21.5.12

Não vale a pena mudar nada

Anos e anos de sindicalismo dão nisto. E depois não querem que as coisas mudem. Acham que estão bem assim. 

"Dois terços dos trabalhadores em Portugal ganham menos de 900€" (Verdade seja dita que a maioria dos portugueses prefere 900 garantidos a 2000 incertos, e provavelmente é por isso que os ganham).

20.5.12

Perguntas, respostas e dúvidas


"Que fazer num domingo pluvioso?" pergunta algures no ciber-espaço uma jovem senhora. É uma pergunta legítima (todas o são, menos as que incidem sobre a idade das jovens senhoras e dois ou três pormenores inconvenientes de todos nós) e cuja resposta tem vindo a ser dada há milénios, suponho (desde que há domingos, pelo menos; ou sábados, ou sextas-feiras).

Suponho também que a resposta de um velho gordo e careca será substancialmente diferente da que uma jovem e bonita senhora procura.

Ou seja, este post não é uma resposta àquela pergunta em particular, mas à abstracção daquela pergunta.

Deverei começar por dizer que aqui em St. Martin o dia está bonito, ventoso, ligeiramente nebulado como convém à época? Talvez, não sei. Na verdade detesto praia, e apesar de ter à portée de pied meia dúzia (pelo menos) de praias lindas a ideia de ir a uma delas só me passaria pela cabeça mil anos depois de gastas todas as outras opções.

E quais são, essas opções?

a) Ir para a cama com a pessoa amada, caso esta esteja à portée de main;
b) Ir para a cama com uma pessoa de quem se gosta, caso haja alguma nas imediações disposta a isso;
c) Ir para a cama com uma pessoa que se suporta, idem;
d) Ir para a cama com uma pessoa que se detesta, ibidem;
e) Ir para a cama sozinho;
f) Beber uma bela golada de rum da garrafa que se guarda no quarto para situações de emergência e optar por uma qualquer das alternativas anteriores;
g) Aproveitar a chuva e o rum para tomar decisões sobre o futuro próximo: Maldivas, Panamá ou Inglaterra;

Notas:

  • As alíneas d) e e) são intercambiáveis. Isto é, dependem muito da idade da pessoa que deve fazer a escolha. Normalmente, quanto mais novo mais d) e quanto mais velho mais e);
  • Não sei porque é que a chuva ajuda a tomar decisões, mas é uma coisa que se vê em todos os filmes e livros sérios que abordaram a questão. O rum ajuda, sem sombra de dúvida;
  • A alínea f) devia ser anterior a todas as outras, mas se fosse não conseguiria dar-lhe a forma que, ao fim de muito pensar, encontrei e me parece adequada.

Claro que cada uma destas alternativas tem várias objecções de várias ordems: moral, prática, exequibilidade, interesse, etc.

As alternativas c) e d), por exemplo serão decerto o objecto da ira de muita gente; de mais gente ainda, a b); e) será aprovada por uma multidão e desaprovada por outra, quando na realidade será a única, de qualquer foma.

Tudo isto enquanto se deve pensar no futuro próximo: Inglaterra, Maldivas ou Panamá?

A única maneira de resolver é uma boa golada de rum, seguida de outra boa golada de rum, e assim por diante até se acabar o rum. Nessa altura a solução deixará de nos aparecer como uma solução, e apresentar-se-á como uma evidência, que é um dos destinos das soluções.  

Porque hoje é domingo

Alberto Gonçalves.

Redifusão

F. - Breve e fragmentada biografia

Ainda hoje se está para saber se F. tinha aquilo a que, muitos anos mais tarde, se viria a chamar "uma visão integrada do mundo": um conjunto coerente de ideias sobre a luz, o mar, o amor ou, por exemplo, um arco-íris que por vezes via de manhã, redondo e perfeito como a vida de alguns santos, e suspeito (de falsas promessas) como as de algumas putas. Que pensava ele das montanhas verdes e crespas como o cabelo de um negro que lhe enquadravam os dias? Veria uma relação entre elas e o enorme vazio do céu, que hoje está, por exemplo, de um cinzento incolor e sem sombra de sombra como alguns futuros, e muitos passados? Que pensava F. da empregada de bar pequena e empertigada, magra e malcriada a quem um dia oferecera uma cerveja para que "engordasse um bocadinho e se tornasse enfim fodível" (esta história, provavelmente apócrifa ainda hoje percorre os bares da América Central)?

F. tinha opiniões formadas e firmes sobre algumas coisas: as senhoras passam à frente nas portas e atràs nas escadas, por exemplo; um cabo empandeira-se de uma determinada forma e não de outra; vento forte é melhor do que ausência total de vento; mais vale amar do que ser amado ("é mais fácil, ao contrário do que parece, e menos sujeito a erros", explicava).

Apesar disso a dúvida permanece: teria F. uma visão integrada da vida?

Pessoalmente duvido. E se tinha tentava (e conseguia) de tal forma dilui-la numa mistura aleatória de vinho, cerveja, rum, whisky e sexo (em doses extremamente desiguais) que era como se não tivesse.

Quando uma mulher o atraía F. criava, isso está mais do que estabelecido, a ilusão de ter essa tal coisa da visão "integrada". Numa mulher com nome de flor, por exemplo, via um tratado de botânica, um compêndio de metafisica e um manual de química pura; numa outra com nome de rainha via um futuro claro como cristal e um presente negro como um poço num dia de chuva. ("Quando cessará o presente e começara enfim o futuro?", perguntou-se um dia. Para F. presente era o que via do seu cubículo estreito com um pequeno guichet, frente ao qual desfilava o tempo e aquilo a que um jovem jornalista chamou, um dia, "vida". F. vivia na bilheteira de um teatro, e nenhum jovem jornalista resiste a um bom cliché).

As diferentes vidas de F. - nao me refiro às diferentes componentes da sua vida, refiro-me às suas diferentes vidas (por exemplo: social, afectiva, profissional) - eram, ou pareciam, caóticas, complexas, fragmentadas. Terá ele conseguido integrá-las, ele que tanto desejava dar-lhes uma unidade coerente, sólida, direita como o mastro de uma embarcação de vela ou o membro erecto de um homem?

