1.3.20

Beatriz

A senhora chama-se Beatriz, anda pelos quarenta anos e tem uma daquelas caras difíceis de descrever ou qualificar. Não é feia nem bonita, é séria mas não banal, o olhar é vivo e prescrutador. A primeira coisa que me ocorre é: "esta mulher faz qualquer homem com quem esteja passar por um tipo sério, administrador de empresas ou alto funcionário público."

Logo a seguir entrou o tipo que estava com ela. É o maior bêbedo do bairro.

Vieram sentar-se à minha mesa, era a única que tinha lugares. Hoje tocava um pianista, um miúdo novo, vinte, vinte e poucos. O namorado, amante, amigo ou o que fosse bebia vodka atrás de vodka. A certa altura levantou-se, disse-nos adeus e foi-se embora.

Beatriz olhou para ele, depois para mim, encolheu os ombros e respondeu que ficava.

O pianista anunciou uma pausa.

- Quer um cigarro?
- Sim, obrigado.

Levantámo-nos, fomos lá para fora, tirei o maço do bolso e estendi-lho.
- Obrigado. A música é triste, não acha? Como é que se chama? Eu sou Beatriz.

Acendi-lhe o cigarro e disse-lhe o meu nome.

- É como escrever cartas de amor sem ter a quem as enviar, não é? - continuou no mesmo tom desprendido, como se me estivesse a falar da mulher a dias ou do penteado da empregada na boutique onde comprara o tailleur que tinha vestido.

Mesclas de uma tarde de domingo

«Oh! Anda ver
uma bola de neve
a arder.»

Matsuo Bashò, Japão, in O Vinho e as Rosas, Antologia de poemas sobre a embriaguês, org. de Jorge Sousa Braga, ed. Assírio & Alvim, Lisboa 1995.

«Embora não tenham limites as minhas conquistas
Para mim há apenas uma cidade
E nessa cidade um palácio
E nesse palácio um quarto
E nesse quarto uma cama
E nessa cama uma mulher
Adormecida
A jóia mais valiosa
de toda a minha coroa.»

Anónimo, Índia, idem

«Embora tenha o Sol para me alumiar
e a Lua e as estrelas depois do Sol se pôr
sem a luz dos teus olhos negros
é sempre negra a noite em meu redor»

Bharthrarit, Índia, idem

«Ela:

O teu amor penetra o meu corpo
como o vinho a água
quando o vinho e a água se misturam»

Anónimo, Egipto, idem

Chata

Está na hora de dizer adeus à noite. O dia espera-me. Não percebo porque não me larga de mão, esta chata e não me deixa dormir em paz, é para isso que ela foi feita. 

Arcos, violinos e esquecimentos

É curioso como o mesmo arco e o mesmo violino tanto podem tocar um samba como um requiem. (Não faço a mais pequena ideia se um violino pode tocar samba, mas isto não é uma aula de música.)

Bolas, esqueci-me do que ia dizer. Mania dos parênteses...

29.2.20

Dores

O Voltarene 50 Rapide teve um efeito fulminante sobre a dor de garganta. Duas perguntas:
a) - Isto vai continuar ou não passa de um falso alarme? (Pelo sim, pelo não tomei outro, não vá o diabo tecê-las.)
b) - Há alguma coisa equivalente para dores difusas, utópicas (isto é, sem localização certa), indefiníveis, chatas, peganhentas e intermináveis? (É para um amigo.)

Semântica, modernismo e veterinária

Lamento imenso que tenham acabado com o Pssst nos cafés para chamar o criado.

Desde que estes passaram a empregados, tem de se usar verbos ou interjeições estúpidas para se lhes chamar a atenção, ou gesticular como um afogado, ou comprar um carregamento de paciência.

E tudo isto para quê? Alguém acredita seriamente que é preferível ser empregado de café a ser criado de café?

Que "olhe" é melhor do que pssst? As conotações saltam de palavra em palavra como as pulgas de cão para cão. 

28.2.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-02-2020

L. Cohen em círculo. Há doenças que valem mais pela cura do que por si próprias.

..........
Colheita do dia:

- Tetas? Falta-me paciência para as que me querem e jeito para as que não.

- O amor e o ódio não são simétricos. No outro, amamos os seus defeitos; e odiamos os nossos, que nele vemos plasmados.

- Dou-me bem com as imperfeições do mundo. [Um tempo.] É mentira. [Resposta:] «Claro que é mentira!»

.........
Jantar no O Taku. O sake é esplêndido e os gyozas aceitáveis mas cada vez suporto menos restaurantes de onde saio com a roupa a cheirar a comida. Estou a emburguesar-me, é o que é.

.........
Pela primeira vez regressei a Palma sem vontade e pela primeira vez estou impaciente, verdadeiramente impaciente por voltar a Portugal para a semana. Há pouco tempo (ontem) fiz uma comparação entre as cidades e as mulheres. Falsa comparação: a mulher é o mundo, não é como ele. Uma cidade, um barco, uma vida não são comparáveia a uma mulher porque não passam de diferentes formas dela.

Duvidam? Perguntem ao Leonard.

(E para outras coisas menores ao Gordon Lightfoot, If you could read my mind.)

..........
Por falar de quem tem respostas a perguntas que ninguém faz (porque já estão feitas há milhares de anos e não têm resposta): S. ofereceu-me uma versão do Divân, de Hafez. Há muito que o conheço apenas de fragmentos, de ouvir dizer, de passagem.

À Dieu ne plaise qu'à la saison de la rose je renonce au vin.
je me vante d'être raisonnable. Comment ferais-je cela?

Où est le ménestrel? Que toute ma récolte d'ascèse et de science,
Je la consacre au son du luth, à la voix de la flûte!

Mon coeur est maintenant saturé des bavardages de l'école.
Je suis quelque temps au service de l'Aimé et du vin.

(....)

Cette âme d'emprunt que l'Ami confiat à Háfez,
 Un jour je verrai Sa face et la Lui remettrai.

(Desculpem, não resisti à tentação de pôr sta última estrofe em negrito. É boa de mais.)

A tradução é de Charles Henri de Fouchecour, a edição iraniana e eu vou ler. Google garante-me que o senhor é um eminente orientalista e nada me resta senão acreditar.

..........
Segunda íamos levar o P. para Calanova, mas vai estar mau tempo. Vamos quarta, que é a porta ao lado. Não acreditem em nada do que digo. Um barco é infinitamente mais complexo do que uma mulher.

........
Fiz um pacto comigo próptio: não falar do P. Alguém alguma vez ouviu Sísifo falar da montanha, ou da pedra?

Frio, ausência

Tenho frio e refugio-me na pouca nudez que me resta de ti, na luz fraca, vacilante, frágil que recordo dos teus olhos, nas mãos com que hesitantemente me embalavas. Tenho frio e tê-lo-ei enquanto não me souber agasalhar da tua ausência. 

Curiosidades

Quando não sei se já tomei o comprimido ou não, não o tomo. Antes um a menos do que um a mais.

Já com as mulheres isso não funciona da mesma forma. Se não sei se vai funcionar, experimento. Antes perder do que não tentar.

Há aqui qualquer coisa que me escapa.

(Fico grato a quem não me diga "Uma mulher não é um comprimido.")

Vermelho e negro, dois.

A única maneira de gerir o vermelho e o negro é misturá-los.

27.2.20

Aos potenciais Ernestos

Beber ou escrever, há que escolher.

Interrogação pós-prandial

Dois anos em Palma, pelo menos ano e meio a ouvir falar dos Manos e só hoje aqui vim. De longe, de muito longe a melhor picanha que por esta dorida garganta me passou: quase crua por dentro, croustillante por fora, carne excelente (não tão boa como a de uma certa casa de hambúrgueres que conheço no Porto, mas isso é outra história).

Mas não é aí que o deságue pós-prandial me leva.

É: se leva tanto tempo conhecer uma cidade, quanto levará conhecer uma pessoa? Como se pode interromper uma relação antes de nada haver de novo no outro?

Quando deixa de haver algo de novo no outro?

(Adenda: o Manos é o único sitio de Palma onde recomendo hierbas mezcladas em vez de hierbas secas.

Não agradeçam. Eu sacrifico-me por vocês.)

O vermelho e o negro, versão doméstica

Para um estado de espírito como o de hoje (e não só): vinho tinto e carne quase crua.

Pelo menos, conseguiu finalmente fazer-me vir comer ao Manos, aparentemente o melhor restaurante de carne de Palma. Nunca cá vim porque está sempre a abarrotar, mas hoje a necessidade venceu e passei a reservar um lugar.

(Adenda: a picanha chegou. De Palma, só? Pelo menos pelo menos da galáxia.)

Indecisão

Não sei se hei-de conjugar o verbo suportar na sua forma reflexa, se na forma transitiva.

26.2.20

Desejos aparentemente simples

Desejos: ouvir a Lucia di Lammermoor, pensar e dormir, se possível por esta ordem. Dispenso súbitas vontades de escrever, espontâneas ou provocadas, impulsos para ir tratar da escultura de cera - ela que se amanhe -, aborrecimentos por não ter luz à cabeceira da cama - o candeeiro deu o berro - e outros factores atentatórios deste simples desideratum: ouvir, pensar e dormir.

Verdade seja dita que este pensar é múltiplo: inclui pensar-me, pensar o P.... Pensar-me também se divide em muitas partes. Nisto tudo, só dormir é simples. Tenho de investigar a história da Lucia, que desconheço de todo; e mesmo dormir tem que se lhe diga.

Nada é simples e tudo se complica, estúpido. Deixa o blogue.  

25.2.20

Pergunta derivada

Os ontens são pedras no caminho ou são degraus?

Neste último caso, sobem ou descem?

Pedras no caminho

Se a cada noite tropeçasses num dia só,  não seria grande o remoínho. Mas não: sais uma noite e tropeças em todos os dias, todos sem excepção, que viveste até ela.

...

Não te esqueças, não tropeces. Faz como se cada hoje que viveste não tivesse sido uma pedra inesperada no caminho. Finge que a previste e preparaste.

