16.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 15-10-2016

Um gajo sai de bordo sem um plano preciso, exceptuando sair de bordo. Era a única coisa clara.

Acaba mal, claro. Palminhei quilómetros por ruas que me fizeram pensar na África do Sul (têm casas, mas parecem desertas), comprei o que precisava no Walmart mas em duas vezes. Da primeira esqueci-me de parte das coisas - por coincidência as mais importantes e urgentes -, esperei horas por autocarros que não aparecem nunca (pequeno vislumbre: um dos condutores era simpático), almocei maravilhosamente apesar de um episódio com o piripiri e voltei para bordo exausto e a precisar de um duche.

Só atendi à primeira condição. O duche fica para depois. Para quando acabar de ouvir os álbuns todos do Cohen que tenho gravados.

É a minha forma de dizer que me estou nas tintas para o Nobel do outro. Este também  (digo também porque não conheço Dylan o suficiente para dizer outra coisa) o mereceria. Deitado, peganhento (a solidão tem coisas boas) cansado e feliz. Não vai durar muito: as duzentas e cinquenta músicas que tenho gravadas dele vão acabar, a necessidade de um duche vai impor-se.

Mas isto é de aproveitar enquanto dura. Chama-se abandono e é uma das formas da liberdade. 

Avisos

Arre! Não há um objecto, um que não tenha um aviso sobre os perigos que encerra. Hoje era uma vela - enfim, um frasco com combustível dentro para fazer de vela na mesa -. Pergunto-me se as armas também têm avisos do género "Atenção, pode queimar-se se pegar na arma pelo cano depois de disparar". Ou "Não usar em escolas ou universidades".

15.10.16

Cinquenta cêntimos

Isto é a América.

O restaurante é excelente. Tudo é bom, tudo. A vista, a comida, a cerveja, o serviço, o molho picante.

Até ao momento em que pela terceira vez tenho de pedir mais molho picante.  "Não há problema, mas agora tenho de lho debitar, Sir. Cinquenta cêntimos".

A pequenez e a grandeza coabitam tão bem...

(Cont.)

A lua cheia não é de certeza: tenho-a em todo o lado, faça o que fizer.

Talvez seja outra coisa. Telefonei ao Chris B., amigo de muitas guerras. Telefonei-lhe primeiro para nos encontrarmos domingo (e deixei-lhe uma mensagem despreocupada). Depois a coisa mudou: preciso dele a bordo para me resolver o problema da energia. Má consciência,  etc. (já devia ter ligado; ele já não trabalha em barcos; amanhã é sábado; um sem fim de más consciências).

Ele respondeu-me:  "ou seja, o plano é: eu passo a buscar-te e vamos comer uma pizza. Onde estás?"

Chris vive em Fort Lauderdale, a três quartos de hora daqui.

Não sei. É isto tudo, estas coisas todas juntas, tão díspares, tão unas, únicas, 

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 14-10-2016

Não sei bem o que é, juro. Talvez seja esta conjunção de dias maravilhosamente estúpidos, como o de hoje e dias estupidamente maravilhosos, como tantos outros; ou poder de novo andar descalço o dia todo, prazer infantil e tão terra-a-terra, primitivo, primário, básico, essencial; ou estar num desses lugares quentes e húmidos em que o vento é simultaneamente uma promessa e a salvação; ou poder olhar para o barco e pensar "esta merda está exactamente como estava quando cheguei" sabendo que a) é mentira e b) amanhã, ou depois, ou um dia de repente vai estar completamente diferente. Não sei o que é.

Nem quero saber. A mágica explicada perde a magia e transforma-se numa sequência de gestos, nada mais.

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Conheci Ed, skipper do cata que está pela minha proa. Talvez seja isso também, não sei. Ou isso seja parte da mágica. Ajudou-me de moto proprio a mudar a ficha da energia de terra e partilhou cervejas comigo e histórias e como continuo sem energia de terra emprestou-me uma extensão para poder pelo menos carregar o telefone e o computador e foi-se embora com um sorriso, um encolher de ombros - simétrico do meu - e a certeza de que amanhã cá estará se for preciso e eu para ele, idem.

Se for preciso, quando for preciso, como for preciso. Com um encolher de ombros e um sorriso. Sem dramas.

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Ou talvez seja ver uma senhora bonita a zigzaguear nos pontões numa bicicleta a toda a velocidade, cabelos loiros a escapar-lhe do chapéu como água morna de uma cascata na selva.

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Uma piada velha - enfim, da minha adolescência tardia, vão quarenta anos, talvez - perguntava "qual a diferença entre fazer amor numa canoa e a cerveja americana? E respondia (em inglês) "None. Both are fucking close to water". Hoje pensava nisto enquanto bebia as maravilhosas cervejas que o Ed me trouxe (Yuengling, para os cépticos) e pensava "não consigo traduzir isto em português".

Consigo. "Ambas são uma foda à tona de água"?  Dúvida erótico-semântica que ficaria grato alguém me esclarecesse.

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Vou à cidade. Hoje é um dia estúpido, tão estúpido que raia o maravilhoso.

14.10.16

Abaixo o AO90, os joelhos e as alergias

Nunca gostei da expressão "fazer as coisas em cima do joelho", que sempre me pareceu mais uma desculpa para a crónica incapacidade nacional de decidir do que uma crítica à improvisação - de qualquer forma improcedente num povo incapaz de planear seja o que for -.

Porém agora estou a desenvolver-lhe uma alergia tal que se alguém a voltar a utilizar a menos de três metros de mim arrisca-se a sérios prejuizos na sua capacidade ótica. 

Serviço público - leituras

Gostaria de sugerir a todos os que me lêem que em vez de ler patetices vão a correr à Amazon ou telefonem a uma senhora que eu conheço  (e por acaso foi quem me vendeu o livro) e encomendem The Garden of the Evening Mists, de um autor chamado Tan Twan Eng.

Mais ainda recomendo que não se deixem abater pela aparente tépida brandura (e real lentidão) do livro. Aquilo está para a leitura como uma chávena de chá branco para o chá: só nos apercebemos de quão bom realmente é quando já estamos perto do fim.

Adenda - em caso de dúvida lógica: este post não é uma patetice.

Sem rir

"Quando tinha crises de depressão..." A frase ocorreu-me para princípio de um post: "quando tinha crises de depressão costumava dizer..."

Não sei exactamente onde classificar isto. Tinha? No pretérito imperfeito,  como se as crises depressivas fossem uma espécie de comichão que me dava por causa da idade ou da picada de um mosquito que só havia naquele estranho país que o passado é. Como se não estivessem aí à esquina, como se a avenida da Liberdade que tem sido a minha morada desde... sei lá,  talvez os dezoito anos? Talvez menos, até... estivesse isenta de esquinas obscuras, precipícios vários, monstros salivantes.

No tempo em que tinha crises de depressão é uma patetice, um amuo do meu sentido da realidade, uma escorregadela. Não tem sequer nobreza suficiente para ser um simples e tão frequente em mim excesso de optimismo.

Ao diabo. Há poucas razões para não vir de novo a ter uma daquelas depressões que me faziam sentir mastigado por uma gárgula bêbeda num jardim de urtigas regadas a ácido sulfúrico.

Hão-de voltar, eu sei. Espero simplesmente que se lembrem desta noite de lua quase cheia, vento fresco, em que um marinheiro saiu do seu beliche e se sentou no cais junto de uma tomada elétrica para poder escrever no seu telefone descarregado "quando tinha crises de depressão" sem se rir de si próprio. 

13.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 13-10-2016

"Eles desembarcam com as Bíblias nas mãos, mas depois é so matar e pôr bombas". A citação não é verbatim, mas o erro literário-religioso sim. Juan refere-se aos imigrados "árabes e africanos" que a Europa acolhe, segundo ele erradamente. "É o que acontece quando fazes o bem" - a imprecisão na transcrição permanece, mas o sentido está cem por cento correcto -. Juan faz uma pausa e continua: "é  por isso que o Reino Unido fez aquilo" (ipsis verbis, desta vez).

De passagem e por detrás dele ouvi uma rádio afirmar (verbatim) "esta é a única maneira santa de pensar". Não sei a que se referia o locutor, mas gostei da coincidência. Os proselitistas religiosos mentem até nas coincidências.

Não fiquei muito tempo no "restaurante" do Juan. A verdade é que só lá vou porque não há aternativas, apesar de o burrito de hoje ter sido bastante melhor do que o de ontem. Mas comer numa bomba de gasolina, por muito interessante que seja do ponto de vista antropológico e humano - Juan é pleonasticamente simpático, já por aqui o disse - é cansativo.

Ontem ao fim do dia fui ao centro de West Palm. A rua Clematis é a rua dos cafés e restaurantes. Há para todos os gostos, mas achei-os todos tristes. Talvez a culpa seja minha. É, quase de certeza.

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Não sei como se chama o dono da estação de serviço, mas sei que é bangladeshi. "Quase todas as lojas deste tipo (nós chamamos-lhes lojas de conveniência) e bombas de gasolina pertencem a bangladeshis", explica-me. Respondi-lhe que em Portugal as lojas também são de conveniência e também pertencem a bangladeshis.

Um povo conveniente, sem dúvida.

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Hoje começa o trabalho a sério: acabar de lavar a roupa, limpar o barco, ver porque não tenho corrente no salão, encher os tanques de água, encomendar peças à Catana, ver qual a melhor maneira de pôr o degrau à proa do lado de estibordo, ferrar a bomba da casa de banho de estibordo, fixar as mesas do salão e do cockpit, fazer a lista de compras no shipchandler, fixar o encontro com o comprador de bitcoins e por aí fora. Como mulher a dias não sou grande coisa, mas no resto safo-me, vá lá.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 12-10-2016

É impossível gostar de um país que tem um café como o que agora estou a beber, trata os cidadãos como se fossem crianças - hoje vi um aviso num "restaurante" (mais sobre isto ali em baixo) a avisar os clientes de que comer carne insuficientemente cozida pode provocar doenças alimentares - regula tudo e mais alguma coisa com o cuidado e o furor de um maníaco e por aí fora.

E impossível não gostar de um país em que tudo é grande, tudo parece ir daqui até ao futuro longínquo, as bibliotecas abrem até às oito e meia da noite e por aí fora. Ou seja: estou em modo Estados Unidos. Esquizofrenia permanente, ininterrupta, simultaneamente fatigante e excitante (vêem o que quero dizer?).