Ainda hoje não se sabe. F. nutria pelas mulheres um amor constante e uma atracção irregular; vivia por vezes na paisagem e doutras não se apercebia sequer da existência de um mundo exterior; um dos seus magnéticos sorrisos tanto podia ser dirigido à pessoa com quem falava como a uma longínqua memória que lhe tivesse aflorado a mente.

F. morreu ontem. Não deixou nada escrito; e como nos últimos meses se recusou a dirigir a palavra a quem quer que fosse - uma pedra no caminho arrancava-lhe mais palavras do que a presença dedicada da sua irmã, que vagamente entrevia (e claramente ouvia) à cabeceira da cama; dos seus colegas e inúmeros amigos - tão pouco se lhe recorda uma afirmação, uma opinião, uma pergunta, uma dúvida.

Sabe-se que F. integrava em duas categorias distintas as mulheres magras com grandes seios e as gordas com eles pequenos, como se não fossem da mesma espécie (o que apesar de tudo lhes conferia uma certa unidade, um eixo comum horizontal - as mamas - e outro vertical: o desejo, de passagem se diga). Conheciam-se ainda de F. as opiniões sobre o vento ideal - superior a quinze nós e inferior a trinta e cinco; o mar - deve ser mais quente e mais azul do que o ar; as nuvens - "cumulus bom, tudo o resto mau", sintetizava. Sabemos igualmente que preferia as mulheres de olhos abertos às que os usam fechados, mas ainda não sabemos a que chamava "olhos abertos".

Nutria bastantes dúvidas sobre a capacidade desalterante da água; gostava de ler (mas passava por vezes meses seguidos sem tocar num livro, para logo de seguida ler quatro por semana).

Como unificar tudo isto?

As dezenas de biográfos de F. (um grupo heterogéneo que incluía as mulheres, os primos, os irmãos, alguns amigos e quase todos os inimigos) tinham opiniões divergentes.

F. escrevia e por vezes falava na rádio ou na televisão, mas tentava economizar o que dizia. "Só há duas coisas que merecem e devem ser poupadas, porque são os únicos luxos: a água doce e as palavras". Percebia claramente a relação entre o sexo e o aparecimento posterior de crianças ou chatices. Ou entre o vento e o movimento de alguns corpos; entre o som e o movimento de outros; mas teria por exemplo percebido a relação entre o vento, o som e o amor? Nada é menos seguro: era pouco dado a pensamentos complexos, não se sabe se por gosto se por incapacidade.

E que pensava ele da relação, hoje estabelecida como inevitável, entre o desejo, o acto sexual e o amor? Não sabemos. Tão pouco sabemos se reconhecia o fastio como um dos possíveis motores do desejo.

F. morreu jovem, pouco mais de cinquenta anos. Mas teria tido tempo de deixar obra: uma biografia, um panegírico, uma explicação, uma visão, uma (ou várias) listas.

Não deixou.

19.5.12

A minha vida sexual (algumas notas para uso posterior, salvo seja)

A vida sexual de um talhante tem muito pouco interesse. Não sei, portanto, porque há tantas pessoas (de ambos os sexos) a pedir-me que a conte. Como já devo ter dito sou proprietário de um talho numa cidade média do interior do país. Sou extremamente rigoroso - até comprei uma balança Mettler-Toledo, apesar do seu preço -; e casado com uma senhora chamada Teresa que, antes de eu a proibir de trabalhar fora de casa era psicóloga e agora escreve coisas num sítio chamado Facebook e noutro chamado Blog (não leio nenhum deles, nem nenhum outro, de resto; a informática não me interessa. Gosto de coisas com cheiro e sangue).

Mas a verdade é que as pessoas pedem-me e, como é meu hábito, eu digo que sim.  Foi desta forma que juntei um apreciável tesouro de guerra - dizendo "sim, minha senhora" (e às vezes "sim senhor", há cada vez mais homens a viver sozinhos e a fazer compras). Por isso aqui deixo uma breve descrição da minha vida sexual, salvaguardando, claro, todos os dados comprometedores (e excluindo liminarmente a minha vida conjugal, porque todos conhecem a Teresa).

Ora bem: é preciso começar por dizer que a minha vida sexual tem pouco interesse. Sou um homem rigoroso, e o rigor, dizem-me por vezes algumas senhoras, não vai bem com a actividade sexual. Eu acho que sim, que o rigor vai bem com tudo; mas algumas das senhoras discordam, e eu não as contradigo. Antes pelo contrário, digo "sim, querida" e cada um vai à sua vida.

Por exemplo, a questão das posições. Identifiquei dez posições de que gosto, e mudo-as todos os domingos. Se uma senhora quer variedade, basta-lhe começar por exemplo a um sábado e ficar comigo até segunda-feira. Raras são as que aguentam tanto tempo (dizem elas; por mim, três dias passam num instante); mas as que ficam gostam e elogiam-me bastante.

Devo dizer que é muito raro não ter "uma senhora". Penso que aquela mistura de precisão e de sangue, de carne viva, excita a líbido de muitas das minhas clientes, que me deixam, imaginem, números de telefone no meio das notas com que me pagam (em francês isso vê-se logo, basta atentar na semelhança entre bite e bidoche: a mesma primeira sílaba, a mesma letra final). Eu ligo a quase todas - basta não serem demasiado magras ou demasiado gordas, demasiado altas ou baixas, novas ou velhas. Sou um homem mediano e quero manter-me assim. Só abro excepções se elas o merecerem, ou eu estiver um bocadinho a seco. Porque também tenho necessidades, não se pense que lá por ser talhante (há quem me chame açougueiro, mas eu acho o termo inadequado e incorrecto) estou isento delas.