24.2.20

Lições de vida

Um dos múltiplos empregos estranhos (no sentido de pouco habituais, inesperados) que tive foi numa empresa que fazia limpezas, montagem e desmontagem de stands para o Salão do Automóvel de Genebra. A companhia tinha um código de conduta social bastante devoto e a maioria dos empregados permanentes era gajos acabados de sair da prisão ou que lá tinham passado uns tempos. Estávamos divididos em equipas, cada uma com quatro ou cinco pessoas. Eu era o único que na minha nunca tinha sido preso (enfim, se exceptuarmos uma noite em Lisboa e outra em Lausanne, ambas devidas ao excesso de líquidos e terminadas mal este se tornou imperceptível). O grupo era composto por presos "ligeiros" - gajos que tinham feito penas curtas, meia dúzia de meses, um ano - e por um pesado (a sua última estadia, como ele lhes chamava, tinha sido de seis anos). Era incontestavelmente o chefe do grupo, mesmo que eu ocupasse uma espécie de lugar honorífico. Não me lembro do nome do homem e tenho pena, mas vamos chamar-lhe Jean.

Gostava de mim (coisa que eu silenciosamente lhe agradecia todos os dias), era inteligente - os outros não eram - e ensinou-me uma data de truques. Por exemplo, onde nos devemos pôr quando carregamos a dois uma coisa pesada, consoante o trajecto sobe ou desce (lamento imenso ter esquecido este ensinamento, embora saiba que é fácil de recuperar).

Jean apercebeu-se de que todos os dias eu chegava ao trabalho com o Journal de Genève debaixo do braço. Era o jornal liberal, económico, intelectual de Genebra. (Desapareceu, claro, juntamente com os seus opostos ideológicos. A economia quando bate, bate a todos.)

Um dia - muito rápido, não chegou a uma semana - Jean aparece-me com o Journal de Genève e diz-me "toma, é para ti." Obviamente percebi logo que ele o tinha roubado da caissette, mas não disse nada. À terceira vez, contudo, não me retive.
- T'es con? Pourquoi tu fais ça?
- Tu t'en fous. Pas ton problème. T'en veux d'autres, de canards ?
- Non, laisse, c'est bon, merci. C'est le seul que je lis.

Uns dias mais tarde explicou-me:
- Il faut que je fasse un larcin chaque jour, sinon je be me sens pas bien. Ca me manque, c'est comme si je n'avais pas mangé.

Uma vez perguntei-lhe o que é que ele tinha feito para ter passado tanto tempo na prisão e ele respondeu-me, firmemente (mas não zangado): "Isso nunca se pergunta!"

Jean era boa pessoa. Sentia-me em confiança com ele, apesar de saber que se um dia ele a perdesse comigo eu teria de procurar outro emprego imediatamente.

Um dia contou-me que em Champ-Dollon (a prisão de Genebra: Jean referia-se às cidades pelo nome das respectivas prisões) tinha ajudado um outro preso, assediado pelo "mau" (o termo é meu. O dele seria "chefe", ou "boss" ou coisa que o valha) da ala onde estavam. Para lhe agradecer, o ajudado propôs-se fazer-lhe um broche todos os dias.

Jean recusou. Pediu outra coisa qualquer em troca - comida, cigarros, não me lembro.

«Não foi para ajudar o miúdo que fiz aquilo, percebes? É porque sou contra a violência e aquele gajo [o "mau"] estava a pedi-las.»

A transcrição não é literal, claro. Isto foi há muitos anos, muitas vidas. Mas nunca mais hei-de esquecer aquele grupo de ex-reclusos, que varriam cuidadosamente os contentores, despejavam o lixo religiosamente nos caixotes e se deixavam chefiar por um brutamontes que era contra a violência.

Imagens de e para sempre

S. na cama. Loira, grande e esbelta, interminável de alta, bonita, aberta e luminosa como uma pista de aterragem à noite.

23.2.20

Inferno

Há interstícios entre células, entre estrelas, em tudo o que lhe fica de permeio. Há um interstício entre a memória e a verdade, outro entre o desejo e o amor. Há espaços entre tudo e tudo. Esse espaço não tem nome. É o vazio, o nada, a vida, o que lhe quisermos chamar.

O único que tem nome é o espaço entre a minha e a tua pele. Chama-se inferno, porque não tem fim.

De ti

Tal como não há liberdade - há liberdades - não há solidão: há solidões. A solidão (como o amor, de resto) refere-se sempre a uma pessoa, um ser. Cada amor é diferente do outro, cada solidão é diferente da do lado. Hoje falo da solidão de ti. As outras podem esperar.

Espaços

As noites são feitas disto, desta mistura de palavras e do espaço entre elas. Esse espaço és tu.

Ausência

Noites assim: deslizo sobre as palavras como deslizaria sobre ti, se aqui estivesses. Deslizo sobre o tempo, a memória, a música de Cohen, os lugares, as peles. Penso na vasta estepe desta tarde, na vasta melancolia desta noite.

Penso nas vastidões todas que fazem uma vida, a maior das quais é a tua ausência.

Enigma

Há um enigma, só um: como é que um gajo tão frágil sobrviveu a isto tudo?

Gravidade, vontade?

Escorregas nessas telhas cobertas de neve. Está sol, o dia é claro e tu, nesse telhado, és um superhomem. Sabes que podes cair a qualquer momento e sabes que não vais cair  e que se caíres te agarrarás a um sonho, a um futuro, a uma mulher. Sabes que a tua vida é isso: um intervalo instável entre o poder e a queda, a força e a gravidade. Sempre foi, sempre será: vives num telhado cheio de neve do qual não cais porque não queres.

Uma vida entre a gravidade a a vontade, não é?

22.2.20

Avalanche

"Your pain is no credential here
it's just a shadow of my wounds."

Oiço Avalanche, outra vez. Deve ser a décima milionésima audição destas duas linhas fundamentais, básicas, basilares. Sofre o que quiseres sofrer: o teu sofrimento é a sombra do meu.

Acredita: a sombra das minhas feridas é infinda. Nunca lhe chegarás sequer às beiras.

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 22-02-2020

A gripe chegou à fase residual e nela se eterniza, como se eternizou quando era muito mais do que residual. Concentro nestes últimos dias o que queria fazer a estadia toda: ver amigos, família e descansar. E medir até que ponto nunca fui de lado nenhum. O meu país são dois filhos (e respectiva mãe, claro. Há coisas de que não nos separamos, laços impossíveis de desatar, mesmo que o quiséssemos). O resto não passa de uma vasta planície onde o que fiz se perde de vista - e onde tive sorte, é verdade. Pode perder-se tudo de vista menos a gratidão, o reconhecimento. Como se a solidão fosse um substracto, um alicerce, pilar invisível e pouco mais. Uma frase de S. Vicente de Paulo que ouvi há muito tempo dizia "Não sou daqui nem dali, mas de qualquer lugar onde Deus quer que eu esteja". Para mim, seria "Não sou daqui nem dali, mas de qualquer lugar onde a minha família esteja". Ao resto, só posso agradecer o acolhimento temporário, os coups de main (e em alguns casos, de pied).

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O Th. e a A. vêm cá jantar hoje. Uma das tais ilhotas de gratidão na estepe. O mérito é deles, muito mais do que meu.

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Peças de Lego espalhadas por uma vasta mesa, tão vasta que não lhe vemos os limites. Como saber o que alguém fará com elas? Como saber se esse alguém somos nós? Isto é, como ter a certeza de que somos nós e não esta mistura de nós, o tempo e os outros a que chamamos vida?

21.2.20

Pouco a pouco

Pouco a pouco, silenciosamente, pétala a pétala abrir-te-ei, minha querida, a porta da ternura. Numa bola de ópio, numa pedra de haxixe, numa taça de vinho verás que a minha única droga és tu.

20.2.20

Vitória, derrota

Ter a vitória desastrada é triste. Antes uma derrota airosa.

Instruções

Como é que se dá cabo de uma vida? É fácil: destrói-se um dia de cada vez. Nem é preciso tocar nos que já passaram: destruir sucessivamente cada dia de hoje chega para te tornar tão infeliz que nem todos os dias passados juntos te farão rir de novo.

Tarefa que exige vontade e método, essa de destruir os dias. Tens de os encher de uma mistura de fel, má-fé e inveja. Talvez nem seja inveja, no fundo talvez nem passe da simples vontade de infligir ao outro o teu mal-estar, o teu désarroi.

Mas antes de dar cabo da vida que tens, deves assegurar-te de que conseguiste a vida que sempre sonhaste ter. Se não, não tem piada. De que serviria destruires os dias que não quiseste?

19.2.20

O caldo enjoativo do tempo

É tão enjoativo, o caldo deste tempo... Cheio de boas vontades e basto em palermices, a combinação de que o inferno é feita. Ou uma delas, que infernos há muitos, como os chapéus. A bondade, meu Deus, a bondade. Vivemos asfixiados em tanta bondade.

Nunca no mundo houve tanta bondade e nunca tão enjoativo foi o caldo. Não ofendas as vogais, não ofendas as consoantes (excepto se forem mudas; essas podes mandá-las passear), cuida-te com as sílabas, com os ditongos, não digas nenhuma das palavras que consta do Índex. Mantém-te a par, não te deixes atrasar, olha que todos os dias uma nova às outras se junta.

Estão a construir um mundo melhor, dizem. Sempre mundo e prisão foram sinónimos, mas nunca tanto como agora.

17.2.20

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 17.02.2020

Estou a ficar relativamente farto desta merda deste gripe e hoje resolvi atacá-la de frente. Isto agora vai ser a case of do or die, como na canção. Comprei uma garrafa de rum HSE, nobre produto da Habitation St. Etienne. Cinquenta e cinco graus de bom gosto, tradição e gravitas. Se isto - misturado com chá, note-se, a cinquenta cinquenta - não tratar da saúde à gripe nada tratará.

Fui a França, não diria que de propósito - esse foi outro - mas com isto na lista. Como sempre, o velho fascínio pela França, aqui tão perto, ganhou-me. Isto deve ser um caso de estudo por este vasto mundo, eu é que não os conheço: o eléctrico agora passa a fronteira e chega ao centro de Annemasse, mas aquilo continua a ser um planeta diferente. Para além do rum, comprei manteiga salgada, almocei Oeufs Meurette, bebi um Marc de Bourgogne, comprei café de Sumatra a um terço do preço daqui e como prémio a mim mesmo trouxe xarope de curcuma (simples curiosidade, não me estou a render ao sabor do mês).

.........
Pergunta extemporânea: Torricelli descobriu o peso do ar. Será o peso do zeitgeist superior, inferior ou igual ao do ar?

