31.5.21

Diário de Bordos - Bissau, Guiné, 31-05-2021

A questão é simples: ou penso na glicemia e mando lixar-se a dor na anca, ou penso na anca e manda o açúcar para o raio que o parta. Faço como fez o outro com o bebê e mando os dois para o diabo que os carregue. Não vão ser uma algia idiota ou um açúcar invasor a impedir-me de viver a minha vida. Se ela tiver de ser mais curta, mais coxeante ou mais ou menos qualquer coisa, que seja. Vou ao Papa Loka beber uma caipirinha  (sem açúcar) e ando tão longe quanto consigo. O resto vai de táxi, que é para isso que eles servem.

Adenda: não precisei de táxi nenhum. Os comprimidos devem estar a fazer efeito.

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África sendo África, estou agora como estava quando cheguei: ainda não sei quando será a entrevista com o ministro. Será sempre assim: o tempo é sinuoso, por estas bandas. Como os meandros dos seus rios ou o andar das suas serpentes. Já gostei mais. Isto é: já tive mais paciência para suportar esta capacidade de nos pôr no nosso lugar. Em nenhuma parte do mundo que conheço "o que é" tem tanta força como aqui. É assim, ponto. A ideia de que se fosse diferente seria melhor não passa sequer um milésimo de segundo na mente de quem decide: é assim. Ouvir um político africano falar do bem comum (como ouvi hoje, com a ressalva de que não sei se era um político ou um funcionário) é tão risível como ouvir o Papa discursar sobre o Kama sutra. 

A lógica das interacções é diferente, obedece a outros critérios. Penso que tenho sorte, apesar de tudo: conheço essa lógica, sei interpretá-la e lidar com ela, sei que tenho stocks infinitos de paciência. Tal como sei que quero muito a este projecto, do qual tive a ideia há pouco menos de quarenta anos. Uma vida é muito tempo, tempo demais para a ceder à impaciência. 

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A vida é cara. O "hotel" onde estou (aspas para sublinhar a generosidade) custa o dobro do que custaria o seu equivalente em Portugal. As refeições são quase ao mesmo preço. Verdade que ainda não me aventurei pelos circuitos locais, mas o restaurante onde hoje jantei não deve ver muitos meninos das ONG (e muito menos funcionários das OG).

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Ninguém - nem uma porra duma anca - me tira o prazer de um passeio à noite por estas ruas largas, arejadas - há uma térmica que entra ao princípio da tarde e se esvai ao princípio da noite, mas parece-me que o vento de agora é sinóptico. Vejo a condução, muito mais ordeira do que a de Kinshasa mas mesmo assim excitante e tenho vontade de conduzir. As pessoas ignoram-me totalmente, que é o melhor sinal de segurança. Sou tão transparente como nas Caraíbas. Não há miúdos a perseguir-me nem homens a interpelar-me, há mulheres nas ruas. A tentação de deixar o modo "trópicos" é grande e cedo-lhe facilmente, com a excepção do atravessamento de ruas: aqui o automóvel tem a prioridade de um cavaleiro na idade média. 

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Foi em África que a hominização começou e a humanidade nunca parou de aqui regressar. Talvez no fundo seja na África sub-sahariana que se encontre o cerne do homem, com o que tem de pior e de melhor. A essência do homem, como diria um filósofo alemão. 

Diário de Bordos - Bissau, Guiné, 30-05-2021

A fatiga começa a esbater-se, substituída pela depressão post partum. Isto é a entropia a fazer o seu trabalho: não houve entrada de energia, só houve saída. Duas sestas, uma pré e a outra pós-prandial, um almoço de Philadelphia steak (a versão americana do nosso prego) no Royal Hotel, o cinco estrelas onde consigo trocar dinheiro em cartão por dinheiro em notas a um preço que me parece elevado mas é o único que encontrei até agora (admitidamente, não procurei outro). Acessoriamente, tem sinal, coisa que o meu hotel não tem. O jantar foi no restaurante A Padeira Africana, um restaurante português cujo menu tem a variedade e originalidade dos de uma tasca de Lisboa mas que tem a vantagem de ter um bom vinho da casa, de o prego no prato ser correcto e a deprimente desvantagem de os empregados andarem de máscara. Ontem, no Dona Fernanda, o senhor pôs a coisa na cara quando me viu e substituíu-a por um sorriso daqui até à Lua quando lhe disse que não precisava daquilo para nada.

Contratei um táxi para me passear pela cidade. O chauffeur chama-se José, é muito alto e magro e disse-me (com aparente orgulho) a sua etnia, que infelizmente esqueci. Os táxis estão algures a meio caminho entre os do Zaire - uma espécie de museu de arqueologia industrial ao vivo - e os de Bujumbura ou Maputo, mais bem tratados. Estou à vontade com este sistema de táxis colectivos, um aproveitamento de recursos muito mais inteligente do que os nossos, em que uma pessoa ocupa o lugar de quatro. Cheguei ontem e não tenho ainda muito onde me apoiar, mas quando fui jantar o taxista perguntou-me se eu queria companhia, interpretei mal e disse que não e lá fui sozinho no carro. Paguei o triplo do que o homem do hotel me disse que ia pagar, devido a essa má interpretação. A pergunta referia-se a companheiros de viagem e não àquilo que primeiro pensei. 

Na União Soviética (ou melhor, em Nakhodka. Em Tuapse não me lembro) era ilegal andar sozinho no táxi, mas pagando os quatro lugares conseguia-se. No Panamá os táxis também são colectivos, mas eu alugava um ao dia, fiquei amigo do chauffeur e ainda hoje me lembro dele e me pergunto se está bem. Qualquer dia pergunto-lhe, saberá responder melhor, de certeza. Tenho uma lista de números de telefones de táxis por esse mundo fora de fazet inveja às páginas amarelas da galáxia. 

A arte da pirueta, da resposta rápida, da ironia não é tão valorizada aqui como no Zaire.

