8.10.21

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 08-10-2021

S. e H. foram a França, usufruir de um prémio qualquer que uma delas ganhou; T. tem a sua vida de sexta-feira e eu estou sozinho em casa, a ouvir na rádio um concerto de Angélique Ionatos (Delémont, 2012, para quem possa interessar) e a beber um tinto bastante bom, Grenache e Syrah das Côte du Rhône, seis euros a botelha na Coop (idem). Saí para ir fazer fotografias ao Jet d'eau. Ficaram péssimas: esta porra destas máquinas digitais são difíceis de amestrar. Gosto do imediatismo do digital mas detesto a complicação. Ainda vou acabar a comprar uma máquina analógica. O que sonho com a F2...

(Além de que preciso de um tripé, mas isso é outra história.)

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Há em Genebra uma série de fornecedores de falsos certificados de vacinação. Quatro acabam de ser apanhados. Não quero entrar nesse jogo porque é aceitá-lo, de certa forma. Sou contra esta palhaçada. Falsificar um certificado é ceder-lhe. Continuarei a beber os meus copos de vinho nas esplanadas e a não ir ao teatro ou ao cinema. Esta palermice já foi longe de mais. A solução não é falsificar certificados, é recusá-los.

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Não tarda estarei em Lisboa de novo. A minha geografia é uma geografia de solidões.

Tempestades, amores

É no mau tempo que se vêm os bons marinheiros, sem dúvida. E se julgam os amores: os que não resistem a uma tempestade não resistiriam à paz podre do bom tempo.

Roupa velha

Soller, 27-10-2021

Os grupos sucedem-se e não se parecem, os charters sucedem-se e são totalmente diferentes. Um dos passageiros partiu uma perna. Passei três horas no hospital de Palma (Soller não tem, o que se compreende porque por estrada está a trinta quilómetros de Palma) e do meu bem amado porto vi raspas. Raspas boas, é preciso dizê-lo: jantar no La Sal, rum no bar da marina. É penoso ver Soller vazio às onze da noite, mas forçoso é reconhecer que é melhor assim, depois da época. Ou antes, em Junho, mas o grupo aponta-me imediatamente um senão: a água está mais fria. Como raramente nado - e quando o faço é pouco, a maioria das vezes para ir ver as obras vivas dos botes - aceito o reparo mas acho-o pouco importante. 

(Isto é mentira - na Grécia começava o meu dia com um mergulho. Não há regra sem excepção, muito menos para quem, como eu, recusa liminarmente o fundamentalismo.)

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A época chega ao fim. Não me posso queixar. Ou posso, mas de mim mas essa é inútil, de tão antiga.

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Soller faz-me lembrar uma mini-Funchal mas mais charmosa, mais doce e nostálgica. 

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 08-10-2021

Sempre admirei os escritores que escrevem para debelar a tristeza. A mim, esse monstro, essa cadela preta, essa cabra ata-me os braços e cobre-me a mente com um manto de betão armado, intransponível como se aquilo fosse uma central nuclear em vias de explosão. Consolo-me pensando naqueles aparelhos que monitorizam a saúde dos pacientes no hospital e vemos nos filmes: enquanto a linha está aos altos e baixos há vida, quando fica uma linha recta é porque chegou a morte. Talvez pudesse, pergunto eu, era haver uma linha com altos e baixos, sim, mas menos baixos (e quiçá menos altos, mas desta parte não tenho a certeza), não? E com uma frequência mais espaçada? Talvez pudesse, mas agora é tarde. A minha vida vai continuar o que tem sido até aqui: um carrocel de emoções, uma montanha russa, um temporal no qual às vezes ponho de capa e outras corro com o tempo. 

