24.6.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-06-2021 / II,

O Big Foot é um bar relativamente feio e barulhento mas tem a vantagem de me servir depois das horas, como se estivesse num Speakeasy ou numa loja de ópio de Shangai. As mulheres são feias, bonitas, gordas, magras, mal vestidas e bem (há pouco entrou uma com uma Leica ao ombro). Os homens são feios, gordos, jovens, magros, bonitos. A única coisa que toda esta gente tem em comum é a banalidade.

Bebo um rum com sumo de laranja e hesito no seguimento. Ouvir o meu Pai ("deve-se sempre beber um número par de bebidas, sob pena de se voltar coxo para casa") ou dar ouvidos ao pâncreas, ao médico, ao bom senso e à namorada (se aqui estivesse)? Opto por um compromisso e encomendo um rum simples com uma rodela de lima. Pelo menos poupo o pâncreas. 

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Sentei-me em cima do meu chapéu Panamá, o qual já tem as marcas (muitas e uniformes) de uma chuvada de pó do Sahara aqui há uns dias.

Gosto de ver coisas usadas mas não negligenciadas. Espero que estas interacções resultem esteticamente aceitáveis.

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Uma das coisas que admiro nas pessoas pró-Covid é a hospitalidade que dispensam ao medo. Para mim, o medo é mal vindo. Não o consigo evitar, mas não gosto dele, não o quero, é como aquelas visitas chatas que não se vão embora e nos contam todos os seus problemas de saúde e de família. 

Elas não: acolhem-no de braços abertos, dão-lhe de comer e de beber, convidam-no para dormir e ainda lhe ajeitam os cobertores.

Claro que tudo isto evoca uma pergunta: se ao longo da minha vida eu tivesse tido mais medo: estaria melhor agora? 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-06-2021

Fui almoçar ao mini-Restaurante Casa Julio, que de mini só tem os preços e a designação (e nem sequer aparece sempre). O resto é maxi: a qualidade, as doses, a eficácia e simpatia das pessoas. Mal entrei a empregada mais antiga diz-me «até que enfim! Há muito tempo que não te via! Por onde tens andado?» como se eu fosse o marido dela e tivesse chegado a casa depois de uma semana de farra. Acho que vou deixar este dilema da pertença versus nomadismo no mesmo sítio onde tenho vontade de pôr o debate sobre a Covid (pelo menos com os amigos): no caixote de lixo da história. Há coisas que simplesmente não têm resolução, pelo menos dependente da nossa acção sobre elas. Um dia saber-se-á quem tem razão, tal como um dia saberei se a minha sedentarização é um facto ou um voto piedoso. Pena é esta merda da Covid ser tão invasiva, tão presente, é impossível escapar-lhe. Ver estes desgraçados trabalhar que nem forçados de máscara magoa-me e agride-me (estou na Chinchilla, o Angél e o Andrés correm como se estivessem a fazer os cem metros barreiras com as travessas na mão e o açaimo na cara, porque são obrigados).

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Depois das lulas da casa, comi uma tapita de Gamoneo, o queijo dos queijos (pelo menos dos queijos espanhóis e para mim). É um queijo asturiano feito e comercializado em condições esquisitas. Vejam no Google, se for igual ao meu é instrutivo. A primeira vez que o comi foi durante o primeiro confinamento; o de hoje era mais civilizado. Acompanho-o diacronicamente com um Jerez, um café e um tiramisú, tudo numa desordem caótica, a granel, como quando enfiávamos açúcar ou cereais nos porões do M/V RIO CUANZA, onde pela primeira vez experimentei as delícias do tramping: ir para onde há trabalho (carga, no caso do navio). O tiramisú é bom demais, a rapariga cozinha como uma deusa, o Angél hoje está chato e pega-se com todos - são só mais dois, a Dalila (?) e o Andrés, um moço impecável e ginasta de vinte e quatro anos (sei porque fez anos há pouco tempo e mo disse). Pedi-lhes uma mesa ao pé de uma tomada, sentaram-me num canto perto da janela. Estou em casa, tive de lhes pedir para me tirarem o tiramisú da frente, porque se continuasse até o pote ia. O seco Jerez combina bem com o doce do doce. É uma bebida injustamente esquecida pelo rapazinho. Tenho de rever essa situação. Quando tiver uma casa falamos, respondo. Estes diálogos internos não são bem diálogos, são mais como as fitas do telex, ininterruptos, sequências de palavras sem solução entre elas e de vez em quando vêm outras palavras, como quando o Angél me diz que está a caminhar para a velhice e eu lhe respondo que tem um longo caminho pela proa. São adoráveis e tenho de repensar a minha opinião sobre os maiorquinos, talvez apoiando-me na experiência que tive com os panamianos. O Angél não pára de pegar-se com os outros e eu pergunto-me se devo beber mais um Jerez. A pergunta é retórica, claro. Toda a plateia sabe a resposta. 

Todas estas coisas se misturam, articulam, encaixam, engrenam. Deve ser a isto que se chama harmonia, não?

Adenda: o Andrés é colombiano, de Medellín. Veio para Espanha muito jovem. Já passou dezasseis anos na Galicia.  

