19.12.19

Primeiros passos nas esculturas de velas

O processo de elaboração de uma escultura "vélica" (aspas porque não sei ainda que nome dar-lhe) está a revelar-se imensamente mais complicado, trabalhoso, caro e complexo do que eu esperava. O trabalho vem das limpezas que a elaboração da obra requer: a cera líquida escapa-se por tudo quanto é sítio. O custo, do preço das velas: apesar de as comprar baratas elas esfumam-se num ai. As complicações vêm das tentativas de gerir as interacções entre as diferentes velas. A complexidade, dos problemas criados por estas situações todas juntas.

Em contrapartida aprendo um montão sobre o comportamento destes fluidos (há outros piores), aprendo - pouco a pouco, dolorosamente pouco a pouco - a dirigi-los e orientá-los com fósforos, aprendo a limpá-los na secretária, no chão e nas paredes (um pano com um ferro de passar bem quente por cima, água e detergente) e sobretudo aprendo a antever o resultado. Penso que vai justificar todos estes esforços.

Não sei é daqui a quantos anos. 

18.12.19

Ouvido agudo

"Ya nos ensuciamos los dos", diz o ex-marido explicando a alguém que já foi casado com a senhora (o termo não é formalismo nem exagero) que está ao lado dele.

Talvez no fundo a tarefa do escritor se resuma a ser uma espécie de almeida, vassoura em punho e ouvido agudo.

17.12.19

Telefone, ideias, royalties et al.

Retido em casa à espera do carteiro. Maldito telefone, devia ter uma trela e não me largar. Isto dito, espero que a sueca não se lembre de reclamar contra os correios rápidos. Antes de chegar a Palma o aparelho passou por Vitória, no país basco e por Barcelona. A julgar pelas horas, Lisboa Vitória foi de avião, dali para Barcelona de camião e de Barcelona para aqui de avião outra vez. Pergunto-me se uma plataforma de entregas pessoais, directas, funcionaria. Um gajo inscrevia-se dizendo que ia de Lisboa para Palma e trazia uma ou duas encomendas que lá estivessem anunciadas. Acho que já existe isso para a carga rodoviária. Alguém quer pegar na ideia? Sou modesto nas royalties.

15.12.19

Contas mal feitas

O gajo que lá em cima comanda estas coisas anda um bocado desorientado. Compreende-se facilmente que era preciso fazer-me pagar estes dias de intensa felicidade, a alegria que foi ter o livro na mão, a magnífica festa de agradecimento a quem o encomendara antes.

Pronto, ísto é um dado adquirido. Tudo se paga, neste mundo.

Mas o senhor meteu os pés pelas mãos: fez-me perder o telefone no táxi e ter tanto azar que ninguém mo entregou, coisa pouco frequente aqui em Palma. Não chega para o empate, mas anda lá perto. Em contrapartida, a minha bicicleta Peugeot, que na escala dos meus amores ciclistas está ao nível da Rolex Voadora - infamemente roubada de um quinto andar em Lisboa - ficou na rua estes três dias e quando a meio do dia volto para casa vindo do P. vejo-a no seu lugar de dia habitual. Um bocadinho chateada comigo, mas enfim, nada que duas ou três voltas pela cidade não tenham acalmado. A felicidade está de novo a ganhar.

Depois de meia dúzia de incidentes desnecessários no processo de obtenção de um telefone novo - que está em vias de resolução, mas ainda longe disso - o homem enfia-me uma gripe em cima. Não é bem uma gripe, é a mãe de todas as gripes, parafraseando aquele benfeitor da humanidade que a esquerda gosta de defender.

Fazendo as contas, devo dizer que o homem dos dados ainda não conseguiu fazer-me pagar estes três dias. O que me assusta sobremaneira, oh se assusta. Se uma gigantesca gripe e dois ou três dias (úteis) sem telefone não chegam, o que será preciso?

14.12.19

Reflexões desgarradas

Nunca serei rico, mas pelo menos sou pobre com classe.

A palavra empobrece-me, é certo; mas antes isso do que enriquecer sem ela.

Pobre sim. Miserável não.

Sou o rico mais pobre que o planeta já acolheu.

Há uma complementaridade entre pobreza e felicidade: esta serve para matizar aquela. E aquela para não nos deixar acreditar demasiado na sorte - ou em nós próprios.

