto tempo, não se misturou com a da América Central se não superficialmente. A miscigenação de culturas é um fenómeno lento, e se essas culturas forem água  e azeite ainda demora mais tempo.

........
Os trabalhos no barco avançam lenta, penosamente. Mas avançam. Em breve poderei deixar o hotel e voltar para bordo; poucos dias mais (daqui a duas semanas. Uma eternidade) e estarei a trabalhar naquilo que verdadeiramente gosto de fazer: levar pessoas a passear de barco, partilhar um pouco do meu amor pelo mar, pela navegação à vela (aqui vai ser mais a motor, suspeito), por um bom vinho e um bom prato a bordo.

........
Hoje fui almoçar com o grupo de leitura do Internations local. Das cinco pessoas presentes só duas tinham lido o livro que estava em discussão (eu estava no grupo maioritário). Quando chegou o momento das sugestões sugeri o meu bem-amado Passage to Juneau. O livro foi escolhido. Sorte de principiante, suponho. Vou gostar de o reler. Se um dia escrever um livro de viagens vai começar onde aquele acaba.

........
O Balboa Yacht Club fica situado, já aqui o mencionei, na entrada Sul do Canal do Panamá, muito perto da ponte das Américas. Ontem ao fim do dia a vista era deslumbrante. É este lado mágico do Panamá que todos os dias me seduz: uma ponte entre duas metades de um continente, um canal entre dois oceanos, navios de todas as formas e feitios a atravessar uma coisa que para o ano faz cem anos e que nesse século viu passar - e ajudou a definir - praticamente tudo o que o homem fez para andar na água. Estão de fora alguns supertanques, graneleiros, porta-aviões e os grandes porta-contentores (para os acomodar o Canal está a ser aumentado).

Os navios com dimensões próximas do máximo que o Canal permite chamam-se Panamax. New Panamax são os que o poderão atravessar quando as obras de ampliação estiverem terminadas. (A título de curiosidade: os outros chamam-se Postpanamax, Overpanamax ou Capesize).

6.7.13

Milagres, mistérios

Como não acreditar em milagres quando se vive rodeado de mistérios?

5.7.13

Pedagogia para adolescentes e cozinheiros

A carne quer-se ou viva ou crua.

Márquetes e prazer

Os meus sapatos Land Rover foram amorosamente roídos por um adorável cachorro de dois meses de idade e Frodo de nome.

Que os sapatos estejam roídos incomoda-me relativamente pouco - mudamos, mas não mudamos do dia para a noite, de sapatos estranhamente novos para sapatos inquietantemente roídos -. Mas o episódio fez-me pensar: se eu fosse marqueteiro daria a uma marca de sapatos o nome (sem dúvida atractivo) de Land Rover?

Sim, sem hesitar. As roídelas do cachorro mal se notam; é preciso saber que elas lá estão para as ver; e pensem no inesgotável manancial que se pode explorar ao longo de "compre um par de sapatos Land Rover e chame Frodo ao seu cachorro; junte os dois e perceberá finalmente o que é o prazer, e resistir-lhe"?

Injustiças

A rapariga não olha sequer para mim. Não é olha para mim como se eu fosse transparente. É não olha sequer para mim, de todo, como se eu não existisse, não estivesse ali sentado a beber o meu Mojito sem açúcar, não a tivesse achado gira com o seu nariz empinado, os seios pequenos empinados, o olhar empinado.

É injusto, sem dúvida. Porque devo eu escrever a uma mulher bonita, mostrar-lhe por a mais b que sei navegar no mar oceano, que numa embarcação de vela sou um misto de Tarzan, Capitão Alverca, Mandrake, Super Homem e Andy Capp para que ela se digne no mínimo reconhecer que eu existo e no máximo pensar que não é palavra mais apropriada para se dirigir a mim (não sendo melhor do que nada, naturalmente)?

(Uma carga de trabalhos muito injustamente recompensada, forçoso é reconhecer).


Cansaços

A inteligência, a cultura, o carácter - designado em Portugal por mau feitio - são qualidades muito cansativas tanto nas mulheres como nos homens (mais naquelas do que nestes, devido decerto a certas injustiças ou então deficiências de atenção, na construção do mundo por quem o foi construindo ao longo destes anos todos).

Mas certos cansaços são tão bons, não são?

4.7.13

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 04-07-2013

Os panamianos acreditam na buzina como meio de regular o trânsito. Muito menos do que os marroquinos, é verdade; e menos do que os portugueses há uns anos. Mas bastante, mesmo assim. Também usam a buzina para assinalar a uma senhora que ela é senhora - nisto não são exigentes: desde que seja do sexo feminino leva uma buzinadela breve, não vá a mulher esquecer-se de que é mulher.

A buzina de que mais gosto é a de Alexis, o meu taxista de eleição. Tem um som estranho, parece quase um assobio e permite imitar o de qualquer trolha que se preze em Lisboa. Mas tive de o disciplinar um bocadinho. Proíbi-o (gentilmente, claro) de buzinar a senhoras gordas, obesas, feias, demasiado novas ou demasiado velhas. A minha irreprimível tentação pedagógica encontrou uma nova área de actividade: a estética.


Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 03-07-2013 - II

T. é um jovem (25 anos) tripulante do Nautitech 452 que está amarrado na bóia ao lado da minha. Encontrei-o na panga [bote] do clube. Fomos jantar ao Casco Viejo; fiz-lhe, e a mim, o passeio quase todo: Rana Dorada, Habana Vieja, Louvaina, onde jantámos.