Outra coisa importante: a conversa. Eu sou contra a conversa. Acho que as pessoas se encontram com um determinado objectivo, e esse objectivo deve ser atingido o mais depressa possível. Raras, porém - se bem existam - são as senhoras que partilham esse ponto de vista. Como sempre e em tudo, eu acedo e falo com elas. Mas falo o mínimo necessário para as satisfazer. Nada de conversa de chacha, comigo. Querem conversa, têm-na; têm conversa que chega, eu calo-me (descobri que uma maneira de chegar a esta fase rapidamente é falar-lhes do prazer que a minha profissão me dá, e contar-lhes um máximo de pormenores).

Práticas: quer queiramos quer não, sexo consiste na penetração de uma vagina por um pénis. Tudo o mais é redundante; off topic, como dizem alguns ingleses que eu conheço. Mas algumas senhoras insistem e querem fazer-me coisas. Eu deixo, mas aviso-as sempre "não haverá reciprocidade" (não gosto de surpresas, seja de fazê-las ou de as sofrer).

Quantidade: é o único ponto em que todas as senhoras (pelo menos até agora) concordaram imediatamente comigo. Ainda não tive uma opinião divergente: a penetração deve ocorrer um mínimo de três vezes e um máximo de cinco por noite (é verdade que algumas senhoras exprimem uma certa insatisfação devido à - na opinião delas - "monotonia das posições"; mas isso diz respeito a outro tema. Na questão da quantidade tem havido uma agradável unanimidade). Porquê um máximo, perguntar-me-ão alguns?  Porque acima de cinco penetrações por noite a vagina da senhora fica muito dorida e ela deixa de ter prazer.

Estes são os aspectos da minha vida sexual que acho mais interessantes. Espero ter satisfeito todos aqueles dos meus clientes que me têm pedido "conta, conta". E, sobretudo, que voltem ao talho, claro.

Teologia francesa

O Reblochon é um queijo da Haute Savoie; o Camembert é feito na Normandie; o Brie na Champagne e o Maroilles no Nord Pas de Calais. 

E há pessoas que duvidam que Deus é francês. Ou era, quando existia.

Anatomia teológica, ou teologia anatómica

Os homens nunca sabem onde pôr as mãos; é por isso que Deus pôs seios nas mulheres.

(O que demonstra que era homem e heterossexual, mas isso é outra história).

Origens

Cada vez mais lisboeta e cada vez menos português.

Coisos, espumas e debates

Os portugueses, é sabido, emprenham pelos ouvidos. Preferiram como primeiro-ministro um delinquente a uma senhora séria porque ela falava mal (e era feia, característica relevantíssima para um primeiro-ministro); e, de forma geral, inflamam-se muito com a forma das coisas,  e pouco com o seu conteúdo.

Depois admiram-se, queixam-se, lamentam o estado do país e a qualidade dos políticos.

A razão é, provavelmente, que não sabem reconhecer a qualidade quando a têm pela proa; por isso refugiam-se no pechisbeque, nos coisos. É como se em vez de discutirem cervejas discutissem as respectivas espumas (sim, na terceira pessoa; cada vez mais na terceira pessoa).

Fechado

Não gosto de estar fechado dentro de coisas, nem de pessoas. Nunca estive fechado dentro do que quer que fosse, ou de quem quer que fosse. 

Enfim, talvez tenha estado; mas não me lembro.

17.5.12

Risos

A nossa esquerda, que tanto troçou da história das viagens de avião em classe económica, e achou completamente secundária a multa de Soares vai de certeza rir às lágrimas com estas: "...des déplacements en train autant que faire se peut et un strict respect du code de la route".

14.5.12

Prioridades, ordens

Em caso de dúvida, ouvir sempre primeiro aquilo que se sente, e depois aquilo que se pensa. O contrário não funciona, anyway.

Incompreensões

Não percebo porque é que a imagem do drunken sailor é usada para fins tão depreciativos. Afinal contribuímos para as economias locais, não?

Dissonância cognitiva, uma tentativa de definição

Almoço na Guadeloupe enquanto leio as notícias sobre a Grécia.

(PS - É bom ser esquizofrénico.)

Não política

Ou seja, padres e militares?

13.5.12

Domingo

Porque hoje é domingo.

Pseudo-pacotilhas

Uma vez fui comprar o jornal e na banca encontrei uma senhora com quem tinha uma ténue e mais ou menos afastada relação profissional. Ela pediu o Diário de Notícias e eu o Público. "Ah, você lê Público?" perguntou. "Pois. É o jornal dos pseudo-intelectuais".

Aceitei a designação, claro. Não sou intelectual de todo e não tento passar por tal. Sou tão pseudo-intelectual como pseudo-advogado, pseudo-engenheiro ou pseudo-homem do lixo.

Hoje, uma senhora por quem tenho uma certa estima, apesar de não a conhecer pessoalmente chamou-me liberal de pacotilha (e duvidou da capacidade da categoria para educar crianças. Como tenho dois filhos muito bem educados, graças a Deus e à mãe deles, posso desde já asseverar que há pelo menos um liberal de pacotilha que conseguiu educar dois filhos correctamente).

As duas senhoras não têm nada em comum, rigorosamente nada, excepto talvez o facto de serem ambas verdadeiras: verdadeira intelectual uma, verdadeira empresária a outra. 

Aceitei  designação, também, obviamente. Não sou um filósofo político, não escrevo livros sobre o liberalismo e não contribuí em nada para a construção ou consolidação da teoria. Só não percebo é como conseguem assim tão rapidamente identificar-me como pseudo-pacotilha. Deve ser um sexto sentido como aquele que permite aos anões reconhecerem-se ao primeiro olhar.

Cidadania, limpeza etc.

"Mais de 50 crianças" limparam ontem a praia de Carcavelos. Talvez pudessem exportar a ideia aqui para o Brasil. 50'000 crianças seriam mais do que suficientes. Por praia, claro.

De passagem

Quando é que José Pacheco Pereira se muda para o Jugular? Pelo menos elevaria o nível da oposição.

12.5.12

Vida, cabeça (auto-crítica*)

O debate político em Portugal é uma mostra das diferentes formas de histeria. Não acredito que venha a mudar. É o género de coisas que não muda. As pessoas demasiado educadas para o suportar - as únicas que poderiam mudar alguma coisa - tendem a emigrar, ou a arranjar empregos que lhes permitem viver sossegadas e aproveitar bem tudo o que temos de bom. Quem tem tempo de antena é quem não tem vida. Ou cabeça, ou as duas.

