18.5.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-05-2023

A BH Glasgow branca não pára. Está feliz e eu também. Vemos finalmente o comboio sair da estação. Ainda com solavancos mas pequenos e cada vez menos. 

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Venho ao STP. A sensação é a mesma de sempre: sou um tarado sexual a entrar num bordel. Apesar de muitas delas hoje estarem vestidas, coitadas: estamos na fase da pintura e é proibido pintar ao ar livre. Defende-se o ambiente e de caminho o porta-moedas dos fornecedores. Uma tenda destas chega aos cinquenta mil com uma facilidade desconcertante. Ainda por cima (ou por baixo) esconde a este miúdo fascinado pelo fogo as formas das belezas.

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Vou comprar o Gurit. Dar cem paus por uma porra que vou usar uma vez chateia-me. É indecente, mesmo não sendo a massa minha. Mas se fizer o serviço com resina normal o preço será o mesmo. A única diferença é que não vou ficar com uma porra duma pistola a bordo que não serve se não para aquilo. 

Pode sempre servir e talvez a consiga vender.

[ADENDA]

Uma das coisas de que eu gosto neste trabalho não é uma. São duas: a) trabalhar com profissionais; b) ser reconhecido por eles. A empresa que vende o Gurit chama-se BM Composites. Expliquei o que preciso de fazer, o vendedor e eu discutimos alternativas, conversámos um bocado até que chegou à fase dos preços. O produto em si não é muito caro, é o preço habitual para resina epoxy. O que me dói é o preço da pistola para aplicar aquilo. Cem euros por uma porra que se vai utilizar uma vez é «ridículo» (aspas porque cito um dos vendedores, que entretanto se juntou à conversa). A certa altura conto que já tentei comprar uma em segunda mão e digo «Vocês deviam era alugar essas coisas». «Já tentámos. Aliás nem as alugávamos. Emprestávamo-las. Mas ninguém as devolvia e deixámos de fazer isso.»

Salto pormenores. Saí de lá com a resina e a promessa de que o Ricardo pode lá ir buscar a pistola quando chegar à aplicação. É bom. Sobretudo quando se pensa que para os standards locais o meu P. é pouco mais do que um salva-vidas.

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Resultado: segunda vou para Lisboa de coração muito mais leve. A ver se irradio felicidade, como ontem no Jaume, se as injecções tiverem resultados e se a operação ao olho esquerdo correr bem e se conseguir ir à apresentação do livro do Alberto Gonçalves em vez de ir para Menorca. 

Outro resultado: nem a sesta dormi.

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Já não são apenas os copos, as mulheres e o aquecimento global que me abandonam. Agora, a cada esquina dos dias também a paciência se me esvai, deixa-me sozinho sem sequer um copo na mão ou uma mulher a quem me queixar. E cheio de frio, o que não ajuda.

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N. pertence a um tipo de mulher que me atrai ainda antes de começar a falar. Nem sequer posso acrescentar «apesar de falar»: é atraente mesmo quando fala.

Sati - Eutanásia

Os indianos tinham uma prática interessantíssima, humaníssima, que consistia em queimar as viúvas, vivas, juntamente com os corpos dos maridos mortos. Independentemente do número de esposas: um homem que tivesse quatro mulheres e morresse - venham mais cinco para a pira funerária.

Os ingleses acabaram com essa prática, com o pretexto paternalista e colonialista de que era desumana e cruel. Os indianos foram burros: se tivessem chamado àquilo eutanásia teria passado sem espinhas e ainda hoje poderiam queimar as senhoras à vontade. 

17.5.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-05-2023

Isto começou tudo com a hesitação habitual: "aonde é que vou almoçar?" e prosseguiu com a resposta de sempre: ao Mercat de l'Olivar. A que se seguiu a pergunta óbvia: "ok, mas aonde no Olivar?". "Ao Lucca". "Então vai ser preciso ir à Anita para esperar". "Claro. Porque não?" Passo os passos e os pormenores do vivo diálogo interno e vou directamente àquilo a que só se pode chamar "uma história palmitana". A Anita tem um vermute novo. Chama-se Montseta Grifo Reserva. Não vale um Madre nem um Padrón mas anda lá perto; e ganha pelo prazer da descoberta. Já a carbonara do Lucca ganha por ser igual à de sempre: feita com guanciale, sem um pingo de natas, pouco ovo, tagliatelle feitos ali à nossa frente... Quem quer saber o que é uma carbonara deve vir à Botegga Bolognese. Até lá, abster-se de mencionar o termo carbonara é uma obrigação, uma questão de ética. 

A mulher do Lucca faz limoncello. É o que bebo agora. Tudo isto acompanhado por dores lancinantes no ombro direito, numa espécie de batalha pela minha atenção. Adivinhem quem ganhou?

Acerta quem responder: "Tudo isso e um gelado de maracujá no Claudio". Só se consegue perceber porque é que em italiano, francês, inglês ou espanhol o maracujá se chama fruto da paixão depois de ter comido este gelado. Antes disso não passa de uma designação como outra qualquer.

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A resposta ainda está incompleta. É preciso acrescentar: tudo o acima mencionado mais um golaço de hierbas secas da Pamboleria e um Tramadol. Estes últimos já a bordo e mesmo antes da sesta. Agora sim: perante tão desigual luta a dor abandonou o campo de batalha, desistiu e deixou o terreno livre à alegria.

Um dia sem sesta é incompleto, como um carpinteiro a quem alguém tivesse cortado a mão direita e ele devesse aprender a trabalhar com a esquerda.

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A versão longa da história implicaria contar que andava a morrer por um polvo à galega, de que o melhor em Palma é o do Jaume, que está frio e portanto pus o meu casaco de linho branco e por baixo uma espécie de não-sei-quê também branco e bonito, que os restos da alegria do almoço sobreviveram à sesta e se reforçaram com algumas boas notícias (ou acções, se preferirem) da tarde e que portanto assim indumentado - roupa, alegria, bicicleta (branca também) - fui ao Jaume beber um vermute e comer polvo. Esta seria a versão longa. A versão curta: na porta estava um casal a fumar, pedi licença e entrei. Uns dez minutos depois eu estava a comentar com o Jaume a qualidade do vermute Padrón (elevadíssima, como tudo o que sai daquele balcão) e o senhor da porta entra, ouve-me falar com o patrão, de quem ele é também amigo e diz-lhe (referindo-se a mim): «quando o vi entrar comentei com a [não-sei-quantas] Este homem tem cara de homem feliz e agora vejo que também sabe viver.»

Comme quoi um casaco de linho branco por baixo de um panamá e por cima de uma qualquer-coisa branca e uma mão-cheia de boas decisões são coisas irradiantes. 

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Sobretudo as boas decisões, penso. Tenho fnalmente uma data para sair daqui. Acabou o limbo da indecisão. O próximo destino é Blanes, onde em princípio passarei o Verão. Estive lá há pouco mais de quarenta anos e só me lembro da praia, que era de nudistas e onde vi, no meio de toda a gente em pelota, uma família constituída por pai, mãe e (creio que) dois filhos vestidos dos pés à cabeça. Pareciam um bloco de granito pousado no meio do areal, um dólmen no meio de um prado.

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A má notícia do dia foi que é pouco provável que consiga ir à apresentação do livro do Alberto Gonçalves, que é no dia vinte e nove de Maio em Lisboa, no Grémio Literário, para quem isto possa ser de interesse. Para mim é e muito, mas enfim. Vamos ver se o L. mantém a sua decisão de me mandar a Menorca nesse dia, coisa que quanto a mim está tudo menos garantida.

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O Antiquari está a abarrotar e tive de vir para a cave. Poderia ser o lugar ideal para escrever se não fosse o raio do vai e vem permanente das escadas. Muito mija esta gente, bolas. E não sabem subir ou descer sem fazer barulho, parecem elefantes a andar em cima de tambores. (Nota explicativa: elefantes é como os franceses chamam aos terráqueos, precisamente porque não sabem andar sem fazer barulho. Há uma maneira de andar num barco para não incomodar quem está em baixo, coisa naturalmente desconhecida de quem não frequenta embarcações, essa espécie de tambores com velas ou motores.)

16.5.23

Diário de Bordos - Marselha, França, 16-05-2023

Chego ao aeroporto mais de quatro horas antes do voo. Quase cinco, na verdade. Se isto não é o recorde absoluto anda lá perto. Estava farto (já não me posso ouvir dizer a palavra cansado. Hoje fica farto. Amanhã veremos). Nem de ficar num café sentado a beber rum ou vinho tinha vontade. Raio da injecção dissolveu-me as gorduras e com elas foi metade de mim. Visitei duas livrarias: uma pequena chamada L'Odeur du Temps e outra grande, Maupetit. Ia à procura do Sapiens et le Climat, que encontrei na segunda. Agradável surpresa: o livro tem letras grandes e é facilmente legível. 

Já não posso dizer que compro livros que não leio: avancei bem na Neurociencia del cuerpo e este também há-de ir. 

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Consegui finalmente voltar ao El Falafel mas foi uma desilusão. Estupidamente caro para o que é. Os meus amigos judeus que me perdoem: tão cedo não volto lá. Antes o Mas de Lulli, mesmo à frente, que era aonde íamos quando acabávamos tarde e não havia nada aberto nas redondezas. De agradável do almoço retenho apenas a quantidade de clientes de kippa. Numa cidade em que árabes e magrebinos estão em todo o lado uma quipá é uma mudança agradável.

Aborrece-me ter perdido o Point desta semana. Trazia um excelente artigo sobre o anti-semitismo em França. Desmontava muito bem a capa de anti-sionismo com que os anti-semitas tentam dar-se um ar de respeitabilidade.

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Há ventos assim, perturbantes. Nos Alpes dizem que o foehn endoidece. Não sei o que dizem do mistral nestas paragens*. A mim irrita-me, enerva-me, cansa-me. (Verdade seja dita: poucas são as coisas que não me cansam, seja física seja psiquicamente, seja as duas ao mesmo tempo, a maioria.)

* - Não dizem nada de bom.
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[ADENDA]: Certas coisas sendo como as cerejas, o voo - ainda não o disse: é Ryanair. A diferença de preços era avassaladora - está atrasado.

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Saimos com três quartos de hora de atraso, mas há boas notícias: o voo é operado pela Lauda Air, que sempre é melhor do que a do irlandês. Não há nuvens só pretas. 

Prazeres raros

O maior prazer de um optimista é poder demonstrar a um pessimista que ele (pessimista) está enganado.

É tão raro.

15.5.23

Diário de Bordos - Port-Saint-Louis-du-Rhône, Camargue, França, 15-05-2023

Ao contrário do que o C. M. me disse (e eu intuía), Port-Saint-Louis-du-Rhône não é um buraco. É um abismo. Tive sorte no hotel, ao menos isso: pelo mesmo montante que o de Marselha aqui tenho direito a um quarto grande, limpo (não precisei de pedir uma esfregona - que não havia - nem de limpar os pelos da barba do hóspede precedente), bonito e bem arranjado. Cada vez tenho menos disponibilidade para espeluncas. Deve ser da idade, suponho. Ou de outra coisa que não sei nomear. Ou ainda de outra que sei: falta de paciência. Seja o que for: este quarto é bom e o hotel restaurante La Plage é um havre em Port-Saint-Louis-du-Rhône, um abismo de néant e mediocridade (com a possível excepção até agora da Pizzeria de la Tour - aonde, aqui entre nós seja dito, se come melhor do que no restaurante do hotel. O qual, por outro lafo, tem a vantagem de ser mais bonito, coisa de que ando sequioso, estes dias).

