25.10.24
Querido diário. Ou: Espera
24.10.24
Definição - Escrever
Escrever é traduzir aquilo que se é naquilo que se seria se fôssemos como quem escreve.
Parece simples, mas não é.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-10-2024
O valor das coisas que me roubaram ascende a mil e algumas centenas de euros. Sei-o porque recorri aos seguros. Fiquei igualmente a saber que o telefone tinha sido comprado em Junho deste ano, a máquina fotográfica em Maio de 2020 - para alguma coisa os confinamentos serviram - e o computador em Dezembro de 2023. Tudo tão recente e tão parte de mim. O estojo com as Parker acrescenta às algumas centenas, mas como foi pago em dinheiro ignoro a data. Do montante lembro-me, porque as comprei para substituir umas iguais que o meu Pai me oferecera e eu perdi estupidamente em Antigua. Juntamente com uma máquina fotográfica, isto anda tudo ligado.
O dinheiro líquido apaga a história? Nunca tinha pensado nisso. Que apaga traços - ou não os deixa - sim. Mas apagá-los? Os meus critérios cash vs. cartão vão começar a incluir um parâmetro mais (as canetas foram compradas na Feira da Ladra. Os parâmetros novos são líquidos).
Resta saber se e quanto os seguros vão reembolsar a minha inaceitável confiança. Ou melhor: a minha inaceitável falta de desconfiança.
E depois: ninguém é livre sozinho. A minha liberdade deve muito a muita gente. Todos nós devemos? «Nenhum homem é uma ilha»? Sem dúvida. Isso significa apenas que não sou diferente, é tudo. Sou livre porque não sei não o ser. É uma escolha? Não sei. Nunca experimentei a alternativa. Nunca deixei de ser livre, mesmo quando não o era. «Sou o que sou e é tudo o que sou», dizia Popeye. Sou livre porque é tudo o que sou, poderia acrescentar eu.
Com a devida gratidão.
.........
PS - Quando acordo às três ou quatro da manhã vejo um planeta pelo albói. Esta noite fui investigar qual é.
Saturno.
(Para a L.)
22.10.24
Diário de Bordos - Lisboa, 22-10-2024
Pergunta-se o diarista:
- Que fazer dos dias maus?
- O mesmo que fazes dos outros. Escreve-os, digere-os, põe-nos a render, espreme-os. Podes até mentir e torná-los piores. Ou menos maus. Ou - arte suprema do diário - mentir e contá-los como foram. Tudo menos a pieguice e render-te a eles. Podes mentir-lhes, dar-lhes a ilusão de que ganharam, te ganharam; mas que isso não passe de ilusão, de recuar para melhor saltar. Tece, ilustra, tergiversa, sorri para melhor esconderes as lágrimas, promete-lhes vingança.
Numa palavra: manda-os à merda.
.........
É exactamente o que vou fazer contigo, vinte e dois de Outubro de dois mil e vinte e quatro. Vai à merda.
........
O dia vai para aonde eu lhe digo, mas quem a limpa, varre o chão e põe nos baldes para mais tarde a despejar sou eu, claro. Ele esvai-se tranquilamente numas voltas em torno do eixo, pisca-me o olho no copo de vinho tinto, agita-me os resultados das análises à frente dos olhos, palhaçada para me fazer sorrir, foram bons, eu sei, a carcaça lá se vai aguentando e a verdade é que a carcaça está para nós como a construção civil para a economia: quando um vai bem, o outro vai bem também.
Apetece-me arrancar este dia de todos os calendários e dele deixar só algumas sombras, como estas favas. E o A1c, claro. E o pudim flan.
E mai'nada!
21.10.24
O dever e o poder aliam-se ao querer: três indomáveis verbos
Poder-se-ia dizer que é demasiado cedo para (te) escrever. Aliás, na verdade até talvez o verbo adequado fosse dever: "dever-se-ia dizer, etc."
Poder e dever são como aqueles tenistas que às vezes jogam juntos contra outros pares e às vezes jogam um contra o outro. Desta vez jogam do mesmo lado contra um adversário difícil mas com a ajuda do árbitro, que é bicéfalo: eu gosto do que é difícil e quero escrever-te.
Ou seja: de um lado da rede temos três verbos. Do outro, uma coisa qualquer mais ou menos indefinida, que tu sabes e eu também mas para a qual me estou nas tintas. A questão é: e tu?
Não sabemos. Só quando o jogo acabar saberemos quem ganhou.
Nocturnos e diurnos diversos
O meu coração está com uma pequena fuga de amor. É uma coisa que mal se nota nas receio que venha a piorar. Suponho que seja de uma válvula, deve ter uma folga. Vou ver se lhe dou apertozito e consigo estancar isto agora que está no princípio.
.........
O nome do puzzle é harmonia. Quando o completamos, dizemos "tenho a harmonia feita" e levam-nos a enterrar. Quando não conseguimos acabá-lo: "Estou feito. Não encontro a harmonia." E dão-nos mais uma chance.
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Como se as palavras fossem flechas que escolhem elas próprias o seu alvo e to indicam suavemente. Sabem mais disso do que tu.
Têm sempre razão. Acertam no alvo que ecolheram.
20.10.24
Definição - amor
O amor é uma prisão que se constrói com duas liberdades, não uma liberdade feita de duas prisões.
Vida, um diálogo
- No fundo, é das inconciliáveis contradições que quero falar. Do esforço inglório que é tentar conciliá-las.
- Esse esforço chama-se vida.
Liberdade, ambiguidades e outros constrangimentos
17.10.24
Diário de Bordos - Comboio Lisboa-Viana do Castelo, 17-10-2024
Felizmente o Metro conseguiu repor a normalidade na estação do Marquês - os dois tapetes para se mudar de uma linha para outra estavam avariados. É importante as instituições lutarem por manter a normalidade. Um cidadão fica apeado, surpreso, abatido - as traduções não são minhas. Procurava désarçonné - quando chega a uma estação de Metro e todos os equipamentos funcionam. A normalidade é importante. Parabéns portanto ao Metro que conseguiu desequilibrar-me na Baixa-Chiado e rapidamente me recuperou no Marquês.
Enfim, piada é uma maneira de dizer.