* - Injusta porque não eu tenho tempo de antena.

Ah ah ah lol lol lol :-) :-) :-)

Aqui está uma piada fantástica, cheia de graça, fina e subtil, elegante. Foi, acreditem se quiserem, provocada por este discurso (o video está no fim). Aqui, quem estiver interessado pode ler uma crítica inteligente ao mesmo discurso.

11.5.12

Novas indignações

O pessoal da indignação está, oh tadinhos, estrangulado de novas indignações. Então não é que há uma pessoa, Primeiro Ministro ainda por cima, que em vez de prometer obras absurdas, jobs for the boys, roubos à fartazana, que em vez de mentir descaradamente, de se intrometer em tudo quanto é negócio, de se abifar com umas maquias boas vindas ali do deserto, de ameaçar jornalistas que não lhe sejam favoráveis, que em vez de enterrar o país em dívida e mais dívida diz - segurem-se - que há demasiada aversão ao risco na sociedade portuguesa e que o desemprego pode ser visto como uma oportunidade?

Oh Deus do céu, oh Diabos todos do inferno, oh maldade!!!! Eu próprio, só de pensar nisso, falta-me o ar. Uma nova oportunidade? Mas quem é que quer novas oportunidades? Riscos? Mas quem é quer correr riscos? Quem é que tem o descaramento de brincar assim com o sofrimento alheio? Todos nós sabemos que a nossa estrutura produtiva estava o mais up to date, pardon my chinese que é possível; que não era preciso mudar rigorosamente nada na nossa economia - excepto talvez fazer mais meia dúzia de autoestradas, um ou dois TGV, em T, em L em S e eventualmente também em R de regabofe.

Estou, uma vez mais, solidário com os indignados. Estou cheio de pena deles. Sinto-me um deles. Wir sind alles indignated. 

Como se pode ser tão cruel, tão maldoso, tão inumano? Quem é que consegue imaginar uma oportunidade num momento tão doloroso, momento que pode durar anos, momento durante ao qual uma pessoa só tem forças para ir buscar o cheque da segurança social e pouco mais? Quem pode imaginar que é bom correr riscos?  Só, está bem de ver, um desumano, um ultra-neo-hiper-mega-liberal sem coração, um robot ao serviço do Mal.

(Novas oportunidades? Essa expressão tem copyright. Ainda por cima associá-la a algo que não seja um aldrabice é descaramento a mais.)

Ryannews

10.5.12

Coitados

Os coitados dos nossos cineastas deviam inspirar-se na música portuguesa e perceber que aquilo que lhe falta não é dinheiro público, é talento. Onde há talento há público, e não faz falta o apoio do governo, tadinhos.

O odioso e o cómico

Há coisas que começam por ser irritantes; repetem-se e tornam-se francamente desagradáveis; mais uma vez e ficam desesperantes; insistem e ei-las odiosas. Mas deste ponto, se por acaso voltam a acontecer, só há uma saída: ficam cómicas.

9.5.12

Viagem ao inferno

Eclipse

"Ne jamais se flatter 
 d'avoir fait sa descente aux enfers 
 car un voyage aux enfers, 
 en plus cruel encore, 
 est toujours à refaire."

Michel Leiris

Redifusão

A night in Paris, 04-12-06

Le Petit Baigneur., 10 rue de la Sablière, 75014

A chacun ses armes
Mon voisin drague la femme à sa table en faisant abondamment recours à l'histoire de son grand-père, prisonnier des allemands pendant la deuxième guerre mondiale. La femme, dont je ne vois que les cheveux, blonds et beaux, très beaux (cela ne va pas toujours ensemble) et le dos, banal comme tous les dos, est - je le soupçonne au départ et le confirme après - Russe. Elle doit être sensible à ses arguments, elle devrait, mais ne le montre pas trop. Il parle très fort, elle répond d'une voix très mince, très basse, inaudible.

Numa outra mesa um casal de maricas fala, olhos nos olhos, numa interacção não-verbal digna de manual: ambos sentados obliquamente em relação à mesa, as linhas dos ombros paralelas, as faces viradas para o mesmo lado (um olha para a esquerda, o outro para a direita). Braços simétricos, o esquerdo sobre a mesa, o direito erguido, com um cigarro na extremidade. Tudo é simétrico neles, menos as faces, que olham na mesma direcção. O meu vizinho muda, outra vez, para a geopolítica.

La décoration do Petit Baigneur est nettement meilleure que celle du Cana'Bar; pour la raison simple et irréfutable que celui-ci n'en a pas.

Sinto-me num filme francês: um restaurante popular, com russas, homens em pleno engate público, maricas e, num canto, um velho que rabisca furiosamente num calepin Clairefontaine 9 x 14 cm, 192 pág.

Por vezes, gostaria de deixar de ouvir o meu vizinho. S'il veut draguer, ne pourrait-il pas se limiter à sa table? Il fait des digressions et des digressions et des digressions, mais revient, régulièrement, à ce qu'il croît être ses points forts: la deuxième guerre mondiale (c’est-à-dire, son grand-père) et la géopolitique. Il a peut-être raison, mas o envolvimento corporal da jovem senhora não o mostra: ela continua reticente.

Uma das mesas levanta-se, e vejo de repente uma mulher que ainda não tinha visto. Faz-me imediatamente pensar na Christine L. Isto não é um restaurante, é uma tranche de vie. A empregada, descubro agora, é portuguesa. No Cana'Bar é, claramente, de origem africana (sorry for the jeu de mots dégueu).

Tranches de vie, ou Comparaison n'est pas raison. Só poderei ajuizar definitivamente depois de ver a conta do Petit Baigneur. Vejamos: a empregada está a milhas (para baixo. É impossível, de qualquer forma, estar a milhas para cima). A cozinha é equivalente. Não há casais de amantes, e as mulheres não são tão bonitas. A decoração é melhor. Os preços iguais. Resultado: um dia um, um dia outro.