A conversa começou com temas anódinos, habituais: os prédios a cair, a desigualdade social (4x4 ao lado de prédios a cair), as perspectivas profissionais de T. (tem muitas, o rapaz tem ar de e deve ser competente).

Depois, com um muito ligeiro pré-aviso passa para a vida afectiva. T. está indeciso, coitado, entre uma mulher por quem está disposto a largar tudo e outra que está disposta a largar tudo por ele. É um tema que me apaixona, não sei porquê. Falamos um bom bocado das dificuldades que esta vida (esta vida sendo a de um marinheiro na náutica de recreio) traz para a vida afectiva. Do alto dos meus cinquenta e cinco anos (e algumas vidas) explico-lhe uma série de coisas. No fundo falava para mim, era a mim que me explicava uma verdade que agora me parece simples: esta vida é feita para iguais, não suporta a diferença.

Ponho T. num táxi e pergunto-me no caminho de regresso ao hotel, que faço a pé, porque demorei tanto tempo e precisei de sofrer tanto para perceber esta verdade elementar.

As verdades elementares são as piores (ou melhores, depende do ponto de vista).

3.7.13

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 03-07-2013

A cidade do Panamá é a minha casa (enfim, seria mais correcto dizer a minha casa está na cidade do Panamá); é bom voltar para casa (quase. Ainda não fui a bordo) depois de umas boas férias. E as férias foram boas, óptimas, magníficas.

Foram tudo o que as férias de emigrante devem ser, suponho: insuficientes para se ver toda a gente que se queria ver e visitar todos os lugares e provar todos os pratos, mas suficientes para dar vontade de regressar daqui a um ano.

........
O dia começou com um passeio a pé pela Cinta Costera, a marginal da cidade do Panamá. Fui para Oeste, para o lado dos prédios. Ainda não eram sete e meia, mas o sol já ia alto. Estava tapado por alguma nebulosidade de altitude (cirrostratus, a quem interessar) e ao longe os prédios pareciam uma floresta de bambus que alguém cortara a meia altura, mesmo antes de as folhas começarem. São muito estreitos e altos, muito próximos uns dos outros. Visualmente o efeito resulta agradável. Confesso que nunca percebi a aversão dso portugueses aos prédios altos. Há alguns maus, claro - o de Ponta Delgada vem imediatamente à memória - mas lamento, por exemplo, que a torre de Siza Vieira em Alcântara não tenha sido aprovada.

........
Crise política em Portugal. Parece um exemplo de redundância num verbete de dicionário. As pessoas reclamam contra os "interesses pessoais" que os políticos põem à frente dos interesses do país. O raciocínio é falacioso. Prefiro de longe políticos com interesses pessoais a governantes sem eles - padres, militares e outros benfeitores (isto assumindo que também não têm interesses pessoais, mas isso fica para outras missas).

A questão é saber o que se exige dos políticos em troca da satisfação dos seus interesses pessoais; infelizmente o povo português pede muito pouco em troca. E pedirá sempre. O respeitinho é cobardolas por natureza.

........
Os trabalhos no Artie atrasaram-se. É muito raro isto acontecer. Normalmente nos barcos os prazos são cumpridos - e se não é porque estão adiantados - as surpresas são sempre boas, os custos muito inferiores aos orçamentos, os fornecedores de serviços ainda mais competentes e sérios do que nos disseram quando falámos ela primeira vez com eles, e a verdadeira dimensão das reparações a fazer muito inferior ao que tínhamos pensado quando os contratámos.

........
O caos visual, a sujidade, o barulho, a poluição, a negligência com os equipamentos públicos aqui são muito inferiores aos do Brasil, de longe (pelo menos aos do Brasil que eu conheço, nunca é de mais repetir). Mas não há dúvida: estamos na mesma área cultural. Quem olha para os prédios e para as ruas que lhes ficam próximas vê uma cidade; anda dois quarteirões (os quais até são pequenos) e vê outra.

........
Em Outubro a casa muda. Volta para a outra casa, no lado de lá do istmo. Vai ser tão voltar para aquela casa como foi para esta; melhor, muito melhor. Com os CD praticamente todos. Vinte quilos de discos. Infelizmente não chega para redefinir casa: faltam os livros, e esses pesam muito mais.

Mas uma coisa é certa: há uma casa no horizonte.


27.6.13

Um bocadinho menos de tristeza

A palavra tristeza não tem nada a ver com a tristeza, nem palavra com palavra. São o que querem, as palavras.

Como eu.

Geografias

Antígua, Palma e Mértola: são as terras que nos escolhem, e não nós a elas.

Diário de Bordos - Lisboa, 27-06-2013

"Lá foi, Leduc e o rapaz tiveram muita pena de o ver partir, falavam amiúde dele, da sua alegria e generosidade, e também da melancolia um pouco espessa em que às vezes se refugiava, a vida seguiu o seu curso, passou tempo, até que, repentinamente, Leduc se suicidou."

As férias continuam, insondáveis, variadas e ricas como o meu bem amado Molero. Revejo e vejo, trabalho um pouco e passeio muito, vou às capelinhas antigas e conheço novas. Sábado vou pela primeira vez a Guimarães; terça regresso ao meu bom Artie, que já começa a fazer-me falta. Ignoro se é azar, se sorte. Não consigo estar muito tempo longe do trabalho, seja por falta de imaginação seja por gostar do que faço.

Exposição A Invenção do Amor, de Isabel Zuzarte.

A Isabel tem o dom de tornar comoventes as coisas para as quais olha, ou de nos comover com a maneira como olha para as coisas. Não sei. Mas sei que ver a sua fotografia é uma experiência sentimental. A Invenção do Amor está um bocadinho desigual, mas essa fantástica capacidade de nos emocionar, de nos surpreender - há uma surpresa em cada emoção, sempre, porque as emoções são todas diferentes, todas novas, inventamo-nos a cada amor, cada afecto - está presente em todas as fotografias.