16.10.24
Raiva e outros prospectos
Acabo de perder o avião da maneira mais infame, asquerosa, nojenta, odiosa, absurda e injusta que já me aconteceu.
É preciso começar por dizer que é extraordinariamente raro eu perder um avião. Uma vez - no tempo em que ainda não conseguia dormir nos aviões - cheguei a Orly vindo de Fort-de-France e como não tinha dormido nem um minuto adormeci. Quando acordei o avião tinha saído. Outra vez, em Casablanca, aconteceu-me o mesmo (mas vindo de Gibraltar, a navegar) e dessa vez o avião esperou por mim. Atravessei o aeroporto a correr, com um hospedeiro (?) de terra (?) à minha frente para afastar as pessoas (nessa altura ainda não havia cachorros).
Hoje foi pior. Comecei por chegar três horas antes do voo. Agora se não se importam salto meia dúzia de degraus. Tinha um aviso a informar que o avião sairia com quarenta e quatro minutos de atraso. Vinte minutos antes da nova hora cheguei à porta e o voo estava fechado. Afinal o atraso tinha sido inferior ao anunciado (o que fica para ver. Nada me garante que não tenham feito os passageiros esperar meia hora, como acontece tantas vezes).
O pior é não ter nada nem ninguém a quem reclamar. E a atitude das duas putas hospedeiras de terra que faziam o embarque. E a frustração de ter uma consulta médica marcada há meses e falhá-la (ou pô-la em risco, ainda vou tentar lá chegar). E a raiva, a simples e pura, cristalina, não filtrada raiva.
É tanta que em vez de voltar de táxi para bordo vim neste horroso autocarro, cheio de gente, de gordos, de malas com rodas e cachorros. Poupando assim vinte euros que vou tentar aplicar numa consulta psiquiátrica no 7 Machos.
Diário de Bordos - Aeroporto de Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-10-2024
Não sei se é o tempo, se a dor, se outra coisa qualquer que tento dissolver em vinho tinto. Sangre de Toro, se faz favor, um vinho que traz com ele vagas de memória semelhantes às da dor no ombro, vagas sem praia aonde chegar. Andam ali pelos respectivos mares, sem areia aonde deixar os traços de espuma que tanto encantam os românticos e os ociosos.
Nunca se sabe bem o que se tenta dissolver, seja lá o que for. Nem porquê. Isto de fazer ao vinho perguntas para as quais ele não tem respostas dá sempre mau resultado. Mais vale bebê-lo em silêncio e agora, não há trinta anos e em diálogo.
15.10.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-10-2024
Domingo à noite tive de ir às urgências do hospital de Palma e hoje fui a um centro de saúde completar o tratamento recebido no hospital. Não é a primeira vez que usufruo dos serviços de saúde desta cidade e posso portanto confirmar o que hoje à tarde intuí: esta cidade não tem doentes. Tem hospitais, centros de saúde, farmácias - mas doentes nem vê-los. A minha estadia no hospital, incluindo um engano que me custou dez minutos, foi de uma hora, porta a porta. No centro de saúde - enorme, limpo e vazio - havia uma pessoa à minha frente. Levaram mais tempo a tratar da papelada do que a médica levou a receber-me e receitar o que tinha a receitar. Exactamente como no nosso país, o que me deixa bastante sossegado.
Enfim, ironizo. Em Portugal é o contrário. Os serviços de saúde estão cheios, as esperas são imensas, os locais têm mau aspecto, terceiro-mundista. Vá lá, temos o Cristiano Ronaldo para salvar a honra do convento. Não fosse ele e a vida no nosso país não seria a mesma coisa. Seria pior.
Desta vez no norte do país. Quero. Mas o cepticismo mantém-se. Deve ser a esta mistura que se chama experiência. Ou bom senso, vá lá saber-se.
Anjos et al.
Se um arcanjo está um patamar acima do anjo, um arcanjinho está um degrau abaixo do anjinho?
14.10.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-10-2024
Estou outra vez na condição de máquina de tomar comprimidos. Se ao menos servissem para qualquer coisa.
(Calimerice. Servem. Servirão. Só hoje comecei com as coisas sérias. Preciso de uns dias. Até lá, maldigo a carcaça, quando tenho energia para isso. É injusto: as dores não aparecem quando trabalho, aparecem depois, quando acabo o dia e penso no de amanhã. Pensaria, se pudesse.)
Hoje vou ao 7 Machos. A mistura de comprimidos e mezcal vai der cabo desta puta, chicuembo xa'nhaca (?). «Juro palavra de honra sinceramente vou morrer assim.»
12.10.24
Dissonâncias etárias
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 12-10-2024
(Uma das minhas canções favoritas de Paco Ibañez chama-se A Galopar. Vou mudar-lhe a letra para A Coxear e fazer disso o hino do P.)
8.10.24
Línguas
Na verdade uma lingua é muito mais do que a língua. Gosto de francês como gosto do português e já o falei como falo português, mas não poderia viver em França, por exemplo. Não quero viver em francês. Gosto da parte de Espanha aonde agora vivo - Palma - nas não falo espanhol como falo francês. E tão pouco poderia lá viver. Ibidem para um país anglófono. Não falo inglês tão bem como ainda falo francês, domino estas duas melhor do que o espanhol, conheço os países de onde são oriundas - mas nenhuma delas é a minha língua. Não tem nada a ver com o léxico, a sintaxe, com a morfologia. A gramática não passa de uma parte da língua. Uma língua é constituída pela gramática, pelo vocabulário e pelas memórias, assim mesmo no plural.
Não me refiro à nossa memória, a de cada um mas sim às memórias colectivas, as memórias todas que os falantes de um determinado idioma produziram ao longo dos séculos e que a cada momento histórico se agarram às palavras como o artista de circo ao trapézio. Um trapézio sem trapezista é como uma palavra sem memórias: fica ali a abanar, solitário, inútil, triste.
Diário de Bordos - Lisboa, 08-10-2024
Só falta o mais difícil: escrever. Ou: só falta tudo - escrever.