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"Vento, tanto vento. / Há só vento no meu país." Bom, isto não é o meu país (apesar de ser a minha língua favorita, mas isso é outra história). Mistral a vinte e cinco, trinta nós. Em terra, este vento cansa-me, irrita-me.  Aliás, quase preferiria tê-lo no mar. Ali estaria de certeza ocupado e talvez preocupado. Em terra só estou chateado.

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O A. foi uma decepção. Não estava à espera de encontrar grande coisa. Está ainda pior. Tenho pena dos senhores, um casal de velhotes canadianos que passou uns anos maravilhosos no barco a navegar pelo Mediterrâneo. Como muitos, pensam que isso valoriza o bote, puseram-no à venda a um preço absurdo, o barco foi para seco, onde está há cinco anos. O resultado está à vista: um barco que começou no mercado a oitenta mil euros não vale mais de dez mil.

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Resultado: três dias perdidos num buraco. E há quem pense que esta vida é um glamour infinito.

(ADENDA: há um Sélection à venda. Amanhã ligo ao proprietário. Pelo menos não terei perdido tudo.)

14.5.23

Diário de Bordos - Port-Saint-Louis-du-Rhône, Camargue, França, 14-05-2023

Não desejo a ninguém que tenha de vir a Port-Saint-Louis-du-Rhône (espero ter finalmente acertado nos hífens). Mas se for obrigado a aqui vir, sugiro-lhe o restaurante Pizzeria de la Tour. Se eu o tivesse visto (o nome, não o restaurante) não teria sequer considerado parar, quanto mais sentar-me. É essa a beleza dos preconceitos quando explodem: provar por A + B que estamos enganados é uma inigualável fonte de alegria. Não comi pizza porque o restaurante tem muito mais propostas, uma das quais "sugestões do dia" (aspas porque cito). Neste caso, gambas num molho qualquer que não retive. Retive, isso sim e reterei por muito tempo o gosto do dito molho, o moelleux do arroz, a delicadeza dos cogumelos que completavam o prato. Penso na daube de ontem, no Le Point que comprei hoje e grito Vive la France! com toda a força do meu silêncio. A revista começa com um artigo de Franz-Olivier Gisbert sobre o anti-semitismo, continua com uma entrevista a uma senhora anti-woke, tem um deliciosamente irónico texto de Patrick Besson e o resto fica para depois.

Hoje à tarde tenho trabalho pós-sesta. Amanhã vou ver o A. Terça-feira vem o surveyor e vou para Palma, aonde o meu P. deu um grande salto em frente. Como sempre, o nó desatou-se de uma vez (ligeiro sorriso sarcástico).

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Viagem pela Camarga, uma região plana e verde como uma mesa de bridge mas cheia de água. É uma zona pantanosa e há há em todo o lado. O olhar divaga até ficar preso nas tão inevitáveis como nojentas eólicas. Ligo a seguir, os pórticos do porto de Fos-sur-mer. Em Lisboa já temos três destes absurdos monstros. Tanta planície enche-me a alma: sou um rapazinho sensivel à verdade, ao absoluto. Mas da alma a paisagem foge-me para a razão  e penso que viver aqui deve ser como viver num cemitério: calma nais plana não há. 

Para viver prefiriria as montanhas do Jura, por exemplo, que são como os Alpes mas menos rugosas, mais arredondadas. Mas perto do mar, se faz favor.

(Cont.)

13.5.23

Diário de Bordos - Marselha, França, 13-05-2023

Desta vez não me apetecia nada vir a Marselha. Enfim, ainda não me apetece, na verdade. Mas a magia opera na mesma. Chegar à estação de Saint-Charles, ir à esplanada ver a catedral (aqui conhecida por Bonne Mère), descer a escadaria, percorrer a Canebière, chegar ao Vieux Port. Desta vez não foi bem assim porque estava a chover e vim de metro, mas a sequência foi essa. Seja no metro seja a pé vê-se bem o catálogo de feições mediterrânicas que Marselha é.

Chego ao hotel, um desses meias estrelas onde fico quando não quero gastar muito dinheiro. É barato (comparativamente) e está super bem situado, mesmo no centro mas numa rua calma - o que não é propriamente uma surpresa pois foi exactamente por isso que o escolhi.

O restaurante judeu (chama-se Falafel) está fechado. Todos os restaurantes judeus de Marselha estão: é sábado. Acabei no Bouchon Provençal por indicação do senhor do Café des Arts, aonde dantes ia beber rum. (Hoje pedi vinho tinto sem sequer me lembrar do pastis. Esta mudança tão radical de hábitos não deixa de ser intrigante.) O tal Bouchon é esplêndido, apesar de não ser precisamente aquilo que eu procurava: uma coisa parecida com o Vin des Rues, na parisiense rue Daguerre do meu coração. Mas isso é difícil de encontrar. É preciso passar muito tempo numa cidade, deambular-lhe as ruas e os passeios. O Vin des Rues fechou, mas vocês vêem onde quero chegar. O Bouchon fica pelo menos um patamar acima do outro na escala de aburguesamento. 

Amanhã vou para Port-Saint-Louis-du-Rhône, verdadeiro objectivo desta viagem. Mas isso fica para amanhã, precisamente.

Hesitar

Hesitar é bom.

"São os capitães demasiado seguros de si que perdem os seus navios." 

(Joshua Slocum.)

11.5.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10 / 11-05-2023

No fundo o que está a acontecer é aquilo que eu sabia iria passar-se: encontrar gente para trabalhar Abril e Maio em Palma é como encontrar um venezuelano pontual. Existir existem, mas só nos contos de fadas. Os mais honestos, como a Ferdinautic ou o Ricardo, dizem «Estou num trabalho e quando acabar vou aí» e continuam «Não sei quando vai acabar.» Os outros dizem «Amanhã ao meio-dia estarei aí» e nãos vejo nem amanhã nem ao meio-dia. A excepção a esta regra é a Rigging Point, aonde a Rosa C. agora trabalha. A senhora fala alemão fluentemente e imagino que metade do cérebro lhe veio de lá. Não sei. Sei que o pessoal dela já desmontou o cachimbo e amanhã vai lá (ao meio-dia) para ver a retranca. Aposto que amanhã ao meio-dia estarão lá.

No dia em que vir o primeiro cliente do primeiro charter entrar a bordo compro uma caixa de cava e bebo-a sozinho.

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O mundo é feito de razão e de emoção, ou de razão e de desrazão para quem preferir. É preciso equilíbrio, uma dose certa de cada. Infelizmente as palavras sucedem a esse equilíbrio, não o precedem nem o provocam. Ao princípio não era o verbo, ao princípio era a Razão, depois apareceram os sentimentos e foi do diálogo entre os dois que apareceram as palavras.

Talvez não seja muito exacto como génese, eu sei. Espero que ninguém me pergunte como é que a Razão se manifestava. O edifício metafórico desmoronar-se-ia imediatamente. 

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Comecei finalmente a terapia com analgésicos. Por enquanto «panasêtãmole». A malta que é contra os produtos químicos deve ser novinha.

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Hoje (11/05) Lisboa e sábado Marselha. Nunca tive tão pouca vontade de ir a Marselha, tanto mais que nem sequer é Marselha: é Port Saint Louis-du-Rhône um buraco na foz do Ródano (o que não me habituo a esta palavra...) que serve basicamente de plataforma de intercâmbio entre tráfego fluvial e tráfego marítimo. Nunca lá estive. Fui lá uma vez deixar um bote e meti-me no autocarro para Marselha. Desta vez é provável que tenha de lá ficar dois ou três dias.

Cresci a ver navios e parece-me que vou envelhecer também.

9.5.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-05-2023

Chego tarde e exausto ao mercado, já a fechar. Um mercado na hora do fecho é como uma mulher bonita depois do amor. A mistura de cansaço e satisfação - a que por vezes se dá o nome de saciedade - é irresistível.

Hoje percebi porque é que andar de bicicleta na cidade é mais repousante do que o automóvel. Os outros carros, bicicletas, peões, motas, scooters, trotinetas, camiões de entregas, patins, semáforos, sentidos proibidos, tão fáceis de evitar quando se pedala mal nos vêem ao volante de um carro saltam-nos para cima com a voracidade de tigres esfomeados, garras de fora e bocarra aberta para nos morder e amolgar o ego e a chapa. Amanhã entrego-o sem um bocadinho de luz traseira. A ver quanto é que o Egidio me vai cobrar por aquilo.

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Encontrei finalmente uma senhora bonita, eficaz e não muito cara para me fazer uma limpeza no P. Quase preciso de óculos escuros lá dentro, de tão brilhante ficou. Sexta começa um dos principais trabalhos que há para fazer e amanhã vou tratar da pintura da retranca, um dos poucos trabalhos de estética que conseguirei fazer. Não fazer os acabamentos como deve ser é como sair à rua com sapatos diferentes mas muito mais enraivecedor.

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Venho à Cantina transferir as fotografias da máquina - o cabo apareceu, provavelmente tão impressionado como eu pela beleza da senhora (jovem senhora) colombiana - e aproveito para beber um rum e um café. A meio misturo Coca-Cola (enfim, Pepsi). Deve ser o segundo beta dos últimos dez anos - não deve haver melhor medida para o cansaço.

Está a passar um jogo de futebol na televisão e como de costume há urros e suspiros. Um dia lerei os livros do Morris e do outro que o D. me sugere cada vez que falo de futebol no FB. É pouco provável que mude de opinião, mas pelo menos ficarei a compreender qualquer coisa.

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Sexta-feira tenho a reunião com o potencial curador. Se um dia alguém me dissesse que um dia teria um curador numa exposição minha responderia de certeza com um olhar trocista e uma observação do tipo «Sim, isso e uma exposição no MoMA». Bem, o curador já tenho e para a exposição a galeria onde ela terá lugar já excede bastante as expectativas. Ainda por cima o plano é lançar o terceiro livro ao mesmo tempo - não é bem dois em um, é tudo em um. O universo em um.

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Continuo a detestar deitar no lixo coisas ainda utilizáveis. Acho que nem nómada como deve ser sou. Suponho que seja o mesmo mecanismo que me leva a nunca deixar de amar as mulheres que já amei.

(Não é: a «culpa» é delas e das qualidades delas, não dos meus defeitos.)

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Viver com uma dor crónica é uma experiência interessante. É quase apaixonante ver o muro que a dor interpõe entre nós e o mundo, entre nós e os outros. É como se de repente olhássemos para tudo através de um espelho daqueles que deixa ver e tudo o que se vê nos reenvia a nós próprios. Nunca estamos ausentes da paisagem. Nem de nós, de resto. 

Hoje decidi voltar a tomar analgésicos, ver se me esqueço de que existo.

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Cheguei a bordo. Chove, fui afastar as adriças do mastro e esparramo-me finalmente no cansaço, no silêncio e no tamborilar da chuva. Parece contraditório mas não é. 

Parafraseando

Há mar e mar, há mar e Palma.

As palavras e as coisas

Há alterações climáticas desde que há clima. Contudo, só há "alterações climáticas" desde que essa expressão existe. São coisas diferentes, apesar de serem designadas pelas mesmas palavras.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha 08-05-2023,

O dia foi grande e não cabe nesta noite, na qual me aninho dobrado como um feto num ventre. Consegui finalmente pôr o comboio em movimento e neste momento tenho a retranca à espera do orçamento, tenho um para o lazy bag, o Ricardo a bordo a tratar dos paneiros e, cereja, vou a Port Saint Louis-du-Rhône ver o ANDANTE. Se isto não é um dia não sei o que é um dia.

Outra cereja: a Rosa C. trabalha agora na Rigging Point, com o Dimitri. Rosa é o melhor shipchandler com quem me foi dado trabalhar desde que pela primeira vez entrei numa loja de aprestos marítimos (chandler, para os amigos). Reencontrá-la no activo foi um prazer sem fim - e a certeza de que tudo o que no "meu" P. depende de um rigger vai avançar.