(Pour nous empêcher de gonfler comme des ballons ...)

(Para não nos deixar inchar demasiado.)

Para o ano há mais e até lá também

"Foi bonita a festa, pá." Mais do que bonita: foi linda. Estavam quase todos e os poucos que faltaram foi por absoluta impossibilidade. Obrigado a todos. Só para ver tanta gente tão bem valeu o esforço a pena.

Agora, há que pôr mãos à obra: vender este e preparar o próximo. Tarefa à la Janus... Pelo menos parto com o caminho balizado, o que já é muito.

Diário de Bordos - Lisboa, 13-12-2019

"Quem não sabe beber vinho bebe mijo", dizia-me o meu Pai com a sua característica delicadeza. (Isto é só meio sarcasmo. O Senhor manejava a delicadeza e a brutalidade tão eximiamente como Bruce Lee os nun-cha-ku: ora batia com uma ora batia com a outra mas ia sempre directo ao alvo.)

A verdade é que com esse simples preceito me arruinou todas as bebedeiras - enfim, quase todas - até aos trinta e muitos. Foi preciso entrar nos entas para aprender a deixar-me ir. Mas o mal, por assim dizer, estava feito: é raríssimo estar bêbedo sem saber que o estou. É raríssimo o álcool substituir-me. Acontece, claro: não sou o super-homem nem o anti-Baco. Às vezes com consequências chatas, até. Mas não é frequente.

Talvez seja por isso que suporto tão mal as bebedeiras feias, favor que devo ao "senhor Pai" (aspas porque cito). Quem não é educado quando está com os copos não foi educado sem eles.

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Belíssima a festa de agradecimentos do livro. Só faltou uma pessoa para que a festa tivesse sido total. Mencionei-a quando falei e durante larga parte da cerimónia ela esteve lá. Depois foi-se embora.

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Descubro finalmente o bar Old Vic. Excelente bar, com um bife de fazer lembrar o Snob dos anos oitenta. Não substitui o Procópio - nada o substituirá nunca - mas complementa-o muito dignamente.

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Amanhã estarei em Palma de novo. É como se vivesse com um pé em Mallorca, outro em Lisboa e me faltassem pés para Mértola e Genebra.

Questão de me pôr de gatas, talvez?

12.12.19

Olha-te

Rugosidades. Pele de pêssego que raspasse, como se o mar nos atirasse pedras, nos devolvesse com juros os seixos todos que da praia lhe mandámos. Tempos rugosos, picam, rasgam a pele dos dedos com que acariciamos os dias, a pele, as horas que passamos montados neles, dias, tempos. Lutas contra o tempo e sais magoado, o entardecer entorpece-te os sentimentos e vais para a praia, sentas-te na areia e olhas-te.

8.12.19

O nascer do dia

Era loira, de pele muito clara e mamilos da cor da alvorada. Cada vez que nos deitávamos eu tinha o nascer do dia nas mãos. 

Reflexões à solta

Ouvir Yves Montand no bistrot mais bistrot de Palma (pertence a um francês, não é propriamente uma coisa do outro mundo), ser informado de que o Mount Gay acabou, a merda da lista de músicas passou para um standard americano dos anos 50, uma big band que não identifico - obviamente - não faz mal, bebe-se Barceló. Um gajo é obrigado a perguntar-se se foi feito para viver num sítio (e de caminho dar razão às miúdas todas que descobriram antes dele que não e consequentemente lhe deram tampa), como é possível estar farto até da cidade que se ama tanto, é uma espécie de drama que oscila entre a tragédia, a comédia e a opera magna, triângulo esse que é o das vidas todas, mesmo as que se ou o ignoram.

Um gajo sabe que qualquer dia terá de ser operado e pergunta-se a quantas operações mais estará disposto a submeter-se para se manter em vida? Isto é: quanto tempo durará esta vontade de se manter em vida?

L., A., D., P., R. - R. - R., A.,T., V., D., A., Z., A. (há muitos nomes repetidos)... Bom, pelo menos um gajo continua a desejá-las todas, umas mais do que outras e uma mais do que todas. Mai-las miúdas que lhe passam todos os dias à frente, louvadas sejam, louvada seja tanta boa-vontade de Deus Pai que está no céu.

