25.10.24

Querido diário. Ou: Espera

Querido diário, aqui vai o ponto da situação.

- Computador - À espera da Dropbox para recuperar o ficheiro de trabalho. A esperança é pouca. Estas aplicações são mais eficazes a sacar-nos dinhiro do que a fornecer o serviço prometido;
- Telefone: 1 - Vodafone: à espera da Vodafone (a relação é indirecta. Já tenho um telefone que funciona. Foi a primeira coisa, claro. E também a mais fácil. Basta pagar. Mas o jovem vendedor da Vodafone enganou-se e estou a tentar recuperar pelo menos parte do erro. A Vodafone já não é o que era). 2 - Sunrise: à espera de poder ir à Suíça por causa do cartão da Sunrise, mais barato do que o da Vodafone. Não acontecerá antes de meados de Novembro, salvo milagre aeronáutico;
- Máquina fotográfica - processo para o seguro em curso. À espera dos statements do banco N26, que tal como a outra já não é o que era;
- Passaporte: à espera da próxima ida a Lisboa;
- Mochila Lockdo, estojo Parker e tudo o mais: em processo de esquecimento / luto / esvaziamento da raiva.

Os seguros deviam pagar também as horas de trabalho, as horas de ansiedade, as horas perdidas, as horas de espera.

24.10.24

Definição - Escrever

Escrever é traduzir aquilo que se é naquilo que se seria se fôssemos como quem escreve.

Parece simples, mas não é. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-10-2024

O valor das coisas que me roubaram ascende a mil e algumas centenas de euros. Sei-o porque recorri aos seguros. Fiquei igualmente a saber que o telefone tinha sido comprado em Junho deste ano, a máquina fotográfica em Maio de 2020 - para alguma coisa os confinamentos serviram - e o computador em Dezembro de 2023. Tudo tão recente e tão parte de mim. O estojo com as Parker acrescenta às algumas centenas, mas como foi pago em dinheiro ignoro a data. Do montante lembro-me, porque as comprei para substituir umas iguais que o meu Pai me oferecera e eu perdi estupidamente em Antigua. Juntamente com uma máquina fotográfica, isto anda tudo ligado.

O dinheiro líquido apaga a história? Nunca tinha pensado nisso. Que apaga traços - ou não os deixa - sim. Mas apagá-los? Os meus critérios cash vs. cartão vão começar a incluir um parâmetro mais (as canetas foram compradas na Feira da Ladra. Os parâmetros novos são líquidos).

Resta saber se e quanto os seguros vão reembolsar a minha inaceitável confiança. Ou melhor: a minha inaceitável falta de desconfiança.

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Uma das expressões portuguesas de que menos gosto é «pôr-se a jeito». Acontece-te alguma coisa má e lá está, «puseste-te a jeito». Desloca a vítima do seu lugar para o de culpado, quase desculpa o verdadeiro autor da maldade: puseste-te a jeito... Isto dito, é verdade que fui uma besta e mais - tive uma luzinha encarnada a acender-se-me no cérebro. "Não ponhas aí a mochila, é fácil roubarem-ta." Mas só no mar presto atenção às luzinhas que se me acendem no cérebro. Em terra ignoro-as, com alguma desculpa mal amanhada, como  um peixe que vem para a mesa cheio de escamas.

A luzinha encarnada lembrava-se de Barcelona, quando me roubaram um saco de computador - história pior, porque estava ao meu lado na mesa da estação de Sants. E melhor, porque o ladrão me veio devolver o saco. Estava vazio, ao contrário deste.

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Tenho sessenta e sete anos e com esta idade já se pode fazer um balanço desapaixonado - ou pelo menos pouco apaixonado - da vida que se viveu e compará-la à que se queria ter vivido.

Consegui dois objectivos, creio. Um antigo, de juventude: ser livre. Outro mais maduro: ser um gajo decente. Nenhum deles é fácil, ao contrário do que a «literatura» moderna quer que se pense. Literatura vai entre aspas por uma carrada de razões. Comecemos pelo fim: é preciso fazer muita merda para se tornar um gajo decente. Ser decente não resulta do que se fez ou faz, mas de como se olha para o que se fez. E de não querer repetir a porcaria e querer repetir o bem, que nem só de asneiras vive um homem.

Já a liberdade tem mais que se lhe diga. Em primeiro lugar porque a liberdade não existe. O que há são liberdades. Muitas, contraditórias. Em segundo lugar porque a liberdade é um oxímoro: ser livre consiste em poder escolher as suas prisões e Deus sabe se eu as tenho, prisões. Tenho muitas. Ter sido eu quem as escolheu ajuda, mas não é por isso que deixam de ser prisões. São apenas mais suportáveis. Mais. Como dizer? Inevitáveis. Não se pode fugir de uma prisão que se escolheu, porque isso seria saltar de uma para as outras todas. 

E depois: ninguém é livre sozinho. A minha liberdade deve muito a muita gente. Todos nós devemos? «Nenhum homem é uma ilha»? Sem dúvida. Isso significa apenas que não sou diferente, é tudo. Sou livre porque não sei não o ser. É uma escolha? Não sei. Nunca experimentei a alternativa. Nunca deixei de ser livre, mesmo quando não o era. «Sou o que sou e é tudo o que sou», dizia Popeye. Sou livre porque é tudo o que sou, poderia acrescentar eu. 

Com a devida gratidão.

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PS - Quando acordo às três ou quatro da manhã vejo um planeta pelo albói. Esta noite fui investigar qual é.

Saturno.


(Para a L.)

22.10.24

Diário de Bordos - Lisboa, 22-10-2024

Pergunta-se o diarista:

- Que fazer dos dias maus?

- O mesmo que fazes dos outros. Escreve-os, digere-os, põe-nos a render, espreme-os. Podes até mentir e torná-los piores. Ou menos maus. Ou - arte suprema do diário - mentir e contá-los como foram. Tudo menos a pieguice e render-te a eles. Podes mentir-lhes, dar-lhes a ilusão de que ganharam, te ganharam; mas que isso não passe de ilusão, de recuar para melhor saltar. Tece, ilustra, tergiversa, sorri para melhor esconderes as lágrimas, promete-lhes vingança. 

Numa palavra: manda-os à merda.

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É exactamente o que vou fazer contigo, vinte e dois de Outubro de dois mil e vinte e quatro. Vai à merda.

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O dia vai para aonde eu lhe digo, mas quem a limpa, varre o chão e põe nos baldes para mais tarde a despejar sou eu, claro. Ele esvai-se tranquilamente numas voltas em torno do eixo, pisca-me o olho no copo de vinho tinto, agita-me os resultados das análises à frente dos olhos, palhaçada para me fazer sorrir, foram bons, eu sei, a carcaça lá se vai aguentando e a verdade é que a carcaça está para nós como a construção civil para a economia: quando um vai bem, o outro vai bem também. 

Apetece-me arrancar este dia de todos os calendários e dele deixar só algumas sombras, como estas favas. E o A1c, claro. E o pudim flan.

E mai'nada!

21.10.24

O dever e o poder aliam-se ao querer: três indomáveis verbos

Poder-se-ia dizer que é demasiado cedo para (te) escrever. Aliás, na verdade até talvez o verbo adequado fosse dever: "dever-se-ia dizer, etc."

Poder e dever são como aqueles tenistas que às vezes jogam juntos contra outros pares e às vezes jogam um contra o outro. Desta vez jogam do mesmo lado contra um adversário difícil mas com a ajuda do árbitro, que é bicéfalo: eu gosto do que é difícil e quero escrever-te.

Ou seja: de um lado da rede temos três verbos. Do outro, uma coisa qualquer mais ou menos indefinida, que tu sabes e eu também mas para a qual me estou nas tintas. A questão é: e tu?

Não sabemos. Só quando o jogo acabar saberemos quem ganhou.

Nocturnos e diurnos diversos

O meu coração está com uma pequena fuga de amor. É uma coisa que mal se nota nas receio que venha a piorar. Suponho que seja de uma válvula,  deve ter uma folga. Vou ver se lhe dou apertozito e consigo estancar isto agora que está no princípio. 

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O nome do puzzle é harmonia. Quando o completamos, dizemos "tenho a harmonia feita" e levam-nos a enterrar. Quando não conseguimos acabá-lo: "Estou feito. Não encontro a harmonia." E dão-nos mais uma chance.

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Como se as palavras fossem flechas que escolhem elas próprias o seu alvo e to indicam suavemente.  Sabem mais disso do que tu.

Têm sempre razão. Acertam no alvo que ecolheram.

20.10.24

Definição - amor

O amor é uma prisão que se constrói com duas liberdades, não uma liberdade feita de duas prisões. 

Vida, um diálogo

- No fundo, é das inconciliáveis contradições que quero falar. Do esforço inglório que é tentar conciliá-las. 

- Esse esforço chama-se vida.

Liberdade, ambiguidades e outros constrangimentos

As coisas são como são e não como nós queremos que elas sejam. As coisas não deviam ser como são e temos a obrigação de as mudar. A violenta ambiguidade do real, inquebrável, está bem manifesta nestas duas proposições, ambas verdadeiras. Deve encontrar-se um equilíbrio entre o abulismo e a hiper-actividade, entre o realismo e o sonho, entre as duas margens do rio, as margens que o oprimem e não o deixam fazer da paisagem o que é nem o que devia ser. O rio nasce das profundas napas freáticas e à superfície ainda se lembra de quando tudo era escuro e não havia ar. Livre como um comboio nos seus carris. Livre como o vento que vai de um lado para outro movido por forças que o ultrapassam. Livre como o leite que ferve e sai da cafeteira, sujando o fogão todo. Livre, o rio, como o que é e o que devia ser. Livre como a napa freática que escapa de uma prisão para se meter noutra. Livre como a ilusão sem a qual nada se constrói, nem a mesmo a certeza. Nem sequer a incerteza, que oscila entre as duas margens do rio. Livre. como tudo, livre como nada. Como o amor, a quem escolheste ceder-te. Oscilas entre prisões e a isso chamas liberdade. 

Tens razão. 

17.10.24

Diário de Bordos - Comboio Lisboa-Viana do Castelo, 17-10-2024

Venho por este meio (porque não tenho outro. Tivesse-o e usá-lo-ia. Por exemplo, dao zi bao. Mas não tenho. Sou pobre de meios. Só tenho este.) Continuemos: venho por este meio reclamar contra o Metro de Lisboa, primeiro. E felicitá-lo, depois.

A reclamação provém do desapontamento de ter acedido à estação Baixa-Chiado pelo lado do Chiado e todas as escadas rolantes estarem a funcionar. É decepcionante. Vem um indivíduo, cheio de boa vontade, a fazer apostas consigo próprio sobre a quantidade de escadas paralisadas e oops, zero, nil, nem uma. Todas funcionavam.