Merde, j'ai raté le visage de la voisine, qui s'est levée pour aller aux toilettes. Son engagement corporal a nettement, radicalement, changé. Le gars, sa géopolitique à la mormoilleneux et son histoire de famille à dormir debout ont gagné. Je suis heureux pour lui.

Case study: y a-t-il eu une relation entre la visite aux toilettes et le changement de disposition? (demander à S.)

O dia começa finalmente a dissolver-se no vinho e na Mirabelle; hoje começa finalmente a dissolver-se no amanhã. E o amanhã é bonito. Parece-se cada vez mais com o futuro que estou a construir há meia-dúzia de passados, com o cuidado de um pedreiro desajeitado e inábil, mas perseverante.

O vizinho ganhou. A atitude corporal da rapariga mudou, e o resto também. Parabéns! Tenho doces lembranças de raparigas russas. Uma ligeira ponta de inveja, muito ligeira, aparece. Je l'écarte immédiatement. Não sou invejoso, nunca fui e nunca o serei.


Zagou - Bar-Restaurant du Voyage, 58 rue Daguerre, 75014

O termo viagem, apercebo-me agora, é feminino em português e masculino em espanhol, francês e italiano (talvez em alemão também, mas o meu alemão, que nunca passou do estágio de recém-nascido, é agora uma espécie em vias de extinção). O Zagou tem uma música simpática e um cocktail (Singapore Sling) assim assim.

La Belière, 74 rue Daguerre

A rue Daguerre é uma das minhas favoritas neste Paris de agora. La Belière apresenta-se como um bar de jazz. Uma rapariga, de chapéu e sobretudo pretos, passa por mim. Adoro bruxas, mesmo que sejam jovens e bonitas. O jazz é uma merda (Beatles e  Eric Clapton), mas a Piña Colada é sublime.

Let's, my dear me, go to bed.

Seja Deus louvado.

Redifusão

Estendes a pele na cama e pedes-me que me estenda nela. Acedo e acedo a ela, a ti; aceso, acendo-te. Não falaria nunca da tua pele como uma planície, ou o mar, o tempo ou o chão em chamas. Não falaria nunca do vento que te percorre a pele, nem da luz, dessa longa fita de desejo que começa em mim e em mim acaba depois da volta ao tempo, ao mundo, ao mar, à vida. Não falaria nunca de desejos que irrompem em chamas das entranhas da terra, de nádegas como dois quartos crescentes que não sabem como não crescer, de mãos inábeis, impacientes. Não te falarei nunca de lábios ansiosos, de olhares infinitos, dessas banais tretas todas: o silêncio é uma sorte irrecusável.

Sorte, 09-08-11, (muito ligeiramente editado, claro).

8.5.12

A ler

José Rentes de Carvalho, aqui.

Definição

A insónia é uma puta que se engrossa antes de ir para a cama com o cliente, e depois nem fode nem deixa de foder.

7.5.12

Michèlle

I
- Viens, on va guincher.
J'aime les nanas qui ont de la suite dans les idées; je me suis levé. Je la connais de vue, elle bosse pas très loin d'où je vends de la quincaillerie, la journée. Et quand elle sort en boîte je la vois aussi.

Elle est petite, sèche, noiraude et a un joli minois. En dansant elle presse ses nichons, durs et ronds comme deux petites oranges, contre ma poitrine. Elle n'a pas de soustang. Bientôt je le lui rends bien: sous mes falzards la bite durcit et je la presse contre elle, tout contre. Elle s'en écarte, mais pas très vite. "Tu veux faire la fête, ma bibiche", me dis-je.

Mais il a fallut tchatcher des heures durant avant de pouvoir lui fourguer rien que les paluches. Heureusement après tout a roulé très vite et en moins de deux j'étais dans la moule.

Elle n'est pas une allumeuse, remarquez. Seulement "entre la boîte et le plumard il y a un espace qu'il faut remplir, tu comprends?"

Elle voulait dire remplir avec des mots, avec les bons mots, des mots justes. Moi je m'en fous. C'est quoi un mot juste? Suis pas très bavard, moi, juste ou injuste; et plusieurs fois j'ai voulu laisser tomber. Mais elle me zieutait grave, avec de lampions comak. Elle voulait, juste pas trop vite.  Ça j'ai pigé de suite. Question de poireauter un peu, parlapater un peu, peu vite tout ça.

Michèlle bosse dans une banque. Haute pointure, la nana. La semaine je vends, en ville, des conneries faites par mécolle. Les nuits de vendredi et samedi je vends des hotdogs devant une des boîtes de nuit du bled. C'est comme ça que je l'ai rencontrée - de temps en temps je rentre juste pour mater un peu. Le videur est un cops.

- Purée tu schlingues.
- Je vends des saucisses.
- Viens, on se casse.

Trois plombes du mat. A cette heure il n'y a que le Café du Commerce qui est ouvert. C'est craignos, mais c'est le seul. J'avais un peu la dalle et ai demandé un hamburguer; elle n'a rien clapé. Quand nous sommes partis elle voulait casquer. Je lui ai dit non. Je suis fauché, mais pas paumé. Ma bouffe c'est moi qui me la raque. A chacun sa merde, comme disait mon vioque.

Du troquet nous sommes allés chez elle. Grosse bagnolle, grosse baraque.

- Entre. Désacque-toi. La douche est ici. - Michèlle n'avait visiblement pas l'habitude de recevoir des ordres. - Magne-toi, je t'attends au salon.

C'était sept heures passées quand j'ai finalment réussi à lui fourrer les luches dans les lolos. À sept heures et demie on niquait. On a passé le dimanche au pieu.

II
J'aime bien ce lascar. Il n'est pas lourdingue. Je le vois vendre ses berloques (enfin, pas les valseuses,  ne vous gourez pas; celles-là il se les garde bien gardées) sur la place. Je bosse juste devant. Et ses hotdogs à la mormoileneux devant la disco les weekends.  Il est calmos, posé, les crocs toujours dehors. Jamais l'air d'être à côté de ses pompes. Il assure, ne s'excite jamais, parle angliche avec les amerloques et allemand avec les casques à pointe. Un peu maigrelet, grand, beau gosse. Je me suis toujours demandée ce qu'il foûtait là.