16.2.20

Vidas

O título "O fim de uma gripe" foi precoce. Esta é das peganhentas, das que não larga facilmente de mão. A ver se é para amanhã, se posso voltar a ter sonhos menos aflitivos, menos tão próximo da realidade.

Amanhã vou a França pôr uma coisa no correio e fazer alguns telefonemas urgentes. Isto de o roaming ser de borla para os países da União Europeia paga-se mal se sai da "Europa".

Felizmente ela está aqui ao lado, no fim da linha do eléctrico. Estivesse o fim da gripe tão perto como está a França.

E como estão os meus filhos. Hoje vi os dois: o T. à tarde, a H. à noite. Vieram aqui a casa fazer o que tinham a fazer e depois foram às suas vidas e eu fico siderado a perguntar-me que raio terei feito da minha, para que isto me comova tanto?

15.2.20

O fim de uma gripe

A S. chegou e com ela os remédios: spray nasal, muitos comprimidos, supositório, tudo. Ela queria ser veterinária mas a meio resolveu mudar para psicologia. Comigo pode praticar as duas disciplinas. Tentei reclamar com o supositório - não sou contorcionista nem artista de cabaret - mas não serviu de nada.

Acho isto tudo um pouco patético. Um médico amigo meu dizia «quando tens uma gripe, há duas alternativas: ou tomas um monte de remédios, vais para a cama e ao fim de três ou quatro dias aquilo passa; ou não tomas remédios, vais para a cama e ao fim de três ao quatro dias aquilo passa.» Tomo-os na esperança de que pelo menos me sinta um pouco melhor.

Enfim, seja como for, quinze anos de vida comum ensinaram-me que não serve de nada contrariar S. quando toca a remédios; mesmo que quisesse, falta-me energia. Pode ser que amanhã esteja melhor. Será o quarto dia.

Reciprocidade onírica

Esta noite não sonhei com a Romy Schneider, nem com a Jacqueline Bisset, a Lauren Bacall ou - meu Deus - a Gene Tierney. Nada disso. Gosto de ser correspondido nos meus sonhos, de ser desafiado. A Bisset um dia disse-me: "que raio estás aí a fazer parado, homem? Anda embora." Isso sim, é um sonho. Elas que sonhem comigo, que eu sonho-as nesses sonhos.

(Amanhã estarei bom.)

Gripe de género

As mulheres gozam com a nossa reacção às gripes porque elas não as têm. As mulheres têm gripinhas, gripes cor-de-rosa e não esta mistura de gripe e peste bubónica que nos aflige.

14.2.20

Os cactos e as máquinas de lavar loiça

Prefiro lavar a loiça à mão, sobretudo naqueles jantares com muita gente, muitos pratos e muita loiça. As pessoas vão-se embora e um gajo vai para a  cozinha, começa a ordenar a loiça - pratos com pratos, copos com copos, panelas e frigideiras - tudo por por ordem crescente de sujidade -, talheres imediatamente para o lava-loiça, de onde só sairão por ocasião da primeira mudança de água. Depois começa-se: primeiro os copos, depois os pratos menos sujos, a seguir os mais. Chega-se a um ponto em que é preciso mudar a água. Fazem-se os talheres, enxaga-se tudo o que já está lavado e recomeça-se com o material mais pesado. Acaba-se com a bancada, o fogão, o próprio lava-loiças, o chão, se for caso disso.

É uma excelente transição da animação do jantar para a calma pós-prandial. Pensa-se no que foi - os mais saudosistas - no que aí vem - os futuristas - revive-se os bons momentos, é-se invadido por tudo o que se devia ter dito e não disse... Quem inventou a máquina de lavar a loiça fez um grande favor às donas de casa e às mulheres a dias, sem dúvida. No que me diz respeito, bem podia ter inventado outra coisa qualquer.

Excepto quando estou em casa sozinho e doente como um cacto em dia de chuva, claro. 

Apitos

Apita o fogão, apita o micro-ondas, apita o frigorífico (e guincha o porco-da-Índia, mas isso não tem nada a ver). Isto dentro de casa, que sai-se à rua e apita o carro se não puseres o cinto, apita o semáforo, apita o eléctrico apesar de estar a dois quilómetros de ti.

Tanta gente preocupada com o meu bem-estar, a minha segurança, a minha saúde... Fossem todos apitar para o raio que os partisse e não se perderia grande coisa.

Do avesso

A doença vira um gajo do avesso. As costuras belas e regulares mostram a sua natureza interior e parecem-se com cicatrizes mal tratadas; as costuras das bainhas, até ali invisíveis, ficam a ver-se (e não são nada bonitas); e por aí fora: a tosse é de tal forma que se não tenho cuidado qualquer dia apanho os pulmões no céu da boca, a hiper-sensibilidade faz-me pensar que dormir em cima de lixa deve ser mais agradável do que nos lençóis. Nada apetece - nem estar deitado, nem sentado, nem de pé. A cama fica por fazer, a loiça por lavar... As lides domésticas (pelo menos aquelas de que gosto. As outras que se lixem) revelam-nos a sua faceta sisifiana. Há dois dias que não faço a barba. A fome desaparece (nem tudo é mau, vá lá...)

Só quando se está doente se pode compreender os hipocondríacos.

13.2.20

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 13-02-2020

Isto é tudo muito bonito e tal até que o corpo se lembra de que sem ele a festa fica incompleta e hoje me pespegou uma gripe de caixão à cama.

Acho adequado e proporcional: ontem esvaziei uma magnum e meia garrafa de Haut Marbuzet 2014 (não estava sozinho mas os meus hóspedes delegaram em mim grande parte do trabalho insano que é extrair aquela quantidade de vinho das garrafas e metê-la na cabeça, via aparelho digestivo).

De modo estou na cama, à espera de que a gripe se esqueça do vinho. Abafa-te, avinha-te e abifa-te, comanda a sabedoria popular. Obedeçi, claro: sou rapazinho obediente.

O pior da gripe é a hipersensibilidade cutânea. Como se não bastasse a outra, a que me faz chorar por dá cá aquela palha ou comover-me com a beleza das mulheres de Genebra (para a qual contribuí honrosamente).

Verdade seja dita: não há estadia aqui que não inclua estes dois elementos, gripe e Haut Marbuzet. Esta continuidade é reconfortante. Tal como saber que sair daqui a pouco para assinar uns exemplares do livro e acabar o que ficou na garrafa não ajuda à gripe, nunca ajudou. Que se lixe. Há valores inconfrontáveis. A amizade e a gratidão aliadas podem mais do que um estúpido vírus que só acorda com o frio.

E frio está ele: a temperatura oscila entre os zero e os oito graus centígrados. Felizmente, a rede de transportes públicos de Genebra é boa e nunca se está muito tempo na rua. Pergunto-me se o nosso bem amado  presidente da Câmara não devia considerar uma visita rápida aqui, questão de perceber que é possível uma cidade organizar os seus transportes colectivos de modo a servir a população. (Farto de o saber está ele, claro. Só piora as coisas. Mas prefere gastar o dinheiro em idiotices circulares, aquela cabeça é um vazio redondo - pelo menos no que respeita à cidade. Ele deve governar-se bem.)

É preciso ser-se velho para apreciar a Suíça ao seu justo valor.

.........
O Avenida vai ser traduzido, graças à generosidade de Th. J. (não se limita aos bons vinhos). Não há-de um gajo andar por aí a espalhar lágrimas por tudo quanto é canto. Não há-de um gajo pensar que no jogo de Tetris não é só a sorte que decide? Há-de, claro, mas tem de resistir. Sorte, meu caro, sorte. Levou algum tempo, mas finalmente manifestou-se.

E ainda há quem não goste de pagar adiantado. 

12.2.20

Melancolia

Deve gerir-se a melancolia como se se estivesse a gerir a herança de uma tia da província de cuja existência estávamos pouco mais do que a par, o totomilhões ou algo do género: uma sorte merecida, por muita sorte que seja e discutível o merecimento.

Ou seja: nada como dilapidá-la o mais depressa possível, não vá ela fazer de nós homens ricos.

("Não se deve dizer mal dos ricos. Nunca se sabe o que pode acontecer-nos.")

Francophonies, francophilies, francofollies

La vie de couple a certains avantages et des désavantages certains, les premiers étant arrondis et les seconds pointus. Du moins d'un point de vue masculin...

Mesdames, mesdemoiselles - oserais-je ajouter Monsieurs? Après tout je suis à L'Ivresse - si vous voulez un mari, cherchez un marin. Avec nous vous aurez les avantages du mariage sans avoir à en subir les inconvénients.

Eutanásia (uma declaração)

Esta questão da eutanásia deixa-me relativamente indiferente, porque eu quero ser eutanasiado (ou assistido no suicídio ou outra coisa qualquer) quando e se o meu corpo ou a minha mente deixarem de funcionar de molde a permitir-me viver correctamente.

Por viver correctamente, entendo: não depender de terceiros, não ser obrigado a tomar medicamentos em excesso (este patamar é baixo. Os dois comprimidos diários que tomo para a diabetes já me parecem muitos), manter a capacidade de julgar e ser julgado. No dia em que isto deixar de acontecer, a minha vida acaba.

Se legal ou ilegalmente é-me tão indiferente que quase me faz rir.

11.2.20

Sorte

Há momentos assim em todas as vidas, suponho: um gajo tem de repente a impressão de que as peças de Tetris que andavam todas desencontradas se alinham e encaixam umas nas outras, como se Deus existisse, como se Deus tivesse de repente pensado "Porra, distraí-me deste tipo, tenho de lhe dar um jeito."

Há que resistir à tentação de crer que esse Deus és tu. Não és. Esse Deus tem um nome. Chama-se sorte.

10.2.20

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 10-02-2020

Dia quase perfeito, dividido em partes desiguais e na desordem entre o P., os miúdos (até quando lhes vou chamar miúdos?) e eu. A única coisa que faltou para que aquele estúpido advérbio não estivesse ali foi um pouco mais de repouso. O meu corpo está biológica, genética e ludicamente preparado para dormir a sesta. Sem ela, desequilibram-se o dia e ele.

Enfim, o mundo não acaba amanhã, graças a Deus. E eu tão pouco.

.........
Vejo com curiosidade que continuo a conhecer esta cidade, apesar de ter deixado de aqui viver vai para dezoito anos.

Nunca a deixei verdadeiramente, é o que isto quer dizer.

........
O chilli coze docemente, o caldo verde espera o momento de se tornar verde, os "convidados" estão quase a chegar. (As aspas servem para disfarçar a emoção.) S. está nas suas montanhas, tenho a casa para mim.

