12.2.17

Depois do intervalo continua

Minhas senhoras e meus senhores,

Devo à distinta audiência antes de mais nada - enfim, depois naturalmente do "muito obrigado" que estava, está, implícito e agora explícito em todas as minhas palavras, um vasto obrigado à vida e a todos e a cada um dos membros da audiência - um profundo pedido de desculpa. O meu texto sobre o que vos trouxe aqui esta noite estava pronto. Mas em vez de vos falar dos problemas ligados à polinização manual das tulipas nos altiplanos da América Central resolvi à última da hora trocar esse apaixonante assunto por uma divagação.

Uma divagação profundamente ancorada na realidade, é certo - como de resto não poderia deixar de ser, sendo eu um adversário não diria feroz mas pelo menos empenhado das divagações oníricas que caracterizam tantas das páginas impressas nos dias de hoje -.

É portanto da verdade que vos vou falar. A polinização manual das tulipas nos altiplanos da América Central tem um problema grave - a escassez de altiplanos naquela região do mundo - e enquanto este não estiver resolvido vai ser difícil pô-la em prática.

Já a questão das televisões que parecem piscinas é bastante actual. Há cada vez mais televisões, cada vez maiores e cada vez mais piscinas. A relação é evidente. Impõe-se per se.

Há várias maneiras de abordar a problemática pouco conhecida das parecenças entre televisões e piscinas.

Depois do intervalo vamos elencá-las.

11.2.17

Lauda, Château Haut-Marbuzet

Duas pequenas notas dispersas sobe o Château Haut-Marbuzet:

a) Não sabia até hoje (ou sabia, mas já tinha esquecido) que o Haut-Marbuzet pode ser melhor do que o Haut-Marbuzet. Pode, sem hesitar.

b) Alguém me diz como iniciar um processo de canonização? 

Dans la ville muette

Je me dissous dans cette ville muette, tellement silencieuse que l'on oublie de l'oublier.

Elle est toujours là, ses beautés et ses laideurs collées par le silence.

10.2.17

De l'emprunt

Il faut écrire dans une langue d'emprunt, toujours. Il est bien connu: l'on fait plus attention à ce qui ne nous appartient pas.

(La langue n'est guère la vie: ele n'en est qu'un aspect. La seule chose qu'il ne faut absolument pas emprunter c'est la vie).

Alias

Ce jour-là Alias fut pour la première et millionième fois de sa vie désarçonné. Son nom - tout le monde le savait, croyait-il - était Alias Bardot. Se faire traiter de Alias seulement lui causa un désarroi profond et inquiétant. Alias seulement n'était même pas la moitié de son nom et comparé au présent le passé (disait-il) avait un poids disproportionné .

Par ailleurs il comprennait facilement - et approuvait - le soulagement de la personne qui l'avait traité de Alias seulement. Il reconstituait sans difficulté le monde défait de cette personne, le monde au bord du gouffre, en voie de se faire ronger par les rayons gamma: Alias Bardot, qui n'était qu'un simple Alias, s'arrogeait un nom complet : prénom et nom de famille. Horreur. Le ciel se couvrait - Alias s'en apercevait et en était chagrin - de nuages noirs, ou du moins gris foncés.

Ceci d'un point de vue purement physique. Il est facile de crompendre - mieux, de partager - l'accablante sensation de délabrement moral, subjectif, éthique, que cette personne avait ressentie en essayant de le traiter par son nom complet. Et en concomitance la plénitude de la reconstruction de ce même monde, - Alias allait même au point d'utiliser le mot, pourtant pas innocent, d'univers. Il nourrissait déjà envers cette personne une attraction familière, quasi sensuelle, comme s'il la connaissaît ne fut-ce que de vue. En le traitant de Alias elle avait sans doute reconstitué un monde au bord de l'abîme, au bord du désastre imminent. Il s'en réjouissait.

Alias - il avait adopté cette amputation de son plein gré, faut-il le dire? - était néanmoins inquiet. Il aimait aider les gens perdus, ceux pour qui les autres ne sont que la moitié d'eux-mêmes, ceux qui se proposent sans raison apparente de redresser les torts, soigner les plaies, laver les blessés, habiller les nus; tous ceux, en un mot, pour qui une lanterne morale est aussi importante qu'une béquille pour les boîteux. Mais il craignait, au fond de lui, d'être mal compris. "Que serait-il de ces gens sans une cible, sans une cause?" se demandait-il en buvant un demi pastis à la terrasse de la Livresse. Il voulait que tout le monde fut heureux, y compris - ou surtout - les redresseurs de torts, ceux qui sont - ô bénis ! - capables de se faire un matelas avec les certitudes morales sur lequel ils se coucheront cette nuit-même.