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A bise desistiu. As previsões diziam que ficaria três dias, mas abandonou. Em consequência, o tempo voltou à cinzentez habitual. Ficou a temperatura: onze graus. Vou dar um passeio, ver como o cinzento invade tudo, como, de vez em quando, o amarelo / encarnado de uma árvore o vence, como estas ruas, cinzentas ou não, continuam para mim um dos pés do tripé. Daqui a uns tempos terei de cá voltar, receber o neto. Em Lisboa deixo um livro (dois em breve), aqui uma vida. Árvores, no mar, só conheço a árvore seca com que, por vezes, resistimos a um temporal. Foram raras as vezes que tive de tirar o pano todo de um mastro, mas já me aconteceu. Às vezes precisamos de nos despir para sobreviver, de nos quedarmos imóveis, enrolados como um caracol na sua casca.

Talvez. Eu vou desenrolar-me, pegar na máquina fotográfica e olhar para o que vejo. E para o que não se vê - é para isso também que serve a fotografia, não é? É.

6.10.21

Escrito em 1938, validado de novo em 2020

"Logo que o espírito aceita o carácter substancial de um fenómeno particular, deixa de haver qualquer escrúpulo em defender-se contra as metáforas."

"Um dos mais claros sintomas da sedução substancialista é a acumulação de adjectivos sobre um mesmo substantivo (...)"

(Gaston Bachelard, La formation de l'esprit scientifique, éd. Vrin, pág. 134, tradução minha.)

Vírus, veneno

S. e B. (a sua melhor amiga) falam na cozinha. Refugio-me na sala. Inevitavelmente, a conversa descambou no tema proibido. Sempre foi assim: B. vem aqui jantar cada primeira quarta-feira do mês. Quando aqui estou, deixo-as sós para falarem dos seus assuntos e venho para a sala.

Hoje não venho sozinho. Trouxe a maldita doença comigo. É muito mais do que um vírus, esta merda. É um veneno.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 06-10-2021

Hallelujah! Graças ao «pass digital» acabo de poupar vinte e cinco francos suíços (mais coisa menos coisa vinte e cinco euros): para ir ao teatro necessito dessa coisa. Pergunto-me se os comboios de putas cujos filhos andam por essas ruas a exigir tais coisas (ou a exigir que as exijam) também pedem passes, sejam eles digitais sejam de outra natureza. Voltei para casa amuado e frustrado, combinação de emoções que só serve para me alimentar a teimosia - um dos traços do meu carácter que dispensa alimentação - e decidido, mais do que nunca: ponham a cultura no cu. Não me vacinarei por uma peça de teatro, nem por um prato de lentilhas, nem por uma refeição no interior do restaurante. Não farei parte desta palhaçada até ter uma pistola apomtada à têmpora. Vão para a puta que os pariu, se conseguirem apanhar o comboio e nele encontrar as vossas mães.

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Não fossem estes episódicos episódios, diria que esta estadia em Genebra está a ser um sonho. Fiquei a saber que vou finalmente entrar no selecto clube dos avôs, passeio-me por estas ruas limpas, calmas, sem buzinadelas excessivas, com montras bonitas e mulheres idem, compro livros como se tivesse mais três vidas para ler tudo o que tenho para ler, bebo vinho bom a preços excessivos e vinho assim assim a preços razoáveis, falo, zango-me e rio-me com S., confirmamos ambos que nunca poderíamos voltar a viver juntos mas que estar juntos é um prazer sem fim, pergunto-me que nacionalidade escolheria se hoje tivesse de escolher entre a portuguesa e a suíça (a resposta é: nenhuma. Só não sou apátrida porque não sei como se faz para o ser e para viajar com esse estatuto e de qualquer forma o assunto não me interessa o suficiente para perder tempo com ele).

Durmo em Genebra como não consigo dormir em mais lado nenhum, apesar de dormir num sofá chato de fazer e desfazer. Isto deve ter um significado, mas não sei qual é. Sei que ontem descobri finalmente o tripé do meu futuro: Lisboa, Genebra e mar. Parece-me bastante sólido: amor numa, amizade e família noutra, eu no terceiro. A ver, como dizia o ceguinho (à mulher que era surda).

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Comprei a revista Egoïste. Não sei se tem alguma coisa a ver com a portuguesa. No formato não tem, isso é seguro. Na qualidade da fotografia não sei. Há muitos anos que não via fotografia deste nível. Vou ver os artigos, mas duvido muito que me interessem: um deles é sobre a palerma da miúda sueca. Não percebo. Todas as proporções guardadas, é o equivalente daqueles restaurantes que capricham na carne e servem batatas fritas congeladas.   

