10.10.07

Salvador da Bahia

Salvador é uma cidade mais feia, do ponto de vista arquitectónico, do que Maputo, e com uma natureza muito mais bonita. Parecem-se muito, furiosamente.

Há porém uma diferença grande: é que em Salvador demoramos algum tempo a interiorizar que o Brasil é um país pobre.

Retratos improváveis

Gostava muito de sexo, mas não gostava do que era preciso fazer para o ter; um dia, descobriu que o mesmo se aplicava a outras áreas da sua vida: o dinheiro, por exemplo.

Verdades essenciais

"Nesta vida absurda e vã, só duas coisas contam: o ócio e o cio". A citação é de memória, mas não deve andar muito longe do original. Vinha numa revista chamada "Viver Bahia" e não retive, infelizmente, o nome do génio que a produziu.

Não estou totalmente de acordo com ele: o ócio aborrece-me, enjoa-me, farta-me. Mas lá que é bela é.

9.10.07

Promessa de casamento

Se me caso contigo? Claro que caso, querida, se me prometeres que nunca me serás fiel e farás tudo para ser feliz.

8.10.07

Bebedeiras

Há várias formas de bebedeira - a pior é quando falta o whisky.

Injustice

Un jour, nous savons tous les deux qu'il ne viendra jamais, je te parlerai de l'injustice. Ce qu'elle est triste et belle, joyeuse et laide, combien est-elle adorable et atroce, insoutenable et répugnante.

Faudrait presque la rendre volontaire...

La légèreté de l'air qui reste

Je suis venu te dire que je ne m’en vais pas. Je reste.

Tu peux en faire une chanson aussi triste, aussi belle que celle-ci, si ça te dis. Tu peux en douter, en rire ou même - qui sait? - en pleurer. Je reste.

Tu peux en faire ce que tu veux, nous en ferons ce que nous pourrons. Je reste.

Je suis venu te dire que plus jamais je m'en irai .





"Quand Gainsbourg se bourre le bar se barre"...

O programa segue dentro de momentos

O DV é um blog que hesita entre a memória e a recusa da memória (ou o prazer do tempo, vá lá); entre a falta de coisas para dizer e a de jeito para as pensar; entre o júbilo simples de um trabalho que se ama, da vela, do mar e da vida (passem as redundâncias) e a dor sem a qual o encanto não passa de uma garotice.

O DV é sobretudo uma porta aberta para a vida, a que entra e a que sai.

Até hoje pensava, por razões várias - como, por exemplo, a idade, uma formação musical deficiente (se comparada à dos nomes que nessa área por aqui pontificam ), uma irrepremível propensão saudosista (alguns diriam reaccionária), uma inabalável paixão pelos trópicos - que tinha o monopólio do Harry Belafonte na blogosfera, passe o execrável termo.

Uma breve irrupção na net demonstrou-me que não: há um blog, chamado Terapia Metatísica (a melhor das terapias, o melhor dos blogs) que hoje me trouxe à memória a música mais jubilatória, mais lúdica, mais leve, mais alegre e com mais humor que conheço.

Refiro-me a isto, claro: .

Ou a isto:



E tudo começou aqui.

Quase

Que queres?, um quase-eu não pode ter muito mais do que um quase-amor para dar.

28.9.07

Fatiga

Estou cansado. Quero dormir-te.

25.9.07

Transat 6.50

O Funchal vai acordar hoje e não vai reconhecer a sua Marina: quase 50 Minis (em 89) já chegaram.

Dias

Longos são os dias em que me faltas, e todos os dias me faltas.

22.9.07

Ler por aí

O Ler Por Aí publicou, simpática e generosamente, um texto meu sobre um livro chamado "Dark Star Safari", de Paul Theroux. A tradução do primeiro parágrafo é de Margarida Branco, editora do site - cuja visita de resto aconselho, apesar de ter aceite (e publicado) a minha sugestão: a escolha de livros é bastante boa, e dá vontade de partir, já.

Começa assim:

All news out of Africa is bad. It made me want to go there, though not for the horror, the hot spots, the massacre-and-earthquake stories you read in the newspaper; I wanted the pleasure of being in Africa again. Feeling that the place was so large it contained many untold tales and some hope and comedy and sweetness, too – feeling that there was more to Africa than misery and terror – I aimed to reinsert myself in the bundu, as we used to call the bush, and to wander the antique hinterland. There I had lived and worked, happily, almost forty years ago, in the heart of the greenest continent.

(Tradução livre:)

Todas as notícias vindas de África são más. Isto deu-me vontade de lá ir, não pelo horror, pelos lugares de guerra, pelas histórias de massacres e terramotos que lemos nos jornais; quis o prazer de estar em África outra vez. Sentindo que o lugar é tão grande que contém muitas histórias por contar, bem como alguma esperança e comédia e doçura - sentindo que há mais em África para além da miséria e do terror - desejava voltar a embrenhar-me no bundu, como costumávamos chamar à savana, e vaguear pelo antigo território. Ali eu tinha vivido e trabalhado, feliz. quase quarenta anos, no coração do mais verde dos continentes.