A pobreza num continente que tem o potencial deste é irritante, como é a do Brasil, por exemplo. Hoje comprei um livro de contos populares guineenses e duas cartas. Paguei uma pipa - não digo quanto por recato - após uma rápida barganha, que perdi, claro. Sou um teso, mas aos olhos do rapaz que vendia os livros na rua passo por milionário. O erro de que falava ontem é nos dois sentidos: eles vêem-nos como nós nos vemos quando aqui chegamos.

Em Moçambique, o meu Pai proibia-nos de pedir o que quer que fosse aos empregados, com a explicação - legítima - de que era ele quem os pagava e não nós, as crianças. Aprendi muito com Ele - quanto mais envelheço mais me apercebo disso e Lho agradeço - mas esta é uma das minhas mais queridas lições. Por muito que me tenha custado. É provavelmente ao meu Pai que devo este daltonismo, esta incapacidade de ver a cor da pele da pessoa com quem estou a falar. (O qual daltonismo ainda recentemente originou um episódio cocasse, de passagem seja dito.)

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Depois do jantar fui para o hotel, mas as duas sestas deram a sentir os seus efeitos e voltei a sair. Bebo caipirinhas no restaurante Papa Loca, uma espécie de reconstituição africana de um diner americano. O menu é chato como a cabeça de uma adolescente. Penso nos menus polifacetados dos restaurantes de Buja e digo-me "Pensas demais, rapaz. Tens demasiada carga no carrinho de mão da memória. As duas palavras chave são aqui e agora. Esquece todas as outras."

Obedeço.

PS - Uma brasileira duvidaria da ortodoxia destas caipirinhas. Eu aprecio-lhes a qualidade, esplêndida. 

30.5.21

Luso Magyar News - DEBATE, GUINÉ, MISCELÂNEA

A primeira indicação que me deram foi um italiano, uma pizzaria aparentemente muito boa. É verdade que a minha repulsa pelas pizze se atenuou bastante e até me acontece comer uma, quando o rei faz anos. Mas daí a ir jantar uma pizza logo na primeira noite em Bissau vai um passo de gigante. De maneira fui jantar ao restaurante D. Fernanda, encontrado via a habitual estratégia de perguntar a um local de uma classe social não muito elevada «aonde é que V. Leva a sua mulher a jantar, quando lhe quer oferecer um bom momento?» Normalmente funciona. Desta também, apesar de não acreditar que o senhor a quem fiz a pergunta – um empregado do bar do hotel onde finalmente consegui levantar dinheiro – já lá tivesse ido muitas vezes. Pelo menos, a julgar pelas outras mesas.

O restaurante é grande, circular, tem talvez umas dez mesas redondas elas também. Quando cheguei estava vazio, mas pouco depois entrou o inevitável casal «inter-racial» e, mais tarde, uma família claramente com massa, francófona (isto soube quando saíram. As mesas estão demasiado afastadas para se ouvir seja o que for). O menu é relativamente pobre, o serviço lento mas atencioso. O empregado encheu-se de cuidados para servir o vinho – um Gazela que a cinco ou seis euros me pareceu a melhor escolha da parca escolha que o D. Fernanda propõe. Gosto destes restaurantes africanos e ponho-me a comparar – como seria, no Burundi, no Zaire, em Moçambique? Pouco diferente. Haveria talvez mudanças na dimensão – no Burundi seria mais pequeno –, na pavimentação – este é em ladrilho - , e pouco mais.

África não é um país, mas há mais semelhanças de país para país do que há diferenças. Será? Não sei, não os conheço todos, longe disso. Vejo uma grande diferença, por exemplo: a segurança. Aqui, dizem-me e eu sinto, posso andar em segurança na rua tanto de dia como de noite. Em Bujumbura nem atravessar uma rua se podia. Em Kinshasa idem. De resto, tudo é igual: o pó vermelho-ocre que cobre a cidade de uma cor uniforme, os magotes de gente em todo o lado, o desperdício. Há ruínas e restos de automóveis, casas, barcos em todo o lado. É uma das consequências da «ajuda» ao desenvolvimento: tanto quem dá como quem recebe extrai mais benefícios da doação de um autocarro do que da sua manutenção. O resultado é isto: carcaças de autocarros, restos de embarcações, casas em ruínas por todo o lado. O senhor que está à frente do projecto que aqui me trouxe, político, familiar do governo diz-me que este está a preparar uma lei para obrigar as pessoas a acabar as casas, não as deixar a meio. Não respondo, mas penso que não é assim que se vai lá. Ninguém deixa uma casa a meio se tiver meio de a acabar. Não é com leis – muito menos absurdas – que se impõe a estética da classe dominante. É dando às outras a possibilidade de lhe aceder.

Mas da Guiné falarei no próximo capítulo, quando isto estiver mais visto. Hoje preferiria falar do debate – ainda só tive oportunidade de ouvir dois painéis, o que representa cinquenta por cento. É pouco, mas suficiente para poder dizer que os meus objectivos foram atingidos: pôr pessoas literatas, capazes de reflexão e de elaboração do pensamento a discutir assuntos complexos. Acabamos de passar pouco mais de um ano em que as emoções tomaram o controlo do debate público e social. É tempo de voltar a deixar entrar a racionalidade. O processo foi alucinante, os dias que antecederam o debate não foram dias, foram alucinações, mas agora tudo parece acalmar. A entropia faz o seu trabalho, a calma reinstala-se.

O que mais me surpreendeu neste debate foi um zé-ninguém como eu ter conseguido reunir um leque de gente como a que se juntou nesta sexta-feira. (O debate pode ser visto na página do Facebook da Oficina da Liberdade – 1ª parte: Facebook; 2ª parte: Facebook.) Quando tiver tempo – e internet – tentarei pô-lo num canal do Youtube e no meu Don Vivo.) Bem sei que tive o respaldo da UAL e, mais tarde, da Oficina da Liberdade – a quem aqui deixo, uma vez mais, o meu agradecimento – mas o osso do trabalho estava feito. Não digo isto para «armalhar» (como se dizia em Moçambique), mas porque penso que o tema era necessário e se impôs de per si.