Felizmente o Metro conseguiu repor a normalidade na estação do Marquês - os dois tapetes para se mudar de uma linha para outra estavam avariados. É importante as instituições lutarem por manter a normalidade. Um cidadão fica apeado, surpreso, abatido - as traduções não são minhas. Procurava désarçonné - quando chega a uma estação de Metro e todos os equipamentos funcionam. A normalidade é importante. Parabéns portanto ao Metro que conseguiu desequilibrar-me na Baixa-Chiado e rapidamente me recuperou no Marquês.

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Outra felicitação: o SNS. Gastei um monte de massa para corrigir o erro de ontem, consegui chegar ao Hospital à hora que tinha previsto - e de que tinha avisado a veneranda instituição - e acabei por não ser recebido pelo médico, que entretanto já se tinha ido embora. Tudo bem: ele tinha bastantes circunstâncias atenuantes e não lhe quero mal. Bastar-me-ia que ele morresse num mar de dores semelhante àquele aonde procuro sobreviver.

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«Os comboios europeus têm rodas ovais.» Li isto num livro de espionagem americano há cerca de duzentos e cinquenta anos e cada vez que ando de comboio em Portugal lembro-me da frase como se a tivesse lido ontem. Acho piada a um país que quer fazer TGV e não consegue pôr os comboios que tem a andar direitos. 

Enfim, piada é uma maneira de dizer.

16.10.24

Raiva e outros prospectos

Acabo de perder o avião da maneira mais infame, asquerosa, nojenta, odiosa, absurda e injusta que já me aconteceu. 

É preciso começar por dizer que é extraordinariamente raro eu perder um avião. Uma vez - no tempo em que ainda não conseguia dormir nos aviões - cheguei a Orly vindo de Fort-de-France e como não tinha dormido nem um minuto adormeci. Quando acordei o avião tinha saído. Outra vez, em Casablanca, aconteceu-me o mesmo (mas vindo de Gibraltar, a navegar) e dessa vez o avião esperou por mim. Atravessei o aeroporto a correr, com um hospedeiro (?) de terra (?) à minha frente para afastar as pessoas (nessa altura ainda não havia cachorros).

Hoje foi pior. Comecei por chegar três horas antes do voo. Agora se não se importam salto meia dúzia de degraus. Tinha um aviso a informar que o avião sairia com quarenta e quatro minutos de atraso. Vinte minutos antes da nova hora cheguei à porta e o voo estava fechado. Afinal o atraso tinha sido inferior ao anunciado (o que fica para ver. Nada me garante que não tenham feito os passageiros esperar meia hora, como acontece tantas vezes).

O pior é não ter nada nem ninguém a quem reclamar. E a atitude das duas putas hospedeiras de terra que faziam o embarque. E a frustração de ter uma consulta médica marcada há meses e falhá-la (ou pô-la em risco, ainda vou tentar lá chegar). E a raiva, a simples e pura, cristalina, não filtrada raiva.

É tanta que em vez de voltar de táxi para bordo vim neste horroso autocarro, cheio de gente, de gordos, de malas com rodas e cachorros. Poupando assim vinte euros que vou tentar aplicar numa consulta psiquiátrica no 7 Machos.

Diário de Bordos - Aeroporto de Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-10-2024

Não sei se é o tempo, se a dor, se outra coisa qualquer que tento dissolver em vinho tinto. Sangre de Toro, se faz favor, um vinho que traz com ele vagas de memória semelhantes às da dor no ombro, vagas sem praia aonde chegar. Andam ali pelos respectivos mares, sem areia aonde deixar os traços de espuma que tanto encantam os românticos e os ociosos.

Nunca se sabe bem o que se tenta dissolver, seja lá o que for. Nem porquê. Isto de fazer ao vinho perguntas para as quais ele não tem respostas dá sempre mau resultado. Mais vale bebê-lo em silêncio e agora, não há trinta anos e em diálogo.

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No walk through fui como de costume ao Fahrenheit, outra dessas vagas que anda por aí sem destino. Pus um bocadinho demais. Espero que o meu vizinho no avião goste do cheiro. Se não gostar, explicar-lhe-ei que Fahrenheit é o único perfume que usei (passada a fase Old Spice) e que a minha ex-mulher et al. gostavam muito.

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Hoje fui ao galope do mastro. São quinze metros e foi um desgraçado de um day worker que me subiu. Preveni-o de que não consigo ajudar-me e portanto teria de ser ele a fornecer a energia toda. Custa-me um bocadinho, isto de não conseguir ajudar-me a subir, mas a verdade é que o simples esforço de me manter no mastro enquanto trocava as adriças da genoa foi suficiente para me pôr o ombro aos berros. O rapaz sugeriu-me uma manivela eléctrica. A ver vamos.

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Amanhã vou ao médico. Se alguém um dia me dissesse que ir a uma consulta me encheria de uma alegria que roça (salvo seja) a felicidade tê-lo-ia mandado procurar praias.

15.10.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-10-2024

Domingo à noite tive de ir às urgências do hospital de Palma e hoje fui a um centro de saúde completar o tratamento recebido no hospital. Não é a primeira vez que usufruo dos serviços de saúde desta cidade e posso portanto confirmar o que hoje à tarde intuí: esta cidade não tem doentes. Tem hospitais, centros de saúde, farmácias - mas doentes nem vê-los. A minha estadia no hospital, incluindo um engano que me custou dez minutos, foi de uma hora, porta a porta. No centro de saúde - enorme, limpo e vazio - havia uma pessoa à minha frente. Levaram mais tempo a tratar da papelada do que a médica levou a receber-me e receitar o que tinha a receitar. Exactamente como no nosso país, o que me deixa bastante sossegado.

Enfim, ironizo. Em Portugal é o contrário. Os serviços de saúde estão cheios, as esperas são imensas, os locais têm mau aspecto, terceiro-mundista. Vá lá, temos o Cristiano Ronaldo para salvar a honra do convento. Não fosse ele e a vida no nosso país não seria a mesma coisa. Seria pior.

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Escrevo no Antiquari, um dos meus lugares favoritos para escrever, aqui em Palma. Penso num post que li recentemente sobre como escolher escritórios. Comigo o processo é penoso. O sítio tem de ser bonito, ter a música baixo (já não há cafés sem música, infelizmente), confortável, não muito caro - peço regularmente qualquer coisa para beber, é a minha renda. Deixo o mais importante para o fim: a clientela tem de ser, ela também, bonita. Um lugar com pessoas aos berros e aos arrotos não me serve.

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Quase sem querer vejo-me arrastado para mais um «projecto». As aspas reflectem o meu cepticismo e ao mesmo tempo penso que quase sem querer não é bem verdade. Quero. 

Desta vez no norte do país. Quero. Mas o cepticismo mantém-se. Deve ser a esta mistura que se chama experiência. Ou bom senso, vá lá saber-se.

Anjos et al.

Se um arcanjo está um patamar acima do anjo, um arcanjinho está um degrau abaixo do anjinho?

14.10.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-10-2024

Estou outra vez na condição de máquina de tomar comprimidos. Se ao menos servissem para qualquer coisa.

(Calimerice. Servem. Servirão. Só hoje comecei com as coisas sérias. Preciso de uns dias. Até lá, maldigo a carcaça, quando tenho energia para isso. É injusto: as dores não aparecem quando trabalho, aparecem depois, quando acabo o dia e penso no de amanhã. Pensaria, se pudesse.)

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«A noite pertence aos amantes». A letra é do Dylan, se não me engano. (Engano-me. É do Springsteen e da Patti Smith.) Um bocadinho redutor, não é? A noite pertence aos amantes, aos estetas, a quem passou o dia a trabalhar, a quem passou o dia a querer trabalhar... A noite pertence a quem a quer, a quem a ama, a quem vê nela o que de dia não se vê. «Encandeado pela luz», canta o mesmo Springsteen. Desencadeado pela noite, cantaria eu, se cantasse.

Hoje vou ao 7 Machos. A mistura de comprimidos e mezcal vai der cabo desta puta, chicuembo xa'nhaca (?). «Juro palavra de honra sinceramente vou morrer assim.»

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A dor e a fome não são compatíveis. Quem as mistura mente. Já a sede é outra conversa.

12.10.24

Dissonâncias etárias

Há uma patologia cujo nome desconheço. Vem com o envelhecimento. O seu principal sintoma é que nós - os doentes - mudamos com a idade mas quem nos rodeia não se apercebe dessa mudança e continua a ver-nos como éramos quando nos conhecemos (as pessoas que nos rodeiam e nós, não quando nos conhecemos a nós próprios. Desculpa o pleonasmo, M.)

Um dos efeitos desta doença é a dissonância cognitiva que provoca, uma dissonância dissonante, por assim dizer (ditto, M.)

Hoje, por exemplo. Depois do jantar a bordo apetecia-me ir ao 7 Machos dizer olá ao Alex e beber um mezcal. Verdade não seja calada: a vontade vinha de muito antes do jantar de hoje. Pouco importa. A verdade é que não fui. Terá sido consequência do cansaço? Desta nauseabunda dor no ombro esquerdo? Da vontade de não gastar dinheiro  (vontade bastante oportuna que aparece quando não tenho dinheiro ou tenho pouco)? Não sei.

Mas lá que se este horrível double bind estivesse numa casa de apostas, quem apostasse que eu daria ouvidos à idade ganharia uma fortuna.

(Outros argumentos a ter em conta mas não constantes do boletim de apostas:
- Hoje é sábado e aquilo está cheio;
- É longe;
- A BH Glasgow Vintage não quer sair de onde está.)

Resultado: escrevo no quadro negro da noite: "Eu queria ir ao 7 Machos e não fui". Ler com entoação calimeriana. "Espero que a noite venha com o apagador em riste e o use com vigor e energia." Ler com a entoação de um capitalista de risco a dizer que não nos dá massa e ao mesmo tempo a encorajar-nos a não perder a esperança. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 12-10-2024

Estou em Palma há três dias, quase quatro. O que já fiz, o que está por fazer (para além do P., claro)? A rota das capelinhas está a meio. Falta o Joan, o Jaume, o Cliff e alguns outros menos importantes. Já fui ao Xisco, ao Fidel, ao François, ao Claudio - sonha com estrelas Michelin e Deus sabe se por esta vez aprovo o sonho. O homem faz os melhores gelados do universo e arredores. A combinação jantar no Gustar e gelados no Claudio vale a viagem de qualquer parte do mundo. Escrevo na Cantina, também conhecida por Alberto ou Ismael. No fundo sou um paisano: os lugares para mim têm o nome das pessoas que os dirigem, porque para gostar de um sítio preciso de gostar do dono. (Isto não é inteiramente verdade e necessitaria de alguma elaboração. Gosto das pessoas porque gosto do que fazem ou de como o fazem. A mecânica não é muito simples mas por agora fica. Um dia desenvolvê-la-ei, se Deus quiser e eu puder.)

Mas a verdadeira questão fica: que me dá Palma que as outras cidades - incluíndo Lisboa - não dá? As relações geográficas são tão difíceis de definir como as amorosas.

