Não há, para outrém, ninguém mais perigoso do que um idiota motivado. Já os tesos motivados como eu são uma ameaça apenas para si próprios; e para os mais próximos, vá. Felizmente não tenho próximos dependentes de mim.
Deve haver armadores - o deve é retórico - tão tesos como eu; mais não há com certeza. Mas enfim, é melhor perder do que não tentar; e ter lido Sun Tzu tem pelo menos a vantagem de me fazer compreender porque perco - e dar-me mais satisfação quando ganho (e mais ainda se por milagre ganhar esta) -.
Não que goste particularmente ou acredite em milagres, claro. Simples e inegavelmente porque uma vitória diícil é melhor do que uma fácil (e esta melhor do que uma derrota, mas isso é outra história).
Tenho de lutar em todas as frentes ao mesmo tempo. Graças a deus a metade feminina do meu cérebro é quase tão grande como a outra e não sou estranho às multitarefas. Coisa que de resto não é grande lança em África: quem numa embarcação de vela for pouco flexível e demasiado mono-tarefa depressa enjoa.
Uma parte de mim já aqui esteve; a outra, mais importante sabe-o e sabe que o eu de hoje não é o mesmo do de ontem nem do de há vinte anos. O que mudou? Hoje conheço-me e conheço o inimigo. Para Sun Tzu é uma das condições para se ganhar a batalha. Não é a única; mas é uma das mais importantes.
1.3.14
28.2.14
Inquietante
Cada vez gosto mais destas noites sem vento, nas quais os barcos parecem estar suspensos do calor pelos mastros e mal pousam na água.
Invento um jantar - vai sair uma espécie de puré de batata com pimentos e salsa, ou seja: uma espécie de jantar - bebo rum, oiço música portuguesa e penso nesta calma irreal, surda e nua, uma calma sem vergonha, sem luz, sem ruído, sem nada para além do cheiro do jantar que coze lentamente como se fosse o pequeno almoço de amanhã, o pequeno almoço de daqui a uma semana, o pequeno almoço de sempre e de nunca.
A marina é um lago de jardim, a noite uma parede na qual me sinto livre e solto e leve, o tempo uma superfície na qual me derramo como em ti.
Não sei se és o tempo ou foste um tempo. Mas é em ti que penso como se pensar me ajudasse a entrar neste muro que me rodeia, nesta escuridão em que nem o vento entra, nem a luz, nem o som.
Há noites assim, e tus. Mas tu és uma e uma só. As noites são muitas e cada vez mais.
Invento um jantar - vai sair uma espécie de puré de batata com pimentos e salsa, ou seja: uma espécie de jantar - bebo rum, oiço música portuguesa e penso nesta calma irreal, surda e nua, uma calma sem vergonha, sem luz, sem ruído, sem nada para além do cheiro do jantar que coze lentamente como se fosse o pequeno almoço de amanhã, o pequeno almoço de daqui a uma semana, o pequeno almoço de sempre e de nunca.
A marina é um lago de jardim, a noite uma parede na qual me sinto livre e solto e leve, o tempo uma superfície na qual me derramo como em ti.
Não sei se és o tempo ou foste um tempo. Mas é em ti que penso como se pensar me ajudasse a entrar neste muro que me rodeia, nesta escuridão em que nem o vento entra, nem a luz, nem o som.
Há noites assim, e tus. Mas tu és uma e uma só. As noites são muitas e cada vez mais.
Refit
Ando sempre a pensar no refit dos botes e esqueço-me de que quem precisa de um bom refit sou eu.
27.2.14
Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 27-02-2014
Hoje começa o trabalho para a viagem no A. Há pouco que fazer: limpar, inventariar, verificar e aprovisionar. Se tudo correr bem daqui a uma semana estamos no mar, para uma viagem que há muito tempo quero fazer: entrar em Havana num veleiro. Conhecer a Marina Hemingway, andar pelas ruas que o Ernest tão bem conheceu.
O Ernest e o meu Pai, que se não ia frequentemente a Havana foi incontáveis vezes a Cuba, carregar açúcar para Inglaterra, onde acabaria por conhecer a minha Mãe.
.........
Bocas ontem estava linda, como é sempre que não chove e há sol. Já estou em modo partida; tenho as habituais saudades antecipadas de meia dúzia de sítios: Wine Bar, Palmar, o trajecto em panga entre Red Frog e Bocas, os percursos entre os mangais quando saíamos para um passeio.
Não é lugar ao qual pense voltar em breve, mas fico contente por conhecê-lo. A beleza não é tudo, mas sem ela nada é.
........
M. e S., os meus passageiros para Havana são adoráveis. Ele argentino e ela espanhola de Barcelona. Continuam a longa série de tripulantes / passageiros fantásticos com que tenho sido abençoado desde San Francisco.
O Ernest e o meu Pai, que se não ia frequentemente a Havana foi incontáveis vezes a Cuba, carregar açúcar para Inglaterra, onde acabaria por conhecer a minha Mãe.
.........