Claro que se tivesse juízo não daria nada a ninguém. Não tenho e pouco me importo com isso. Convivo bem comigo e com as minhas faltas - de juízo e as outras, que são muitas. Só não cohabito pacificamente com o resto de mim, a outra metade, a que não é uma falha.
6.10.24
Jazz, civilização
Diário de Bordos - Lisboa, 06-10-2024
Se eu tivesse dinheiro comeria todos os dias no Gambrinus e no Solar dos Presuntos, alternadamente. Com umas escapadelas ao Chiringuito, claro. Felizmente não tenho e isso permite-me poupar uma fortuna em restaurantes. Venho portanto comer ao Alga, uma casa da categoria "Resistentes": não é gourmet, não é fusion, não é bio, não é glutenfree, os empregados são senhores respeitáveis e correctamente vestidos. Os preços condizem com tudo isto. Ainda há quem pense que eu sou gastador?
O cozido à portuguesa do Alga estava uma maravilha. Um pináculo da cozinha tradicional nacional (refiro-me ao país, não à paisagem). Seguiu-se-lhe o competente caldo, para aconchego da alma e do estômago, por esta ordem.
Poder-se-ia talvez quiçá argumentar que quem teve na sua vida - e no seu palato - uma avó chamada Filipa e um cozinheiro Miguel (aquela em Portugal e em Moçambique, este em Cape Town e no mar ao largo da Namíbia - isto para não mencionar a Mãe Blá) é indiferente a clivagens país / paisagem. Seria eventualmente verdade se Lisboa não fosse Lisboa e não tivesse estas coisas todas - cozidos, amigos, restaurantes resistentes - mais bares e casas de jazz (ontem estava fechado, maldito seja o gás ou lá o que foi que provocou o fecho), táxis à la minute, livrarias como a Snob ou a Palavra de Viajante... paro aqui. A lista é demasiado longa.
Portugal é Lisboa porque só em Lisboa se encontram todas as qualidades e todos os defeitos do ser português. Na paisagem eles estão bastante desequilibrados (com um forte pendente para um dos lados da balança. Adivinhe-se qual).
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O calcanhar de Aquiles do restaurante Alga é o vinho da casa. Hoje perguntei ao senhor quanto me cobrariam se eu trouxesse o meu vinho de casa.
- Nada. Traga à vontade.
Alvorecer
Alvorecer é uma palavra amável, cheia de promessas. Tem alva na ascendência, é parecida com alvíssaras, é una palavra de passagem, traz luz e alegria (se o dia estiver para isso). Por exemplo: começou a alvorecer em mim a ideia de que não escrevo só disparates. (Agora é preciso ver quanto tempo dura o crepúsculo. Se for menos de trinta anos não conta.)
Nos livros de bordo de antigamente (e hoje também, se calhar. Não sei) havia uma entrada chamada "primeiros alvores". Eu fazia o quarto das quatro às oito (também conhecido por "segundo quarto", por ser o do imediato) e achava aquilo muito estúpido. Que raio de informação se obtinha a partir da hora dos primeiros alvores? Ainda não estava familiarizado com o conceito de meta-informação.
Alvorecer. Primeiros alvores. Alvíssaras.
4.10.24
Cães, donos
Cães, cães, cães. Um gajo não pode dar dois passos na rua sem ver um cão com o dono pela trela.
Aonde estão os cães vadios da minha infância? Cães sem dono, donos sem cão.
Diário de Bordos - Sesimbra, Portugal, 04-10-2024
Hoje foi a Tasca do Isaías em Sesimbra, ontem O Castelo em Sines, anteontem o Reis em Lagos. Quem tem recomendações tem tudo. A paisagem tem decididamente bons sítios para se comer. Agora só falta chegar a Portugal, ver se finalmente como não só bem mas como deve ser, com civilização nas imediações. Chego amanhã, se nada mudar até lá.
(Pequeno elogio de passagem ao camarote da proa do M. A. Parece que estou num hotel de cinco estrelas. E só parece por causa da ,localização do maldito interruptor. Não fosse isso e estaria mesmo melhor do que no quarto de um hotel de luxo.)
PS - Quando cheguei sentei-me numa mesa que tinha à frente uma televisão - é uma praga - e pouco depois de me sentar começou a falar o senhor do PS. O homem dá-me urticária só de o ver (é tudo o que ele tem para dar, coitado) mas felizmente o bar é grande e o senhor (do bar) acedeu a desligar a outra televisão, a meu pedido, com o argumento indesmontável de que estou sozinho naquele lado e fui para uma mesa sem televisão.
PPS - Peço um rum, para acabar. Vem num balão. Lisboa, mundo, where art thou?
3.10.24
Diário de Bordos - Sines, Alentejo, Portugal, 03-10-24
A passagem do cabo foi movimentada, como sempre. Agora é só subir esta longa, interminável costa que as putas das orcas tornam ainda mais longa: há que ir o mais perto possível de terra, tentar seguir a batimétrica dos vinte metros. As cabras não gostam de águas baixinhas. Eu tão pouco gosto.
Às segundas, quartas e sextas agradeço à carcaça. Às terças, quintas e sábados apetece-me enforcá-la. Aos domingos paro para pensar e beber. É o seu dia favorito.
Sim, continua. Os melhores irish coffees em muito tempo: cervejaria Murta, Sines. Morte aos preconceitos. Viva os preconceitos. A próxima vez que vier a Sines venho aqui jantar. É uma promessa.
Diário de Bordos - Lagos, Algarve, Portugal, 02-10-2024
Mexo-me com notória dificuldade, o que de certa forma é injusto porque à minha volta tudo mexe. Tudo e todos: mesas, cadeiras, paredes, chão, pessoas, empregados (pessoas sendo para este efeito clientes, claro). Tudo mexe menos eu. As minhas costas parecem uma barra de aço inoxidável submetida a pressões do outro mundo.
Tive sorte: a barra acabou por ceder e lá consegui levantar-me da cadeira, ir buscar o bloco-notas e as canetas e voltar a sentar-me, tudo isto sem alertar e muito menos alarmar os restantes frequentadores do sítio. Estas costas são como a muralha de aço do camarada Vasco: uma fantasia.
Tem uma parte das costas à vista, o que a faz perder pontos; e poignées d'amour correctamente dimensionadas, o que a faz recuperá-los ainda antes de os ter perdido.