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Hoje é feriado em Espanha - día de la Hispanidad - e a maioria das coisas que queria fazer ficaram a boiar na hispanidade. Segunda-feira tenho gente a bordo do P. - hallelujah ! - e portanto esses pormenores só para terça (ou segunda à tarde, com sorte). Realismo é dar pequenos passos quando se o que quer são passos de gigante. Não abandonar, apesar dessa divergência: uma perna quer ir para ali, a outra não passa daqui. E lá se vai andando, a coxear.

(Uma das minhas canções favoritas de Paco Ibañez chama-se A Galopar. Vou mudar-lhe a letra para A Coxear e fazer disso o hino do P.)

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Uma perna a galopar, a outra a coxear: haverá melhor imagem para a minha vida? Não.

8.10.24

Línguas

Na verdade uma lingua é muito mais do que a língua. Gosto de francês como gosto do português e já o falei como falo português, mas não poderia viver em França, por exemplo. Não quero viver em francês. Gosto da parte de Espanha aonde agora vivo - Palma - nas não falo espanhol como falo francês. E tão pouco poderia lá viver. Ibidem para um país anglófono. Não falo inglês tão bem como ainda falo francês, domino estas duas melhor do que o espanhol, conheço os países de onde são oriundas - mas nenhuma delas é a minha língua. Não tem nada a ver com o léxico, a sintaxe, com a morfologia. A gramática não passa de uma parte da língua. Uma língua é constituída pela gramática, pelo vocabulário e pelas memórias, assim mesmo no plural.

Não me refiro à nossa memória, a de cada um mas sim às memórias colectivas, as memórias todas que os falantes de um determinado idioma produziram ao longo dos séculos e que a cada momento histórico se agarram às palavras como o artista de circo ao trapézio. Um trapézio sem trapezista é como uma palavra sem memórias: fica ali a abanar, solitário, inútil, triste.

Diário de Bordos - Lisboa, 08-10-2024

Só falta o mais difícil: escrever. Ou: só falta tudo - escrever.

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Veio um mendigo ter comigo. Agradeci-lhe a atenção mas declinei a sua proposta de lhe dar dinheiro. Nem sequer o que tenho no bolso pequeno. Acho indecente não dar nada aos mendigos. Dou quase sempre a quem toca música e às vezes a quem faz malabarismos nos semáforos. Não dou às «estátuas»: congela-se-me o braço só de os ver. Aos mendigos devia dar mas não dou. Ou só muito raramente. Não sou fundamentalista em nada. Sou um rapazinho flexível e adaptável às circunstâncias. 

Claro que se tivesse juízo não daria nada a ninguém. Não tenho e pouco me importo com isso. Convivo bem comigo e com as minhas faltas - de juízo e as outras, que são muitas. Só não cohabito pacificamente com o resto de mim, a outra metade, a que não é uma falha. 

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Graças à impossibilidade de usar a minha bicicleta tive de andar de transportes públicos. Apanhei táxis, Uber, metro, autocarros e eléctricos. De todos, o meu preferido é o metro porque me ajuda a atenuar os  arrebatos afectivos por Lisboa. Os equipamentos que não funcionam (escadas rolantes e elevadores) e os tempos de espera destroçam qualquer amor que se possa ter por esta cidade. Enfim, destroçar não é o termo. Atenuam, digamos assim. Mitigam.

De qualquer forma aplica-se a velha máxima de que amar alguém é amar-lhe os defeitos. Talvez seja por isso que o meu amor por Lisboa é tão vasto. Ruas esburacadas, lixo em tudo quanto é sítio, cheiro a mijo, má educação generalizada... Os motivos para amar Lisboa são mais do que muitos. Et pourtant je l'aime, ma Lisbonne.

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Hoje regresso a Palma, cidade que tem bastantes menos motivos para ser amada do que Lisboa - não tem buracos nas ruas, não cheira mal, etc. - e que talvez por isso amo tanto quanto amo Lisboa. Quase: falta-lhe a língua.

6.10.24

Jazz, civilização

A civilização e o jazz andam de mãos dadas. Não é coincidência ter descoberto que Barcelona é uma cidade provinciana na mesma estadia em que descobri nâo haver ali um único bar de jazz (agora há mas a cidade continua provinciana, chauvinista e decepcionante). Lisboa tem um, excelente e caro como devem ser os bares dessa música. Chama-se Távola. Paris tem muitos, Londres e Berlim também, Amsterdão tinha um fantástico (agora se calhar tem mais). Na província não há jazz, música urbana s'il en est. Na província há humanidade, há verde, há clorofila, há moçoilas (diferente de mulheres, coisa urbana), há tudo o que se quiser mas não há urbanidade - outra palavra para civilização. É por isso que na paisagem - ou seja: tudo o que não é Lisboa - não há bares de jazz com a qualidade do Távola. (Nem sem, de resto.)

Se me perguntassem, eu preferiria viver numa cidade com muitos Távola. Não vivo e portanto agradeço aos deuses ter um ao lado de casa quando estou em Lisboa.

Aliás: agradeço aos deuses ter Lisboa ao lado de casa  quando estou em Lisboa. 

(Uma moçoila é um produto rural. Mulher é coisa urbana. Mais pormenores outro dia.)

Citação do dia

"Homo sum, humani nihil a me alienum puto."

Diário de Bordos - Lisboa, 06-10-2024

Se eu tivesse dinheiro comeria todos os dias no Gambrinus e no Solar dos Presuntos, alternadamente. Com umas escapadelas ao Chiringuito, claro. Felizmente não tenho e isso permite-me poupar uma fortuna em restaurantes. Venho portanto comer ao Alga, uma casa da categoria "Resistentes": não é gourmet, não é fusion, não é bio, não é glutenfree, os empregados são senhores respeitáveis e correctamente vestidos. Os preços condizem com tudo isto. Ainda há quem pense que eu sou gastador? 

O cozido à portuguesa do Alga estava uma maravilha. Um pináculo da cozinha tradicional nacional (refiro-me ao país, não à paisagem). Seguiu-se-lhe o competente caldo, para aconchego da alma e do estômago, por esta ordem.

Poder-se-ia talvez quiçá argumentar que quem teve na sua vida - e no seu palato - uma avó chamada Filipa e um cozinheiro Miguel (aquela em Portugal e em Moçambique, este em Cape Town e no mar ao largo da Namíbia - isto para não mencionar a Mãe Blá) é indiferente a clivagens país / paisagem. Seria eventualmente verdade se Lisboa não fosse Lisboa e não tivesse estas coisas todas - cozidos, amigos, restaurantes resistentes - mais bares e casas de jazz (ontem estava fechado, maldito seja o gás ou lá o que foi que provocou o fecho), táxis à la minute, livrarias como a Snob ou a Palavra de Viajante... paro aqui. A lista é demasiado longa. 

Portugal é Lisboa porque só em Lisboa se encontram todas as qualidades e todos os defeitos do ser português. Na paisagem eles estão bastante desequilibrados (com um forte pendente para um dos lados da balança. Adivinhe-se qual).

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O calcanhar de Aquiles do restaurante Alga é o vinho da casa. Hoje perguntei ao senhor quanto me cobrariam se eu trouxesse o meu vinho de casa.

- Nada. Traga à vontade.

Alvorecer

Alvorecer é uma palavra amável, cheia de promessas. Tem alva na ascendência, é parecida com alvíssaras, é una palavra de passagem, traz luz e alegria (se o dia estiver para isso). Por exemplo: começou a alvorecer em mim a ideia de que não escrevo só disparates. (Agora é preciso ver quanto tempo dura o crepúsculo. Se for menos de trinta anos não conta.)

Nos livros de bordo de antigamente (e hoje também, se calhar. Não sei) havia uma entrada chamada "primeiros alvores". Eu fazia o quarto das quatro às oito (também conhecido por "segundo quarto", por ser o do imediato) e achava aquilo muito estúpido. Que raio de informação se obtinha a partir da hora dos primeiros alvores? Ainda não estava familiarizado com o conceito de meta-informação.

Alvorecer. Primeiros alvores. Alvíssaras.

4.10.24

Cães, donos

Cães, cães, cães. Um gajo não pode dar dois passos na rua sem ver um cão com o dono pela trela. 

Aonde estão os cães vadios da minha infância? Cães sem dono, donos sem cão. 

Diário de Bordos - Sesimbra, Portugal, 04-10-2024

Hoje foi a Tasca do Isaías em Sesimbra, ontem O Castelo em Sines, anteontem o Reis em Lagos. Quem tem recomendações tem tudo. A paisagem tem decididamente bons sítios para se comer. Agora só falta chegar a Portugal, ver se finalmente como não só bem mas como deve ser, com civilização nas imediações. Chego amanhã, se nada mudar até lá.

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Mais uma porra de uma viagem com nevoeiro. O termo náutico antigo é Névoa negra e não há termo náutico mais explícito, mais adequado, mais próximo daquilo que descreve. Quanto mais não seja por antítese, já que aquele negro tem origem tem origem numa espécie de massa leitosa, esbranquiçada que consege tornar negro tudo o que toca.

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Escala em Sesimbra. Descubro ruas aonde nunca estive e faço uma pequena comparação fractal: assim como dos países só conheço as costas, dos portos só conheço as imediações das marinas. (É mentira, mas é uma mentira bonita.)

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Bar Inglês: um sítio correcto para as bebidas pós-prandiais e respectivos disparates. Boa música, bom Irish Coffee e agora vem um Mai Tai. ... Eu sei. Mas pronto, é o que há e quem bebe o que há a mais não é obrigado. O coiso tem uma ténue semelhança com o Mai Tai que eu conheci no Trader Vic de Oakland e o senhor do bar tergiversa e inventa. Mas como a música é o Let's Dance do Bowie e eu preciso urgentemente de me ir deitar porque estou de novo a ficar com sintomas da constipação e preciso de calor, tudo passa.

(Pequeno elogio de passagem ao camarote da proa do M. A. Parece que estou num hotel de cinco estrelas. E só parece por causa da ,localização do maldito interruptor. Não fosse isso e estaria mesmo melhor do que no quarto de um hotel de luxo.)

PS - Quando cheguei sentei-me numa mesa que tinha à frente uma televisão - é uma praga - e pouco depois de me sentar começou a falar o senhor do PS. O homem dá-me urticária só de o ver  (é tudo o que ele tem para dar, coitado) mas felizmente o bar é grande e o senhor (do bar) acedeu a desligar a outra televisão, a meu pedido, com o argumento indesmontável de que estou sozinho naquele lado e fui para uma mesa sem televisão.

PPS - Peço um rum, para acabar. Vem num balão. Lisboa, mundo, where art thou?

3.10.24

Diário de Bordos - Sines, Alentejo, Portugal, 03-10-24

O Sol vai subindo no horizonte e vai-se libertando do cobertor de nuvens sobre o qual dorme. A temperatura sobe ao mesmo ritmo. Pergunto-me se alguém fez uma formula matemática a equacionar graus angulares e graus Celsius. Por cada grau a mais na altura do Sol a temperatura do ar cresce de... de quanto? E a temperatura do meu corpo, já sem o casaco da roupa de mar mas ainda com as calças? E ainda estou com a polar que comprei em Groningen, na Decathlon, esplêndida. E com as meias de lã da Calzedonia, tão boas, baratas e perenes... Tudo isto vai sair não tarda. É só emagazinar um pouco mais de calor, deixá-lo chegar aos ossos.