Bocas ontem estava linda, como é sempre que não chove e há sol. Já estou em modo partida; tenho as habituais saudades antecipadas de meia dúzia de sítios: Wine Bar, Palmar, o trajecto em panga entre Red Frog e Bocas, os percursos entre os mangais quando saíamos para um passeio.
Não é lugar ao qual pense voltar em breve, mas fico contente por conhecê-lo. A beleza não é tudo, mas sem ela nada é.
........
M. e S., os meus passageiros para Havana são adoráveis. Ele argentino e ela espanhola de Barcelona. Continuam a longa série de tripulantes / passageiros fantásticos com que tenho sido abençoado desde San Francisco.
25.2.14
Diário de Bordos - Cidade de Panamá, Panamá, 25-02-2014
Estranho o prazer que sinto em rever Panamá. Percorro as capelinhas todas - Rana Dorada, Lovaina, a senhora que vende Marlboro verdadeiros a metade do preço dos outros, falsos, Finca del Mar; revejo Alexis, o melhor chauffeur de táxi do mundo e arredores; sou recebido com evidente e real prazer pelas empregadas do clube náutico onde "vivi" quase quatro meses (e com evidente, igualmente real e recíproco desprazer por outras pessoas, mas isso indifere-me a tal ponto que quase me magoa).
Tento perceber o porquê desta súbita reconversão. Há muitas razões para não se gostar de Panamá: a rudeza e má educação das pessoas, o trânsito permanentemente engarrafado e agressivo, a sujidade e o barulho das ruas, a falta de ética e má qualidade do trabalho, a chuva, a falta de passeios.
Mas a verdade é que é importante, é preciso ter pontos fixos, repères numa vida em constante movimento. Onde quer que vá estou em trânsito, de passagem. É um sentimento de que gosto; mas ir a um sítio que conheço e onde sou conhecido é bom, agradável. E se calhar é preciso, vá saber-se.
E há outras razões: estou entre duas viagens e preciso de uma pausa; e a sensação de que fui injusto com esta cidade: detestei-a porque me detestava quando aqui estive. A verdade é que tem coisas agradáveis - hoje passeei pela Cinta Costera com o mesmo prazer com que o fazia todos os dias, por exemplo -.
Além de que tem súbitos e inegáveis acessos de civilização, coisa de que ando necessitado.
........
Desembarquei do HELENA S. como sabia que ia desembarcar, e como não queria fazê-lo: a correr. Custa-me deixar um barco assim; ainda mais custa deixar aquele. Um barco é um ser humano: tem os seus humores, os seus defeitos e qualidades, um futuro e um passado. O HELENA S. é uma mulher bonita que se descuidou; não merece que a deixemos a correr - não merece que a deixemos, sequer -.
Um barco tem curvas, formas, reacções, uma cabeça - que alguns pensam ser eles, erradamente - e uma vida. Ama-se um barco como se ama uma mulher: começa-se por se gostar dos seus defeitos; e se as suas qualidades estiverem à altura dos seus defeitos o barco - como qualquer pessoa - é amável.
Eu amo o HELENA S. Ponto.
E ele ama-me, coisa que me enche de prazer e orgulho.
........
De maneira aqui estou no BYC a ver passar os navios que entram e saem do Canal, a ver a luz derramar-se sobre eles como o mel de que fala Leonard Cohen, e a pensar que uma vez mais estou de passagem, que o meu olá vem seguido de adeus, que estou num sítio ao qual não sei se e quando regressarei.
E inquieto. Mas isso é outra história, e fica para depois.
Tento perceber o porquê desta súbita reconversão. Há muitas razões para não se gostar de Panamá: a rudeza e má educação das pessoas, o trânsito permanentemente engarrafado e agressivo, a sujidade e o barulho das ruas, a falta de ética e má qualidade do trabalho, a chuva, a falta de passeios.
Mas a verdade é que é importante, é preciso ter pontos fixos, repères numa vida em constante movimento. Onde quer que vá estou em trânsito, de passagem. É um sentimento de que gosto; mas ir a um sítio que conheço e onde sou conhecido é bom, agradável. E se calhar é preciso, vá saber-se.
E há outras razões: estou entre duas viagens e preciso de uma pausa; e a sensação de que fui injusto com esta cidade: detestei-a porque me detestava quando aqui estive. A verdade é que tem coisas agradáveis - hoje passeei pela Cinta Costera com o mesmo prazer com que o fazia todos os dias, por exemplo -.
Além de que tem súbitos e inegáveis acessos de civilização, coisa de que ando necessitado.
........
Desembarquei do HELENA S. como sabia que ia desembarcar, e como não queria fazê-lo: a correr. Custa-me deixar um barco assim; ainda mais custa deixar aquele. Um barco é um ser humano: tem os seus humores, os seus defeitos e qualidades, um futuro e um passado. O HELENA S. é uma mulher bonita que se descuidou; não merece que a deixemos a correr - não merece que a deixemos, sequer -.
Um barco tem curvas, formas, reacções, uma cabeça - que alguns pensam ser eles, erradamente - e uma vida. Ama-se um barco como se ama uma mulher: começa-se por se gostar dos seus defeitos; e se as suas qualidades estiverem à altura dos seus defeitos o barco - como qualquer pessoa - é amável.