Não sei o que é um dia as sei o que é uma noite: a manobra que fiz na adriça para a afastar do mastro só resultou parcialmente e ainda tenho esse odioso barulho a chatear-me a entrada no sono. Com menor frequência, é certo: um falhanço não precisa de ser total para ser falhanço. Enquanto não vir os panos envergados e o bote pronto a andar não acredito em vitórias.

De maneira no sábado em vez de regressar a Palma voo para Marselha e, com um bocadinho de sorte, de lá para a Sardenha. Talvez. A ver vamos, como dizia o ceguinho. 

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Contra o que é o meu hábito comprei um bilhete de ida e volta para Lisboa. Tenho de deitar o regresso fora porque, como é meu hábito, não comprei seguro de anulação. Das poucas vezes que o fiz e precisei deles não serviram de nada. Hábitos contraditórios... Mesmo asssim, penso que no fim mais barato do que comprar os seguros, que isso sim, é deitar dinheiro ao ar. 

O que eu lamento o desaparecimento dos bilhetes open date.

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Jantar no Bastian Contrari: preço normal para uma qualidade muito acima da norma, como sempre (sempre sendo as três ou quatro vezes que lá fui. Prefiro preços abaixo da norma a qualidade acima dela. Ou então conciliar os dois.

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A minha luta contra o uso de anglicismos pára quando chega à minha profissão. Loja de aprestos marítimos em vez de shipchandler, actividades marítimo-turisticas em vez de charter, (?) em vez de fittings (para os brandais)? Por amor de Deus! Não é só uma questão estética. É como dizer H2O em vez de água ou chamar transformador foto-clorofílico a uma folha de árvore. 

Não é,  M. M.? (A pergunta não é retórica. Gostaria mesmo de ter a tua opinião.)

7.5.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 07-05-2023

Mais uma noite "tempranita", mas desta consegui vir ao 7 Machos. Pedi nachos para não ser acusado de imprecisão na comparação. Não é que estes sejam melhores. É que vêm de outro planeta. Devia haver uma lei contra os maus restaurantes. E contra os maus marinheiros, claro. E outra contra os maus escritores, os maus dançarinos, as mulheres feias, contra o excesso de barulho e de gente. Enfim, devia haver leis contra tudo aquilo de que não gostamos. É o que "eles" fazem, não é? Leis contra aquilo de que não gostam. Pois bem, "nós" devíamos ter o mesmo direito.

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Comi os nachos e fiquei cheio e pedi um taco pastora porque são uma delícia e um mezcal especial porque é bom e é para isso que me encho de comprimidos e injecções e o diabo a quatro: para poder viver como quero.

Um dia, se Deus e a carcaça quiserem hei-de vir aqui com o meu neto Leonardo e com a neta cujo nome não sei ainda (gostaria muito que fosse Laura) e ensiná-los-ei a pôr o picante na borda do prato e não em cima da comida e quando disser borda piscarei o olho ao rapaz, coisa de homens e a rapariga não perceberá a alusão e depois de comermos eles irão à vida deles e eu deitar-me, como agora, saciado, comprimido tomado com um gole de hierbas secas para poupar água.

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Estão à procura de pessoal no 7 Machos. Metade das lojas, cafés e restaurantes da cidade está. Neste ainda me disse que se me pagassem em margaritas talvez pensasse duas vezes, mas claro que era piada, nem morto trabalharia num bar assim outra vez, já não tenho idade para nada e muito menos para olhar para a beleza insultuosa das raparigas, insolente como alguém uma vez disse, não fui eu mas é como se fosse.

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Foi um rico jantar, é o que é, a fechar um domingo mediano. Verdade seja dita: um domingo mediano em Palma é melhor do que muitos muito bons em muitos sítios. A Rambla cheia de flores, o cheiro era magnifico e enchia o espaço todo entre os plátanos como se estes fossem muralhas, a  temperatura no ponto certo, a BH a deslizar por ali fora como um patinador em gelo bem duro e eu em cima dela, deixava-me levar como se descobrisse a cidade, guiado pelo cheiro das flores e pela luz matizada da Primavera. 

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Amanhã vai ser a luta de sempre, telefonemas a pedir aos fornecedores para pelo menos virem a bordo - é o equivalente náutico de "só nas bordinhas", suponho, mas estes são sabidos e não se deixam levar - pagar mais uma tranche ao A., falar finalmente com o italiano de Menorca, maldizer a Câmara Municipal de Oeiras que levou mais de um ano para nos dar um papel que nos tinha dado e depois retirou, ligar à Gwen para relançar o projecto do livro sobre as Baleares... Enfim, fazer tudo o que faço e faz disto uma vida, apesar de não parecer, parecer só fragmentos, retalhos, colagens.

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O P. não vai ficar como eu queria que ele ficasse e isso enche-me de uma tristeza inenarrável e que sobretudo não quero antecipar agora.

Dia de tudo o que fiz

É dia da Mãe (ou das Mães, não percebi bem) e a Rambla tem ainda mais floristas do que o costume e estas ainda mais gente e não é sequer uma da tarde, o que significa que é de manhã. Palma-a-Calma está linda e suave ao contrário do que prometiam as previsões meteorológicas.

Nunca liguei a estes dias disto, daquilo ou daqueloutro. Um palerma qualquer num escritório qualquer num sítio qualquer decide que hoje é dia da Mãe, amanhã dia do ouriço-caixeiro e depois de amanhã dia da pescada do Cabo e metade do planeta esquece que todos os dias são dias da Mãe, do pé direito ou da dor de cabeça. Com o Natal é pior ainda, com o Halloween, datas feitas para ajudar o comércio (nada contra, note-se) e fazer a malta converter sentimentos em massa. Prefiro gerir os daqueles que tenho, já que desta tenho pouca. Ainda há dias encontrei o P. M. de B. à porta do clube, falámos do meu Pai e desatei num choro apesar de não ser dia do Pai. Choro sempre, de resto, quando alguém me fala nele e no homem que era (sem adjectivos. O pai de cada um de nós é o melhor homem do mundo e dispensa-os). Ou como quando penso na minha Mãe, que era uma Senhora e teve um fim pacífico e morfinado. Os dias disto e daquilo não passam disso mesmo: dias. O isto e o aquilo dependem de cada um de nós. É como se fizessem um dia da dor crónica. Pata que os pôs, mai-los dias.

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Telefonei (felizmente) para o Ipanema, mas estão cheios até às três e meia da tarde. Acabo a comer uma "paella" no café Roma, um sítio a que talvez achasse piada noutras circunstâncias. Paella leva um quilómetro de aspas: aquilo é "arroz com coisas", aspas porque cito. Passo aqui à frente quase todos os dias, parei uma vez para uma cerveja e hoje para isto. Podia arranjar-se um dia dos restaurantes de merda, não? Ou dois, que ontem já não foi brilhante. E neste tenho o privilégio de ver entrar o N., uma espécie de atrasado mental em cuja casa vivi vários meses. O homem não me cumprimenta, não percebo bem porquê. Proponho a criação de um dia do pobre de espírito com São N. como padroeiro.

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Penso na minha escultura de cera. Que será feito dela? Que será feito do que fiz, de tudo o que fiz?

6.5.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-05-2023

Está a chegar aquela altura do ano em que Palma-a-Calma deixa de o ser. Por enquanto, ainda só nos fins-de-semana. Em breve será todos os dias. Hoje o dia começou tarde, almocei tarde e para a noite queria só uma coisa leve e rápida. A solução óbvia é o 7 Machos, mas aquilo estava insuportável. Os putos e as miúdas (aqui está um exemplo de palavra que muda de sentido consoante o género) decidiram celebrar as despedidas da vida de solteiro em grandes expedições colectivas e punitivas, barulhentas e ridículas e o 7 Machos é um dos alvos favoritos. Acontece que tenho cada vez menos paciência... ia dizer para grandes grupos, barulho e confusão, mas creio que não preciso de compartimentar a falta de paciência. É abrangente. É para tudo. Acabei por vir ao Xolotl, porque fica perto e quero ir para bordo dormir e se possível sonhar.

É uma merda. Poderia elaborar, mas um restaurante mexicano que nem nachos sabe fazer não merece o tempo que leva a dizer mal dele. (Ao meu lado dois maricas elogiam a comida. Um deles reparou na Kaweco com que comecei a escrever este post e fez-lhe um elogio igualmente rasgado. Há gostos de todas as formas e feitios. A Kaweco é bonita, sim.)

De modo hoje vai ser beliche tempranito. Amanhã é outro dia. O avanço destas quase duas semanas foi mortalmente lento, a promessa de ontem não se concretizou (mas isto sendo o Mediterrâneo a porta não está fechada, está como estava ontem, entreaberta), quinta-feira vou a Lisboa por causa da exposição de fotografia (e não só, mas isso fica para depois), o Ricardo vai poder avançar no interior esses três dias e eu vou poder pensar no meu interior: de quanto tempo precisarei para o remendar?

Solidão, inconveniente

O único inconveniente da solidão é que fica muito cara.

Centrifugar angústias

Declaração de interesses: conheço a Rita Tormenta e somos amigos. 

Não sei quem disse que uma boa fotografia é um fotograma que se salvou de um filme que se perdeu. Ou algo assim: a citação não é nem pretende ser verbatim. Os poemas do primeiro livro da Rita Tormenta (Centrifugar Angústias a 1600 RPM, ed. Mental) fizeram-me pensar nessa máxima, com «poema» no lugar de «fotografia» e «biografia» no lugar de «filme»: os poemas desse livro são pedaços de vida traduzidos em poesia. É fácil imaginar as biografias de que foram parte - se calhar até é só uma - mas fácil não significa simples. São poemas que dizem muito mais do que aquilo que dão a ler, condição sine qua non para a poesia aceder à qualidade de boa (a poesia e não só, na verdade).

De vez em quando aparece uma pequena «escorregadela» - um brasileirismo, uma vírgula fora do lugar - mas não suficientes para estragar o prazer que é ler estes pedacinhos de vida carregados de sensibilidade, de melancolia, de humanismo

O livro é pequeno, tem uma capa bonita e as fotografias de João Gata contribuem em muito para o prazer de o ter entre mãos.

Dúvidas, inquietações

É mentira que o que conta é o futuro. Se fosse verdade, os velhos suicidar-se-iam em massa. O que nos mantem vivos é o passado e o futuro - o daqueles que amamos e dos que amámos. O presente não passa de uma sucessão de dores, inquietações e dúvidas.

5.5.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-05-2023

Desde que cheguei a Palma - creio que em 2011 - tenho vivido nas redondezas do Mercat de l'Olivar (salvas raras excepções e considerando o RCNP «redondezas»). Para quem não gosta de supermercados o Mercat era o supermercat, o mercado. Durante a pandemia o Mercat foi o meu refúgio, o meu porto de abrigo, pelo menos enquanto se lá podia ir sem ter de usar máscara. E depois também, mas deixemos isso para depois. Ou seja: tenho assistido à sua evolução.

[Entracto. O dilema do conservador é terrível: a mudança não traz nada de bom e a permanência ou é pior ainda ou só perpetua o que é mau.]