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Entro pouco a pouco nas delícias do amor. Isto é, da relativa novidade de amar e ser amado - é sempre a primeira vez, não é? O único efeito da idade é que agora se entra mais devagar. Talvez porque se saiba que não se voltará a sair. A minha última namorada porque não haverá outra a seguir, desta vez, não é uma frase bonita. É uma verdade e, muito mais do que isso, uma vontade. Parece a chegada a um porto depois de uma viagem difícil.

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Penso na ambivalência dos marinheiros (não há nada que não abarque: somos arrogantes e humildes, valentes e cobardes, individualistas e vivemos com os outros em latas de sardinha flutuantes, sabemos fazer tudo e fazemos tudo mal, adoramos a solidão quando estamos acompanhados e a companhia quando estamos sozinhos, vivemos entre o porto de que largámos e aquele a que vamos chegar, temos dinheiro quando não precisamos dele e mal precisamos deixamos de o ter porque ele se esvai sozinho, sonhamos com vento nos dias de calma e com a calma nos dias de temporal. Por aí fora) e vejo que essa é mais uma: por muito que se precise de estar no mar, é num porto que te sentes acolhido. R., minha R., conhecias a tua vocação de porto? Em inglês existe um termo, haven, diferente de harbour. Significa refúgio, diz-me um tradutor qualquer da net. Porto de abrigo? Não sei. Sei que preciso de mar e de ti em doses iguais e que ser marinheiro é ser ambivalente, arquivalente, omnivalente, panvalente: não há valência que nos falhe.

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Vejo-os correr para trás e para a frente e lembro-me das noites frenéticas do Marchand. Daí a memória descola para outras coisas, como quando os pianistas percorrem as teclas todas seguidas. Páro-a no meio. Estou farto da memória. É como a esperança, uma droga. Sei que os amnésicos têm uma vida horrível, mas se conhecessem a dos hipermnésicos relativizariam. (Isto dito por um gajo que se não tivesse pescoço deixaria a cabeça em todo o lado tem outro sabor, não tem? Tem)

Amor, matemática

Há três coisas boas na vida:

  • - Duas coxas,
  • - Um ventre, 
  • - Duas mamas,
  • - Dois lábios, 
  • - Dois olhos, 
  • - Um cérebro. 

... ?

Isto da álgebra e do amor nunca bateu certo, não sei porquê.

23.6.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-06-2021

O P. gosta de dançar o tango. Um passo à frente, dois atrás, três para o lado, levanta a perna, olha-me nos olhos e diz-me que sem ele não saberia viver. Não sei e sei. Uma coisa é certa: ele é daquelas que enquanto não a tivermos na cama não descansamos. Pelo menos para um macho latino como eu: minha querida, enquanto não fores ao sacrifício não descanso; depois, és tu quem não descansa.

Passo os pormenores porque não quero maçar os leitores - e ainda menos maçar-me - mas gostaria de explicar que a luta pelo P. se transformou uma luta contra o P. e que isto agora é pessoal, não é teórico ou existencial. É uma luta corpo-a-corpo, todos os golpes são permitidos, sem limites.

P., meu caro, estás fodido.

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A Órbita refastela-se em Palma. Foram feitas uma para a outra. Isto começa a pôr-me problemas de consciência, porque quero absolutamente levá-la daqui, quando - se - um dia deixar Palma. 

Isto não é retórica. Tenho a impressão de que nada nunca me afastará de Palma. Ou que Palma nunca sairá de mim, como algumas mulheres e muitos livros.

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Escrevo, pela primeira vez em muitos meses, no Antiquari. Já aqui fiz esta analogia, mas ela é inesgotável e insubstituível: um amigo do meu Pai dizia que não ter carro lhe permitia ter mil e quinhentos carros - referia-se aos táxis, suponho. Ou aos táxis e aos autocarros, Talvez -. Não ter casa permite-me  ter dezenas ou centenas delas.

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Se o amor fosse o único critério, aconselharia toda a gente a chegar depressa aos sessenta e três anos. Infelizmente não é. Mesmo assim, acho que vale a pena experimentar. Amar é um fluido que preenche todas as brechas, uma água que mata a sede a todas as bocas. Aos sessenta temos muitas.

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Começo com o P. e acabo com ele: meu caro, não penses que vais levar a melhor. Não vais. Quanto mais me bates mais te amo. Estás fodido: vais sair daqui direitinho, meu velho, com as mamas de uma septuagenária a quem tenham feito um implante.

22.6.21

Adenda à adenda

Podem dizer que sou bruto, desajeitado, que pareço um urso com os copos (o bicho, não eu). Aceito essas críticas todas. Mas se contar tudo como exactamente se passou, talvez obtenha um módico de compreensão e perdão dos deuses e das forças que governam isto tudo.

Passou-se que cheguei muito cedo ao Joan, sentei-me lá dentro e comecei a responder ao Facebook, a telefones, a mensagens e -finalmente - escrever. Escrevi freneticamente (isto é uma auto-piada. Cada palavra é como o nascimento de trigémeos feios, monstruosos e cabeçudos. Pior, só as vírgulas). A certa altura tive um ataque de fome, acontecimento que tem o condão de me desligar a parte do cérebro que aprendeu a regular o meu comportamento em cafés e pedi comida ao Rodrigo, que estava na cozinha.

Repeti - os erros, como as bebidas, devem ser feitos aos pares - e o Joan diz-me que não devia pedir comida directamente à cozinha.