J'ai 36 berges, je suis cadre sup dans une banque. J'ai grimpé à la verticalle; jamais eu besoin de m'allonger pour monter. Une gonzesse jeune et seule dans un monde de vieux schnoks. Pas de grandes histoires: depuis la fac plus jamais de longues amours. Un coup à gauche, un coup à droite; que de l'hygiénique. Les mecs n'aiment pas les greluches qui ont de la pogne; et ceux qui faisaient mine de me supporter étaient plutôt aprés mon fric. J'en ai dérouillé, ne pensez pas. Mais je me sens bien, maintenant.

Antoine m'a tapé dans l'oeil d'abord parce qu'il présente pas mal; en boîte il n'a pas accepté que je lui paie les verres; ensuite on est allés dans un troquet immonde, et il m'a prévenu: "chacun douille sa bouffe".

Je l'ai fait moisir un peu avant de passer au pieu, histoire de ne pas le laisser croire qu'il suffit d'être beau et pas tapeur pour avoir partie gagnée.

On est resté piautés tout le dimanche; et on a continué de se voir après. Je ne savais que dalle de lui: il était visiblement bien eduqué et cultivé; tambouillait et baisait comme un dieu; parlait très peu, et encore moins de sa pomme. On n'allait pas au restaurant: il ne voulait pas que ce soit moi à casquer et je la lui retribuait bien. En revanche on cassait souvent la croûte chez lui; je profitais pour lui amener une bouteille d'un bon rouquin, qu'il appreciait visiblement.

Peu à peu - ce n'est pas une formule, ce fut ainsi qie les choses se passèrent - j'ai appris à le connaître, à respecter ses silences, à apprecier sa vaste culture. On se fendait bien la gueule, remarquez. Il avait un bon sens de l'humor et je me poirais avec ses blagues. Des fois il m'arrivait de partir en voyage de travail. Rares furent les villes pour lesquelles il ne donnât pas une indication, soit d'un gastos, soit d'une rue ou d'un musée. Il avait voyagé et il avait eu du fric. Pourquoi vendait-il de la quincaillerie et des saucisses dans la rue?

Deux, trois, quatre mois. Antoine me semblait "l'homme qui n'était pas là". Ça me convenait, faut le dire: c'était comme avoir un jules et ne pas en avoir, en même temps. Des fois il m'offrait un bouquin, des fleurs, un collier de ceux qu'il faisait.

Un jour je lui ai dit "tu me donnes tout sauf des paroles". "Jacter n'est pas mon fort". Le lendemain il m'apportât un disque de Hildegarde von Bingen et dit "tout est là". Je ne sais pas si vous avez déjà tiré un coup en écoutant de la musique sacre du Moyen Age; ne le faites pas, les frangines. Ca risque de vous ramollir.

Une fois il a commencé "je t'..." et s'est arrêté. J'eus envie de lui répondre "moi non plus", mais je me suis ecrasée. L'amour n'était pas prévu et encore moins le bienvenu. Un jules comme Antoine ça allait; mais l'amour?

Ça a duré jusqu'à ce quil me fut impossible de le nier: j'étais amoreuse de lui.

Ce soir-là je suis allé chez lui - c'était un vendredi, il préparait ses saucisses - et lui ai dit que je partais. "L'amour n'était pas au programme". Je lui ai laissé un gros talbin.

"Prends-le", me dit-il. "Je vais le déchirer". "Je sais. Fais-en ce que tu veux, il est à toi".

"Ciao". "À la revoyure".

La dernière chose que je lui ai entendu dire, très bas, fut "moi aussi".


III
Quitter Antoine m'a fait découvrir la vrai dimension de ma solitude. Les coups hygièniques ont perdu leur intérêt. Le boulot cessa de me remplir les mesures. Il m'a fait découvrir un monde dont je ne soupçonnais même pas l'existence, ou ne voulais pas en entendre parler: le mien. Il y avait une greluche en moi, muette depuis longtemps. Elle sortait, maintenant. Impossible de lui fermer sa gueule.

J'ai pas mal chialé, pris quelques cuites et quatre mois plus tard je me mariais à un collègue d'une autre banque.

Y a pas photo: six mois après le mariage je m'emmerdais ferme. De temps en temps je sortais seule. Je laissais Christophe-Louis à la maison et allait faire la ronde. Un soir je suis retournée à la boîte où j'avais rencontré Antoine. Il était toujours devant avec son chariot, ses saucisses, son sourire aimable mais distant. Je ne l'ai pas regardé, mais je savais qu'il m'avait vue.

IV
- Viens, on va guincher. - J'ai reconnu sa pogne dans mon épaule avant même de comprendre ce qu'il me disait.

Christophe-Louis n'ai jamais compris pourquoi j'ai voulu divorcer. Ni même avec le disque de Hildegarde von Bingen que je lui ai amené, en disant "écoute-le bien, tout est là".

Ce soir-lá j'ai pioncé chez Antoine. Dès que l'autre a déguérpi de chez moi Antoine a amenagé. Nous avons un accord: on ne parle pas fric à la maison, comme d'autres ne parlent pas de politique ou de cul. Dans un tiroir j'ai toujours le talbin que je lui avais laissé, déchiré en dizaines de morceaux; il les a mis dans une matière transparente et arrangés en quelque chose qui ressemble vaguement à un bracelet.

"Pas pu les foutre loin", m'explicat-il. "Je sais combien tu respectes le pognon".

-------------

Enfin: je ne parle plus le français quotidiennement depuis longtemps. Les mots s'en ressentent, la syntaxe encore plus. On s'en fout. On n'est pas d'ici. Demain on s'en va.

4.5.12

ASAEdezes

Querer ser ministro não é muito diferente de querer ser proxeneta, ou presidente de um clube de futebol. Nada a opôr. Enfim, quase nada. É que ser proxeneta tem os seus riscos; e chegar a presidente de um clube de futebol implica (enfim, suponho, os meus conhecimentos da modalidade são reduzidos) dar muitos presentes, muita fruta. Já para se chegar a ministro, se se escolhe como veículo a ASAE, é preciso demonstrar-se que se é ainda mais idiota do que se parece. E lixar a vida a muita gente.