A minha vida sendo o hino à ironia que é, só consegui assistir a um painel, o último. Agora estamos sem rede (não sei se só no hotel, se em todo o bairro, ou toda a cidade) e terei de esperar para ouvir os outros dois.

II

Enquanto espero pela net, penso numa das coisas que mais me irrita em África: qualquer borra-botas europeu, por jovem e ignaro que seja, chega aqui e imagina-se um misto de Rockfeller com Einstein. Vi muitos assim: lembro-me perfeitamente do puto suíço acabadinho de sair da universidade a dar «lições» a um engenheiro zairense com idade para ser pai dele. Hoje, no meu passeio pela cidade, passei pelos inevitáveis sinais das organizações «não governamentais»: jeeps, sedes, miúdos de pouco mais de vinte anos a pavonear-se ao lado dos chauffeurs. Se os governos europeus quisessem realmente ajudar os países africanos, parariam com esta palhaçada toda. Não querem. A ajuda humanitária tornou-se uma ferramenta da política externa dos países «doadores» (termo do jargão politiquês). Basta verificar as contas das auto-proclamadas Organizações não-governamentais e ver qual a percentagem do seu orçamento que vem dos governos. O «Não-governamentais» é a expressão de um desejo, não da realidade. (Quando é um desejo. Nem sempre nem desejo é.)

  

Luís Serpa, Bissau, 30-05-2021

Debate «Comunicação social: liberdade de expressão e responsabilidade social»

 1ª parte

2ª parte

25.5.21

Publicidade

À atenção das empresas publicitárias: Não seja gay. Seja Mount Gay.

Ausências, descobertas

De como as ausências conduzem a descobertas: o senhor não tem medronho e o whisky Pig's Nose é inesperadamente bom. 

A visibilidade das coisas

As coisas são como são, não são como são,  são mas não se vêem, vêem-se mas não como são... As combinações são múltiplas, mas não é hora para discutirmos a visibilidade ou invisibilidade do ser ou não-ser das coisas. Temos que abordá-las como as pinças manejam as brasas no fogo: aceitar que as coisas são como são e não como queremos que sejam; e revoltar-nos por não serem como deviam ser. Devemos tornar visível o invisível, jogar às escondidas com a nossa inabilidade fatal, como lhe chamou o Arthur no inferno. Ou terá sido nas Iluminações? As coisas também são o que a memória faz delas, ou desfaz. Uma biblioteca é uma memória de papel, tinta e cola. Numa biblioteca, as coisas são como queremos que sejam. Basta escolher o livro certo.

Sólo una cosa no hay. Es el olvido.
Dios, que salva el metal, salva la escoria
y cifra en su profética memoria
las lunas que serán y las que han sido.
 
Ya todo está. Los miles de reflejos
que entre los dos crepúsculos del día
tu rostro fue dejando en los espejos
y los que irá dejando todavía.
 
Y todo es una parte del diverso
cristal de esa memoria, el universo;
no tienen fin sus arduos corredores
 
y las puertas se cierran a tu paso;
sólo del otro lado del ocaso
verás los Arquetipos y Esplendores.

O soneto chama-se Everness e é daquele senhor que percebia mais de bibliotecas com os olhos fechados do que o resto do mundo com eles abertos. Só os livros, a memória, as palavras podem resolver o dilema das coisas serem ou não serem como são ou não são. Deixemos a vontade fora do palco. Ela é o espectador que da plateia assobia ao actor ou ao músico que fez uma fífia. 

(Tu és o actor, o músico.)

23.5.21

LMN 5 - Pertença

 

PERTENÇA

 

Escrevo estas linhas em Mértola, numa noite de sábado, depois de um jantar no Tamuje.

Porque menciono tudo isto? Porque, suponho, estas três coisas estão ligadas. Mértola, escrever a um sábado o que tinha planeado escrever na quarta ou o mais tardar quinta-feira, Tamuje. Não sei se já vos aconteceu chorar por estarem a comer uma coisa excepcionalmente boa. A mim já, se bem raramente. Uma dessas vezes foi no Tamuje, com um coelho em vinho tinto. Hoje aconteceu de novo com um ensopado de cabrito. Chorar porque se está a comer algo de particularmente bom deve parecer esquisito, eu sei. A mim parece, mesmo enquanto choro. É a comoção, a mistura de sabores, este sentimento inefável de que algo nos liga à terra e essa ligação tem – neste caso – um nome: senhora Ana Isabel. Quando esta senhora morrer vai para o céu dos cozinheiros e para o céu dos apreciadores de comida e provavelmente para muitos outros céus, não sei. Para os dois primeiros vai de certeza. Só espero é que não seja muito em breve. Que a ceifeira leve o seu tempo. Cozinhar cabrito é difícil: tem que se tirar o gosto a cabritum, (a minha Mãe dizia carnum) sem tirar o gosto à carne e dar ao palato o gosto dos condimentos. Há coisas que me fazem chorar e uma delas é um ensopado de  cabrito bem feito.

Mértola: a questão é a da pertença. De onde venho? De onde sou? De onde quero ser? Uma vez morei no Príncipe Real. Um sinaleiro fazia parar o trânsito todo para me deixar passar na bicicleta. Sentia-me um misto de M. Hulot e Jean Gabin. Por causa desse sinaleiro escrevi um texto sobre as emoções, sobre a pertença. Venho a Mértola esvaziar a casa, na qual terei talvez dormido vinte noites em dois anos. Ou terão sido trinta? Não creio. Pensei que seria fácil: foi só o hotel de cinco estrelas mais caro que já experimentei. Não foi, não é. Isto é uma casa, foi a minha casa, por pouco que tenha sido. Revolta-me ter de a deixar, não pela casa mas por mim. Não quero. Somos de onde queremos ser e eu quero ser de Mértola. Somos de onde estão as nossas coisas, somos de onde estão os nossos, somos de onde estão as nossas memórias, somos de onde um dia nos repousamos. Pode ser Mértola, Lisboa, Genebra, Palma, pode ser onde for – desde que tenha um nome, uma latitude e uma longitude. Mértola tem essas coisas todas e tem beleza. Não poderia ser de um sítio feio. Nunca serei de um sítio feio.