Bom, até aqui tudo bem. É a ordem natural.

Continuei o jantar - já estava na fase das correcções ao que escrevera, como se fosse passível de correcção - e o Joan vem dizer-me: "tu aqui estás em tua casa". 

Que lhe respondi eu? Asneira, claro. Quê não sabia se ele estava a ser irónico, etc. 

Resumindo, resulta que o senhor estava a ser sincero: no bar Rita estou em minha casa. Ouvir um maiorquino dizer isto, meus caros, vale mais do que ser condecorado pelo professor Marcelo. (Não é muito, eu sei. Mas ser convidado de um maiorquino é .)

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-06-2021

Não vinha ao bar Rita há muito tempo, há demasiado tempo. O Joan propôs-me callos, coisa de que não consigo gostar, mas que me fez pensar no C. M., que ando mortinho por trazer a Palma. Faço uma encomenda ao Rodrigo, que hoje está na cozinha: «Rodrigo, faz uma mistura que inclua croquetas de chipirones e outra coisa qualquer de que tu gostes e que não seja muito» (isto de não ser muito é um conceito difícil de explicar aqui em Palma. Normalmente pensam que em vez de ser para três pessoas é só para duas). Esta imensa vontade de partilhar Palma com os meus amigos é pervasiva, insinua-se pela mais pequena das frinchas, pela vasta saudade antecipada que já começo a sentir de Palma e na verdade não tem nada de especial: conheço-a de gingeira há mais anos do que aqueles que consigo contar, de mais sítios do que conseguiria nomear, de mais situações do que me apetece recordar.  

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O P. apanha-se como estava ao princípio, cheio de homens a tratar dele. Não há melhor forma de demonstrar que a forma inglesa de tratar as embarcações é a correcta: são seres femininos. Tive sorte, uma vez mais: E. é um srilankês (é tão feia, esta palavra. Cingalês. E. desculpa, mas para mim serás sempre um Cingalês) pequenino - passe o pleonasmo, nunca vi ningém daquela ilha maior do que pequenino -, pintor, que na segunda-feira me disse «dediquei o domingo ao desporto. À Sport Tv (enfin, o equivalente, não me lembro do nome)» com aquele ar falsamente tímido e retraído de quem sabe que o outro percebe os vinte e dois graus da piada). Foi vacinado pela filha, enfermeira, mas continua a usar máscara, «pela família». Estou-me completamente nas tintas: é um pintor dos bons, conscencioso, trabalhador, pontual e como prémio sabe trabalhar com fibra. Sempre gostei de ver trabalhar quem sabe trabalhar e não é amanhã que vou mudar. Uma das coisas que aprendi com este refit - aprender não é o verbo correcto. Confirmei - é que nos próximos refit os trabalhos serão entregues única e exclusivamente a profissionais das respectivas áreas. 

Ch. é um argentino de Córdoba. Não gosta de porteños. Era um bocadinho hiper-activo demais para o meu gosto - o frenesim é inimigo da qualidade - mas já consegui acalmá-lo e a verdade é que o polimento dos metais tem estado a sair impecável. Vai ter um filho no princípio de Julho, mas agora teve um problema com o carro e objectivo do trabalho passou do bebé para a embraiagem. Estudou geologia na universidade, mas gosta demasiado do mar para se dedicar às pedras, explicou-me. Gostei do tom dele logo no primeiro telefonema e quando o encontrei não foi propriamente uma entrevista, foi uma confirmação. A senhora P. aprecia estas atenções todas, claro - apesar de não resistir à sua velha tentação de me pregar partidas, chatas, desagradáveis (e caras, mas isso é outra história).

Às vezes o P. parece-me uma daquelas raparigas que convidamos para jantar, nos diz sim e à última da hora arranja todos os pretextos para não vir ou pelo menos para atrasar o sacrifício. É precisa uma paciência de Job, uma propensão natural (isto é, herdada) para a diplomacia e a paciência, a certeza de que no fim ela nos vai ceder. (Isto é o que sinto quando estou bem disposto. Nos outros dias, sinto-me como um índio a pular à volta da fogueira, aos urros, com a mão a tapar intermitentemente a boca e dobrando alternadamente as pernas. Só que no centro do círculo, atado ao poste e em cima da fogueira estou eu, simultâneamente índio e vítima, palhaço e espectador.)

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Conversa com A., o nosso rigger. Pouco me importa o resultado - bastante positivo, na minha opinião; se bem parcial -. O fundamental foi este sentimento de comunhão, de duas pessoas que se entendem muito para lá das palavras porque ambas sabem do que estão a falar. 

A minha experiência é limitada, admitidamente - se bem tenha feito muitas coisas, só tive um sentimento semelhante no Burundi, quando o representative me dizia: «Luís, encomenda os contentores e não me chateies»; ou quando todas as semanas saía da reunião de agências e vinha ao meu escritório dizer-me: «o grupo pediu uma vez mais para te transmitir os seus parabéns» (não eram todas. Eram só muitas). Isto não tem nada a ver com orgulho, arrogância ou «armalhice». Tem a ver com harmonia, sintonia, acordo, uma espécie de ligação básica aos arquétipos primevos, àquilo que transformou os macacos em homens, àquilo que faz dois homens saberem que podem confiar um no outro, que se compreendem um ao outro. Não obtive tudo o que queria pela simples razão que não queria tudo. Queria só uma parte, a parte essencial, como se estivéssemos a dividir despojos e cada um pudesse pudesse dizer: «fiquei com o mais importante».