Eu amo o HELENA S. Ponto.
E ele ama-me, coisa que me enche de prazer e orgulho.
........
De maneira aqui estou no BYC a ver passar os navios que entram e saem do Canal, a ver a luz derramar-se sobre eles como o mel de que fala Leonard Cohen, e a pensar que uma vez mais estou de passagem, que o meu olá vem seguido de adeus, que estou num sítio ao qual não sei se e quando regressarei.
E inquieto. Mas isso é outra história, e fica para depois.
21.2.14
Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 21-02-2014
Pouco a pouco o HELENA S. vai dando a volta, vai-se enchendo de pessoas - jovens, menos jovens, mas todos invariavelmente contentes -. Afinal não largámos ontem, por coisas relativas a coisas que agoram não interessam; largamos amanhã. É tarde, pois temos cinco pessoas, talvez oito no Panamá e tenho absolutamente de chegar a Turtle Cay Marina domingo. Felizmente há vento, mas a vontade de rasgar a grande outra vez é muito pouca, nula, zero.
........
Estes problemas com a imigração podem parecer ridículos, mas têm um fundo bom: demonstram que a corrupção na Colômbia não é aberta e desenvergonhadamente aceite como, por exemplo, no Panamá. Enfim, não sei se é bom - neste caso é, porque não teria dinheiro para pagar, se fosse no Panamá -. Aqui pelo menos essa tarefa é-me poupada. Quem se encarrega dela são os agentes de navegação, que a lei nos obriga a utilizar. Eles é que têm os seus avençados na Imigração, e um bom agente é aquele que tem muitos.
O Cartagena run não vai durar para sempre.
........
Os passageiros são jovens, gente boa e alegre. Um deles, Matias é um designer gráfico e especialista de Photoshop. Ontem esteve a mostrar-me os seus trabalhos. Fiquei sem ar. Uma vez mais confirmei que Photoshopista é uma maneira de ser artista a tempo inteiro, como ser fotógrafo, escritor, pintor ou músico.
Vai desenhar-me o site que depois o Lopo porá em linha. Tenho sorte, no fundo. Ter amigos com talento e paciência e generosidade é uma bênção.
........
Últimas horas em Cartagena; daqui sigo para os EUA, depois - espero - Brasil. É preciso um plano se queremos poder não o respeitar, aforismo já aqui muito vezes citado. E é preciso paciência e perseverança, se queremos respeitá-los. Ou então fazer planos mais fáceis, mas essa é uma hipótese que por qualquer razão me escapou.
........
Estes problemas com a imigração podem parecer ridículos, mas têm um fundo bom: demonstram que a corrupção na Colômbia não é aberta e desenvergonhadamente aceite como, por exemplo, no Panamá. Enfim, não sei se é bom - neste caso é, porque não teria dinheiro para pagar, se fosse no Panamá -. Aqui pelo menos essa tarefa é-me poupada. Quem se encarrega dela são os agentes de navegação, que a lei nos obriga a utilizar. Eles é que têm os seus avençados na Imigração, e um bom agente é aquele que tem muitos.
O Cartagena run não vai durar para sempre.
........
Os passageiros são jovens, gente boa e alegre. Um deles, Matias é um designer gráfico e especialista de Photoshop. Ontem esteve a mostrar-me os seus trabalhos. Fiquei sem ar. Uma vez mais confirmei que Photoshopista é uma maneira de ser artista a tempo inteiro, como ser fotógrafo, escritor, pintor ou músico.
Vai desenhar-me o site que depois o Lopo porá em linha. Tenho sorte, no fundo. Ter amigos com talento e paciência e generosidade é uma bênção.
........
Últimas horas em Cartagena; daqui sigo para os EUA, depois - espero - Brasil. É preciso um plano se queremos poder não o respeitar, aforismo já aqui muito vezes citado. E é preciso paciência e perseverança, se queremos respeitá-los. Ou então fazer planos mais fáceis, mas essa é uma hipótese que por qualquer razão me escapou.
19.2.14
Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 19-02-2014
A roda gira; e é gira, de tanto girar e tão depressa. Ontem tínhamos clientes. Depois não tínhamos; depois tivemos um contacto. Hoje temos quatro clientes já confirmados - no sentido clássico do termo - dos quais dois são para Cuba. Tenho, Allah uAqbar, uma razão fortíssima para ir a Havana. Finalmente.
Enfim, fortíssima é uma maneira de dizer: o que eles podem pagar não é muito. Mas ganhei um site em troca. E contas feitas é honorável, não tenho de me envergonhar: entre o que pagam em dinheiro e em trabalho fico em casa.
De maneira amanhã largamos, bote cheio e vento de popa, para San Blas, onde desembarcam estes e embarcam outros passageiros. Eu sigo para Bocas por vias terrestres, com o M. e a C.
E o HELENA S. fica nas mãos jovens mas competentes do Luka e da Danielle. Fica bem entregue.
........