Enfin, tout ceci pour expliquer pourquoi Alias faisait pour la première fois de sa vie une chose qu'il a déjà fait souvent : se badigeonner de parfum dans la rue. Du vrai parfum, je veux dire. Pas de l'eau-de-Cologne. "L'indignation vraie mérite un vrai parfum", s'est-il dit en sortant le flacon de son sac à dos.

Alias se baladait donc dans les rues de cette ville dont la seule beauté sont les femmes - toutes, même les laides, sont belles - enrobé d'un aura de parfum, plongé dans un profond désarroi et - alléluia ! - soulagé: il avait aidé (involontairement, certes, mais néanmoins aidé) une personne qu'il ne connaissait pas à redresser un tort, à reconstituer un monde, à sauver l'humanité.

Dire qu'il était fier n'est point suffisant. Il était en paix avec lui-même, réconcillié avec le monde.

Et il sentait bon, ce qui n'est pas peu dire.

(Para o E. P., avec in merci gigantesque à Anouk, qui a fait beacoup plus que m'aider avec le français.)

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 10-02-2017

"Il ne sert à rien de viellir si on n'évolue pas", diz uma senhora quase velhinha na mesa à frente da minha, olhar e sorriso pétillants. Eu teria dito "si l'on n´évolue pas", mas sou mais jovem, mais pedante e mais estrangeiro do que a senhora, que me deixou pensativo para o resto da tarde.

Estava no stand do Domaine de la Devinière a beber um copo de Pinot Gris. Hoje é dia de feira (alimentar) em Plainpalais. Terças, sextas e domingos. Às quartas, sábados e primeiro domingo de cada mês é dia de brocante. As mesas são corridas, dão para quatro pessoas de cada lado (é um standard).

Deixei a mochila e o chapéu em cima da mesa.

Fui, naturalmente, admoestado por um senhor que me ensinou, antipaticamente, que a mesa não era minha e podia haver mais pessoas a querer sentar-se e que a mochila não tinha nada que estar em cima da mesa. Ao que eu respondi "Que tragédia!" e tirei a mochila e o "lugar" estava vago outra vez.

Depois chegaram os amigos dele. Um deles com queijo cortado aos bocados, um embrulho que abriu e pôs em cima da mesa.

Depois ofereceu-me um bocado de queijo, explicando que "é o melhor queijo do mundo. Gruyère vinte e quatro meses". E explicou-me ainda como reconhecer a qualidade de um Gruyère (tem de partir-se de uma só vez).

Isto dava um mini-documentário sobre Genève.

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Hoje o jantar é choucroute. Comprei da verdadeira, aquela que tem de cozer três horas e enche a casa de um cheiro que seria horrível se não fosse choucroute.

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Os meus co-clientes do stand de la Devinière (vinhos biológicos. O Pinot Gris é simplesmente sublime) têm todos mais ou menos a idade da senhora que quer evoluir e envelhecer ao mesmo tempo (admirável objectivo, diga-se de passagem).

Quem é que uma vez mencionou "ces visages taillés à la hâche" referindo-se aos suíços?

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Apéro na Livresse. Este nome dá vontade de recomeçar a escrever em francês.

Lamentos

Não deixa de ser lamentável (no sentido primeiro do termo: coisa a lamentar, sem juízo de valor) que o progressismo da esquerda portuguesa esteja reduzido a defender o acordo ortográfico de 1990 e o Mário Centeno.

Analogias felizes

É que isto das garrafas é como os seios das senhoras: fechadas podem ser muito bonitas e prenhes de promessas, mas só sabemos o que realmente valem quando abertas e a uso.

Continuação e princípio

A frágil e graciosa incerteza dos enamorados quando se descobrem mutuamente, como a Lua cheia a nascer.

9.2.17

Quem se queimar primeiro

É então algo assim: a noite espalha-se como se fosse um ringue de patinagem no gelo e tu deslizas por ela como os patinadores que ontem viste, com a graça imaterial de quem finta a gravidade.