No armário estão umas centenas de livros por ler, nas janelas cortinas rasgadas e comidas pelos ratos, em todo o lado fotografias de mim e dos meus. Amanhã começo a desmontar a casa e é como se começasse a desmontar-me: não quero. Não estou a deixar Mértola: estão a arrancar-me Mértola de mim, a cru, sem anestesia.

Durante muito tempo pensei que somos de onde estamos. Se estou no Panamá sou panamiano, se no Brasil brasileiro, se na Itália italiano. Depois comecei a ver os limites dessa teoria, que são sobretudo de ordem temporal e linguística. Para ser de algum sítio tenho de lhe falar a língua e de lá estar alguns meses. (No mínimo, digo agora sabendo que é n’importe quoi, três meses.) Ou seja: não sou de onde estou agora, por acidente, acaso, desígnio ou – não é impossível – vontade. Sou de onde quero ser, de onde estão as partes de mim que querem ser «de mim», de onde me quedei. Mértola está cheio delas, de partes de mim, de mim.

Partes de mim: a música de Cecil Taylor que agora escuto. As fotografias para as quais tento olhar de raspão, como se pusesse o dedo grande do pé na água para lhe ver a temperatura e nada mais; as hierbas secas que bebo sem gelo porque não há gelo. Os livros. Se Walt Disney me conhecesse faria a piscina do Tio Patinhas com livros em vez de notas. A ideia de que amanhã começo a empacotar tudo isto, como um assassino arruma os membros da vítima que decepou e cortou em pedaços.

Não se pode dizer que a cada partida cortamos um pouco de nós: para isso ser verdade, a cada chegada juntaríamos um pouco a nós, não é?

É. Partir é um desmembramento e chegar um re-membramento. Questão simples de os equilibrar. (Gosto da palavra simples... É a melhor das ironias, das metáforas, dos eufemismos, dos subentendidos.)


Bebimos, en la sombra,
Nuestros llantos
confundidos…

Yo no supe cuál era
el tuyo.
¿Supiste tú cuál era el mío?

(Juan Ramón Jiménez, in Diario de Poeta y Mar)

Assim se entra numa noite: pés juntos, mãos serradas, tronco em pedaços, alma fragmentada em tantos bocados, cada um deles à procura do sítio ao qual pertence.

 

(Para o C. M. F., com um abraço.)

Luís Serpa, Mértola, 23/05/2021

21.5.21

Tempo, lutas

O tempo ganhará, claro. Ganha sempre, como os casinos e as mulheres. Mas uma coisa é certa: não nos renderemos sem lutar.

20.5.21

Catabáticos metafóricos

Dos vários tipos de ventos, o mais interessante - a meu ver, claro. Não vejo pelos outros - é o vento catabático. É um vento provocado pela gravidade. Acontece nas montanhas ou nas costas montanhosas. Uma vez passei uma noite à deriva num dinghy minúsculo por causa de um desses ventos, no Portinho da Arrábida. É uma massa de ar que perto dos cumes arrefece, fica pesada e cai. Como se fosse uma pedra: vai pela encosta abaixo, violentamente. No Portinho acontece por volta das onze da noite - são quase sempre nocturnos. Eu ia para bordo no bote de borracha, com um motor talvez de dois cavalos. Quando guinei para o barco o vento pegou em mim e levou-me. O motor não tinha força para o contrariar. Felizmente lembrei-me do baixio que circunda a baía e quando  calculei que estava em cima dele pus o motor a fazer de ferro, amarrado pela bossa. Aguentei ali até a maré subir, eram seis da manhã. Depois fui à rola. Pus o motor dentro do bote e lá fui, já o vento estava mais calmo. Às dez uma traineira apanhou-me e levou-me para Setúbal. Creio que foi a primeira vez na vida que fiquei em choque. Aguentei-me até estar a bordo da traineira, explicar o que se passara e dar o nome e número de telefone do armador (antes dos portáteis tinha uma lista de números na memória). Depois desmaiei e fui assim até casa do senhor, em Lisboa. Viera buscar-me a Setúbal. Por inacreditável que pareça, conseguira dormir durante a noite. Acordava a intervalos mais ou menos regulares para esvaziar a água que entrava - fazia-o com a toalha, que ensopava e espremia até estar a água estar esgotada. Depois deitava-me, todo encolhido para manter o calor (e porque o bote era pequeno) e dormia até aquilo se encher outra vez. Calculo que os períodos de sono eram de meia hora, mas não tenho a certeza.

A última vez que acordei já era dia e já tinha saído de cima do baixio. Não sei onde é que a traineira me apanhou, mas foi bastante a sudoeste. Foi uma sorte, uma das muitas que tive na vida.

Hoje lembrei-me desta história porque estes últimos dias fui "vítima" de um vento catabático metafórico que não me levou à rola - antes pelo contrário, levou-me para um porto seguro. Vítima está entre aspas porque ser vítima da sorte é um oxímoro. Estes dois últimos dias foram um catabático bondoso, auspicioso, maravilhoso. E trouxeram-me à memória a noite em que me lembrei de fazer do motor um ferro, em que tirava a água do bote com a toalha, em que me forçava a dormir porque não havia mais nada para fazer, em que me mantive de pé até à traineira me ver, a agitar a toalha. A nortada arrastava-me para fora e em breve deixaria de haver traineiras. 

Há ventos catabáticos bons e generosos. Mesmo que sejam metafóricos. 


(Para a M. M., com gratidão.)