E eu lá vou fechar a porta do Artie, que me trouxe e eu trouxe de San Francisco, uma viagem pela costa do Pacífico e, sobretudo, pelas costas dos meus limites, pelos fundos da tristeza e da depressão, uma viagem que acaba - como todas - por ser importante, significativa, maravilhosa e inesquecível.
O importante numa viagem é a que fazemos em nós próprios. Claro que ver golfinhos e tartarugas e baleias e mantas todos os dias, ver a Isla de Guadeloupe - um pedaço de lua habitado por milhares de focas e meia dúzia de soldados - e beber Margueritas em Puerto Vallarta e navegar no Golfito e conhecer o Parque Nacional Manuel António ajuda. Mas não é de maneira nenhuma o essencial.
........
Afinal o restaurante Plaza de Trinidade não aceitou o meu passaporte como pagamento. Z., a adorável proprietária disse-me que não precisava dele para nada. Hoje fui lá almoçar, claro. Não é por acaso que ela começou há vinte e três anos com um carrinho na rua a vender empanadas e hoje tem pelo menos um restaurante; do qual a tripulação do HELENA S. é cliente feliz e assídua.
........
Cartagena é uma cidade encantadora, mas. Preciso de voltar para o mar. E não digo mar até San Blas. Digo mar até Havana. Mar até Palma. Mar.
Enfim, fortíssima é uma maneira de dizer: o que eles podem pagar não é muito. Mas ganhei um site em troca. E contas feitas é honorável, não tenho de me envergonhar: entre o que pagam em dinheiro e em trabalho fico em casa.
De maneira amanhã largamos, bote cheio e vento de popa, para San Blas, onde desembarcam estes e embarcam outros passageiros. Eu sigo para Bocas por vias terrestres, com o M. e a C.
E o HELENA S. fica nas mãos jovens mas competentes do Luka e da Danielle. Fica bem entregue.
........
E eu lá vou fechar a porta do Artie, que me trouxe e eu trouxe de San Francisco, uma viagem pela costa do Pacífico e, sobretudo, pelas costas dos meus limites, pelos fundos da tristeza e da depressão, uma viagem que acaba - como todas - por ser importante, significativa, maravilhosa e inesquecível.
O importante numa viagem é a que fazemos em nós próprios. Claro que ver golfinhos e tartarugas e baleias e mantas todos os dias, ver a Isla de Guadeloupe - um pedaço de lua habitado por milhares de focas e meia dúzia de soldados - e beber Margueritas em Puerto Vallarta e navegar no Golfito e conhecer o Parque Nacional Manuel António ajuda. Mas não é de maneira nenhuma o essencial.
........
Afinal o restaurante Plaza de Trinidade não aceitou o meu passaporte como pagamento. Z., a adorável proprietária disse-me que não precisava dele para nada. Hoje fui lá almoçar, claro. Não é por acaso que ela começou há vinte e três anos com um carrinho na rua a vender empanadas e hoje tem pelo menos um restaurante; do qual a tripulação do HELENA S. é cliente feliz e assídua.
........
Cartagena é uma cidade encantadora, mas. Preciso de voltar para o mar. E não digo mar até San Blas. Digo mar até Havana. Mar até Palma. Mar.
Retratos imaginários
Um provérbio judeu diz que as boas ferramentas fazem o bom operário. Para A. quem não lhe pode ser útil - seja financeira, pessoal, afectiva ou psicologicamente - não conta como ferramenta. Não interessa. Desaparece.
Tem razão, claro: se não formos nós a fazer o nosso futuro quem o fará?
Tem razão, claro: se não formos nós a fazer o nosso futuro quem o fará?
Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 18-02-2014
O dia foi difícil. Nenhum dos cinco passageiros que tinham confirmado (é preciso rever o sentido da palavra confirmar) apareceu: os chilenos porque não queriam pagar o depósito, os dois do Alfredo porque, muito provavelmente, o Alfredo estava a mentir.
De maneira estamos outra vez à sec de toile. Felizmente conheço um restaurante que aceita o meu passaporte como meio de pagamento provisório e podemos comer e, apesar de tudo, divertirmo-nos. A esperança não é a última a morrer; é o humor o último a morrer.
E fazemos planos para debaixo do passenger rainbow.
A verdade é que isto roda depressa: hoje já apareceram mais três pessoas, duas das quais para Cuba. Onde, por uma inacreditável coincidência, passarei em breve com o A.F.
Amanhã confirmam - mas no sentido clássico do termo: massa na mão -. O resto é conversa, e conversa não paga rum, se me é permitida uma pequena paráfrase.
........
Hoje chegou a vela grande; o piloto está reparado; já só falta tratar das escotilhas e da ignição do motor de estibordo. Questão de chuva.
Quer venha, muita e depressa.
Estamos a montar uma estrutura de vendas e de logística em Cartagena que tarde ou cedo dará frutos. É a vantagem de não partir do zero: a esxperiência serve para alguma coisa. Todos os potenciais passageiros de amanhã resultaram desse trabalho. Tal como a de Bocas está a funcionar. O charter tem três factores de sucesso: as vendas, as vendas e as vendas. Às quais se seguem a tripulação primeiro; depois o barco.