Um amor que evoluiu em amizade, como a tempestade em brisa, a noite em dia e este em noite, uma ressaca em memórias. Não sei quais serão as minhas últimas palavras, mas espero que sejam "Sorte" e "Obrigado".

9.2.20

Pontuação feita em casa

Chegas a mim à velocidade da luz: leio-te nas estrelas, ao luar desta Lua Cheia, encadeado pelo branco violento da página. Que me dizes que não pode ser dito? Que vês em mim que não pode ser visto? Qual dos silêncios queres que eu traduza para gestos, para um olhar, para um toque nessa pele tão branca? Suspeito desse branco: tu usa-lo para tapar as palavras que temes, as palavras que te fazem tremer. É um silêncio ruidoso...

(Esta frase leva ponto de interrogação em vez das reticências ponto de interrogação)

Não sei. Não sabemos. Temos de ser nós a construir a pontuação. Ponto de amor. Vírgula de dúvida. Ponto e vírgula de amor e dúvida. Dois pontos: dois amores ou um?

Sempre esta imagem da praia em cuja areia sabes que vais morrer; sempre estes ruídos de que não sabes a origem mas adivinhas o fim. Espraiado respiras, ouves, não falas, não vês. Não sabes se és visto. Talvez sejas. Talvez não. Ouves. Serás ouvido?

Quinta vida

Faz o que fizeres. Não te esqueças de o fazer bem feito. Tudo o que é feito ou é bem ou não é. Seja o que for. Só uma coisa é difícil fazer bem: ser amado. Deixar-se amar correctamente, sem assimetrizar. Ser amado tanto quanto amas. Como se sintonizasses um rádio nas ondas curtas: é aquele o ponto, o comprimento de onda, percebes tudo o que ela te diz, lá do seu lado da cortina. Leva muito tempo a aprender. Tens de começar por amar-te e só para isso já precisas de uma eternidade. Aceitar-te como és, antes de aceitares que alguém te queira como és. De nada serve fingir. Acertar contigo mesmo, coordenar-te, acordar contigo o que és. Como se a balança tivesse três pratos: dois para ti e um para ela. Depois quatro. E finalmente dois. O amor é uma balança de precisão. Chega um dia em que te descobres afinado, calibrado, equilibrado: estarás pronto para ser amado.

Uma vida, digo-te eu. Sei do que falo: oscilo entre a inquietante dúvida e a  certeza enganadora. O meu equilíbrio é instável. Estou desafinado. Olho com olhos de ver, mas não vejo com olhos de ser visto. Ainda não estou pronto para ser amado. Pelo menos, bem amado.

Já vou na quinta vida.

(Para a P. M.)

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 09-02-2020

Genebra. Amanhã, mais dois clássicos familiares: chilli con carne (o prato que a H. me pediu para a sua festa dos dezoito anos, já lá vão estamos à beira de dez anos) e caldo verde. Vou ao mercado de Plainpalais comprar as especiarias. Custam-me mais do que o jantar todo teria custado em Lisboa. A barreira dos preços leva sempre um momento a ser ultrapassada, de maneira vou ao stand dos portugueses beber uma Sagres e lembrar-me das bifanas. Eram sublimes e ainda o parecem, mas hoje quero usufruir do que Genebra tem de melhor: de Portugal ao Peru pode dar-se a volta ao alfabeto geográfico todo: Itália, Médio Oriente, Egipto, Oriente... Que festa para quem gosta de comer o mundo.

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Estava a ficar preocupado: dois dias seguidos de sol em Fevereiro? Frio, claro, mas luminoso, aquele azul pálido de que ao fim de uns anos de vida aqui se esquece o qualificafivo e fica simplesmente azul.

Mas hoje a meio do dia as nuvens voltaram e o velho cinzento de sempre retomou o seu lugar no céu. Vai chover a semana toda. Estatisticamente é pouco provável que volte a ver sol na semana que vou passar aqui. Em vez de me chatear, dou graças por estes dois dias.

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Venho à Brasserie Lipp beber um café. Tento não pensar-lhes no preço (passa-se com o café o que se passa com o vinho: não sei beber um número ímpar) e vejo uma mesa de tias - Champel? Cologny? - quase ao meu lado.

Não consigo impedir-me de me membrar, quanto - oh quanto - as da Versailles (e do resto de Portugal) me pareciam saídas da de um filme de Claude Chabrol. A imagem volta-me inexoravelmente ao espírito. O Maître d'O respira mais classe do que vinte burgessos de Cascais mai-los respectivos Porsches, Alfas, Hummers et al.

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Não tem nada a ver com dinheiro. Tem a ver com tempo. Ou com a interacção entre os dois.

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Da copa chega-me um animado diálogo em português. Não me apetece.

Nada me apetece senão ver os meus filhos e pôr o P. a funcionar.

Chega-me um "Foda-se!" aos ouvidos e acabo por pedir ao chefe de sala que mande calar os empregados da copa. É a primeira vez que faço isto. Pergunto-me se será a última.

"A espera o esquecimento"

"Pára de falar, se queres que te oiça", diz uma personagem de Blanchot. O livro chama-se L'attente l'oubli, a citação não é verbatim mas anda lá perto (está traduzida, é só por isso. O original diz "Arrête de parler, si tu veux que je t'entende") e eu pergunto-me se comprar demasiados livros é realmente pecado, parece-me que sim porque só o pecado é recompensado com prazeres destes. "Pára de falar, se queres que te oiça."

Como esta, há muitas mais: "Les morts ressuscitaient mourants". "Elle avait mis toute sa foi dans cette chose à laquelle elle ne croyait pas". ("Os mortos ressuscitavam moribundos." "Ela tinha depositado toda a sua fé naquela coisa na qual não acreditava.")

"Quando eu lhe falo, é como se toda aquela parte de mim que me cobre e me protege me abandonasse e me deixasse exposta e muito frágil. Para onde vai essa parte de mim? É em si que ela se volta contra mim?"

Maurice Blanchot, in L'attente l'oubli, Gallimard, col. Imaginaires.

8.2.20

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 08-02-2020

Genebra. Tradicional fondue da chegada. Pela primeira vez, seis à mesa: S., eu, os dois e respectivos consortes. O termo é um pouco exagerado e propositado: com sortes, tanto um como outra. Deixo-lhes duas provas vivas de que não falhei tudo, duas pessoas boas, bonitas e inteligentes. Também eu sou com sorte.

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"Detesto que um homem me faça andar no lado de dentro do passeio, mas irrita-me que não mo peça" (Helena S., Genebra, sete de Fevereiro de 2020).

Quem faz Serpas não faz bananas.

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O plano é simples e já sei que não será respeitado: relax, amigos, ler e escrever, passear.

Isto é, não será respeitado a cem por cento, mas vou fazer tudo por lá andar o mais perto possível. A única coisa que me impede de seguir tão magnífico plano à letra é sua Majestade o S/Y P., mas esse já estava de fora à partida.  É uma espécie de fora-de-jogo de posição. Ontem já tentou desestabilizar-me, mas aguentei: só segunda-feira pensarei nele.

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Comprei livros. Dois Blanchot e um Caillois, mai-lo Dubliners para a jovem senhora da coerência. Devia inventar-se uma confissão para quem peca comprando livros.

(Vou verificar o nome de padroeiro dos bibliotecários. É S. Jerónimo e o seu dia é o do meu aniversário. Não é com confissões que hei-de lá chegar.)

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Percorro as ruas desta cidade e é como se percorresse as da minha vida, ocorre-me. Penso nisso e vejo que não é verdade: estas são demasiado limpas, arrumadas, ordenadas. Faltam vielas, becos sem saída (visível), acidentes, buracos.

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Pequena mensagem para o W. A.: os suíços continuam sem noção dos preços.

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Em contrapartida, sabem fazer transportes públicos que funcionam, livrarias que nem uma dúzia de S. Jerónimos nos arranca delas e fizeram o melhor sistema político do mundo.

A única coisa difícil de se entranhar é o custo de vida. Ao resto, habituamo-nos a uma velocidade estonteante.

7.2.20

Falar, escrever

Entrevistas em rádios. Lembro-me de F. v. U.: dizia-me que eu devia falar menos e escrever mais, porque "você escreve melhor do que fala". Referia-se a assuntos de trabalho, mas quando penso nas entrevistas não consigo deixar de lhe dar razão.

O voo do dia

Pela primeira vez em muitos anos, voo com bagagem de porão. Chegado a Lisboa desembarco e vou para os carrosséis. Ando normalmente, nem depressa nem devagar e quando chego o saco já lá está. Parabéns à ANA. Mesmo admitindo que uma andorinha não faz a Primavera, conseguiu aparentemente resolver um dos cancros do aeroporto de Lisboa.

Mais parabéns à ANA: tem os melhores filtros de segurança que conheço, disponíveis em pouquíssimos aeroportos (pelo menos de entre os que frequento). Não ter de tirar os portáteis dos sacos é uma maravilha, bandejas suficientes - só tive de esperar por elas uma vez, estes últimos anos.

Desparabéns à ANA: o walk through de Lisboa é labiríntico. Atravesso-o e penso quão bons somos a sacar, desde a autoridade tributária mais selvaticamente predadora do mundo até uma merda de loja num aeroporto.

P-q-os-p os controladores aéreos franceses. Estou piurso. Enviei uma mensagem à S. S., que pelo menos há uns anos era quem organizava as greves todas daquela imunda canalhada de privilegiados. (Não respondeu).

Parabéns à TAP: continuamos a ter a melhor companhia aérea do mundo desde que se entra no avião. E desta vez, o atraso nem foi culpa da empresa. Estávamos prontos à hora. 

6.2.20

Descansa

E depois há este tipo de cansaço,  não se vai embora nem com um gajo de pé nem estando deitado. Recusa-se simplesmente a desaparecer, como a erecção de um priápico: o que é demais chateia, por bom que seja.

Amanhã levanto-me às cinco e meia da manhã e ainda por aqui ando, mão estendida à cata de mais uma frase, mais um parágrafo, sinto o cansaço entranhar-se-me células adentro e pergunto-me se o aumento da esperança de vida pode realmente incluir-se na lista das coisas que melhoraram para a humanidade.

Espero que a calma quase pantanosa de Genebra produza os seus efeitos em mim.