Telefones, educação

Percebo mal a relação que os portugueses têm com o telefone. Ou então não é com os telefones, é com a educação. 

Palma, pensa

Deixa-te de máscaras, Palma. Deixa-te de palermices. És demasiado bonita para este enxovalho. Revolta-te, cidade. Pensa na luz perdida por essas ruas vazias, nas caras tapadas, crendice herdada dos primórdios da hominização. Pensa, Palma.

19.5.21

Traição, corpo: um aviso

Se alguém, algum dia, fizer uma escala hierárquica das traições, o mais provável é que o primeiro lugar seja atribuído à traição do corpo. Ser-se atraiçoado por si próprio, pelo que se é aos olhos dos outros, "o Luís? É aquele gajo gordo, de óculos. Não te lembras?" "A Ana? Referes-te à boazona do liceu? Aquela por quem andávamos todos doidos?" É uma traição que se sabe irreparável, irreversível,  viagem longa e sem regresso.

Não posso dizer que tenha tratado bem o meu corpo. Mas tão pouco o tratei mal: nunca pus os pés num ginásio, por exemplo (com a possível excepção de um que tinha de atravessar para ir ao duche, em Antigua). Dei-lhe quantidades apreciáveis de álcool a beber - às vezes mau, outras do bom e do melhor. Alimentei-o correctamente: carne, peixe, gorduras animais, picantes, hidratos de carbono. Nunca fui de comidas «saudáveis» (aspas porque cito), excepto na Venezuela e mesmo aí era de fruta que me alimentava. Nunca alinhei muito em verduras - excepto a ratatouille da S., de que guardo ternas memórias. Nunca fiz desporto, com excepção de alguns anos de regatas. O corpo sempre agradeceu e me tratou bem. Salvou-me várias vezes de uma morte certa (não exagero. Foram muitas). 

Apesar disto, desata-se em achaques. Esta dor na anca - que agora sei não ser nem ciática nem artrose, ao menos isso - corrói-me tudo. Vai levar tempo a tratar, disse-me o osteopata, por ser antiga. Disso, o meu corpo pode queixar-se: nunca lhe liguei às maleitas. Não sou hipocondríaco, digamos.

Mas não deixa de ser uma traição. Até agora, aceitou o meu desleixo com bravura e sem demasiadas queixas. Isto de não me deixar estar de pé mais de dez minutos é inaceitável. Mereceria o pelotão de fuzilamento, se não me levasse com ele.

Vou tratá-lo, claro. Mas algo me diz que a seguir a esta outras virão. E de uma coisa pode o senhor meu corpo estar seguro: não vou eu deixar de viver para viver ele. Estamos juntos vai para sessenta e quatro anos e para onde vai um, vai o outro.

17.5.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-05-2021

Logo à tarde tenho duas premières: o primeiro passo para uma réplica do debate em Espanha e primeira visita a um osteopata. Daquela pouco há a dizer, excepto que pouco há a dizer: espero que a experiência acumulada com o primeiro ajude e que não requeira tanta energia nem esforço...

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...Nada disso. Voltamos ao princípio. Das duas estreias, concretizou-se uma: o comboio de um debate semelhante ao de Portugal saiu da estação. Vamos ver até onde chega. A outra - ir a um osteopata por causa de uma dor na pata (não é bem na pata, é na anca, mas não resisti) - ficou para amanhã. É dor velha que de vez em quando reatiça. Desta vez bateu forte e feia. Tenho anti-inflamatórios, mas creio que fazem saltar o açúcar. Amanhã vou ver o homem.

Cada vez me convenço mais de que a evolução não fez bem o seu trabalho e tem muito a rever.

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Parece-me que cedo mais depressa às dores. Ou elas estão mais fortes ou eu menos. Ainda há quem acredite no progresso e desvalorize a entropia. 

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Continuo a não me habituar à farsa das máscaras, mas sou forçado a reconhecer que a uso pouco: na bicicleta não é obrigatório e nas esplanadas também não. Isto é, deve-se mantê-la ate chegar a comida e entre pratos, mas ninguém respeita essa norma. Acresce que há cada vez maior tolerância e já é menos frequente ouvir um «masquerilla» ou ver um gesto para pôr aquilo sobre o nariz.

Armengol, a presidente das Baleares e provavelmente uma irmã gémea de Sánchez (pelo menos, em inteligência) faz tudo para que os turistas ingleses possam vir à ilha. Agora quer manter o recolher obrigatório (passando-o para a meia-noite). Não sou grande luminária a História, mas suponho que não é a primeira vez que há idiotas à cabeça dos países. Só me chateia é ter-me calhado a mim.

Provavelmente cada geração terá a sua dose de sorte macaca.

Atitudes, minorias e inteligência

(Vamos começar por assumir que há só dois lados nesta crise. Não há. São mais. Mas vamos simplificar para depois podermos exagerar, como aconselhava o fundador do Economist - para quem não sabe, durante muitos anos o melhor jornal do mundo. Agora está ilegível.)

Uma das coisas curiosas desta crise é haver em cada um dos lados pessoas inteligentes a queixarem-se de que não compreendem como pode haver pessoas igualmente inteligentes no outro campo. Eu tenho a sorte de não ser muito inteligente (e o azar de não ser esperto, mas isso é outra coisa) mas ter amigos e familiares próximos que o são. Ou seja: conheço bem os mecanismos do QI elevados e ninguém se admira por eu estar do lado da barreira em que estou: os de um lado acham normal que um burro não acredite no "método científico" (aspas porque cito uma das inteligências que inspira este post e pensa que quem duvida da narrativa está ao nível dos indígenas de Bali antes da chegada da Margaret Mead); do "meu" lado ninguém se preocupa com isso, porque se supõe - com uma certa razão - que quem é céptico tem pelo menos a capacidade intelectual que duvidar exige.

Duvidar, não acreditar no que parece evidente, ver para lá das aparências, perguntar-se se jornalistas, governantes dizem a verdade, toda a verdade e só a verdade não exige, verdade seja dita, mais capacidades cognitivas do que o contrário. Exige uma atitude diferente, é tudo.