Nunca serei homem de uma só mulher e nunca amarei outra mulher.

6.12.19

Às vezes

Será o homem um animal racional ou um animal que às vezes é racional? Este princípio de século XXI tende a confirmar a segunda hipótese. 

Retratos possíveis

Uma vida dilacerada entre a insónia e a azia. Como não fazia nada até ao fim, vivia com as duas.

4.12.19

Rita

É uma questão de alfinetes que me correm pelas veias e se espetam a cada curva. São muitas as curvas e muitos os alfinetes. As picadas doem e além disso deixam escapar sangue. Os lençóis da cama onde tento penosamente dormir estão empapados. O sangue está quente e peganhento nas depressa seca e arrefece. Formam-se pequenos canais que encarreiram o que me sai do corpo para o chão. Li uma vez que um homem tem quatro ou cinco litros de sangue no corpo mas duvido. Só isso tenho entre lençóis e soalho.

O corpo humano é um poço infinito de recursos, incluindo  os sanguíneos. Há quem prefira sonhos, quem olhe para o passado com saudade, quem se contente com leituras esotéricas num parque ao Sol, raios de luz filtrados pelo verde das folhas e reflectidos pelo da relva. Eu não: prefiro o sangue quente e espesso que os alfinetes nas veias deixam escapar. Devo atrbuir um valor a cada um desses alfinetes: um dia, uma intenção, uma relação amorosa que falhou, as que foram bem sucedidas, os olhares que todos os dias trocava com a senhora da bilheteira da estação de comboios.

Vendia-me o bilhete languidamente, fazia tudo o que podia para me tocar a mão por baixo da divisória de vidro que nos separava. Um dia, com o troco vinha um pequeno bilhete: "Rita, 912 423 ... Acabo o trabalho às 19h. Espero por si no British Bar".

Rita. Alfinetes nas veias, pelo lado de dentro; percorrem-me o corpo  e espetam-se constantemente. Algo ou alguém os tira e os repõe em circulação. Rita.

..........
Apaga as velas que tem espalhadas pelo quarto, cerca de trinta. Está nua, despiu-se mal entrámos em casa. Deita-se.
- Viola-me, por favor. Não me beijes, não me faças festas. Entra por mim como estou agora, seca. Quero que me doa,  que me magoes, que me possuas a seco como se fosses um alfinete em mim.

(Cont.)

3.12.19

Esquizofrenia, chefias

Uma vez li um ensaio cuja tese era que a hominização aconteceu devido ao aparecimento de traços esquizofrénicos em alguns indivíduos proto-humanos. Graças às características esquizóides, esses indivíduos tornaram-se chefes dos respectivos clãs e tribos e introduziram nesses grupos os primeiros passos para a hominização.

A tese é interessante e o autor defende-a bastante bem. Contudo, sempre hesitei em aderir a ela totalmente. Custava-me associar a génese da  humanidade a uma patologia.

Hoje, basta substituir esquizofrenia por outra doenças mentais para nos apercebermos de que o homem estava  podre de razão. Só lamento não me lembrar do titulo do livro e não ter forma de o procurar.

Adenda: Estes senhores dizem que não, que a esquizofrenia apareceu mais tarde. A ver se alguém faz a pesquisa com outras patologias.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5231388/

2.12.19

Teste

Qual é o melhor critério para definir a solidão:

a) a ausência de um corpo;
b) a ausência de olhos que nos leiam;
c) a ausência de ouvidos que nos oiçam?

Louvor e simplificação de L. Cohen

Com a absoluta e inescapável excepção de Leonard Cohen, a canção aborrece-me. Seja ela Marianne Faithfull, Nico, Bob Dylan, folk, rock, pop, the lightning that breaks it, não há uma canção que ao fim de um momento, mais ou menos longo, não me faça ter vontade de ouvir outra coisa.

Acabo de descobrir a razão: não vejo a relação entre as canções e a vida (mais uma vez, exceptuo Leonard Cohen). Um gajo ouve os Pogues, os Steeleye Span, Zappa, Doors, isso tudo e o que obtém é uma visão parcelada da vida. (O melhor de Zappa são os instrumentais - Shut up'n play yer guitar é um álbum fabuloso, por exemplo.)

