12.12.20

Monstros

De monstros, eu sei. Estou rodeado deles, sou pasto deles, sou o alvo da sua desmedida fome, imparável bulimia. Monstros, à noite, debaixo e em cima da cama; de dia, atrás da porta, prontos a saltar ao mais pequeno sinal de fraqueza. Monstros: tomei-lhes o gosto e nunca mais me largaram, até hoje.

11.12.20

Medo

Não tenho medo? Tenho, claro. Só os imbecis não o têm. Ser corajoso não é não recear nada. Isso é ser idiota.  Ser corajoso é saber lidar com o medo, saber geri-lo: passar por cima dele quando é preciso, ceder-lhe quando é sensato. Se me disserem para ir para o mar sabendo que um ciclone se aproxima, eu não vou. Tenho medo. Se estiver no mar e um ciclone chegar, lido com ele o melhor que posso e esqueço o medo, que de nada me serve. Antes pelo contrário, só atrapalha. Aquilo que se sabe deste vírus é muito mais do que o que se desconhece: foi isso que nos permitiu fazer vacinas tão depressa. (Em contrapartida, o resultado das vacinas é desconhecido, esse sim. Pode inventar-se tudo menos tempo.) 

Em relação à Covid, não tenho medo: é inútil, desnecessário, supérfluo. Já há dados suficientes pra saber que é uma doença inofensiva para a esmagadora maioria das pessoas - isto não é uma opinião, é um facto quantificável - e que o custo do pânico é de longe superior ao custo da doença. Estamos a matar moscas com um canhão: os danos colaterais são de longe superiores aos resultados. 

Em contrapartida, tenho - isso sim e muito - medo do que aí vem. Das portas que estamos a abrir à ditadura (se preferirem, às restrições de liberdades); à censura - toda a gente acha normal que o Facebook, media, organismos oficiais censurem as opiniões que vão contra a corrente -; tenho medo da maldade que esta crise revelou nas pessoas - maldade que já lá estava, foi uma revelação mas só no sentido fotográfico do termo. Maldade em nome de um «bem superior»: impedimos crianças de brincar, condenamos velhos a uma solidão atroz, fazemos empresas falir, instauramos uma desconfiança insuportável na sociedade - tudo isto em nome de quê? Abrimos uma porta que não sabemos como se vai fechar e isso faz-me medo. sim, muito. Não convivo bem com a malvadez, apesar de saber perfeitamente que ela existe; vê-la instituída desta forma é aterrador. Nenhuma ditadura foi até hoje instaurada em nome do mal dos povos. São-no em nome do bem comum, não em nome do mal para todos. 

Estamos a abrir portas que não sabemos onde nos levam? Mentira. Sabemos muito bem: já lá estivemos, há bem pouco tempo.  A facilidade, a alegria, o alívio com que as pessoas abrem essas portas e marcham por elas dentro assusta-me. A liberdade não é um presente dos deuses. É uma conquista dos homens. Perdê-la em nome da sua velha nemésis - a segurança - já sabemos que não resulta. Tenho medo? Sim, tenho. Mas não fujo à luta, porque isso não seria ter medo. Seria ser cobarde, que é a categoria mais desprezível dos humanos. 

Estamos embarcados num petroleiro que não vai mudar de rumo - primeiro porque ninguém quer e segundo porque mesmo que se quisesse é demasiado tarde: a maldade, a insensibilidade, a indiferença tornaram-se aceitáveis, porque foram sacrificadas num altar a um deus maior. Que se aceite que esse deus é maior - e não o simples resultado de uma histeria criada, manipulada, incentivada por duas ou três instituições facilmente identificáveis - a OMS, os media, os governos - é medonho. No sentido primeiro da palavra: faz medo.

Tal como, de resto, descobrir que é com «isto» que temos vindo a conviver: descobrir que o que mais prezamos na vida em sociedade está nas mãos de pessoas que não se apercebem sequer do que estão a perder. Esta troca é assimétrica: em nome de um risco praticamente nulo hoje dão aquilo que nos custou tanto conquistar ontem. 