Nunca acreditei que a arte tem um género - não sei o que são a fotografia, a escrita, a escultura, a literatura, o teatro ou a poesia, a música no feminino ou no masculino -; mas esta exposição trouxe-me à memória uma outra grande fotógrafa que conheci, uma senhora chamada Simone Oppliger, que fotografava, como a Isabel, com a alma.

A exposição está no Conservatório Nacional, na rua dos Caetanos, em Lisboa. A data das minhas férias foi mais ou menos ajustada para poder estar em Lisboa ao mesmo tempo do que a exposição. Ou seja, exagero muito pouco se disser que vim do Panamá para a ver. Quem está em Portugal não tem muitas razões para não ir ver aquelas fotografias: valem uma viagem, qualquer que ela seja, porque nos oferecem muitas mais viagens, muito mais longe.

25.6.13

Lisboa

"Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
E há também a chuva e por vezes molhas-te,
Aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
Animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
Entre o fim do verão e a renda da casa..."

Ruy Belo, Ácidos e Óxidos, in Todos os Poemas, Assírio & Alvim

Estar grosso em Lisboa.

Só há um sítio válido para se estar bêbedo em Lisboa, legítimo, onde vale a pena, que é muita. Chama-se Ler Devagar e fica na Lx Factory, uma pena. Não há razão para Factory. Fábrica, laboratório, o que quer que fosse ficaria melhor. Mas enfim, chama-se factory, paciência.

Tem livros, beleza, boa música, miúdas giras, uma bicicleta voadora, bebidas, boa música, miúdas giras... Acho que me estou a repetir.

Tem Lisboa. Não precisa de mais nada.

Clorofila, amizade

Regresso a Lisboa com reservas de clorofila para um ano. Infelizmente o mesmo não se passa com as da amizade, que nunca se enchem.

24.6.13

Diário de Bordos - Évora, 24-06-2013

Percorri finalmente o trilho do aqueduto da Água de Prata. O passeio é agradabilíssimo, um longo carreiro pelos campos. À boa maneira portuguesa aquilo desemboca na estrada, sem qualquer espécie de aviso. Sai-se do campo para a berma da estrada nacional e oops, já está, au revoir Messieurs Dames, merci de votre visite.

Fiz o percurso (enfim, parte dele) a pensar em como seria aquilo se estivesse na "Europa": sobre-humanizado, bermas arranjadas, informação de vinte em vinte metros, barreiras de segurança. Nada disso ali: há partes do trajecto em que nem o carreiro se vê; a informação é escassa, e a pouca que há naquele dialecto científico, cheio de termos que nos fazem ver quão sábios são os senhores e senhoras que a escreveram.

Confesso que prefiro o método luso-científico, igualmente conhecido por negligência, deixa-andar, desinteresse, eleições-à-porta. Afinal se vamos passear para o campo é para estar no campo, não num jardim do Arquitecto Ribeiro Telles.

........
O português dos painéis informativos é irritante porque afasta as pessoas, cria barreiras onde não as devia haver.

........
Mais um restaurante para a lista de oferta Eborense. Chama-se  O Sobreiro, fica na Rua do Torres, 8 (perto da Vodafone). Comi umas migas com carne de alguidar que não me deslumbraram mas deixaram-me com vontade de explorar a carta mais a fundo. Deve haver um tesouro ou dois, por ali.

........
Quase uma semana de sono, verde, amizade e ausência de mar (se bem continue a tratar dos assuntos do barco por telefone e e-mail. Um refit, por pequeno que seja é pior do que um casamento, mais invasivo e presente). Foi bom. Volto para Lisboa contente, leve e a esperar a data de regresso ao Panamá. Deve ser para isso que servem as férias: para ansiarmos que acabem. Ainda não anseio pelo fim destes dias em Portugal, longe disso. Mas menos longe do que há uma semana.

Notas dispersas

Semântica:
Uma visita ao Canil Veleiro Nagual e a expressão vida de cão muda de sentido.

Liberdade:
Ler as caixas de comentários de alguns blogs e jornais é a melhor maneira de nos fazer avaliar aquilo que entendemos por liberdade de expressão.

Ginásios:
Continuo a não perceber a necessidade de ginásios. Uma hora nas ruas de Lisboa, numa quinta do Alentejo ou em qualquer bar digno desse nome são mais úteis do que  num ginásio, por muito giro que seja o monitor ou gira a professora de Pilates.

23.6.13

Lua cheia

É noite de lua cheia e
De terra cheia também,
Cheia de cheiros de vento e de ti.

Cheira a verde e a vento,
Um cheiro redondo como
A lua cheia sem ti.

O cheiro vê-se
Como se toca a luz
Quase, a lua e tu.

22.6.13

Gestos, palavras

A questão é a mesma de sempre: uma carícia substitui o conhecimento, complementa-o, completa-o? Intuitivamente responderia sim às três perguntas; não se excluem.

Uma carícia substitui o conhecimento se for esse o seu objectivo; complementa-o e completa-o nas mesmas circunstâncias. O que interessa é o objectivo.

Uma carícia pode ser um fim em si mesma, se a recipiente o quiser. Ou um complemento, se ela o achar necessário.

Uma carícia sem uma vontade expressa da recipiente não é nada. É um gesto. Os gestos não são nada sem as palavras; a recíproca também é verdade: uma palavra sem gesto não passa de som. Uma carícia é uma dualidade, uma ambiguidade, o encontro de duas vontades, duas peles, dois.