Só que aqui não houve luta nenhuma, mas sim uma simples aceitação de que algumas coisas são como são e não se lhes pode tocar sob pena de ver o edifício ruir.

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Adenda: «só tive um sentimento semelhante no Burundi» é mentira. «On s'en fout. De toute façon on n'est pas d'ici, demain on s'en va.»

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 21-06-2021

A minha teoria geral dos preconceitos, elaborada laboriosamente (espero que os leitores notem esta subtil, erudita e fina aliteração) ao longo das quase quatro semanas que levo de vida pensante - a minha teoria geral dos preconceitos, dizia - foi hoje objecto de uma ribombante e múltipla confirmação: os preconceitos têm como função na vida ser demonstrados falsos, ser trocados por outros que sabemos a priori ser igualmente falsos mas cuja falsificabilidade deve esperar o momento correcto, é preciso esperar pacientemente por esse momento, num elaborado exercício de dissonância cognitiva que se estende pelo tempo, uma dissonância diacrónica, por assim dizer. Mais: o momento da troca de preconceitos é geralmente um momento de alegria intensa, vitorosa, da qual todos saímos vitoriosos: o preconceito vencido, o novo e o feliz autor (não tenho a certeza de que este seja o termo certo: um preconceito digno de respeito faz-se a si próprio, não tem autor). Bom. Deu-se o caso assim: fui entregar o carro ao Egidio, que não podia dar-me boleia para a marina por ter sido vítima de um acidente sobre o qual não inquiri, mas que estimo suficientemente grave para o ter ao telefone em lágrimas, de manhã. Estava esganado de fome, pelo que resolvi comer nas imediações, estas não sendo exactamente o centro da cidade. Fui dar a uma tasca, com o pior aspecto que uma tasca pode ter, agravado pelo facto de se anunciar como pizzeria. Não vos peço para imaginar o lugar - aliás, peço para não o fazerem. Digamos simplesmente que era feio.

[Escrevo isto no Jaume. Uma senhora que me faz vagamente lembrar a Maria Callas e está rodeada por demasiados homens para o meu gosto - dois - faz tudo o que pode para interromper este relato. Não o conseguirá, como verão.]

Além de tasca - que em si mesmo não é propriamente um defeito, é só um pré-aviso - era uma pizzeria, isto sim, um defeito e grave, feia, inóspita, pouco acolhedora. O gajo atrás do balcão  correspondia-lhe a cem por cento (não digo duzentos para não ofender os meus leitores mais apreciadores de matemática). Era feio, antipático e só tinha vontade - pareceu-me - de me ver dali para fora. Debitou-me a lista a uma velocidade estonteante (literalmente. Estava cheio de fome). Na verdade, pensei simplesmente que ele não me queria ali, que desejava ver-me partir o mais depressa possível, tão depressa como debitava a lista, que talvez tivesse um preconceito contra pobres marinheiros solitários e longe de casa (já não posso dizer «solitários», mas isso ele não sabia).

Bom, resumo a hstória: [a Callas pôs-se de costas para mim e ao meu lado sentaram-se duas senhoras jovens e feias como os trovões acompanhadas por um senhor de meia-idade igualmente feio.]

- Pizza: uma das melhores da minha vida;
- Vinho: comprado directamente ao produtor, em Binissalem, um vinho «caseiro» como já não bebia há muito tempo;
- O almoço terminou com umas «hierbas» (aspas porque cito) da Calabria - a região de origem do agora senhor Alberto. Chama-se Amaro del Capo e só Deus sabe quanto quero voltar a passar pela Calábria para poder beber esta coisa outra vez. (Na verdade vou bebê-la antes, mas isso é outra história.)

[Duas senhoras que já não têm idade para ser feias mas ainda o são. Isto merece uma teoria.]

Ou seja: o caixão do preconceito contras as pizze levou hoje o último e definitivo prego. O preconceito contra tasqueiros que parecem antipáticos levou outro. O que me levava a suspeitar de tascas na periferia das cidades outro ainda maior. Que alegria! Três preconceitos num almoço só. 

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A diabetes vai dar cabo de mim, Curiosamente, nesse dia eu darei cabo dela também. Vale a pena jogar para o empate.

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Num programa interessantíssimo da Rádio Clássica espanhola - Longitude de Onda - oiço os resultados de uma pesquisa segundo a qual as pessoas que ouvem mais música têm mais dificuldade em adormecer. Quem ouve música para adormecer engana-se redondamente, parece. Outro golpe baixo no preconceito.

