11.4.20

Rente - Reedição

Amo-te rente ao chão e rente ao céu, amo-te rente às nuvens e rente ao mundo, amo-te rente às árvores e ao vento e ao mar, amo-te rente à vida e ao tempo. Porque tu és a vida e o tempo e leve como a vida rente ao tempo.

Faz daqui a menos de uma semana nove anos que escrevi isto. Hoje não tenho a certeza de que «rente ao tempo» funcione como aliteração, mas como descrição funciona de certeza. 

«Antes do anoitecer, antes da sombra rente às árvores» (R. Belo)

É naquela linha que o Sol poente traça entre a luz e a sombra, aquela linha que delimita o luminoso hoje do sombrio amanhã, o cor-de-laranja do cinzento, o que fomos do que seremos. as casas que vemos das que adivinhamos... É nessa linha que habitamos, todos. Alguns sabem-no, outros não.

[Adenda: já agora, fica a transcrição dos versos:
«"É antes do anoitecer suavíssimo dos deuses
antes do começar da sombra rente às árvores...»]

10.4.20

Debord de hoje

O meu livro favorito de Debord não é a Sociedade do Espectáculo (é o Panegírico,  mas isso agora pouco interessa). O que interessa é a dificuldade que tenho - e se vai avolumando a cada dia - em não pensar nesse livro.

No longer is science asked to understand the world, or to improve any part of it. It is asked instead to immediately justify everything that happens…. spectacular domination has cut down the vast tree of scientific knowledge in order to make itself a truncheon.“

„The spectacle is not a collection of images; rather, it is a social relationship between people that is mediated by images.“

Ponho em inglês porque pouca gente percebe francês e gostaria muito que  este post fosse lido e compreendido por muitos. (É mentira,  mas é uma mentira bonita, pode ficar. A verdade é que não me apetece perder tempo a procurar o texto francês para um post  que de qualquer forma ninguém vai ler.)

Debord não foi o primeiro intelectual marxista a descobrir que o sistema soviético era uma imensa fraude, mas foi provavelmente o primeiro que o descobriu, o denunciou e se manteve marxista. Ideologicamente poucas coisas tenho em comum com ele - se bem tenha sido com os situacionistas que comecei a reflectir seriamente sobre a liberdade, a erigi-la em sistema - mas duas ou três coisas lhe reconheço: em primeiro lugar, destacado, o seu maravilhoso francês. Ler Debord é um fascínio. Tem construções com as quais não se concorda nem com as vírgulas  mas cuja beleza nos deixa hipnotizados, paralisados, com falta de ar; em segundo lugar, era um visionário.  A sociedade do espectáculo que ele descreve é mais verdadeira hoje do que nos anos sessenta, quando começava a despontar no horizonte; final e mais debativelmente, gosto da  honestidade intelectual do senhor. Não é que concorde com ele, repito; mas quando o comparo a esquerdistas de pacotilha tipo Daniel Oliveira ou Catarina Martins (para não mencionar os mais patéticos, a classe Rui Tavares ou aquela coisa inenarrável que dá pelo nome de Marques Lopes - nunca percebi bem se é de esquerda ou simplesmente de baixo. Em França, poderia pensar-se em Mélenchon) é impossível não lhe reconhecer estrutura nas ideias e a cultura na qual se fundamentam.

A primeira das duas citações parece que foi escrita para esta crise, não é?

É. 

9.4.20

Futebol, palavras

"How vain it is to sit down to write when you have not stood up to live." Henry David Thoreau.

On n’habite pas un pays, on habite une langue. Une patrie, c’est cela et rien d’autre.” Cioran

Balizas entre as quais se joga o Don Vivo, na respectiva língua original.

Faltam a portuguesa: "Em tudo o que faças..." e a espanhola:

"Everness
Sólo una cosa no hay. Es el olvido.
Dios, que salva el metal, salva la escoria
y cifra en su profética memoria
las lunas que serán y las que han sido.

Ya todo está. Los miles de reflejos
que entre los dos crepúsculos del día
tu rostro fue dejando en los espejos
y los que irá dejando todavía.