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O "restaurante" entre aspas de que falo é o balcão de comidas da bomba de gasolina à frente da marina. Um dos funcionários desta hoje disse-me gentilmente - as pessoas são de uma gentileza inexcedível excepto se forem condutores de autocarros - que a bomba de gasolina tinha um "restaurante". Pensei que houvesse outra bomba de gasolina, mas não. Ele referia-se àquele balcão com três bancos onde um colombiano hiper-simpático (passe o pleonasmo) serve burritos medíocres e hamburgers decentes.

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O barco está em melhores condições do que o último. Não é difícil, claro. Mas é agradável.

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Uma primeira (tenho uma conta bitcoin) e uma segunda (andei de Uber pela segunda vez). Ainda há que me ache antiquado!

12.10.16

Pequena nota para a posteridade

Nunca um atraso num avião me foi tão agradável, tão bom, tão útil! Obrigado, American Airlines.

(E obrigado, R)

11.10.16

Diário de Bordos - Em voo de Lisboa para West Palm Beach, Flórida, EUA, 11-10-2016

Começa-se pelo princípio: o meu objectivo era chegar ao aeroporto (de Lisboa) às oito e quarenta e cinco e cheguei às oito e cinquenta. Quem não vê que alguma coisa está a mudar é cego.

O wifi do aeroporto de Lisboa - gratuito, ilimitado e normalmente bastante bom - não estava a funcionar. Ou é culpa do neo-liberalismo ou de alguma falha técnica. Tendo para a primeira: se fosse falha técnica a culpa seria também do neo-liberalismo. Escrevo no telefone, sorte para quem me lê e azar para mim.

Continua-se com a continuação: o Boeing 757 é o pior longo-curso do mundo. É mono-corredor (é assim que se traduz mono-aisle?) e as cadeiras são estreitas. Felizmente têm bastante espaço para as pernas. Valha-nos isso (incluo-me num grupo de provavelmente duzentos e alguns passageiros. A aeronave vai cheia a abarrotar) que a comida e o vinho tinto são a merda do costume. Há quem duvide, mas a TAP é a melhor companhia aérea do mundo, pelo menos uma vez dentro do avião. Até lá chegar isto discute-se. Ou não se discute: não é, ponto.

Bem, dizia eu que o B 757 é uma merda de um avião. Excepto para quem o fábrica e para quem o opera. É económico e tem uma boa capacidade de carga. A American Airlines tem uma pipa deles e eu passo a vida a voar AA, prova se necessária fosse de que não sou rico.

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Há outras viagens, mas essas não sei por onde começam. Se pelos olhos se pelas mamas ou - mais provavelmente - pelo olhar e pelo riso. Talvez. São viagens que já comecei muitas vezes. A maioria delas nem chega a começar, aliás. Outras sim. Têm sido boas, quase todas, com excepções. Uma ou duas acabaram mal. Pouco importa onde começam, desde que acabem bem.

E sejam boas, claro.

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Poucos obesos, hoje. Ainda não vi nenhum. É raro, num voo de ou para os Estados Unidos. Em contrapartida a senhora na fila à frente da minha não pára de falar. É portuguesa e não se cala. O senhor ao lado dela acabou por adormecer e ela agora fala com a vizinha do outro lado. Talvez viajem juntos e o rapaz seja o namorado ou o irmão e a conheça. Há pouco levantei-me para a ver: não tento ouvir o que ela diz e gostaria de saber se há mais nela do que o que oiço. Há: a miúda é gira. Deve ter uns trinta anos. Fala de mais, sem parar, com poucas entoações. Pergunto-me se seria capaz de viver ao lado daquela voz ininterrupta, monocórdica, parece um farol avariado. Não sei. Talvez por eu próprio falar de mais e ser esse o meu defeito de que menos gosto suporto-o mal nos outros.

Talvez. Tenho tantos defeitos que escolher o pior é quase impossível.

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Escala de cinco horas no aeroporto de Filadélfia. Aproveito para trabalhar. O aeroporto é porreiro: bonito, com wifi gratuito e ilimitado. Se bem me lembro é o primeiro que vejo assim nos Estados Unidos.

Chego a West Palm às nove e meia da noite. Do aeroporto à marina é um trajecto curto, diz-me o armador. Espero que seja.

Diário de Bordos - Lisboa, 10-10-2016

Dúvida do dia: viver é a) passear à beira do abismo e não cair, b) não sair dos sitios planos, ou c) cair, seja num abismo seja na planície mais plana do universo?

O problema é que não podemos escolher. A vida escolhe e nós montamo-la o melhor que podemos e sabemos.

O resto é conversa (de café, em breve.)

9.10.16

Diário de Bordos - Lisboa, 09-10-2016

Ontem a minha bicicleta Vitus Turbo bebeu de mais. Não há volta a dar-lhe nem outra forma de dizer as coisas: a bicicleta bebeu de mais e no caminho para casa caiu duas vezes. Como eu estava em cima dela caí também, claro. Felizmente, para além do ego não houve nada magoado.

Hoje vai estar a pão e óleo, de castigo.

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A noite foi deliciosa, apesar dessa história do excesso Turbístico. Fui jantar com três maravilhosas senhoras a um restaurante moçambicano de Alfama onde comi caril de caranguejo, matapa e caril de camarão e badgis. Tudo delicioso. A conversa fluiu leve e alegre.

Mal sabia eu que lá fora, amarrada a um cano de água, a Vitus estava a enfrascar-se. Não lhe quero mal. Como dizia uma senhora chamada Rose (de Pansec, algures na Suíça profunda - ou França? Não sei) temos o corpo cheio de pequenos diabos. Há que afogá-los (isto digo eu. A Rose tinha um remédio diferente, que passava por igrejas e padres e orações. Eu não. Afogo-os e pronto. Ecco! Visivelmente a minha bem-amada burra partilha os meus remédios anti-demozinhos).

........
Isto tudo aconteceu depois da apresentação de um livro na Barraca. O livro era esplêndido. Uma das senhoras que depois veio jantar comigo diz que o autor é o maior poeta português vivo. Não conheço todos os poetas portugueses vivos e não posso fazer essa comparação. Mas que é um dos meus preferidos é, sem dúvida e de longe. E a senhora percebe de literatura como niguém neste país (e escreve poesia também, de resto).

Ou seja: um grande fim de dia. O bar da Barraca traz-me sempre à memória os estabelecimentos da Rússia Soviética, em mais pequeno. Tem deles as cores e a atmosfera. Quando cheguei à Rússia tinha dezanove anos. Fiquei quatro meses no primeiro porto - Nakhodka, para quem estiver interessado - e um no segundo - Tuapse, idem -.

Em Nakhodka apaixonei-me perdidamente por uma jovem senhora, lindíssima. O superlativo não é exagero. Era linda de fazer calar os tais estabelecimentos (que ela frequentava a contragosto. Quem a levava era eu, para beber vodka. Ela criticava-me. Achava que eu bebia muito). Quando entrávamos num - tinham duas portas, todos, porque era inverno e aquilo era frio - as pessoas olhavam para ela e calavam-se. Era actriz de teatro e recitava-me poemas de Pushkin em russo. Não percebia uma palavra do que ela dizia, mas amava-a abandonadamente.

Trinta e quatro anos depois veio visitar-me a Antigua. Ainda era muito bonita, mas não me recitava poesia e eu já não a amava. Vive na Itália e deixou o teatro. A Barraca tem o ambiente escuro e soturno dos cafés soviéticos, mas em mais bonito. E a poesia é melhor e percebo-a.

É curioso ver uma pessoa que amámos trinta e quatro anos antes desembarcar de novo na nossa vida. Enfim, de novo não é a expressão correcta: nesses anos todos tive três ou quatro vidas, no mínimo. Mas ela chegou e lembrava-se bem de mim e de muitos episódios que eu ja esquecera. E continuou a dizer-me que bebia muito, eu. Ela não.

Bom, Vicky: quem bebeu ontem foi a bicicleta. não fui eu. O Tom Waits tem um problema semelhante com o piano. Talvez ele devesse vir ao bar da Barraca tocar.

Em Tuapse também me apaixonei, mas menos, muito menos. Desta lembro-me dos olhos verdes e dos cabelos morenos; o nome esqueci. Também era bonita, mas menos do que a Vicky.

Tudo isto porque fui à Barraca e dei barraca na bicicleta. Duas quedas: uma no princípio do trajecto e outra quase no fim. Exactamente as mesmas circunstâncias: a andar devagar, muito devagar. Quase parado. A Vitus aguenta-se mal a baixas velocidades. É uma burra de corrida, daquelas que só está à vontade numa estrada e na pirisca. Na cidade, à noite e com uns copos vai-se abaixo, coitada.

Gosto do bar da Barraca porque me faz lembrar uma data de coisas.

7.10.16

Misantropia, senilidade

Um dos muitos sintomas da minha demência senil: cada vez mais prefiro os meus defeitos às qualidades de tantos outros.

Não todos: na verdade só serei realmente misantropo quando morrer, ou enlouquecer de vez.

5.10.16

Crónica simplificada, agradecimento extensivo

Os dias correm e eu corro com eles, tentar apanhá-los e não deixar que eles se afastem demasiado de mim. Abrir a cafetaria (Fundação, de nome próprio, apelido e alcunha) nestas condições só foi possível graças à equipa que tenho ao lado - e tantas vezes à frente -. Aqui fica o meu Obrigado! à Ana, à Cila e ao Luís. E um Obrigado muito especial à Margarida. Há muito tempo que não acredito tanto num projecto e nele ponho o que pus neste. Espero conseguir partilhar não só o entusiasmo mas sobretudo que nos espera.

Daqui a uma semana ou duas estaremos a funcionar a cem por cento (ninguém aguenta o ritmo de mil por cento a que temos andado).

Obrigado.

1.10.16

Cristiano Ronaldo nasceu na Madeira e joga num clube espanhol

Desde que me tornei utilizador regular do Facebook os meus conhecimentos sobre a actividade futebolística aumentaram exponencialmente. Continuam, porém, bastante inferiores aos da média. Saber por exemplo que o Futebol Club do Porto é de um senhor chamado Pinto da Costa - que há anos andou envolvido com uma senhora mais jovem -, tem uma camisola azul e um estádio chamado Dragão não faz de mim um especialista do dito clube, naturalmente. Ou que a camisola do Benfica é encarnada e joga no Estádio da Luz, o Sporting verde e Alvalade, respectivamente (reconheço a fotografia do jovem presidente deste clube quando a vejo nos jornais mas raramente compreendo o que diz).