A noite acaba com um cocktail qualquer no bar Peppers. A música é óptima: Doors, Led Zeppelin, etc. O cocktail dá vontade de me teletransportar para o Procópio. Há pessoas que não gostam de Lisboa. Sugiro-lhes vivamente que venham visitar a pré-história. Não percebo o que vêem nessas expedições etnográficas quando não muito longe têm uma cidade.
1.10.24
Modo largada. Ou: Tudo e o seu contrário
Fragmento, quase
Retirei-me do tempo, por assim dizer, como dantes os eremitas se retiravam do mundo.
Cidades, oxímoros
As palavras nascem nas cidades e nelas se perdem. Antes das cidades não havia palavras. Havia grunhidos e talvez alguns sons organizados em sílabas. Duas, não mais. Por exemplo: Amo-te. Tem três sílabas. Existiria antes de as cidades terem sido inventadas? Por exemplo: esquinas? Avenidas? Jardins? Por exemplo: coração? Vinho existia, decerto. Tem apenas duas sílabas e apesar de serem suaves, doces, é bastante provável que os povos pré-citadinos a conhecessem.
Povos pré-citadinos? Andas a dar-lhe nos oxímoros?
Diário de Bordos - Vila Real de Santo António. Algarve, Portugal, 01-10-2024
Nunca liguei muito ao dia dos meus anos. Antes do Facebook esquecia-me frequentemente dele. Agora é impossível - e embaraçoso: sou notoriamente relapso a enviar parabéns e quando recebo avalanches deles não sei bem como reagir, para além do obrigatório e gigantesco Obrigado a todos!
(Para quem não sabe: põe-se um ovo cru entre o casco da embarcação e o cais. Se ao atracar o ovo se partir a pessoa que manobra não é aceite no clube. A prova deve ser repetida dez vezes com zero falhanços para que a admissão seja definitiva. É independente da dimensão da embarcação - aplica-se a graneleiros, supertanques, navios de pesca e embarcações de recreio.
Desde Maio que não estou sozinho a bordo de uma embarcação e muito menos a navegar. Ontem pareceu-me uma viagem ao paraíso, apesar de as putas das orcas estragarem um pouco o prato. Fico doido quando vejo idiotas louvar-lhes a beleza. Pata que as pôs mais a beleza. Elas que vão atacar a vagina da mãe e nos deixem navegar por onde queremos e precisamos de passar.
Escrevo ao som dos Steeley Span, um grupo que me foi dado a conhecer por um soldado inglês num infame, sórdido, bar de Gibraltar quando Gibraltar ainda não era o nojento buraco de turistas em que se metamorfoseou.
Três da tarde. Não vai dar tempo para uma sesta como deve ser. Mais uma vantagem do rum: equilibra a ausência de sesta. PS - O terceiro vem ainda maior. Este sim, foi o almoço do meu dia de anos.
29.9.24
Diário de Bordos - Cádiz, Andaluzia, Espanha, 29-09-2024
Vou para terra vazio e de táxi, regresso cheio e a pé. A lógica das coisas é diferente das coisas da lógica: quando fui de cheio só tinha a fome e o cansaço e não podia com uma gata pelo rabo; voltei depois de um jantar no restaurante Cumbres Mayores (o nome é um understatement) e o cesto das compras não estava assim tão pesado. Pesado estou eu agora, apesar de o jantar ter sido, no fundo, frugal: salmorejo, cinquenta gramas de presunto de belota, um coulant de chocolate com gelado de banana que podia ter sido feito pelo Claudio, vinho e vermute A Copa, um dos grandes aqui no espaço qualificativo do tio Luís. Resultado do exercício: ainda estou cheio de comida e de cansaço mas consegui trazer o cesto que comprei em Vila Real pendurado no ombro; tudo isto no prazo que o Google Maps impartiu: vinte e cinco minutos. Ou pouco mais, provavelmente.
Cádiz é uma cidade maravilhosa e só tenho pena de não vir aqui mais vezes. Parece que tem mar em todas as ruas.
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Contrariamente ao que é habitual, desta vez queria fazer uma festarola para o meu aniversário. Tudo indica que vai ser uma festa com um convidado só.
Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 29-09-2024
De saída para Cádiz, para um pequeno transporte que vem mesmo a calhar, qualquer que seja o ponto de vista a partir do qual se o observe. Com um bónus: vou sozinho. Nem tripulantes nem proprietários. Só há uma palavra: hallelujah!
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A carcaça vai colaborando. A pé-coxinho, mas colabora. Nada que três ou quatro días de mar não curem definitivamente. Herpes, alergia, constipação de saison (desta vez não chegou a gripe) vão a caminho do passado, todas juntas. Os médicos bem podiam chamam a isto convalescença activa (se calhar chamam).
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Vila Real de Santo António é um porto agradável, daqueles que nos dão vontade de os referimos com montes de diminutivos.
Resta saber se são todos afectuosos. Não são.
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Blablacar para Sevilha. O homem chegou com dez minutos de atraso, o que sendo pouco habitual não é grave; e vamos três atrás num Golf, o que é chato, no mínimo. De Sevilha para Cádiz parece que sou o único passageiro e o carro é maior. Grande ideia, esta da Blablacar, se bem como sempre a coisa tenha um pouco degenerado, inevitavelmente. Aqui em Espanha há gente a fazer vida disto. Ou pelo menos complemento de vida, o que leva a estas situações. Por enquanto tenho apanhado poucas.
Somos cinco, incluindo o condutor. Ninguém fala. Parece um avião - nem um Hola antes de entrarmos no carro. ¡Qué vaya! Algumas das melhores viagens de carro da minha vida foram na Blablacar. Tenho margem para uma ou outra piorzita.
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Desta vez não paro em Sevilha. Saio de um carro e entro noutro (com um táxi de permeio, provavelmente). É uma tortura. Pequena, mas tortura. Vá lá que tenho uma parte da tarde em Cádiz, outra cidade que o meu coração acolhe com todo o entusiasmo de que é capaz. Isto é: muito.