Isto dito, eu recuso-me a acreditar que há um país europeu no qual no século XXI é ilegal fazer uma promoção pontual de 50% do valor. É impossível. Então e os jornais, quando são de borla?  Vivemos na União Soviética ou na União Europeia?

Futuro

O futuro é um buraco negro. Nada lhe escapa.

Amor

Olho-me ao espelho e vejo-te.

Espera

É esta mistura de sax, piano, vinho, tu nua na cama a dizeres-me vem e eu digo espera tenho de escrever e tu chateias-te porque achas que és mais importante do que escrever e de facto és, mas sabes que isto do desejo obedece a normas e a primeira é espera. Espera.  

Pinard et al.

Du pinard et des nibards, ces deux pilliers de la santé masculine.

Uma coisa, outra coisa

Olha, vou dizer-te uma coisa. Uma coisa. Vês? Já disse. Queres que te diga outra coisa? Outra coisa. O resto que se lixe. Nada ficou por dizer.

Disgraceland

Graceland is now disgraceland. The song remains, though.



Like the diamonds.



Um dia levar-te-ei a Cape Town. Explicar-te-ei o que é ressuscitar, e o que é ressuscitar numa das mais belas cidades do mundo.

Déconner, ordre et autres choses

Il est des jours où j'ai envie de déconner. On ne peut déconner qu'en français, qui, paradoxalement, est une langue sage. L'on ne peut boire qu'en français, aussi; mais les deux faits - car ce sont des faits - ne sont point liés.

C'est à dire: la raison pour laquelle on ne peut déconner qu'en français n'est point la même que celle qui nous dit que le langue de l'ivresse est le français. Je ne sais pas si c'est clair.

D'où vient ce besoin de clarté, d'ailleurs? On s'en foût de la clarté. Miles Davis était clair; John Coltrane aussi; Wayne Shorter; Peggy Lee; Jeanne Lee. Une multitude de gens - pas besoin de les citer un par un.

On a assez de clarté, c'est ça que je veux dire. L'on peut aller la chercher à de multiples adresses.

........
La seule clarté intéressante, valable, perenne est celle de la mer. Au bout de quelques jours de mer tout devient clair: après quelques jours de mer l'on peut déconner plus qu'au bout de quelques années de vie.

Peut-on mélanger les jours de mer, les annés de vie et une bouteille de vin? Je pense que oui, à condition d'y ajouter Miles Davis et Jeanne Lee.

........
Le français est un voyage dans le temps.

........
Déconner: à Paris, rue Daguerre; à la Rochelle, partout; à Marseille au resto juif juste derriére l'Opéra; à Dunkerque au bar du yacht club; quelque part dans le Doubs chez Tante Yvonne. En Bretagne. N'importe où.

Déconner: un plateau de fromages, plusieurs bouteilles de vin, une paire de nibards, un ventre, un cerveau. Sans déconner.

........
L'on ne saurait déconner en mer. Serait-ce là le seul défaut de la mer?

........
Déconner c'est poser des questions sans réponse et répondre à des questions que l'on ne nous a pas posées. Tant mieux.

Déconnons donc: tu ne me poses pas de questions. Laissons la sensible question des réponses pour après.

Mon français flanchit. Il n'est plus fluide. Y a-t-il un rapport entre la fluidité et la connerie?

........
Disons donc ainsi: excusez-moi bon Dieu, j'aimerais déconner. L'envie soudaine me prend de chanter accroché à un arbre devant la Closerie des Lilas; ou en sortant du Caveau de la Huchette, où par ailleurs Inácio ne travaille plus, ce qui par ailleurs démontre qu'il n'y a point de limites à la connerie, par ailleurs. Ou à l'injustice.

Le monde est un lieu injuste, heureusement. Si non l'on s'y emmerderait comme des anges au paradis.

Je songe aux moines.

........
Déconnons donc. Toi d'abord, moi en suite. Buvons un verre, touchons les nichons, goûtons les fromages, dans cet ordre. L'ordre est important.

Allons nous ballader dans les rues puantes de São Luís; dans celles désertes de La Rochelle; allons boire un coup au Saoufé, danser Emma à la Pilotine,



baiser dans le parc, comme si nous nous aimions. Allons boire de bières sans fin dans les moulins de la Flandres française;  baisons au bord des canaux, au bord du gouffre - y a-t-il un meilleur endroit pour baiser que le gouffre? - au bord de la vie.

Baisons à Jérusalem.



Te souviens-tu de ce que nous dansions ça? La frénésie, je veux dire. Est-ce que le vrai amour est frénétique? Je m'en fous. Faut pas poser des questions. Danser, boire, baiser. Dans cet ordre. L'ordre est important.

L'on ne saurait boire avant d'ouvrir la bouteille, ni l'ouvrir avant de l'acheter, ni l'acheter avant de voir la pleine lune au bord de la rivière Bakanga, qui par ailleurs est une merde de rivière. Peut-être devrions-nous en touver une autre? Ma rivière favorite est le Congo, mais ce n'est point une rivière, c'est un fleuve.

........
Imaginons qu'un jour je mets de l'ordre dans tous les gouffres aux bords desquels je t'ai aimée.

Resterait-il de l'espace pour déconner, après? Non, que des gouffres, que Dieu soit loué.



Je reécoute Emma, repense à toi et au gouffre et me demande comment faisions nous pour transformer un lit, si souvent, en abîme. Tous les jours. Est-ce parce que nous nous aimions que le gouffre se montait, tel un cirque? Ou est-ce que parce que le cirque apparaissaît que nous nous aimions? Te souviens-tu? Le sais-tu? Le savions-nous, quand nous nous baisions au bord de la falaise, la mer en-dessous et quelques étoiles en témoins?