Palma tem três mercados principais: um é puramente local / mediterrânico / magrebino (Pere Garau), outro é puramente turístico / desinteressante ( Santa Catalina) e outro é uma mistura dos dois (adivinharam). Neste último, a proporção de maiorquinos e de visitantes, para não utilisar palavrões, tem vindo a mudar. E os preços, claro, acompanham a mudança. Apesar de tudo. continua a ser um dos meus poisos favoritos em Palma e sê-lo-á muito tempo, aposto. A mistura turismo e pandemia é uma Panzerdivision a toda a força, imbatível e o tempo é outra, ainda mais imbatível e ainda mais Panzer. Passemo-lo em revista: o Lucca continua a fazer o melhor tiramisu da galáxia, tem uma grappa de cair para o lado (de prazer, não de intoxicação) e - ele há milagres - ainda tinha guardada a garrafa de limoncello que lhe encomendei o ano passado. É a mulher dele que o faz. O meu léxico de superlativos é insuficiente para o adjectivar, portanto ficamos por aqui. O Cristian está na mesma, o Maños - desde que o Aurélio saiu, na verdade - está pior (demasiadas galinhas sem galo. Os homens e as mulheres são complementares e um sem o outro fica desequilibrado), o Xisco fantástico, como sempre. Feitas as contas, o saldo é bastante positivo. Viva o conservadorismo! 

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Encontrei finalmente uma saída para o impasse em que estava com o P. Já só preciso de encontrar mais meia dúzia delas para os outros impasses, mas isto devagar vai.

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Este fim-de-semana vai chover e resfriar, mas hoje o tempo está lindo e Palma com ele. Deixo aqui uma declaração de amor a esta cidade, assim memso pública e impúdica, gritada do alto do meu teclado. Amo-te, Palma.

4.5.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-05-2023

Pouco a pouco, muito devagar, aterro. Isto de fazer manobras delicadas com mau tempo de todos os lados não é fácil. Por entre as nuvens alguns raios de sol espreitam. É neles que tento concentrar-me, mas esta estratégia tem limites: se não atentarmos aos temporais o mais provável é acabarmos nas pedras à entrada do porto. Estou em pleno acto de malabarismo emocional. Faço um bocadinho de terapia de retalho: hoje comprei uma Kaweco igual à que estupidamente perdi há poucos meses. E um bocadinho de terapia de mim: telefonei ao médico do Porto ver se me pode operar para a semana, ver se ponho o olho esquero a ver, finalmente. Exagero, claro, mas isso faz parte da terapia: pintar tudo negro e depois rodeá-lo com uma cinta de cor, como se estes dias se fossem um quadro de Rothko. Daqui a pouco vou jantar ao Jaume: faz parte da terapia. Tenho sorte: terapias não faltam. E tenho a maior delas todas: esta mistura de paciência e resiliência que me faz safar-me de todos os temporais, sejam eles reais ou... ou... ou o quê - Inventados? Metafóricos, estúpido. Metafóricos. Não é por isso que são menos reais.

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O meu P. avança devagar, ele também. Esta altura do ano é a pior: toda a gente está a preparar os barcos para o Verão e os fornecedores de serviços não têm mãos a medir. Preciso de toda a diplomacia, jeito e capacidade de persuasão para os conseguir ter a bordo. Até agora tive um a sério e meia dúzia de promessas. É como no rugby: quantos se transformarão em pontos? E sobretudo: quando?

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Jantar no Jaume: estava com vontade (não é o termo correcto: necessidade) de comer sobrasada. Sublime, claro. Compra Ferrerico, (como eu, três pancadas no peito) e ensinou-me que, ao contrário do que eu pensava, as dimensões das sobrasadas têm um impacto no sabor, porque quanto maiores são mais tempo levam de cura. A que comi hoje é a dimensão seguinte à sobrasada (não encontro o nome. Amanhã cá estará). [Adenda: Poltrú e afinal não é a categoria seguinte. Amanhã haverá pormenores.]

Dali vou procurar um sítio para beber uma piña colada (a que uma amiga chama pila coñada, no que para mim é o melhor trocadilho do século) e quase sem querer acabo no Lisboa (agora Novo Lisboa). Entrei porque estava vazio, devo dizer e espero lá voltar nas mesmas circunstâncias. O barman chama-se Adriano, é italiano, pensa que ter o povo no governo é um erro porque o roubo é inevitável («se eu lá estivesse e me chegasse um árabe e me dissesse "dou-te um milhão para isto" eu dar-lhe-ia o que ele me pediu, porque nunca tive um milhão na vida» e termina com a frase que me tocou mais: «Eu penso», diz, «que ser socialista é uma doença.» Mencionei-lhe o meu post de ontem e prometi-lhe que voltaria. Ainda por cima, as pilas coñadas estvam excelentes. Há muito tempo que não bebia um cocktail e estes vieram com tripla recompensa. A começar pelo nome do bar, que era uma referência em Palma até o socialismo fazer das suas. Talvez ainda seja, não sei. A verdade é que não gosto muito de Santa Catalina - com a óbvia excepção do Sete Machos - mas este gajo vai fazer-me mudar de opinião.

Descubro com espanto que dizer aquilo que penso da Armengol me traz mais amigos do que animosidades. A mulher está apostada em destruir Palma, mas não o fará sem resistência.

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No bar da Cantina está sentada uma senhora que tem um riso excessivo. É agordalhada e penso que hoje, ao ouvir outra com o mesmo, pensei que as senhoras gordas têm mais tendências para risos excessivos. Pergunto-me se será verdade ou se é coincidência.


(Cont.)

Parvoíce, masoquismo

A diferença entre um masoquista e um parvalhão é que o masoquista paga para ser insultado e o parvalhão paga e é insultado. Parece pequena mas não é.

3.5.23

Socialismo: maldade ou estupidez?

A presidente do governo das Baleares, uma senhora chamada Armengol que além de ser socialista é completamente idiota - é comum, mas relembro aos mais estouvados que correlação não é causalidade - prepara-se para legislar uma limitação às rendas.

Maiorca sofre de um problema semelhante ao português (se bem eu não tenha a certeza de que as causas são as mesmas) e a palerma da senhora (isto é a vitória do feminismo: mulheres iguais aos homens) acha que a solução é limitar as rendas por via legislativa.

O resultado é conhecido e não vale a pena perder-se muito tempo com ele.

As questões são outras:

a) A mulher sofre do conhecido síndroma "socialismo científico" e pensa, como qualquer socialista que se preze, esquecendo tudo aquilo que a história e a experiência ensinam, que se pode aplicar às interacções humanas os princípios lineares da física newtoniana? Desconhece o conceito "efeitos perversos" (ou "inesperados", para os mais ingénuos)? Ou,

b) A senhora está a par disso tudo e sabe que medidas populistas, demagógicas, contraproducentes dão, apesar de tudo, alguns votos porque a iliteracia económica é vasta e prefere tentar ganhar umas eleições que sabe - ou adivinha - perdidas à custa de exacerbar um problema já de si grave?

Responda quem sabe. Eu não sei.

Temporais e outros líquidos

Durante os temporais, os marinheiros antigos tinham o hábito - bastante eficaz - de deitar óleo ao mar, a barlavento, para aplacar as vagas.

Eu faço a mesma coisa com rum ou, se estou em Palma, hierbas secas. É igualmente eficaz.

Passado, estética

O Pintxos y Latas mudou de dono e consequentemente de nome.  Agora chama-se bar Azul e está mais ou menos na mesma, com excepção da fachada, que passou a ser azul. Gostava mais da anterior, mas algo me diz que se daqui a dez anos alguém o comprar e pintar a fachada como estava o ano passado não faltarão vozes a dizer "o azul era mais bonito".

O passado tem um talento para a estética de que pouca gente suspeita.

Uma rica viagem

O avião estava sobreaquecido, a cerveja e a lasanha (que a hospedeira se esqueceu de me trazer) mornas, a cadeira tinha a almofada estragada, chegámos com uma hora de atraso e desta vez não acho muita piada a estar na parte alfandegada do aeroporto porque estou exausto. Mas nada disto é o pior.  Nunca, nem no tempo dos emigrantes portugueses e respectivas "máquinas de filmar" vi uma mistura tão grande de mau-gosto, pimbalhada, tatuagens grotescas, mulheres obesas (mais elas do que eles) e foleirice nas mais variadas formas. Isto não é uma empresa, é um dispositivo de espoliação das classes indigentes.

À minha frente na fila para a imigração está um senhor bem vestido, de blazer beige claro, panamá elegante, ar distinto, tanto ele como a mulher. Fico contente por não estar assim (mesmo assumindo que poderia ter um ar distinto, o que é tão provável como uma pedra de gelo sobreviver no Sol): tem o aspecto de quem se enganou no autocarro e foi parar ao bairro errado.

Uma das razões que me fez aceitar esta combinação de voos foi a possibilidade de ter o dia todo em Dublin... Verdade seja dita que disto não me posso queixar muito. O dia só ficou chato a seguir ao almoço no Celt. Até lá foi instrutivo.


2.5.23

Diário de Bordos - Dublin, Irlanda, 02-05-2023

A última tarde em Dublin foi passada a esperar ardentemente a ida para o aeroporto. Sabendo quanto gosto de aeroportos não deixa de ser inquietante. Mas enfim, ajuda pelo menos a perceber porque é que Beckett, Joyce, Wilde e os outros se puseram a cavar daqui, desta amabilidade lhana, honesta - não é sequer como a genebrina, que se vê à légua ser fingida e superficial - destes prédios todos iguais, duma monotonia esmagadora, excepto em alguns quarteirões mais recentes. Fui ao James Joyce Center, que tem muito de James Joyce e pouco de Center, tentei ir ao Museu da Emigração mas a dezoito euros o bilhete de velhinhos aquilo é para velhinhos ricos, tentei ir ao porto mas era longe, fui a um pub que tem um nome engraçado - chama-se Flowing Tide e ao princípio tomei aquilo por Floating Tide - mas acabei no meu bem amado Celt. Sou de amores rápidos: esta foi a segunda vez que fui ao Celt, mas o raio do lugar tem tudo o que faz de um pub um pub adorável. A começar pela luz, que consoante o sítio onde estamos sentados ora põe tudo a preto e branco ora faz ressaltar algumas manchas de cor aqui e ali, como gotas de um cocktail numa toalha branca - ou cinzenta, neste caso. A comida é decente, os preços dementes - o choque que apanhei a primeira vez em Kinsale já se desvanecera nas vagas da memória, claro - a empregada menos simpática do que a de ontem, mas pronto, lá passei um bom bocado (nos dois sentidos do termo bom). Depois fui dar um passeio pelas ruas pedestres do centro - não se distingue particularmente de outras ruas pedestres, excepto eventualmente para um conhecedor de marcas: a única que vi que conheço foi a Marks and Spencer, mas uma loja é uma loja, chame-se Marx ou Groucho. Há uma livraria pouco atraente, ainda parei em mais um pub horrível chamado Parnell, tresandava a peixe frito e tinha luz como um café de província português. 

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De maneira cá estou no aeroporto. Na bagagem emocional levo a apresentação do livro do V. no museu judeu, o jantar de aniversário da sua esplêndida namorada, o Celt e - só isto justificaria a viagem - a visita à The Last Bookshop, um alfarrabista que é o modelo paradigmático de todos os alfarrabistas. Digo paradigmático não só por pedantice mas também para não dizer abençoado ou santificado ou bendito ou algo assim, relacionado com a santidade. Comprei dois livros e hoje a caminho do aeroporto apercebi-me de que só paguei um mas já era tarde para lá voltar, de forma agora tenho uma poderosa razão para regressar a Dublin, mesmo que a culpa do «roubo» involuntário não tenha sido minha (e o montante seja pequeníssimo). Suponho que houve um problema com o sinal da máquina que o jovem senhor usou para processar o pagamento, coisa que de resto não me surpreende absolutamente nada: não deve haver muitos sinais que atravessem aquelas pilhas e pilhas de livros em todo o lado. Vá lá, pelo menos um passou-as. Resta saber se foi a do Joyce ou a do Don de Lillo.