20.6.21

Elogio do desenraizamento - LMN 9

Pusemos as velas no PANDA. É um passo importante e simbólico, passe o pleonasmo. O homem é um animal de símbolos. Se calhar são eles que nos separam dos orangotangos, vá saber-se. Depois fui tratar dos caixotes que estão no armazém. Resultado: pareço um museu das dores musculares. Não paro de elogiar os benefícios da idade, mas os malefícios não são menores. Andam de mãos dadas, por assim dizer. Como tudo na vida, de resto: orangotangos e orangotangas, homens e mulheres, dores e prazeres. A verdade é que me sinto bem por ter os trapos a bordo (salvo seja. Trapos é calão. O termo correcto é: panos). Foram feitos pelo meu amigo Pedro Pires de Lima, que é um dos grandes veleiros que conheço – por isso lhe faço publicidade, já que ele não a faz a si mesmo: se algum leitor precisar de panos para uma embarcação de vela entre os quatro e os quatrocentos pés fale com o Pedro. Eu dou o número de telefone e não cobro o serviço (quem faz o sacrifício de me ler merece um gesto destes).
        Aluguei um automóvel ao Egidio – outro de quem dou o número de telefone sem cobrar -; é confortável e moderno (apita quando abro a porta e deixo as luzes acesas, por exemplo, um grande favor que me faz) e o Egídio fez-me um desconto aceitável dadas as circunstâncias. Um dia disse-me que me admirava porque sou um dos raros clientes que faz exactamente o que lhe digo que vou fazer. Ele também faz o que diz e também eu lhe aprecio essa qualidade. Os carros nem sempre são tão modernos ou em tão bom estado como este, mas a verdade é que dispenso grandes confortos, apesar de os apreciar quando me caem do céu (ou da Driiveme, um sinónimo).
        Isto está a transformar-se numa lista de fornecedores e não é de todo a intenção inicial. Era só falar-vos do meu dia, do prazer que é ter os panos a postos, das cervejas bebidas na Cantina – cada vez que bebo cerveja penso na anedota do russo que deu duzentos rublos ao médico para poder comer e beber o que quisesse – do polvo à galega que lá comi. O polvo à galega é como a língua inglesa: fácil de falar mal e difícil de falar bem. Substituam falar por fazer e chegam exactamente aonde vos queria levar. A grande vantagem do polvo à galega sobre o inglês é que este pode ser feio quando mal falado – por um russo ou um chinês, por exemplo – e aquele nunca é mau. É só menos bom.
        O segredo de um polvo à galega não é o polvo, contrariamente ao que muita gente pensa. Cozer um polvo é fácil e há montes de truques para lhe quebrar as moléculas de colagénio de que é feito: congelá-lo, por exemplo; bater-lhe, método bárbaro e rudimentar; deixá-lo cozer muito lentamente começando por água bem fria, com uma cebola de tamanho proporcional ao do bicho para se saber quando está cozido. E por aí fora. Nada disso. O segredo de um polvo à galega reside: a) na qualidade do pimentão. Sugiro pimentão fumado de la Vera, que é uma simples maravilha; b) na do sal. Sal de Cocó (sic), da ilha de Cabrera; c) nas batatas. Não tenho sugestões a dar; d) na quantidade: tem de ser muito. Hoje foi aqui que o da Cantina falhou: era pouco. E o sal não era de Cocó, mas ninguém vai a um restaurante esperando encontrar sal de Cocó, o melhor sal que me foi dado provar até hoje e tem um preço correspondente. Tal como o pimentão não era de la Vera, mas passemos. Pouco importa: o polvo à galega, as cervejas, o vinho branco, o trabalho físico, as velas coligaram-se, conspiraram e ofereceram-me um dia em cheio.

        Mas tão pouco era esta a intenção original deste texto.