28.9.24
Equação
Procuro um lugar na vida, se possível em part-time. Estou farto de viver a tempo completo. Alternativamente, um lugar temporário. Meia dúzia de meses, talvez um ano. Viver muito ou é chato ou é cansativo. Ou os dois, a pior mistura. Procuro uma meia-vida, ver se descanso. Viver a tempo completo farta.
O problema é saber se meia-vida não será igual a uma morte completa, como sempre pensei.
26.9.24
Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 26-09-2024
Vila Real de Santo António. A ideia era passar aqui uns dias valentes a fazer trabalho intelectual mas já se me meteu um pequeno transporte pela proa este domingo. Pequeno ou grande não posso dizer que não, apesar da vontade. Ou melhor, apesar do cansaço. Por outro lado, a perspectiva de ir sozinho para Lisboa entusiasma-me e faz-me esquecer o cansaço e a falta de vontade. Há muito tempo que não faço uma viagem sozinho e este mês em constante companhia faz-me ansiar por uns dias comigo.
Estes dois dias com a S. (Olá, S.!) deixam-me prever uma boa colaboração para o nosso projecto. A ideia é chegar a Lisboa e voltar para aqui antes de ir para Palma, ver se ponho aquela porra daquele P. a funcionar. Hoje [amanhã] acabam de lhe pintar o convés, falta demasiado pouco para sequer usar a palavra quase. É doentio, de pouco. É doentio, de tanto.
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Compras, lavandaria, almoço, Western Union, rever um amigo - por sinal o mais antigo que tenho ainda em actividade, conhecemo-nos em Quelimane -: a logística do descanso é mais complicada do que o que parece à primeira vista. E de fora ficou o duche, adiado para amanhã sem grande prejuízo da minha higiene ou do olfacto alheio. As temperaturas não querem saber do «Verão mais quente de sempre» e estão como andam (pelo menos para mim) há semanas: demasiado baixas.
Não me posso porém queixar. A roupa está lavada e os dias vão aquecer. Não preciso de ir a Caminha, contrariamente ao que pensava. Agora, o próximo rendez-vous certo seria no dia quatro em Setúbal mas é pouco provável que possa ir, de maneira vou concentrar-me no plano original até ter a confirmação do transporte para Lisboa: descanço, vinho tinto e medronho.
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Reencontro Portugal com a atitude ambivalente de sempre. Pelo menos até chegar a hora de pagar a conta: aí a ambivalência desaparece e é substituída por um grande, grato sorriso.
24.9.24
Diário de Bordos - Comboio Portimão - Olhão, 24-09-2024
O mundo encantado de Luís Serpa: um bilhete que devia ter-me custado três euros e setenta acabou por custar-me treze e setenta, com o bónus de chegar uma hora mais tarde ao destino, que não é bem um destino mas uma etapa.
Ninguém imagina o que eu compreendo quem não me grama. Aliás, candidato-me já ao lugar de presidente do Clube do gajos que não me gramam, se vier a ser formado. Do que duvido, apesar de ser mais fácil criar um grupo de anti-fãs do que de fãs. Mereço o posto mais do que ninguém porque poucas são as pessoas que me conhecem tão bem como eu.
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O transporte de Holanda acabou. Vou ver se se confirma um para Lisboa no domingo e tentar pôr a cabeça no lugar, tarefa que me parece ciclópica. Não porque a dita mente seja grande, mas porque está a milhas do resto do corpo - a distinguir de carcaça, que é outra coisa.
(Cont.)
23.9.24
Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 23-0-2024
Magnífico jantar no Peixeirada. Lulinhas fritas à Algarvia (o F.), acorda de camarão (eu). Vinho branco do Algarve, leve e ágil como provavelmente o nome quer indiciar: Nova Vida.
O medronho veio directamente do Paraíso e levou-me para lá.
Ao jantar seguiu-se o tradicional bolinho tradicional na Casa Inglesa e bordo, que o frio aperta.
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Amanhã encontro-me com S. F. por causa do livro que me desafiou a escrever com ela sobre Portugal. Aderi com o entusiasmo do velcro, ver se abro finalmente a válvula a estas palavras todas que se acumulam em mim e não saem.
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Uma palavra de louvor para o F., que é realmente um tipo impecável (impressão esta que amanhã terá o seu desfecho e - tenho a certeza - confirmação).
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Não sou capaz de distinguir uma rosa amarela de um fá bemol, apesar de gostar de oferecer flores e ouvir música.
Mas sou capaz de perceber a cumplicidade que se forma entre pessoas que cantam ou tocam em conjunto. É uma ligação etérea porque feita de sons e densa como betão armado pela mesma razão.
A rosa amarela? Fica para depois, pode ser?
22.9.24
Diário de Bordos - Sines, Portugal, 22-09-2024
O jantar foi uma merda. Sardinhas assadas no Beicinho, aonde já o ano passado com o P. D. tinha comido mal. Desta vez prometo e juro que nunca mais lá ponho os pés.
Felizmente o F. apreciou imenso. Antes assim.
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Regresso a bordo, deito-me imediatamente e reencontro aquela mistela de sono, frio e palavras. Ver se expulso estas depressa para dar lugar aos outros dois. Ou melhor: ao sono. O frio dispersa-se por baixo dos dois edredons.
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A fuga de água doce - vinha dos encanamentos do cilindro de água quente - piorou e hoje ficámos sem água nos tanques. Paciência. Vamos assim para Portimão. Esta porra desta viagem tem de ter um fim.
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A origem das dores de cabeça, hipersensibilidade cutânea e febrilidade difusa dos últimos dias está explicada: violentíssimo episódio de herpes labial. Cada vez que isto acontece tenho vontade de esganar a H. R., magnifica namorada por quem ainda hoje sinto amizade, ternura, carinho, afecto e saudades - tudo entrecortado por raiva ilimitada nos dias em que isto aparece. São cada vez menos mas a intensidade é cada vez maior.
Não precisavas disto, H., para eu não te esquecer. Estás em todas as minhas memórias, as do corpo e as da mente. Ainda há dias andei à tua procura na net. (Não, não foi para te esganar.)