5.10.21

Epistemologia, rebanho e outras observações

Já dei uma volta ao mundo, navegando sempre para Oeste (e às vezes para Norte ou para Sul, mas comparativamente pouco). Também já tive Covid. Na altura - Fevereiro de 2020 - ainda se chamava gripe, mas dados os sintomas penso que posso crismá-la a posteriori com o nome da doença da moda. Ter dado a volta ao mundo e ter estado uma semana de cama com uma gripe devastadora não me fez ter a certeza de que a Terra é redonda - já a tinha antes -; igualmente, ter sobrevivido à Covid não me fez saber que é uma doença cuja perigosidade varia não só com a faixa etária, mas também com outros factores de risco - a obesidade, a depressão / bipolaridade, a diabetes, o estado cardio-vascular, etc. Isso soube-o depois, tal como só depois soube que o que tive foi Covid e não «gripe» (uso aspas em gripe porque penso que a Covid é uma forma dessa doença, tal como o paludismo cerebral é uma das formas do paludismo). Podemos aprender de várias formas. A experiência directa não é de longe o único caminho para o conhecimento - e nem sequer é suficiente, muitas vezes.

As pessoas que pensam que usar uma máscara, paralisar a economia de um país, õbedecer a regras absurdas, criar situações horríveis de solidão e sofrimento para os mais velhos e os mais novos, acabar com as liberdades mais elementares são medidas adequadas, eficazes e proporcionais ao perigo da Covid poderiam muito bem acreditar que a Terra é um cubo, se fossem suficientemente matraqueadas pelos media, pelos governos e depois pelos fabricantes de globos e cartas. Deitariam fora, como deitaram, séculos de conhecimento (no caso da virologia o plural é admitidamente exagerado: foi só um e meio), rendidas à histeria. 

Resisto à tentação de trocar o r de rendidas por um v: as pessoas não se venderam. Ofereceram-se. Deram-se de corpo e alma ao medo e à respectiva irracionalidade. O medo não é pessoal e intransmissível. É colectivo e transmissível. Um homem sozinho com medo não passa disso mesmo: um homem sozinho com medo. Junte-se-lhe uma multidão e ele tem um andaime por baixo, está protegido, não é o único. Tem razões para ter medo: a prova é o facto de não estar sozinho. Daqui vem o carácter proselitista do medo: precisa de números, de quantidade, de «toda a gente sabe». 

Os diferentes métodos que a epistemologia reconhece como válidos para a aquisição de conhecimento foram postos de lado: a infusão substitui-os a todos. Acreditar que a Terra é um cubo é validado não por observação, dedução ou teoria, mas pelo simples número de pessoas que acreditam que a Terra é um cubo.

Sou optimista e sei que isto não vai durar sempre, que não vai ser o «novo normal».  Mas sou pessimista e temo que a nossa civilização leve muito tempo a recuperar o ponto onde estava. A censura aos cientistas que não alinham na narrativa colectiva é mais do que inquietante. É aterradora.

4.10.21

Entre dois nadas

Tiraste-me as palavras todas da boca excepto uma, mulher, a do tracinho. Agora ando por aqui às aranhas, longe daquele te que se lhe segue como amor e vida se seguem, ou ontem e hoje. Uma vida sem palavras, sem te, sem nada senão o maldito hífen pendurado entre dois nadas.

Desperdício - 2

Há várias maneiras de desperdiçar um silêncio. Falar sem dizer nada é apenas uma delas; não ter nada para se dizer é outra.

3.10.21

Readaptação - Desperdício

Desperdiçar é sempre criticável, mas desperdiçar um silêncio é imperdoável. 