    Palma-a-sedutora tem sempre uma surpresa na manga, como aquelas mulheres por quem nos interessamos por causa das mamas e acabamos a apaixonarmo-nos porque tem um cérebro por cima. É uma das semelhanças que lhe vejo com Lisboa: são cidades que não se dão a ver. Escondem-se e reservam-se para alguns escolhidos. Os americanos não são assim: publicitam-se facilmente, aprenderam a fazê-lo há duzentos anos ou coisa que o valha. Nós, europeus e nós, ibéricos - ainda mais - somos diferentes: escondemo-nos, esperamos que o produto fale por nós. Não fala: há demasiado ruído. Ninguém fala por nós; e o que fazemos só fala a posteriori, não antes. Isto diz um tipo que é o pior vendedor de si próprio que a humanidade jamais produziu, dando assim razão àquele ditado segundo o qual quem sabe faz, quem não sabe ensina.
        Há porém coisas que sei fazer: encontrar bons fornecedores, por exemplo. Claro que tenho a minha quota de má sorte, tive-a grande nestes três anos de refit do P., mas ao fim e ao cabo não posso queixar-me. A de boas escolhas é muito maior. Como os táxis de que falei na semana passada. Suponho que seja consequência do desenraizamento, desta necessidade que temos de perceber rapidamente com quem estamos a falar. O único problema é que quando nos enganamos enganamo-nos a sério, como aquelas pessoas muito pontuais que quando estão atrasadas o estão muito. Sou assim: nunca me atraso cinco ou dez minutos. Quando me atraso é às meias horas para cima.
       Daqui até ao desenraizamento – tema originalmente intencionado desta crónica – vai um passo gigantesco. É possível, claro, relacioná-lo com os fornecedores, com este hábito de se ficar amigo de quem nos serve bem porque para se chegar até ele houve, quantas vezes, de se bater às portas erradas. Um desenraizado vive nas bordas do tempo, passe o termo. Galopamos o cavalo do aqui e agora na terra do nunca. Ou do amanhã, pelo menos. «Let’s forget about tomorrow / because tomorrow never comes», diz a canção e é mais ou menos assim. Só que nunca esquecemos o amanhã: é a véspera do dia em que temos de nos ir embora. Um desenraizado está, por definição, de passagem. Em movimento. Mas se pára não cai: fica a apontar para o próximo destino. Um desenraizado nunca está onde está hoje, mas sim onde estará amanhã. Ao contrário do que parece, a nossa vida não se resolve com tempo, mas sim com geografia. Nómadas das estrelas, pensava no outro dia e afastei o pensamento: pareceu-me demasiado bimbo. Depois recuperei-o: durante anos a minha geografia foi literalmente definida pelas estrelas (e – raramente – alguns planetas: a Lua, Vénus e Marte). Com um sextante de permeio, claro.
       Um dia escreverei um hino ao desenraizamento, a esta capacidade de arrastarmos as raízes connosco como as senhoras de antanho arrastavam saias intermináveis, a esta qualidade que consiste em fazer crescer raízes onde quer que estejamos, qualquer que seja o terreno. Há sempre um fornecedor merecedor da nossa estima, um taxista honesto, um par de olhos com um cérebro por trás.
          Um Jaume, da Bodega Can Rigo, que me dá a provar vermutes, runs e vinhos com o genuíno desejo de partilhar as suas descobertas (e o legítimo de as vender); para além de um conhecimento enciclopédico de bebidas o Jaume vende algumas das melhores tapas de Palma: o polvo à galega, para retomar o tema; as almôndegas, que o meu amigo Carlos Miguel considera enfadonhas, crítica que compreendo mas não partilho. Acho-as misteriosas, quando são boas; a tortilla, (esta tendo um pouco menos de mistério, porque lhe aprendi o truque).
        Nós desenraizados somos o sal da terra – não é de resto por acaso que a expressão vem desse grande desenraizado que Jesus foi: realçamos o que é bom, adaptamo-nos a tudo, vimos em formas diversas e vê-se melhor a nossa falta do que se sente a nossa presença. Um lugar sem desenraizados é insonso, não é? É. Não tem gosto nem cor nem nada. Um lugar sem desenraizados não é um lugar, é uma prisão. Um deserto habitado. Um mar sem marinheiros, esses desenraizados por excelência. (Se calhar fomos nós que lhe demos o sal...)
        Um desenraizado é um desassossegado da geografia, um irrequieto do tempo: tanto está em casa aqui hoje como estará ali amanhã. O mundo de hoje é em grande parte o resultado desse desassossego. Esperemos que a modernidade e as suas ilusões não dêem cabo dele, para que os nossos filhos possam olhar para os Jaumes, os Joans, as Chinchillas, as Núrias e os Robertos com olhos diferentes dos dos turistas, perceber que um par de velas bem feitas veste uma embarcação de vela tão bem como uma míni-saia veste as senhoras, que alugar um automóvel ou levantar um braço na rua para mandar parar um táxi são – ou pelo menos podem ser – actos incomparavelmente nobres. E que o tempo não passa de uma sinuosa, íngreme e bela estrada de montanha que ora sobe ora desce, ora aponta para Leste ora para Norte, Sul ou Oeste, ora está bem pavimentada ora sofreu os efeitos de uma avalanche. Sabemos de onde partiu mas não aonde nos leva. «A pátria é uma tenda no deserto», diz um provérbio árabe. A minha casa é uma gota de água no oceano, acrescento eu. Ou de chuva. Ou da torneira. Ou do rio, do lago, da barragem, da nascente, da poça na rua, do charco, do pântano, da nascente subterrânea.

Luís Serpa, Palma, 20/06/2021

Um hino ao café Enco

Uma das grandes vantagens dos preconceitos é a alegria que nos proporcionam quando a realidade faz o favor de os desmentir. Hoje aconteceu num daqueles cafés que não só evito - "são para turistas - mas desprezo, pela mesma estúpida razão. Verdade seja dita: já cá vim duas ou três vezes beber um affogato all'amaretto, sempre com resultados positivos. Ou seja: o preconceito já estava meio abananado. Mas hoje é domingo à tarde, é diferente das outras vezes. O café está cheio, os empregados continuam encantadores, o café é Lavazza - muito melhor do que a merda do Nespresso que se bebe em todo o lado - está num sítio porreiro e - seja Deus louvado - o empregado não tem máscara. 

Vivam os preconceitos, viva a realidade e viva o Café Enco, "Gastronomía con amor". 

Religião, superstição

Desta palhaçada, vai poder confirmar -se de uma vez por todas que o homem é eminente, fundamentalmente um animal religioso. Se não tem religião à mão, substitui-a por superstição.

(Confesso que prefiro a religião, sobretudo a nossa, que me parece o melhor compromisso entre o mágico e o real. Além de que é a única que transforma água em vinho.)

Causalidade e outros calores

Ivo é o nome do senhor que me repara as bicicletas. Já nos conhecemos há algum tempo, já lhe levei muitas burras a reparar, já lhe vendi e comprei outras. É um búlgaro jovem, bem humorado, com uma filosofia de vida que pode ser levada em consideração, às vezes. Hoje vinha para casa, a noite estava linda e pacífica, Palma-a-sedutora olhava-me bem nos olhos, eu pedalava muito suavemente para Rambla e pensava numa frase do Ivo: "À medida que a temperatura aumenta, a qualidade de vida aumenta. O calor é uma garantia de bem-estar."