Há palavras mais inócuas do que outras. São as que ferem mais. Há gestos inconsequentes. São os que magoam menos. Uma mão num seio vale menos do que amo-te? Magoa mais?

Depende do seio, da mão, do que os move. Tu não és um seio, eu não sou esta mão.

Sam, outra vez. No original, a tradução é fraquita.


“If you were still around”

If you were still around
I’d hold you
Shake you by the knees
Blow hot air in both ears

You, who could write like a Panther Cat
Whatever got into your veins
What kind of green blood
Swam you to your doom

If you were still around
I’d tear into your fear
Leave it hanging off you
In long streamers
Shreds of dread

I’d turn you
Facing the wind
Bend your spine on my knee
Chew the back of your head
Til you opened your mouth to this life

1/31/80
Homestead Valley, Ca
Sam Sheppard, Motel Chronicles

Sam

A felicidade
cai
no lado errado
da Sorte

A felicidade
cai
longe das minhas mãos

A felicidade
despenha-se
entre as árvores

toda a gente se queixa

Sam Sheppard, Crónicas Americanas, Ed. Difel

Beau de l'air

"J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans."

21.6.13

Algumas notas

Algumas notas não despiciendas sobre a amizade, o amor, o futuro o passado e o presente, a gastronomia e a lua, o tinitus, as coisas que se dizem por dizer e as coisas que não se dizem por dizer, a solidão a dor a alegria e a boa companhia, o arroz demasiado cozido e os morangos marinados em açúcar, a mayonnaise caseira, o hummous com dois dias, as toalhas aos quadradinhos e as casas de campo recuperadas por arquitectos como deve ser, a ideia dos inúmeros telefonemas que devia ter feito e não fiz, e dos inúmeros que fiz e devia ter feito, os riscos da intoxicação por excesso de clorofila: Rum.

Neste caso, Flor de Caña Centenario, 12 Anos.

Jantar improvisado - arroz de pimento em presunto

Aviso à navegação: morangos são melhores com rum do que com qualquer outra coisa que tenha provado até hoje. Incluindo chantilly, vinho do Porto, açúcar, sumo de laranja, ou mesmo nada.

Comecei por refogar a gordura de muito presunto, muito devagarinho (isto dos refogados tem que se lhes diga). Depois juntei os pimentos, cortados em bocados pequeninos.

Depois pus o arroz, deixei cozer - demais, mas isso não importa agora - e acompanhámos com  mayonnaise de peixe, salada, vinho tinto Terra d'Alter Touriga Nacional 2010, muita amizade, hummous que fiz anteontem, mais vinho tinto, mais amizade, duas ou três decisões, muita felicidade, muito bom humor, mais um bocadinho de rum, uma trágica ausência de tédio, cães d'água em quantidades industriais, mais rum, uma incursão no passado e outra no presente, menos tédio ainda.

(O rum é Flor de Caña 12 Anos. O bom humor não sei. Os cães do Canil Veleiro Nagual. O resto não interessa.)


Diálogos improváveis

- Não sei quem amar.
- Começa por aprender a amar. O resto seguirá.

- Não sei o que quero fazer.
-Começa por saber o que podes fazer. O resto seguirá.

Diário de Bordos - Évora, 21-06-13

Vou pela estrada, casaco branco de linho a tiracolo, como as personagens de Pasolini nos Passarinhos e Passarões (ou coisa semelhante). Eles eram dois e eu sou dois também, o meu eu triste e o meu eu feliz num só corpo, num só casaco, a estrada só para nós.

Ainda tinha o Pasolini na cabeça quando entrei no Mistério de Oberwald, um magnífico melodrama sobre o amor, o poder e a manipulação, cujas cores originais estavam completamente obliteradas pela projecção em video.

Um grande filme com uma grande actriz (e alguns pequenos, mas isso é irrelevante), uma bela história de amor e uma reflexão sobre o poder (de onde vem e para onde vai, como e porquê),  as diferentes formas da manipulação. O filme não teve muito sucesso quando saiu, se bem me lembro; vê-lo agora na Casa da Zorra, uma cooperativa cultural em Évora foi uma agradável surpresa.

Que a Lisboa em mim me perdoe, mas hoje não vou ouvir a Lisboa em Si. Fico em Évora a intoxicar-me de clorofila e paz, não tarda estou farto de uma e a outra nunca dura muito, mais vale aproveitá-la enquanto há.

20.6.13

Diário de Bordos - Évora, 20-06-13

"...por se tratar para o rapaz, supõe, apenas de uma sombra louca e dolorida que mora longe, ao fundo da rua, e da qual só nos apercebemos aqui e além, quando a generosidade nos leva atrás de um ovo roubado na despensa ou quando o grito do sofrimento estala nas nossas noites de lua cheia, sombra que um dia se esfuma num dos funerais da nossa existência."

Regresso a Évora e ao restaurante o Cantinho,  ando como e durmo, bebo vinho tinto e rum Flor de Caña 12 Anos que trouxe do Panamá.  Oiço David Bowie, logo à noite vou ver o Mistério de Oberwald. Não é só a Évora que regresso, é à banalidade, uma das formas da felicidade. Ou da ausência de dor, pelo menos. Já é muito.

Talvez não seja assim tanta a banalidade: estou longe do mar e gosto disso. Começo finalmente a perceber o que são férias, voltar para o trabalho que se deixou, continuar aquilo que se interrompeu. Não sei há quantos anos isto não me acontecia, nem quantas vezes. Há muitos, e muito poucas. Procuro na memória e não me ocorre nenhuma [Adenda: a última vez foi em 1994, quando trabalhava para o HCR]. As  férias são o primeiro passo para uma vida banal.