21.9.24
Noite
Sono, frio e as palavras de permeio. Palavras insuficientes para os outros dois e para o que fica por dizer. Este cansaço, por exemplo. A embrionária possibilidade de um transporte do Egipto para o Quénia. A dor no braço esquerdo. Tudo isto é nada, dissolve-se na mistura inicial: sono, frio e palavras para os descrever, para os colar à noite da qual saíram. O frio abusa, aproveita-se do cansaço. Este programa estender-se às palavras. E estas, que fazer delas?
Levá-las a ver a noite como se levam crianças ao jardim zoológico.
Diário de Bordos - Cascais, Portugal, 21-09-2024
19.9.24
Labirinto
Em cada porto um amigo
Nunca soube o que é essa coisa de "uma namorada em cada porto". Já "um amigo em cada porto" sei perfeitamente: uma bênção. Ontem foi um desses dias.
18.9.24
Frio, idade
Nao estão mais de dezoito graus em Vigo. A senhora tira o casaco e fica numa camisa sem mangas, sem ombros e sem quase nada até meio das costas. Não lhe vejo a cara, mas é fácil deduzir que já tem idade para ter frio.
17.9.24
Diário de Bordos - Vigo, Galiza, Espanha, 17-09-2024
O T. J. mete água salgada pela borda de estibordo - a do meu camarote, claro - e perde água doce não sei por onde. Não é uma fuga nos encanamentos porque a bomba de água doce não se põe a trabalhar sozinha, não vem dos duches porque a água não está ensaboada, não vem dos tanques porque estão secos como um dia de Verão no Alentejo. Hoje o dia foi passado a levantar paneiros, limpar e secar fundos, espreitar por tudo quanto é canto. Os paneiros estavam aparafusados - disse ao F. que aquilo é um erro e ele ouviu-me, daí o pretérito - e um deles é enorme. Sugeri-lhe que o cortasse em dois. É importante que se tenha acesso fácil aos fundos. Os quais estavam imundos, como era de esperar. De tudo isto resultou um belo cansaço que a curta sesta não foi suficiente para curar. Se o I. ainda estivesse a bordo teria deixado a seca aos dois. Não estando, não sou capaz de não ajudar, tanto mais que ele merece. Quem não merece sou eu.
Ou melhor: mereço. O meu estúpido optimismo consegue sistematicamente levar a melhor à experiência. Isto dito, continuo a preferir os pagamentos em modo lumpsum aos mais habituais ao dia ou à milha. Não posso é fazer asneiras como esta. (O que basicamente equivale a dizer que o Sol não devia levantar-se todos os dias.)
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O técnico da Raymarine veio a bordo. Trocou alguns cabos e fichas e disse-me que se tivesse problemas amanhã lhe ligasse. Dos três que tivemos a bordo é o único que me inspirou confiança. A ver vamos, como dizia o ceguinho.
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Próxima escala: Lisboa.
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Excelente vermute no café Komerzio: Zecchini. Caseiro e artesanal, diz-me o empregado. Não é impossível. Mas de que é bom não há a mais pequena dúvida.
16.9.24
Diário de Bordos - Vigo, Galiza, Espanha, 16-09-2024
12.9.24
Silêncio?
Nunca conseguirei perceber as pessoas que dizem que gostam de barcos à vela por causa do silêncio. Não há silêncio nenhum num veleiro. Isto fala pelos cotovelos e quantas vezes aos gritos, como agora. E estamos na marina.
Hopper
Christian Bobin, ainda e sempre
"Je cherche la vie délivrée de la vie, l'amour délivré de l'amour, ce froissement d'or d'un diapason, cette note pure qui tremble bien avant notre naissance et après notre mort."
Christian Bobin, Le Murmure, ed. Gallimard
(Obrigado ao Emanuel Cameira e à sua Barco Bêbedo por me ter feito conhecer Bobin.)
(Cont.), beleza
Glossário parcial
Fragmento (ou por vezes Fragmentos) são posts feitos a partir de coisas que escrevi em correspondência privada. Auto-citações, por assim dizer. Chamam-se fragmentos porque o são, regra geral. Às vezes peço autorização às pessoas a quem a correspondência era dirigida; outras não. Depende não sei bem de quê, mas depende. Assim de repente, diria que depende do acaso.
Há alguma coisa que não, Sigmund?
Fragmento
Como a relação assimétrica entre a beleza e a verdade: nem tudo o que é verdadeiro é belo, mas tudo o que é belo é verdade.
11.9.24
Diário de Bordos - Roscoff, Bretanha, França, 11-09-2024 / II
O homem põe e o Raymarine dispõe. Desta vez foi o piloto. Ainda pus a hipótese de governar à mão até La Coruña, mas felizmente o bom senso interpôs-se e voltei para trás. Com dois tripulantes inexperientes e um braço esquerdo que não só não serve para nada mas também provoca dores intoleráveis continuar teria sido uma idiotice sem fim. Aparentemente o problema está no fluxgate, nome chique para agulha digital. (Agulha sendo o nome chique de bússola, se por acaso.)
De modo cá estou de novo na brasserie La Hune, que faz ofício de escritório e cantina. O técnico volta amanhã a bordo, mas só no fim da manhã. Até lá, faço como a Penélope mas sem um sudário que tecer. E vou tratando do P., para quem crair chatices é mais do que um passatempo. É uma missão.
É a segunda vez que o Raymarine nos causa um problema - à chegada a Dunkerque e agora - mas não é nisso que penso. É no facto de que nós, skippers profissionais, estamos cá para quando as coisas correm mal. Quando está tudo bem ninguém precisa de nós - ou pelo menos pensa que não precisa. Mas depois o vinho azeda e quem está para o beber?
Diário de Bordos - Roscoff, Bretanha, França, 11-09-2024
Vito é um sem-abrigo que dorme numa na porta de um prédio perto do meu escritório. Vejo-o todos os dias. Começámos por nos cumprimentar gentilmente mas hoje, passados meses da sua instalação ali, falamos quase todos os dias. Vito arranjou um sistema tão engraçado quanto eficaz de pedir: a meio da tarde mostra uma folha A4 plastificada na qual diz «Mais dez euros e atinjo o objectivo diário». Isto tem piada porque num quarteirão de bancos e de empresas as pessoas são sensíveis à palavra «Objectivo». Estou longe de ter a certeza que aquilo seja verdade. Vito nunca me disse qual era o seu objectivo diário. Um dia dei-lhe os dez euros para ver se ele continuava com o papel na mão. Não. Fora-se embora, beber «metade do objectivo», aspas porque cito. «A outra metade poupo.»