E essa não tem nada a ver com a inteligência. Aposto que Galileu, Einstein, Max Planck, Newton, Mendel  tinham opositores com um QI igual ao deles. Simplesmente não acreditaram no que viam, no que lhes diziam ou no que queriam que eles acreditassem.

(O facto de o progresso da ciência vir das minorias não implica, naturalmente, que estas tenham sempre razão. Mas isso fica para depois.)

16.5.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-05-2021

O objectivo inicial era simples: baixar o nivel de coiso no coiso. Peguei na matrona (elegante e confortável matrona, diga-se) e fui ao armazém deixar um saco e buscar uma garrafa de gás que deixei a bordo. Amanhã trocá-la-ei por uma cheia. Dali pedalei para Leste, vinte nós de vento ligeiramente pela alheta, céu azul, luz densa dos dias primaveris. Fiquei-me um bocadinho antes de S'Arenal. Aquele último troço é abominável de feio, hotel atrás de beach hotel atrás de beach club atrás de rent-a-bike atrás de «bar, café e restaurante». As palmeiras estavam pálidas e tímidas, mal se viam. A maioria das senhoras adoptou uns horríveis bikinis que desaparecem pelas  nádegas dentro (e em contrapartida deixou de tirar a parte de cima, erro menor se comparado com o outro). Percebo que eles não se vejam a si próprias mas podiam ver o efeito nas outras. É abominável, uma aberração execrável, uma falta de respeito pelos homens oprimidos pelas figuras da beleza. Espero que esta moda passe depressa e tornem rapidamente ao saudável topless, que mesmo nos piores casos é mais agradável à vista do que aquelas nádegas nuas encimadas por um triângulo de pano que não serve para nada se não para provar a existência da fealdade. 

De resto, pouco: o objectivo foi alcançado - medi quando cheguei a casa e estava quase aceitável; a vista de pessoas com máscara começa a provoca-me borbulhas psicológicas graves; o hoummus que comi num desses bar-café-restaurante era mau, mas ninguém espera comer seja o que for decente para leste de Portixol e portanto não me senti particularmente aldrabado.

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O dia do debate aproxima-se. É o culminar de um ano de trabalho, ansiedade, sonhos, angústias e uma esperança: a de que aquilo sirva para algua coisa. 

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O DV vai voltar a ser sobrecarregado com a espuma dos dias, coitado. A censura no Facebook está a ficar insuportável.

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De hoje a uma semana estarei em Mértola. O que aquilo me falta é indescrítivel. A partir do fim do mês vai faltar-me muito mais.

Assim nascem os debates

Em Março de 2020 estava em Lisboa. Sabia que os confinamentos, as «medidas», as restrições estavam para muito breve e vim para Palma a correr. Tinha de mudar de casa e queria fazê-lo antes de essas normas aparecerem e – sobretudo – de ser impedido de viajar. Tive tanta pontaria que mudei na véspera do dia em que começaram. As duas casas eram perto uma da outra, tinha relativamente poucos objectos a mudar (isto é uma piada privada – passei quase nove anos da minha vida a viajar permanentemente com dezassete quilos e para mim tudo o que seja acima disso é excesso de peso) e em quatro ou cinco viagens a pé tinha a mudança feita. Ao contrário do que pensara, não podia ir trabalhar para bordo. Mas havia uma alternativa, bastante interessante, que podia fazer em casa.

Deixava um quarto num apartamento partilhado com um indivíduo que já conhecia e com quem as coisas não estavam a correr muito bem para ir para outro, pequeno, lindo, só para mim, a trinta metros de uma das praças mais bonitas de Palma. A casa era bonita, bem equipada, eu estava optimista como estou em todos os começos, tinha um trabalho apaixonante a fazer – preparar uma volta ao mundo -, estava convencido de que aquilo ia durar dois ou três meses no mínimo (e no máximo) e dizia-me que ia ser como estar num barco a fazer uma travessia um bocadinho maior do que as outras.

Não foi. Ao fim de duas semanas estava desesperado. Só podia sair de casa para ir ao supermercado – duas vezes por dia, a um de manhã e a outro à tarde para ver caras e pessoas diferentes. O interesse pelo trabalho foi decaindo (consegui chegar à Patagónia, mas as últimas «milhas» foram arrancadas a ferros), o meu estado psicológico foi-se deteriorando. À minha volta – física e virtual – só via pessoas que concordavam com as «medidas» (aspas porque cito); tudo me parecia uma histeria colectiva – os números de «casos» (ditto), de mortes, disto e daquilo. O mundo, de repente, deixou de girar à volta do eixo que liga o Pólo Norte ao Pólo Sul e começou a girar em torno de um eixo que ia da Covid à Covid. Comecei a comprar jornais – três por dia – mas as notícias eram todas iguais, os números todos os mesmos, as opiniões só variavam no nome do autor. Em finais de Março – mudara de casa no dia 14 – comecei a duvidar de que aquilo fosse durar realmente só dois ou três meses. Para não endoidecer, resolvi pesquisar dados sobre a Covid-19, ler opiniões dissidentes, confirmar as opiniões a favor. Durante umas semanas compilei uma tabela com o número de mortes numa dúzia de países, pondo-o em confronto com a população. As percentagens eram baixíssimas, claro (ainda são, por muito que tenham aumentado.) Até que um dia descobri um jovem português chamado André Dias. Descobri-o através de Henrique Pereira dos Santos, a pessoa que há muitos anos me ajudara finalmente a compreender o fenómeno dos fogos. Não sou nem um intelectual nem um cientista, mas não acredito em explicações emocionais, ou ideológicas, ou «oficiais», ou popularuchas para os diferentes acontecimentos. Na altura em que comecei a ler Henrique Pereira dos Santos a tese em voga era a dos incendiários. Nunca acreditei muito nela e as explicações que o arquitecto paisagista dava eram claras, límpidas, lógicas, falsificáveis (?) e – sobretudo – davam azo a que se fizessem previsões. As quais, alguns anos depois, se confirmaram. Com a Covid aconteceu o mesmo: o André Dias e Henrique Pereira dos Santos davam explicações racionais, sustentavam as suas teses com números e gráficos. Lembro-me de que André Dias previu para a semana dezanove o começo do fim das «infecções» e isso ocorreu na semana vinte, ou vinte e um. Ele enganara-se por duas ou três semanas, mas os histéricos (para mim, agora, já sem dúvidas: eram histéricos) tinham-se enganado por infinitamente mais.