Y todo es una parte del diverso
cristal de esa memoria, el universo;
no tienen fin sus arduos corredores

y las puertas se cierran a tu paso;
sólo del otro lado del ocaso
verás los Arquetipos y Esplendores."
Jorge Luis Borges

Quatro balizas que há muitos anos delimitam o meu campo...

Delimitar não é a palavra certa. Balizas tão pouco.

Pontapé de saída? Não sei. Não percebo nada de futebol. 

Nada do que é humano me é estranho

Ao mesmo tempo, não nos podemos queixar: estamos a viver a primeira histeria colectiva global da história.

Nem as religiões - as formas domesticadas, estruturadas da histeria - conseguiram arrebanhar tanta gente ao mesmo tempo.

8.4.20

Tarde e tarde

Amanhã vou acordar cedo e como já é tarde terei dormido pouco. À tarde inevitavelmente dormirei muito portanto à noite adormecerei de novo tarde.

Números, sentimentos e bom senso

"Feelings, nothing more than feelings" dizem as pessoas que desprezam quem tenta analisar problemas baseando-se em dados quantitativos, em números, em estudos. (A cançoneta é um bocadinho a cair para o xaroposo, mas isso é outra história.)

Pergunto-me - e de caminho pergunto-lhes - se preferem viver num prédio calculado com fórmulas ou feito com sentimentos? E os automóveis, as estradas, os portos, os aviões, aeroportos? Também dispensam fórmulas, cálculos, números e fazem-se só com emoções?

A análise racional e o sentimento não se excluem. Devem, antes pelo contrário, coabitar, como tão bem demonstrou um compatriota nosso. Não se pode é misturar-se-lhes a utilidade.

Nunca ninguém conseguiu demonstrar a superioridade moral do sentimento sobre a razão, nem a desta sobre aquele. Desde que sejam usados sensatamente, claro.

7.4.20

O tempo pairando

O tempo parece um disco voador parado à frente da janela. Alguma coisa tem de estar a funcionar para ele se manter ali, mudo e quedo, mas não se ouve ruído nenhum, não se vê qualquer movimento, vibração,  um frémito que seja.

A cidade parou, pôs-se a olhar para o tempo por trás das cortinas, como se estas a protegessem dos tripulantes da nave. Tem a forma clássica do disco voador, uma meia laranja em cima de um prato de sopa ao contrário. Não se lhe notam janelas, vigias, portas, escotilhas.

É simplesmente o tempo parado, silencioso e parado. A cidade pergunta-se quanto tempo vai ele ficar ali especado, a fazer ninguém sabe o quê.  "Porque nos escolheu? Quando se vai embora?" Estas são as perguntas suspensas em todos os lábios: ninguém se atreve a fazer barulho com medo de o acordar.

É o tempo pairando, sustentado pelo medo, mudo e quedo.

6.4.20

Insondáveis

A analogia não é perfeita e será progressivamente melhorada, mas o que se está a passar é: o paciente parte uma perna, vai ao médico, o médico receita-lhe acupunctura, o osso solda-se sozinho e tanto paciente como médico deduzem que as agulhas são bastante eficazes no tratamento de ossos partidos.

Os mecansimos da crença são insondáveis.

Adenda 1 - Uma prima do vizinho do sr. José foi um dia à China, faz agora cinco anos e ouviu dizer que a acupunctura é uma forma de tratamento fantástica. O sr. José parte uma perna, vai ao médico e exige que ele o trate com agulhas. O médico está um bocadinho desorientado, não sabe o que há-de fazer, mas cede perante a determinação do Sr. José. O osso solda-se sozinho e ambos concluem que sim, a acupunctura é bastante eficaz no tratamento das pernas partidas.

Adenda 2 - Enquanto o tratamento dura o senhor José - espetado de agulhas pelo corpo fora, que isto dos meridianos é para todos - definha a olhos vistos, porque não pode mexer-se. Médico e paciente concluem «Não faz mal, alguém há-de pagar. Importante é que a perna se trate.» O sr. José andava numa cadeira de rodas há quarenta anos.