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A passagem do cabo foi movimentada, como sempre. Agora é só subir esta longa, interminável costa que as putas das orcas tornam ainda mais longa: há que ir o mais perto possível de terra, tentar seguir a batimétrica dos vinte metros. As cabras não gostam de águas baixinhas. Eu tão pouco gosto.

Nesta costa não ando nos vinte metros. Não tenho rodas na quilha e não piloto quatro por quatro. Ando aos vês, entre os trinta e os quarenta (cinquenta, vá, quando fecho os olhos). Passo um cabo e aponto para o meio da baía que se lhe segue. Lá chegado faço rumo ao cabo seguinte. Geometria marítimo-orcadiana.

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Há duas e só duas coisas que positivamente detesto no mar: trovoada e nevoeiro. Acabo de passar duas horas e meia num banco de névoa com uma visibilidade que nos melhores momentos não passava dos duzentos metros e nos piores nem a cem chegava.

Resumo da viagem: um terço de porrada, um terço de bonança, um terço de nevoeiro. A porrada estando fora-de-jogo, tenho de escolher entre a bonança e o nevoeiro.

A viagem foi porreira.

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A visibilidade melhorou. Três milhas para oeste e menos de duas para leste. Não me queixo: prefiro ver navios a ver terra.

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O piloto hoje funcionou o dia todo em modo track (navegação, se por acaso). Pela primeira vez desde Cádiz. A Raymarine tornou-se definitivamente uma marca feminina. 

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Jantar no restaurante O Castelo, recomendação do L. E. S. Abençoado seja. Melhor jantar desde o de Cádiz. 

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Às segundas, quartas e sextas agradeço à carcaça. Às terças, quintas e sábados apetece-me enforcá-la. Aos domingos paro para pensar e beber. É o seu dia favorito.  

(Não sei se cont. se não, mas que devia, devia.)

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Sim, continua. Os melhores irish coffees em muito tempo: cervejaria Murta, Sines. Morte aos preconceitos. Viva os preconceitos. A próxima vez que vier a Sines venho aqui jantar. É uma promessa.

Diário de Bordos - Lagos, Algarve, Portugal, 02-10-2024

Mexo-me com notória dificuldade, o que de certa forma é injusto porque à minha volta tudo mexe. Tudo e todos: mesas, cadeiras, paredes, chão, pessoas, empregados (pessoas sendo para este efeito clientes, claro). Tudo mexe menos eu. As minhas costas parecem uma barra de aço inoxidável submetida a pressões do outro mundo.

Tive sorte: a barra acabou por ceder e lá consegui levantar-me da cadeira, ir buscar o bloco-notas e as canetas e voltar a sentar-me, tudo isto sem alertar e muito menos alarmar os restantes frequentadores do sítio. Estas costas são como a muralha de aço do camarada Vasco: uma fantasia.

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Janto no restaurante Reis, sugestão das senhoras do Ferradura, que fica praticamente ao lado. É o género de lugares aonde não entraria sem uma recomendação - e mesmo com esta vou meio desconfiado. Nada me garante que uma das senhoras não seja a mulher ou a prima do «senhor Reis». Reencontrei o Ferradura por acaso e por sorte, duas coisas que misturadas dão bom resultado. Ando há tempos para comer uma carne de porco à alentejana - um prato que de alentejano não tem nada, é algarvio, mas enfim - e as senhoras indicaram-me o Reis, lá fui porque andar mais de cinquenta metros só de táxi e aquilo é uma zona sem automóveis e ecco, presto, o restaurante é óptimo, deve ter sido ainda melhor e agora está cheio de turistas, as mesas uma em cima das outras... Ó pá, está calado e cala-te, fazes o favor? Toalhas e guardanapos de pano, um serviço de nível estratosférico apesar de a casa estar cheia, um dono adorável. Cala-te, bebe o teu vinho - sugestão abençoada do «senhor Reis» - aprecia a carne com amêijoas, sonha com o rum pós-prandial e com o sono que te espera.

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Os critérios para avaliar a passagem a ferro de casacos de linho branco são-me dolorosamente estrangeiros. Não percebo nada nem de passagem a ferro nem de casacos brancos, sejam de linho ou de outra matéria qualquer. Deste em particular - marca: Zara - sei que consegue o prodígio de não me fazer parecer um empregado de mesa na pausa para o almoço. Pois bem: levei-o a uma lavandaria em Vila Real de Santo António para lavar e passar e as senhoras (patroa e empregada) concordaram unanimemente que seria impossível garantir a qualidade do serviço e portanto o declinavam. Enfiei-o na máquina com o resto da roupa e levei-o a outra lavandaria para passar a ferro. A senhora explicou-me que não conseguiria garantir a qualidade do serviço mas aceitou-o e cá estou eu, de casaco de linho branco e chapéu novo, há uma fotografia do Joshua Slocum com um chapéu parecido, só não tem é casaco branco. Duvido muito que leia esta página, minha senhora, mas aqui fica o recado: ficou óptimo! Muito obrigado e parabéns pelo seu brio e pelo seu profissionalismo.

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Por falar de roupas: o dia esteve demasiado frio para envergar o meu uniforme «sozinho a bordo». Maldito seja o frio quando não se tem uma lareira, uma biblioteca e um fluxo regular de vinho tinto.

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Para que Portugal seja um país habitável a cem por cento faltam-lhe duas coisas principais: vermute, rum e palo.

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Uma das enhoras da mesa à frente da minha é parecida com a Virginia Wolf em jovem (enfim, quarentas. Ainda é uma jovem).

Tem uma parte das costas à vista, o que a faz perder pontos; e poignées d'amour correctamente dimensionadas, o que a faz recuperá-los ainda antes de os ter perdido.

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Não é a primeira vez que isto me acontece e não será a última: um sítio aonde não entraria sem uma recomendação revela-se excelente.

Morte aos preconceitos!
Viva os preconceitos!

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O jantar acaba. As costas estão mais flexíveis, as mesas e as paredes imóveis, o restaurante mais vazio, o medronho é bom mas não tão bom como o da Peixeirada (nenhum é, nunca será), a vontade de beber um bom rum esbate-se até ficar quase invisível e eu pergunto-me se trabalhar para comer e comprar livros é uma boa troca. Resposta: «Sim e a conversa fica por aqui.»

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A noite acaba com um cocktail qualquer no bar Peppers. A música é óptima: Doors, Led Zeppelin, etc. O cocktail dá vontade de me teletransportar para o Procópio. Há pessoas que não gostam de Lisboa. Sugiro-lhes vivamente que venham visitar a pré-história. Não percebo o que vêem nessas expedições etnográficas quando não muito longe têm uma cidade.

1.10.24

Modo largada. Ou: Tudo e o seu contrário

Modo largada. Estou e não estou. Quando estávamos juntos a minha mulher reconhecia estes dias (eram mais porque as viagens eram mais longas). Tudo se torna relativo e ambíguo: é, não é, importa muito, pouco ou nada? O barco está pronto? O que precisas de fazer antes de largar? Tens comida, água, combustível? Tens vento? De onde, que força?  O que está em terra passa a segundo plano mas ainda tens as amarras no pontão. Os sentidos aguçam-se, prestas mais atenção ao bote do que às pessoas que te rodeiam, do que a ti. O mar é um grande absorvedor. Um grande mata-borrão. Mas ainda estás em terra. Estás e não estás. As largadas têm dois tempos: quando largas no teu espírito e quando largas as amarras. Entre os dois podem decorrer dias, horas, semanas. Amanhã estarás de novo sozinho - como agora, mas de uma maneira diferente: o barco não se mexe, quase; e tu tão pouco. Já não estás, apesar de parecer que estás. És e não és. Só amanhã, quando largares, serás uno. Isto é, serás tudo e o seu contrário, como todos os marinheiros são. Hoje estás e não estás. Amanhã serás. Tudo e o seu contrário.

Fragmento, quase

 Retirei-me do tempo, por assim dizer, como dantes os eremitas se retiravam do mundo.

Cidades, oxímoros

As palavras nascem nas cidades e nelas se perdem. Antes das cidades não havia palavras. Havia grunhidos e talvez alguns sons organizados em sílabas. Duas, não mais. Por exemplo: Amo-te. Tem três sílabas. Existiria antes de as cidades terem sido inventadas? Por exemplo: esquinas? Avenidas? Jardins? Por exemplo: coração? Vinho existia, decerto. Tem apenas duas sílabas e apesar de serem suaves, doces, é bastante provável que os povos pré-citadinos a conhecessem.

Povos pré-citadinos? Andas a dar-lhe nos oxímoros?

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António. Algarve, Portugal, 01-10-2024

Nunca liguei muito ao dia dos meus anos. Antes do Facebook esquecia-me frequentemente dele. Agora é impossível - e embaraçoso: sou notoriamente relapso a enviar parabéns e quando recebo avalanches deles não sei bem como reagir, para além do obrigatório e gigantesco Obrigado a todos!

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O dia começou bem, continuou melhor e acabou comigo a dar uma porrada no cais, coisa que me destrói qualquer réstea de alegria que tenha acumulado. Falhar uma manobra, por difícil ou chata que seja, deixa o meu pobre e combalido ego ainda mais de rastos do que ele já anda todos os dias. Paradoxalmente, é quando elas são fáceis - como a de ontem - que isto acontece mais vezes, prova sem dúvida de que preciso de um banho de imersão numa banheira de modéstia. Ainda há poucos meses foi uma atracação em Palma - que não deixou marcas, ao contrário desta, e era difícil.

Saí de bordo e fui jantar, mas foi uma decepção. Vila Real de Santo António acedeu final e (talvez) subitamente à categoria de porto  detestável - o que é chato porque hoje tenho de cá ficar, devido ao esquecimento de uma carteira num táxi. Les bourdes se seuivent et ne se ressmblent pas? Não: são sempre as mesmas, com excepção das manobras, que felizmente não falho muitas vezes. Aliás: só raramente falho. Se bem ontem tenha decerto perdido o estatuto de sócio honorário do clube dos atracadores do ovo cru, um clube ao qual me orgulho de pertencer. Ontem fui expulso dele e vou ter de lutar pela readmissão.

(Para quem não sabe: põe-se um ovo cru entre o casco da embarcação e o cais. Se ao atracar o ovo se partir a pessoa que manobra não é aceite no clube. A prova deve ser repetida dez vezes com zero falhanços para que a admissão seja definitiva. É independente da dimensão da embarcação - aplica-se a graneleiros, supertanques, navios de pesca e embarcações de recreio.