Enfim. Percebo pouco de futebol e fico fascinado com a quantidade de pessoas que no nosso país sabem imenso desse por assim dizer desporto. Estou a ouvir uma conversa na mesa atrás da minha e confesso que ignoro como quem sabe tanto de actividade que gera fortunas vem comer a uma tasca que até para um pobretanas como eu é (às vezes) acessível.

Tanta sabedoria devia ser reconhecida e paga.

E estão longe de ser os únicos. O futebol é um tema que revela a excelência nacional: não há quem não saiba daquilo mais do que qualquer outra pessoa, viva ou morta, nacional ou estrangeira, profissional ou amadora.

Cada vez que oiço uma conversa sobre futebol num café penso no Poema em linha recta e - quase tenho vergonha de o confessar - perco a vontade toda de saber mais do que o que sei. É pouco, mas já é de mais.

Húbris, concorrência

O problema da húbris é não suportar outras a seu lado. Mesmo que não sejam verdadeiras, que sejam apenas percepções: a húbris transforma tudo o que vê em soberba.

Questão de concorrência, claro: a arrogância não pode ser solitária.

Diário de Bordos - Lisboa, 01-10-2016

No meio de uma inenarrável sequência de eventos a cafetaria Fundação vai abrir daqui a pouco. Não faltou nada, excepto tempo. De resto tivemos tudo o que se possa imaginar, por vezes em quantidades abomináveis.

Fizemos face. Acabamos de vender a nossa primeira empada de frango. Apercebo-me da vantagem de ser marinheiro: a mistura de inquebrantável optimismo e consciência da nossa fragilidade, ser capaz de lidar com um ambiente que muda permanente, imprevisível e incontrolavelmente, saber distinguir num ápice o essencial e o acessório, o que nos permite avançar e o que nos afunda.

Talvez afinal não precise de deixar de ser marinheiro. Apenas mudo de embarcação. 

30.9.16

Cinquenta e nove

Faço hoje cinquenta e nove anos. O Facebook e o telefone portátil impedem-me de o esquecer, como já tantas vezes aconteceu antes.

Pouco interessa o que fica para trás, por bom, mau, insuportável ou maravilhoso que tenha sido. Foi isso tudo e muito mais. Interessa-me sobretudo o que aí vem: um projecto novo, outra vida, mais uma - outra! - tentativa para perceber este país e fazer parte dele.

Não é pouco e é nada. Já estive muito mais longe do que estou hoje e menos do que amanhã estarei de poder dizer sim a Rudyard Kipling:

"If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;
If you can think—and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And—which is more—you’ll be a Man, my son!"

Carne de frango

Hoje fui comprar uma pizza para trazer para casa e disse que queria uma com carne. Com carne não temos, diz a jovem empregada. Mas eu vi aqui umas com frango. Ah, mas frango não é carne. Pois claro. Tem razão. Frango é carne para maricas, termino. Ainda esboçou um sim, mas parou no s inicial.

No outro dia vi-os a beijarem-se, ela e o colega na porta ao lado do restaurante. Não era bem um beijo, era mais um encontro de aspiradores.

Era bonito de se ver. São os dois bonitos, de resto. Mas ela é mais.

27.9.16

Por baixo

Estou em Pombal e bebo Licor Beirão. Duas primeiras.

Não fazem uma segunda, claro: sentado no canto do café para carregar o telefone e o computador, costas para a praça, por sinal bem bonita. Por baixo, mil vezes.

Déjà vu à voir

Fala-se muitas vezes na sensação de déjà vu. Se bem me lembro até o Sigmund falou nisso. Não me lembro do que disse. Nunca fui grande fã da psicanálise, forma sofisticada e cara da superstição - outra coisa sobre a qual ele falou, se a memória não me falha -.

Que se foda a memória, digo sempre que o termo vem à baila. Ou quase, pelo menos. Passa a vida a foder-nos, a memória.

Já o fenómeno contrário me interessa muito mais. Isto é. Passo a explicar. Foi assim:

Hoje passei por paisagens que me fascinaram e pensei mas já passei aqui tantas vezes e não as vi como é possível? Estava sentado no bar do comboio, as paisagens desfilavam rápidas como naqueles jogos em que temos de memorizar a posição de uma carta ou uma sequência de números ou o nome das miúdas que a seu tempo amámos. E foi assim que me ocorreu como é possível estar a ver isto pela primeira vez quando já aqui passei tantas vezes, tantas?

Que diria Sigmund? A que estranho fenómeno inconsciente associaria ele este de se ver pela primeira vez aquilo que se viu tantas vezes? Como, sei lá, descubro hoje um corpo que já vi nu vinte vezes? Como vejo hoje pela primeira vez o que ontem vi pela milésima? Como vejo agora de repente o futuro no que vi ontem feito passado?

Amanhã olharei para hoje e verei o depois de amanhã. Amanhã olharei para depois e verei o que não vi hoje.

Indignação justa

Tenho uma certa dificuldade em dar-me bem com as justas indignações por duas razões: a) serem auto-fágicas e b) o seu perfeito sentido do timing.

Alguém se lembra de ter visto um justo indignar-se num momento em que a sua indignação fosse irrelevante? A pergunta é retórica. Não. E alguém alguma vez viu uma justa indignação extinguir-se? Não, igualmente. A indignação justa alimenta-se a e de si própria como um fogo que cresce sem oxigénio ou um amor sem esperança.

Coisa que naturalmente não atinge os fundamentos da indignação justa. É justa e indignada.

Amarcord

Lembro-me perfeitamente. Nessa noite as lebres tinham-se embebedado com um molho de palha fermentada. Impossível acertar numa. Por causa dos zigzagues, claro. Eu estava sóbrio como um carvalho num dia de chuva. As lebres titubeavam. Via-as bem por causa dos raios que caíam sem cessar perto de onde elas andavam. Tentei dar ao cano da minha espingarda uma forma curvilínea, inspirando-me para tal nas formas da montanha russa a que em criança o meu pai me levava. As balas bem saíam aos esses, mas mesmo assim não acertava uma. O defeito era meu, claro. Não é sóbrio que se caçam lebres bêbadas, tal como a embriaguez não ajuda a caçá-las quando estão sóbrias. Um zigzague que se transforma no celebríssimo, excelentíssimo, adequadissimo zaguezig rosiano, círculo vicioso em virtuoso, noite sem sono em sono sem noite. Em miúdo divertia-me a dizer o alfabeto de trás para a frente. Tão bem, é preciso acrescentar, que um dia caí de costas numa piscina vazia: as letras definiam o sentido da minha marcha. Comecei a jogar à macaca com elas, mas perdia sempre: juntavam-se e formavam palavras, letras malditas. Um dia cresci. Aprendi a ignorá-las, moldá-las, dar-lhes a forma e o sentido que eu queria que elas tivessem e tomassem. Transformei-me num cavalinho de carrossel e agora lembro-me de quando caçava lebres montadas em montanhas russas.

Tel un petit moineau remorquant un Zeppelin par un jour de tempête, pauvre de lui, mes yeux se remplissent de larmes, amères larmes rien qu'en me rappelant de cet épisode auquel mes jeunes yeux (les mêmes en moins agés) assistèrent étant-je tout jeune, tout jeune, pauvre de moi et du petit moineau, une tragique tragédie qui laissa des marques atroces et indélébiles dans ma mémoire meurtrie

"Plût au ciel que le lecteur, enhardi et devenu
momentanément féroce comme ce qu'il lit, trouve, sans se
désorienter, son chemin abrupt et sauvage, à travers les
marécages désolés de ces pages sombres et pleines de poison;
car, à moins qu'il n'apporte dans sa lecture une logique
rigoureuse et une tension d'esprit égale au moins à sa
défiance, les émanations mortelles de ce livre imbiberont
son âme comme l'eau le sucre. Il n'est pas bon que tout le
monde lise les pages qui vont suivre ; quelques-uns seuls
savoureront ce fruit amer sans danger. Par conséquent, âme
timide, avant de pénétrer plus loin dans de pareilles landes
inexplorées, dirige tes talons en arrière et non en avant.
Écoute bien ce que je te dis : dirige tes talons en arrière
et non en avant, comme les yeux d'un fils qui se détourne
respectueusement de la contemplation auguste de la face
maternelle; ou, plutôt, comme un angle à perte de vue de
grues frileuses méditant beaucoup, qui, pendant l'hiver,
vole puissamment à travers le silence, toutes voiles
tendues, vers un point déterminé de l'horizon, d'où tout à
coup part un vent étrange et fort, précurseur de la tempête.
La grue la plus vieille et qui forme à elle seule
l'avant-garde, voyant cela, branle la tête comme une
personne raisonnable, conséquemment son bec aussi qu'elle
fait claquer, et n'est pas contente (moi, non plus, je ne le
serais pas à sa place), tandis que son vieux cou, dégarni de
plumes et contemporain de trois générations de grues, se
remue en ondulations irritées qui présagent l'orage qui
s'approche de plus en plus. Après avoir de sang-froid
regardé plusieurs fois de tous les côtés avec des yeux qui
renferment l'expérience, prudemment, la première (car,
c'est elle qui a le privilége de montrer les plumes de sa
queue aux autres grues inférieures en intelligence), avec
son cri vigilant de mélancolique sentinelle, pour repousser
l'ennemi commun, elle vire avec flexibilité la pointe de
la figure géométrique (c'est peut-être un triangle, mais on
ne voit pas le troisième côté que forment dans l'espace ces
curieux oiseaux de passage), soit à bâbord, soit à tribord,
comme un habile capitaine; et, manoeuvrant avec des ailes
qui ne paraissent pas plus grandes que celles d'un moineau,
parce qu'elle n'est pas bête, elle prend ainsi un autre
chemin philosophique et plus sûr.
"

Canto 1, Estrofe 1 dos Cantos de Maldoror. Isidore o apaziguador.