Métodos pedagógicos

Talvez por eu ser marinheiro, passam a vida a falar-me das mulheres que já tive.

Prefiro de longe as que não tive, as que se e me recusaram, me deram tampa, as que - para usar uma expressão que detesto - não "comi". Aprende-se mais com a fome do que com a saciedade.

5.2.20

Imaginário? Já?

Um gajo sabe que chegou a um patamar novo da sua vida quando o termo "erecção" entra no seu léxico corrente. Depois, pergunta-se como será quando fizer parte do seu imaginário. 

3.2.20

Por esta melancolia abaixo

Deixa-te suave, confiantemente guiar pelas notas delicadas da kora de Toumani Diabaté, segue-as até à nascente e lá chegada diz "que me interessa a fonte da melancolia? Antes segui-la até à foz, descer até ti, até à praia, saber-te ali sólido, espraiado, descansado, à minha espera, delta de braços e peito abertos."

Segue-lhe os meandros, desce-lhe os sobressaltos: a melancolia nasce tristeza e acaba em paz, como tu, como tu acabarás nele, quieta, sossegada, saciada e feliz.

Deita-te. Recebe-o. Ele sabe do que fala: é de ti.

2.2.20

Diário de Bordos - Mértola, Alentejo, Portugal, 02-02-2020

Esta noite sonhei com atacadores para as botas. Isto é, a certa altura o meu sonho mencionava atacadores, alguém me dava uma palmadinha nas costas e dizia «pronto, aqui tens os atacadores reparados...» (como se se pudessem reparar atacadores). Do resto não me lembro. Aliás, a citação não é literal. Nem as mãos por ela ponho no fogo. Acordei envergonhado: atacadores de botas, por muito grandes que sejam (e estes são-no) não são tema digno de sonho. Os sonhos querem-se grandiosos.

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Ontem fui visitar uma quinta desenhada e construída sob preceitos de «geobiologia, radioestesia, Feng Shui, medicina vibracional, magnetoterapia, número de Vitrúvios» e outras balivérnias do género.

Produz um vinho excelente e as melhores uvas-passas que jamais comi.

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Mértola acordou com um nevoeiro todo marítimo. Isto é feito para voltar a ter um porto digno desse nome. Só que em vez de quantidade vai ter qualidade. O porto vai ser a nova mina.

A menos, claro, que a tentação da mediocridade vença.

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Estou apaixonado, mas ainda não percebi bem por quê ou por quem. Mértola, S/Y P., vida, esta lareira que carreguei de mais e agora tenho de abrir portas e janelas... Tantas coisas, tantas paisagens, tantas pessoas nelas.

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Jantar em casa da C. e do J., ontem. Aniversário da aniversariante. Penso que devo acrescentar «amizade» à lista anterior.

31.1.20

Chegaste

Percorro as linhas da luz, um pouco como um índio segue uma pista. Luz feita de indícios, de pequenos traços, um fim de palavra ouvido ali, um sorriso entrevisto acolá, um decote audacioso (ou generoso?) Sonho com a mão que um dia me dirá "Chegaste".

Tem uma foice e está vestida de negro, não é?

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-01-2020

Em Palma há duas respostas imediatas às indecisões alimentares: o Mini-restaurante (sic) Júlio e o 7 Machos. Hoje optei por este: não me apetece comer à mesa com garfo e faca e vinho e comida maiorquina e criada malcriada e tudo. O 7 Machos é a deslocalização ideal: comida mexicana perfeita (a melhor a leste de Greenwich, já aqui o disse muitas vezes), dona sueca, empregadas sabe-se lá de onde mas sempre lindas e simpáticas, Margaritas impecáveis e uma escolha de tequilas capaz de fazer um mexicano sonhar com ladrões.

Desenraizado. Isto define um gajo? «Desculpa, meu amor, sou um desenraizado.» Isto pegaria? «Sou um nómada, mas quero sedentarizar-me, prometo-te. Amo-te.»

Tretas. Balivernes. Bullshit. Tanga. Ninguém sabe escrever sobre si próprio, sob pena de cair naquele julgamento lapidar de Borges: «Todos acabamos por nos parecer com a imagem que os outros fazem de nós.»

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Quesadilla de ternera. Falta-me uma Mole de pollo e sobra-me Tequila. Boa troca. A quesadilla estava óptima, a empregada bonita e a Margarita excelente. Não vejo muito de que me queixar, que maçada. Comi ao balcão, como sempre ali.

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Desenraizado? Claro que define um homem.  Tanto como a terra de onde vem. «Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part» são enraizados, por exemplo.

30.1.20

Fatigas

Há uma espécie de fatiga que se trata melhor ficando de pé. Ela escorre-nos corpo abaixo e vai para o chão, para a terra, que é onde pertence. Um gajo sente-a a descer pelos ossos, resistindo como uma lagartixa a descer da árvore mas a gravidade acaba por ganhar. (Não é de espantar. A gravidade ganha sempre, claro.) Quando chega aos pés e passa pelos sapatos um tipo sente-se imediatamente mais leve, mais bem disposto.

Já a fatiga que exige cama é diferente: não desce, sobe. (Ainda bem, porque se fosse para baixo concentrar-se-ia na cama, onde ficaria aprisionada e em menos de nada a cama cansar-nos-ia ainda mais do que nós estávamos quando nos deitáramos.) Essa fatiga sai de nós porque é mais leve do que o ar e perde-se na atmosfera.

Não sei qual delas prefiro, mas isso fica para depois. Agora, vou dormir.

Direcção, memória

Andam por aí alguns palermas a querer corrigir a história, como se ela fosse um ditado na escola primária. Não é. É um camião com memória mas sem direcção.

Simplesmente

Se fui muitas vezes ridículo é simplesmente porque me fartei de escrever cartas de amor.

«Um lugar onde faça sentido parar»

É da imperfeição...  Deste conjunto de imperfeições.

Até a morte é imperfeita: o corpo decompõe-se, os vivos recordam o morto, o cadáver passeia-se por aí - num livro, numa árvore (ou num filho, mas aí só metade) - puzzle imperfeito, as peças encaixam mas há espaços entre elas, às vezes abismos, as imagens ficam tortas, há um dedo que as percorre (serão dois?) e apercebe-se das falhas geológicas, fracturas tectónicas, sorrisos que não colam uns aos outros, adeuses que ninguém sabe se o são para sempre ou para nunca, olhares que por vezes se enfrentam e outras se esquivam, há espaços nas peles que ficarão para sempre desconhecidos, intocados, há futuros que nunca passarão disso. Futuro - e passado - são promovidos à condição de presente, convem não esquecer. E este, despromovido, mal passa a um ou outro: o passado é um presente que se interroga, o futuro um presente que se ignora.

«...anda à procura de um lugar onde faça sentido parar e ainda não encontrou», disse alguém um dia. À procura de um lugar? Substitua "lugar" por "corpo": «Anda à procura de um corpo onde faça sentido parar...» Por praia. «Anda à procura de uma praia...» Nada disso. «Anda à procura de um si onde faça sentido parar-se...»

Ando à procura de um eu onde faça sentido parar, é tudo. Um eu com mamas, se possível.

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No mar não há certezas. Há probabilidades: talvez, mojat buit, vielleicht, maybe, peut-être, forse... A indecisão é a única língua do mar. Talvez. Talvez um dia no fundo do dia haja um lugar que me espera.

Há, estúpido. Chama-se cova e não tem mamas.

29.1.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-01-2020

É quarta-feira e Palma pesa-me cada vez mais. O Bar Rita está fechado, suponho que para férias; a Tasquita fechada está, a S. foi à terra; a U. idem, mas à do irmão, que vive em San Diego; o Can Rigo fechado porque é quarta-feira; o Cala Seu porque fechou há meses, pressão imobiliária; no Moltabarra não se pode comer nem depois de uma greve da fome. Para coroar, o Antiquari está a abarrotar e ainda por cima de putos: demasiado barulho e demasiada beleza. Nada excita mais a velhice e a amargura num velho do que esta combinação de uma coisa irritante com outra inatingível. Não há Mount Gay mas já me habituei à merda do Barceló (num dia normal não é uma merda, isto acontece só hoje, prova provada de que nada é impermeável às condições de quem o observa).

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O P. continua a presentear-me com cheques-surpresa. Não há melhor igualizador do que o mar e os botes que nele navegam. Qualquer ideia de que "isto só acontece aos outros" é inexoravelmente desfeita, mais tarde ou mais cedo, seja por que método for. Felizmente o JW - querido JW - diz-me que não é grave. Ainda vou acabar a agradecer à Glória a lição: quando vires que alguma coisa não está a cem por cento, não acredites que se vai manter como está. Vai deteriorar-se.

Lição essa que conheço há pelo menos trinta anos, mas se mantem jovem e novel devido às duas primeiras características do marinheiro, já aqui referidas: a teimosia e o optimismo. (As duas seguintes são o pessimismo e a flexibilidade). A depressão fez uma racha no pé de um balaústre e dois dias depois aparece água a pingar não muito longe. O Stan (digo-lhe o nome porque os deuses devem ser nomeados) vai ter mais trabalho do que eu - e ele - prevíramos.

O que me chateia é que na expressão cheque-surpresa a surpresa é para mim e o cheque para a armadora. Acreditem se quiserem, mas isto dói-me como se fosse ao contrário. Ou mais, na verdade. É que chega a um ponto em que já nem sequer é uma questão de cheques ou surpresas. Transforma-se numa espécie de corpo-a-corpo, um diálogo de punhos fechados e olhos nos olhos entre nós e o bote. E ainda há quem acredite que um barco é um objecto inanimado.

Não é. É um ser vivo habitado simultaneamente por deuses e por demónios e nós não passamos de árbitros da luta entre eles. Luta sem fim, acrescente-se: deuses e demónios são imortais.

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Nada jamais em mim foi precoce, com a possível excepção de algumas ejaculações (todas o são, de qualquer forma, não há de que me desculpar).

Há, algumas, mas agora é tarde. De qualquer forma já as expiei o suficiente.

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Vou para casa, tratar da cera e do tempo. O coiso está a ficar bonito. Não sei é como o vou levar para casa, quando tiver uma, mas isso é outra história. 

27.1.20

Minúcias

Dias vazios, estes de viagem entre aeroportos. Dias cheios, ambíguos. As viagens de avião promovem irrelevâncias a postos importantes: a que horas é o próximo comboio para o aeroporto? Em que cais? Onde é a porta de embarque? O voo vai muito cheio? Conseguirei um lugar sem ninguém ao lado?