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Só se deve julgar um restaurante ao segundo copo de rum. Hoje decidi experimentar o da marina. Bacalhau assado com batatas a murro - há que aproveitar a ausência das injecções e usufruir do subsequente apetite. O bacalhau estava bastante mediano - na minha escola primária levaria a nota de suficiente ou suficiente menos se a Dona Eugénia estivesse num dia mau - e o primeiro rum (Barceló) foi servido por um vesgo forreta que o serviu do lado do olho errado. Já o segundo compensava largamente as deficiências e insuficiências anteriores.

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Desde Maio que não estou sozinho a bordo de uma embarcação e muito menos a navegar. Ontem pareceu-me uma viagem ao paraíso, apesar de as putas das orcas estragarem um pouco o prato. Fico doido quando vejo idiotas louvar-lhes a beleza. Pata que as pôs mais a beleza. Elas que vão atacar a vagina da mãe e nos deixem navegar por onde queremos e precisamos de passar.
 
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Escrevo ao som dos Steeley Span, um grupo que me foi dado a conhecer por um soldado inglês num infame, sórdido, bar de Gibraltar quando Gibraltar ainda não era o nojento buraco de turistas em que se metamorfoseou.

(Estudo sobre as interacções da memória e do presente: se tivesse conhecido Gib hoje e não nos anos setenta chamar-lhe-ia nojenta? É pouco provável. Quando muito horrível.)

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Três da tarde. Não vai dar tempo para uma sesta como deve ser. Mais uma vantagem do rum: equilibra a ausência de sesta. PS - O terceiro vem ainda maior. Este sim, foi o almoço do meu dia de anos.

29.9.24

Diário de Bordos - Cádiz, Andaluzia, Espanha, 29-09-2024

Vou para terra vazio e de táxi, regresso cheio e a pé. A lógica das coisas é diferente das coisas da lógica: quando fui de cheio só tinha a fome e o cansaço e não podia com uma gata pelo rabo; voltei depois de um jantar no restaurante Cumbres Mayores (o nome é um understatement) e o cesto das compras não estava assim tão pesado. Pesado estou eu agora, apesar de o jantar ter sido, no fundo, frugal: salmorejo, cinquenta gramas de presunto de belota, um coulant de chocolate com gelado de banana que podia ter sido feito pelo Claudio, vinho e vermute A Copa, um dos grandes aqui no espaço qualificativo do tio Luís. Resultado do exercício: ainda estou cheio de comida e de cansaço mas consegui trazer o cesto que comprei em Vila Real pendurado no ombro; tudo isto no prazo que o Google Maps impartiu: vinte e cinco minutos. Ou pouco mais, provavelmente.

Cádiz é uma cidade maravilhosa e só tenho pena de não vir aqui mais vezes. Parece que tem mar em todas as ruas.

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Contrariamente ao que é habitual, desta vez queria fazer uma festarola para o meu aniversário. Tudo indica que vai ser uma festa com um convidado só.

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 29-09-2024

De saída para Cádiz, para um pequeno transporte que vem mesmo a calhar, qualquer que seja o ponto de vista a partir do qual se o observe. Com um bónus: vou sozinho. Nem tripulantes nem proprietários. Só há uma palavra: hallelujah!

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A carcaça vai colaborando. A pé-coxinho, mas colabora. Nada que três ou quatro días de mar não curem definitivamente. Herpes, alergia, constipação de saison (desta vez não chegou a gripe) vão a caminho do passado, todas juntas. Os médicos bem podiam chamam a isto convalescença activa (se calhar chamam).  

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Vila Real de Santo António é um porto agradável, daqueles que nos dão vontade de os referimos com montes de diminutivos.

Resta saber se são todos afectuosos. Não são. 

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Blablacar para Sevilha. O homem chegou com dez minutos de atraso, o que sendo pouco habitual não é grave; e vamos três atrás num Golf, o que é chato, no mínimo. De Sevilha para Cádiz parece que sou o único passageiro e o carro é maior. Grande ideia, esta da Blablacar, se bem como sempre a coisa tenha um pouco degenerado, inevitavelmente. Aqui em Espanha há gente a fazer vida disto. Ou pelo menos complemento de vida, o que leva a estas situações. Por enquanto tenho apanhado poucas.

Somos cinco, incluindo o condutor. Ninguém fala. Parece um avião -  nem um Hola antes de entrarmos no carro.  ¡Qué vaya! Algumas das melhores viagens de carro da minha vida foram na Blablacar. Tenho margem para uma ou outra piorzita.

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Desta vez não paro em Sevilha. Saio de um carro e entro noutro (com um táxi de permeio, provavelmente). É uma tortura. Pequena, mas tortura. Vá lá que tenho uma parte da tarde em Cádiz, outra cidade que o meu coração acolhe com todo o entusiasmo de que é capaz. Isto é: muito.

28.9.24

Equação

Procuro um lugar na vida, se possível em part-time. Estou farto de viver a tempo completo. Alternativamente, um lugar temporário. Meia dúzia de meses, talvez um ano. Viver muito ou é chato ou é cansativo. Ou os dois, a pior mistura. Procuro uma meia-vida, ver se descanso. Viver a tempo completo farta.

O problema é saber se meia-vida não será igual a uma morte completa, como sempre pensei.

26.9.24

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 26-09-2024

Vila Real de Santo António. A ideia era passar aqui uns dias valentes a fazer trabalho intelectual mas já se me meteu um pequeno transporte pela proa este domingo. Pequeno ou grande não posso dizer que não, apesar da vontade. Ou melhor, apesar do cansaço. Por outro lado, a perspectiva de ir sozinho para Lisboa entusiasma-me e faz-me esquecer o cansaço e a falta de vontade. Há muito tempo que não faço uma viagem sozinho e este mês em constante companhia faz-me ansiar por uns dias comigo.  

Estes dois dias com a S. (Olá, S.!) deixam-me prever uma boa colaboração para o nosso projecto. A ideia é chegar a Lisboa e voltar para aqui antes de ir para Palma, ver se ponho aquela porra daquele P. a funcionar. Hoje [amanhã] acabam de lhe pintar o convés, falta demasiado pouco para sequer usar a palavra quase. É doentio, de pouco. É doentio, de tanto.

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Compras, lavandaria, almoço, Western Union, rever um amigo - por sinal o mais antigo que tenho ainda em actividade, conhecemo-nos em Quelimane -: a logística do descanso é mais complicada do que o que parece à primeira vista. E de fora ficou o duche, adiado para amanhã sem grande prejuízo da minha higiene ou do olfacto alheio. As temperaturas não querem saber do «Verão mais quente de sempre» e estão como andam (pelo menos para mim) há semanas: demasiado baixas.

Não me posso porém queixar. A roupa está lavada e os dias vão aquecer. Não preciso de ir a Caminha, contrariamente ao que pensava. Agora, o próximo rendez-vous certo seria no dia quatro em Setúbal mas é pouco provável que possa ir, de maneira vou concentrar-me no plano original até ter a confirmação do transporte para Lisboa: descanço, vinho tinto e medronho.

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Reencontro Portugal com a atitude ambivalente de sempre. Pelo menos até chegar a hora de pagar a conta: aí a ambivalência desaparece e é substituída por um grande, grato sorriso.

24.9.24

Diário de Bordos - Comboio Portimão - Olhão, 24-09-2024

O mundo encantado de Luís Serpa: um bilhete que devia ter-me custado três euros e setenta acabou por custar-me treze e setenta, com o bónus de chegar uma hora mais tarde ao destino, que não é bem um destino mas uma etapa. 

Ninguém imagina o que eu compreendo quem não me grama. Aliás, candidato-me já ao lugar de presidente do Clube do gajos que não me gramam, se vier a ser formado. Do que duvido, apesar de ser mais fácil criar um grupo de anti-fãs do que de fãs. Mereço o posto mais do que ninguém porque poucas são as pessoas que me conhecem tão bem como eu. 

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O transporte de Holanda acabou. Vou ver se se confirma um para Lisboa no domingo e tentar pôr a cabeça no lugar, tarefa que me parece ciclópica. Não porque a dita mente seja grande, mas porque está a milhas do resto do corpo - a distinguir de carcaça, que é outra coisa. 

(Cont.)

23.9.24

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 23-0-2024

Magnífico jantar no Peixeirada. Lulinhas fritas à Algarvia (o F.), acorda de camarão (eu). Vinho branco do Algarve, leve e ágil como provavelmente o nome quer indiciar: Nova Vida.

O medronho veio directamente do Paraíso e levou-me para lá.

Ao jantar seguiu-se o tradicional bolinho tradicional na Casa Inglesa e bordo, que o frio aperta.

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Amanhã encontro-me com  S. F. por causa do livro que me desafiou a escrever com ela sobre Portugal. Aderi com o entusiasmo do velcro, ver se abro finalmente a válvula a estas palavras todas que se acumulam em mim e não saem.

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Uma palavra de louvor para o F., que é realmente um tipo impecável (impressão esta que amanhã terá o seu desfecho e - tenho a certeza - confirmação).

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Não sou capaz de distinguir uma rosa amarela de um fá bemol, apesar de gostar de oferecer flores e ouvir música.

Mas sou capaz de perceber a cumplicidade que se forma entre pessoas que cantam ou tocam em conjunto. É uma ligação etérea porque feita de sons e densa como betão armado pela mesma razão. 

A rosa amarela? Fica para depois, pode ser?

22.9.24

Diário de Bordos - Sines, Portugal, 22-09-2024

O jantar foi uma merda. Sardinhas assadas no Beicinho, aonde já o ano passado com o P. D. tinha comido mal. Desta vez prometo e juro que nunca mais lá ponho os pés. 

Felizmente o F. apreciou imenso. Antes assim.

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Regresso a bordo, deito-me imediatamente e reencontro aquela mistela de sono, frio e palavras. Ver se expulso estas depressa para dar lugar aos outros dois. Ou melhor: ao sono. O frio dispersa-se por baixo dos dois edredons. 

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A fuga de água doce - vinha dos encanamentos do cilindro de água quente - piorou e hoje ficámos sem água nos tanques. Paciência. Vamos assim para Portimão. Esta porra desta viagem tem de ter um fim.

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A origem das dores de cabeça, hipersensibilidade cutânea e febrilidade difusa dos últimos dias está explicada: violentíssimo episódio de herpes labial. Cada vez que isto acontece tenho vontade de esganar a H. R., magnifica namorada por quem ainda hoje sinto amizade, ternura, carinho, afecto e saudades - tudo entrecortado por raiva ilimitada nos dias em que isto aparece. São cada vez menos mas a intensidade é cada vez maior.

Não precisavas disto, H., para eu não te esquecer. Estás em todas as minhas memórias, as do corpo e as da mente. Ainda há dias andei à tua procura na net. (Não, não foi para te esganar.)

21.9.24

Noite

Sono, frio e as palavras de permeio. Palavras insuficientes para os outros dois e para o que fica por dizer. Este cansaço, por exemplo. A embrionária possibilidade de um transporte do Egipto para o Quénia. A dor no braço esquerdo. Tudo isto é nada, dissolve-se na mistura inicial: sono, frio e palavras para os descrever, para os colar à noite da qual saíram. O frio abusa, aproveita-se do cansaço. Este programa estender-se às palavras. E estas, que fazer delas? 