5.4.20

Querer, às vezes

Às vezes basta uma palavra, uma faísca, um olhar de esguelha, uma vírgula, um acorde musical, a sugestão de um raio de luz entre as folhas de uma árvore, uma planície deitada no olhar por um deus generoso, a luz do nascente a reflectir-se no convés, as curvas arredondadas das montanhas do Jura, o toque involuntário de um antebraço, o sol a brilhar no branco da vaga que a esteira deixou para trás... Tudo tão pouco e daí jorram palavras, sentimentos, a promessa de fixar esse instante para todo o sempre, de o estender até para lá do fim do amor.

Às vezes basta querer encontrar o que não procuraste, o que veio ter contigo sem saber que eras tu, sem tu saberes de onde vem. Às vezes, basta amar.

(Para a A. B., depois de uma conversa sobre números e sentimentos.)

Dilemas

Há em mim um humanista e um céptico. O humanista desespera; o céptico encolhe os ombros e pergunta-me:
- Que esperavas?

Ganha o humanista, a contragosto. Amar alguém é amar os seus defeitos. 

4.4.20

Planear uma viagem

- Quando é que começa uma viagem?
- Quando acabou a última, claro.
- Isso é impossível, porque as viagens começam, mas nunca acabam. Somos feitos de viagens como a bebinca é feita de camadas.
- Patetice. As viagens acabam quando chegas a casa. Ou quando regressas ao ponto de onde partiste.
- Patetice? Quando voltas não és o mesmo. Sem ti, a tua cidade transformou-se e longe dela tu mudaste. Não há regressos. Somos um tijolo em cima de outro tijolo em cima de outro tijolo e a argamassa que os liga é o que a viagem fez de nós e a sua memória, aquela que em nós perdura. Enquanto ela viver connosco a viagem não acabou.

Para mim, uma viagem começa quando começo o respectivo planeamento. Mas antes disso é preciso explicar que eu só viajo de barco. Por terra ou por via aérea não viajo, desloco-me. (Esta regra tem excepções, sobretudo no caso da via terrestre. Não são para aqui chamadas, agora.) Uma viagem marítima exige um cuidadoso planeamento e é disso que venho aqui falar.

A navegação começa com um ponto de partida e um ponto de chegada. Vês a distância e o rumo – a rota, ou o caminho. Se for em longitude decides se queres fazer uma ortodromia ou uma loxodromia. Como estamos a falar de embarcações de vela esquecemos aquela: um veleiro mede as distâncias em tempo e não em milhas. A duração de uma viagem num veleiro não depende da distância a percorrer. «Nós, que definimos a distância em dias, semanas, meses...» Quem disse isto? Pouco importa.

Sabendo o meu ponto de partida e o meu ponto de chegada, vou determinar quais os ventos predominantes ao longo desse percurso. E as correntes, claro, se bem nas longas distâncias estas normalmente sigam os ventos e nas curtas dependam das marés (isto é, da Lua, do Sol e do estranho baile que os dois dançam). Consulto as Pilot Charts (e se for caso disso as cartas de marés) que me mostram uns bonecos muito bonitos com flechas orientadas segundo a rosa-dos-ventos e de diferentes dimensões. (Claro que para as rotas habituais isso é conhecido de todos, mas aqui interessam-nos os caminhos pouco percorridos.) Em função dessas flechas escolho o meu percurso, que pode ser uma linha recta, um arco, um ziguezague ou uma combinação de tudo isto. Vejo se há obstáculos em cada uma dessas componentes: ilhas, baixios, piratas (sim, ainda existem, infelizmente) e adapto o meu percurso. Aqui chegado, tenho uma ideia aproximada do tempo que a minha viagem vai levar e pergunto-me:
- A embarcação tem autonomia para isto? Tenho combustível que chegue? E água? E provisões? Tenho de parar no meio para embarcar ou desembarcar tripulantes? O porto para onde vou não é um porto de entrada daquele país?

Bom, vamos recomeçar, desta vez introduzindo uma escala (ou duas, ou três, as que forem necessárias). A minha viagem tem agora vários pontos de partida e vários pontos de chegada. Os ventos não mudam radicalmente – podem mudar, perto das costas, por causa das brisas térmicas, mas isso fica para outras núpcias (uma viagem é um casamento e não vice-versa, contrariamente ao que muita gente pensa). Revejo obstáculos, baixios, correntes, ilhas, ilhéus, rochas e vejo se alguns desses portos tem constrangimentos ligados às marés, aos ventos, aos regulamentos administrativos. Posso entrar a qualquer hora ou tenho de esperar pela enchente? Posso – ou será prudente – entrar de noite? Nesse porto há abastecimentos, combustível, marina, reparações? Há serviços de saúde, para o caso de ter de desembarcar alguém doente ou acidentado?