A noite espalha-se à tua frente e tu deslizas por ela com a graça leve, translúcida daqueles a quem o amor espera numa esquina da noite. Uma esquina, noite, graça: amor. Uma esquina, graça, noite, amor. Quanto tempo falta?

Deslizas por esse grande quadrado gelado numa noite de graça. Leveza. Patins fendem o gelo, não o ferem. As cicatrizes contam a história bonita de duas graças que se encontraram à noite numa esquina geladas e leves e se amaram muito tempo e se separaram como se encontraram: uma finta à gravidade.

Um movimento circular da mão que seguia o olhar que seguia os movimentos no gelo que seguiam a noite. Foi numa noite assim que os movimentos se encontraram: um grande espaço plano e gelado no qual os olhares eram leves como duas peles que se encontram pela primeira vez e não sabem ainda bem que direcção vai a noite indicar-lhes. As peles os olhares as mãos os lábios encontram-se assim pela primeira vez numa noite, numa esquina, num deslizar vertiginoso, há muito esperado.

É mais ou menos assim: duas peles num movimento concêntrico, sem paragens, sem interrupções, sem solavancos. Ou seja: com a graça da inevitabilidade. Com a graça da gravidade vencida. Rendida. Com a graça da noite que se sabe primeira e desconhece a última.

Um grande plano gelado e liso no qual deslizam dois olhares como dois tigres: são ambos caçadores,  são ambos presas, são ambos imateriais. Círculos concêntricos. Olhos nos olhos. O que cair primeiro ganha.

Duas peles. Duas mãos que se encontram e deslizam sem solavancos e procuram o fim e não o encontram.

As peles cobrem o abismo. É para ele que te levam os olhares. Quem ceder primeiro ganha. Cai. Vertiginosamente. Cede. Incêndio. Não deixes derreter o gelo. É por ele que deslizas com a graça frágil do olhar que te queima.

Quem se queimar primeiro vive.

O que há num nome?

Nunca fui grande admirador da capacidade suíça para encontrar nomes para as coisas  (cafés,  bares, lojas e por aí fora). Pelo menos até descobrir que o nome das coisas é completamente indiferente ao seu êxito ou falhanço. Mas isso veio muito depois, quando em Genève tinha um escritório ao lado de uma loja da Haägen Dazs. Perguntei-me um dia quanto tempo teriam os senhores da Olá passado à procura de um nome que fosse simples, comunicativo, convidativo, etc. E alguém aparece a vender a mesma coisa - em melhor - com um nome como Haägen Dazs. [Confirmar grafia].

Verdade seja dita que in illo tempore a legislação genebrina proibia a um comércio ter duas actividades diferentes. Se era livraria vendia livros, não vendia cafés,  discos ou sapatos. E vice-versa. Isso mudou - na Suíça as leis são feitas pelas pessoas, não por políticos e portanto mudam quando é preciso - e hoje estou num café cum livraria chamado - oh delícia de nome - Livresse.

Dá vontade de roubar, não dá? 

8.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 08-02-2017

Não posso dizer que me aborrece muito. Estaria a mentir. Mas penso nisso cada vez que compro o raio do jornal: o Le Monde é simultaneamente de esquerda e o melhor jornal de língua francesa que conheço.

Percebo que Portugal não possa ter um igual: a França tem quase sete vezes mais habitantes do que nós; e isto sem contar os outros países francófonos, ex-colónias, presentes colónias e por aí fora.

Mas porra, podíamos pelo menos ter um bom jornal, um só, não? O Público e o DN (com uma vénia a quem eu sei que faz o que pode) são uma merda; o Observador começou por ser bom. Terminado o período de graça ficou assim assim. Hoje continua assim assim. Mas um assim assim tão longe do Le Monde que faz dó.

Ou seja: comprei o jornal e fui beber pastis para a Ferblanterie, que pertence à Daisy, antiga dona do Marchand de Sable onde trabalhei três anos com algumas interrupções. A Daisy replicou na Ferb (para os íntimos) o êxito que teve no Marchand: conseguiu transformar aquilo no sítio onde qualquer pessoa sensata tem vontade de estar no fim do dia com os amigos.

A única coisa que muda é o leque etário, muito mais vasto aqui devido à proximidade da universidade. Genebra sendo Genebra - um íman para mulheres bonitas e uma estufa para as que aqui nasceram - dificilmente um homem encontra de que se queixar.