Sim, tenho medo e não tenho vergonha nenhuma de o dizer.

Pedras, palavras

Quanto mais pedras puseres no teu alforje, viajante, mais palavras dele tirarás e mais longe elas voarão. 

Tempo, pele

Acaricio a suave pele do tempo. Amanhã será rugosa? Que me importa? O que hoje me dá não ficará esquecido num cais de gare ferroviária. Nada do que o tempo me deu ficou alguma vez esquecido - excepto, por vezes, o tempo ele-mesmo, numa pele.

Breve tratado das marés

Trata as marés por igual. Altas, baixas, vazias, vazantes ou enchentes, vivas ou mortas, são todas iguais - não passam de água em movimento - e merecem a atenção polida que acordas a tudo o mais. Uma piscina não tem marés porque é pequena, limitada, insignificante. As marés são para os grandes. Desconfia das que só sobem tanto quanto das que baixam sem parar. Nunca se sabe aonde te levarão, umas e outras. Pensa nelas com carinho: mesmo as que te são desfavoráveis mudarão em breve e ajudar-te-ão. Todas te fazem ver diferentes aspectos do dia ou da noite: as negras paredes do cais são outras, vistas de baixo ou de cima. Aproveita tudo de todas: a maior das contrariedades hoje pode ser a tua sorte de amanhã. Graças às marés aprendeste a nadar, a ver, aprendeste o tempo, a Lua, o Sol. Ama-as: sem elas pouco ou nada mais serias do que uma folha de vinha num tanque.

10.12.20

Malvadez e insensatez

Dizem-me frequentemente que estou obcecado com a pandemia. Claro que estou. Não percebo é como se pode não estar. 

É uma desumanidade inconcebível, é maldade, insensibilidade, solipsismo, prova da incapacidade de integrar  na mistura o preço que se está a pagar por ela, de avaliar a crise holisticamente. Concentram-se no número de mortos Covid, a reboque dos jornais, e esquecem o número de mortos não-Covid, as mortes que estão a provocar por falta de tratamento, o colapso da economia - e respectivo cortejo de mortes e abjecção -, a miséria social que estão a provocar, a degradação da situação política. Dói-me e mói-me quotidianamente, sim. 

9.12.20

Diário de Bordos - Lisboa, 09-12-2020

Chama-se French Arth (os franceses e o inglês...), é um cantinho de Paris em Lisboa, fica na rua de S. Bento e é um sítio porreiro para se vir beber um demi Ricard ao fim do dia, uma prática que os nossos amigos gauleses designam por apéro. A rua, aliás - ou pelo menos este bocado dela - está cheio de galicismos: a padaria da esquina - Ceres - é francófona e macacos me mordam se não tem o melhor pão que comprei até hoje nesta cidade. Os franceses têm meia dúzia de defeitos e metade disso em qualidades; mas cada uma destas vale por três daqueles, de maneira o saldo é largamente positivo. Já o bar à frente da padaria é um attrape-couillons e ignoro se é francês. Compensa o talho da outra esquina, português até à medula e fantástico de bom. Isto está tudo ligado.

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Amizade facebookiana com ---. Já tentara há algum tempo, mas tocou ocupado. Desta vez a iniciativa funcionou, se bem o impulso inicial não fosse esse. É das pessoas que mais me entusiasma na PLP (Paisagem literária portugesa). Não sabe tudo, não estudou filosofia, antropologia ou outras coisas terminadas em ia, gosta de rir, é alegre e leve - pelo menos no pouco que vi. Se não me engano, conhecemo-nos de dois jantares. Souberam-me a pouco, mas agora fica a balança equilibrada: vou poder ler os seus posts quotidianamente, o que é bom como ouvir um motor fora-de-borda arrancar à primeira ou descer a rua do Alecrim num dia de sol (de bicicleta, claro. A pé é um bocadinho longo).