Mas entre irrelavâncias há tempo para pensar, para planear... até para escrever disparates no blogue. Oscila-se entre o banal e o importante subitamente, sem transição. Um altifalante diz-me que o avião me espera mas a vontade é pouca. Deixo entrar toda a gente. Daqui a menos de uma semana o ritual repetir-se-á e lá estarei de novo ocupado a promover minúcias. 

Costureiros do inelutável

Quando se luta contra o inelutável, sabe-se que se vai perder. Mas isso não nos impede nem de lutar nem de sofrer. Não deixa de ser estúpido, todavia. Não se deve enfrentar o inelutável de frente. Deve-se toureá-lo com mais ou menos graça, como um toureiro lida um touro, provocando-o e tentando esquivar-lhe os cornos. O toureiro sai vivo, quase sempre. Nós também: o que tem de ser tem muita força, mas nós temos ainda mais, não é? «Nous sommes tous des farceurs, nous survivons à nos problèmes», dizia aquele grande especialista das lutas perdidas.

Farsantes nem sempre é o termo adequado. Talvez desgraçados? Tentar vestir a desgraça com graça? Costureiros? Um traje de luzes em cima de um corpo todo esfacelado? Que se lixe. Venha a próxima, cá estaremos para a receber.

26.1.20

Curiosidade, poros

Deixo V. no aeroporto. Nunca gostei de despedidas e esta é uma das piores. Porém, o esforço para manter a porta aberta seria muito maior do que a dor de a fechar (e ambas incomparavelmente menores do que a da primeira despedida). Já em Antigua não senti nada disto. Ali tinha uma namorada e encarei a visita de V. como curiosidade: reencontrar aos cinquenta e poucos uma mulher que não via desde os dezanove anos de idade?

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De onde vem a tristeza que me sai por todos os poros?

Muletas

Já o corpo se avaria, todos os dias e em todos os sítios. Hoje é o cotovelo, ontem o tornozelo, amanhã que será? Pede-lhe a terra que o ponha no buraco, mas a cabeça resiste, diz que não, ainda é cedo, há tanto por fazer.

No dia seguinte, é a cabeça que se quer pôr no buraco e o corpo Não, isso é passageiro, vais ver, amanhã estaremos ambos melhor.

Duas muletas e um cadáver impaciente de tão adiado.

Diário de Bordos - Düsseldorf, Renânia do Norte - Vestefália, Alemanha, 26-01-2020

Düsseldorf é uma cidade chata, peganhenta: um gajo apega-se à Altstdat, ou ela a nós, àquele cheiro a fritos, barulho, àquilo que na Alemanha passa por desordem, ou liberdade. Falta-me a minha S., o Dr. Jazz, faltam-me quarenta anos a menos e um bocadinho mais de futuro.

Não me queixo do futuro que me espera, não poderia mesmo que quisesse. Podia era ter chegado antes, ao mesmo tempo que a S. e a Nauticatur e aquilo tudo que hoje é passado e nunca passou disso. Vá lá, tenho pelo menos uma sorte: vejo tudo aquilo em que acreditei, tudo o que sonhei acontecer: charter nos Açores, Portugal na Boot e - sobretudo - esta noção de que já não sou olhado como um ET quando falo do turismo náutico e da náutica de recreio.

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Noite em combustão lenta. V. dorme ao meu lado. Conheci-a há quarenta e três anos. Talvez seja daí que me vem esta vontade de ter menos vinte anos, não sei; e esta certeza de que estava certo desde o início. Não há melhor forma de simbolizar este círculo que se fecha, pois não?

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Na série coisas que não previ: o crescimento absolutamente exponencial do mergulho. E o dos desportos ligeiros: canoagem, kayaks, etc.

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Saio de Düsseldorf com um stock de choucroute e salsichas por um ano. Já de cerveja não: a daqui é levezinha, saborosa. Esta e a de Berlim são as minhas favoritas na Alemanha.

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O livro começou o seu penoso caminho nas livrarias. Daqui por uma semana ou duas estará em todo o lado. Agora é que vai ser.

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E esta pena de ver o charter, a actividade livre e nobre que eu conheci, transformada irremediavelmente em indústria, mais regulada do que a ida à Lua. Os governos de todo o mundo perceberam a sua importância e o seu potencial económico e isso desperta a besta que há neles, a sanha fiscal - os regulamentos não passam de um pretexto para sacar massa a quem trabalha e a produz.

25.1.20

Insónia

A noite insone acolhe tranquilamente os restos dos dias, como do cadinho o metal fundente se verte na forma. São muitos os dias e uma só a noite: tão cedo o sono não regressará.

A insónia é geográfica. Salto de S. Luis do Maranhão para Moçambique, daí para Lisboa, Montenegro, Suíça... Acontece até encontrar-me nos braços nus de uma senhora ou duas. Vagueio de país en país, de corpo em corpo, de ninharia en recordação e dali para o futuro.

O cadinho verte o líquido incandescente para a forma, mas esta não pára quieta.

23.1.20

Quem encomenda as bebidas?

- Beber ou foder, há que escolher. - Antónia estava furiosa e olhava-me com raiva como raramente lhe tinha visto.
- Querida, todas as fodas que dei em todas as mulheres que fodi foi a ti que as dei. Todas, sem excepção. Não há mulher que eu tenha ou me tenha levado para a cama, para um chuveiro, um pinhal, um beliche, uma praia, uma pensão rasca ou para un hotel de negócios que fosse outra se não tu.
- Ou seja, hoje não é comigo que estás nesta cama?
- Estou pouco habituado a este dilema. Antes era "Beber ou conduzir".
- Pois, meu querido. No próximo jantar bebes Castello, é muito boa.
- Queres dizer que vai haver outro jantar?
- Outro? Meu caro, vais jantar-me até precisares de um tripé para essa porra. - Olhou depreciativamente para "aquela porra" e acrescentou - mas quem encomenda as bebidas sou eu. 

18.1.20

Se ela morrer

Durante a maior parte dos seus quase sessenta anos, Antónia conviveu com a morte. Refiro-me à morte verdadeira, aquela que se pode cheirar e tocar, não à de "estive quase a ir desta para melhor" dito à mesa do café, com um sorriso e um olhar entendido, meio de esguelha meio a captar o de quem ouve. Antónia aceita pacificamente a morte - "já morri tantas vezes que mais uma menos uma não faz muita diferença" explica aos amigos.

Nunca, porém, alguém a ouviu uma vez que fosse dizer "quando eu morrer". Diz sempre "Se eu morrer". "Se eu morrer, lembrar-me-ei destes dois últimos anos para sempre e não sei como vou pagá-los."

Os amigos ouviam isto  e respondiam:
- Que disparate, não vais nada morrer agora.
- Eu não disse "agora".

Prisões

Se um dia me tirarem do mar, ponham-me por favor a viver na Waterstones de Picadilly. Podem mesmo prender-me aqui com correntes: não me sentiria preso, não mais do que mo sinto no mar.

15.1.20

Oscilações

Habituado desde criança a ler e a ouvir histórias de mar e marinheiros, aprendeu cedo a rejeitar a influência da sua vontade no mundo. «O que eu quero que aconteça e o que vai acontecer são duas coisas diferentes, que só pelo maior dos acasos - e das sortes - se sobrepõem», já pensava ainda antes de o saber formular. O que não o impedia, longe disso, de esperar o melhor, sempre. «Optimismo sem realismo é patetice», pensava (mas continuava a não saber formular). «Realismo sem optimismo é uma tristeza, tão triste que mais parece estupidez.» Incapaz de optar decididamente por um ou por outro, sempre oscilou entre estes dois pólos, antagónicos como a gema e a clara de um ovo e igualmente capazes de coabitar sem se misturar - até apanharem uma sova vinda não sabem de onde.

Já ele sabe muito bem de onde lhe chega a porrada que leva, mas a ter de escolher - ou melhor, a poder escolher - prefere a que apanha por excesso de optimismo. «O realismo não magoa ninguém, mas tão pouco dá grandes alegrias. O optimismo leva-me mais longe, apesar de as quedas serem maiores e mais dolorosas. Tal como o excesso de confiança nos outros, de resto: o que é bom dói mais quando magoa e oferece mais quando não.»

Na verdade, gostaria de ter a dose certa de cada um destes ingredientes e ser moderadamente infeliz a maior parte do tempo e moderadamente feliz o resto. «Viver assim, oscilando como um marinheiro bêbedo entre um whisky e a prostituta que lho serve», pensava nos dias tristes, «é um objectivo nobre, legítimo.»

Mas tinha os dois e as oscilações eram entre isso e a morte, não entre um pouco de uma e um pouco da outra.

14.1.20

Se tu

Atravesso a rua, um rio, um oceano. Do outro lado, na outra margem, no outro passeio espera-me a vida nova, outra vida, outro passado.

Esperar-me-ia, se tu lá estivesses.

Com sorte

Digo "Amar-te-ei sempre, para sempre, inteira e só tu". Digo-o muitas vezes, é uma incantação, a crença naquela crença absurda de que as palavras moldam a realidade, lhe dão forma.

Não dão, claro. Com sorte, descrevem-na e mesmo isso é difícil. Com sorte, não me sinto ridículo ao dizê-lo, porque o digo a ti, só a ti.

Diário de Bordos - Mértola, Alentejo, Portugal, 13-01-2020

Subo a rua para casa. Un grupo de crianças brinca, corre para cima e para baixo como se a rua só descesse, não subisse. O silêncio é o de sempre: sólido, corpóreo, tangível. As brincadeiras dos miúdos não o desfazem. Brincam, gritam, correm à frente dele como se fosse o cenário de um teatro.

Dar cabo disto devia ser passível de pena eterna, num quarto sem saída, a ouvir reggaeton, José Mário Branco e o Fanhais até ao fim dos dias.

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Jantar no Tamuje: ensopado de galo-capão, acompanhado por um Balanches tinto, vinho adstringente, encorpado  mas fino e equilibrado. O fim de boca prolonga-se até ao gole seguinte e acumula-se com este em camadas quase identificáveis desde a primeira.

Se um dia a minha ideia for para a frente, vai ser preciso reservar uma mesa com três meses de antecedência. Ou então, pedir-lhes para fazer como na Hofbräuhaus e terem mesas reservadas em permanência para os clientes habituais.