"Foge o mar dos meus dedos entre a noite, e a noite é uma canção que te procura".

(As citações são de O Que Diz Molero, Dinis Machado, Ed. Quetzal).

19.6.13

Boca, ouvido

Queixam-se tantas vezes de mãos sem mamas, de pele sem pele, de ventre sem ventre; mas não há pior do que boca sem ouvido.

Máximas antigas, de sempre

Antes de nos alegrarmos muito, devemos lembrar-nos de uma frase escrita por um senhor há já algum tempo: É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma.

A vida, vagas

Não se vê o vento mas sente-se; tal como não te vejo mas sinto-te. És o vento. És a vida: vive-se e não se vê.  És a luz e o ruído da luz; és a falésia  na qual me despenho, contra a qual me quebro, vaga sombra de mim.

Vaga sombria de mim.  És o que sou mais o vento, o mar e a rocha, és a luz e o fragmento da luz, arco-íris sem fim nem princípio.  Um dia serei o que és e o vento, e a luz, e a rocha. Vida.

Água, corpo

São um rio, as palavras um corpo, procuram um leito uma foz onde desaguar, uma direcção; sem ele perdem-se, sem ela de nada servem. Dispersam-se impotentes no ar onde tu não estás, são como chuva no mar,  luz no vazio, mar sem vento.

Sem um leito as palavras secam, sem uma foz perdem-se. Sem ti as palavras são como uma noite sem ti, uma vida sem  noites, um leito sem água.

18.6.13

Ruas, drogas

Percorro-te as ruas, Lisboa, como se fosse eu a droga e tu o corpo. Mas não és, não somos. És tu a droga, eu o corpo que dela se enche, a respira, se intoxica e nela se perde e se reencontra.

Diário de Bordos - Lisboa, 18-06-2013

Lisboa é a cidade mais bonita do mundo pela razão mais ou menos simples (se bem bastante discutível) de que não há nada mais bonito do que as nossas memórias, todas; mesmo as que foram fabricadas por nós, há segundos.

Foi neste banco que não-te dei o braço, não-te beijei, não-te disse amo-te; foi naquela casa que pela primeira vez fizemos amor, ou tomámos o primeiro pequeno almoço juntos; foi debaixo desta árvore que percebi que te quero amar, te quero, te amo, te amarei.

Foi nesta livraria que; e  naquelas escadas, lembras-te? Não, não te lembras porque acabo de inventar que foi naquelas escadas que e foi nelas que nunca te disse que te amo, ou foi nelas que te acariciei pela primeira vez os seios, ou por aí fora.

Só numa cidade que conhecemos bem, na qual vivemos e que amamos se podem as memórias misturar assim, as verdadeiras e as falsas (enfim, não há falsas memórias: há as que se construíram a si próprias e sobreviveram em nós e as que nós próprios fizemos e sem as quais não sobreviveríamos nem dois minutos).  É por isso que Lisboa é a cidade mais bonita do mundo, para mim. E não por causa do café do senhor Leal, que ainda lá está, leal ao bairro e à qualidade; ou do sorriso da Sónia do Pão de Canela, que ainda se lembra de que o meu galão é gelado e o café sem açúcar (não é verdade. Também são esse sorriso e essa prestabilidade que fazem da Praça das Flores a praça mais bonita do mundo, na categoria pequenas praças).

........
Preciso de mudar de telefone e vou a uma pequena loja no metro do Rossio. O senhor, um jovem sikh diz-me "não se preocupe, vai acabar por aprender" quando lhe digo que hesito porque o telefone não tem teclas, é só de toques. Compro-lho imediatamente, claro: não duvidar da inteligência de um cliente é a melhor técnica de vendas que conheço.

........
Há uns anos escrevi que a melhor maneira de se viver em Lisboa é ser estrangeiro, e cada vez que cá venho confirmo essa ideia. Não saber quem é o Zé ou o António Costa ou o que havia na Avenida da República antes de haver o que agora há, e poder admirar a cidade como é hoje (e o que nela vivemos, ou não-vivemos, mas isso é outra história), resistente a tudo, mesmo a meia dúzia de Zés e Antónios e aos que se lhes seguirão

16.6.13

Diário de Bordos -Newark, EUA, 15-06-13

Nem tudo é culpa dos "americanos", claro. Pensei que tinha deixado a carteira no filtro de segurança e não deixei, estava no bolso de trás das calças, onde nunca  a ponho; resolvi comer um Philly Steak sem ver que havia um restaurante mexicano a meia dúzia de metros; e - foi aqui que tudo começou - devia ter-me lembrado no Panamá que nunca me deixariam embarcar nos EUA com três garrafas de rum, duas das quais de um litro (espero que a Alfândega portuguesa não leia este post).

Mas tudo o resto é culpa "deles": os trinta dólares que custa pôr as garrafas no porão (e, acabo de ver, não paguei; obrigaram-me a ir fazer um cartão de "crédito" expresso numa máquina - mete-se dinheiro sai um cartão com o valor equivalente - e não mo pediram. Ou seja, agora tenho trinta dólares que não sei para que servirão); a péssima, indescrítivel qualidade do Philly Steak, o pior que jamais comi; o preço aberrante de um Shiraz / Grenache no Vino Volo (aberrante mas apesar disso muito bom, forçoso é reconhecer); a impossibilidade de trocar notas de vinte dólares em notas de cem; e - ocorre-me agora, que já vou com quase uma a caminho das quase duas Margaritas no bucho, a impossibilidade de fumar seja onde for.