Pronto, a primeira parte do meu planeamento está feito: sei de onde largo, sei para onde vou e sei onde tenho de parar entre os dois. Sei o que me espera em cada um desses portos, se as ajudas à navegação são fiáveis ou não, quais os documentos que as autoridades me vão pedir, se há constrangimentos ligados à nacionalidade de um dos tripulantes, se o porto é caro se é barato, se é fácil arranjar lugar ou se tenho de reservar com antecedência. Tenho planos dos portos, que encontrei nos guias náuticos – provavelmente a literatura de viagens mais apaixonante que existe.

Dito assim, isto parece que foi muito rápido, não é? Não foi. Precisei de consultar inúmeros documentos, confrontar informações, eventualmente falar com alguém que conhece a área, para tirar uma dúvida ou outra; de qualquer forma ainda não acabou: agora, ao longo de todo o percurso, tenho de encontrar portos para emergências. Pelo menos um ou dois em cada “perna” (navegação entre dois portos ou, em regata, entre duas marcas. É um anglicismo). E o processo recomeça, desta feita para os portos de contingência.

Planear uma viagem é como subir uma escada da qual não se vê o fim. Se quisermos ser mais românticos: é como fazer a corte à senhora que se ama. É preciso conhecê-la, saber onde e como abordá-la, a que horas, se é preciso licença do pai ou não.

É o princípio do prazer que ela nos vai dar, o princípio dos sacrifícios por que vamos passar, o princípio do mistério: cada viagem, mesmo aquelas que já fizemos muitas vezes, consiste em estabelecer uma cumplicidade com os elementos – o vento, as costas, o mar, os faróis e outras luzes, os recifes, os baixios, os portos. Planeá-la é como sermos apresentados à família da noiva, mas só com as fotografias de cada um. O processo é longo, moroso (quando não se conhece a área para onde se vai, claro. Se se tiver de planear uma viagem que já se fez dez vezes é muito rápido.) É, sobretudo, apaixonante. E é por isso que uma viagem nunca acaba: o que aprendermos nesta vai servir-nos para a próxima.

Apologia de Palma

É tão fácil uma pessoa apaixonar-se por Palma como é a um homem enamorar-se de uma senhora que nunca viu mas lê todos os dias: não caímos pelo que vemos, mas pelo que pensamos quando a lemos.
Há uma pergunta universal, toda a gente que vem a Palma e por uma razão ou outra por aqui se demora a faz. Essa pergunta é: porque é que todos gostam de Palma? Que tem esta cidade de mágico, de tão atraente? É como se uma diva de cinema se deixasse aproximar e aceitasse um convite para um copo: está ali tão perto e tão linda, mas não se dá a conhecer. Olha-nos polidamente (isto é o que pensamos ao princípio. Depois percebemos que o olhar é de indiferença) e diz que sim.

Palma foi oficialmente criada no ano 123 A.C. por um general romano cujo apelido era Metelo, que também existe em Portugal. Talvez os laços entre Maiorca e o nosso país, agora escassos, sejam mais antigos do que se pensa... Antes dos romanos já cá tinham estado Fenícios, Vândalos, alguns povos pré-históricos de que restam poucos traços. Situada no centro do Mediterrâneo Ocidental, Palma foi desde sempre um lugar de passagem, de pilhagens, de comércio, de pirataria. Depois dos romanos vieram bizantinos, árabes – mudando várias vezes de mãos. Sempre foi uma presa querida por todos.
A primeira comunidade judaica chegou provavelmente no princípio do século V e por cá se manteve desde então – passando, claro pelas dificuldades de todos conhecidas entre o século XIV e o século XX, quando (em 1931) foram levantadas as últimas restrições legais contra os Chuetas, como eram – e ainda são – conhecidos os judeus maiorquinos.