Levá-las a ver a noite como se levam crianças ao jardim zoológico.


Diário de Bordos - Cascais, Portugal, 21-09-2024

A descida da costa portuguesa nestas condições é uma seca. Não há vento, por causa das orcas temos de vir a rasar a costa - o que aumenta bastante as distância - e paramos todas as noites. Dizer que estou farto é dizer pouco. Valeu o jantar na Póvoa com o D. e agora esta escala em Cascais, para a qual olho com olhos «de passagem», que me fazem ver a beleza que antes não via porque a vivia e como qualquer pesoa sabe, quem vive na - ou com - a beleza deixa de a ver. Aquela frase lapidar de Anaïs Nin «Não vemos as coisas como elas são, vemo-las como nós somos» não se aplica a nada com tanta força como quando visitamos um sítio aonde vivemos. Aonde fomos (verbo ser, não ir). Não se vê o que é, vê-se o que se é, reescreveria eu - acrescentando «o que se foi», com um delicioso duplo sentido.
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Em Cascais venho à Bijou, que é sempre (ou ainda?) uma meia-decepção. Pelo menos tem um bom café e o serviço é simpático e eficaz. Espero vivamente que o dono acerte com o café - não ter café de saco é imperdoável, num estabelecimento que se lançou no café a sério - e ponha wifi no interior para que um pobre marinheiro de passagem possa escrever as suas memórias enquanto bebe um bom café.

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Daqui a pouco largamos para Sines e depois Portimão. Segunda-feira de manhã desembarco, se tudo correr bem. Este pára-arranca é mais cansativo do que passar dias seguidos no mar, mistério que ando a tentar elucidar há algum tempo.  Já tenho algumas pistas mas não passam disso. 

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CLARO QUE CONTINUA. Isto das viagens sem fim é assim.

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Cheguei ao pontão do combustível e voltei para trás. Só fiz uma asneira: foi ter saído do lugar aonde estava. Era mais do que evidente que só um idiota iria para o mar nestas condições. 

19.9.24

Labirinto

A Covid demonstrou à saciedade que as pessoas podem ser estúpidas. Muito estúpidas, mesmo, ao ponto de não saberem o que é bom para elas. Engoliram as tretas mais estapafúrdias - lembram-se da velhinha que foi multada por estar a comer dentro do carro? Ou do polícia a correr atrás de um surfista? Ou das vacinas, meu Deus, as vacinas (anti-Covid. Contra as outras nada a opor)?

Porém, como conciliar isto com aquele princípio base do liberalismo segundo o qual as pessoas devem decidir elas próprias o que querem para si? Talvez tirando a palavra estupidez da equação e substituí-la por histeria. Que é, como se sabe, uma suspensão temporária da razão. 

O problema desta solução é que ninguém nos garante que não haja mais "suspensões temporárias da razão". Como se vê, por exemplo, com os incêndios, as alterações climáticas ou os cachorros ao colo dos donos.

Claro que um outro princípio básico de qualquer liberalismo é que as pessoas têm o inquebrável direito de se enganarem. Como a Suíça amplamente demonstra, é preferível ser o povo a escolher colectivamente um erro a deixar as decisões àquele grupo de suspensores quadrienais da razão que são os políticos nas democracias representativas. Apesar de tudo, as pessoas enganam-se menos e menos vezes.

O que não impediu os suíços de engolirem as tretas covidianas ou, há quarenta anos, a obrigatoriedade dos seguros de saúde, decisão que agora pagam muito caro. 

Isto é um labirinto e quem pensar que é uma longa e límpida linha recta engana-se.

Em cada porto um amigo

Nunca soube o que é essa coisa de "uma namorada em cada porto". Já "um amigo em cada porto" sei perfeitamente: uma bênção. Ontem foi um desses dias. 

18.9.24

Frio, idade

Nao estão mais de dezoito graus em Vigo. A senhora tira o casaco e fica numa camisa sem mangas, sem ombros e sem quase nada até meio das costas. Não lhe vejo a cara, mas é fácil deduzir que já tem idade para ter frio.

17.9.24

Diário de Bordos - Vigo, Galiza, Espanha, 17-09-2024

O T. J. mete água salgada pela borda de estibordo - a do meu camarote, claro - e perde água doce não sei por onde. Não é uma fuga nos encanamentos porque a bomba de água doce não se põe a trabalhar sozinha, não vem dos duches porque a água não está ensaboada, não vem dos tanques porque estão secos como um dia de Verão no Alentejo. Hoje o dia foi passado a levantar paneiros, limpar e secar fundos, espreitar por tudo quanto é canto. Os paneiros estavam aparafusados - disse ao F. que aquilo é um erro e ele ouviu-me, daí o pretérito - e um deles é enorme. Sugeri-lhe que o cortasse em dois. É importante que se tenha acesso fácil aos fundos. Os quais estavam imundos,  como era de esperar. De tudo isto resultou um belo cansaço que a curta sesta não foi suficiente para curar. Se o I. ainda estivesse a bordo teria deixado a seca aos dois. Não estando, não sou capaz de não ajudar, tanto mais que ele merece. Quem não merece sou eu.

Ou melhor: mereço. O meu estúpido optimismo consegue sistematicamente levar a melhor à experiência. Isto dito, continuo a preferir os pagamentos em modo lumpsum aos mais habituais ao dia ou à milha. Não posso é fazer asneiras como esta. (O que basicamente equivale a dizer que o Sol não devia levantar-se todos os dias.)

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O técnico da Raymarine veio a bordo. Trocou alguns cabos e fichas e disse-me que se tivesse problemas amanhã lhe ligasse. Dos três que tivemos a bordo é o único que me inspirou confiança. A ver vamos, como dizia o ceguinho. 

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Próxima escala: Lisboa.

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Excelente vermute no café Komerzio: Zecchini. Caseiro e artesanal, diz-me o empregado. Não é impossível. Mas de que é bom não há a mais pequena dúvida.

16.9.24

Diário de Bordos - Vigo, Galiza, Espanha, 16-09-2024

A intenção não era escrever já. Mas paciência, a intenção que se aguente. Estamos a chegar a Vigo. F. governa, já há bastante tempo. Tínhamos combinado uma hora cada um, mas o rapaz não quer deixar a roda, não sei porquê. Talvez para se redimir de ontem, que não fez a ponta de um chavelho. Passou o dia enjoado e aterrorizado, duas coisas que não costumam excitar positivamente a motivação de alguém para fazer seja o que for. Apanhámos badanal, como previsto e durou pouco tempo (idem). Cinco ou seis horas a força oito não é razão para grandes sustos, mas F. já vinha enjoado desde a noite (vínhamos com cinco, seis desde as quatro da manhã e catrapum). De qualquer forma o piloto trabalhava - trabalhou até às seis ou sete da tarde, hora a que resolveu que chega é chega. Falei com Finisterra Traffic e não havia aviso de orcas, de maneira pus rumo directo a Vigo e viemos às meias-horas de leme cada um. Logo a seguir decidi parar em Corcubión, uma pequena e belíssima aldeola de pescadores aonde passámos a noite e aonde comi o melhor polvo da minha vida.

É curioso, isto: cada vez que venho à Galiza como o melhor polvo da minha vida. Mas cada um deles não substitui o anterior. Junta-se ao grupo. Ou seja: tenho uma colecção consequente de melhores polvos da minha vida.

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Vigo:
A Ana V. veio receber-nos ao pontão e andou comigo até agora, ou quase (são dez para a meia-noite, se por acaso alguém perguntar). Estou cansado mas não me apetece ir dormir. Fui deixar a roupa lavada a bordo e voltei a sair. O T. J. está todo molhado, cheio de água e se há coisa que não suporto num bote é que meta água. Neste caso é pior: há águas doce e salgada - esta veio do arraial, mas aquela não faço a mais pequena ideia de de onde vem. Amanhã temos o técnico da Raymarine a bordo. Na verdade as nossas escalas são decididas mais pela electrónica do que pela nossa vontade. Além disso, vamos ter de levantar os paneiros todos, ver se descobrimos de onde vêm as águas. Os quais estão aparafusados, como não podia deixar de ser. Não quero descansar hoje. Nem nunca, de resto (adolescence, quand tu nou tiens... C'est pour la vie). O cansaço de amanhã e o de ontem e hoje estão bastante diluídos.

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Mas a questão não é nada destas coisas, que no fundo não passam da superfície, da espuma, por assim dizer. O cerne da questão é a minha relação com os amadores está a mudar e não sei se para melhor. Cada vez tenho menos paciência para ensinar seja o que for. Cada vez tolero menos os gajos que «querem aprender» (aspas porque cito). Quem vem para o mar devia saber que no mar há vagas, não? E mais: que o terror nunca resolveu coisíssima nenhuma e estar aterrorizado é particularmente inútil - por muito que tenha de reconhecer que ontem o homem não fez falta nenhuma, pelo menos enquanto o piloto funcionou. Estava sol, o que já é bastante bom. Força oito com chuva, frio e céu encoberto seria muito pior.

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Um marinheiro tem um certo conjunto de defeitos. Um escritor também. Por vezes esses conjuntos anulam-se e sai um Slocum. Outras - em minha defesa, a maioria - eles adicionam-se e saio eu. A lotaria genética tem tanto de álgebra como de psicologia, ciência do caos e do acaso, porções de sorte e azar, talento e preguiça (talento tendo aqui o sentido de «aquilo que para cada um nasce»).

Eu nasci para ser marinheiro e escritor, por ordem decrescente das inevitabilidades. O que me leva a olhar para toda a gente como se por um espelho partido: de um lado o que pensam, do outro o que pensam de mim. Esta última imagem perde-se, reflectida em milhares de pequenos cacos do tal espelho e eu não consigo fazer seja o que for com tantos pedaços das opiniões que me tocam.

Há excepções. claro. Pessoas para quem aquilo que me vêem me chega intacto e é impossível de ignorar.  Fica para depois. O café Komercio está a fechar e tenho de me despachar. Uma coisa é certa: quem faz parte deste grupo não é gente. São semi-deuses, única característica comum a todos os meus amigos.

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Vigo não tem nem metade do charme arquitectónico da Coruña mas as pessoas são no mínimo igualmente simpáticas. E tem uma vantagem grande: o maldito cabo já está para trás. Agora é sempre a descer, orcas ou não.

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O café Komercio fechou e a perene dúvida reaparece: bom senso ou bom senso? Dormir ou mais um copo?

12.9.24

Silêncio?

Nunca conseguirei perceber as pessoas que dizem que gostam de barcos à vela por causa do silêncio. Não há silêncio nenhum num veleiro. Isto fala pelos cotovelos e quantas vezes aos gritos, como agora. E estamos na marina.