30.9.21

Diário de Bordos - Cabrera, Baleares, Espanha, 30-09-2021

O dia começou em Colonia de San Jordi e vai acabar em Cabrera. Tive bastante sorte com os passageiros esta época e é portanto natural que me espante com a que tive com este grupo: praticamente impossível pedir melhor, uma vez aceites as limitações habituais (têm trinta anos, conhecem-se desde a faculdade, as pessoas que gostam de música não alugam barcos) e uma específica: vieram sem as mulheres. Estas são as duas razões - suponho - que me fizeram esperar com impaciência o meu aniversário. Têm uma capacidade de beber que me faz lembrar a minha quando tinha a idade deles: todos as noites são de farra até às tantas. A desta noite foi especial e juntei-me a eles. Um tipo decente não pode passar meses a beber água (quase só) e não ceder perante tão razoável pretexto como é celebrar a entrada nos sessenta e quatro anos. A festa foi de arromba, apesar de a provecta idade me ter feito ir para a cama antes dela acabar. Só me apetece dar graças, cantar laudas e esperar muitos mais assim. Reforma? No cemitério terei muito tempo para ela.

«Nous avons toute la vie pour nos amuser
Nous avons toute la mort pour nous reposer», 

cantava o Moustaki, se bem me lembro. Podre de razão, tanto mais que «diversão» e trabalho se sobrepõem como um fato feito à medida no corpo ginasiado de um yuppie.

Esta época deu pano para mangas em novidades e felicidades: desde a maior gorjeta (relativa) de sempre ter vindo de portugueses (realidade um - preconceitos zero, o que põe cada um deles no seu devido lugar. Digo isto tendo em mente que os preconceitos são úteis, necessários, imprescindíveis mesmo. Quanto mais não seja, para serem derrotados pela realidade) e continuando com os grupos que tive, as razões de queixa são poucas. Isto se quisesse queixar-me, claro, coisa que dispenso de alma e coração. Viva la vida, coño y dejate de quejas que no ganas nada con ellas, diria se fosse espanhol. Como não sou mas falo a língua, digo-o na mesma: que se lixem as queixas. Apresenta-as ao teu sindicato, ele está aí para te defender das agruras da existência.

(Cont.)

25.9.21

Tudo o que vejo, tu

Vejo fotografias lindas deste mundo e pergunto-me como seriam contigo nelas, nele.

Concluo que pouco mudariam: estás em tudo o que vejo.

Quantidade, qualidade et alia

Há quem treine em ginásios, em tapetes rolantes, bicicletas fixas, halteres. Eu treino no passado e no futuro. Corro com um e faço o outro, milímetro a milímetro. Ambos me são gentis, como se tivesse sido eu a fazer um e a esperar o outro, braços abertos e mente fechada. É mais ou menos isso: fiz o meu passado tanto quanto modelo o que aí vem.

Só não é inteiramente isso porque o passado também me fez, tal como o futuro: sou o que fiz e o que serei.

Em partes iguais? Não sei, mas espero que sim. Não é a quantidade, meu caro. É a qualidade que conta.

Presente, passado, futuro?

Ainda agora estávamos deitados, não é? Um ao lado do outro, ou dentro (se preferires) e eis-nos aqui agora de repente deitados a milhas um do outro, ligados apenas pela memória e pelo desejo. Separa-nos o presente, miserável presente. 

Enfim, verdade seja dita: prefiro estar separado de ti pelo presente a estar longe no futuro, ou a não ter sequer estado perto no passado.

24.9.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-09-2021

Lá vamos nós de novo a escorregar por este rinque de patinagem no gelo, sem patins e sem objectivo. Sem nada em frente, digamo-lo já, de seguida. E com tudo atrás: anos de patinagem no gelo, figuras lindas, confusas, mistas como as tostas nos cafés: queijo e fiambre, mas nem um nem outro têm sempre a mesma qualidade. As combinações são várias: bom queijo, bom fiambre, bom pão. Assim de repente creio que há nove delas mas não as vou enumerar todas: falta-me paciência e sabedoria para tanto.