A verdade é que nos Estados Unidos tudo corre bem - como na Suíça e na maioria dos países por assim dizer civilizados - enquanto tudo corre bem. Mal um pentelho, um pentelhito pequenito põe os cornos fora do penico está tudo estragado. Friendly American mon cul, para dizer as coisas em várias líguas. Friendly enquanto lhes convém. Depois deixam de ser friendly.

Coisa que de resto não me incomoda particularmente - mas porra, deixem de nos receber como se fôssemos as pessoas que naquele momento faltam para as fazer felizes e cinco minutos depois como aquilo que somos realmente: uma dor no cul.

Enfim, uma quase Margarita a caminho de uma quase segunda, o Economist no saco, a perspectiva de um pequeno almoço em Lisboa, quinze dias de férias... Qué vayan, los americanos.

No Panamá não consegui encontrar o Economist. Se me dissessem que na Lua está à venda ficaria menos surpreendido.

Philly Steak é o equivalente americano de um prego. Quando é bem feito, por exemplo pela minha bem amada Sandra, do Skullduggery (ah Sandra, que saudades, Sandra, que saudades) é melhor do que qualquer prego que tenha comido até agora (enfim, a maioria deles, pelo menos). Quando é péssimo é pior do que tudo e não devia sequer ser mencionado.

........
As Margaritas do Caliente Café são tão boas como as da Palapa, em Puerto Vallarta.  Mas isso infelizmente não chega para aconselhar uma vinda ao aeroporto de Newark, contrariamente a Puerto Vallarta, que pode ser visitada mesmo por quem não goste de Margaritas.

........
Amanhã faz parte do programa ir buscar a Rolex. Se não consigo controlar o lado da receita, pelo menos que me exceda no da despesa (enfim, podíamos ter aqui uma discussão sobre a semântica na metáfora, mas isso fica para depois. Esta receita fica-me caríssima, e a despesa não me custa nada - pelo menos enquanto não inventarem peagens para bicicletas na Marginal).

........
Como tão pouco é culpa dos americanos que eu me tenha esquecido de mudar a hora no tablet e tenha chegado à porta de embarque não cinquenta e sete minutos antes da saída mas três minutos depois. E lá se vai a minha tese por água abaixo. Porta fechada, manga desligada e recuada, bagagens a sair do porão?  Uma breve discussão entre a funcionária da porta e não sei quem (o tema sendo "mas eu disse que tinha o passageiro antes de começarem a descarregar a bagagem" , o que era manifestamente mentira),e eis-me na ponta da manga, cabelos esvoaçando decerto, se não os tivesse cortado, com a face intrépida de um navegador de quinhentos, a porta a ser aberta... e a entrar no avião agora de ar contrito e a pedir desculpa a todas as filas, uma a uma.

Que me tenham deixado entrar no avião compreende-se: as companhias de aviação não gostam de ver a sua classificação de pontualidade sofrer com coisas destas, por muitas precauções que tomem com os horários. Mas ninguém, nem um passageiro teve uma palavra menos cortês, foi desagradável comigo, reclamou.





15.6.13

Cultura

A ausência de cultura é uma aventura tão arriscada quanto a sua presença permanentemente ao nosso lado. Tão atraente.

Viagem, casa

Viajo sem bagagem porque vou para casa? Não. Porque vou buscar a minha casa.

Dia de loucos

Gostar de um dia de loucos faz de quem gosta um louco, ou só alguém que gosta da sua capacidade de se adaptar (e indiferente à opinião alheia)?

Tratado de saber viver para uso das novas gerações

Há duas maneiras de afastar rapidamente uma mulher de nós: dizer-lhe que a amamos mais do que realmente a amamos; ou fazê-la crer que não a amamos tanto quanto realmente a amamos.

O discurso do amor, para ser perene, exige temperança, a mais chata das virtudes; ou verdade, a mais difícil, mais perigosa. A verdade é uma corda bamba da qual é muito fácil cair.

(O título do post vem de uma obra de Raoul Vaneigem que, creio e espero é do conhecimento geral).

14.6.13

Diário de Bordos - Panamá, Panamá, 13-06-2013

Eu tentei. Claro que tentei. Quem não fremiria de prazer só de pensar num evento chamado Mix and Mingle, organizado pelos YEP, Young Expatriates in Panama? A simples perspectiva de poder mix and mingle-me com jovens expatriados no Panamá no Ginger Bar do Waldorf Astoria provocou-me uma descarga de adrenalina difícil de descrever. A espinha; a pele; tudo.

De maneira calcei os recém-adquiridos sapatos Land Rover (uma marca de automóveis todo-o-terreno que também, fiquei agora a saber, faz calçado), enverguei o casaco de linho branco comprado, heroicamente, no Macy's de São Francisco - recheado, naturalmente, de cartões de visita - chamei o meu táxi da noite, Bráulio (que me deve quatro dólares, convem não esquecer) e.

Bráulio não apareceu. Uma história de camiões da qual não percebi nem os pára-choques. Apanhei outro táxi; não sabia onde era o Waldorf Astoria. Fui à recepção do hotel que fica ao lado da marina (e gentilmente me fornece rede a bordo, graças ao booster mega que M. o armador, comprou). "Ah, o hotel novo", exclamou o condutor quando lhe dei a morada. E.

Quando cheguei a coisa estava um pouco morta. Fui recebido com um cocktail de boas vindas do qual a base era Rum Mount Gay. "Nem tudo está perdido", pensei. "Há rum Mount Gay".