Nunca percebi o que fazia ou tinha feito antes de se encontrar na rua. Ele não mo disse e eu não lhe perguntei, reflexo de simetria que tenho desde a jovem idade adulta, já lá vai um bom par de semanas.
«Pelo menos não gastas», diz-me V. «Não gasto? Não gastaria se não houvesse livrarias e rum nos restaurantes. Havendo umas e outros, a carteira não tem descanso». Vá lá: gasto pipas em livros e frasquinhos em rum. Se fosse ao contrário seria pior.
9.9.24
Convalescença
O meu ano de 2023 foi horroroso e pensei que 2024 seria bom.
Não estava a ver as coisas como deve ser: o ano passado foi uma doença e este é a convalescença.
ADENDA: Com vontade de se transformar em recaída.
Mixed feelings, (Cont.)
O título da fotografia bem podia ser mixed feelings, se eu lhes desse títulos. Não dou e menos ainda em inglês.
Mas a pergunta é: de quem são esses sentimentos ambíguos? Da natureza, o Sol e os nimbus que se afastam ainda cinzentos, parede quase ameaçadora (está a afastar-se. Se não estivesse, sê-lo-ia)? Ou meus, encantado pela luz, cheio de frio porque estava no salão e quando vi que havia luz fui a correr pegar na máquina por pressentimento, mero pressentimento e vim para o poço cheio de frio por causa do vento, também, e a luz estava a desaparecer, tive uma sorte danada, apanhei-lhe o último estertor e seria a esta mistura de exaltação, frio e sorte que me referia?
Vá lá saber-se. Há sentimentos contraditórios, sim, porque me quero ir embora e ao mesmo tempo gosto desta região e tenho pena de não a percorrer com mais pormenor.
Sim, foi um dia de sentimentos confusos, contraditórios, mas haverá outros? Isto é: havê-los-á que não sejam assim? Isto é: para que servem os sentimentos se não forem como um choque frontal entre dois carros a toda a velocidade?
Diário de Bordos - Roscoff, Bretanha, França, 09-09-2024
«A minha agenda é feita de água», dizia hoje a um amigo. «E não sou o único a escrever nela». Depois acrescentei: «Geri-la é como para um doente de paralisia cerebral fazer malabarismo com seis bolas». Tenho a confirmação disto todos os dias. Hoje havia dúvidas sobre a largada por causa de um ataque de orcas aqui perto. Chegámos todos à conclusão de que saíamos, mas quando depois de almoço cheguei a bordo fiquei a saber que a bomba de água de arrefecimento do motor tinha uma fuga, provocada provavelmente por um o-ring defeituoso. Sendo hoje segunda-feira todos os sítios aonde se poderia encontrar a dita peça - um anel de borracha de dois centímetros de diâmetro - estão fechados. Acontece que o tempo não nos deixa sair amanhã e quarta está longe de ser seguro. Ou seja: a minha hipótese de um fim-de-semana no Porto foi para o galheiro.
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O S/Y J.T. é um Bavaria 49 de não sei que ano. O proprietário diz que tem trinta anos, mas deve ser um arredondamento. Muito menos não terá com certeza: ao fim de uma semana, o bote parece sólido e bem construído. Foi comprado a um senhor que queria fazer dele a sua residência secundária mas enviuvou e abandonou o projecto.
Resultado:
- Baterias: 4 x 190 aH;
- Equipamento: 1 eólica; painéis solares; 1 gerador; 1 máquina de lavar a roupa; uma máquina de lavar a loiça (nunca utilizada); ar condicionado; aquecimento.
O inversor está permanentemente ligado: o café é feito ad libitum numa máquina de 220. Há máquinas, ferramentas e sobressalentes - menos o-rings, claro - suficientes para se montar uma oficina. Dizer que tudo isto é inversamente proporcional aos conhecimentos de navegação do senhor ficaria muito aquém da verdade. A minha perene pergunta mantém a sua perneidade: porque é que esta gente não compra uma casa ou um camping car?
(Devo dizer que lhes estou infinitamente grato por comprarem barcos e me contratarem.)
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Almoço no Café du Port, convencido de que seriam os últimos mexilhões decentes antes de muito tempo. Não estavam decentes. Estavam sublimes.
8.9.24
Diálogo, carcaça
Pequena nota que não será lida por quem o deveria ser: não sou hipocondríaco. De longe. Nunca fui, nunca serei. Entrei simplesmente numa fase do meu diálogo com a carcaça de que não percebo metade (do diálogo, não da fase. Essa percebo-a perfeitamente).
Diário de Bordos - Roscoff, Bretanha, França, 08-09-2024 / II
Na verdade, olho para trás - para muito longe atrás - e vejo que este dilema não é de hoje. É de anteontem, de antes de anteontem, de sempre. Tenho de começar a andar com a língua atrás, está visto. É um dilema que não sabia formular até há bem pouco tempo, daí tantas hesitações e tantos ziguezagues. A capacidade que ser capaz de exprimir claramente qualquer ideia tem de a tornar operacional é um fenómeno. Pergunto-me se os gansos, os bonobos ou as putas da orcas a têm. Estas últimas têm, de certeza. Bastaria explicar-lhes claramente que atacar-nos poderia ter custos. Infelizmente andamos a dar voltas ao penico em vez de lhes explicar clara e firmemente que os nossos lemes não são brinquedos.
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Em resumo: estou ansioso por chegar ao Porto.
Biografias, vantagem
A vantagem de ler biografias depois de uma certa idade (do leitor, não do biografado) é ficar-se a perceber onde e porque se falhou.
Ou será "desvantagem"?