Não sei nada (saber que nada sei é mais do que o que sei). Ou melhor: sei pouco e o pouco que sei é imediato: estou cheio de dores, por exemplo. Estou meio grosso. Estou em Palma. Oiço Lou Reed (Magic and Loss). Quero que as dores se fodam, que vão para longe. Gostaria de ter uma capacidade ilimitada de absorção de vinho tinto, coisa que não tenho, apesar dos anos de treino, note-se. Gostaria de muitas coisas: que o meu P. estivesse pronto, por exemplo. Que todas as cidades do mundo me fossem como Palma. Que o meu amor estivesse aqui (está. O que está longe é o objecto desse amor).

Gosto demasiado de Palma para dizer bem ou mal de Palma: como dizer bem ou mal de mim?

Amanhã largo para Ibiza e Formentera. Forçoso é dizer que podia ser pior: não gostar de uma ou outra é um luxo ao qual me entrego com voluptuosidade, consciente de que é um luxo quase a roçar no pedante. Quase. Entre mim e a pedantice a fronteira é fluida.

Que se lixe a pedantice.

Nada sabemos do que fizemos, quanto mais do que vamos fazer.

Comoção, reclamações

Não consigo, por mais que tente, deixar de me comover quando leio automobilistas reclamar contra as ciclovias. As quais existem, nunca é demais relembrá-lo, devido a esses mesmos automobilistas. Reclamam contra uma coisa que pediram, o que não deixa de me trazer à memória aquele velho provérbio não sei de onde segundo o qual "Deus te proteja de teres aquilo que pedes". Ou coisa que o valha. 

Por mim, trocava todas as ciclovias do mundo pelo fim de buzinadelas, razias, insultos, gritos etc. e poder usufruir das ruas, como os reclamantes.

Bar Rita

Não consigo vir ao bar Rita - uma das minhas casas em Palma - sem pensar numa senhora de nome muito parecido por quem um dia me apaixonei. Foi há muito tempo, há mais vidas do que as que os meus poucos dedos podem contar. Foi um daqueles amores possíveis, impossíveis e belos que nos acontecem poucas vezes em cada vida. Ou no conjunto das várias vidas que cada um de nós vive. Acabou bem: o que começa mal acaba pior, o que começa bem acaba melhor. Ainda penso nela frequentemente, apesar de ter acabado há muito tempo: os amores antigos são como a comida da avó: não voltam e nunca nos deixarão. 

Tal como a comida da avó nos constrói as bases do gosto, os velhos amores constroem as bases dos presentes: nada como uma boa plataforma de velhas dores para edificar - ou evitar - as novas.

O amor durou pouco, mas foi infinito enquanto durou. A prova é que o bar Rita mo traz à memória, como se na cicatriz bem fechada a memória - esse sádico cirurgião - se entretivesse com um bisturi.

23.9.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-09-2021

Fui buscar um copo de vinho para tomar os comprimidos da noite. Os da manhã tomo com leite. Evito beber água, faz-me pedras nos rins e pedregulhos na cabeça. 

Enfim, o tema do parágrafo anterior não são os líquidos mas os comprimidos que agora tenho de tomar quotidianamente. Vejo isto como uma ingratidão do meu corpo, a quem sempre alimentei muito e bem. Doses enormes de álcool, hidratos de carbono e gorduras animais (os três pilares da minha dieta), poucos legumes e vegetais (tenho sérias dúvidas quanto à clorofila, não acredito numa coisa que torna as plantas verdes como os marcianos ou os enjoados), pouca água (sempre associei sede à cerveja). Além da alimentação: deixei muito cedo de fumar cigarros, um pouco mais tarde de fumar outras substâncias, sempre fiz pouquíssimo exercício - o menos possível, diga-se; enfim, sempre tratei bem a carcaça e que ela agora me retribua com comprimidos de manhã, à tarde e à noite acho repugnante. Tentei, verdade seja dita, dissuadir os médicos que me receitaram tais horrores mas não consegui. Foram taxativos: ou isso ou uma punição que não consigo sequer nomear, de tão infame. Resignei-me às coisas e aconchego-as o melhor que posso.