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Tenho dois casacos de pele (pequenos, femininos) e uma série de artigos para mesa para vender. Não faço a mais pequena ideia de como fazer, mas em tempo de maré baixa não se olha a pequenas ideias. Aprende-se, é tudo. E depressa, se faz favor. De modo já sabem: se quiserem um (ou dois) casacos de peles e artigos [adenda: de boa qualidade] para uma mesa chic, basta dizerem. Abro às nove da manhã.  

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O P. - ou melhor, o que o vai reanimar - deu hoje sinais de vida. Gosto muito de Lisboa, mas quero ir depressa para Palma (se bem tenha de reconhecer que não é  única razão).

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A minha pobre, pequena e frágil camioneta está demasiado carregada. Tenho de alijar carga, mas de momento tenho tudo demasiado bem peado. Não sei o que fazer e quando é assim o melhor é não fazer nada. Ficar quieto num igloo (à frente da lareira, não?) e esperar que algo mexa, que uma das peias folgue, que um rumo me apareça como nossa Senhora aos pastorinhos; mas sem sopas de cavalo cansado, coisa que detesto. Para cavalo cansado basto eu, não preciso de sopas. (Verdade seja dita, tão pouco preciso de virgens ou de pastorinhos, mas isso é outra história.)

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Jantar com a T. A. Conhecemo-nos no Snob: já nos seguíamos no FB, um dia faço um post - eram duas da manhã, pelo menos - e ela interpela-me da mesa ao lado. É a segunda vez que isto me acontece. A primeira foi na Martinica, no Marin, com o R. Mas esse eu sabia que estava por aquelas bandas. Encontrar uma «amiga facebookiana» desconhecida no Snob às duas ou três da manhã é outra loiça. Mais uma prova de que o Facebook é melhor do que pior. Isto é, mais vale tê-lo do que não o ter. 

Apesar da porcaria desta censura. Ainda não me calhou, mas não sei o que farei se um dia me quiser calar. Esta sensação de dependência é abominável. Se sair, não o poderei substituir. Os conteúdos são fáceis de gerir: bloquear, desamigar e deixar de seguir, por ordem decrescente de remédio. Mas saber que de certa forma estou a ser cúmplice de uma empresa que censura quem não alinha no discurso oficial repugna-me. Nunca gostei de me calar, não é agora que vou começar a aceitá-lo facilmente. 

Parábola

Como um navio-tanque encalhado a meio da noite, à espera que a maré suba e o vento caia. Neva, quase de certeza. A frente fria é vasta, a depressão a que está associada profunda. Já alijou todo o lastro que podia. Mais, só indo a carga. Fora de questão, claro. Não se resolve um problema criando outro maior. Está encalhado num baixio cartografado. Foi erro, azar ou a habitual mistura dos dois? Raramente andam separados, daí serem tantas vezes confundidos. Já enviou o tradicional telegrama: "Encalhei o navio." Quando desencalhar enviará outro: "Desencalhámos o navio." Não há a menor dúvida de que se vai safar? Há, claro. "São os capitães demasiado seguros de si próprios que perdem os seus navios." A dúvida salva. Sem ela estamos perdidos. Não basta esperar que a maré suba, o vento caia ou ronde, o navio aguente. Se pudesse, mandaria transfegar carga para a distribuir pelos tanques. Quer mais peso a ré e menos a vante. Mas os tanques estão cheios a deitar por fora. Nada a fazer, desse lado. Não perde muito tempo a analisar o que o trouxe ali. Isso fica para depois. Agora, há que safar o navio e a tripulação. Manter a ordem a bordo. Ordenar. Classificar por prioridades. Arrumar. Filtrar o essencial do acessório. Não deixar a situação piorar. Aguentar firme, um pé na certeza o outro na dúvida. Não ter medo, sabendo-se o elo mais  fraco da cadeia. Se o vento sobe e as vagas crescem o navio pode partir-se em dois. Ou avançar mais no baixio. Resistir à tentação de pôr as máquinas a trabalhar, sob pena de as encher de areia. Não tem um ferro a ré e se tivesse de nada serviria. Tem de esperar pelo rebocador. Vem a caminho. Nada a fazer senão isso: esperar, um olho no barómetro, outro no anemómetro, outro no radar, outro na sonda. Sobretudo, não deixar crescer o temporal que de dentro espreita a primeira ocasião para se apoderar dele, da situação, de tudo. Esperar. Aguentar. Quando o rebocador chegar há que ter os cabos de reboque preparados.  Quantas braças? Não sabe. É o capitão do rebocador que lho dirá. O imediato e o contramestre tratam disso. Deixar cada um fazer o seu trabalho. Não se intrometer. Pede um café à cozinha. A noite vai ser longa. Todos os encalhes duram uma vida.