- Conheço o Brasil, os Estados Unidos, a França e a Inglaterra (e a Espanha, claro), a Tailândia, as Filipinas e África. – Quem nunca ouviu uma frase semelhante a esta?
- África não é um país – respondo sempre. – São mais de 50, mais dúvida menos dúvida. E – acrescento – esses países são diferentes uns dos outros, muito diferentes, tanto como o Brasil dos EUA, por exemplo. África não é um país, são muitos.

Paul Theroux, no fantástico Dark Star Safari, conta-nos uma viagem que fez por terra (com a excepção da primeira etapa, Egipto – Sudão, de avião) - e em meios de transporte “locais” – entre o Cairo e Cape Town. Visitou 10 desses países – Egipto, Sudão, Etiópia, Quénia, Uganda, Tânzania, Malawi, Moçambique, Zimbabwe e África do Sul. Quase todos anglófonos, e quase todos na África Oriental.

Quando Paul Theroux nos fala de um lugar, fala-nos da sua história, dos seus escritores, da sua cultura; tem uma arte especial para “encontrar” pessoas – um dos ingredientes essenciais da literatura de viagens. Ao longo do livro, relata-nos os seus encontros com escritores do Egipto ou da África do Sul, com um Ministro do Zimbabwe ou o Primeiro-ministro do Uganda, que foi seu colega nos anos 60; mas também fala com camionistas, ajudantes de camionista, lojistas indianos, economistas, intelectuais, militares, simples colegas de viagem nos meios de transporte que utiliza – e deles consegue extrair uma frase, ou fazer uma descrição, que nos ajudam a compreender não só o país mas a pessoa. E, outro ingrediente importante, fala dele, também – nada mais irritante do que esses livros de viagem em que o autor parece que não existe, para além da fome, do frio ou das provações por que passou.

Este livro tem, contudo, um aspecto que lhe dá um interesse especial: é que Paul Theroux viveu no Uganda no princípio da independência do país, e viajou bastante pelos países limítrofes. E é por esse óculo que ele observa os países que atravessa. “A economia está a melhorar”, diz-lhe a certa altura um economista, “- está a regressar aonde estava nos anos 70”.

É aqui, parece-me, que reside o grande interesse do livro. Podemos concordar ou não com muitas das opções que o autor apresenta, ou com as análises que faz. Mas é impossível não ver que ele compara uma África que conheceu (e amou, o que não é despiciendo) com a que vê hoje.

Porque se deve levar este livro numa viagem a um (ou vários) países africanos? Por três razões principais: é instrutivo - dá-nos uma visão muito diferente daquela que temos pelos media e pelo zeitgeist; ajuda-nos a ver o que têm em comum (e de diferente) os países africanos; e, last but not least, falando de 10 países do leste africano, fala-nos de um continente inteiro, e de nós.

21.9.07

Luxúria

Deve ser a isto que eles chamam luxúria: esta mistura de desejo e de ti, este arrepio na pele porque se lembra da tua, este tremor pelo corpo todo porque lhe apareceste num canto da memória.

20.9.07

Coragem, optimismo

É precisa muita coragem para se ser optimista.

19.9.07

On est toujours le belge de quelqu'un

Hoje fui acusado de "saloiismo" pelo indíviduo mais saloio, mais provinciano, mais calhau que me foi dado encontrar em muito, muito tempo.

18.9.07

Transat 6,50

A posição dos concorrentes da Transat 6,50 pode ser acompanhada aqui (actualizada duas vezes por dia).

17.9.07

O Insurgente tem uma magnífica reportagem sobre um dos dogmas do nosso tempo: os seguros de saúde.

Curiosamente, eu assisti a tudo o que o documentário diz quando, na Suíça, um ministro conseguiu impor a obrigatoriedade do seguro de saúde.

Peine perdue: não se combate um dogma, nem com factos. Muito menos com factos.

Paráfrase

Se te dás, dá-te todo. Nada de teu esconde, ou exclui.

Assim, solitária a lua brilha, porque como é se dá.

Cinquenta

A única coisa verdadeiramente feia dos cinquenta é que começamos a adivinhar os nossos limites.

(Finalmente ?)

16.9.07

Assimetrias

Dois corpos que se encontram fazem muito mais pelas respectivas almas do que estas, nas mesmas circunstâncias, por eles.

Music for a night of drought



Christy Moore & Shane MacGowan - "Spancil Hill"

...and for an eyeless night:



Christy Moore & Shane MacGowan - "A Pair Of Brown Eyes"

Time for a Bailey's, auld man, and a drop o'whisky

Ship song

A net não é muito diferente da noite: uma pessoa vai à procura de uma coisa e sai-lhe outra, completamente diferente - e melhor, muito melhor.



e.g.:

Rewind

Hoje ouvi, pela primeira vez em duzentos e cinquenta anos (e graças ao Gato de Cheshire) Petula Clark cantar "Downtown".




De tão antigo, e tão bonito, qualquer dia tenho um ataque de gota.

Outro "Downtown":

Manobras

Ha poucas coisas mais bonitas do que ver uma embarcação, seja ela de vela ou a motor, fazer uma manobra bem feita. Há pouco vi uma lancha do big game fishing atracar nesta marina atravancada do Funchal de uma forma perfeita: a rotação no sítio preciso, a força exacta aplicada às máquinas, a tripulação calma, o barco a ir a ré a centímetros do barco que lhe estava ao lado. A malta do big game manobra todo os dias, conhece os barcos perfeitamente - e sabe o que eles custam.