Pensei imediatamente numa pessoa que recusaria tal ideia com espanto.  Por mim, devo dizer que estou inteiramente de acordo: calor e qualidade de vida mantêm uma correlação positiva. E - quem sabe? - talvez até de causalidade. 

19.6.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-06-2021 / 2

A rua Sant Magi está cheia outra vez. A abarrotar de jovens sem máscaras, de mulheres cuja função na vida é provar que a evolução tem razão e a moda não (disto não estou seguro), de provas de que a biologia resiste a tudo. Enquanto a moda oscilar entre mostrar pernas ou mostrar mamas (ou como agora faz, abençoada seja, mostrar as duas e mais o que lhes fica entre - advérbio ou verbo -) a biologia vencerá. É que isto é um consolo para os olhos do homem primevo, básico, simples que eu sou. (A minha namorada sabe o que sou e apesar de ser uma senhora sofisticada, culta e  bonita aceita-me, facto que para mim fará para sempre parte dos Mistérios, com maiúscula.)

Penso no gesto asqueroso de um cozinheiro que até hoje respeitava. Perante um cenário semelhante em Lisboa, não só chamou a policia como insistiu. Continuarei sempre a respeitá-lo como cozinheiro - é, para mim, o melhor desta nova vaga de celebridades e "chefs" - mas como pessoa deixou de existir. A certa altura há que traçar fronteiras. A tolerância tem limites. Não são os mesmos da liberdade de expressão, mas existem.

A biologia e a estética estão esquecidas, diz Camille Paglia. A estas, acrescentaria a ética.  A qual, basicamente, consiste em respeitar o outro, em não acreditar que os meus valores são melhores do que os dele. São, claro. Se não fossem não seriam os meus, mas os dele têm o direito - e o dever - de existir. 

 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-06-2021

Deve ser efeito da moda, mas as miúdas estão cada vez mais despidas. De um ponto de vista estético, acho feio: há coisas que não são feitas para ser mostradas na rua a toda a gente. De outros pontos de vista, agradeço à moda. Em mim, a estética não é pervasiva. É uma presença, não uma Panzerdivision

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Vai chover não tarda - na verdade já chove, mas pouco - e o cheiro da chuva invade a cidade. A chuva arrasta o cheiro a perfume das miúdas desnudas (digo miúdas porque o são). Normalmente é demasiado intenso; é outra consequência da moda, suponho: encharcam-se em perfume. Ficam a léguas do «Channel nr. 5 and a smile» da outra, de quem de qualquer forma nunca ouviram falar. A modernidade é uma chatice: ninguém ouviu falar do que nos fez sonhar.

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As chuvas estão a chover. Assim, mesmo, no plural: as chuvas. A real e a metafórica. O meu P. cabreia, impaciente. Contratei mão-de-obra para o termos pronto a tempo do primeiro charter, dia 4 de Julho. É só meio dia, mas é o primeiro meio dia. Muitos se lhe seguirão. 

Muita gente não sabe o que charter significa. Não me refiro ao significado literal, directo, miseravelmente traduzido pelo português administrativo de «Actividades marítimo-turísticas». Charter tem um sentido transcendente, metafísico: é para isso, disso, que o barco vive. Os clientes de charter não o sabem, mas quando entram a bordo têm o estatuto de deuses. Isto é: são deuses. Justificam e dão sentido à nossa existência. Não é como num hotel ou numa pensão. É diferente. Um barco flutua não por causa do banho de Arquimedes, mas porque tem clientes de charter (que o linguarejar moderno transformou em guests, mas eu quero que o linguarejar moderno se afunde, com menos uma sílaba). A expressão «tenho um charter amanhã (ou para a semana, ou daqui a um mês) tem para um tripulante de charter - seja ele skipper ou o último dos deckies - o mesmo significado que para muitas religiões tem «Jesus vai descer à terra amanhã». É de resto por isso que as férias a bordo de uma embarcação são tão diferentes. São experiências religiosas, místicas. Não são férias. 

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Entretanto, Palma ressuscita. Faço parte dos optimistas. Daqui a dois anos ninguém se lembrará disto e daqui a quatro os pró-Covid terão vergonha. Vai uma aposta?

Vai.

Sonhos, meta-sonhos e outras aventuras

No outro dia sonhei que não sonhava. Isto é, dormia e não sonhava e acordava inquieto: «como é possível não sonhar?», perguntava-me no sonho. Depois acordei, Vi que afinal sonhara e fiquei mais descansado. Sonhar é importante, mesmo quando as consequências são estranhas (são sempre. Passemos). Recentemente acordei exausto porque no meu sonho passara a noite a fazer actividades físicas, coisas que nunca faço, como lutar, subir a montanhas, atravessar rios pendurado em cabos e por aí fora. Acordei cansado e transpirado. Felizmente estava sozinho. Pergunto-me o que teria acontecido se tivesse uma senhora ao lado. Ter-lhe-ia batido, nadado o corpo, atravessado o rio? Não sei. Nunca saberei, seja como for. Mais uma lembrança que vai para o museu das memórias vivas, ou outro qualquer à escolha do leitor. 