O único cantor que consegue embrulhar a vida toda numa canção é Cohen. O resto não passa de lanternas que alumiam uma parte do caminho mas nos deixam às escuras nas outras. 

1.12.19

Foi às seis e meia da tarde do dia 1 de Dezembro que N. entrou por um túnel de que desconhecia a saída. Fê-lo empurrado pelas contracções daquilo que para ele era, à altura, o mundo exterior. Entrou de cabeça, chorou quando saiu, nada sentiu quando lhe cortaram o cordão que, por precaução, deixara ligado durante a travessia. Faz hoje uma incerta quantidade de anos: N. não se lembra do evento, nunca ninguém lhe disse a data completa e só sabe que tudo aconteceu num dia 1 de Dezembro porque recorda vagamente algumas conversas domesticas.

N. é órfão de pai e mãe. Morreram cedo, acidente de intoxicação colectiva num restaurante que lutava pela igualdade dos sexos. Distribuía veneno igualmente entre homens e mulheres, desde que lá fossem jantar em casal. Um homem ou uma mulher sozinhos não corriam riscos: o dono do restaurante acreditava na divina providência e achava que se alguém lá ia comer sozinho morreria em breve, atropelado, vítima de um enfarte cardíaco ou de uma bala perdida durante uma luta entre gangues, frequentes naquela cidade.

N. cresceu sem saber em que ano teria nascido (usava o condicional. Não tinha a certeza de ter nascido).

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N. não sabe a sua idade exacta, mas aprendeu a viver com isso. Vai ajustando o tiro: quando lha perguntam, diz um número, baseado em experiências anteriores. Se a resposta for «Pareces mais novo», faz uma nota mental para a aumentar a próxima vez; raramente é «Pareces mais velho» mas quando é não liga. Prefere aproximar-se da verdade por um lado só, questão de simplificação e equilíbrio emocional: «Preciso de manter um certo controlo sobre estes processos», sendo "processos" uma definição vaga e ampla das suas interacções com os outros.

Em adolescente leu Camus de fio a pavio. Guardou apenas uma frase: «é preciso imaginar Sísifo feliz e livre.» É isso que tem gasto a sua vida: a fngir que é feliz e livre. Pensa vagamente em Borges: «Todos acabamos por nos parecer com a imagem que os outros fazem de nós.» Seria provavelmente a isto que se referia quando pensava nos processos sobre os quais queria manter algum controlo: aproximar-se da sua idade "por baixo".

A vida afectiva de N- era caótica. «A minha casa parece um escape room, com a diferença que elas não pagaram para dela fugirem o mais depressa possível.» Casa sendo aqui uma metáfora para coração, vida, amor, afecto, carinho, desejo. Por vezes pensava em Joseph Heller: "Yossarian was in love with the maid in the lime-colored panties because she seemed to be the only woman left he could make love to without falling in love with." Yossarian era da mesma idade do que N. ou lá próximo e teria lido Camus também, se não fosse uma personagem. «O autor, Heller leu de certeza», consolava-se. «...and he did not hate his mother and father, even though they had both been very good to him.»

Como poderia N. odiar mãe e pai se nunca os conhecera?

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Fazia compras aos sábados de tarde porque achava as mulheres de sábado mais bonitas do que as dos outros dias.


(Cont.)

Cláudia R. Sampaio

"Vou escrevendo a minha verdade
sem que nela reparem
sem que dela saiam salvações ou cânticos

A minha verdade é calma, invisível
e mesmo que seja o candelabro aceso
é o que me afasta de mim

Vou rolando alma fora como um Sísifo
Vou roendo os lugares, como eremita findo

...

Onde estão os Poetas que morrem a cada verso?

..."

In ver no escuro, ed. Tinta-da-China

Foz, rios, tolerância, etc.

A senhora da imagem chama-se Greta, nome que resultou de um acordo duramente negociado. Tem como função dar penduro à minha roupa e provar que uma só foz pode acolher dois rios.



Luz, tempo

Estou a fazer uma escultura com velas. Uma escultura feita de luz e de tempo. Enfim, muito tempo e pouca luz, mas com um bocadinho de sorte e muito tempo ficará bonita, espero. Aqui fica um registo do início.

NB: o rum e o café não fazem parte da escultura propriamente dita. São ferramentas auxiliares, apenas.