Lembrei-me, inevitavelmente, do tempo em que era eu que fazia as manobras, de quantas vezes pessoas em terra aplaudiram uma atracação mais feliz, ou me vinham cumprimentar depois... Uma manobra bem feita é das coisas mais bonitas que existe, é uma felicidade indízivel, profunda.

Uma boa notícia

"Degelo leva à abertura de rota marítima no Ártico"

Ora aqui está uma boa notícia. Esperemos que os ecologistas a integrem nas suas contas: rota mais curta = menos petróleo consumido. Nem todos os efeitos do aquecimento são negativos.

Nomadismo

Hoje voltei para o hotel no Funchal onde estou desde 26 de Agosto e senti-me em casa.

Hoje, num jornal cujo título, infelizmente, não retive uma senhora ambientalista explica que o CFC, causador, como se sabe ou se recordam os mais antigos, do terrível "buraco de ozono", presente em inúmeros produtos, é cada vez menos usado desde que os ambientalistas, louvados e agraciados sejam, chamaram a atenção do mundo para o seu terrífico poder maléfico.

Explica também que, apesar disso, o dito buraco de ozono teve dois recordes, um em 2000 e outro em 2003. Aparentemente, o ozono está-se nas tintas para os CFC.

Tal como a senhora se está nas tintas para o rigor científico, para a realidade, para tudo o que não seja a sua fé.

A essência de Portugal

Estou, há meia-dúzia de meses, a ler um livro chamado "Mazagão, la ville qui traversa l'Atlantique. Du Maroc à l'Amazonie (1769 - 1783)", de Laurent Vidal (Ed. Aubier, Collection Historique).

É um trabalho histórico sobre um tema magnífico: em 1769 o Marquês de Pombal decide abandonar uma praça forte em Marrocos e transferi-la para a Amazónia. O livro relata, de uma forma magistral, esse processo.

O que mais me tocou foi ver que algumas das características da nossa administração, e da forma como ela se relaciona com os administrados, não mudaram: fazem parte da nossa essência, por assim dizer.

Um condensado perfeito é um parágrafo na página 153, demasiado longo para trancrever aqui. Mazagão já deixou Marrocos, já deixou Lisboa (para onde foi antes de ir para o Brasil) e está na Amazónia. Estamos em 1773 - ou seja, quatro anos depois do abandono - e a Mazagão de 1769 mudou. Não só geograficamente: pessoas morreram, pessoas casaram-se, crianças cresceram e tornaram-se adultas, etc.

Sucede, contudo, que as listas de nomes, famílias, pessoas (aquilo a que a actual indústria humanitária chama "listas de beneficiários") fora estabelecida em 1769 e, inevitavelmente, um conflito aparece entre o que está escrito e o que é. Temos, de um lado, um Governador que insiste em aplicar a lei, baseado nas tais listas; do outro, o Comandante da cidade, que propõe alguma flexibilidade para acomodar as inevitáveis mudanças.

Quem ganha, quem ganhou? Tal como hoje, ninguém. O Governador ganhou alguns rounds, a vida outros. Mas no fim perdem todos. Perdemos todos.

"Failure"

"You need your life to fall apart at some point, and the sooner the better. You must start dealing with failure as soon as you're conscious there is such a thing".

John Lithgow, in FT de 1-2 de Setembro.

11.9.07

Fragmento (La Rochelle)

...Venho a La Rochelle há vinte anos, e há vinte anos que gosto disto. Os sítios mudaram, claro: dantes não havia La Quinta, nem Les Trois Seaux. Havia o Coquelicot, um restaurante vietnamita cujo nome esqueci, e o Piano Pub, o melhor deles todos. Mas o espírito da cidade, esta mistura de marinheiros com burgueses e protestantes, é o mesmo.

O Saoufé está uma porcaria? É verdade - mas há o Part des Anges (um é bar, e o outro restaurante, mas que importa?)

A cidade é linda, com as suas ruas que irradiam do porto em todas as direcções, o porto, e as três docas, em pleno centro. É como se o Terreiro do Paço fosse uma doca para barcos de recreio (uma doca a sério, claro, não uma dessas marinas de plástico, para barcos de plástico, com armadores de plástico, todas iguais, como os "Irish Pub" do estrangeiro).

Espelho

Ontem comportei-me abominavelmente. Há dias assim, que fazer? A vida parece-me abominável, e eu finjo que sou um espelho.

Felizmente, no dia seguinte tudo se recompõe. Isto é, quase tudo: a vida continua abominável; eu é que deixo de ser um espelho.

Demagogia

Eu sei, está na hora de me ir deitar; se bem que deitar-me sem ti não seja bem deitar-me, parece-se mais com morrer, parece-se mais com nada, o nada.

Escrever-te

Apetece-me escrever-te, dizer-te uns poucos dos milhares de coisas que ficaram por dizer, explicar-te que as palavras não são senão a espuma das coisas, dos sentimentos, dos dias, que a verdadeira vida está algures nas nossas peles, nos teus olhos, nas noites que não passámos juntos ou nas que viremos ainda a partilhar, nas emoções que já vivemos ou nas que viveremos, nessa coisa vaga e difusa a que a "inabilidade fatal" chama amor, no desejo tão forte e tão, simultaneamente, incompreensível, nesse vasto vazio que é a tua ausência, a distância; na vontade que tenho de te ver e falar e tocar e amar; és a vida, és a vida das palavras, a pele, o corpo e os olhos delas, és o que lhes está por baixo e por trás, tudo o que passou e o que por aí virá, és todas as sílabas do tempo, todos os fonemas do desejo, uma das metades do ditongo da vida.