Estamos no bom caminho; está cheio de altos e baixos, mas contra isso não se pode fazer nada se não trabalhar, pensar e rir.
........
Cartagena tem pouco mais de um milhão de habitantes, creio; mas é uma cidade silenciosa. Não há barulho: as pessoas não gritam, os carros não têm música aos berros, não há rádios com colunas da altura da torre Eiffel. Deve ser isto o que me leva a gostar tanto desta terra.
........
Cinco clientes confirmados em San Blas. A roda gira depressa. Basta aguentar firme.
De maneira estamos outra vez à sec de toile. Felizmente conheço um restaurante que aceita o meu passaporte como meio de pagamento provisório e podemos comer e, apesar de tudo, divertirmo-nos. A esperança não é a última a morrer; é o humor o último a morrer.
E fazemos planos para debaixo do passenger rainbow.
A verdade é que isto roda depressa: hoje já apareceram mais três pessoas, duas das quais para Cuba. Onde, por uma inacreditável coincidência, passarei em breve com o A.F.
Amanhã confirmam - mas no sentido clássico do termo: massa na mão -. O resto é conversa, e conversa não paga rum, se me é permitida uma pequena paráfrase.
........
Hoje chegou a vela grande; o piloto está reparado; já só falta tratar das escotilhas e da ignição do motor de estibordo. Questão de chuva.
Quer venha, muita e depressa.
Estamos a montar uma estrutura de vendas e de logística em Cartagena que tarde ou cedo dará frutos. É a vantagem de não partir do zero: a esxperiência serve para alguma coisa. Todos os potenciais passageiros de amanhã resultaram desse trabalho. Tal como a de Bocas está a funcionar. O charter tem três factores de sucesso: as vendas, as vendas e as vendas. Às quais se seguem a tripulação primeiro; depois o barco.
Estamos no bom caminho; está cheio de altos e baixos, mas contra isso não se pode fazer nada se não trabalhar, pensar e rir.
........
Cartagena tem pouco mais de um milhão de habitantes, creio; mas é uma cidade silenciosa. Não há barulho: as pessoas não gritam, os carros não têm música aos berros, não há rádios com colunas da altura da torre Eiffel. Deve ser isto o que me leva a gostar tanto desta terra.
........
Cinco clientes confirmados em San Blas. A roda gira depressa. Basta aguentar firme.
17.2.14
Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 17-02-2014
Os dias começam todos iguais, mas continuam de forma diferente. Hoje, por exemplo, houve cinco grandes diferenças: cinco passageiros que, se confirmarem nos enchem o bote. E a barriga num restaurante decente: o gás acabou-se-nos há três ou quatro dias e andamos desde aí a comer ou sandes ou comida manhosa e baratucha.
Esta história do gás tem que se lhe diga; mas antes há que acabar a história deste meio-dia: J., o amigo e passageiro e salvador in extremis está a reparar o dinghy, que tem mais buracos do que muitas camisas de alguns sem-abrigo.
O HELENA S. vinha com uma (creio) ou duas garrafas de gás pequenas, da Camping Gaz. Em Bocas enchê-las leva quatro dias no mínimo, porque as garrafas têm de ir não sei para onde. Quando apareceu este grupo para Cartagena uma delas estava vazia e a outra a uso havia um bom bocado.
Comprei uma garrafa suplente, não fosse o diabo tecê-las. Mas o diabo tece-as quando quer e lhe apetece. Felizmente o gás só acabou depois de alguns dias em Cartagena, já todos os passageiros tinham desembarcado. A garrafa que comprámos em Bocas tem propano em vez de butano e estamos sem poder cozinhar desde aí. Em Cartagena ninguém enche garrafas de butano, e nenhum dos trezentos e cinquenta (aproximadamente, claro) reguladores que temos a bordo serve nestas garrafas.
Três dos passageiros devem confirmar hoje, e assim que pagarem vamos comer como deve ser. Abaixo as sandes e as pastas manhosas; viva a boa e honesta comida colombiana.
........
Temos seis passageiros, a preços um bocadinho abaixo do normal. Uns porque desembarcam em San Blas, outros porque vão de ida e volta, outro porque nos está a reparar o dinghy.
S. dizia-me que os preços vão subir; não será decerto por causa do HELENA S.
Bom bom seria que os nossos fornecedores também estivessem em fase de lançamento no mercado; felizmente não estão: é tudo gente experiente e recomendada.
Esta história do gás tem que se lhe diga; mas antes há que acabar a história deste meio-dia: J., o amigo e passageiro e salvador in extremis está a reparar o dinghy, que tem mais buracos do que muitas camisas de alguns sem-abrigo.
O HELENA S. vinha com uma (creio) ou duas garrafas de gás pequenas, da Camping Gaz. Em Bocas enchê-las leva quatro dias no mínimo, porque as garrafas têm de ir não sei para onde. Quando apareceu este grupo para Cartagena uma delas estava vazia e a outra a uso havia um bom bocado.