"Desencalhámos o navio."

8.12.20

Apelo

A minha experiência da beleza feminina é totalmente unilateral e enviesada: só a conheço pelo lado do contemplador. («Utilizador» seria falso, exagerado - e redutor, por muito tentador que seja.)

É portanto deste pressuposto assumidamente insatisfatório que lanço um apelo em defesa dos cabelos brancos nas gentes femininas: não os tinjais, senhoras! Há lá testemunho mais belo de uma vida vivida, da sabedoria adquirida? Deixai a natureza manifestar-se em vós, que sois a sua mais perfeita obra.

Optimismo

Esta bizarra espiral que te envolve, feita das mais variegadas formas, cores e pesos, gira a diferentes velocidades. Poderia ser feita dos anéis de Saturno se de repente o planeta se tivesse desvanecido e os anéis começassem a afunilar, cone de gelado sem a bola por cima e contigo no centro. Deixa-te sem fala, sem ar. Sem silêncio, sequer. Deixa-te nu, enfriado, estátua oca de ti. Tudo gira à tua volta, a ponta do cone na terra esburaca a crosta, vais-te enterrando cada vez mais, protegido do lado iluminado da vida por essa armação intocável, por mais que estendas o dedo e balbucies sons ininteligíveis. Do lado de fora da carapaça girante, cónica, multicolorida ninguém te espera, ninguém te ouve, ninguém te vê afundares-te na terra seca e fria que se vai pulverizando e desfazendo em finos grânulos de poeira que agora te asfixiam. Um dia, sabes, o sentido da rotação inverter-se-á. A espiral desfazer-se-á, as cores tornar-se-ão sons e tu terás aprendido um pouco mais da arte de te transformares em pó - arte a que alguns, num momento de detestável e sedento optimismo, chamam vida.

6.12.20

Reencontro

Reencontro com alegria a Nuvem do não-saber, que deixara esquecida em casa da A. I.  "Vela para que só Deus e nada mais opere na tua inteligência e na tua vontade. Tenta destruir a consciência das realidades inferiores a Deus, as quais deves afastar para muito longe, calcando-as sob a nuvem do esquecimento".

Encontro finalmente uma justificação para os meus esquecimentos. 

3.12.20

Reinaldo Ferreira

«A que morreu às portas de Madrid, 
Com uma praga na boca 
E a espingarda na mão, 
Teve a sorte que quis, 
Teve o fim que escolheu. 
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou. 
E antes de flor, foi, como tantas, pomo. 
Ninguém a virgindade lhe roubou 
Depois de um saque - antes a deu 
A quem lha desejou, 
Na lama dum reduto, 
Sem náusea mas sem cio, 
Sob a manta comum, 
A pretexto do frio. 
Não quis na retaguarda aligeirar, 
Entre «champagne», aos generais senis, 
As horas de lazer. 
Não quis, activa e boa, tricotar 
Agasalhos pueris, 
No sossego dum lar. 
Não sonhou minorar, 
Num heroísmo branco, 
De bicho de hospital, 
A aflição dos aflitos. 
 Uma noite, às portas de Madrid, 
Com uma praga na boca 
E a espingarda na mão, 
À hora tal, atacou e morreu. 