Hopper

É um quadro do Hopper: uma casa à beira-mar com uma porta aberta, a luz entra a jorros e iumina uma parede. Não há personagens, só a luz, as paredes  o mar, tudo geométrico e apesar disso o quadro respira vida: a nossa, tanta é a vontade que nos dá de estarmos naquela casa. A luz na parede de uma casa com uma porta que dá para o mar. Adivinho que teria espaço para pôr os meus livros e penso que poderia estar ali, à porta, que sou eu a personagem que só ali está na imaginação ou no desejo de quem vê o quadro.

(Edward Hopper, Rooms by the sea, óleo sobre tela, 1951.)

Christian Bobin, ainda e sempre

"Je cherche la vie délivrée de la vie, l'amour délivré de l'amour, ce froissement d'or d'un diapason, cette note pure qui tremble bien avant notre naissance et après notre mort."

Christian Bobin, Le Murmure, ed. Gallimard 

(Obrigado ao Emanuel Cameira e à sua Barco Bêbedo por me ter feito conhecer Bobin.)

(Cont.), beleza

- Como se a beleza fosse um mundo, um mundo que não admite a mentira - como o mar, de resto, não se pode mentir ao mar, no mar. A beleza é assim. A mentira é detectada e expulsa imediatamente. Talvez seja por isso que somos "oprimidos pelas imagens da beleza": não há escapatória, não há aquelas vias nas autoestradas para os camiões que ficaram sem travões. Só há a beleza e a sua ausência. Não há espaço para a mentira. A beleza contém em si a verdade e só a verdade.

- E o amor, que fazes tu do amor?

ADENDA 
"Tout amour est divin. J'entends par "divin" la vie humaine, rien qu'humaine, délivrée d'elle-même."

"Si tu n'écris pas contre toi tu n'écris rien."

(Christian Bobin, Le Murmure, ed. Gallimard.)

Glossário parcial

Fragmento (ou por vezes Fragmentos) são posts feitos a partir de coisas que escrevi em correspondência privada. Auto-citações, por assim dizer. Chamam-se fragmentos porque o são, regra geral. Às vezes peço autorização às pessoas a quem a correspondência era dirigida; outras não. Depende não sei bem de quê, mas depende. Assim de repente, diria que depende do acaso.

Há alguma coisa que não, Sigmund?

Fragmento

Como a relação assimétrica entre a beleza e a verdade: nem tudo o que é verdadeiro é belo, mas tudo o que é belo é verdade.

11.9.24

Diário de Bordos - Roscoff, Bretanha, França, 11-09-2024 / II

O homem põe e o Raymarine dispõe. Desta vez foi o piloto. Ainda pus a hipótese de governar à mão até La Coruña, mas felizmente o bom senso interpôs-se e voltei para trás. Com dois tripulantes inexperientes e um braço esquerdo que não só não serve para nada mas também provoca dores intoleráveis continuar teria sido uma idiotice sem fim. Aparentemente o problema está no fluxgate, nome chique para agulha digital. (Agulha sendo o nome chique de bússola, se por acaso.)

De modo cá estou de novo na brasserie La Hune, que faz ofício de escritório e cantina. O técnico volta amanhã a bordo, mas só no fim da manhã. Até lá, faço como a Penélope mas sem um sudário que tecer. E vou tratando do P., para quem crair chatices é mais do que um passatempo. É uma missão.

É a segunda vez que o Raymarine nos causa um problema - à chegada a Dunkerque e agora - mas não é nisso que penso. É no facto de que nós, skippers profissionais, estamos cá para quando as coisas correm mal. Quando está tudo bem ninguém precisa de nós - ou pelo menos pensa que não precisa. Mas depois o vinho azeda e quem está para o beber?

Diário de Bordos - Roscoff, Bretanha, França, 11-09-2024

Vito é um sem-abrigo que dorme numa na porta de um prédio perto do meu escritório. Vejo-o todos os dias. Começámos por nos cumprimentar gentilmente mas hoje, passados meses da sua instalação ali, falamos quase todos os dias. Vito arranjou um sistema tão engraçado quanto eficaz de pedir: a meio da tarde mostra uma folha A4 plastificada na qual diz «Mais dez euros e atinjo o objectivo diário». Isto tem piada porque num quarteirão de bancos e de empresas as pessoas são sensíveis à palavra «Objectivo». Estou longe de ter a certeza que aquilo seja verdade. Vito nunca me disse qual era o seu objectivo diário. Um dia dei-lhe os dez euros para ver se ele continuava com o papel na mão. Não. Fora-se embora, beber «metade do objectivo», aspas porque cito. «A outra metade poupo.»

Nunca percebi o que fazia ou tinha feito antes de se encontrar na rua. Ele não mo disse e eu não lhe perguntei, reflexo de simetria que tenho desde a jovem idade adulta, já lá vai um bom par de semanas.

Hoje voltei para o trabalho depois de um almoço tardio. Vito tinha o cartaz à vista mas a sua expressão fez-me parar. 
- Que tens? Não estás com boa cara.
- Estou cheio de dores em todo o lado. Se o meu futuro vai ser isto, despeço-o.
- Talvez bastasse trocá-lo por outro mais confortável, não?
- É mais fácil trocar de passado do que de futuro.
- ...
- Estou morto de dores e quase morto de não morrer delas. «On est tous des farceurs. On survit à nos problèmes.»

Nunca o tinha ouvido falar francês, nunca imaginei que conhecesse Cioran. Fui a um Multibanco, levantei o máximo possível (quatrocentos euros, vivemos num país de tesos) e dei-lhos. 
- Enfia-te num sítio qualquer longe da minha vista, pode ser? Confortável, se possível. Se quiseres eu reservo-te um quarto. Obrigado. Se morreres avisa-me antes, por favor. Obrigado. E se precisares de mais para atingires o objectivo da semana avisa-me também. Hoje é tudo o que tenho disponível.

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Hoje tenho uma janela de tempo para largar. Vamos com a maré da tarde. O tempo continua frio e húmido no limte da chuva. Entreguei a bicicleta, bebo o último par de runs (St. James a quatro e meio? Só tenho pena de não poder beber mais), consulto a previsão - não mudou, isto vai ser uma merda até Ouessant - e digo-me que se amar alguém é amar os seus defeitos o princípio pode ser aplicado a tudo, incluindo o trabalho.

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«Pelo menos não gastas», diz-me V. «Não gasto? Não gastaria se não houvesse livrarias e rum nos restaurantes. Havendo umas e outros, a carteira não tem descanso». Vá lá: gasto pipas em livros e frasquinhos em rum. Se fosse ao contrário seria pior.

9.9.24

Convalescença

O meu ano de 2023 foi horroroso e pensei que 2024 seria bom. 

Não estava a ver as coisas como deve ser: o ano passado foi uma doença e este é a convalescença. 

ADENDA: Com vontade de se transformar em recaída.

Mixed feelings, (Cont.)

O título da fotografia bem podia ser mixed feelings, se eu lhes desse títulos. Não dou e menos ainda em inglês. 

Mas a pergunta é: de quem são esses sentimentos ambíguos? Da natureza, o Sol e os nimbus que se afastam ainda cinzentos, parede quase ameaçadora (está a afastar-se. Se não estivesse, sê-lo-ia)? Ou meus, encantado pela luz, cheio de frio porque estava no salão e quando vi que havia luz fui a correr pegar na máquina por pressentimento, mero pressentimento e vim para o poço cheio de frio por causa do vento, também,  e a luz estava a desaparecer, tive uma sorte danada, apanhei-lhe o último estertor e seria a esta mistura de exaltação, frio e sorte que me referia?

Vá lá saber-se. Há sentimentos contraditórios, sim, porque me quero ir embora e ao mesmo tempo gosto desta região e tenho pena de não a percorrer com mais pormenor.

Sim, foi um dia de sentimentos confusos, contraditórios, mas haverá outros? Isto é: havê-los-á que não sejam assim? Isto é: para que servem os sentimentos se não forem como um choque frontal entre dois carros a toda a velocidade? 

Diário de Bordos - Roscoff, Bretanha, França, 09-09-2024

 «A minha agenda é feita de água», dizia hoje a um amigo. «E não sou o único a escrever nela». Depois acrescentei: «Geri-la é como para um doente de paralisia cerebral fazer malabarismo com seis bolas». Tenho a confirmação disto todos os dias. Hoje havia dúvidas sobre a largada por causa de um ataque de orcas aqui perto. Chegámos todos à conclusão de que saíamos, mas quando depois de almoço cheguei a bordo fiquei a saber que a bomba de água de arrefecimento do motor tinha uma fuga, provocada provavelmente por um o-ring defeituoso. Sendo hoje segunda-feira todos os sítios aonde se poderia encontrar a dita peça - um anel de borracha de dois centímetros de diâmetro - estão fechados. Acontece que o tempo não nos deixa sair amanhã e quarta está longe de ser seguro. Ou seja: a minha hipótese de um fim-de-semana no Porto foi para o galheiro.

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O S/Y J.T. é um Bavaria 49 de não sei que ano. O proprietário diz que tem trinta anos, mas deve ser um arredondamento. Muito menos não terá com certeza: ao fim de uma semana, o bote parece sólido e bem construído. Foi comprado a um senhor que queria fazer dele a sua residência secundária mas enviuvou e abandonou o projecto. 

Resultado: 

- Baterias: 4 x 190 aH;
- Equipamento: 1 eólica; painéis solares; 1 gerador; 1 máquina de lavar a roupa; uma máquina de lavar a loiça (nunca utilizada); ar condicionado; aquecimento.

O inversor está permanentemente ligado: o café é feito ad libitum numa máquina de 220. Há máquinas, ferramentas e sobressalentes - menos o-rings, claro - suficientes para se montar uma oficina. Dizer que tudo isto é inversamente proporcional aos conhecimentos de navegação do senhor ficaria muito aquém da verdade. A minha perene pergunta mantém a sua perneidade: porque é que esta gente não compra uma casa ou um camping car?

(Devo dizer que lhes estou infinitamente grato por comprarem barcos e me contratarem.)

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Almoço no Café du Port, convencido de que seriam os últimos mexilhões decentes antes de muito tempo. Não estavam decentes. Estavam sublimes. 

8.9.24

Diálogo, carcaça

Pequena nota que não será lida por quem o deveria ser: não sou hipocondríaco. De longe. Nunca fui, nunca serei. Entrei simplesmente numa fase do meu diálogo com a carcaça de que não percebo metade (do diálogo, não da fase. Essa percebo-a perfeitamente).

Diário de Bordos - Roscoff, Bretanha, França, 08-09-2024 / II

Roscoff é uma pequena cidade na Bretanha, «ville de caractère», segundo a placa à entrada quando se vem da marina. Passei aqui dois ou três dias há coisa de um ano e ainda me lembro destas ruas e respectivas casas, sóbrias, quase austeras (o quase deve-se às portadas pintadas de cores vivas, pied-de-nez ao nevoeiro, à chuva, ao frio e a tudo o que faz da Bretanha o que ela é). Pergunto-me se seria capaz de viver aqui e a resposta é veemente: não, não seria. Demasiado longe de Paris e demasiado perto de nada. Enfim, talvez de Brest - uma hora de carro, diz-me o Google Maps.