Voltemos um pouco atrás: no século XIII a ilha foi conquistada por Jaime I de Aragão e desde aí nunca mais deixou de ser um domínio católico – apesar de ainda ter passado uns anos em mãos francesas. Uma história conturbada, no mínimo – e nem sequer falei muito dos piratas, uma constante na vida da cidade até ao século XIX.

É provavelmente por isto que os maiorquinos são tão reservados. Aqui, um estrangeiro é estrangeiro até pelo menos à terceira geração... Já viram passar de tudo e preferem não se misturar. Ou seja: na verdade há pelo menos duas cidades de Palma: a dos maiorquinos e a dos estrangeiros – sendo que esta se subdivide em três categorias: a dos turistas, a dos residentes e a dos yachties (tripulantes de iates de luxo, de que Palma é um dos pólos mundiais). É possível viver vinte anos em Palma e não falar uma palavra de espanhol (e menos ainda de maiorquino, o dialecto local, parente próximo do catalão). Cada uma destas categorias vive separadamente das outras: residentes não se dão com turistas, estes não se dão com ninguém – muitas vezes por falta de vontade, outras por falta de receptividade alheia – os maiorquinos não se dão com ninguém (de resto, também não se dão muito entre eles, as divisões sociais na ilha são enormes), os yachties flutuam nos bares da Lontja e não sabem sequer que Palma passa para lá da Rambla, os residentes estrangeiros pensam que estão no paraíso e ninguém no seu perfeito juízo faz muitas perguntas sobre o paraíso quando nele habita.
Curioso é: todos eles gostam de Palma. Porquê?

Em primeiro lugar, porque a cidade é linda, plácida e cálida, com uma arquitectura rica – há muito dinheiro há muito tempo – cafés e restaurantes para todos os gostos, galerias de arte, lojas de moda, livrarias (espanholas, inglesas, alemãs. A francesa fechou há um ano). Depois, porque devido à indiferença dos locais e dos diferentes grupos, cada um faz o que quer, vive como quer e ninguém se aborrece por isso. Acresce que a ilha é lindíssima: são duas ilhas numa só. A metade oeste é montanhosa – uma espécie de serra de Sintra com cem quilómetros e paralela ao mar em vez de perpendicular; a outra é uma planície que, se formos distraídos, nos faz perguntar em sobressalto se estamos no Alentejo e porque é que as casas são castanhas e altas em vez de brancas e baixas.
Palma tem tudo: é uma cidade vibrante, cosmopolita, onde cada um encontra o que procura, seja o que for. Tem uma ilha lindíssima à volta. Está a duas horas de voo da maior parte da Europa. Há uma e uma só coisa que Palma não tem: mulheres feias. Por um milagre qualquer da evolução, nesta cidade até as feias são bonitas. Suponho que o mesmo se passe com os homens, não sei. Só sei apreciar a beleza masculina se estiver esculpida em mármore.

É por isto que todos gostam de Palma: é uma casa que cada um mobila à sua maneira.

E Deus sabe se as divisões podem ser diferentes. Desde restaurantes e café locais como o bar Rita a tascas mexicanas como o 7 Machos, passando por restaurantes de luxo, cafés onde o vermute é uma religião, tascas colombianas, discotecas da moda, há de tudo em Palma. Quem prefere igrejas tem uma em cada esquina e, sobre a baía, a catedral, a segunda maior da Europa, construída entre 1229 e 1601. Como tudo em Maiorca a Catedral sofreu várias alterações de planos durante os três séculos que durou a construção. As últimas – que levantaram uma celeuma da qual ainda hoje se ouve falar – foram as obras de Gaudí, que deitou abaixo vários elementos e deixou um candelabro (e muito mais, bem bonito, perfeitamente integrado no edifício), antes de ser expulso da ilha. Os maiorquinos são conservadores, o bispo que lhe encomendou o trabalho e o protegia morreu e o arquitecto voltou para Barcelona, para a sua catedral, a dele e só dele.

Conheço poucos edifícios mais bonitos, mais comoventes do que La Seu, como é chamada em maiorquino. Quando se chega por mar a Palma a catedral vê-se ao longe; se for ao fim da tarde, o Sol poente ilumina-a com a luz alaranjada da hora e as pedras – alaranjadas elas também - parece estarem em fogo, grandioso incêndio, cântico iluminado e mudo à fé, às energias primitivas, fundamentais, aos arquétipos.