Convencido de que estávamos a viver uma histeria colectiva – a primeira histeria colectiva global da História – comecei a investigar esse tema. A primeira coisa que me surpreendeu foi a quantidade de estudos que há sobre elas. São fenómenos bem estudados, relativamente conhecidos – pelo menos nos universos anglófonos e francófonos. Em português não recordo se encontrei algo. A segunda coisa surpreendente que saiu dessa investigação foi a semelhança dos episódios anteriores de histerias colectivas com a que estávamos a viver. Tirando a escala, as similitudes eram bastantes. Mesmo o papel da comunicação social na crise actual – para mim, o princípio do princípio – tinha tido o seu equivalente nos diferentes episódios repertoriados, que iam da Idade Média aos primeiros anos do século XX.

A histeria, o pânico, o medo são contagiosos. Há mecanismos darwinianos que explicam a vantagem selectiva da colectivização do medo. Já para o pânico e para a histeria esses mecanismos são mais difíceis de encontrar, mas a verdade é que muitas espécies têm comportamentos de pânico e provavelmente de histeria ou daquilo que num animal irracional a substitui. Alguma razão evolutiva deve haver. A disseminação da histeria covidiana na espécie humana foi fácil como um incêndio numa pradaria num dia de vento – esse vento sendo, agora, a comunicação social.

Sou um apaixonado pelo jornalismo. É uma profissão que sempre vi com uma certa admiração. A ideia de que a comunicação social era o «quarto poder» e se destinava a escrutinar o que se passava nos outros três entusiasma o anarquista que desde sempre trago em mim. Fui-me paulatinamente afastando dela – ou melhor, esse gosto foi-se pouco a pouco desfazendo – quando começou uma deriva na comunicação social. Tal como a via, essa deriva tinha duas componentes: uma, de modelo de negócio. Passou de ser vender informação para vender emoções; a segunda, de agenda: a comunicação social, de repente – ou não tão de repente – começou a deixar de ter o dever de informar para se impor o de formar. O anarquista racional que sou reagiu como reage à maioria das coisas que o desgostam: afastando-se. Deixei de ver televisão há trinta anos – quanto a mim, a causa da deriva do modelo de negócios foi a televisão – e de ler jornais quotidianamente (quando estou em terra. No mar nunca os li, claro) há mais de quinze. O meu contacto com a imprensa começou a ser indirecto, intermitente, irregular – até chegar a crise da Covid-19. Na minha viagem quotidiana ao Mercat de l’Olivar comprava três jornais – e resolvi que alguma coisa tinha de ser feita.

O quarto poder mudou-se para o quarto do poder, jornais e telejornais tornaram-se correias de transmissão dos governos. Vender emoções já não chega: agora é preciso vender as opiniões dos governos também. Um Diário da República com adjectivos. Nas notícias ninguém mencionava o nome dos cientistas que se opunham à narrativa oficial. Nomes como Ioannidis, Wittkowski, Gupta eram – ainda são – sistematicamente ignorados. Por paradoxal que pareça, as redes sociais (sobretudo o Facebook) tornaram-se a melhor fonte de informação, a que tem um leque mais vasto de pontos de vista, a que aborda os temas mais livre e aprofundadamente. A necessidade de ter perspectivas diferentes sobre qualquer coisa desapareceu da comunicação social. Pior, o circuito fechou-se: os media alimentam o medo, os governos reagem, os media transmitem as reacções, o medo aumenta, os governos carregam ainda mais nas medidas, os media sobrecarregam no medo – e no meio deste vórtice temos uma população em pânico e uma indústria farmacêutica que esfrega as mãos de contente, laboratórios de análises que facturam num mês aquilo que dantes facturavam num ano.

Estas certezas começaram a crescer em mim. Tornei-me aquilo a que media, políticos e populaça chama «negacionista». É difícil dizer quanto odeio este termo, quanto penso que tratar de negacionista quem não alinha na corrente é uma forma de roubar dignidade àquilo para que o termo foi criado. Tomei várias decisões: uma delas – para mim a mais importante – foi não me envolver nos debates epidemiológicos e estatísticos. Posso, isso sim – e fi-lo – debater os aspectos políticos, sociais, humanos da crise. Posso comparar o Texas, a Florida, o Dakota do Sul, a Suécia com a Bélgica, a Itália ou a Espanha (mesmo sabendo que as comparações entre países são absurdas, ou pelo menos fazem pouco sentido. Mas para o que é – perguntar a um jornalista porque é que ele não menciona o Texas e só compara a Suécia com os vizinhos nórdicos, sem sequer se dar ao trabalho de investigar a mortalidade em anos anteriores, isto é, de contextualizar – chega).

Até que um dia a inevitável pergunta chegou: «E se eu estiver enganado?» Um dos maiores navegadores de todos os tempos – Joshua Slocum, o primeiro homem a dar a volta ao mundo sozinho num veleiro – dizia que são os capitães demasiado seguros de si próprios que perdem os seus navios. Não há em mim certeza que não venha de mão dada com uma dúvida. A solução era óbvia: pôr os dois «lados» em confronto, à luz de dois ou três conceitos que são, para mim, o cerne desta questão toda: a liberdade de expressão, a responsabilidade social, a ética – tantas vezes esquecida mas fundamental para a vida em sociedade.