De qualquer forma é uma falsa questão e não tem nada a ver com o clima, com a austeridade das ruas - que não deixa de ser bela, de resto - com a distância à «cultura» (aspas porque é trocista). Cada vez me é mais evidente que não consigo viver longe da minha língua, por muito que o seu país me decepcione. 

Na verdade, olho para trás - para muito longe atrás - e vejo que este dilema não é de hoje. É de anteontem, de antes de anteontem, de sempre. Tenho de começar a andar com a língua atrás, está visto. É um dilema que não sabia formular até há bem pouco tempo, daí tantas hesitações e tantos ziguezagues. A capacidade que ser capaz de exprimir claramente qualquer ideia tem de a tornar operacional é um fenómeno. Pergunto-me se os gansos, os bonobos ou as putas da orcas a têm. Estas últimas têm, de certeza. Bastaria explicar-lhes claramente que atacar-nos poderia ter custos. Infelizmente andamos a dar voltas ao penico em vez de lhes explicar clara e firmemente que os nossos lemes não são brinquedos.

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Em resumo: estou ansioso por chegar ao Porto.

Biografias, vantagem

A vantagem de ler biografias depois de uma certa idade (do leitor, não do biografado) é ficar-se a perceber onde e porque se falhou. 

Ou será "desvantagem"?

Diário de Bordos - Roscoff, Bretanha, França, 08-09-2024

Frio, chuva, mais chuva e frio. Estive aqui faz agora um ano, mais dia menos dia e queixava-me de a temperatura não passar dos vinte e dois graus. Bem, agora está nos quinze e vai subir até aos dezoito, diz-me a meteo da Microsoft, ignoro qual seja. Tanto o GFS como o ECMWF - consultados por curiosidade - apontam para dezassete. O meu termómetro interno diz simplesmente «Frio, demasiado frio». Se bem na verdade a chuva me custe mais a suportar. Enfim, é o que é.

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Um dos tripulantes - o sobrinho - descobriu ontem que na segunda que vem tem de estar na Holanda, por causa do trabalho. Resultado: o plano agora é ir daqui directamente ao Porto. Queria parar na Corunha para adquirir material defensivo anti-orcas mas parece-me que vou ter de ir sem isso. Merda de tempos estes em que a única espécie não protegida é a humana.

Isto dito, o jovem é um tipo porreiríssimo, um excelente tripulante apesar da sua total inexperiência e tenho pena de o ver partir.

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Descubro uma inusitada e até agora insuspeita atracção pela palavra «amanhã», exacerbada pela hiper-actividade dos meus tripulantes. «Deus fez o mundo, os holandeses fizeram a Holanda», dizem eles. Agora que a Holanda está feita continuam a fazer sem parar. É vertiginoso, tanto «fazemos agora, que fica feito». Também já fui assim, penso, mas agora não sou. Amanhã é uma palavra deliciosa, terna, acariciadora, carinhosa. «Não deixes para amanhã o que podes fazer depois de amanhã», dizia a piada do MAD Magazine que tantas vezes usei ironicamente. Pois agora ganhou estatuto de primeiro grau.

7.9.24

Diário de Bordos - No mar ao largo de Guernsey, Ilhas Anglo-Nornandas, 07-09-2024

O raz Blanchard - também conhecido por Alderney Race - apresentou-se com oito nós de corrente contra, a que o T. J. reagiu muito apropriadamente com um VMG que oscilava entre os zero ponto seis negativos e os zero ponto seis positivos, apesar de o motor vir no máximo admissível - ou talvez por isso. O vento estava fraquinho e de popa. Ou seja: podia escolher entre a Scilla da popa arrasada e a Caribdes da corrente na amura. Escolhi esta última, desenrolei a genoa e orcei. O VMG passou para um a um vírgula dois positivos e eu só tenho pena de não ser de dia, para ver esta correnteza toda. A certa altura tive de fazer leme porque o piloto não aguentava e agora escrevo isto já sem motor, a um largo, seis nós (a corrente ainda não virou), uma noite até aqui linda e estrelada mas agora totalmente coberta, as luzes das anglo-normandas a estibordo e as de França a bombordo, com um bocado de frio e o ombro esquerdo a massacrar-me e não consigo pensar senão na sorte que tenho, no que isto é tão bom e em que raio fiz eu certo, que ainda não percebi?

Os tripulantes - o dono e um sobrinho - são encantadores, holandeses e falam mal inglês,  qualidade que aprecio bastante. Percebem pouco de navegação (à vela ou a motor), outra benfeitoria - se percebessem não precisariam de mim.

É verdade que navegar com pessoas inexperientes e que querem aprender tem os seus inconvenientes,  o menor dos quais não é o suplemento de trabalho. Zelar por três fontes potenciais de erros é mais trabalhoso do que preocupar-me só comigo e com as minhas asneiras. Mas enfim, posto no prato da balança isto não pesa. E agora, sozinho no poço, quase com Jersey pelo través, o piloto a dar conta do recado... Que mais querer?

[Eu digo: que o vento não ronde já a leste e espere pela hora da previsão.]

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Estou tão cansado que não é apercebi sequer de que o estava. Foi preciso chegar ao café para ver que mal tinha forças para falar. 

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O tempo não ajuda. Um bocadinho de sol não faria mal nenhum. Chuva e frio no princípio de Setembro fazem.

6.9.24

A relação inexistente

A relação dos portugueses com a ironia é uma relação triste, desolada, inexistente por abandono de uma das partes.

Tal como com o humor, de resto. Não é por acaso que os nossos humoristas se contam pelos dedos de uma mão (os Gato Fedorento contam como uma unidade). E que Bruno Nogueira (por exemplo, um entre muitos) seja considerado humorista.

"Mais vale cair em graça do que ser engraçado" está ao nível de "um burro carregado de livros" para nos definir como povo.

A ironia e o sarcasmo são recebidos em Portugal como as noventa e cinco teses de Lutero o foram em Roma. Com uma diferença grande: pelo menos o Papa percebia o que o Martinho dizia.

4.9.24

Reedição - Rabindanath Tagore

Naqueles dias em que um gajo precisa dolorosamente de ler Tagore e não tem os livros: obrigado, Google.

"Keep me fully glad with nothing. Only take my hand in your hand.
In the gloom of the deepening night take up my heart and play with it as you list. Bind me close to you with nothing.
I will spread myself out at your feet and lie still. Under this clouded sky I will meet silence with silence. I will become one with the night clasping the earth in my breast.
Make my life glad with nothing.
The rains sweep the sky from end to end. Jasmines in the wet untamable wind revel in their own perfume. The cloud-hidden stars thrill in secret. Let me fill to the full my heart with nothing but my own depth of joy."


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“I am the boat, you are the sea, and also the boatman.
Though you never make the shore, though you let me sink, why should I be foolish and afraid?
Is reaching the shore a greater prize than losing myself with you?
If you are only the haven, as they say, then what is the sea?
Let it surge and toss me on its waves, I shall be content.
I live in you whatever and however you appear.
Save me or kill me as you wish, only never leave me in other hands.”

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"Where roads are made I lose my way.
In the wide water, in the blue sky there is no line of a track.
The pathway is hidden by the birds' wings, by the star-fires, by the flowers of the wayfaring seasons.
And I ask my heart if its blood carries the wisdom of the unseen way.”

Diário de Bordos - Dunkerque, França, 04-09-2024

O homem põe e o AIS dispõe. Mais um dia em Dunkerque.

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- A vida é um concurso de tiro ao alvo para cegos, não é?
- Para cegos e para zarolhos.

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"Si tu n'écris pas contre toi, mieux vaut ne pas écrire."

Christian Bobin, in Le Murmure, ed. Gallimard.

(A citação é de memória, mas não anda longe do original.)

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Um gajo navega três dias com holandeses e apercebe-se dos intransponíveis abismos culturais que nos separam. (De caminho, também de porque é que eles são ricos e nós não,  mas isso fica para outra missa.)

O direito à placidez devia fazer parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Se calhar faz, eles é que não sabem.

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Gastei uma pipa de massa em livros e um frasquito pequenino em rum. Devia ser ao contrário,  mas isto anda tudo invertido.

(Cont.)

3.9.24

A cor dos teus cabelos

Basicamente sei que estamos quase no Outono porque tenho a pele seca apesar de tudo o que andei hoje; e bebi vinho em vez de cerveja; e porque a luz do poente, filtrada pela humidade, ilumina estes prédios tão feios e fá-los parecer bonitos, coisa que só um poente outonal - ou primaveril, mas não estamos quase na Primavera - conseguiria

Contudo, estes são métodos básicos. De uma forma mais elaborada, poderia ir ao calendário astronómico e ver que o equinócio vai ser dia vinte e dois ao princípio da tarde, daqui a duas semanas e meia. Ou, melhor ainda: dar um passeio pelo parque, esse parque aonde tantas vezes fomos e apanhar as folhas que já têm a cor do teu cabelo. Traria tantas...

Diário de Bordos - Dunkerque, França, 03-09-202

Não é impossível que a minha vida tenha sido uma sequência de oportunidades perdidas.

Do que não há dúvida, porém, é de que as perdi com estilo.

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"Dunkerque é uma cidade feia", penso. "E eu, sou bonito?", continuo logo de seguida.

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Fala-se muito na navegação em solitário, esquecendo que navegar com tripulação inexperiente é muito mais cansativo. 

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Escala forçada em Dunkerque, porto aonde já não vinha há quarenta anos. Assusto-me ao ver o que da cidade a minha memória reteve: quase nada. Quem foi que esteve aqui? Eu ou outro eu? Esta cidade faz como poucas parte do meu presente - parte da minha vida - apesar de só cá ter vivido quatro meses. Lembro-me tão pouco da cidade em si... Recordo alguns episódios, claro. Bons, maus, lamentáveis, felizes. Mas nada das ruas nem do porto - aonde trabalhava.

Como se aquelas memórias pudessem ser de outro sítio qualquer.  Não podem, claro: a D., o Jean-Paul da Pilotine (o bar já não existe) e as dezenas de outros que esqueci eram o que eram porque a cidade os moldou assim.

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Largamos amanhã: a avaria do GPS está resolvida (espero - era um problema informático e não de material. A ver.) e a meteo vai ajudar. Gostaria muito de passar aqui mais uns dias, mas não troco o presente pelo passado nem o que foi pelo que poderia ter sido.

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O GPS avariou a cinquenta milhas daqui. Quem conhece a zona sabe a confusão que isto é: lanes, baixios, bóias, wind farms, correntes, o diabo a quatro. Fazê-las com uma aplicação no telefone foi uma seca mas confirmou que fiz bem em ter comprado as cartas para aquilo.

Além disso, permitiu-me comparar em condições reais o i-Boating (doze em vinte) com o Savvy Navvy (um em vinte). A próxima a ser testada é a Navily.