Teve a sorte que quis. 
Teve o fim que escolheu.»

Troco

Troco o meu frio pelo teu calor.

Imagens, palavras

Árvores nascidas em nuvens, com as raízes no céu e os braços no mar suspendem palavras que suspendem mundos e salvam-nos como marinheiros salvam náufragos. Palavras aquecem-nos como seixos aquecidos pelo sol nos aquecem as mãos. Palavras guiam-nos como as agulhas das linhas dos eléctricos os orientam para o seu novo destino. Palavras dizem-nos: "fim da linha. O resto da tua vida começa aqui." Palavras, felizes e suspensas palavras.

Carreiros

Deitado, o senhor pensa em carreiros. Todos: os que ligam os ontens a hoje, hoje aos diferentes amanhãs que nos chamam, os outros a nós e nós aos outros (nem sempre são os mesmos), os carreiros que durante a noite silenciosas formigas percorrem, investigando-lhes as formas, os cheiros, as cores, as sílabas. Tenta adivinhar quantos há, quantos carreiros saem de nós e quantos  recebemos; quais os alegres, iluminados, leves, quentes, direitos e quais os outros, frios e empedernidos.

Adormece tranquilamente quando pensa - ou será um sonho, já? - que os carreiros mudam, como nós. Ou melhor: connosco.

2.12.20

Brincar, tempo

Brinca com o tempo, deixa-o brincar contigo. Se te pregar uma partida, não te zangues: anda sempre nisso. Se te pedir para jogares com ele à apanhada, vai: é o seu jogo favorito. Às escondidas, então, é mágico: sabe onde estarás ainda antes de lá estares. Fá-lo saltar ao eixo, ora tu ora ele. Põe-no a jogar à macaca.

Brinca com o tempo: nada se perde, quando se sabe que se vai perder.

1.12.20

Repentes

Não sou um repentista. Só cago sentenças depois de muito mastigar a matéria-prima.

Autenticidades

As pessoas "autênticas" enjoam-me. Às vezes, de tão "autênticas", parecem caricaturas de si próprias. Ou - pior ainda - ersätzen.

Conversa

Farrapos de luz penduravam-se-lhe no sorriso. Iluminava tudo o que tocava. Um dia, ganhou a sorte grande: amor.

Era o único prémio. Tudo o resto era conversa.

O que devia ser

Para além da criação / dilapidação de riqueza, há outro misterioso mecanismo no mundo. É difícil de compreender e portanto mais ainda de explicar. Criação de amor. Dilapidação de amor. Criação de beleza. De emoções. Um mecanismo que tornasse os sentimentos visíveis, palpáveis, distribuíveis. Outro que recuperasse os restos todos, os cacos que fomos deixando para trás e os transformasse numa máquina tão bem estudada como a riqueza e respectivos ciclos. Pegasse nos bocadinhos de amor que nos pendem da alma, nos silêncios bicudos e os arredondasse, nos gestos que um dia suspendemos a meio e nos permitisse acabá-los. 

Devia haver bancos, sociedades de capital de risco, empresas de factoring, investimentos, seguros, bolsas - de amor. Acções, obrigações - de ternura, tudo isto colado com afecto, com carinho, com meiguice. A doçura devia ser a língua franca. Falas doçura? Sim, mas a minha língua materna é a ternura. Que sorte! A minha é o amor. Eu prefiro a delicadeza. Já falei carícias, mas com a falta de prática esqueci quase tudo. Eu aprendi carinho logo em miúdo, a minha mãe queria que todos nós o percebêssemos. A minha também, mas o meu pai era mais sorrisos.

A torre Eiffel devia ser o A de Amo-te e o resto o mundo.