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Fiz poucas fotografias. A luz estava uma merda e de qualquer forma nunca passei da primeira camada da cidade. Não sou daqueles fotógrafos (não sou fotógrafo de todo) que mal chegam a um sítio vêem o ângulo certo, a focal a usar... Já uma vez por aqui escrevi que fotografo como amo e ainda por cima desta vez o wifi da máquina não estava a funcionar bem e e e... Paciência. Haverá mais vezes. Há dois ou três recantos da cidade de que gostei - um deles as imediações do museu judeu, por sinal muito perto da escola onde Beckett estudou, isto ando tudo ligado.

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Oito euros um sumo de laranja e uma barrazita de chocolate. O que eu adoro esperar em aeroportos não tem descrição. Ainda por cima o avião atrasou-se mais de meia-hora. Quando penso que há quem não goste da TAP só me apetece urrar.

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Estou no meio de uma tempestade perfeita, com ventos de todos os lados, mar piramidal, voltas de mar a rebentarem-me no convés (atenção, isto não é uma aula de meteorologia do mau tempo), frentes quentes, frias e oclusas, cristas de altas pressões, aguaceiros, nevões. Tudo ao mesmo tempo, tudo de todos os lados. Não admira que a serenidade de Dublin me tenha saltado tanto aos olhos. Que contraste com o meu tumulto interior. Enfim, tumultos, no plural.

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ADENDA: Afinal o avião está atrasado uma hora e vinte.

1.5.23

Diário de Bordos - Dublin, Irlanda, 01-05-2023

Dublin é uma cidade em paz consigo própria. Inspira harmonia e expira amabilidade. Imagino que ao fim de algum tempo seja mortalmente aborrecida, sobretudo para artistas quando jovens. Para não-artistas velhos é bastante agradável. 

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O sistema de transportes públicos funciona bem: do hotel tenho autocarros para onde tenho ido. O único problema está nos pormenores, um problema habitual para quem tenha vivido na Suíça. É uma dúvida permanente,  esta: se o demónio está nos detalhes, a Suíça é a terra deles ou a terra onde não vivem? Por exemplo: o sistema de informação das paragens a bordo dos autocarros. Aqui já me enganei duas vezes (admitidamente devido à habitual mistura de distracção, negligência e burrice). Em Genebra não consigo enganar-me, por mais que tente: os monitores que indicam as paragens não o permitem, porque discriminam não só a próxima paragem mas também as três ou quatro seguintes (e a quantos minutos estão, um suíço sem um tempo seria como o mar Morto sem sal). Outro exemplo: os solavancos. Contudo destes não vale a pena falar. Não são pormenores. 

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Fui à The Last Bookshop, prometendo a mim mesmo que seria só para fazer duas ou três fotografias e não para comprar livros.

Cumpri metade da promessa.

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Voltemos à questão de há pouco: se o diabo está nos pormenores, a Suíça é um país de diabos ou um país sem eles?

Aceito palpites, achismos e opiniões fundamentadas. (A minha resposta - se a tivesse - seria uma mistura dessas três. Felizmente não tenho, o que remete a pergunta para as categorias "retórica" e "como adormecer esta noite".)

Inveja

Anda por aí muito escritor que escreve mais do que lê. Cada vez que penso nas agonias por que passo a cada vírgula tenho inveja deles.

Pobre sim, miserável não

Pode ser-se pobre, mas não se deve ser miserável. A linha que separa as duas é muito fina e não depende só da conta bancária. Há miseráveis com mais dinheiro do que muitos Senhores pobres. (Senhores vai de caixa alta, para se distinguir.) A pobreza é involuntária - com a possível excepção dos franciscanos, dos místicos indianos e dos marinheiros (e dos artistas, relembra-me a B., adorável artista). Ser-se miserável é uma opção. 

30.4.23

Diário de Bordos - Dublin, Irlanda, 30-04-2023

 Chuva, frio e pubs: a primeira imagem de Dublin não é propriamente uma surpresa. Já a sujidade das ruas (pelo menos das duas que até agora vi) é mais inesperada. Depois lembro-me da quantidade de pessoas que vi ontem à chegada (meia-noite) e a surpresa desvanece-se. Sábado à noite é sabado à noite e domingo de manhã a manhã seguinte, em todo o lado.

Saindo do centro as ruas compõem-se e a obesidade continua pervasiva. Compreende-se porquê: peço um café e uma bolacha e esta tem mais chocolate do que farinha. Provavelmente para justificar a obesidade do preço, vá saber-se. O B&B aonde ficarei estas duas noites é longe do centro, num daqueles quarteirões de casas matriciais de tijolo encarnado nas quais se imagina facilmente a burguesia que Beckett tanto desprezava. Hoje muitas estão convertidas em B&B (aposto que escolhi o pior deles...) bordejando uma rua larga cheia de automóveis  a toda a velocidade e de árvores enormes e paradas, a recuperar do inverno. O frio continua, o meu casaco de linho branco é notoriamente insuficiente e esqueci-me do computador na pensão. 

O pretexto para a vinda foi a apresentação do livro do V. V., em inglês e tudo. A verdadeira razão é que ando há anos para conhecer esta cidade e precisar de me afastar do P. e das suas rotinas. Eis-me portanto travestido de turista cultural (não há turismo existencial, pois não?)

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Qualquer pessoa medianamente culta conhece o Trinity College, mesmo sem nunca ter vindo a Dublin. Beckett deu lá uma aula que ficaria famosa nos anais da pedagogia moderna: uma hora a olhar para a janela, sem dizer uma palavra. (Essa ideia seria retomada mais tarde por Pirsig, no seminal Arte do Zen e da Manutenção de Motocicletas.) Hoje passei pelo Trinity, cheio de gente. Não sei qual a janela que Samuel usou para manifestar o seu profundo desinteresse pelos alunos, pelos dublinenses, pela Irlanda, pela profissão e a única coisa que retive foi a quantidade de pessoas. Não era propriamente um mar de gente mas andava lá perto.  Fica para outro dia. Por hoje fico com o tamanho daquilo: é enorme. Há muitos anos em Paris aconteceu-me o mesmo com a torre Eiffel, ou quase.

Conhecer a cidade fisicamente, passar da teoria à prática é isso: ser esmagado pela terceira dimensão. As duas primeiras só são apelativas intelectualmente. Passar para três faz entrar os sentidos na equação.

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Sou o pior turista do mundo e o pior é indiferença que isso suscita em mim: é total. Importo-me tanto com as minhas fracas qualidades de turista como com o que a minha avó fazia das fraldas dos quatro filhos que teve.

De modo que o dia de hoje acaba como começou: comigo cansado  a percorrer Dublin de autocarro no sentido N - S primeiro e depois no inverso.

Afinal o B&B é bastante agradável. Suponho que os pessimistas o são para poderem apreciar as inevitáveis boas surpresas. Talvez só diverjamos na quantidade destas.

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A Ryanair é a pior companhia do mundo. Não é só na categoria "companhias aéreas". É em todas. Hesitei antes de comprar o regresso com ela e vejo agora que devia ter hesitado mais. O sacana do irlandês percebe a potes de transporte aéreo mas o desprezo que tem por quem lhe pagou a fortuna só não é insuportável porque tem uma justificação: é mais do que merecido. Aceitar ser tratado como merda para poupar meia dúzia de euros é desprezível 

Enfim, de três em três ou quatro em quatro anos é necessário refrescar as alembraduras.

(Cont.)

29.4.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-04-2023

Que dia! Só me apetece beber rum e comprar roupa de linho, duas coisas que já fiz mas em quantidades notoriamente insuficientes. Além disso, esqueci-me de ir à Zara buscar a almofada que lá está reservada - mas não paga. Pode reservar-se mas não se pode pagar.

Palma está impossivel. É fim de semana e os city breakers inundam a San Miquel, a Sindicat e as outras todas por onde costumam andar. Ainda por cima, segunda é feriado. Penso como será isto no Verão, se agora já não se pode circular de bicicleta em metade das ruas.

Que se lixe. Vou passar o fim-de-semana a Dublin, ver o V. e conhecer a cidade. Com sorte, ainda irei buscar a almofada e beber mais um rum. Deixo a roupa de linho para depois. Comprei um casaco e um par de calças, deve ser suficiente até daqui a dez anos. Há demasiado barulho em todo o lado.

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Fui à Zara buscar a almofada,  tão miserável como confortável desculpa para beber mais um rum. Resta saber onde: na Cantina, no Antiquari, no Jaume? Um faz-me desconto, outro tem runs sublimes, outro  ainda nafa disso... Não sei.

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Estamos em dias de feira náutica e à habitual e inúmera quantidade de mulheres bonitas de Palma juntas-se a habitual e inúmera quantidade de mulheres bonitas dos boat shows. Sobretudo este, que é só de mega-iates para cima.

Um inferno, é o que é. 

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Há um exercício de malabarismo difícil mas que toda a gente devia conhecer: é o equilíbrio muito instável entre ser pobre e ser miserável. Aquele não tem nada de errado, este é um nojo desde a letra m até à letra l.

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Acabo no Atlantic, que de horrível só tem a música, a decoração e a barmaid (esta não tanto, mas enfim). É um clássico e por isso nunca cá ponho os cotos. Tem o Jaume de estar fechado e ser demasiado cedo para o Big Foot.

Um rum bebe-se depressa, os olhos fecham-se e a rapariga - magra, alta, espigada e loura, igual a cerca de quatro milhões de outras - mal se deixou ver.

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A única parte desagradável de uma viagem de avião ocorre entre a ida para o aeroporto de embarque e a saída do de desembarque. Antes disso e a partir daí é só prazer.

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Consegui finalmente comprar a BH ao Ivo. Dei-lhe a Órbita e um par de zeros. Ficámos os dois a ganhar. 

Gosto do Ivo. As suas actividades consistem em filosofar e reparar, alugar e vender bicicletas. Sob dois princípios de base: trabalhar o menos e o melhor possível, duas coisas geralmente antinómicas mas que ele concilia maravilhosamente. 

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Uma série de primeiras vezes: na parte alfandegada do aeroporto de Palma (felizmente o cartão de cidadão é suficiente), em Dublin, na Ryanair sem ser por razões profissionais (desta não estou seguro a cem por cento, mas não faz mal), primeiro voo na Aer Lingus (o voo está atrasado...)

Única surpresa: a dimensão desta área do aeroporto. Não é tão grande como a outra, mas é enorme.

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O restaurante onde dantes havia Warstein e wurst variadas acabou e foi substituído por uma merda sem nome que vende sandes de presunto manhoso e ovos estrelados com batatas fritas.

Acredito na entropia, mas bolas, não é preciso espetarem-me com ela a cada passo.

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A senhora do táxi que me trouxe ao aeroporto diz que vai votar Vox, por causa da gestão da pandemia. Há pelo menos um partido português que poderia pensar nisto, se não fosse tão tarde.


(Cont. - a sério?)

27.4.23

Iris, vidas

Quantas vidas tem um homem? A única maneira de responder é: tantas quantas as mulheres da vida dele. Eu tive três mulheres da minha vida. Ou seja, tive três vidas. Só? Tive mais. A minha teoria é falsa. Ou me faltam mulheres ou me faltam vidas. Ou então, uma das mulheres conta por várias vidas. Essa mulher chama-se Iris (pronuncia-se Áiris, a senhora é inglesa) e anda agora a passear o seu esplendor por Paris. Ou seja: anda a dar vida a Paris, que tão pouca tem. A questão é: de onde lhe vem essa vida, a que ela dá a Paris? Vem de mim? Não. Vem dela? Sim. A Iris tem mais vida do que um gato tem vidas e eu tenho eus. É de resto por isso que eu gosto dela: gosto da vida e a Iris tem muitas, vidas, vida.

Neste bar, cujo nome nunca recordo mas onde vejo a Iris a cada milímetro quadrado, bebo um rum como ela o beberia se aqui estivesse. Infelizmente não está: passeia-se por Paris (e a minha vida com ela).