Comprei uma garrafa suplente, não fosse o diabo tecê-las. Mas o diabo tece-as quando quer e lhe apetece. Felizmente o gás só acabou depois de alguns dias em Cartagena, já todos os passageiros tinham desembarcado. A garrafa que comprámos em Bocas tem propano em vez de butano e estamos sem poder cozinhar desde aí. Em Cartagena ninguém enche garrafas de butano, e nenhum dos trezentos e cinquenta (aproximadamente, claro) reguladores que temos a bordo serve nestas garrafas.
Três dos passageiros devem confirmar hoje, e assim que pagarem vamos comer como deve ser. Abaixo as sandes e as pastas manhosas; viva a boa e honesta comida colombiana.
........
Temos seis passageiros, a preços um bocadinho abaixo do normal. Uns porque desembarcam em San Blas, outros porque vão de ida e volta, outro porque nos está a reparar o dinghy.
S. dizia-me que os preços vão subir; não será decerto por causa do HELENA S.
Bom bom seria que os nossos fornecedores também estivessem em fase de lançamento no mercado; felizmente não estão: é tudo gente experiente e recomendada.
16.2.14
Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 16-02-2014
O piloto automático, já aqui o disse uma vez, não é propriamente um problema; é um custo. Hoje fiquei a saber que esse custo vai ser maior do que o esperado. Não é uma surpresa, claro. Surpresa teria sido que tudo continuasse como estava previsto.
Felizmente não gosto de surpresas e tudo muda constantemente. Queríamos arranjar clientes para Bocas. Encontrámos um, e penso que amnhã há mais (há sempre mais amanhã, sempre mais, sempre amanhã). Via M., da BNN encontrámos um grupo em San Blas. Devem confirmar hoje. Felizmente o cliente que temos para Bocas é um amigo do Luka e da Danielle e compreenderá se lhe dissermos que só vamos até San Blas - provavelmente virá noutra viagem.
Hoje à noite saberei se vamos para San Blas se para Bocas; e amanhã se teremos dinheiro para pagar o acréscimo de custos do piloto (e muito provavelmente da vela grande).
Entretanto hoje vou lutando contra a terrível tentação de comer uma arepa, uma enchilada ou uma papa rellena en cada esquina. A comida de rua de Cartagena é aterradoramente boa - uso o advérbio de modo voluntária e conscientemente: a simples ideia de ter que resistir todos os dias a estas tentações aterroriza-me -.
Terça-feira largamos. Estou a precisar de mar e de HELENA S. Tem sido tratado, acarinhado pelos jovens tripulantes. Cada vez gosto mais dele e deles. Só gostava que a tentativa de B. tivesse sucesso e houvesse dinheiro para um refit à séria.
Não acredito muito, mas tão pouco deixo de acreditar. O passado explica o presente mas não condiciona o futuro. E o HELENA S. merece, pelo menos, que se acredite. Visto de terra, fundeado no meio de não sei quantas embarcações é a única que se vê, a única que tem uma alma, um feitio e uma vontade.
Felizmente não gosto de surpresas e tudo muda constantemente. Queríamos arranjar clientes para Bocas. Encontrámos um, e penso que amnhã há mais (há sempre mais amanhã, sempre mais, sempre amanhã). Via M., da BNN encontrámos um grupo em San Blas. Devem confirmar hoje. Felizmente o cliente que temos para Bocas é um amigo do Luka e da Danielle e compreenderá se lhe dissermos que só vamos até San Blas - provavelmente virá noutra viagem.
Hoje à noite saberei se vamos para San Blas se para Bocas; e amanhã se teremos dinheiro para pagar o acréscimo de custos do piloto (e muito provavelmente da vela grande).
Entretanto hoje vou lutando contra a terrível tentação de comer uma arepa, uma enchilada ou uma papa rellena en cada esquina. A comida de rua de Cartagena é aterradoramente boa - uso o advérbio de modo voluntária e conscientemente: a simples ideia de ter que resistir todos os dias a estas tentações aterroriza-me -.
Terça-feira largamos. Estou a precisar de mar e de HELENA S. Tem sido tratado, acarinhado pelos jovens tripulantes. Cada vez gosto mais dele e deles. Só gostava que a tentativa de B. tivesse sucesso e houvesse dinheiro para um refit à séria.
Não acredito muito, mas tão pouco deixo de acreditar. O passado explica o presente mas não condiciona o futuro. E o HELENA S. merece, pelo menos, que se acredite. Visto de terra, fundeado no meio de não sei quantas embarcações é a única que se vê, a única que tem uma alma, um feitio e uma vontade.
15.2.14
Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 15-02-2014
Estávamos à sec de toile quando chegou o primeiro cliente e pagou uma parte da passagem. Fomos celebrar para a Plaza Trinidade.
Enfim, não é bem verdade: não fomos celebrar. Fomos à Plaza Trinidade porque é ali que se encontram os mochileiros nas noites de sexta-feira e queríamos ver se encontrávamos mais alguém. Razões estrictamente profissionais, portanto. Às quais acresciam o facto de J., o passageiro e amigo de Luka e Danielle, também lá estar com L., a sua alta, grande e inglesa namorada.