Diário de Bordos - Roscoff, Bretanha, França, 08-09-2024
Frio, chuva, mais chuva e frio. Estive aqui faz agora um ano, mais dia menos dia e queixava-me de a temperatura não passar dos vinte e dois graus. Bem, agora está nos quinze e vai subir até aos dezoito, diz-me a meteo da Microsoft, ignoro qual seja. Tanto o GFS como o ECMWF - consultados por curiosidade - apontam para dezassete. O meu termómetro interno diz simplesmente «Frio, demasiado frio». Se bem na verdade a chuva me custe mais a suportar. Enfim, é o que é.
Isto dito, o jovem é um tipo porreiríssimo, um excelente tripulante apesar da sua total inexperiência e tenho pena de o ver partir.
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7.9.24
Diário de Bordos - No mar ao largo de Guernsey, Ilhas Anglo-Nornandas, 07-09-2024
O raz Blanchard - também conhecido por Alderney Race - apresentou-se com oito nós de corrente contra, a que o T. J. reagiu muito apropriadamente com um VMG que oscilava entre os zero ponto seis negativos e os zero ponto seis positivos, apesar de o motor vir no máximo admissível - ou talvez por isso. O vento estava fraquinho e de popa. Ou seja: podia escolher entre a Scilla da popa arrasada e a Caribdes da corrente na amura. Escolhi esta última, desenrolei a genoa e orcei. O VMG passou para um a um vírgula dois positivos e eu só tenho pena de não ser de dia, para ver esta correnteza toda. A certa altura tive de fazer leme porque o piloto não aguentava e agora escrevo isto já sem motor, a um largo, seis nós (a corrente ainda não virou), uma noite até aqui linda e estrelada mas agora totalmente coberta, as luzes das anglo-normandas a estibordo e as de França a bombordo, com um bocado de frio e o ombro esquerdo a massacrar-me e não consigo pensar senão na sorte que tenho, no que isto é tão bom e em que raio fiz eu certo, que ainda não percebi?
Os tripulantes - o dono e um sobrinho - são encantadores, holandeses e falam mal inglês, qualidade que aprecio bastante. Percebem pouco de navegação (à vela ou a motor), outra benfeitoria - se percebessem não precisariam de mim.
É verdade que navegar com pessoas inexperientes e que querem aprender tem os seus inconvenientes, o menor dos quais não é o suplemento de trabalho. Zelar por três fontes potenciais de erros é mais trabalhoso do que preocupar-me só comigo e com as minhas asneiras. Mas enfim, posto no prato da balança isto não pesa. E agora, sozinho no poço, quase com Jersey pelo través, o piloto a dar conta do recado... Que mais querer?
[Eu digo: que o vento não ronde já a leste e espere pela hora da previsão.]
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Estou tão cansado que não é apercebi sequer de que o estava. Foi preciso chegar ao café para ver que mal tinha forças para falar.
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O tempo não ajuda. Um bocadinho de sol não faria mal nenhum. Chuva e frio no princípio de Setembro fazem.
6.9.24
A relação inexistente
A relação dos portugueses com a ironia é uma relação triste, desolada, inexistente por abandono de uma das partes.
Tal como com o humor, de resto. Não é por acaso que os nossos humoristas se contam pelos dedos de uma mão (os Gato Fedorento contam como uma unidade). E que Bruno Nogueira (por exemplo, um entre muitos) seja considerado humorista.
"Mais vale cair em graça do que ser engraçado" está ao nível de "um burro carregado de livros" para nos definir como povo.
A ironia e o sarcasmo são recebidos em Portugal como as noventa e cinco teses de Lutero o foram em Roma. Com uma diferença grande: pelo menos o Papa percebia o que o Martinho dizia.
4.9.24
Reedição - Rabindanath Tagore
"Keep me fully glad with nothing. Only take my hand in your hand.
In the gloom of the deepening night take up my heart and play with it as you list. Bind me close to you with nothing.
I will spread myself out at your feet and lie still. Under this clouded sky I will meet silence with silence. I will become one with the night clasping the earth in my breast.
Make my life glad with nothing.
The rains sweep the sky from end to end. Jasmines in the wet untamable wind revel in their own perfume. The cloud-hidden stars thrill in secret. Let me fill to the full my heart with nothing but my own depth of joy."
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“I am the boat, you are the sea, and also the boatman.
Though you never make the shore, though you let me sink, why should I be foolish and afraid?
Is reaching the shore a greater prize than losing myself with you?
If you are only the haven, as they say, then what is the sea?
Let it surge and toss me on its waves, I shall be content.
I live in you whatever and however you appear.
Save me or kill me as you wish, only never leave me in other hands.”
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"Where roads are made I lose my way.
In the wide water, in the blue sky there is no line of a track.
The pathway is hidden by the birds' wings, by the star-fires, by the flowers of the wayfaring seasons.
And I ask my heart if its blood carries the wisdom of the unseen way.”
Diário de Bordos - Dunkerque, França, 04-09-2024
O homem põe e o AIS dispõe. Mais um dia em Dunkerque.
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"Si tu n'écris pas contre toi, mieux vaut ne pas écrire."
Christian Bobin, in Le Murmure, ed. Gallimard.
(A citação é de memória, mas não anda longe do original.)
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Um gajo navega três dias com holandeses e apercebe-se dos intransponíveis abismos culturais que nos separam. (De caminho, também de porque é que eles são ricos e nós não, mas isso fica para outra missa.)
O direito à placidez devia fazer parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Se calhar faz, eles é que não sabem.
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Gastei uma pipa de massa em livros e um frasquito pequenino em rum. Devia ser ao contrário, mas isto anda tudo invertido.
(Cont.)
3.9.24
A cor dos teus cabelos
Basicamente sei que estamos quase no Outono porque tenho a pele seca apesar de tudo o que andei hoje; e bebi vinho em vez de cerveja; e porque a luz do poente, filtrada pela humidade, ilumina estes prédios tão feios e fá-los parecer bonitos, coisa que só um poente outonal - ou primaveril, mas não estamos quase na Primavera - conseguiria
Contudo, estes são métodos básicos. De uma forma mais elaborada, poderia ir ao calendário astronómico e ver que o equinócio vai ser dia vinte e dois ao princípio da tarde, daqui a duas semanas e meia. Ou, melhor ainda: dar um passeio pelo parque, esse parque aonde tantas vezes fomos e apanhar as folhas que já têm a cor do teu cabelo. Traria tantas...