Nada estava perdido excepto eu. Note-se: nem over nem underdressed, tema que me massacrou o juízo todo o trajecto de táxi. Nada disso. Estava perdido, só. Cheio de fome, exausto, incapaz de produzir uma única banalidade (não menciono sequer ideias originais, coisa que não tenho nem quando estou underdressed). Exausto, simplesmente. (Isto é um bocadinho uma piada; acho que não conseguiria estar overdressed nem numa reunião de bairro do Casal Ventoso, quanto mais no Waldorf Astoria).

"Comendo isto passa" (é remédio santo, comer). Mas não passou. Nem a vista de uma jovem linda com um cartão em cima do peito esquerdo a dizer Fiorella conseguiu fazer-me ficar. Mais vale perder do que não tentar fornece uma óptima desculpa nestas circunstâncias e depois de comer (de resto bastante agradavelmente, numa pequena tasca ao lado do hotel) fui para a Cinta Costera.

Preciso de andar, por todas as razões e mais uma: gosto, e a bordo não há maneira de o fazer. A substância no sangue; o oxigénio.

A Cinta Costera está cheia de pessoas que se preocupam com isso mai-lo peso, a forma, o físico e essas coisas todas com as quais hoje em dia as pessoas se preocupam. Apesar disso é bonita. Há senhoras que ainda são gordas, outras que já o foram, algumas que nunca o serão, há polícias, casais de brasileiros a andar muito depressa e a falar muito alto, há vendedores ambulantes que vendem sumos ou saladas de frutas, água sem sequer olhar para as pessoas a quem os vendem, há casais de namorados e pelo menos um português de sapatos Land Rover e casaco de linho branco a escrever freneticamente num telefone portátil, não vão estas sublimes ideias ir para onde deviam ir, e a tentar não andar depressa de mais para que o casaco não fique a cheirar mal.

........
A parte pedestre da Cinta Costera está separada da rua por um largo relvado com algumas árvores jovens mas que aparam o som dos automóveis - seis faixas para cada lado? - e nos defendem a vista. Do outro lado está o mar, muito espelhado apesar de haver um bocadinho de vento - tem havido, ultimamente.

Vindo do Waldorf Astoria, virando à direita na Cinta Costera e caminhando chega-se ao Casco Antiguo (ou Viejo, às vezes) o meu bairro favorito nesta cidade. Antes passa-se por um porto de pesca, e antes ainda por uma série de pequenos campos de basket. O porto de pesca marca o fim dos arranha-céus e o princípio das casas de dois ou três pisos. Cheira mal, mas não demasiado; pareceu-me bonito, simples, eficaz - até na divisão da cidade, de um lado a ausência de cheiro do outro o cheiro, os prédios altos e os baixos, o hoje e o ontem.

........
Não gosto de preconceitos, mas reconheço-lhes a utilidade (são um bocadinho como soutiens, apesar de a comparação não ser das mais elegantes). Ontem escrevia que não queria contratar panamianos; hoje quase contratei uma - sou eu que espero a decsião dela, não ela a minha. Como os soutiens, os preconceitos são muito melhores quando deitados fora. A senhora é uma das excepções que tinha em mente quando ontem falava de excepções. Trabalha no Yacht Club, é sorridente, eficaz e - aspecto importante - cabe no beliche que lhe vamos fazer (não é ela que é grande, é o beliche que é pequeno).

Tem meia dúzia de trâmites a fazer, vem ver o barco e amanhã diz-me sim ou sopas. Gostaria que fosse sim.

........
Há pouco falava nas depressões post partum. As minhas (metafóricas, claro) nunca me ocorrem quando o acaso, a sorte ou no melhor dos casos a oportunidade me põem um bebé nos braços. Longe disso (infelizmente, teria tido muitas menos). Vêm-me quando venço uma luta difícil, atinjo um objectivo à custa de esforço, tempo, tenacidade ou estratégia.

Hoje foi um dia desses. Mas.

........
De maneira tudo indica que em breve uma espécie de jarra da china partida em mil bocados andará pelas ruas de Lisboa à procura de cola.

........
Tudo se paga, nesta vida; e na verdade prefiro pagar em líquido, contra entrega. (Há qualquer coisa de mágico neste termo, líquido, para cash, não há? Premonitório). É o que estou a fazer agora. O preço é elevado, mas com razão. Quando acabar de pagar tudo volta ao normal, espero. Não quero mais dívidas dos que as que já tenho, e muito menos com entidades intangíveis. Com as outras ainda posso negociar, conversar, tentar aplacar; com estas não.

........
Hoje é dia de Sto. António. Faltam-me as sardinhas assadas e a minha avó, que o escolheu (enfim, sonhou, mas isso fica para depois) como sócio. Foi graças ao Toino que ela começou a cozinhar e só por isso o santo tem a minha eterna devoção.

........
Vim a pé até ao Casco Antiguo. Estou no meu bem-amado restaurante Louvaine, o da música electrónica boa, e do vinho a copo decente. Que bom foi o passeio. Andar a pé vem no terceiro lugar dos prazeres que se podem mencionar: navegar, andar de bicicleta e marchar. Dos outros não falo, apesar de não gostar de preconceitos.

13.6.13

Depressões e depressões

Tanto os homens como as mulheres têm depressões, é um facto conhecido e no fundo banal; menos conhecido é que os homens também sofrem de um tipo particular de depressão, conhecida em certas indústrias pelo seu acrónimo em inglês (PPD) ou, em francês e português, DPP.

Refiro-me, já todos o identificámos, à depressão post partum. Sempre a vi como uma espécie de depressão de sinal contrário, uma depressão positiva, por assim dizer. Adicionando algebricamente uma DPP a uma depressão "normal" (entre aspas porque não sei bem o que é uma depressão normal, a mim parecem-me como as famílias infelizes do outro) devíamos obter uma ausência de  depressão.