L. também faz o Cartagena run, noutro barco. Há muitos, talvez oito ou nove; para obtermos clientes os contactos pessoais são importantes, tanto como os flyers que deixamos por esses albergues e para os quais os recepcionistas olham, salvo raras excepções, com um desinteresse notório. Nem a promessa de uma boa comissão os faz reagir – sinal seguro de que não tencionam tirar clientes de barcos que já conhecem.
Mas enfim, Luka e Danielle conhecem toda a gente e – mais importante – são apreciados por todos. L. é a melhor amiga da mulher do dono (e trabalhadora) da principal agência para estes transportes. Quando lá fomos a senhora mulher do dono disse-nos que só trabalhavam com barcos legalizados na Colômbia – se houver um já é muito, se houver dois abro a boca de espanto e nunca mais a fecho. Aposto que na segunda-feira vamos ter uma recepção diferente.
Por acaso na Plaza Trinidade não encontrámos ninguém para além de J. e L., que estavam cansados e foram deitar-se pouco depois de termos chegado, mas a viagem valeu a pena.
A praça é pequena e fica à frente da igreja creio que do mesmo nome. Às sextas enche-se de gente – locais, turistas de todos os tipos, vendedores ambulantes, um ou outro bêbedo ou crackómano (ambos muito, infinitamente menos do que no Brasil) -.
A atmosfera é amigável, segura, convivial. Alguns jovens comem patacones con todo, uns pratos enormes cujo conteúdo é impossível de definir; as jovens mostram-se, como é seu dever; as músicas do bares não estão demasiado altas e não incomodam.
Que diferença do Panamá e do Brasil. Neste, tudo aquilo cheiraria a mijo, a praca estaria cheia de bêbedos, crackómanos e polícias, a música aos berros. No Panamá o ambiente seria tenso, as pessoas estariam reunidas em pequenos grupos mais ou menos fechados, turistas de um lado e panamianos do outro.
Não gosto do Panamá, e chegando à Colômbia vejo imediatamente porquê – melhor, vejo imediatamente que tenho razão -: as pessoas aqui são afáveis, simpáticas, sorridentes, dizem bom dia e boa tarde e obrigado, riem-se com uma piada. No Panamá parecem os blocos de granito com os quais temos vontade de os atirar ao Canal meia dúzia de dias depois de lá chegarmos – vontade essa que vai crescendo com a permanência no país.
Pergunto a L. qual pensa ser a razão de tanta disparidade entre povos que não são apenas vizinhos, mas já foram a mesma nação, até há relativamente pouco tempo. A culpa é dos americanos, diz sem hesitar. Claro. Como não pensei nisso antes?
Enfim, deixo de lado os porquês e concentro-me no casamento que começa a sair da igreja. Parece-me extraordinário que pessoas escolham casar-se sexta-feira à noite numa igreja que dá para uma praça cheia de gente. É frequente, diz-me J., um colombiano adorável, reparador de dinghies, carpinteiro naval e (dizem-me Luka e Danielle aprovadoramente) sonhador. J. quer fazer uma escola de vela em Cartagena, uma escola como deve ser, com Optimists e Lasers e tudo. Intuitivamente aprovo o sonho, claro; e dou por mim a discutir pormenores com os meus dois jovens, adoráveis e competentes tripulantes.
A verdade é que a economia colombiana está bastante forte e a classe média nascente não tem muito oferta; ou pelo menos suficiente. Meia dúzia de Optimists seria com certeza rentável.
Mas eu tenho o meu Helena, e sou europeu; por muito que goste da ideia e da cidade não é aqui que vou parar. Se bem não me importasse nada de cá voltar...
….....
S. sabe tudo sobre o Cartagena run, como chamo a estas viagens. Proprietário ou gerente de um dos maiores albergues de Cartagena explica-me, suffisant e cheio de si, que foi ele o primeiro a vender o trajecto. Começou há dez anos.
Diz-me que os preços vão subir (isto porque acha os meus demasiado baratos) e fala muito. Não fala para mim: gosta de se ouvir falar. Respondo-lhe com duas ou três frases curtas e pouco depois no tom muda. Os miúdos dizem-me que dali não virá ninguém; eu penso que sim, mas com tempo, com algum tempo. Na verdade pouco me importa: não sei se o teremos. Em Maio o Helena vai para o Mediterrâneo trabalhar naquilo para que parece ter sido feito: day charter. O resto é conversa de enfatuados.
….....
Não se pode ir por terra da Colômbia para o Panamá e os bilhetes de avião são caros: daí o mercado para estes tansportes de mochileiros. Basta aparecer um ferry com capacidade para baixar os preços e S. vai ver onde vão eles parar.
Amanhã vamos almoçar com o armador de um desses ferries, que só não começou ainda a operar por causa de dificuldades burocráticas. É um amigo, mais um, de Luka e Danielle. Estão contentes por vir para a Europa; e eu contente por eles virem.
........