Devíamos ter um museu dos sonhos. Creio que há um livro do Tabucchi com esse nome, ou algo parecido. (O Google é uma chatice. Já não há desculpa para estes «talvez». Há que ir confirmar, procurar a exactidão como se fosse conciliável com a memória, como se ser exacto fosse sinónimo de ter boa memória. Não é. Vou.) Chama-se «Sonhos de sonhos». É um livro do qual guardo uma excelente memória. Aposto que teria de novo prazer em lê-lo, se não estivesse agora mais preocupado com os meus sonhos, que me deixam exaustos ou que são uma espécie de meta-sonhos. De qualquer forma, tudo o que faço é sobre tudo o que faço, de maneira isso nem questão é. Não vivo: meta-vivo. Não sonho: meta-sonho. Não amo: ... mentira. Sim, amo. Amo no primeiro grau, amo linearmente, fluido e calmo como um rio na planície, como um rio que desconhece a foz. 

18.6.21

Prólogo ao texto de domingo no Luso Magyar News; ou: contra a sedentarização

Isto só se percebe bem na sua inteireza se se ler o texto do próximo domingo no Luso Magyar News (se este persistir na sua hospitalidade e tolerância a meu respeito, claro). Hoje vinha para casa, depois de acrescentar umas linhas, justamente, a esse texto (um elogio ao desenraizamento, para quem estiver interessado) e passei à frente do Jaume - ou bodega Can Rigo, se se preferir nomes localizáveis. Pensei que um chupito de hierbas secas não me faria mal - a tal anedota do russo - desmontei da burra e entrei. Pedi o chupito e o Jaume diz-me "Luís, tenho ali um rum especial, uma das garrafas que me veio do Atlântico [um dos bares célebres de Palma que a "luta contra o vírus" deitou abaixo]. Não queres antes um rum? Já só tenho uma dose". Que sim, claro. E vai de me servir um Zapata 23 anos, duplo.

Quando lhe pergunto "quanto é?" diz-me que não é nada, que sou convidado dele.

17.6.21

Viva o degresso

Em Palma, a rua que sobe para o antigo hospital da cidade chama-se Costa de la Sang. Não é preciso traduzir. Em Genebra,  a rua da prostituição chamava-se rue Chauffe Cons, que traduzido dá Rua Aquece Conas. Essa rua mudou de nome e hoje chama-se rue Chausse-coqs, que não quer dizer nada. É uma simples transcrição de chauffe-cons, porque os f e os s tinham a mesma forma e Calça conas não ia muito longe.

Há qualquer coisa que se tem vindo a perder com o tempo é esse qualquer coisa é a relação com a realidade. 

A crise actual não passa de mais um degrau nessa desescalada. Sim, as pessoas morrem e quanto mais velhas mais morrem. Sim, as pessoas morrem e quanto mais doenças têm mais morrem. Sim, as pessoas morrem, tout court. Querer esconder esse facto simples e iniludível é infantil.

Essa é, infelizmente, a direcção geral da modernidade: a infantilização e a desresponsabilização. Daí a incapacidade de lidar com o real, a transformação de cães e gatos em crianças, a política da identidade (é mais fácil ser gay, negro, lésbica, mulher do que ser simplesmente uma pessoa que se assume a si ou às suas opções de vida). Daí a necessidade de monstros debaixo da cama - a Covid, o "aquecimento global", o petróleo,  meu Deus, o petróleo, o capitalismo, o neoliberalismo. 

Avançamos e infantilizamo-nos. Viva o degresso .

Delirios, espelhos

Vivemos num espelho. Onde eu vejo delírio e irracionalidade, o meu amigo pró-Covid vê irracionalidade e delírio. Mas não são os mesmos; isto é, são os mesmos mas invertidos como num espelho. O meu delírio para ele é razão,  a irracionalidade dele é a minha razão. 

Tudo isto seria anedótico se não tivesse as consequências que tem. Às quais o meu amigo e quem pensa como ele é cego. Porque não lhe sofrem as consequências? Não. Neste caso, posso asseverar a sensibilidade da pessoa. 

Isto é: as pessoas que vivem nos arredores e trabalham em Lisboa podem vir trabalhar. Mas não podem vir ao fim-de-semana. Que isto seja visto como racional por uma pessoa inteligente magoa-me. Dói-me. Não por ser meu amigo, mas por ser inteligente. 

A inteligência vestida de retórica faz pensar numa mulher bonita mal vestida: é um desperdício. Antes ser burro e mal vestido.

Kabir, oceano e palavras

"Todos vêem uma gota

de água no oceano

mas poucos o oceano

numa gota de água"


"Entre palavras e palavras

bate a palavra

até encontrares

aquela palavra"

Kabir, in "O nome daquele que não tem nome", ed. Assírio e Alvim, Lisboa 2016. Versões de Jorge Sousa Braga.


15.6.21

Ilusões, sussurros

Acordo com um sussurro de ti ao meu ouvido: "Amo-te", dizes baixinho. Eu acordo, sei que não tenho ninguém ao lado e sei que te ouvi claramente dizer-me "Amo-te". Adormeço reconfortado. Há ilusões mais verdadeiras do que a verdade.

14.6.21

Paráfrase

 Somos todos uns farsantes. Sobrevivemos à Covid.