Apetece-me tocar-te, e escrever-te na pele as letras do desejo, do amor, do tempo e da vida - são as mesmas.

Tempo

O Don Vivo é, os seus estóicos leitores já se aperceberam, um blog que oscila entre a memória e a refutação da memória, entre a tentação do futuro e o refúgio do passado.

Hoje lembrei-me, durante uma boa parte do jantar, de alguns episódios do meu passado (e contei-os). No fundo, o que queria dizer era: não somos o que fomos, não sou o que fui, tudo mudou - o mundo, eu, vocês.

Não é verdade, claro: não somos impermeáveis ao tempo, mas por muito que refutemos o passado ele habita-nos. Mesmo que já tenhamos "mudado de casa" mil vezes, mesmo que o tempo, para nós, se decline apenas no futuro, por muitas vidas que já tenhamos vivido, há uma parte de nós que transporta tudo o que fomos, e outros foram antes de nós (se não, como explicar a emoção que sinto ao ouvir as Vésperas de Rachmaninov)?

Não habitamos o passado, mas o passado mora em nós. Devo dizer que o passado me enjoa, todos os passados - os que já foram, e os que são hoje. Devo.

9.9.07

"País de merdosos"

Recentemente, o Dr. José Miguel Júdice disse que Portugal era um “país de merdosos”. Caiu-lhe, devidamente, o Carmo e a Trindade em cima: Portugal é não só um país de merdosos mas também – e este faz parte daquele - de não-ditos.

Pessoalmente, acho que o Dr. Júdice está podre de razão. O problema é que eu próprio, por vezes, me sinto um merdoso também; e como penso que não o sou, fico incomodado.

Sendo-o ou não, a verdade é que ultimamente este comportamento tem-me andado a provocar comichões, dúvidas e – sobretudo – uma forte vontade de explodir, e deixar de ser, ou de me comportar como um merdoso.

Claro, dir-me-ão, que não fazer nada e "deixar correr o marfim" é uma simples questão de bom senso; eu penso que não. Penso que é uma atitude cobardola e merdosa. E que demonstra até que ponto o Dr. Júdice tem razão: em Portugal, ser merdoso e cobardola é ter bom senso.

Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado”, dizia Hemingway. Não consigo deixar de pensar que só depois de me reconciliar com a minha consciência voltarei a ser homem.

"Esperar não é saber"

Sempre gostei muito do refrão desta canção, que ouvi pela primeira vez em 1976.




Ontem ao almoço falou-se nela, e eu pensei que se nesse tempo soubesse que a minha vida seria feita de esperas - que a minha vida não passaria de uma longa, interminável, sucessiva série de esperas...

Regresso

"Não sei se foi nos Cantos de Maldoror que li isto".

Agora, que pouco a pouco regresso ao mundo, depois do que me pareceu uma longa estadia nas estepes geladas e sem ar do espaço, reaprendo pouco a pouco as regras do convívio humano; a ler e a ouvir música; quem sou. Tudo isso me esteve vedado estes anos todos. Os cheiros, as cores e as formas deixam de ser todos iguais. E os sentimentos, os sentimentos. A maquineta de fazer esperança recomeçou a funcionar. Ainda tenho medo de a deixar embalar-se - um medo aliás semelhante ao que este novo mundo me inspira: tenho que reaprender a mover-me nele, e pergunto-me se alguma vez o soube...

O passado não é mais do que uma miragem, fumo num dia de nevoeiro, vela acesa no meio de um incêndio. Ao longe um sino toca - "não perguntes por quem; ele toca por ti". Felizes as pessoas que têm um passado.

Eu não tenho. "Regresso" não é o termo certo.

Fragmento

...la machine à espoirs s'est remise en marche.

6.9.07

Sentido

Pouco a pouco o sentido vai aparecendo, como uma imagem difusa num papel fotográfico, ou formas imperceptíveis num longo dia de nevoeiro.

Amor

Nenhum de nós sabe muito bem o que é o amor; tacteamos no escuro, procuramos, procuramo-nos. Mas ambos sabemos, e muito bem, o que é o não-amor.

E para aí não queremos voltar, pois não?

4.9.07

O fim do princípio não é o princípio do fim

Hoje, após muito trabalho, confirmou-se um projecto velho de 4 anos. Portugal é um país onde sem teimosia não se pode viver.

Numerologia

O post anterior foi o 2,222. Este inicia, sem dúvida, uma nova série.

Histórias fictícias

Durante um certo tempo troquei correspondência com uma jovem e, descobri depois, bonita senhora. Muito rapidamente, contudo, ela descobriu quem eu na realidade sou, e afastou-se, educada mas firme e decididamente.

Hoje, anos depois, descubro por acaso que, das poucas óperas que conheço, a única de que realmente não gosto é a preferida dela. Já gostei, devo dizer, e muito - a tal ponto que até a fui ver em Berlim, um dia, estava lá em trabalho; foi quando decidi que não gostava, e adormeci apesar do maestro e da orquestra e da mise-en-scène e de todo o razzmatazz à volta da exibição.