"Il n'y a pas que baiser dans la vie, voyons. Mais il n'y a rien de mieux, c'est vrai". Nous écoutions-nous, quand nous nous disions des choses pareilles? Je ne le pense pas. Nous étions trop occupés à déconner. C'est pourquoi j'ai envie de déconner, aujourd'hui. Dans cet ordre. L'ordre est important.

Grace

- Você tem um hálito de quem não lava os dentes há muito tempo.
- Dois meses e meio, mais ou menos.
- ...
- Não os lavo mais frequentemente para poupar a escova de dentes, presente de uma namorada por quem me apaixonei perdidamente, e me deixou pouco depois.
- Vá lá saber-se porquê.

Grace era a minha dentista. Este foi o nosso primeiro diálogo.

Era pequenina, tinha uns seios muito volumosos e uma cruz de David ao pescoço. Quando cirandava à minha volta os seios tocavam-me na cabeça, no rosto, às vezes - mais raramente - no peito.

- Com essa anestesia não preciso da outra - disse-lhe um dia.

Ela apertou um bocadinho a broca, mas sorriu e não disse nada.

Quem pensa que o mau hálito afasta as pessoas devia começar a frequentar dentistas.

Verdade seja dita que agora já lavava os dentes três vezes ao dia, como ela tinha dito. Enfim, dito é inexacto. Da conjugação dos verbos portugueses Grace só retivera um tempo, o imperativo. "Está a chover" dito por ela soava como "chove! Já!" por Mandrake, ou alguém do género. Ordenara.

Hoje lamento ter falado tão pouco com ela. Pelo que percebi era mulher de um engenheiro português que se convertera ao judaísmo e emigrara para Israel. Mas ao fim de meia dúzia de meses veio-se embora, com ela e com pena. Não falava hebraico, e descobriu que em Israel é importante.

Grace começou por trabalhar numa clínica dentária no Estoril, mas em poucos anos abriu o seu própio consultório. Eu fui um dos primeiros clientes - já não ia a um dentista havia mais de quinze anos - e ela tinha muito tempo livre.

II
Um dia ela estava debruçada sobre mim  e os seios tocavam-me a cara. Não resisti e estendi a mão. Gosto de fruta, sei apanhá-la quando está madura.

III
Grace senta-se em cima de mim quando estou na cadeira. Tem o cuidado de me pôr o tubo de aspiração na boca, de forma a que eu não possa falar. Comunicamos por gestos: "mais devagar" quando estou quase a vir-me e não quero; "mais depressa" quando vejo que está a esmorecer. É giro porque desde criança tenho horror aos dentistas, e nunca imaginei que um dia estaria a fazer amor com uma, e ainda por cima no consultório.

Gosto de a ver montada em mim, as mamas a saltar do soutien, a bata desabotoada e a cair, a saia levantada. Grace concentra-se no que faz, esfrega o ventre, belisca os mamilos aos quais não chego, por muito que tente. Não fala e não me deixa falar; às vezes vira-se de costas para mim e agarra-me nos pés como se estivesse a conduzir uma mota. Quando acabamos - é sempre ela quem decide - veste-se, acaba o que tem a fazer e manda-me embora.

Na recepcionista pago, marco a próxima consulta e vou para casa, onde Maria José me espera. Hoje perguntou-me "mas o tratamento ainda não acabou?".

- Já. Acabou hoje.

Pelo menos era o que dizia o SMS que recebi da recepcionista de Grace, mal saí do consultório.

Domicílio fixo

Não tenho um domicílio fixo, o que é mau; e gosto disso, o que é pior.

2.5.12

Manguitos e desespero

Claro que a tentação é dizer que a burguesia portuguesa será sempre portuguesa (pelo menos aqueles que não emigrarem e mudarem de nacionalidade) e burguesia, e que a simples vista de um pobre a beneficiar de qualquer coisa a horripila - isto, claro, assumindo que só os pobres foram ontem aos Pingo Doce, coisa na qual de todo não acredito.

Ajudar os pobres sim - agora terem eles a iniciativa, tira o cavalo da chuva. Aquela gente pura e simplesmente não tem maneiras e mal se apanha à solta é o que se vê.  Uns selvagens sem qualquer espécie de dignidade humana. Deviam era ficar quietinhos em casa ou nos lares ou nos centros de acolhimento e nós, aquela parte da burguesia que tem coração levar-lhes-emos toda a ajuda de que necessitam. Desde que, claro, tomem banho se lavem e aprendam a dizer por favor e obrigado. Há uma excelente crónica de António Lobo Antunes, chamada se bem me lembro "Os nossos pobres" que fala disso magistralmente.

A tentação é tanto maior quanto nem sequer é totalmente mentira.

Mas também não é totalmente verdade. Aquilo que realmente enfureceu a esquerda ontem - um dia que quase mereceria o epíteto de Segundo primeiro de Maio - foi uma coisa que eu conheço bem e é, de certa forma, compreensível.

A maior causa de traumatismos psicológicos na ajuda humanitária não são o horror, a violência, ou uma razão dessas facilmente identificável, intuitiva. É o trabalho humanitário ser muitas vezes dificultado, ou impedido, pelas autoridades dos países onde trabalhamos (enfim, os meus anos de ajuda humanitária já lá vão, graças a Deus). Um gajo querer ajudar uma coluna de, por exemplo, congoleses e serem as próprias autoridades congoleses a porem-nos dificuldades atrás de dificuldades; ou, e, a abotoarem-se com, como por exemplo em Kindu, 10% de todo o valor da ajuda.

É isso que provoca (pelo menos quando eu lá andava) a maioria dos pedidos de apoio psicológico (isto é um facto, e a fonte é uma publicação do UNHCR que li nessa altura).

Ontem a esquerda viu-se numa situação semelhante, mas pior: o povo que ela quer, coitado, ajudar, o povo que ela defende encarniçadamente (é caso para o dizer) fez-lhe um manguito muito grande e tratou da sua vida. E isso é deseperante, insuportável, doloroso.

Donde os ataques, insultos e lamentos de que foi vítima.

1.5.12

Insónia

A insónia existe para demonstrar aos cépticos como eu que dormir é bom.

Turista e pai...

...Aqui.