Assim nasceu o debate (que começou por ser colóquio) «Comunicação social: liberdade de expressão e responsabilidade social». Há um ano, mais coisa menos dias. De uma certeza, uma dúvida e da vontade de as confrontar.


Luís Serpa, Palma, 15-05-2021

(Artigo do Luso Magyar News de 16-05-2021)

Léxico, liberdade et al.

As palavras não fazem o mundo em o desfazem. Limitam-se a fazer-nos no mundo, tecer a relação que temos com ele, com a sua história, com o que desejamos ou esperamos dele. Trocar cego por invisual não dá vista a quem não vê, mas dá a quem faz a troca uma ideia do mundo e de si próprio. Ideia essa que depois exporta a quem o ouve ou lê.

O problema começa nessa exportação, em querer torná-la obrigatória. Admitidamente,  uma sociedade tem regras às quais é preciso aderir; e as palavras evoluem semanticamente e hoje têm um conotação  - e frequentemente uma denotação - diferentes das que tinham ontem e terão amanhã. Isso é aceitável. 

Só contesto é que me imponham regras em nome de um mundo que não vejo da mesma forma que quem mo impõe. Contesto que me imponham um vocabulário em nome de uma visão do mundo que não partilho. Não há ninguém mais tolerante do que eu a respeito do que cada um faz com o seu corpo. Essa liberdade que reivindico para mim, essa tolerância com que recebo o outro manifestam-se no meu vocabulário. Sobretudo quando estou em minha casa. Quando não estou, adiro às regras do anfitrião.  Mas adiro voluntariamente, porque quero aderir, porque acredito em determinados valores comuns. Não por que alguém no impôs. 

"A liberdade consiste em cada um poder escolher as suas prisões", disse não sei quem. A liberdade consiste em cada um poder escolher o seu léxico, acrescento eu.

14.5.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha. 14-05-2021

Copos pré-prandiais em casa do J. C., tapa tardia na Chinchilla. «Sirvo-te porque és tu, senão já estaríamos fechados», diz-me Andrés. «Eu sei. É por isso que estou aqui», respondo com toda a sinceridade possível, que é muita. R. - a mulher de J. C. e uma dessas que tem a sorte (ou o azar) de ser macho por via do casamento com um amigo - disse-me que se quisesse mudar do antro onde estou e ir lá para casa teriam um quarto para mim. J. C. já me tinha proposto o seu carro, para quando eu precisasse. 

Na Chincilla como uma tapita de ibérico com dois copos de Ribera e penso na sorte. Isto anda tudo ligado.

Ou desligado.

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Hoje havia mais gente na rua depois da hora do recolher obrigatório. A vida retomará a primazia, mas os fdp que nos trouxeram aqui não serão punidos. Nunca: entre a liberdade de expressão e a legitimidade democrática encontrarão sempre um escudo. É revoltante, mas é assim. O contrário seria pior. Por muito que imaginar «pior» seja difícil. Talvez na Coreia do Norte, na URSS ou em casa do Dr. António Costa. (Isto é injusto, eu sei. Há centenas de Costas por esse mundo fora. Uns piores - poucos - outros melhores - imensos)

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Precisar de uma casa para os livros é pecado? Se sim, para que religião?

13.5.21

Magma, vida

Questão de um gajo se ir deitar e dormir, sem dúvida. Saltar à corda com os lençóis, sonhar com os sonhos, pensar que se dormir o mundo não acaba, que entre um par de mamas a voar e o Miles Davis nos ouvidos mais vale o tinto no copo, que amanhã só é diferente de ontem porque ontem morreu e amanhã está por nascer, que estas coisas todas misturadas não fazem uma vida e separadas tão pouco. Nada faz uma vida senão a vida ela própria, faz-se a si mesma como uma mulher nua na cama ao teu lado. Davis, vinho, a vaga ideia de que o tempo é um andaime tão fino como os de Klee e nele somos os funâmbulos instáveis, quase transparentes que desenhou como se pintasse ou pintou como se desenhasse. Façamos um círculo: Klee, Hopper, Miles... Quem estaria no resto das inúmeras diagonais? Garcia Márquez, Yourcenar, Beckett, Borges, Hildegarde, Cohen... Pouco importa. Só interessa saber que no centro estás tu, desolado e nu, desconsolado e feliz (não conheces outra definição de felicidade): o centro do círculo que te povoa os dias, as noites, os sonhos, a memória, o futuro.

O futuro: como fazes para que seja mais hospitaleiro ainda do que o passado? Pensas nos andaimes teóricos que te sustentam os dias: livros, filmes, peças de teatro, músicas, esculturas, teorias, longas conversas na cozinha, à lareira ou ao balcão dos infinitos cafés por cujo chão te arrastaste. Olhas para as horas da noite como se fossem diferentes das outras. 

Sabes que vais morrer e nada fazes nem para retardar nem para acelerar esse momento. Espera-lo calmamente sentado num canto da vida. Que nome dás a esse canto: presente? Passado? Futuro? De repente, descobres que o futuro ocupa demasiado espaço na tua vida e decides trocá-lo por dose e meia de passado e meia de presente. «Em copos separados, por favor», dizes ao barman barbudo e vestido de branco que te serve. Pensas nas mulheres que cobiçaste e não tiveste, nas que tiveste sem quereres, nas palavras que te inundaram as casas todas onde viveste, nas estrelas que te intrigaram, nas noites que passaste no mar a pensar que «não havia ninguém entre ti e a Lua», a decidir que não há mulher que valha um mar mas que um mar as contém todas, felizes e belas. 

Miles, o vinho e um corpo, seja o teu seja outro qualquer dos que te povoam o passado: não escolhas. Engloba-os todos nesse magma a que chamas vida, decerto por não saberes que outro nome dar-lhe. E lembra-te: cada vez que disseres ou disseste «amo-te» foi a esse magma que te dirigiste.

(Para a J. M. V., que introduziu sentido neste caos.)