Terá ela sido perspicaz, e o facto de eu não gostar dessa ópera não ser senão um sinal das minhas insuficiências todas? Foi coincidência? Uma sorte (ou um azar, vá saber-se)? Hoje procurei o disco na minha discoteca; mas já não o tenho, deve ter ficado numa das mudanças e andanças de que estou tão cansado, e que tanto contribuiram para me desfazer dos livros e dos discos e de tudo o que tinha. Vou comprá-lo: mas é pouco provável que volte a gostar da obra.

3.9.07

Está cá tudo

Uma das melhores crónicas de um dos melhores cronistas portugueses.

Calmaria

Os mastros reflectem-se tão límpida, tão claramente na água que, dir-se-ia, os barcos estão sobre estacas.

(Se tivesse máquina, teria feito um kitsch e-card from Port la Forêt).

Verde

Gosto do verde dos Açores, que é bruto, indisciplinado, selvagem e inculto; e gosto do verde da Bretanha, tão intenso como o outro, mas mais "domesticado", por assim dizer, mais culto, mais alinhado.

Bela paráfrase de muitas vidas.

Ecologia

Eu até gosto bastante dos ecologistas, e aprovo as suas acções (pelo menos algumas): gosto quando eles defendem a natureza, coitadinha, tão frágil e indefesa que ela é, e as listas que fazem de espécies animais a defender.

Só tenho pena que o homem não faça, para eles, parte dessas listas. Devem pensar que tem origem divina - ou diabólica.

Galicismo - III

Às vezes parece-me, mas é recente, muito recente a impressão, que entre mim e a França só havia o Mitterrand (primeiro) e o Chirac (depois).

Eu sei que é uma ilusão, mas é uma ilusão difusa (ou melhor, diluída), banhada em Armagnac, Clos les Verdots (um tinto de Bergerac com um nariz de terra, um corpo redondo como a Monica Belucci e um fim de boca eterno que bebi ontem, e hoje) - isto para não falar dos queijos, da arte de servir mesmo num minúsculo hotel familiar do cú do mundo, na paisagem, na língua, tão bonita.

E para a semana estarei em La Rochelle - que horror, como resistir?

Galicismo - II

Já não vinha ao norte da Bretanha há muito tempo. Esta mistura de granito e de mar, de xisto e de verde, de ostras e de cidra (não, reconhecidamente, ao mesmo tempo), de pessoas silenciosas e fechadas enquanto não as conhecemos, e de uma hospitalidade e simpatia indescritíveis depois tem sempre o mesmo efeito em mim. Felizmente, lembro-me do clima, e desço à terra.

2.9.07

Galicismo

Um copo de vinho tinto e uma sandes de pâté: não há francofobia que resista a esta combinação mágica.

Minguante

O nº 7 da Minguante está online.

1.9.07

Simplex, Pracex, Portugalex e volta

Nas bilheteiras da estação marítima do Cais do Sodré não se pode comprar um bilhete de ida e volta para Cacilhas. "Compra aqui a ida", informa a solícita funcionária, e "lá a volta".

Discutível, bonito

"O melhor de ser mulher é ser mãe". Bonito, mas discutível: será "o melhor de ser homem" ser pai?

Talvez.

Retratos imaginários

Aquilo não era uma mulher. Era um rabo, com dois sapatos de salto alto, horríveis, por baixo e uma mala rídicula por cima.

Tudo isto enrolado numa espécie de tecido de uma espécie de dourado. Felizmente a música estava melhor do que nunca, e os Bailey's tinham a quantidade certa de whisky.

Sensualidade

A sensualidade, minha querida, a sensualidade. Pensa nisso.

31.8.07

Perenidade

A tristeza tem sobre a infelicidade a vantagem de ser perene.

Handicap

Era surdo, o que num país de não-ditos é como não ter pernas num país de atletas.

Variações

I
Escrevia por desprezo. Autodesprezo, quero dizer.

II
Não se suicidava por desprezo. Autodesprezo.

Introspecção

A introspecção é um exercício perigoso; devia ser restringida a catatónicos profundos.

30.8.07

Ambientalismo

Parar de respirar é uma boa maneira de reduzir as emissões de CO2.

Sorte

Um mudo tem pelo menos a sorte de poder dizer tudo o que lhe apetece.

Retratos possíveis

Não gostava de si próprio: não suportava pessoas que se suportassem.

Penitência

Não nos devemos penitenciar pelos disparates que dizemos: é como pedir desculpa por respirar.

Suicídio

Encher uma banheira de whisky e dissolver-se nele...

Palermices

Como não via televisão, dizia palermices. É mais ou menos a mesma coisa. A diferença é que a ver televisão não se chateia ninguém.

Cansaço

Os dias bons cansam-me muito. Falta de hábito, provavelmente.

Autobiografia

Exausto demais para dormir, velho demais para a introspecção, eu procurava por mim como um cego pela paragem de autocarro, com amplos movimentos da bengala, às voltas no passeio deserto.

23.8.07

Conversas no táxi

- Cuidado, não atropele a senhora, é tão bonita...
- É verdade, é bem bonita. Há tantas, agora.

Silêncio. Um tempo. Tom sonhador:

- Ah. Se não houvesse justiça... comia-as todas. Todas.