Arabescos, alfabeto, vida

Quem desdenha o arabesco não percebeu o papel fundamental que a linha curva tem no desenho do alfabeto.

Isto é, na vida.

Cruzes, rectas

Ainda sobre linhas direitas: uma cruz é feita de rectas.

Rectas

Uma linha recta só é o caminho mais curto entre dois pontos para os geómetras e para quem não vive neste planeta.

Sensatez e imaginação

É relativamente simples e sensato, tão simples e sensato como ensinar um canguru a comer sentado à mesa, de garfo e faça e esperar que ele aprenda.

Não aprenderá nunca, estúpido. Melhor deixá-lo correr e saltar pelos campos fora; não sabe fazer outra coisa.

Sabe: imaginar que um dia se sentará à mesa e comerá de garfo e faca.

25.9.16

Teologia contemporânea

Não percebo rigorosamente nada de teologia mas gosto dos nomes de alguns dos seus constituintes: Angelologia; Soteriologia; Hamartiologia; Demonologia.

Sobretudo porque o grande demónio dos nossos tempos - o "neo-liberalismo" (entre aspas porque metade dos que o invocam não sabem o que é) poderia muito bem começar a integrar o corpus dessas disciplinas:

Hamartiologia - estudo do pecado (ou, para os diferentes teísmos actuais: estudo do "neo-liberalismo"). Angelologia: estudo dos anjos (isto é, de quem não é "neo-liberal"). Soteriologia: estudo da salvação (identificar e denunciar o "neo-liberalismo"). Demonologia: vê-se à légua.

23.9.16

Rades, golfos e tempo

Um gajo está a entrar na rade de Hyères. Está frio, se bem não muito. Vai a motor porque o vento é pouco e de proa. As luzes da costa fazem-no pensar na saída do golfo de Salonica, tão linda e tão mais fria, há oito meses precisamente.

Isto é um bocado como estar a jantar e a pensar no almoço de ontem, só que o mar comprime o tempo.

20.9.16

Segundo lugar

As vezes ganha-se; outras fica-se em segundo lugar, ou terceiro, quarto... por aí fora.

E outras ainda não se fica em lugar nenhum: numa das primeiras America's Cup - ganha como todas até 1983 pelos Estados Unidos - um Almirante disse desolado à Rainha Vitória "Ganharam os americanos, Majestade". A Rainha perguntou "Quem ficou em segundo lugar?" O senhor respondeu "Nesta regata não há segundo lugar, Majestade".

Não é só na America's Cup que não há segundo lugar, claro. Mas não é por isso que a dor é menor.

19.9.16

Retroacções

Um gajo tem uma manhã  miserável. Passo os pormenores. Basta saber isto. A certa altura dessa manhã vai aos correios buscar livros que põe na mochila (a Vitus Turbo não tem nem nunca terá cesto). Noutra altura, diferente, dessa manhã - que já não o é, é tarde - vai almoçar. Não há alheiras nem favas nem bacalhau à Brás nem nada do que pede. Resigna-se ao bife, esperando o pior.

(O pior chegará: o bife estava uma merda do princípio ao fim).

Mas antes de o bife chegar um gajo abre um dos livos que foi buscar aos correios. É uma antologia de poemas de Blake.

O bife não estava uma merda. A manhã não foi miserável.

Irritação

Era bonita. Rosto juvenil, sardento. Tinha cinquenta anos mas vista de cima parecia ter vinte. De pé dava-se-lhe a idade correcta e dizia-se "está bem conservada" enquanto se acenava aprovadoramente com a cabeça.  "Se" eram sobretudo - mas não exclusivamente, longe disso - os meus colegas de equipa  (eu era jogador de futebol, nessa altura). Encontrámo-nos na Tailândia: tínhamos sido convidados para uma série de jogos amicais com clubes de vários países asiáticos. Nesse ano Portugal tinha ganho o Mundial e nenhuma equipa portuguesa escapava aos mais variados convites. Éramos olhados como semi-deuses, apesar de não passarmos de uma obscura colectividade local da terceira divisão.

Eu tinha vinte anos - era um bocadinho mais novo do que o filho dela - mas fui adoptado inicialmente como amante. Mais tarde passei a namorado, depois a namorado "oficial".

Um dia acordámos - estávamos juntos havia dois anos - e disse-me "tu irritas-me". Fizemos amor, como todas as manhãs. Tinha um orgasmo bonito. Rejuvenescia. Parecia ter vinte anos.

Fomos tomar o pequeno-almoço. "Tens de te ir embora". Olhou-me bem nos olhos e continuou: "agora, por favor".

18.9.16

O que não disseste

Enfim. Verdade seja dita: se tu sabes que uma palavra muda o mundo e se não queres sequer mudar nem o nome da tua rua mais vale ficares calado, não vá isto mudar tudo de supetão só por causa da palavra que disseste.

Se bem quantas vezes a que não dizes também. 

17.9.16

Imagina

É preciso imaginar um corpo leve, fluído em cima ou por baixo de ti, pouco importa para o objectivo: imaginar. Imaginar um corpo: ventre, mamas, olhos, uma cabeleira loura ou ruiva, lábios (é um corpo labirintico), mãos. Concentra-te nas mãos, no ventre. Tu estás nele e elas em ti. Imagina. Talvez a cabeleira seja morena. Equivalem-se os cabelos, as mãos, as mamas, os ventres. Tudo o que vês se equivale.

A diferença está no que ouves, as time goes by.

Como o tempo passa. Some day my prince will come. O que ouves mistura-se com o que queres ouvir, a kiss is just a kiss. Ne me quitte pas, je t'amenerai à l'ile de Ré, dis, quand reviendras-tu? Take five stolen moments why am I so black and blue no porto de Amsterdão?

A rapariga não canta tão bem como pensa que canta mas não faz mal. Um piano bem tocado paga tudo. Apaga tudo. Imagina, como dizia o outro.

Se não rebento

Quero dizer. Isto é : não sei se quero. Tenho. Tenho de dizer. É preciso dizer que. Um piano bem tocado é uma porta, ponte, espada (como em "não morras já / que tenho uma espada /que mata com mais amor" - Ou isto ou quase isto). Um piano bem tocado acompanhado por uma bateria e uma guitarra-baixo. Uma ponte uma porta uma porra. Uma porra, este enchimento de merdas que vêm do piano bem tocado. Enche-me o peito e a mona, uma merda sou eu que vos digo. Não as palavras. Eu. O pianista chama-se Emílio Robalo. Os outros não sei. Não ouvi. Isto é. Podia ter ouvido mas não ouvi. É o piano muito fluído, subtil, fode fininho mas no bom sentido, quero dizer. Não quero. Tenho.

Tudo isto na Fábrica do Braço de Prata. Sou o único velho gordo careca surdo e feio e as miúdas giras são aos montes, quase todas e a música é boa, muito boa. Há bocadinho tocaram um tema do Chick Corea, imagine-se. O sacana do Robalo toca bem, muito concentrado, muito pince sans rire, como se não fosse nada com ele, estivesse ali por acaso, "aprendi a tocar piano ontem, deixam-me tocar um bocadinho por favor?"

Vai muito bem com a sala, cheia de livros (alguns baratos) e com o Bayley's com Jameson que bebo e agora vem o Georgia, entrou uma cantora seja Deus (com maiúscula) louvado. Tenho de dizer.

Se não rebento.

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 17-09-2016

Para já é preciso começar por dizer que o balcão da Portugália está cheio, o que é bom. E continuar não ignorando o facto de que noventa e nove vírgula nove por cento dos clientes são iguais a mim: velhos gordos e feios (e agora a única senhora vai-se embora, pelo que a percentagem de velhos gordos sobe para cem por cento).

Quase. Há mais duas. Não importa. Importante é reconhecer que a imperial está muito boa, sinal seguro de forte tiragem.

Sinal igualmente seguro de um bom fim de bom sábado,  coincidência feliz s'il en est, como diria o Asterix se por aqui andasse.

Não anda. Só potenciais Obelixes, grupo do qual me excluo desde já porque não sei caçar javalis, apesar se ser animal que muito aprecio no prato.

E já passei uma noite a caçá-los, pendurado numa árvore na Haute Savoie numa noite de inverno. Apanhei uma valente e memorável bebedeira, vá lá. Não perdi tudo. No dia seguinte a neve por baixo da árvore onde eu tinha passado a noite estava cheia de pegadas de javali.

A aguardente caseira - e excepcionalmente boa - é uma grande aliada dos gajos que são contra a caça. PAN, aqui fica a ideia: obrigar cada caçador a levar um litro de aguardente caseira  (se for francesa chama-se marc).

Morreriam talvez meia dúzia de caçadores mas salvar-se-iam dezenas de animais.

........
Bom, resta que um chilli con carne sem chillies - nem um pimento levou! - não é bem bem um chilli con carne. Mas tão pouco é um guisado. Fica assim a meio caminho e aposto que há muitos soi disant chillies (estou com a cabeca na Savóia, é assim que se diz Savoie?)

Foi o almoço de hoje é vai fazer parte da ementa fixa da Carta, uma porta que se abre e tem uma vista soberba para o futuro. Em breve num Santos perto de si.

........
E disto depois e de tudo ficam milhares de coisas por dizer: não serei eu quem as dirá. Elas que se digam a si próprias que já são grandes. Nada posso se não correr atrás delas (as coisas por dizer) e pedir-lhes que fiquem um bocado mais, não se zanguem comigo. Ou então mandá-las para o raio que as parta. É o que merecem, as coisas por dizer aqui entre nós seja dito.

Quase retrato - nascença

Quando veio ao mundo em vez de chorar gritou "eu não sou dos vossos!" e assim não foi.

A bicyclette

Hoje fui a Alfragide na minha bicicleta Vitus Turbo (não é alcunha mas podia ser).

Se o Buda tivesse uma Vitus o conceito de desapego não existiria.

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Para além das teológicas andar de bicicleta tem vantagens noutras áreas. Oníricas, por exemplo. Hoje vi dois polícias em frente de uma embaixada. No passeio alguns vinte automóveis em dupla fila. Automóveis em dupla fila num passeio (parece que é habitual naquela avenida. Por causa de um colégio e de embaixadas).

Sonho com um mundo sem espaço para peões, carrinhos ou cadeiras de todas. Um mundo motorizado. "Vamos dar uma volta a pé?" "A pé??? Estás louco? Vai buscar o Mercedes. Ontem fomos no Audi. E na volta deixas-me no ginásio".