O problema é que a Hofbräuhaus é pelo menos cem vezes maior.

O Tamuje tem a virtude de me comover às lágrimas praticamente cada vez que lá vou comer. Há de certeza um céu para as cozinheiras e a senhora que manda naquela cozinha tem nele um lugar reservado, "à direita de Deus Pai" (aspas porque cito outro Pai, o meu). E o senhor M. irá para o dos donos de restaurantes,  que não sei se é o mesmo.

Sejam ou não, espero que os façam esperar muito tempo, que os céus podem - e devem.

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Três graus positivos. A casa não está equipada para este frio. Acho mal terem acabado com o aquecimento global e terem-no trocado pelas alterações climáticas, uma chacha que tem a vantagem de todas as chachas: serve para tudo. A imprecisão é a bengala da mentira.

E custosa: aposto que esta noite me vai sair caríssima, com o aquecimento eléctrico ligado em permanência. Ver se me lembro de encomendar lenha para a próxima vez, sempre aqueço a casa e aqueço o planeta. Ou seja, dou asas ao meu legendário altruísmo e, por uma vez, beneficio com ele.

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Os livros acumulam-se no armário. Tenho de mandar fazer prateleiras e trazer para cá os que ainda estão em Évora, que são todos.

Antevejo semanas de gozo a arrumá-los - para semanas depois os ter de pôr em caixas outra vez? Espero que não. A casa é pequena mas vai ter de aguentar-se até encontrar uma maior.

Amanhã não será a véspera desse dia.

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Almoço com A. Há pessoas que não saem das nossas vidas mesmo que passemos anos sem as ver. A razão é simples, claro: fazem parte de nós e se saíssem seria como se nos arrancassem um braço. (O direito, preciso.)

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Próxima etapa: Londres. Estou farto de aviões, mas é impossível não reconhecer que se não os tivesse tão presentes estaria ainda mais farto.

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Depois: Düsseldorf. Por onde andará a S.? O Dr. Jazz fechou, isso sei. Tantas horas lá passávamos os dois, sentados nas escadas, a beber cerveja e a beijarmo-nos como se sem nós o mundo, a cerveja acabassem no dia seguinte. Ou nós...

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Não acabamos, nunca acabamos, pelo menos enquanto as pessoas que são parte de nós continuam parte de nós.

(Para a A., com o beijo que começou em Oeiras e ainda não acabou.)

12.1.20

A mesma coisa

Não sou de mais ou menos, querida. Sou de tudo ou nada. São a mesma coisa: ou morres de fome ou morres de enfarto.

11.1.20

Tempo, denso e doce

Estou na Tasquita a beber um café e uma aguardente. São dez da noite, jantei deliciosamente no La Juanita, amanhã vou a Lisboa, depois a Mértola,  Londres e Dusseldorf, tive um dia normal, nem muito cansativo nem chato.

Cravo um cigarro à S. e vou lá fora fumá-lo. Estico-me em altura. Não é espreguiçar-me - se alguém estivesse a olhar para mim não veria o tempo a escorrer-me pelos ossos, denso e doce como mel por uma colher.

9.1.20

Milagres

Um casal jovem decide mudar de país e metade do mundo acha-se na obrigação de comentar. Podemos dizer o que quisermos da monarquia, mas esta capacidade de transformar água em vinho está ao nível da do outro.

Gamoneda: ver o que não se vê

Encontrei as obras completas de Antonio Gamoneda, uma edição da Galaxia Gutenberg de Setembro de 2019. Pizarnik ensinou-me a olhar para a dor; Gamoneda, a ver o que não se vê.

«Como música de la que aun permanece el silencio siento tus manos en mi.

Tus manos lejanas.»

Todos os lados do que não se vê,

«ESTOY CANSADO. Cansado de mí mismo; de mi enemistad comigo mismo,

y de otros acidentes, y de algunas miserias.

...»

«...
Que sed de desvario, que sed.»

«...
Mañana, si es, será otro dia.»

«...
Sí, hé despertado otra vez para desconocer.
...»

Os tons diferentes da verdade

«Tu bebes muito» é uma frase que oiço frequentemente, mas em tons diferentes: crítico, admirativo e grato. Este último é o mais honesto: é o dos donos dos bares.

Fragmento

"...Às vezes penso escrever-te; outras não. Podemos resumir isto assim: às segundas, quartas e sextas quero escrever-te; às terças, quintas e sábados pergunto-me se devo dizer-te para ficares em minha casa. Mas então aparece a pergunta: «se eu não lhe disser isso, que direi?» E todas estas perguntas vão para domingo, um dia que dedico a permitir-me tudo e o seu contrário sem cair em dissonância cognitiva.

Seja como for, resolvi quebrar este círculo aparentemente inquebrável. a) Escrevo-te numa quinta-feira (muito jovem, mas quinta); b) Digo-te que realmente não sei o que sinto, mas isso não data de hoje; c) Não te digo que devias ficar; d) Não te digo que não deves ficar.

Uma coisa sei de ciência certa: não contes comigo para ser a locomotiva do que quer que seja.

Isto é: a quinta-feira olha-me, jovem; as velas queimam, avancei três páginas no livro que estou a ler; comi duas tangerinas - duas! - e escrevo-te (...). Agora vou dormir.

Talvez o sono estivesse à espera de que as palavras saíssem, como se estivessem a ocupar o seu lugar. Gosta de salas vazias e não delas mobiladas, com bagagem antiga e coisas deixadas ao acaso por todo o lado, cheias de memórias e de planos para o futuro. «Planos» sendo um sinónimo até este momento desconhecido de «dúvidas.»"

8.1.20

Dias, fractais

Os meus dias são um fractal da minha vida: altos e baixos, roller coaster, dents de scie, do Everest à fossa das Marianas e regresso - não só todos os dias, mas várias vezes por dia.

E ainda há quem se admire de eu andar tão cansado e tão feliz.

7.1.20

Jogar à parede

Quando aprendia a jogar ténis,  a parte de que mais gostava era jogar à parede.

Foi um excelente treino para a vida afectiva, mais tarde. Ou para a vida, simplesmente.

Lágrimas, lupa

Não está ainda provado, mas é possível que as lágrimas tenham um efeito de lupa quando se olha para a vida através delas.

Sejam de tristeza ou de alegria: tudo nos aparece mais nítido,  mais próximo. 

Dedos, olhos

Gosto demais de ti para conseguir falar-te sem te ver, sem te tocar. Os dedos e os olhos têm mais significados do que um dicionário inteiro debitado - e ouvido - lentamente.

A cozinha dos dias

Hoje apercebi-me - admitidamente com um certo atraso - de que a minha cozinha não passa de um reflexo dos meus dias. Um bocadinho disto, outro daquilo, à última da hora acrescenta-se o sal ou a pimenta ou um pouco mais de vinho... A diferença é que quando cozinho sou eu o cozinheiro e quando vivo não.

[Adenda: tudo isto por causa de uns parafusos de porca nas chapas de arreigada que vão ter de ser mudados. Já tive o pau em baixo (salvo seja) duas vezes; por que raio de carga de insondável mistério é que isto só agora se viu? Não sei. Sei. Não sei. Sei. Felizmente não vou precisar de desarvorar - não o faria, se precisasse - mas porra, ele há mistérios.]

Paciência, amizade

É preciso traçar uma linha muito clara, intransponível, entre a falta de paciência e a amizade. São dois territórios distintos, impermeáveis um ao outro, por muito que a falta de paciência se disfarce de tsunami, ciclone, enchentes e a amizade pareça desaparecer, levada por uma placa tectónica durante um tremor de terra.

O que posso ser

As mulheres são o que são; os homens, o que podem. Não há muito por onde fugir a este facto simples e básico da biologia, excepto talvez quando um homem tenta ser o que é ou uma mulher o que pode: elas ganham, nós perdemos. Isto é, até há homens - o Popeye é um exemplo que me salta imediatamente ao espírito - que "são o que são e é tudo o que são" (é ele o "autor" da frase). Talvez, mas depois comem espinafres o resto da vida e vão para a cama com uma trinca-espinhas de carrapito e nariz empertigado.

Sejamos então aquilo que podemos ser e lembremo-nos de que já é muito; a mais não somos obrigados. Elas que sejam o que são. 

6.1.20

Noite, mundo novo

Assim termina esta longa e feliz noite: sabendo que amanhã tudo será igual, tudo será diferente. O mundo recomeça cada vez que se acorda e não acaba enquanto não se adormece. Nunca completamente igual nem inteiramente diferente.

Beauté, prison

Il traînait sa solitude derrière lui comme une reine du moyen-âge son voile de mariée: les autres n'en voyaient que la beauté, lui en savait la prison.

5.1.20

Sem olhar para trás

A ideia original era falar de conflitos escondidos, não era? Ou visíveis, já não me lembro. Foi há tanto tempo. Hesito. Hoje digladiamo-nos sobre tudo, menos sobre aquilo em que divergimos completamente.

Para essas coisas, acordámos silêncio. Compreende-se, não é? Aos sessenta começa-se vagamente a perceber que a luz ao fundo do túnel é o comboio. Um dia, essa percepção deixa de ser vaga e transforma-se em certeza.

Certeza não é a palavra certa. Há um ímpeto em certeza que nesse dia está ausente. Resignação tão-pouco é correcto. O termo certo anda aí pelo meio, algures entre certeza e resignação.

Que se lixe. Um dia vemos a luz, sabemos que é o comboio apesar de ainda não o vermos e tratamos de fazer com que o encontro seja o menos chato possível. Que seja natural, por assim dizer, como um copo de vinho que se acaba, um parêntese que se fecha, um olhar que nos diz au revoir sabendo perfeitamente que não há revoir nenhum.

No fundo, tenta-se responder à pergunta "que fiz eu desta noite?" sem olhar para trás. 

Quem não sabe ver

Ontem fui acusado por uma senhora que não me conhece - ou conhece em segunda mão, mal ou só do que escrevo - de estar "cheio de ódio".

Não estou. Antes pelo contrário: transbordo de amor. Todas as formas de amor: entregue, perdido, retribuído, não retribuído, filial, paternal, fraternal, lascivo, seco, platónico... Sou um poço de amor.

Só quem não sabe ver não vê isto.

Dispersas

Fragmento

«Apetece-me falar contigo e ceder a este desejo é um erro porque falar contigo tem um monte de sentidos. Melhor escrever-te, porque escrever evoca as mesmas coisas mas mais devagar. Mais realisticamente: o aparo no papel, o dedo na pele, palavras inaudíveis.