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A tarde de hoje foi passada (outra vez) a lutar contra o sistema bancário americano. Se oiço alguém acusar Portugal de saloiice compro-lhe um bilhete de avião para os Estados Unidos. Ida simples.

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Os preços em Genève deixaram de ser alucinantes porque estão ainda mais caros. Não sei qual termo usar. Lunáticos?

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Ontem almocei com com o Claude M. Tem uma lancha que usa para os seus passeios fluviais e como está reformado usa-a muitas vezes. Conheci-o quando fazíamos ambos parte da tripulação de um 6 mJI, o S/Y SILENE (posso dizer o nome; foi vendido há dezenas de anos). depois fizemos muitas coisas juntos.

Penso muitas vezes em Claude por causa de uma história que se passou com ele e eu acho extraordinária: quando o conheci ele tinha uma drogaria e empregava - para além dos empregados de balcão - um vendedor externo. Um dia este fugiu com uma pipa de massa. Bastante. Um chimbalau grande. Pouco tempo depois veio bater à porta de Claude. Pediu-lhe desculpa, disse-lhe que ia procurar trabalho para o reembolsar. "Procurar trabalho? Não precisas de procurar trabalho. Se queres trabalhar em dou-te emprego." O homem não queria acreditar no que estava a ouvir, mas aceitou obviamente a proposta. Reembolsou o Claude e foi, dizia-me este, o melhor vendedor que jamais passou por aquela drogaria.

Lembrei-me disto ontem a propósito doutra coisa, semelhante. A diferença entre a mediocridade e a magnanimidade (ou mais simplesmente a inteligência) faz um mundo.

6.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suiça, 06-02-2017

Por vezes penso agudamente nela. Coisa que me enche de alegria: sendo agudo não é grave.

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"Mudei de casa": vim para casa de S. A curiosidade cedeu o lugar à emoção. Penso em Damásio: sem emoções não há conhecimento. Nem memórias, provavelmente.

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O namorado de S. mora no Jura, uma região produtora de absinto há muitos anos. Gostaria de deixar aqui expressa uma declaração de amor a essa bebida, tão injustamente perseguida ao longo dos anos. Sobretudo quando é feita por conhecedores amadores para amadores conhecedores (ou não; não sei). É uma bebida divina. Não: diabólica. Não: vem do ponto onde o divino e o diabólico se encontram.

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Saio da periferia de Genebra para o centro. Só não parece que mudei de país porque os preços são os mesmos. É uma das coisas nas quais a Suíça não mudou: os suíços continuam, como dizia W. em 1982, a não ter noção dos preços.

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A tradicionalmente obrigatória, obrigatória e tradicional fondue de queijo da minha chegada à Suíça foi hoje. Espero que nunca ninguém me pergunte se gosto mais de um cozido à portuguesa se de uma fondue de queijo como deve ser: queijo da fromagerie Roy (dantes conhecida como fromagerie Oberson em Plainplais; vinho branco Vaudois decente; bastante pimenta preta, um traço minúsculo de noz moscada, um caquelon bem esfregado com alho, em uma molécula de Maizena, um bom golpe de Kirsch no fim). Detesto empates.

5.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 04-02-2017

A ideia original é ser capaz de contar o dia sem demasiada pieguice. Vai ser difícil, eu sei, pelo menos depois das cinco da tarde. Antes não aconteceu nada: adiantei a escrita, improvisei uma omelete rápida para o almoço, dormi a sesta. Às cinco saí para casa do Th. e da A., a pé. Parei no Marchand para beber um copo. Até aqui nada de especial. Devo ter deixado de lá trabalhar em 1986 ou coisa que o valha. Abordei-o com mais curiosidade do que emoção.

Não vou descrever o jantar (vitello tonatto, plâteau de fromages, bortsch, tranche de veau pannée e arroz com um molho que não identifiquei porque já não conseguia comer mais, mesmo que quisesse - queria -) nem os vinhos (um espumante italiano "que se bebe como limonada", Th. dixit; uma magnum de Chateau Haut-Marbuzet, uma garrafa de Cornas - syrah varietal do Rhône de que nunca tinha ouvido falar e do qual não deixarei de falar nunca mais -. Duas boas Mirabelle para ver se ajudava os sucos gástricos - sou de natureza altruísta -).

E conversa, muita conversa. Um dos filhos do casal - N. - estava lá e foi um prazer descobri-lo. Os cães e os gatos (três de cada) mantiveram-se calmos.