.........
Outra grande vantagem da bicicleta: faz-nos tomar contacto com os automobilistas - são muitos mais do que se deduziria pela mera observação das nossas ruas - que não passam com sinais encarnados, não entopem cruzamentos, não estacionam em cima de passeios ou de passadeiras. Enfim, automobilistas que cumprem escrupulosamente todas as regras de trânsito e de civismo.

São imensos, muitos. Mal nos vêem a andar em contra-mão ou a passar uma passadeira sem desmontar ou a fazer qualquer destas coisas eles manifestam-se. Eles cumprem escrupulosamente todas as regras e nós, ciclistas anarquicos não? Vá de se darem a conhecer, civil e educadamente com uma buzinadela, um grito ou um gesto.

Pena é não haver mais desses automobilistas, cumpridores e educados.

16.9.16

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 16-09-2016

Dias cheios, cheiíssimos, que a falta de computador e de vontade de escrever no telefone esvaziam.

Como se não se tivesse passado nada, como se um dia este futuro que nestes dias se constrói, define, toma forma cores e cheiros vá parecer ter nascido do nada.

Dias de laudas à vida e a Lisboa, terra mãe, madrasta, amante, puta que se deixa foder com prazer, mulher que fode com mais sentimentos do que técnica.

Dias entrecortados por uma breve viagem ao Porto, cada vez mais bonito e vivo; e uma passagem nauseante em Obidos, felizmente breve e de raspão. Gosto do turismo mas detesto turistas.

Cada vez suporto menos tudo e todos os que estão longe de mim, ainda que ao lado. E gosto mais de quem está perto, mesmo que longe.

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Acabo Alentejo Prometido, de Henrique Raposo. O único defeito que lhe vejo é o malfadado acordo: não há direito de se estragar uma prosa tão bonita, limpa e escorreita com aquele crime ortográfico. De resto o livro é esplêndido. Procuro as causas do alarido que provocou e não as encontro. Espero que quem protestou contra aquele retrato corajoso, bem focado, informativo e desapaixonado esteja agora a roer-se de vergonha. Não está, de certeza. Só a inteligência se arrepende. A estupidez nunca o faz.

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Amanhã vou buscar o computador. A vida reatará o seu curso, como se as comportas da barragem deixassem passar palavras e não horas (ou minutos, que os não há de mais vazios).

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O nosso governo encadeia disparates uns atrás dos outros, como um epiléptico a tentar comer a sopa durante um ataque da doença. Aquilo é incontrolável. Tento não falar de política neste coitado deste blog, já tão massacrado pelas faltas de jeito e de interesse.

Mas o que este primeiro-ministro e respectivos acólitos fazem não releva apenas da política. É caso de perturbação mental; de tragédia, literatura ou - mais provavelmente - de circo.

Infelizmente na arena estamos nós e não os palhaços e malabaristas que nos e se governam. Em breve entrarão os leões em cena; os artistas estarão a salvo e nós na travessa que será servida aos bichos.

13.9.16

Prazeres, preços

De novo no comboio, desta vez para o Porto. Vou guiar a visita de inspecção de uns operadores canadianos. Preciso de aprender coisas sobre a cidade mas não consigo largar a biografia de O'Neill que A., a autora me ofereceu ontem.

O prazer de ler é um dos mais caros que conheço. Se não o mais caro.

Imagina

Grande noite de Beckett ontem no Povo. O prazer do texto espraiado pelo prazer de ler mai-lo de dizer.

"imagine si ceci
un jour ceci
un beau jour
imagine
si un jour
un beau jour ceci 
cessait 
imagine"

Imagina. 

11.9.16

Tudo se paga

Sei, juro que sei: tudo isto se paga. A felicidade, a harmonia, a fluidez têm um preço. Tudo corre bem em todas as frentes, tirando uma ou duas e não são as mais preocupantes. Tudo se paga, tudo tem um preço.

Mas num canto recôndito de mim acredito que paguei adiantado e agora estou apenas a receber a mercadoria. 

10.9.16

Nicles, emoção

Imagine o leitor (o género é específico) que se apaixona por uma jovem senhora - as senhoras são sempre jovens; há mulheres que não são jovens e jovens que não são senhoras, mas isso é outra história - e ela corresponde.

Não falo de um jovem senhora qualquer. Falo da mulher da sua vida, para usar o cliché, inexacto como todos os clichés e igualmente confortável. Ela corresponde (por vezes acontece).

O leitor prepara-se para a noite inaugural: lava os dentes pela primeira vez nessa semana, repara nas nódoas da camisa e muda-a, lamenta não ter tido tempo de comprar a água de Colónia que por azar acabou o ano passado. Essas coisas que todos os homens fazem perante a feliz conjunção de senhora da vida deles e primeira noite.

E nicles. Nicles oberlix. Nada. Niente. Zero. O bispo recusa-se à missa, o palhaço ao circo - dê-lhe o leitor o nome que der, o resultado é o mesmo: uma enorme, esmagadora mistura de embaraço e frustração -.

(Há quem diga que essas coisas acontecem mais frequentemente quando o amor é verdadeiro e nós homens estamos subjugados pela emoção. É uma tese que eu partilho, apesar de não ter tido verdadeiros amores em quantidade suficiente para a legitimar).

Pois bem: ontem aconteceu-me uma coisa muito semelhante mas com um jantar. Não estava propriamente horrível. Estava só uma porcaria. E logo não para uma mas para as duas senhoras da minha vida (a que aí vem). Há tanto tempo que não falhava um cozinhado que já nem me lembrava como é - uma enorme mistura de embaraço e frustração -.

Espero que elas acreditem naquela coisa da emoção e tal. 

8.9.16

À espera dos livros

Não sei há quantos anos vivo sem os meus livros. Creio que dez. Não aguento nem mais um dia.

7.9.16

Celan, com certeza.

"Vive as vidas, vive-as todas
Mantendo os sonhos separados,
Vê, eu subo, vê, eu caio,
Sou outro e não sou outro."

In A morte é uma flor. A tradução é minha, por assim dizer.  

Pública?

Chamar humorista a Bruno Nogueira é como chamar orgíaco ao Papa.

Essa coisa (pelo menos em termos de humor. Pessoalmente até pode ser um porreiraço. Não sei. Não o conheço) foi aparentemente contratada pela estação de televisão pública. Confesso que não percebo por que raio de carga de água aquela estação não é privatizada, como visivelmente os que lá trabalham pensam que devia ser.

Ser, dar

1

Em caso de dúvida começa-se pela metafísica. Ontologia. Quem sou eu e para que sirvo? De onde vem esta dúvida que me define e aprisiona há tantos anos? Porque hesito entre a cerveja e o vinho? Um papagaio sente o mesmo que eu face ao vazio dos dias? Vai chover amanhã?

A vantagem da ontologia é esta: saímos rapidamente dos limites estreitos do ser e acaba-se na meteorologia. Isto se o jantar tiver sido bom: não há ser que resista a um bacalhau insonso, por exemplo. Nem chuva que não seja agradável se ao lado do nosso um outro ser- feminino no meu caso, mas isto é uma escolha pessoal (diria fisiológica mais do que ontológica) - um outro ser.

Deixa-me dizer-te que de Heidegger não percebo nada. Nada. Mas percebo de olhar para a Lua nas sizígias, esperar pela chuva, descobrir num corpo o que nele leva à alma.

"Há uma ferida em todas as coisas. É por aí que a luz entra", canta esse grande especialista em feridas. Também percebo de feridas. Estou coberto delas, da cabeça aos pés. Sou uma ferida ambulante. A chuva, a Lua, o mar e o vento, seu irmão gémeo, o vinho e o rum não mas curam mas lavam-mas.


2

O processo é antigo e conhecido: estende uma mão. Estende-a de novo. Estende-a outra vez e outra e outra e outra. Estende-a sempre. Chegarás aos limites do universo, que são aproximadamente os teus. És o mundo e é nele que recebes o corpo que te apazigua ou faz sofrer. Nele se instalarão a presença ou a ausência.  És o mundo; és o que és, o que serás e foste. Tens o tempo contigo. Estende a mão: é nela que virá a resposta.

Olha para fora, para amanhã,  para o dia que nasce. Lembra-te: és uma dúvida, um soluço do tempo. É tudo o que és, o mundo.

Nada és, mas sem ti nada é. Estende o braço. Dá-lhe a mão.

Dá-te. És o que dás, não o que recebes ou pensas, sonhas, fazes.

Dá-te inteiro, como és, todo de uma vez, sempre e para sempre. Não há fracções de mundo: não há partes de ti. "És todo em cada coisa". Dá-te como és.

Nada sobrará de ti se não o que de ti deste.


(Para a H., filha e ilha)

6.9.16

Marinadas - carne

Digam o que disserem, a mistura de vinho tinto, mostarda, sal, pimenta, orégãos em quantidade que alguns considerariam excessiva (isto caso houvesse alguns a ver) e para mim não o é de todo, rosmaninho e alho picado continua a ser uma grande mistura para se cozinhar carne. Sobretudo se antes serviu também de marinada.

5.9.16

Sabonetes humanistas

Alguém vende sabonetes (ou outra coisa qualquer, não me lembro) na net. Uma parte dos lucros vai para ajudar crianças no Quénia.

Não percebo porque escolhem crianças num país africano e não ciclistas no nosso. Eu por exemplo preciso absolutamente de uma bicicleta de cidade (tenho uma de estrada minha e outra de montanha emprestada, mas de cidade até agora nada).

Caros clientes dos sabonetes em questão  (não recordo a marca mas não tarda): por favor canalizem a vossa ajuda para um desgraçado ciclista português dos quatro costados. Com quinhentos sabonetes a ginga é minha. Ou mil, vá.  Não custa nada. Deixem as crianças queniamas para depois. Aquilo no Quénia é um calor desgraçado  (eu sei porquê já lá estive). E a insegurança é tal que não dar para andar de bicicleta na rua. 

Tu, vida, sesta

Desnudo-me perante a sesta como perante ti. Perante ti e a sesta, conjugação perfeita de duas perfeições. Perante ti só: nu imóvel me quedo perante a vida.

Palavras, rios

São palavras simples, coitadas. Mas dentro delas corre um rio, brilha um sol, levanta-se a Lua prenhe e vermelha, saciada.