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Acabei a noite no 7 Machos a beber tequila picante. Três euros e cinquenta o cálice, convenientemente acompanhado de sumo de tomate, sal e limão. A tequila é para lá de boa e reconcilia-me com tudo o que me perseguiu esta noite. A saber, a não-pertença. Isto é, a pertença a um sítio ao qual não pertenço. De todas as cidades às quais não-pertenço, Palma é aquela a que mais me entrego, porque é quase como se fosse minha. Não é, mas é como se fosse. Este debate chateia-me porque foi o tema da minha crise dos quarenta anos, só que nessa altura falava de países e não de cidades - Moçambique, Portugal e Suíça. Hoje falo de cidades: Palma, Genebra e Lisboa, se bem a primeira pudesse ser - e se calhar será - substuída por muitas outras. Espero que não, sei que sim, espero que sim, sei que não: ele há turbilhões que nem o mais poderoso dos tremores de terra fará desaparecer. Vá lá, pelo menos vão reduzindo o alcance: hoje falo de cidades onde antes falava de países. Não tarda falo de bairros, que é o que na verdade menciono quando falo de Palma, Lisboa ou Genebra: bairros, no sentido de arrondissements em Paris (XIII, XIV e XV, se por acaso).

¡Qué vaya!: vivi até hoje como viverei a partir de hoje, com a possível excepção dos livros, que quero perto de mim. Que nunca mais me deixem. Eu retribuirei, prometo. O que não daria para ter agora um livro do Cavafys na mão, em vez de ter de me chatear com o Google. E daí saltar para o Quarteto de Alexandria percorrendo lombadas de livros... Puta que pariu o que vivi até hoje: tenho a morte inteira para morrer. Até lá, continuarei a viver. A prova é que estou enamorado, coisa que aos sessenta e quatro anos não sabia possível.

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Tudo é possível. Basta quereres, poderes e teres tempo. De uma simplicidade arrebatadora, eu sei. Mas gosto da simplicidade, cosa fare?

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Sempre gostei de focais longas em fotografia e agora apercebo-me de que as grande-angulares são importantes também. Muito mais do que sempre pensei, o que só demonstra que «sempre» tem uma duração limitada, como os iogurtes, o leite e o pão.

22.9.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-09-2021

Não tenho nem nunca tive uma mulher em cada porto, mas tenho uma bicicleta. Enfim, em cada um dos que frequento mais. A saber, Lisboa e Palma. Na verdade em Lisboa tenho duas: uma de estrada e outra de cidade. Aquela, vou vendê-la. Pouco a uso. Já a Coluer, só a troco por melhor e à vista não está nada melhor (mentira: uma Alps Vintage está no horizont. Porém, como este vai-se afastando à medida que avanço, é como o Teide que se vê três dias antes de se chegar à ilha).

Em Palma tenho uma Órbita branca, bonita e confortável, embora não tanto como a Coluer. Não percebo o suficiente de bicicletas para saber de onde vem esta diferença - isto é, sei que vêm do quadro, mas não sei o que as origina. Interesso-me pouco pelo tema. Não quero saber nada sobre a mecânica das bicicletas, por exemplo. Se uma mudança não entra bem, levo-a ao Ivo (em Palma) ou ao Fernando (em Lisboa). Ajo com as burras como os armadores comigo em relação aos botes: quero que isso ande e é tudo.

Hoje fui jantar ao Alfredo, um galego que tem bons vinhos, boas tapas e bons preços. Também tem uma mulher bonita, mas isso indifere-me. Só penso que o homem tem um bom gosto abrangente (ou circular, se preferirem).

Fui finalmente buscar a máquina fotográfica e o The invention of yesterday, uma sugestão do V. P. que a julgar pelas primeiras páginas parece bastante interessante. Verdade seja dita que do V. não seria de esperar outra coisa: com a excepção das opiniões políticas, tudo o que dali vem é ou bom ou excelente. Sendo estas, regra geral, a faceta menos importante das pessoas, pouco interesse lhes dou. Com a possível excepção de um bom debate intelectual, sem pretensões de convencer ninguém, o que as pessoas pensam sobre um partido qualquer é-me tão indiferente como o que pensam sobre o pão-de-ló de Arraiolos.

Mesmo que esse partido seja de esquerda.