A. é uma cozinheira excepcional e uma amiga excepcional, alma boa, generosa, empática. Th. tornou-se sábio, arredondou os ângulos e manteve-se o homem generoso, tranquilo, pacífico, modesto e competentíssimo que sempre foi. É a antítese do self-made man que é. Deve a fortuna que tem única e exclusivamente a si próprio e disso não faz alarde - nem da fortuna nem do seu mérito a fazê-la -. Partilha-a com os amigos em forma de tudo o que há de melhor, ajuda muitos e irradia harmonia.

Não sei o que vai sair do que escrever. Espero que não seja uma merda. Mas se for uma coisa é certa: não tenho desculpa.

4.2.17

Eternidades, Hildegarde

Como seria engarrafar a Hildegarde von Bingen? Que tipo de álcool dali sairia? Uma mistura de Cointreau com rum El Dorado quinze anos, whisky Talisker e mais meia dúzia de coisas. Em copos separados bebidos ao mesmo tempo. Quinze garrafas unidas pelo gargalo. Quinze eternidades reunidas numa só.

3.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 03-02-2017

É talvez assim - mas não tenho a certeza - que os dias deviam passar: fluindo. Sem correr nem andar, sem curvas nem contracurvas, sem saltos nem sobressaltos, sem quedas nem levantar-se.

E depois, claro, desaguar num jantar de amigos, terminar com um Irish Coffee feitos como deve ser (não há erro de concordância) e Carlo Gesualdo antes do sono.

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Esta cidade não muda, seja Deus louvado. Nenhuma muda, mesmo quando pensamos que sim. Na Ferblanterie entra a malta que entrava há trinta anos no Marchand, trinta anos mais nova (isto é, da mesma idade); no Bio sento-me ao lado de duas miúdas de vinte e poucos anos - a idade que eu tinha quando frequentava Carouge -; falam de... de... de alojamento, claro. Na Rue Ancienne passo por uma montra que tem uma grande cópia de um artigo de jornal cujo título é A morte do pequeno comércio de Carouge. São cinco e vinte da tarde. Chego à loja do café (recente, isto é, não existia há vinte anos). Está fechada. Fecha às cinco e um quarto, todos os dias.

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Tenho um passe mensal para os TPG e um número telefónico suíço. Já só me falta a bicicleta para ser residente.

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Cada vez acredito menos nessa história do regresso aos sítios onde fomos felizes. E àqueles onde fomos infelizes? E se neles tivermos sido felizes, infelizes, felizes, infelizes, felizes (repetir ad eternum)?  Pouco me interessa. Dos sítios por onde passámos fica o que somos hoje, não o que fomos quando neles estivemos.

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Amanhã jantar em casa de Th. e A. A. foi a primeira pessoa - tanto quanto me lembro - que me disse que eu devia dedicar-me a escrever. Foi também ela que me fez conhecer o Château Haut-Marbuzet, o melhor vinho da galáxia e arredores. Ignoro se há uma relação entre as duas coisas. Acho que não.

Talvez haja, muito lá no fundo, quem sabe?...

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Para quem tenha muitas perguntas sem resposta, como a de acima: Carlo Gesualdo, Tenebrae; Hildegarde von Bingen ("We cannot live in a world that is not our own, in a world that is interpreted for us by others. An interpreted world is not a home. Part of the terror is to take back our own listening, to use our own voice, to see our own light.") Canticles of Ecstasy.

"Dare to declare who you are. It is not far from the shores of silence to the boundaries of speech. The path is not long, but the way is deep. You must not only walk there, you must be prepared to leap."

(Hildegarde).

(Não sei se deva considerar isto o fim de um dia se o princípio do outro).

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Pequena nota importante: o autocarro estava quatro minutos atrasado.

Segunda nota importante: como se pode ser estrangeiro num mundo em que se conhece tanta gente tão bonita?

Terceira nota importante: ser estrangeiro em todo o lado é não o ser em lado nenhum. Quem é de algum lugar é de todos os lugares.

Das qualidades visíveis e invisíveis

Um pai não pode - não deve sequer - impedir-se de se sentir orgulhoso ao aperceber-se uma vez mais de que a sua filha é, numa cidade de mulheres belas, a mais bela que ele viu hoje.