Abismologia

Antes cair de um abismo do que trepar uma colina.

(Melhor ainda é conquistar o abismo, claro. Mas isso é outra histórica, como diz o meu telefone).

4.9.16

Ele há frangas

Os frangos (ou mais quase de certeza frangas) marinaram numa mistura de azeite, sumo de limão, vinagre balsâmico  (pouco), gengibre, pimento, alho, cominho e coentros moídos,  pimenta e sal, paprika, curcuma e alecrim.

Depois foram a grelhar e gostaram. As pessoas, quero dizer. As frangas essas adoraram.

Ontem. Hoje pu-las numa panela com cebola picada e lume muito baixo. Depois acrescentei coentros frescos picados com alho e vinho tinto. As pessoas eram outras, mas também gostaram.

Das frangas nem falo. Haverá uma que resista a quem gosta delas?

Metamorfoses

Preocupa-me muito a imagem que os outros fazem de mim. A percepção de terceiros. Os outros são importantes. Jorge Luís Borges, por exemplo, que está para os outros como o Sol para um dos satélites de Plutão dizia "todos acabamos por nos tornarmos na imagem que os outros fazem de nós" (cito de memória, que está cada vez mais como sempre foi).

É por isso que acho importante dar uma boa imagem de mim: quero transformar-me nela.

Luz, tristeza

Um farol irregular mas que nunca pára: por vezes deixa-nos longos períodos na escuridão mas não se perde pela espera: mais tarde ou mais cedo vem e varre-nos a felicidade da alma como agora varri as cinzas da varanda ou as migalhas de cima da mesa: com energia e sem discussão.

A tristeza é a luz: sem ela não se vê um palmo à frente do nariz.

Fractal fatal

É uma simples questão de arquitectura,  percebes? Não? Refiro-me aos sentimentos. Onde pôr este amor? E esta amizade? Separo-os com uma parede ou um corredor? Onde preferes a dor? Que achas de colar o medo ao amor, com um balcão e meia dúzia de bancos daqueles de bar, altos? Assim habitamos um e temos o outro debaixo de olho. Talvez não seja má ideia, mas onde dormimos - no lado do amor ou no do medo - ? E que achas de pôr a dúvida no centro, com uma saída para o alívio? O desespero? Esse põe-o num canto escondido, que se lixe.

Arquitectura, digo-te eu. Esta merda é um labirinto e um lego juntos. Perdes-te no labirinto, as peças  de lego não encaixam umas nas outras e os quartos são uma confusão, uma desordem.

Esquece a simetria. Faz de conta que acreditas na ordem e entendes a sua ausência.

Como se do átomo de um piscar de olho ao universo de uma vida partilhada tudo não fosse se não uma questão de escala; como se o amor, a amizade, a esperança e a dor e o resto fossem partes de um fractal.

Na verdade são. Chama-se vida. A dor de hoje é uma ínfima parte de toda a dor que já sentiste e vais sentir; como a alegria de ontem ou a felicidade de amanhã.  É um fractal.

Faz uma fogueira e põe-a no centro do teu sorriso, da tua casa, da tua vida. É nela que vais morrer e é ela que te faz viver. Pede ao arquitecto que de todas as divisões se veja o fogo; adormece como vives, ri como choras, sê feliz como sofres, espera como se houvesse lenha para a fogueira durar até ao infinito.

Um incêndio começa com uma fagulha, a mais frágil das luzes.

1.9.16

Definição - bicicletas

Uma bicicleta é um peão com rodas e não um veículo sem motor.

(À atenção de polícias e demais autoridades da via pública, automobilistas, ACP - são coisas diferentes - e taxistas - ditto -.)

31.8.16

Vida, paciência

Um dia, vai para mais de um ano um amigo perguntou-me: "Mas tu não tens medo do futuro?". Respondi-lhe "Não. "Tenho confiança em mim". Omiti a outra metade: "e na vida".

"Na vida" é pouco claro. É uma confusão, uma mistura incontrolável, uma mistela de meia tijela que transborda o tempo todo e foge em todas as direcções, uma sequência de tempestades entrecortada por breves períodos de bom tempo. "Tenho confiança em mim" deve ser lido como é: dito por um marinheiro. Ou seja: "Eu sei que uma tempestade é um milhão de vezes mais forte do que eu mas tenho confiança na minha capacidade para lhe fazer frente e ganhar. E se perder, olha... Paciência".

Diz criminalizar, diz.

Portugal conseguiu descriminalizar o uso de drogas, sejam elas leve ou pesadas e acho muito bem. É aliás tema de conversa e admiração por esse mundo fora. Pena que não se fale tanto de outras descriminalizações que o nosso bem-amado país fez com um sucesso indescritível, se bem mais escondido.

Falo, por exemplo, da descriminalização do estacionamento ilícito. Qualquer condutor sabe que pode deixar o automóvel em qualquer sítio - exceptuando, naturalmente, os que são inacessíveis ao veículo, como o topo das árvores e os corrimões das famosas escadinhas de Lisboa - sem que por isso seja punido. Ou da discriminalização do desrepeito pelos sinais de trãnsito: encarnado, verde ou laranja têm o mesmo valor operacional (ao contrário de outros países em que os condutores páram com os sinais vermelho ou laranja e avançam com o verde). Também se discriminalizou a condução na faixa da esquerda.

(Entretanto hoje ficou a saber-se que a Polícia Marítima, esse epítome da coragem, bravura e desprezo pela vida apreendeu duzentas e dez bolas de Berlim. Acho que as nossas autoridades deviam dar a conhecer estes feitos aos investidores que se inquietam com as constantes mudanças na legislação, por exemplo: contra as bolas de Berlim marchamos sem hesitar. Em defesa da saúde pública o nosso rumo é o mesmo. Ainda o ano passado, por exemplo, foram apreendidos cinco quilos de sardinhas a um senhor de setenta anos).

Adenda - hoje foi igualmente conhecido que os hospitais públicos devem uma fortuna aos fornecedores, mas impressionados com a nossa luta contra as bolas de Berlim e as sardinhas os investidores não atribuirão obviamente a isso grande importância. Eles compreenderão que saúde pública não se compadece com facilitismos.

A esperança do céptico

Quem espera desespera a menos que nada espere enquanto espera e aquilo por que espera valha todo o desespero do mundo.

Pôr a pata no pâté

Fiz recentemente dois pâtés e ficam as receitas ad memoriam (se alguém pensar que sou pedante não se engana redondamente).

Pâté de beringela:
  • Beringela grelhada (ou frita);
  • Hortelã-pimenta;
  • Gengibre;
  • Azeite;
  • Especiaria: coentros secos.
(Este é uma receita da T. P., a quem agradeço).

Pâté de cavala:
  • Cavala cozida (3 cavalas deram uma enormidade de pâté);
  • Pimento cru;
  • Coentro fresco;
  • Maionese (a receita habitual, com paprika, cominhos e pimenta);
  • Sumo de limão (o sumo de quase um limão sumarento);
  • Especiarias: paprika, cominhos, coentros secos, curcuma (merecia ter levado uma boa dose de piri-piri).

30.8.16

Noções básicas de gestão

Mais importante do que controlar os custos - mas igualmente difícil - é descontrolar os ganhos.

Hífen te

Andam por aí a rondar, em matilhas. Centenas ou milhares delas, vai saber. Não as vejo bem: estão longe, pouco claras, difusas nesta bruma matinal.

É o princípio do dia e as palavras cercam-nos. Aproximam-se devagar, timidamente. Depois fundem-se todas numa só.

É um verbo e com ele começo o dia. Hífen te.

29.8.16

Diário de Bordos - Lisboa, 29-08-2016

Vai-se Agosto embora a contra-gosto e eu gosto. Hei-de gostar de Agosto, é promessa, mas por agora gosto mais de o ver ir-se e chegar Setembro, "le mois le plus tendre", já o Nougaro o cantava e encantava na Ile de Ré a sua belle adorée.

Começou em Espanha, continuou em Portimão, passou por Aljezur, Odeceixe e Abrantes e acaba em Lisboa, devagar, não sei se por causa do calor se por amor.

Vai-se, é o que conta. E vem Setembro, mês de ternuras, novidades e aniversário.

........
Acabei Bartleby y Compañia, de Vila-Matas. Fez-me ver que estou em boas companhias, que estas minhas reticências não são únicas.

Antes pelo contrário. Podem ser até quase honoráveis, se vistas pelos olhos certos.

Mas vai-se Agosto, vem outra vida e é tempo de lhes pôr fim. Acabam as reticências e começam os pontos de exclamação. Os de interrogação, esses mantêm-se. "Hei-de morrer assim".

........
Apetece-me cobrir a vida de beijos.

27.8.16

Hegemonias

Por uma razão que desconheço a ideia - correcta de uma forma geral - de que a história é contada pelos vencedores não se aplica a Israel. A narrativa pró-palestiniana é hegemónica.

Objecção contra o turismo

A vulgaridade nacional chega. Ter que levar com a dos outros é um sacrifício dispensável.

O que teria podido ser

Que teria sido de mim se não fosse eu?

26.8.16

Algumas noções de gramática

Marinheiro sem ter onde cair morto é o maior oxímoro da língua portuguesa.

23.8.16

A brincar

"Sou ambiciosa", diz-me S. "Portugal não é um bom país para se ser ambicioso", penso. "E menos ainda para se o dizer".

Mas é sem dúvida alguma o melhor país do mundo (ou pelo menos da parte dele que eu conheço) onde não se respeitar os códigos e normas sociais.

Com excepção da mesquinhez e da pequenez tudo neste país é uma aparência, não-dito, a brincar. Até a intolerância.

Considérations fumeuses

Há uma ética no bom gosto. Estética e ética andam juntas e não só graficamente. Apreciar o feio é imoral. A obscenidade é feia, tanto quanto a fealdade obscena.

21.8.16

Dúvidas, certezas

Que fica de um dia?

Passeio de bicicleta pelas margens do Tejo até Belém. A ideia era ir comer uma chamuça à D. Mónica, mas está fechada para férias. Comi num clube ao lado, mas não são a mesma coisa.

Um esplêndido almoço na Casa Museu Amália Rodrigues. Chamam brunch àquilo e eu não discuto a denominação. Brunch fica. Para mim é um almoço e dos bons.