...»

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Gosto do bar España. É um daqueles sítios em que a decoração é a mesma há cinquenta anos, os preços não mas pouco menos, os funcionários um pouco mais e os clientes - salvo uma ou outra excepção - também. Um bar para quem vive tão bem no passado como no presente. Pertence àquela categoria de sítios a que chamo Resistentes, Não se vergaram ao gourmet, não vergam a espinha à assepcia corrente, não se vergam. São o que são e é tudo o que são.

Não que eu tenha uma especial atracção pelo passado. Não tenho. Tenho, isso sim, pela resistência, pelo carácter, pela imanência. O catavento é um instrumento fundamental na minha vida profissional, mas nunca disso passará.

Não sei se Hemingway esteve alguma vez em Palma, mas vejo-o ao balcão do bar España cada vez que aqui venho. Nunca lhe falei, mas só porque sou tímido.

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Notas confusas

Meti-me no primeiro eléctrico que passou, deixei passar um número conveniente de paragens, desci e entrei no primeiro café que me convidou a entrar. Alguns convites não se recusam. Descubro mais tarde que é o café mais cool de Munique. A história é longa, mas pouco original: vieram sentar-se à minha mesa - gosto deste hábito - e desde aí foi sempre a subir. Acabou na cave de um teatro a ouvir uma banda de jazz que tinha um baixo sublime. Tinha programado engrossar-me devagarinho; depos apareceu-me trabalho e decidi não me engrossar. Com estes quatro os planos foram para o galheiro

(...)
Pouco importa. Deixemos de lado estas divagações inúteis. O cafe onde vim parar chama-se Baader café (sic) e fica na Baaderstrasse. Estou perto do bairro bobo onde estive ontem...

[...Pausa...]

Os meus planos de não me engrossar foram substituídos por outros: o plano «O que for, será.»

Bon, reprenons-nous.

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Lindau

Troquei um dúvida por uma certeza.

3.1.20

O saber e nós

Os portugueses têm uma relação estranha com o saber. Por um lado, devemos ser o único povo do universo que tem uma expressão como "um burro carregado de livros". O saber teórico não nos entusiasma.

Mas quando aparece alguém com um saber empírico, feito de experiência e prática desconfiamos dele porque não é da nossa cor politica, não tem título académico ou não é da nossa classe social.

Na verdade, o que une estas duas atitudes é o horror ao saber, tout court.

Venha ele de onde vier.

2.1.20

Diário de Bordos - München, Bavária, Alemanha, 02-01-2020

A melhor forma de resistir às tentações é ceder-lhes, dizia o Oscar que acabou mal por ter cedido a todas, sobretudo às erradas (para quem então mandava, claro, isto de erradas ou não é como o resto, mudam). Eu descubro outra, mais eficaz ainda: não ter dinheiro. Felizmente tenho-o para as pequenas e não para as grandes e com isso confirmo que não fui feito para viver fora de cidades grandes, onde a cada esquina há uma papelaria com bom papel, uma livraria inglesa com «The Mirror of the Sea» do Conrad, maravilhosa e irresistivelmente ilustrado, com lugares como este onde agora escrevo - chama-se The Lost Weekend, é um lugar para estudantes universitários (à porta somos acolhidos com um dístico: «Love kills capitalism», assim mesmo em inglês, qu'isto de matar o capitalismo ou é na sua (dele) língua ou não é) - um restaurante como o Laden (ou Läden, ou coisa que o valha) [Zumladen, Turkenstrasse 37] onde comi uns gnocchi maravilhosos (infelizmente o vinho também era muito bom, um tinto austríaco leve, aéreo e caro).

Este país não é para mim: até o caos é organizado. Felizmente começa a haver excepções àquela regra de não atravessar a rua com o sinal encarnado - ainda somos uma minoria, mas pelo menos já não sou o único. Não consigo perceber o que leva adultos estatisticamente inteligentes a pensar que um sinal sabe melhor do que eles quando podem ou não atravessar uma rua. Há vinte (tosse... trinta) anos era apupado quando desrespeitava os sinais. Agora é comum ver duas ou três pessoas - incluindo-me - a confiar nos seus olhos e no seu julgamento e ninguém grita ou apupa. Pode ser que daqui a uns anos até o caos deixe de parecer organizado.

Espero que não. O mundo precisa da Alemanha como ela é.

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Vou ao supermercado comprar Ziplocs. Pergunto na caixa, a rapariga não percebe, não sabe, acaba por decidir que não têm. Atrás de mim uma outra jovem, pouco menos de trinta, explica-lhe, em alemão. A senhora da caixa continua a dizer que não há. A cliente diz-me «Espere, eu pago e vou consigo.»

No caminho explica-me «Nem alemão sabem falar correctamente...». e leva-me a uma prateleira cheia de Ziplocs. Compro os errados, claro, mas pelo menos agora sei como se chamam aqui.

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À minha frente tenho uma cena que me transporta para o Jules et Jim, em mais novo e com personagens mais feias, mas igualmente alegres. Mulheres mais bonitas do que a Jeanne Moreau não se encontram num café de estudantes que propõe matar o capitalismo com amor, eu sei.

Confirmo o que disse no outro dia: a beleza é a verdade, reside na verdade e estes três são verdadeiros, são bonitos.

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«Fortunately, nothing can deface the beauty of a ship.» Joseph Conrad, in The Mirror of the Sea.

Percebem o que quero dizer? «A ship anchored in an open roadstead, with cargo lighters alongside and her own tackle swinging the burden over the rail, is accomplishing in freedom a function of her life.» Se não perceberem, não faz mal. Penso que é preciso ter vivido isto para perceber mais longe do que a elegância do inglês do senhor. Verdade seja dita, esse inglês é suficiente.

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Jules e Catherine foram-se embora. Ficou o Jim. E eu, com o meu Syrah sul-africano, os meus sonhos - Mértola, P., Moura, livro(s), Ler por aí..., casar-me e ter fihos, ler tudo o que me cai nas mãos, escrever tudo o que me vai pela cabeça - e a noite, que cai devagar, já caiu, coitada, não tropeçou sequer, chegou como as penas do badminton, como algumas penas que se esperam e mesmo assim aparecem onde menos se esperam, tal como outras aparecem onde são esperadas. 

1.1.20

O prazer no texto

«O autor encara com cepticismo esta crença de que a combinação de temperaturas mornas com nevoeiro e chuva é melhor para a cura da tuberculose que o frio seco da Montanha Mágica de Thomas Mann, mas é possível que o seu cepticismo provenha de razões literárias.»

«... - Hester Johanna é psiquiatra, porque, como já todos terão adivinhado, faz falta a esta narrativa alguém que se dedique a problemas da psique.»

Se, como disse alguém cujo nome não recordo, um bom escritor é aquele que confia na inteligência dos seus leitores, um bom leitor é aquele que se delicia com a inteligência do autor? Ou com esta mistura de inteligência, talento, ironia, justeza, finesse a que alguns chamariam génio e eu chamo Paulo Varela Gomes (o que não exclui o predicado, claro)?  Paulo Varela Gomes não escrevia, burilava narrativas.

Hotel já me tinha deixado abismado; este Passos Perdidos que agora leio leva-me às raízes do prazer da leitura, de que andava tão arredado. Desde The sea, the sea que não me lembro de um arrebatamento destes.

Passos Perdidos, Paulo Varela Gomes, ed. Tinta-da-China, Lisboa 2016.

Palavras sentidas

A verdade é que tenho com o frio uma relação de amor-ódio. Três partes de ódio e uma de amor.

Vim a pé do restaurante Faun - bastante aconselhável, de resto - para a Marienplatz, apanhar o comboio que me levará ao hotel.

A temperatura é de um grau abaixo de zero e a esta hora não há sol. As ruas estão frias (e desertas, mas isso é irrelevante) dos dois lados. Chego à estação enregelado, engano-me no sentido do comboio, volto para trás. A zona dos cais não está aquecida; felizmente as esperas são curtas. Ponho-me a escrever enquanto espero: é a minha forma de resistir. As luvas são fraquinhas mas ajudam e sem elas vê-se - sente-se - a diferença... Para escrever tenho de tirar a da mão direita.

Chama-se a isto Palavras sentidas. E breves.

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Fiz os novecentos e cinquenta metros que me separavam da estação a andar depressa: o frio aligeira-nos. Como se nos aliviasse, não é?

A problemática do frio em carta a um amigo

A problematica do frio, meu caro M. é complexa. Começa com duas variáveis: a) a temperatura exterior e b) o tempo de exposição a ela. No meu caso, forçoso é reconhecer ser pouco frequente estar numa situação em que estas duas variáveis se adicionam de uma forma insustentável. Ou seja: não trago parka nem luvas apropriadas devido a uma rigorosa análise custo - benefício (em que aquele predomina sobre esta, é verdade).

Porém, as estas outras se juntam. Por exemplo, a praxis. Hoje, com uma temperatura de cinco graus positivos dispensei as minhas luvas de couro (maciíssimas e lindas, mas não muito quentes) mais de vinte minutos. Se te disser que normalmente calço as luvas com temperaturas iguais ou inferiores a treze graus realizas o impacto da prática. A análise custo-benefício tem agora três variáveis. Vai ficar-se por aqui?

Não! Que horror! Quem se satisfaz com problemáticas simples? Imaginemos que aqueles três parâmetros se conluiavam para me forçar a adquirir um par de luvas quentes (e uma parka idem). Que se passaria? O meu espírito levar-me-ia imediatamente para o volume disponível nos meus sacos de viagem, dois, suficientemente pequenos para serem trazidos na cabine, Infelizmente estão cheios.

Isto dito, penso imediatamente na próxima barreira: o meu desgosto profundo por fazer compras, ainda por cima sem o conselho avisado de uma senhora ao meu lado. Situação inextricável, como vês. Só me resta refugiar-me nos bonitos cafés desta cidade, beber cafés e obska (não sei o que é, mas é bom), olhar para as pinturas no tecto e para as senhoras (bonitas mas não tanto como em Palma ou em Genebra), lembrar-me com prazer do jantar em que nos conhecemos e do almoço nas instalações do jornal onde trabalhavas e desejar-te - do fundo do coração - que tenhas um bom ano e que tudo te corra bem.

PS - podia continuar a adicionar complicações, mas nem tu nem eu somos relojoeiros suíços.