Silêncio. Dois tempos.

- O pior é que agora há cada vez mais que sabem karaté, e essas coisas.

Um tempo.

- E eu, para a violência, não sirvo.

O'Luains - II

O meu pub favorito não tem mulheres bonitas. Mas forçoso é reconhecer que os homens tão pouco se aproveitam.

O'Luains

Beber até chorar lágrimas de whisky.

21.8.07

Luddismo

Um bando de ludditas destrói um hectare de milho transgénico; a esquerda do costume simpatiza com eles. Já houve tempos em que a esquerda se afirmava progressista, "científica", internacional. A sua verdadeira natureza torna-se visível, de vez em quando: é (sempre foi) reaccionária, atávica, saloia, "religiosa".

Este luddismo passará, como passou o do século XIX; e outro o substituirá - se calhar, para defender os automóveis contra os aviões, vá saber-se.

18.8.07

Sincronias

O país é lento e teimoso. Infelizmente, é muito fácil ser mais rápido do que ele, e muito difícil ser mais teimoso.

O vento, a morte

Foi o princípio do fim, o crepúsculo de um dia de chuva, a luz branca da tarde a acinzentar-se para a noite, o arco a arrastar um pouco a última nota nas cordas do violino, o olhar que, sem querer, diz "adeus" quando a voz diz "boa noite", a última gota de água de um cantil no deserto; foi isso, e foi muito mais, mas não sabia como explicá-lo, porque nada disso dependeu da sua vontade.

Ns noites de lua cheia deitava-se na areia, ouvia Wagner, bebia aguardente de ameixa, pensava nas noites de Berlim - o café Einstein, a Literaturhaus, as longas deambulações pelo Ku'damm; e não sabia explicar como começou o declínio - lembrava-se vagamente de um sino a tocar, uma vaga na praia, lembrava-se de uma cor (negro, como a ausência) - mas não se lembrava de nada de concreto, uma palavra, um gesto, um cheiro.

Tudo não passou de ar, thin air, os futuros, os passados, os azuis dos dias que se dissolveram em pores-do-sol inconvenientes, deslocados, inadequados. Uma longa e esgotante sucessão de sorrisos mal explicados, de carícias vãs, de silêncios inúteis, de peles que nunca aprenderam a conhecer-se, realmente; de verdades sussurradas em línguas incompreensíveis.

"Restam-me a lua cheia, uma memória que gostaria de esvaziar o mais depressa possível, estas noites numa praia das Caraíbas, a solidão que nunca o é verdadeiramente, porque nunca estamos sozinhos, por mais que o queiramos estar: o passado é o interminável crepúsculo de um dia sem fim. Gostaria de reaprender a dormir; talvez consiga, se o vento deixar de soprar à minha porta, se levar os demónios, finalmente, como pétalas encarnadas, se se calar de uma vez por todas".

É isso: basta calar o vento, para a morte.

Dor

A dor é peganhenta, como um cão mal-educado.

15.8.07

Voltar atrás

Só valeria a pena voltar a ter vinte anos se pudesse levar a experiência toda que acumulei ao longo destes anos. Sem ela, prefiro o que sou hoje ao que era até ontem.

O país estatístico

Portugal agrava fosso entre ricos e pobres para o pior nível europeu. Deus sabe que não sou de esquerda, e todos os dias me livra disso, seja louvado e agraciado; e todos nós sabemos também que se o aumento do "fosso" entre ricos e pobres é uma consequência do crescimento da economia (se a minha "fortuna" aumentar 10% e a de Belmiro de Azevedo também, a disparidade entre nós aumenta). Mas, mesmo assim, de onde vem um aumento tão disparatado desta diferença?

Enfim, pelo menos estatisticamente fica tudo bem, já é qualquer coisa. Os leitores de estatísticas, os habitantes do país imáginário, podem descansar.

14.8.07

Em breve, num Funchal perto de si

Transat 6,50 2007.

O Funchal acolhe a 16ª edição desta regata mágica, mítica, magnífica, que festeja este ano o seu 30º aniversário.

Há um concorrente português: Francisco Lobato (o nº 1 do ranking mundial, numa classe que conta 200 aderentes, e é extremamente competitiva).

Passado

O passado é um beco sem saída.

Regresso

De regresso a casa. Um pesadelo que começou no dia 4 de Julho em Salvador da Bahia chega ao fim - ou melhor, começa a deixar entrever o seu fim.

A cena chave da estadia no hospital será para sempre, creio, a do senhor que dizia: "sou do Porto, do Futebol Clube do Porto e amigo pessoal do Pinto da Costa" que, no dia em que vai ser operado e já vestido para isso, chama Bimba a uma enfermeira, porque ela vem de Bragança e fala com um chotaque carregadíchimo - e em seguida se põe à frente do espelho a pentear-se com meneios de galã italiano ds anos 60. Isto vestido com: uma bata aberta atrás, nada por baixo e meias brancas apertadíssimas até meio das coxas. Para completar a personagem: em cada duas palavras que dizia, uma era um "portismo", estivesse onde estivesse.