Jam no Tati. Já por aqui falei milhares de vezes nas tardes de Domingo no café Tati, na qualidade da música do Gonçalo Marques, do esplêndido grupo de jovens que ele reuniu ao seu lado - prova, se necessário fosse, de que deve ser um professor competente -. Não tenho da música um abordagem técnica. Não sei distinguir um ré de um fá e reconheço o Parabéns a Você se estiver numa festa de anos; se não, tenho dúvidas. Quando eram mais novos os meus filhos pediam-me para não cantar nas festas de aniversário dos amigos. Crescendo, pediam-me para não cantar tout court. Abordo a música como aquele crítico inglês de vinhos dizia: "Um bom vinho é aquele que me faz dar um salto na cadeira". Para mim uma boa música - ou um bom músico - é aquele que me faz viajar até aos limites do universo e me arranca lágrimas de canyons que não sabia existirem em mim. Hoje coube a vez - pela surpresa - a um jovem baterista de boné revolucionário e pernas e braços finos como espinhas de um peixe frágil. Tinha um toque leve e aéreo, parecia que tocava com as penas de um pássaro.

Estas são as certezas. Não falo das dúvidas.

Que fica, de um dia? As certezas ou as dúvidas?

Pragas

Sou eu o único a pensar que o vegetarianismo se está a transformar numa praga?

Pequenos prazeres dominicais

Na série Coisas que dão prazer num Domingo de manhã: passo de bicicleta à frente de um restaurante e um dos empregados faz-me sinal com o braço para parar. Tinha sido ciclista dos "nove aos vinte e nove anos" e tivera duas Vitus. "Primeiro uma Vitus e depois uma Super Vitus".

Agora já não corre, mas ainda dá "umas voltinhas de vez em quando". Trocamos duas ou três amabilidades sobre o prazer do ciclismo. O senhor está visivelmente comovido. "Já não se fazem". Referia-se às Vitus e se calhar às pessoas que nelas tinham corrido.

Descobertas

Mais um blog de poesia: O Café dos Loucos.

Oiça um bom conselho, eu lhe dou de graça

Se não sabe o que fazer oiça Karen Dalton. Cura tudo, incluindo ataques súbitos e inexplicáveis de alegria.

Ou então faça uma pesquisa no Google como esta por exemplo.

20.8.16

Notas soltas - Uma tarde em Lisboa

Já passa das nove da noite e vejo uma fila de turistas para o Elevador de Santa Justa; à tarde tinha visto outra, tão grande ou maior para o 28.

Uma das vantagens do turismo - quiçá a que os portugueses mais deviam apreciar e à qual mais gratos deviam estar - é demonstrar-lhes que a imbecilidade não conhece fronteiras. "Lá fora" não merece a admiração que lhe tinham.

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Talvez não fosse má ideia os restaurantes de certas zonas de Lisboa terem cartazes à porta a dizer "Fala-se português".

Se bem muito provavelmente seria qualquer coisa como : "Falasse purtuguêz". Talvez os cartazes devessem dizer "Não ligue aos erros de português. Não sabemos escrevê-lo mas sabemos falá-lo. E de qualquer forma V. vem cá para comer, não é?"

É.

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Os automóveis que apitam e fazem sinais de luzes e se impressionam muito porque vou, por exemplo, em contramão nunca estacionaram mal? Nunca passaram com um sinal encarnado? Respeitam os limites de velocidade? Põem o pisca-pisca a cada mudança de faixa?

Espero bem que sim. Lisboa seria a cidade do mundo onde se conduz melhor.

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Nas cidades estrangeiras evito as zonas turísticas. Em Lisboa começarei em breve. Não que tenha seja o que for contra os turistas. Não tenho.

Acho simplesmente que se deve evitar o excesso de coisas boas.

19.8.16

Planos

Escrever, amar, ser amado e vender cafés para suportar tão vastos planos. O futuro afigura-se-me risonho.

18.8.16

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 18-08-2016

Saio de Portimão contente e grato. O hostel - Villarade, para quem estiver interessado - é excelente. A dona é uma rapariga nova, gira, simpática e instila naquilo um espírito de casa de férias mais do que hostel. Tenho alguma pena (podia ser muita mais, admito) das pessoas a quem incomodei por ressonar ou dormir nu. Só ressono quando bebo e só se vê que estou nu quando o lençol escorrega, duas circunstâncias cuja ocorrência simultânea é suficientemente rara para não me preocupar muito.

Conheci alguns restaurantes aos quais poderei voltar e não voltarei tão cedo a um que conhecia. Conheci o bar mais improvável de todos os bares improváveis nos quais já estive. Conheci ou reconheci um barman cuja nobreza e gentileza (as duas qualidades que constituem o profissionalismo de um barman) o levam para o pódio onde estão o Luís da Casa do Largo e outros que já aqui citei. Aborreci-me mortalmente durante os dias mas sobrevivi e não mandei o armador ou a pedante da mulher passear, irrefutável demonstração de que a civilização acaba por penetrar mesmo na mais troglodita das mentes, dado tempo suficiente. Enamorei-me e pela primeira vez em muitos anos tenho mais confiança nesse amor do que medo.

Escrevo num pequeno quiosque frente à estação que parece o cenário para uma versão portuguesa dos miseráveis. Talvez seja a isto que há tantos anos aspiro: ser feliz onde quer que esteja. Feliz não é o termo. É paz. Bonomia. Harmonia. Sintonia. Gratidão.

Não sei. É isso tudo junto.

Noites como esta

O Ricardo, poeta maior acha que não devemos falar dos sítios bons. Só dos maus, diz. A razão é óbvia.

Partilho a opinião mas não a prática: o Birimbar abre às quartas e sábados. Nos outros dias Portimão não existe.

Noites como esta

(Noites como esta: beber ti'punch feitos por mim enquanto oiço música demasiado boa para ser descrita.)

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A questão é passar os diferentes obstáculos,  físicos e mentais, para chegar aqui.

Um bar destes no meio de prédios, à frente da CGD. A avenida chama-se 25 de Abril. Isto ou alguém no-lo aconselha ou passamos ao largo.

O meu amigo Ricardo compreenderá: o DV é para eu me lembrar. Os conselhos são uma consequência perversa.

Birimbar, Av. 25 de Abril, Portimão. Isto chega. O resto é conversa.

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O sacana do percussionista é bom até na pandeireta.

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 18-08-2016

É Agosto e estou cansado; a noite merecia um sweater: está fresca, pelo menos na rua. É a última em Portimão. Resolvo descobrir um restaurante, já que daqui a pouco vou descobrir um bar. Não sei o que quero: "um restaurante que não conheço" é inoperacional, até para mim.

Acabo no Terezinha, recomendável ainda antes da segunda visita, que não sei quando será.

A espanhola da mesa ao lado é gira de cair; os carapaus estão excelentes; o preço quase me envergonha de tão decente. Já lhes perdi o hábito.

Portimão é uma cidade na qual é fácil perdermo-nos e regra geral desagradável. Hoje não me perdi. Encontrei.

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A cantora não tem mamas mas é muito mais sensual do que noventa e nove por cento das mamalhudas que conheço. Canta bem, se bem já tenha ouvido e convivido com quem cante melhor (ajuda à sensualidade).

Fazendo contas a noite é óptima: o sítio um achado, parece a sala de estar de um gajo que acabámos de conhecer na rua e se revela exímio guitarrista; a mulher gira e boa cantadeira; a escolha de músicas é assim assim: agora vem uma do Pichinguinha, numa gaja que olhando para ela ninguém diria que conhece mais do que Roberto Carlos ou aquele anão da mesma altura. Outras vezes é fado ou música de Cabo Verde (ela avisou: vai ser uma noite lusófona); a assembleia é digna, mais do que digna: não me sinto nem avô nem neto de ninguém.

A fazer uma apreciação técnica diria que o guitarrista  (e dono da casa) é o melhor. Mas isso seria um tecnicismo irrelevante, deslocado. O percussionista tão pouco é fraco, antes pelo contrário. É bom que se farta. É o baterista de um grupo chamado Trovante, de que nunca fui excessivamente fã mas tem muitos (fãs).

A música tem uma função nobre: tornar possíveis noites como esta. O resto é conversa de chacha.

(Noites como esta: uma cantora gira num bar improvável com um guitarrista óptimo e um percussionista idem a beber Bayley's, véspera de ida para Lisboa e de aliciantes aventuras, às portas de novos mundos e novas vidas).

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(Noites como esta: computador sem wifi. Há por aí muita gente a respirar de alívio. Isto de um gajo poder mandar e-mails quando lhe apetece (ou quando precisa) tem meia dúzia de espinhas. Ou uma dúzia.)

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(Noites como esta: ensino o jovem e stressado barman a fazer um ti'punch e arremato com a história do "Chacun  prépare sa mort". Só tem Bacardi branco, mas sabe-me como se estivesse no Comme à la Maison, no Marin e em vez de um jovem, magro e tenso barman tivesse aquela senhora minúscula, gordissima e descontraída cujo nome esqueci, lamentavelmente. Enchia-me os pratos com tanta comida que tinha de deitar metade fora, às escondidas dela.

Talvez o jovem barman pudesse inspirar-se no exemplo da senhora e encher-me os copos...?)

17.8.16

Fragmentos antigos

As equações do medo são complexas.

Grandes amores

Talvez sorte seja o nome que damos à intuição; ou intuição o que damos à sorte e sejam as duas a mesma coisa. Talvez até sejam duas coisas diferentes e tenha sido o acaso que desta vez as reuniu.

É possível: acaso, sorte e intuição. Todos os grandes amores começam a três.

"Quem é aquela sombra que caminha ao teu lado?"

(Para a R. P.)

16.8.16

Dilema

Vou ao Micha que é um dos piores bares do mundo mas fica ao lado do albergue ou ao Bacchus, um dos melhores e longe?

Micha. O excesso de coisas boas mata tanto ou mais do que a ausência delas.

Quanto custa ser imbecil?

Isto anima-me: estou sentado ao lado de um gajo que é simultaneamente imbecil e chato.

Estamos num restaurante em Ferragudo, ele na mesa com a família e eu ao lado, dois dedos a separar os nossos territórios.

Em dez minutos o homem largou outras tantas imbecilidades. O empregado de mesa aguentou estoicamente.