O bar onde estou chama-se Big Foot, vi agora no menu. Pedi mais um rum e descobri que ainda amo a Iris, apesar de não a ver há anos. Deve ser a isso que se chama "a mulher da minha vida": amo-a de um amor que não dói, uma ligeira mas permanente dor de cabeça, tão ligeira que se toma uma aspirina e a dor não passa e pensa-se "Não faz mal. Posso viver com esta dor". Com este amor, que eu sei me vai acompanhar até ao fim dos meus dias, mesmo que nunca mais ponha os olhos (ou as mãos, sonhar não custa) na Iris.

Há amores inevitáveis, amores cuja força vem não da intensidade mas da permanência. Estão sempre lá, mesmo que a pessoa que caminhe ou durma ao nosso lado seja diferente. Eliot tem um verso sobre isso, aliás. 

"Who is the third who walks always beside you? 
... 
There is always another one walking beside you."

Invisível para os outros (e outras), a Iris está sempre ao meu lado. Eu é que não estou ao lado dela, mas isso é outra história. 

26.4.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-04-2023

Entro em Palma como me despedi de Lisboa: passo a passo, porta a porta. Xisco, Paz (não estava, mas comprei um monte de postais, tenho a escrita em atraso), Joan, Bradley (este é noventa por cento trabalho, de que gosto tanto como do que não o é), Joan outra vez, Plaza Mayor, François (outra vez, não estava em nenhuma das duas mas o Antiquari continua o Antiquari). Tal como, de resto, o bar Rita: um porto de abrigo ao qual só falta a Rita, a outra, apesar de a sua ausência - a da Rita - lhe dar mais densidade, mais peso, mais inevitabilidade. Como seria o bar Rita com a Rita, a outra? Seria possível? Podem não acreditar, mas sim, seria possível. É sempre possível mais Rita, mais paz, mais harmonia, mais beleza, mais solidão.

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Reencontro a alegria infantil de ser recebido em todo o lado de braços abertos, sorrisos de orelha a orelha, abraços apertados. É infantil? Sim, claro. Mas alguém tem alguma coisa contra a alegria das crianças?

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Continuo a desembaraçar novelos de linhas profissionais e pessoais, todas misturadas. É extenuante. 

O que eu gosto de situações extenuantes não tem descrição.

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Passei pela Babel mas estva fechada, tal como de resto a Paloma, que fica ao lado. Reservei uma mesa no Tom para amanhã. Regressar a Palma é como reatar com um velho amor: a palavra que mais se ouve é «lembras-te?»

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O Antiquari é o único bar que conheço que tem mais mulheres do que homens. Estou na sala da frente: dez pessoas e eu. (Depois não venham dizer-me que não sou feminista, por favor.) Das dez, pelo menos sete são bonitas (e ainda há quem pense que não sou um esteta). A escolha de runs é fraca, mas o Barceló salva tudo. A música continua excelente e num volume quase imperceptível, o que é só um nível acima do que devia ser.

O Antiquari é um cantinho de Paris em Palma e um cantinho de mim na vida.

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Aluguei a BH ao Ivo, que como de costume me fez um preço favorável. Se tivesse de fazer um pódio de bicicletas, ficaria assim: em cima a Alps, à direita a BH e à esquerda a Órbita (a única que é minha, o que é uma excelente metáfora da minha vida).

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Penso no peso da inevitabilidade de que acima falei. É o único peso suportável, não é?

É.

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Reencontro com alegria o meu uniforme: bermudas (hoje azuis) e pólo branco. Vai ser assim até Outubro, mutatis mutandi. (Em Setembro vou à Suécia buscar um barco. Duvido que este uniforme sirva.)

Resistência

A tecnologia deu voz à imbecilidade, à indigência intelectual, à incapacidade de dialogar (ou sequer de perceber raciocínios, mesmo simples). Essas coisas não são novas - basta ter frequentado tabernas e cafés para o saber - mas agora têm voz e a audiência excede largamente o balcão de mármore de antanho.

Isso é bom, sem dúvida; mas a inteligência, o bom-senso, a Razão não devem ceder às superioridades numérica e de volume da incultura. É preciso manter ilhas de resistência no meio dos oceanos da "indignação" (entre aspas porque é uma metáfora).

(Para o Miguel A. Baptista, uma dessas ilhas.)

25.4.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-04-2023

Regresso a Palma, regresso a casa. Às casas: Núria e Roberto, Cláudio, Gibson, Puente, Cantina, numa desordem total, tão cronológica como afectiva. Estou cansado, exausto, só me apetece beber mais um rum no Gibson mas nem a empregada acha necessário: não me liga nenhuma, não vem perguntar-me se quero mais um. Hesito. Penso nas casas que tenho para visitar nos próximos dias: Jaume, Joan, os dois do Gustar de cujo nome nunca me lembro (Tom e Fidel), François, a Insular para comprar postais e enviá-los às pessoas que não estão aqui e deviam estar,  porque contribuem tanto para fazer da cidade o que é como as que cá estão. 

(Da função social/essencial da ausência.)

.........

Estou-me tão nas tintas para o 25 de Abril como para o Natal, a Páscoa ou o aniversário da senhora Idalina da mercearia. 

Não sei se estou mais vezes sozinho do que acompanhado por ser assim ou se sou assim por.... etc. Venha o diabo e escolha.

Ou diaba, se preferir.

(As feministas deviam pensar nisto: referimo-nos sempre aos demónios, diabos e outros males no masculino. Cf. mal, mâle, males, mâles.)

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Não devia ter pedido o segundo rum no Gibsons, eu sei (ou melhor, sabia). Mas que é um regresso senão acumular arrependimentos? (Afogá-los?)

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A gravidez do P. está quase a acabar. Terá durado um pouco mais de cinco anos, quando finalmente eu pegar no bote para o levar para a Costa Brava.

Terá a montanha parido um rato? Ou um rato a montanha?

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É fácil viver sozinho: basta saber dançar com a solidão. Imagine-se uma longa valsa, maravilhosamente dançada nas maravilhosas ruas da cidade por um casal do qual só se vê uma das pessoas, seguido num travelling fluido, sinuoso e escuro. Uma valsa bonita, bem dançada. Viver sozinho é isso, se bem nem sempre a valsa venha bem dançada. 

Presentes, ausentes

Uma cidade é feita de pessoas, repito-me. Não é feita de pedras, monumentos, ruas bonitas ou prédios desenhados por arquitectos XL. É feita de e pelas pessoas que habitam esses prédios, povoam essas ruas, flirtam nos seus bares e cafés, comem gelados feitos por outras dessas pessoas, as presentes. 

Mas uma cidade é também feita de pessoas que não vivem lá e estão longe e nós gostaríamos de ter ao nosso lado quando passeamos nas ruas, olhamos para os prédios e comemos gelados numa esquina.

Uma cidade é tão feita de presentes como de ausentes. Uma cidade somos nós: tu, eles, eu. Nós.

24.4.23

Arcos-íris

Já percorri todos os arcos-íris do mundo... Enfim, todos não. Milhares deles. Nunca encontrei um pote de ouro. Talvez não os tenha percorrido até ao fim. Talvez eles tivessem o ouro mais profundamente enterrado do que eu cavei. Talvez não fossem arcos-íris auríferos. Talvez alguém la tivesse chegado antes de mim. Talvez - mais simplesmente - não haja ouro de todo no fim deles.

O ouro é difícil de encontrar. Ninguém vai usar um anúncio gigante para indicar onde está o tesouro. Os verdadeiros tesouros estão escondidos, não se vêem à vista desarmada. 

Apesar disso, os arcos-íris são belos. Apetece tocar-lhes, percorrê-los com a palma da mão até ao fim e por vezes, até, resistir à tentação de esgaravatar a terra em busca de mais um tesouro. O que temos na mão chega. Ou nos olhos.

Culpa, clima

Todas as religiões pensam que o Homem é culpado de tudo, se bem sóo cristianismotenha o conceito de pecado original. O catolicismo inventou a fórmula "Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa" (a dizer batendo no peito) que tem por função exorcizar essa culpa. A religião ambientalista encontrou o CO2 como bode expiatório - é a função do demo no catolicismo - e portanto atribui à humanidade a culpa de fenómenos que ela não pode de todo controlar. O clima anda a mudar há milhares de anos - graças à paleoclimatologia já se tem uma visão relativamente clara dessas "alterações climáticas" - mas a necessidade de se bater no peito é transversal a todas as religiões. O ambientalismo consegue, contudo, o prodígio de ser mais nocivo do que o catolicismo: o Armaggedon climático é para amanhã e se não nos arrependermos o Apocalipse seguir-se-lhe-á inevitavelmente. Infelizmente, para os crentes ambientalistas, para salvar a humanidade não basta bater no peito e dizer mea culpa: é preciso levar a civilização ocidental à miséria para nos salvarmos todos - ao contrario do cristianismo, que é uma religião individualista (a salvação é individual) - o ambientalismo é uma religião colectivista (ou nos salvamos todos ou morremos todos. Não é por acaso que os ambientalistas atribuem ao capitalismo, a que eles chamam neoliberalismo, o papel do Demónio). 

É curioso ver que as outras grandes religiões - o Islão e o Budismo - não produzem outras sub-religiões laicas. Nos paises budistas e muçulmanos os movimentos ambientalistas são inexpressivos.  

O ambientalismo devia criar um mecanismo individual de expiação da culpa e deixar de acreditar que o homem tem poder sobre mecanismos que claramente o excedem. A hubris ambientalista vai dar mau resultado, como todas as hubris.

22.4.23

Diário de Bordos - Lisboa, 22-04-2023

«Silêncio orgânico», Vai entre aspas mas não me lembro a quem ouvi esta noção fundamental. Creio que foi na apresentação do livro da Rita Tormenta, O Pequeníssimo livro de ti, mas não tenho a certeza. Não tenho a certeza de nada, já aqui o disse tantas vezes que lhes perdi a conta. Não tarda começam a chamar-me Luís Não Sei, em vez de Luís Miguel (já ninguém me chama assim...) Silêncio orgânico é melhor do que silêncio telúrico, por exemplo, que é uma contradição nos termos. A Terra fala, diz hoje a D. G. num post. 0 - 23 Hz, diz ela, se bem eu não perceba nada disso. Lá está - mais um «não sei» a juntar-se aos outros. A D. é tão pouco tonta quanto é bonita e inteligente: isto é, bastante; por isso tendo a acreditar no que ela diz, se bem não acredite em esoterices. Não si como se pode medir uma frequência de zero Hz, por exemplo. Ou pode? Não sei.

Ainda da apresentação: «um bolo de chocolate denso e pesado». Não me lembro a que se referia. Não gosto de bolos densos e pesados. Aliás, não gosto de nada que seja denso e pesado. Gosto mais de coisas etéreas e leves, como todas as coisas são quando somos felizes. Só quando não o somos elas são densas e pesadas. Vamos a ver e a leveza ou a densidade estão em nós e não nas coisas ou nos bolos de chocolate.

Tão pouco gosto de chapéus espalhafatosos. Chapéus ou outra coisa qualquer cuja função seja dizer aos outros «Olhem para mim, vejam quão original sou». Os meus chapéus são clássicos, escolhidos a dedo. Infelizmente é muito raro os panamás durarem-me mais do que um Verão. Já os de Inverno duram mais. Decidi começar a diversificar o meu guarda-chapéus. Mas só com formas clássicas. Não sou um tipo muito original e dou-me bem com isso. 

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Ando a dar voltas ao penico para não falar do essencial: o terceiro livro e a exposição de fotografia, ambos a caminho. Verão o dia juntos, se tudo correr de acordo com o plano. Lá para Outubro, Novembro. Inch'Allah.

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Amanhã vou a Torres Novas, passar o domingo. Volto na segunda, com uma imensa lista de coisas a fazer antes de ir para Palma, para o P. Ninguém saberá definir  impaciência se não souber por que estou a passar: é como se estivesse a nadar numa piscina de impaciência.