Palma é uma senhora burguesa que aos domingos se aperalta para ir à missa e nos recebe, distante e em fogo. Não nos liga muito, mas nós ligamo-nos a ela, para sempre.

Arroz Vishnáveis, vinho Planície Ardente e outras coisas boas para todos

Uma grande ilação que podemos desde já tirar desta história do vírus: é mais fácil induzir pânico do que induzir procura.

Talvez a malta da publicidade deva começar a incluir umas ameaçazitas nos slogans. «Compre sabão Interlopem ou os serviços de saúde do seu país entopem!» «Proteja os vulneráveis: arroz Vishnáveis!» « Não saia sem beber um copo de vinho Planície Ardente! Abstinente sim, mas em casa. Na rua proteja-se!» «Ou rum Narachal ou surto viral!» «Grupo de risco? Aguardente Não Arrisco!»

3.4.20

Dispersas da noite - Palma, 03-04-2020

As pessoas fecham-se em casa e para não se sentirem sozinhas dizem aos outros para se fechar também. Gostam de ser parte do rebanho; a solidão é fria, já o alemão dos bigodes e da Salomé o dizia. 

Parai o mundo, os marcianos pagam. Só gostava de perceber é o que vão fazer de tanta felicidade: baleias nos canais de Veneza, golfinhos nos lagos suíços, vacas a fazer ski de fundo no Sahara.

Ou será antes a voar? Acho que essas, a serem, vão voar baixinho, nestes próximos anos. Se calhar deviam ter ficado em casa, como os donos.

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Enfim, Palma vazia é como os livros de colorir que ainda não foram usados: é só formas vazias, sem cores. Nunca mais reclamo contra o excesso de gente nas ruas.

Salva-nos o mercado, continua aberto. Todos os dias lá vou de manhã, dou voltas e mais voltas, digo olá aos vendedores que conheço, compro-lhes qualquer coisita. Imploro a todas as alminhas do céu que aquilo não feche. É o novo ponto de encontro da cidade.

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Consegui quebrar o enguiço e escrevi um texto para a J. Amanhã revejo-o. É sobre Palma, a de antes e a que aí vem.

Agora não é nada, uma espécie de distopia, um não-lugar. Só me falta aparecer aí um bando de gajos vestidos de peles, aos guinchos, de mocas na mão e a deslocarem-se nos outros três membros: sobreviventes da última guerra nuclear.

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Vá lá. Ao menos o vinho é bom e o trabalho agradável. Podia ser pior. 

2.4.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-04-2020

O frio continua e recomeçou a chuva. Pela primeira vez em muito tempo fui ao Passage Weather: de manhã estávamos mesmo no centro da depressão. Depressões em todo o lado.

Hoje fui parado pela polícia. Foi a primeira vez, estava mesmo à frente de casa; limitei-me a apontar para o cesto das compras - estava cheio - e para a porta de casa, balbuciei qualquer coisa que espero tenha sido tão ininteligível como eu queria que fosse, o homem sorriu-me, fez-me sinal para continuar e ficou por aqui.

Agora apetece-me sair, sem cesto e dizer ao homem - se lá estiver, do que duvido - que vou comprar tabaco. Ou camisas-de-Vénus. Ou rum. Lido pior com a estupidez colectiva do que com a individual. Com esta ainda aguento - pouco, mas aguento. Aquela esfrangalha-me a paciência. Deve ter a ver com a relação difícil que tenho com a autoridade. Já por aqui o disse muitas vezes: a única hierarquia que aceito é a do saber. A estupidez colectiva arvora-se com demasiada facilidade em autoridade. Ponham-lhe um casse-tête nas mãos e um apito na boca, ela não pede senão isso. É como se sente bem: mai-lo uniforme, bonito, de capacete branco ou mesmo - vá lá saber-se - um Pickelhaube. Não há cabeça por esse povo fora que não sonhe com um.

.........
O que sabemos desta pandemia?