E, noutro registo, um diálogo instrutivo com a enfermeira-chefe, a quem digo que há ali dois ou três enfermeiros muito bons, e me responde "são todos bons". Quando lhe digo que sim (é verdade, o nivel era francamente positivo - o leque ia do muito bom ao medíocre, não chegava sequer ao mau), mas que alguns são melhores do que os outros, insiste: "São todos igualmente bons". Até quando, este medo do mérito?

Enquanto lá estive, deu-me para compilar listas de 5 (as 5 maiores dores, 5 vezes que estive perto da morte, etc.) - felizmente não tomei nota de nenhuma. E agora passou a vontade.

É bom estar em casa, ouvir Rachmaninov, Gould, Cohen ("Your pain is no credential"), Jeanne Lee, regar as plantas, passear por Cascais (andar é sempre bom, mesmo que se ande devagar) - e pensar que a cumplicidade com o safado deste corpo está para durar.

Lições de vida

"There are only three things to be done with a woman. ... You can love her, suffer for her, or turn her into literature".

Lawrence Durrell, Justine

Geografias e paciência

Portugal é um bocadinho de África na Europa (já a África do Sul, ao contrário, é um pedaço da Europa em África - resta saber por quanto tempo).

Essa africanidade manifesta-se de várias maneiras: o desprezo por quem está abaixo na escada social, a primazia do clã sobre a nação, a falta de um desígnio nacional; a ideia - infantil, mas compreensível num país pobre - que um bolo hoje é melhor do que dois amanhã; a importância do "chefe" e das aparências; a convicção generalizada que as coisas são o que são e que tentar melhorá-las não passa de agitação fútil; a falta de pudor, da noção de privacidade.

Mas onde ela é mais visível, mais presente, mais indelével (será? Espero que não) é na noção do tempo: não há tempo em Portugal - ou antes, o nosso tempo é africano. As coisas fazem-se quando elas quiserem ser feitas e não quando têm que; não há prazos, tudo demora uma eternidade, toda a gente corre e toda a gente anda atrasada; um mail, uma proposta, ficam semanas e semanas por abrir - tudo isto sem um pensamento que seja dedicado às consequências, claro.

Há só uma distinção, mas é grande: África absorve a diferença, todas as diferenças; Portugal expele-as, segrega anticorpos contra quem não está dentro da norma, contra quem diz o que pensa - contra quem não tem paciência...

13.8.07

O país real

Nível de preços em Portugal é 20% mais baixo do que na UE-15

Ou seja, Portugal é um dos países mais caros da Europa - tal como a Suíça, a Noruega ou a Irlanda são dos mais baratos.

12.8.07

Miguel Torga

Não acho, nunca achei, Torga muito interessante, e não percebo porque fazem dele um monumento na literatura nacional. Ou percebo, e ainda fico mais triste.

A este respeito: um post lapidar de João Gonçalves (passe a redundância) no Portugal dos Pequeninos, e um misterioso - mas muito elucidativo - comentário a um post de DBH no 31.

Sorte?

No meu departamento só há velhos. No departamento ao lado toda a gente é da minha idade - é a cardiologia.

Paciência

Sempre detestei a palavra "paciência"; mas após uma semana de hospital vou ficar a odiá-la profunda, visceralmente, vou exclui-la do meu vocabulário, puxar de um revólver cada vez que a ouvir, daqui em diante.

Partamos todos fazer um mundo melhor noutro lado qualquer

Recebo um SMS de uma amiga, que me diz querer ir-se embora, para a Patagónia ou para a China ou seja para onde for que não seja Portugal; recentemente falava com um burocrata de um desses institutos tentaculares, octopianos (que pena esta palavra não existir). Dizia-lhe que estava a fazer tudo para não ter que emigrar outra vez; a resposta deixou-me sem resposta: "pois eu estou a fazer tudo para me ir embora". Como seria o nosso país, se não votássemos tanto com os pés? Até um manga-de-alpaca se quer ir embora! (Infelizmente é um bem não transaccionável...)

E o pior é que muitas vezes as pessoas ficam-se pela vontade de partir - e esgotam aí a vontade de mudança.

Adenda - quem vive, claro, no "país estatístico" lê estas coisas e não tem vontade de se ir embora:

Listas de espera: «valores que não nos envergonham»
[1197] -- «Chegámos ao Governo com oito meses e meio de tempo mediano de espera e estamos neste momento com cinco meses, valores que não nos envergonham», afirmou
Correia de Campos.

Plano tecnológico, ou A ordem dos factores é arbitrária?

O governo anda a oferecer computadores gratuitamente, mas os enfermeiros do hospital onde tenho a sorte de estar (a ironia é parcial) não têm acesso à net.

A experiência, o que já foi e as portas mal fechadas

A idade ensina-nos que não devemos reaquecer o que já foi; mas também nos diz que se devem fechar as portas que ficaram mal fechadas.

Felizmente também nos ensina a distinguir o que já foi das portas mal fechadas.

Morrer a tempo

"Morreu cedo demais", ouve-se muitas vezes, na maioria dos casos em referência à idade.

Mas não tem nada a ver com a idade: só se morre precocemente se não se atingiram os objectivos que se tinham. Depois, qualquer hora é a hora certa.

Equivalências

O equivalente na saúde do bombeiro pirómano é a enfermeira bruta.

11.8.07

Corpos, e proprietários

"We do not own our bodies", escreve Lawrence Durrell em Justine. É verdade: somos nós que lhes pertencemos.