Esta teoria necessita, como todas, de uma revisão urgente, de uma confirmação empírica, pesquisas profundas. Só gostaria de não ser eu a cobaia.

Diário de Bordos - Panamá, Panamá, 12-06-2013

" Panamiano não quero, está fora de questão". Foi preciso chegar aos cinquenta e cinco anos - e quase trinta a contratar pessoas - para excluir a identidade e referir-me a um grupo como critério de escolha. Sinal seguro de que a paciência está a diminuir (isso já sabia) e de que aprendi, finalmente, a gerir melhor o tempo.

Procuro um ou uma tripulante e estou aberto a praticamente todas as combinações idade /sexo / nacionalidade / experiência excepto uma que inclua a nacionalidade panamiana. A noção de serviço neste país começou por me espantar; agora faz-me rir. É divertido, a sério. Ouvir uma empregada de um restaurante de vinhos perguntar, algo espantada "mas um vinho estraga-se, se estiver aberto muito tempo?" (num restaurante que se chama Tinto de Verano e se pretende "de vinhos"); dizer bom dia, boa tarde ou boa noite e não ser respondido nem com um olhar;  deixar uma gorjeta completamente inútil em termos práticos (o clube fornece uma lancha gratuita, incluída no preço absurdo que custa) e não se ouvir nem um murmúrio de agradecimento são coisas que agora me fazem rir. Ao princípio - isto é, os três primeiros dias, afinal cheguei há pouco mais de uma semana - espantavam-me.

Hoje já não. Tiram-me simplesmente vontade de perder tempo. Não tive respostas de portugueses, tê-las-ei de franceses, belgas, colombianos ou argentinos. Panamianos não, obrigado.

Isto dito, o país é um paraíso para quem não está com vontade de ser, ou não precisa de ou não é de todo bem educado. A falta de educação é a norma, não a excepção.

Que as há, claro; já encontrei algumas. Mas não me apetece procurá-las. Que venham ter comigo quando sou cliente, não quando tenho clientes.

........
As "coisas" - esse conjunto de acções, necessidades, objectivos para as quais não há um termo suficientemente preciso, ou satisfatoriamente vago - estão a avançar a bom ritmo. Bom sendo, como sempre, o melhor sinónimo possível de possível. A continuar assim dentro de três ou quatro dias estarei num avião, a caminho daquilo que um dia sonhei seria a minha casa e hoje é simplesmente o lugar de onde sou.

Há uma diferença muito grande entre o lugar de onde sou e o lugar de onde serei. Talvez seja esta a melhor definição de desenraizado - não quem não tem raízes, mas quem as não tem no lugar certo.

........
Descubro - com um certo e inesperado espanto - que a felicidade ou a infelicidade nada têm a ver com as raízes. Volto a Lisboa - uma cidade que adoro e onde passei alguns dos piores e melhores momentos da minha vida - com um indescrítivel prazer. Quero misturar num gigantesco shaker sardinhas assadas, Ler Devagar, queques integrais, vinho a jarro, amigos, amigas, livros, família, amigos outra vez, muito bacalhau assado e pernas de borrego e tudo o que cabe numa cidade que é a minha mas na qual nunca, salvo raros momentos de rara felicidade, vivi, pôr-lhe algum rum, encher com Alexanders no Procópio (ou os do senhor Miguel no Pavilhão), terminar com uma exposição de fotografia da minha fotógrafa favorita, agitar com Piratas, Pernas de Pau, Ginginhas e Pataniscas na Merendinha do Arco, passeios na minha bicicleta Rolex, mais uma livraria ou duas, descer a Bica, subir a calçada da Glória, perder-me em Alfama - nunca lá me encontrei, seja a verdade dita - reclamar contra o Bairro Alto e ir dançar (se se pode chamar dançar ao que faço) no bar do meu irmão preto.

Não é isto a pátria?  Não. É uma cidade, a minha cidade. A pátria ainda estou por descobrir o que seja. Não terei decerto tempo de ir a Mértola, a coisa que para mim mais se aproxima da noção de pátria.

Nasci para viver nas Caraíbas e ir a Lisboa, não para viver em Lisboa e ir às Caraíbas.

........
Gosto muito de trabalhar e do trabalho que faço. Gosto de barcos e do mar, de estar no estrangeiro e de ser estrangeiro.  Gosto de não ter raízes e de não sofrer com isso. Mas mais do que tudo gosto de Lisboa, porque para ser estrangeiro em qualquer lugar há que ter um lugar, e o meu é Lisboa.

Animula vagula blandula...

........
Reencontro a vida urbana: buzinadelas, engarrafamentos, gritos.  Para gostar completamente de Panamá preciso de encontrar o resto daquilo que faz de uma cidade uma cidade: um bar de jazz, uma boa livraria, uma boa loja de discos (já não se pode dizer discoteca. Por que raio de carga de água boîte desapareceu?).  Se não a cidade fica desequilibrada, como uma vida da qual só metade está a correr bem.

........
Sem melancolia não se pode apreciar a vida, mas o excesso de melancolia mata. Contradição que sem melancolia nunca será resolvida, e com ela tão pouco.

Só um corpo, o mar e uma quantidade apreciável de rum a podem resolver. Juntos.

12.6.13

Adultério, palavras

A maneira correcta de reconhecer a qualidade de um adultério é contar-lhe as palavras. Num bom adultério não há palavras.

Geografias, imigrações

Todos os países acolhem a felicidade de braços abertos, mas nenhum a dor.