Torres Novas é a terra de origem da família da minha Mãe, mas não terei muito tempo para fazer genealogia no terreno. Teria vontade, se o tivesse? Duvido. 

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Um dos piores períodos da minha vida está a chegar ao fim mas vai ser preciso esperar antes de o ver: talvez a D. G. saiba explicar-me quanto tempo levam Hertz negativos a desvanecer-se. E que marcas deixam, como cicatrizam.

PS - Com a chuva regressa um velho dilema: é melhor regar pouco muitos jardins ou regar poucos correctamente?

Gastar dinheiro

Há uma maneira de gastar dinheiro digna, apaixonante, dionisíaca, catártica, ritualística, exorcizante, simultaneamente profilática e terapêutica, sacrificial: gastar dinheiro como um marinheiro bêbedo. E há a outra, desinteressante, estúpida, desgraciosa: gastar dinheiro como um marinheiro sóbrio.

Um bom marinheiro tenta gastar dinheiro apenas quando está bêbedo. Sóbrio, só compra coisas de que realmente necessita, como chapéus,  canetas de tinta permanente e vinho tinto.

ADENDA: um marinheiro bêbedo gasta dinheiro para provar que sobreviveu. Está vivo e pronto para a próxima. Venham mais cinco, qu'ainda não foi desta que fui desta para melhor. Nada a ver com a sobre(sub)vida e respectivos gastos mais planos do que o tampo desta mesa onde o copo de vinho espera, paciente, a minha atenção. 

20.4.23

Ir a bancas

Acontece muitas vezes: a fome da alma e a do corpo confundem-se, manifestam-se uma na outra. "Estou a morrer de fome", pensas-te e vais ao Roda Viva, comes metade do prato que o Chamba tão amorosamente preparou e está bom de morrer e chegas a meio e não consegues comer mais, porque quem estava com fome era a alma e não o corpo e ir ao Chamba é como ir a bancas (1) para a alma.

(1) - Ir a bancas: (náutico) meter combustível.

Harmonia

A parte boa do cansaço é um tipo chegar à cama e sentir que está a dissolver-se. Essa é a verdadeira harmonia: a do corpo com um bom colchão.

Nuvens, contornos

Os ingleses dizem que não há nuvem negra que não tenha um contorno a prata. Confirmo e acrescento: não há nuvem de prata que não tenha um contorno preto.

17.4.23

Diário de Bordos - Lisboa, 17-04-2023

No dia seguinte à noite em que tomo Flexiban para dormir fico mole, molengão, preguiçoso. Hoje foi um desses dias. O que me chateia mais é ter tomado a porcaria do comprimido por preguiça, simples preguiça: de suportar as dores do ombro direito (mas ao Flexiban acrescentei um Tramadol, maldita mandriice), preguiça de pensar na R., de pensar no P., de pensar tout court, preguiça de tudo. Depois de um dia extenuante a não fazer nada, quase nada - dois ou três telefonemas, um e-mail, duas micro-compras - peguei na bicicleta e vim por aí abaixo a pedalar o mais devagar possível, o estrictamente necessário para a manter na vertical, até ao Señor Ibérico, o meu espanhol favorito de Lisboa e de algumas partes de Espanha. Esta tortilha bate-se de igual para igual com as melhores de Palma, apesar de levar cebola, coisa que acho prescindível numa tortilha. É onde agora bebo um copo de tinto enquanto espero pelo M. e oiço dois gajos insuportáveis na mesa ao lado. Não sei se são brasileiros, portugueses ou espanhóis - o espanhol deles é fluente, isento de sotaque e quando falam português por vezes descambam para o brasileiro. Porém, seja qual for a língua que falam só dizem disparates. Dois machos alfa nos trinta e muitos, quarenta e poucos que me fazem sentir um esboço de uma sombra de um princípio de simpatia pelo feminismo. Felizmente foram-se embora pouco depois do M. chegar. 

Está calor, uma temperatura que acompanha bem a gentileza das pessoas (em geral, não especificamente dos dois primatas da mesa ao lado) e a moderação dos preços. Que mais há a prender-me em Lisboa? Os amigos, a cultura, as livrarias (estas são parte do item anterior), os sítios como o Señor Ibérico, as coisas que aqui vivi. Nada que não se encontre noutro lado qualquer? Há mais uma: olho para os prédios à minha volta e sei como são por dentro, apesar de nunca neles ter entrado.

Não sei. Esta é a expressão que mais me vem à mente nestes últimos tempos. Espero que ceda rapidamente o lugar a outra. Qual outra? Não sei.

15.4.23

Estultícias

Há pessoas com quem discutir (no sentido de conversar, debater ideias) é a mesma coisa do que explicar a um louco no manicómio que um funil na cabeça não faz dele um Napoleão. Começa por nos retorquir que não percebemos nada de funis e menos ainda de napoleões, continua a revelar-nos que na verdade há uma cabala escondida para descredibilizar os portadores de funis na cabeça e promover os que vêem nos regadores de plantas um meio de controlar a humanidade e submeter o mundo vegetal à escravidão e acabamos a ser acusados de estultofobia pela turba à volta.

14.4.23

O velho que escrevia cartas (a si próprio)

O homem escrevia cartas a si próprio, de tão só. Aplicava-se meticulosamente, com a língua ligeiramente mordida num canto da boca, caneta de tinta permanente já velhinha, mata-borrão no lado direito da escrivaninha, dicionário à esquerda. Detestava dar erros e não era adepto dos dicionários publicados na Internet. Contava-se tudo, o dia todo desde manhã à noite, incluindo as intermináveis insónias. Enfim, não tudo: não mencionava as idas à casa de banho, por exemplo; omitia igualmente os pensamentos concupiscentes que regularmente o assaltavam - e respectivas consequências -, o nome da mulher por quem estava apaixonado, se houvesse uma. Nem sempre era o caso. Todos os dias de manhã, logo a seguir ao pequeno-almoço, ia ao correio, comprava um selo e punha a carta da véspera no marco. Quando a recebia deixava-a fechada durante um ano. Só a abria na data do carimbo. Era fácil porque as tinha arrumadas por ordem de chegada. De vez em quando faltava uma: ou chegavam fora de ordem, ou as de sábado e domingo chegavam tarde, porque nem todos os fins-de-semana tinha paciência ou saúde para ir a estação de correios do aeroporto,  a única que permanecia aberta aos sábados e domingos. Os funcionários dos correios já o conheciam e sabiam que o destinatário das cartas era ele.

António - é este o nome por que o autor designa as personagens masculinas a quem não sabe que outro nome dar - não tem pretensões literárias. Limita-se a escrever factualmente: "hoje o meu dia começou com cereais, como quase todos ". "A senhora dos correios olhou para mim com um olhar que me pareceu de comiseração, mas não tenho a certeza se era ou não". "A seguir ao correio fui ao jardim olhar para o chafariz. A câmara reparou-o, finalmente. Não choveu, ao contrário da previsão. Saí com a gabardina beige e o chapéu castanho, o que aguenta melhor a água. Precauções inúteis: não caiu uma gota." "Para o almoço fiz frango com natas, o prato favorito da A. M. Depois fui dormir a sesta." Dias factuais, por assim dizer. Nada de «sonhos», entre aspas para mostrar o desprezo que os votava. Nada de divagações metafísicas sobre o sentido da vida, da morte ou do bife com batatas fritas que de vez em quando se oferecia, acompanhado por um bom tinto do Tua. Tão pouco expunha a si próprio as «opiniões», mas isso é porque não as tinha sobre quase nada. António pensava que só se deve formular uma opinião - um julgamento, que é a mesma coisa - sobre matérias que se conhecem bem.Como considerava que não sabia nada de quase tudo e pouco do resto, abstinha-se. De as exprimir, quero dizer. Fazê-las, fazia: tentativas de opinião, degraus de uma escada que sabia longa, escada sinuosa e ziguezagueante. As ideias, opiniões, «julgamentos» eram provisórios, sujeitos a retornos e mudanças de direcção, consoante a evolução dos seus conhecimentos. A certeza é uma padrão óptimo para medir a ignorância: quanto mais de uma, mais da outra.

Por isso as suas cartas eram factuais, descritivas: «hoje comi um ovo estrelado. Fi-lo como gosto quando tenho tempo, separando a clara da gema.»   

António tem setenta anos, vive de um pequeno pecúlio que foi juntando ao longo da sua vida, enquanto trabalhava como maquinista de comboios. Já teve um cão, mas agora vive sozinho. Não quer contactos nenhuns com o governo - excepto na área da saúde. Continua a usar o serviço público porque, diz, «é a única área da minha relação com o Estado em que fico a ganhar. Ao fim de uma vida de perdas, não faz mal a balança inclinar-se para o meu lado, por pouco que seja.»

........
Aldeia do Frados, 10/10/1995

«Caro António, 

Hoje tive ecos longínquos da B. e suas grilas histéricas. Parece-me tão longe, tudo isso. É como aqueles filmes que vimos há muito tempo, de que recordamos o título e alguns dos actores, o tema geral e mais nada. Como Providence ou Dersou Ouzala, lembras-te?» 

António começou a dirigir-se a si próprio, a nomear-se como se escrevesse a um amigo. Não o fez com propósito ou vontade explícita. Apareceu, simplesmente. Aliás, sentia que ao contrário de toda a gente que lia, ouvia ou via a maioria das coisas que lhe aconteciam eram fruto de uma falta de vontade mais do que do excesso dela.


 (Cont.)

13.4.23

Saloiices angélicas

A saloiice nacional é inextinguível. Vem de cima, como a chuva ou os anjos.

Pergunta

Será que esta mania de corrigirem livros se vai estender a quadros, esculturas (cf. David), filmes, etc.? 

Repugnâncias, coerências, certezas

Tudo começa com Cioran, claro: "Rien ne dessèche tant un esprit que sa répugnance à concevoir des idées obscures". Em lugar de "ideias obscuras" pôr "ideias incoerentes": Nada seca tanto um espírito como a sua repugnância em conceber ideias incoerentes. Ou incertezas: a desonestidade de um pensador mede-se pela quantidade de certezas que produz. ("La malhonnêteté d'un penseur se mesure à la somme d'idées précises qu'il avance".)

É preciso voltar às origens: Beckett e Cioran. Ambos nos dizem o mesmo: nada é seguro. Usa as ideias como um cachorro um osso de borracha. Duvida de tudo com a inevitabilidade de uma queda de água. Avança pelas ideias como os heróis de Beckett nas suas paisagens desoladas: devagar, coxeando, usando como bengala as incertezas. Mas avança. 

Je ne sais pas où je suis, je ne le saurai jamais, dans le silence on ne peut savoir, on doit juste avancer.” (Samuel Beckett, in L'Innomable)

12.4.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 12-04-2023

O meu café favorito em Genebra é o da livraria Payot nas Rues Basses. O café propriamente dito não é grande coisa. Mudaram dos cafés Carasso para uma coisa chamada Brew Society e saiu porcaria, claro: demasiado torrado, amargo, feito numa máquina de expresso perde-se toda a fineza e subtileza do café "betula bourbon" (entre aspas porque nunca tinha ouvido falar) colombiano. Mas... ainda não chegou o tempo em que se vai a um café para beber café. Vai-se para beber café, o que é diferente. 

Há outro café assim, o Chez Slatkine, na Vieille Ville. Mas o Slatkine é um editor, não é uma livraria e a maioria dos livros nas estantes são naturalmente os seus. Aqui há mais, muitas vezes mais. E a clientela é mais variada.