Verdades que não incomodam ninguém

Aqui.

Extractos:

"Plus de 17 pays foncent, bille en tête, dans le développement de cultures intensives pour alimenter leur parc automobile, ou celui de pays plus riches. Tous les gouvernements soutiennent cette essence encore hors de prix qui pourra concurrencer le pétrole le jour où le baril dépassera les 65 dollars. En attendant cette échéance, sondons un peu plus profondément les véritables motivations de cette ruée vers l’or vert.

Question 1/ Qui trouve- t-on derrière les pompes à agrocarburants ?
En première ligne, figurent les agriculteurs à la recherche de nouveaux débouchés. Suivent les agro-industriels comme l’association des betteraviers de France, ou le groupement Passion Céréales réunissant les grands céréaliers français.
...


Question 2/ A-t-on inventé la panacée environnementale ?

Oui, mais non. Du champ au pot d’échappement, le bilan en gaz à effet de serre est plutôt bon.
...

Le revers de la médaille se trouve ailleurs.
Les gains écologiques obtenus en brûlant du pétrole végétal dans les moteurs sont en effet annulés par les impacts de la phase de production. Pour produire un litre d’agrocarburant, il faut de plusieurs décilitres à un litre de pétrole selon le rendement de la plante (pour les engrais et/ou les pesticides, le transport, les machines agricoles…). « La production de biocarburants de première génération consomme de l’énergie fossile en quantité importante depuis la culture jusqu’à la livraison au dépôt de carburants », ...

Question 3/ Peuvent-ils être à l’origine d’un boom économique ?

Dans un premier temps, oui.
...
En Europe, on évoque de 45 000 à 75 000 emplois. Mais les agrocarburants ne sont pas rentables pour l’instant. Partout, les Etats sont contraints de mettre la main au portefeuille afin de les présenter sur le marché à un prix abordable. ...

CML

O segundo lugar de Carmona Rodrigues nas eleições para a CML foi-me penosamente incompreensível. Como é que se vota numa pessoa que deixou Lisboa - das ruas e serviços às contas - no estado em que estão é um mistério que diz mais sobre o povo português (ou pelo menos sobre a parte desse povo que vive em Lisboa) do que milhares de tratados de psicologia colectiva.

Hoje vê-se uma notícia destas, e o pasmo, em vez de diminuir, aumenta: a CML tem 11,000 (onze mil!) funcionários, está na bancarrota absoluta, e o senhor preparava-se para contractar mais 513 funcionários...

What Went Wrong

Juntem-se dois, três ou dez portugueses e mais tarde ou mais cedo (normalmente mais cedo, logo a seguir ao futebol), o tema da conversa é Portugal.

Andamos sempre à procura do que correu mal, e nada muda. Pela razão simples que nada pode mudar: nada "correu mal" com Portugal; sempre fomos o que hoje somos: um país pobre, triste, onde é melhor gastar dinheiro do que ganhá-lo, nas mãos de elites e de políticos que têm pela frente um povo que resolve os seus problemas emigrando (o que não critico, repare-se - por um lado estaria mal colocado, por outro parece-me uma forma tão válida como outra qualquer melhorar a situação de cada um).

É óbvio que amanhã será melhor do que hoje, e pior do que depois de amanhã - e isto chega. É a versão nacional do Panem et Circenses.

Portugal - 20 Anos de Integração Europeia

O Gabinete em Portugal do Parlamento Europeu e a Representação da Comissão Europeia em Portugal editaram um livro, com o título acima, com estatísticas sobre a evolução dos mais diversos parâmetros em Portugal nestes últimos 20 anos.

O livro é instrutivo, muito. Por um lado, porque temos frequentemente tendência a esquecermo-nos de onde viemos; por outro porque nos permite avaliar qual será o nosso futuro.

Há uma coisa que salta imediatamente aos olhos: Portugal acompanhou a evolução europeia; as curvas que devem subir sobem, as que devem descer descem - mas, salvo raríssimas e notáveis excepções (como as auto-estradas ou a mortalidade infantil), a nossa posição relativa manteve-se - se estávamos atrás da Europa (ou, nalguns gráficos , de Irlanda, Espanha e Grécia) há vinte anos, hoje atrás estamos; mais ou menos afastados, com maior ou menor "convergência", o lugar relativo é - quase sempre - o mesmo. Isto é, o dinheiro que recebemos serviu para ficarmos onde estávamos, o que já não é mau - se o não tivéssemos recebido estaríamos pior.

O futuro não deverá ser muito diferente: com um povo pouco exigente, que emprenha pelos ouvidos e tem, historicamente, uma maneira simples de resolver a sua situação, emigrando; com elites e uma classe política que vivem num paraíso (e desprezam o povo, mas isso é outra história), não há razão nenhuma para que o nosso lugar relativo mude - mesmo que continuemos, e espero bem que sim, a acompanhar os de "lá fora".

7.8.07

Futebol

Começo a descobrir um sério ponto positivo no futebol: é a melhor maneira de evitar uma conversa que não me apetece.

Palavras

Há uma palavra bonita, infelizmente cada vez menos utilizada: pugnaz.

Inferno

O inferno não são os outros. O inferno é a televisão. Quando se apaga a coisa, que esteve a grasnar a tarde toda, quase tudo se torna suportável.