Ele não pode,  como eu escrever. Mas posso gritar, ironizar, ser sarcástico ou, em último caso, mudar de mesa. Não fiz nada disso. Calei-me e comi (corvina cozida. Duas postas por onze euros. Com o vinho e os extras o jantar não chegou a vinte paus.)

Não sei o preço das imbecilidades, mas acho que podem vir muitas.


Diário de Bordos - Ferragudo, Algarve, Portugal, 16-08-2016

Pergunto-me se não seria melhor vender o computador portátil e com o dinheiro comprar um telefone igualmente portátil  (ou mais) que não se avarie.

A pergunta é retórica  (ia dizer portátil), claro: os telefones avariam-se menos mas estão sempre debaixo de água ou sem bateria ou sem saldo.

Assim que chegar a Lisboa mando reparar o coiso. Já sei que me espera uma vida comum cheia de incompreensões mútuas. Isto não engana: ou vai bem de início ou nunca.

Paciência. Vou manter-me fiel à Asus. Depois se verá, como dizia o marido.

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Sublime fim de tarde em Ferragudo, com a Lua quase cheia, eu quase apaziguado numa tasca enquanto espero pela mesa no Velho Novo (ou Novo Velho? Não sei. É excelente! ) Estou no único café que vi até agora aqui no Algarve que não tem um único turista. Um, para amostra. Nicles. Zero. Pas un.

Não tenho nada contra os turistas, note-se, muito antes bem pelo contrário.

Mas um sítio assim faz-me sentir antes da guerra.

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Quinta-feira estou em Lisboa. Para compensar aceitei um pequeno trabalho em Inglaterra, dois ou três dias.

Os que não trabalhei aqui.

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Vou gostar de vir aqui no Inverno. É a diferença entre um sítio deserto e um outro abandonado.


15.8.16

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 15-08-2016

"Casa em que mulher manda até o galo canta fino", diz uma canção brasileira. Olhando para a superfície das coisas as interacções a bordo do S/Y B. confirmam inteiramente o dito brasileiro.

Como de costume a superfície das coisas é uma minúscula parte delas e não mais do que isso.

O problema não é quem manda. É alguém mandar. Que neste caso seja a mulher apenas ajuda à anedota e às ideias feitas, mas pouco muda o fundo da questão. Um casal em que um manda e o outro obedece não funciona. Excepto, claro, se um mandar a fingir e o outro fingir que obedece.

O fingimento funciona melhor do que a assimetria, vá lá saber-se porquê.

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Preços absurdos, serviço horrível e comida de merda.

A imagem que tinha do Algarve no Verão não se confirma sempre e em todos os pontos.

Há excepções: restaurantes caros com serviço mau e comida assim assim. Até já me aconteceu comer bem, imagine-se.

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Verdade seja dita: são raríssimos os restaurantes caros e bons que conheço. Tem de ser excepcionalmente bons para vencer a barreira do preço. Não por falta de experiência, mas por opção ideológica.

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Incomunicabilidade:

- Wi-Fi do computador avariado;
- Bateria do telefone descarregada;
- Canetas de tinta permanente sem tinta. (Este resolveu-se depressa: tinha o tinteiro no saco).

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A cara da miúda na mesa à frente da minha. Oval, cabelos pretos compridos a emoldurarem-na, boca pequena, nariz idem e rectilíneo. O tipo de cara que associamos às índias da América do Norte, por causa do cinema e da má consciência  (os índios eram bonitos e puros, etc.)

Olhos pequenos também e expressivos: quando sorri utiliza o rosto todo, que de repente deixa de ser pequeno.

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Já vi maus bares na vida. O Micha's na Praia da Rocha é tão mau que merece uma visita.

Afinal há quem vá ao jardim zoológico, não?

Noite

É da noite que devíamos falar. Da que não somos, da que queremos ser, da que um dia seremos e descobriremos que afinal não somos.

Saber a pouco

Devíamos, eu sei, entrar pela noite dentro como dois corpos que se procuram e encontram, duas quedas de água que se revoltam contra a gravidade. Nada disso: limitamo-nos a saber-nos.

Sabe a pouco. Sabemos a pouco.

Saber hífen te

Deixa-me dizer-te: o desejo aparece do nada. Um riso, uma vaga ligeiramente mais pequena do que a seguinte, um seio.

Saber-te é o rés-do-chão do desejo.

Corpo, abismo

Não é do corpo que tenho medo, é do abismo que fica para lá do corpo.

Procurar, encontrar

Um corpo é um corpo, pouco mais. Não é dos corpos que devemos ter medo, é do que está para além ou aquém deles. Um corpo não passa de um batido de morango ou um sumo de laranja natural.

É para além dos corpos que as cascatas se devem procurar. Ou antes deles, dir-me-ás, seios espetados e ventre plano.

(De ventres planos e seios espetados poderíamos discutir. Talvez um dia, quem sabe?)

Deixemo-nos de parênteses. (É um imperativo, caso não tenhas percebido). Do desejo pouco se pode dizer: um corpo é um corpo e não uma galáxia, excepto se tu ou eu o formos.

Galáxia é o que encontra quem procura, se souber procurar e encontrar. O que seremos, se nos soubermos procurar.

Agora, espaço

Está bem, eu sou a fonte. É de mim que tudo jorra. Ou em mim que tudo entra: quase a mesma coisa, entrar, sair.

Não te digo agora quanto te quero porque agora não tem espaço. Nem para entrar nem para sair.

14.8.16

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 14-08-2016 /II

Saí do Forte e Feio em estado de choque. Tentei atropelar pelo menos duzentas pessoas no caminho de regresso, mas lembrei-me a tempo de que:

a) As ciclovias em Portugal são feitas para as pessoas que não gostam de calçada - aparentemente a esmagadora maioria - e não para as bicicletas;
b) Se atropelar alguém magoo-me tanto ou mais do que o atropelado.

Ou seja: acabo no refúgio de sempre, o Bacchus Bar. O senhor Artur - já não tenho dúvidas de que ele é um senhor e era quem me fazia os cocktails há quarenta anos - quantificou, com a gentileza que lhe é inata e característica, o espólio do outro: "quatro ou cinco euros".

Por isso não vale a pena chatear-me e muito menos chocar-me.

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Enjoar é chic. Demonstra que não somos lobos nem somos do mar e sim seres urbanos, civilizados, adestrados que compraram um barco porque ter um barco é chic e enjoar é - a fortiori - ainda mais chic.

(O leitor atento terá descoberto aqui uma incongruência intra-textual. As pessoas chics não sabem o que a fortiori quer dizer e nunca utilizariam o termo. Pelo menos os meus BCBG. Talvez os de outros o conheçam. Não sei).

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Fui jantar ao Forte e Feio:

a) "As sardinhas hoje não estão aconselháveis". (Aqui comi as melhores sardinhas da minha vida. Aprecio a honestidade do grelhador);

b) "Meio frango" é uma anedota nouvelle cuisine. O frango era simultaneamente raquítico e anão. Um inteiro não teria alimentado uma adolescente anoréxica. Estava bom, muito bom, tão agradável à vista como ao paladar, apesar de a ambos ter parecido uma miragem;

c) As batatas fritas são uma merda. Raramente como batatas fritas (cf b) );

d) Nunca mais cá volto em Agosto, excepto se for Domingo e tiver pensado nele como sítio para levar uma jovem senhora cuja aprovação espero merecer.

De modo espero tranquilamente que a garrafa de vinho se acabe (costumam acabar-se sozinhas) para telefonar ao Bacchus e saber se está aberto.

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 14-08-2016

O italiano da cama de baixo foi-se embora. Falei com Vera, a jovem que toma conta do Albergue (ou será Pousada? Albergue dá assim um aspecto de beneficência; Pousada parece mais rico. Já a jovem senhora dá um aspecto de saúde, vigor e energia cujo nome agora me escapa). O homem estava convencido de que tinha reservado um quarto privado; não tinha. Daí provavelmente a cara de poucos amigos com que enfrentava o infortúnio.

Enfim, foi-se embora. Desconfio de homens velhos de rabo-de-cavalo e de jovens que não falam inglês, façam o que fizerem com o cabelo. Este não o tinha, de todo; e tão pouco falava uma palavra de inglês ou francês. Como é que se viaja sem falar pelo menos inglês? Eu tenho sorte, sei: posso viajar por parte do ocidente e falar a língua dos indígenas. A lingua franca serve no resto do mundo. Um gajo que não percebe nem se faz perceber tem de conviver com injustiças, naturalmente. Como darem-lhe um dormitório em vez de um quarto privado. E levar com um velho que quando está grosso ressona no beliche de cima.

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Ando em fase de sorte e os infortúnios são poucos, graças a deus. Por vezes lá me calha um ou outro, para não me esquecer. Mas nada que exija cara de poucos amigos e um diálogo matinal não cure.

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Soljenítsin tinha uma alegoria muito bonita no Arquipélago, creio. Ou no Denisovich: o que os animais recebiam de deus depois do nascimento. Tenho que reencontrá-la. Eu recebi mais do que a minha justa dose de muitas coisas; como contabilizar o que não me calhou no cesto? Também foi mais do que a justa quantidade de ausência.

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 13-08-2016

O ódio que o italiano da cama de baixo tem por mim é visível  ( e se calhar justificado, vá saber-se). É igualmente óbvio que eu não devo ser a única pessoa que ele odeia neste mundo.

Estou-me um pouco nas tintas. Isto é, os sofrimentos e raivas do senhor são-me profundamente indiferentes.

Interessam-me mais os meus e mesmo a esses atribuo pouco tempo e atenção. Suponho que seja da idade, não sei:  os meus sei que passam mais tarde ou mais cedo, depressa ou devagar, com ou sem cicatrizes. Como não venho de outro planeta e não sou um mutante o mesmo se deve passar com os dos outros.

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No meio disto tudo a boa notícia é que a Ménière está bastante mais fraquinha.

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Há uma pergunta que todas as pessoas com a capacidade de amar embrulhada na camada de cicatrizes que a minha tem se devem fazer.

No meu caso a resposta é sim.

13.8.16

Modos de dizer, modos de ser

Seja porque razão for sempre preferi as palavras pronunciadas de uma vez só a soletradas.

Quaisquer que elas sejam, as palavras.