Escrevo, portanto e bebo café, leio o jornal, oiço meio distraído meio involuntária meio inevitavelmente a conversa das duas jovens senhoras à minha esquerda, ambas no início da trintena, uma com a filha de quatro cinco anos ao colo. Os diálogos entre as três desenrolam-se em francês mas quando se cingem à mãe - filha passam para o inglês. Na mesa a seguir dois senhores discutem um livro, mas estão demasiado longe para que eu possa perceber mais do que alguns farrapos de frases.

À minha direita está outra jovem mãe, esta com duas filhas. Uma mesa mais longe outro conjunto mãe/filha discute a compra de varios livros pela miúda (às quartas-feiras não há escola, donde tantos miúdos em idade escolar). O futuro da livraria Payot - e por extensão, das outras - parece promissor. Mesmo que um dos clientes seja um velho teso que olha para os livros como um eunuco para as mulheres nas montras de Amsterdão. 

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Lidar com os nossos preconceitos não é difícil: basta mantermos com eles um diálogo permanente. 

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Chemiserie Centrale: uma camisa - linda, por sinal - a duzentos e cinquenta francos suíços (um pouco mais em euros). Que tipo de trabalho é preciso ter para poder pagar isto? Conheço gente para quem este montante representa menos de um quarto de dia de trabalho - um sexto, para ser preciso. Mas pergunto-me se na verdade a única forma decente de pagar duzentos e cinquenta francos por uma camisa não será com dinheiro ou herdado ou roubado.  

Neologismos e cães de caça

No seu afã de lutar contra as discriminações e pela inclusão - também conhecido por palermice - o PS de uma pequena comuna de Genebra (o cantão, não a cidade) quer lutar contra a «glotofobia». Traduzo directamente de «glottophobie», que é, segundo a wikipédia, um neologismo. Significa discriminação baseada nos sotaques. O PS de Vernier teve de ir buscar um neologismo para juntar uma causa à sua longa lista delas (fui ver o site. É ilegível por causa da escrita inclusiva, outra aberração mas mais antiga). Nada disto seria muito importante: os PS de todo o mundo são feitos de moinhos de vento contra os quais lutam os valentes D. Quixotes que os compõem - pelo menos aqueles que mantêm a honestidade primeva. Nos outros, mais actualizados, são verbos de encher os bolsos, mas isso é outra história. 

Nada disso seria muito importante, dizia, se não ocorresse num país pequeno composto por vinte e seis países minúsculos que partilham três idiomas (de facto. Na propaganda oficial são quatro). Cada uma dessas línguas tem um sotaque diferente em cada vale (tão identitários que por vezes têm nomes: baseldeutsch ou züritüütsch, por exemplo, são duas das inúmeras variantes do schwizertütsh (ou switzerdeutsch). O alemão dos Appenzell Rhodes-Intérieures é diferente do dos Appenzell Rhodes-Extérieurs e por aí fora.

Acresce que não há provavelmente no mundo país no qual seja melhor, mais confortável, mais indiferente ser-se estrangeiro do que na Suíça. Pelo menos no meu mundo não há de certeza. Que o PS de uma aldeola do cantão de Genebra precise de levantar lebres (virtuais) com a sofreguidão de um cão de caça (real) demonstra simplesmente que não têm mais nada que fazer. O que é, reconheça-se, bom sinal. 

9.4.23

Preferências

As minhas estações do ano favoritas são quatro: a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno (por ordem cronológica).

8.4.23

Querido diário (Genebra, 08-04-2023)

Querido diário:

Aqui entre nós que ninguém nos ouve, deixa-me dizer-te que és um chato. É verdade que hoje me deste um dia porreiro e relativamente bem comportado (se não fosse o jantar teria sido perfeito); isso, porém, não chega. Por favor trata-me da porra da artrose no ombro direito e da dor de cabeça. Impede-me de passar na cozinha o tempo que hoje lá passei. E, sobretudo, deixa de me chatear com a confusão que te espera em Lisboa. Não há nada que por enquanto eu possa fazer e quando puder farei o que puder, nem mais nem menos.

Notações

Mau, medíocre, suficiente, bom, muito bom. Com excepção dos dois extremos, podia acrescentar-se a cada nota um mais ou um menos: medíocre mais, bom menos. Esta classificação era muito mais exacta e é de longe preferível à quantitativa. 

Como um paquete

Atravessar a noite como se atravessa uma rua muito movimentada. No meio há uma ilha para que os peões não tenham de correr toda a largura da via. Questão de segurança, dizem. Não sei quem regula os sinais, quando os há. Está verde: avança, dorme. Encarnado: pára. O sono abandonou-te. Tens de esperar na tal ilha, parada a meio da noite como um paquete encalhado numa praia.

Depois a maré sobe, tudo se repõe em movimento e o sono volta, abençoado seja.

7.4.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 07-04-2023

Vim à estação fazer umas compras pequenas, nada de muito urgente. Muito provavelmente, "compras" não passa de um pretexto mal enjorcado para sair de casa, passear, andar a pé, ver gente, fazer uma fotografia ou duas. Acertei em todas, com uma pequena excepção: a Migros estava a abarrotar, de tal forma que me vim embora a meio. O que falta fica para amanhã, haverá menos gente de certeza e ao pé de casa.

Os genebrinos continuam a recusar a abertura de supermercados com horários alargados. Safam-se os do aeroporto e os da estação, que são território federal e por isso escapam à legislação cantonal. Mas como não proibiram as pessoas de fazer compras aos domingos, feriados, cedo de manhã ou tarde à noite (enfim, até às dez da noite) e ainda por cima os espaços são pequenos, e ainda por cima é dia de partida de férias, as lojas ficam rapidamente a parecer aquelas molhadas do rugby, com gente a empurrar em todas as direcções. 

Despachei-me e vim ao La Petite Reine beber um copo e acalmar as pulsações. É uma dessas tascas alternativas-ecolo-bobo-baba-cool (se ainda houvesse baba-cool, a espécie desapareceu do léxico e suspeito que não só) das Grottes, mesmo por trás da estação. A música é irritante, a decoração condizente, o vinho uma merda mas enfim, pelo menos está vazia. Além de que o nome é atraente: petite reine é uma das designações de bicicleta (num dos lados há um estacionamento com capacidade para meia dúzia de milhões delas e no outro uma loja de aluguer e reparação de burras, para além de «integração», outro «grottismo». Daí o nome, aposto).

O céu estava cinzento de feio. Um nimbus daqueles a poucos tons pantone do negro absoluto cobria-lhe um quarto. Entretanto choveu e a nuvem afastou-se, de maneira o caminho de regresso está mais ou menos aberto.

Tenho pela proa uma semana sozinho em casa, provavelmente com algumas ocasionais visitas de amigos que tenham ficado por cá durante as férias. Não sou crente nem praticante mas há dias em que me apetece cantar laudas a quem determina estes feriados e férias.

6.4.23

Bis repetita

Não gosto de me meter na vida dos outros. Nem na minha me meto.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 06-04-2023

Querido diário:

Ando a comer demasiados chocolates e doces. É como se quisesse compensar as dezenas de anos que passei sem tocar numa doçaria. Vou cortar e conto contigo para me ajudar. Como sabes, és o meu confidente para estas coisas importantes. Só a ti oiço, mais ninguém. Já agora, seria bom que me ajudasses a pôr ordem na carcaça, se não te custar muito. Hoje portou-se mal, logo desde manhã cedo. Conto contigo, querido diário. 

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Hoje vi o meu neto e dormi muito, duas coisas boas. Fiz as mesmas sestas que ele. Vi também como funciona o «teletrabalho» para uma jovem mãe com uma cria em casa. Posso estar enganado, mas não auguro muito futuro ao método. O mais provável é acontecer a mesma coisa que aconteceu nos anos noventa: meio mundo entusiasmado com a perspectiva de poder trabalhar em casa e em menos de dois anos ninguém falava no assunto.

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O suplício está quase a acabar. Quase? Esta maldita palavra não me larga. Devia ser banida, como fazem aqueles ingénuos que acreditam que mudando as palavras mudam o que lhes está subjacente.  Deixa de se dizer preto, ou maricas e o racismo desaparece e nunca mais ninguém goza com um gay. Deixa de se dizer quase e tudo acontecerá nos prazos. Eu, por exemplo, estou quase a ser feliz.

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Em Prangins fiz mais uma recolha de livros gratuitos: três na mercearia - aonde há sempre livros espantosamente bons - e um num «abrigo para livros» num jardim. Este último foi o La Cité de la Joie, de Dominique Lapierre. Lembro-me mal do livro, que li há muitos anos, mas achoque vai emparelhar bem com o Londres de Céline que comprei ontem na Recyclables. Quando conseguir ler de novo vai acontecer o mesmo que com os chocolates...

À atenção dos acordados

"Ao princípio era o Verbo e o Verbo era Deus".

Sem dúvida. Mas depois Deus apercebeu-se de que a palavra não era suficiente e criou o resto.

Sem o qual resto a palavra em breve se esgotaria e não serviria para nada. As palavras por si só não fazem nem mudam o mundo. 

5.4.23

Enter, fogueiras

Não sou historiador e posso estar enganado. Estou muitas vezes, felizmente. Mas assim que de repente me lembre, creio que nunca na história da humanidade teve a doxa tanta força, esteve tão imiscuída nos mais pequenos interstícios e recantos da sociedade como hoje. As labaredas não são físicas, é certo. São virtuais e fugazes, duram o tempo que um átomo leva a dar a volta à notícia. Em contrapartida, são aos milhares. Não há computador ou telefone no qual não se queime um pecador por dia, pelo menos. 

A Idade Média (a da mitologia, não a real. Essa foi muito diferente daquilo que se pensa) está de regresso. Espero que os meus netos revivam uma Renascença ou um novo século das luzes.  No nosso, há uma que se apaga cada vez que a tecla enter é premida num teclado.

3.4.23

Talvez bis

O post ia chamar-se Talvez e era um diálogo entre um esperançado e um céptico. Abria com uma referência a Eliot ("Talvez Abril deixe de ser o mês mais cruel") e fechava com uma dupla acusação:

"- Talvez te enganes.
- Talvez te enganes."

Apaguei-o por engano e não tenho vontade de o reconstituir. Penso no Herberto Hélder de Os comboios que vão para Antuérpia: "Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura. Penso que o mar dá uma qualidade especial à fantasia, ao desejo e à confiança. É uma propriedade misteriosa do espírito, e por ela se aprende a nada esperar, a não desesperar de nada. Talvez seja isso a inocência. Talvez só no mar nos seja concedido morrer verdadeiramente, morrer como nenhum homem pode." Estou em terra e por isso não posso morrer verdadeiramente. Só me é permitida esta espécie de semi-morte (nos dias bons, que são poucos) ou semi-vida (nos outros, maus e muitos). Uma coisa, contudo, é certa: aprendi a não esperar e a não desesperar. Qualquer uma das duas personagens dialogantes do meu post (verdadeiramente morto, ele, pelo menos na sua forma escrita) pode ter razão e pode estar enganado. Talvez.

- Talvez Abril deixe de ser o mês mais cruel e passe a ser o da ressurreição.
- Há mais de um ano que vives de talvez e de quase, duas palavras que enganam muito.
- Sem talvez não encontrarias o caminho nem numa floresta que conheces bem.
- Talvez não põe comida na mesa, não paga rendas e não repara embarcações.

...

- Talvez te enganes.
- Talvez te enganes. 

"April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire ..."

(T. S. Eliot, The Waste Land)

(Dedico este post à MdP, uma daquelas pessoas perto de quem o desespero não passa de uma fingimento. )

Poupança

As pessoas que têm um mundo interior muito rico e variado poupam uma data de massa em aviões e hotéis, não e?

2.4.23

Outra vez

O meu corpo muda. Trai-me. Não o reconheço de uma semana para a seguinte. É como se estivesse a passar por uma segunda adolescência.