- O vírus parece ser extremamente contagioso, mas isso é contraditório com o histórico das infecções pulmonares;
- Ataca sobretudo pessoas de idade, com outras patologias - coração, diabetes, respiratórias;
- Até agora, na Europa (incluindo portanto Itália e Espanha) provocou menos mortes do que a gripe de 2017. Cf. https://www.euromomo.eu/;
- O excesso de mortes (isto é, o nº de mortes acima da média anual para cada país) é tão pequeno que não é detectável (se bem venha provavelmente a sê-lo em breve, mas nunca nas proporções que se andam para aí a acenar);
- Não há diferenças visíveis no nº de mortes entre países que adaptaram diferentes abordagens à crise. Cf. https://ourworldindata.org/covid-mortality-risk.

O que é que não sabemos?
- A taxa de letalidade - quantas pessoas morrem por cada mil infectados (não se sabe isto porque ainda não se sabe o nº real de infectados; o que temos são estimativas e sabemos que elas vão baixar, como baixam em todas as epidemias);

Ou seja: estamos a sacrificar pessoal médico e a dar cabo da economia dos países por uma coisa para a qual já números mais do que suficientes demonstram empiricamente que uma abordagem gradual teria os mesmos efeitos e menos consequências na economia.

Paradoxalmente, os países que adoptaram medidas "laxistas" (para usar o vocabulário dos "especialistas-FB") são aqueles a quem iremos bater à porta quando se tratar de pagar esta loucura toda.

Fique em casa, não se preocupem. Os alemães, os holandeses e os suecos pagar-vos-ão as precauções.

(Obrigado a André Dias e a Henrique Pereira dos Santos.)

1.4.20

Contra o desperdício

Não gosto de desperdícios. O meu conflito com a irracionalidade vem daí: toda a gente tem um cérebro e salvo raras excepções todos o podem usar.

Não pensar, reagir irracionalmente é um crime de lesa-evolução. Isto não significa que todos devem pensar a mesma coisa, claro. Significa simplesmente que se deve pensar. Não seguir acefalamente tudo o que nos dizem, investigar, duvidar, aprender com quem sabe, partir sempre do princípio que "toda a gente" está muitas vezes enganada.

Não é ser do contra por ser do contra. É simplesmente não ser a favor por ser a favor. São duas atitudes diferentes. Não é não ir atrás do rebanho. É não ir atrás do rebanho sem pensar. Não ir atrás de ninguém, na verdade. Ver e ouvir antes de decidir. É para isso que temos um cérebro: para podermos decidir por nós próprios.

E para poder ver que nos enganámos. O erro faz parte da aprendizagem. Não continuar cegamente o caminho se a meio tudo indica que vamos na direcção errada.

É muito desconfortável, eu sei. O desperdício é mais cómodo. Externalizar o raciocínio, confiar essa missão a alguém em quem se deposita o trabalho de pensar e reservar para nós a tarefa bem mais simples e leve de acreditar...

Que desperdício!

De cada um segundo as suas possibilidades

Cada geração tem o desafio que merece. Umas lutaram contra o nazismo ou contra o comunismo, outras puseram bombas e andaram na "luta armada" (aspas porque cito) contra o capitalismo. A nossa vai às compras e tenta iludir a polícia porque se esqueceu do talão.

Gratos governos

Terá sido esta a primeira vez na história que povos pedem aos respectivos governos para lhes restringir as liberdades em nome do medo? Os governos agradecem. 

Apostas e companhias

Digo sistematicamente que não quando tenho a absoluta certeza de qualquer coisa e alguém que pensa o contrário me propõe uma aposta. Parece-me injusto beneficiar dos erros dos outros, cometidos a maioria das vezes de boa-fé.

Hoje pensava nas duas apostas que já fiz sobre o coronavírus. Não tenho a certeza de que isto tudo seja uma monstruosa mistificação (em todos os sentidos do termo), induzida pela China e copiada devido à pressão popular e à cabeça perdida da maioria dos governos ocidentais. É uma hipótese na qual acredito mas está muito longe de ser uma certeza; é até bastante provável que, chegados ao fim, se descubra a verdade algures escondida ali no meio (mas mais para o meu lado, claro). Parece-me que encontrei uma boa alternativa, tanto mais que as duas apostas foram feitas com simpáticas e bonitas senhoras: quem ganha paga o jantar.

Assim salvaguardo o cavalheirismo de que me é tão difícil separar-me, enquanto janto em simpática companhia.