(Isto para não mencionar a inteligência, simpatia, educação e essas qualidades todas que não se vêem mas estão lá).

Colonialismo, só não vê quem não quer ver

Se alguém precisar de uma prova, mais uma, de que os países colonialistas exploraram, sugaram, sangraram, espoliaram os países colonizados deve comparar a riqueza deles durante a colonização com a riqueza post-colonização.

Salta à vista, como dizia o ceguinho da esquina da rua onde eu apanhava o metro.

2.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 02-02-2017

Fica definido de uma vez por todas: doravante para mim a imagem de Genève é a de uma filha que me espera no aeroporto ao volante do seu automóvel, "pernas intermináveis como o futuro" (o elogio foi primeiro e há muitos anos dedicado à mãe dela), ponto de luz e beleza numa noite negra e fria.

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Compasso de espera em casa de JvH até poder ir para casa de S. J. é um gentleman e Ch. uma senhora. Moram numa vivenda bonita e humana nos arredores próximos de Genève. Falamos muito, J. e eu. Estamos de acordo no essencial e discordamos cordialmente no resto.

Posso ter azar com muitas coisas; mas com os amigos não tenho. Encontrei amigos que me escolheram. É uma sorte. Quem tem amigos assim não pode ser má pessoa, por mais que tente parecê-lo.

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O programa é simples e fácil de cumprir: escrever, ver amigos e a família, escrever, passear, ver amigos e família, escrever.

É a vantagem das coisas que chegam quando têm de chegar e não antes nem depois.

1.2.17

Diário de Bordos - Lisboa, 01-02-2017

Por muito inglês que me sinta quando em Londres estou num pub ao fim do dia a beber uma ale, ou americano quando como um hamburger numa casa decente como a de West Palm cujo nome me escapa; ou francês quando vou ao Chez Janou em Paris ou ao Cana'bar ou ao Vin des Rues; ou em Espanha a tapear ao fim da tarde e percebo estas gentes todas porque viajo para trabalhar e durante o dia estive com eles, esse dia e os outros todos que já foram muitos em muitos sítios e por isso me sinto de onde calha estar. Por muito que... nada chega aos calcanhares do português que sou quando como um cozido numa tasca e bebo meio de tinto e remato com uma bica e uma amarelinha caseira (quando a há, que os cabrões da ASAE andam aí a ver se fazem disto um paraíso asséptico, anódino, indiferente).

Não sou patriota, porque pátria é uma coisa esquisita, um acidente histórico e geográfico, político e social que me diz pouco. Sou português; é muito melhor, mais difícil, profundo e perene.

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Perguntei ao senhor que vende castanhas à frente do Avenida Palace - um senhor que inspira imediatamente confiança, comprar-lhe-ia castanhas de seguida se gostasse de castanhas - e ele disse-me que o melhor a engraxar sapatos ali na zona é o "Surdo, à frente dos Correios". Não sei se é o melhor; sei que é muitíssimo bom e que deve ser difícil encontrar quem o bata; com a vantagem adicional (para mim, claro; ele deve ter uma opinião diferente) de ser surdo e provavelmente mudo - o preço, ao fim de uma cuidadosa e meticulosa engraxadela, é indicado por meio de um pequeno papel plastificado -; ou seja, não há conversas sobre o golo de ontem, o que fez ou disse o presidente de um clube hoje (só conheço o nome de Pinto da Costa, um ser que à primeira vista me é profundamente repugnante e à segunda também). O serviço é feito com competência, concentração e dedicação total. Os sapatos estão prontos para afrontar o mês de paragem que os espera.

Enquanto ele me engraxava os sapatos eu observava os transeuntes. Só um homem, de entre as dezenas que passaram tinha sapatos de engraxar. O resto era tudo aquelas abomináveis sapatilhas. Acho uma pena que se deixe desaparecer uma profissão tão necessária, importante, estruturante mesmo, se pensarmos a cidade como um todo. Para não mencionar o mau gosto, claro. Sapatilhas são para jogar ténis ou correr, não são para andar na cidade.

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Hoje à noite avião. Já me estava a parecer muito tempo, um mês e meio sem pôr os pés num. Felizmente é curta a viagem e à chegada tenho uma filha à espera. (Cada minuto vai contar por dois, eu sei; porém uma vez lá o tempo terá passado a voar).

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Levo um monte de livros portugueses para ler. É desta que me vou pôr em dia com a literatura portuguesa recente.