E assim passo os dias: na livraria Ábaco, que elegi como escritório; na Oficentro, onde Jhon (sic) faz as alterações aos flyers, os imprime e depois manda plastificar no rés-do-chão; a calcorrear as adoráveis e floridas ruas da cidade velha para os distribuir; e a pensar no que fazer do pobre B., que avança a passo de caracol e mesmo assim só empurrado, empurrado, empurrado.
Enfim, não é bem verdade: não fomos celebrar. Fomos à Plaza Trinidade porque é ali que se encontram os mochileiros nas noites de sexta-feira e queríamos ver se encontrávamos mais alguém. Razões estrictamente profissionais, portanto. Às quais acresciam o facto de J., o passageiro e amigo de Luka e Danielle, também lá estar com L., a sua alta, grande e inglesa namorada.
L. também faz o Cartagena run, noutro barco. Há muitos, talvez oito ou nove; para obtermos clientes os contactos pessoais são importantes, tanto como os flyers que deixamos por esses albergues e para os quais os recepcionistas olham, salvo raras excepções, com um desinteresse notório. Nem a promessa de uma boa comissão os faz reagir – sinal seguro de que não tencionam tirar clientes de barcos que já conhecem.
Mas enfim, Luka e Danielle conhecem toda a gente e – mais importante – são apreciados por todos. L. é a melhor amiga da mulher do dono (e trabalhadora) da principal agência para estes transportes. Quando lá fomos a senhora mulher do dono disse-nos que só trabalhavam com barcos legalizados na Colômbia – se houver um já é muito, se houver dois abro a boca de espanto e nunca mais a fecho. Aposto que na segunda-feira vamos ter uma recepção diferente.
Por acaso na Plaza Trinidade não encontrámos ninguém para além de J. e L., que estavam cansados e foram deitar-se pouco depois de termos chegado, mas a viagem valeu a pena.
A praça é pequena e fica à frente da igreja creio que do mesmo nome. Às sextas enche-se de gente – locais, turistas de todos os tipos, vendedores ambulantes, um ou outro bêbedo ou crackómano (ambos muito, infinitamente menos do que no Brasil) -.
A atmosfera é amigável, segura, convivial. Alguns jovens comem patacones con todo, uns pratos enormes cujo conteúdo é impossível de definir; as jovens mostram-se, como é seu dever; as músicas do bares não estão demasiado altas e não incomodam.
Que diferença do Panamá e do Brasil. Neste, tudo aquilo cheiraria a mijo, a praca estaria cheia de bêbedos, crackómanos e polícias, a música aos berros. No Panamá o ambiente seria tenso, as pessoas estariam reunidas em pequenos grupos mais ou menos fechados, turistas de um lado e panamianos do outro.
Não gosto do Panamá, e chegando à Colômbia vejo imediatamente porquê – melhor, vejo imediatamente que tenho razão -: as pessoas aqui são afáveis, simpáticas, sorridentes, dizem bom dia e boa tarde e obrigado, riem-se com uma piada. No Panamá parecem os blocos de granito com os quais temos vontade de os atirar ao Canal meia dúzia de dias depois de lá chegarmos – vontade essa que vai crescendo com a permanência no país.
Pergunto a L. qual pensa ser a razão de tanta disparidade entre povos que não são apenas vizinhos, mas já foram a mesma nação, até há relativamente pouco tempo. A culpa é dos americanos, diz sem hesitar. Claro. Como não pensei nisso antes?
Enfim, deixo de lado os porquês e concentro-me no casamento que começa a sair da igreja. Parece-me extraordinário que pessoas escolham casar-se sexta-feira à noite numa igreja que dá para uma praça cheia de gente. É frequente, diz-me J., um colombiano adorável, reparador de dinghies, carpinteiro naval e (dizem-me Luka e Danielle aprovadoramente) sonhador. J. quer fazer uma escola de vela em Cartagena, uma escola como deve ser, com Optimists e Lasers e tudo. Intuitivamente aprovo o sonho, claro; e dou por mim a discutir pormenores com os meus dois jovens, adoráveis e competentes tripulantes.
A verdade é que a economia colombiana está bastante forte e a classe média nascente não tem muito oferta; ou pelo menos suficiente. Meia dúzia de Optimists seria com certeza rentável.
Mas eu tenho o meu Helena, e sou europeu; por muito que goste da ideia e da cidade não é aqui que vou parar. Se bem não me importasse nada de cá voltar...
….....
S. sabe tudo sobre o Cartagena run, como chamo a estas viagens. Proprietário ou gerente de um dos maiores albergues de Cartagena explica-me, suffisant e cheio de si, que foi ele o primeiro a vender o trajecto. Começou há dez anos.
Diz-me que os preços vão subir (isto porque acha os meus demasiado baratos) e fala muito. Não fala para mim: gosta de se ouvir falar. Respondo-lhe com duas ou três frases curtas e pouco depois no tom muda. Os miúdos dizem-me que dali não virá ninguém; eu penso que sim, mas com tempo, com algum tempo. Na verdade pouco me importa: não sei se o teremos. Em Maio o Helena vai para o Mediterrâneo trabalhar naquilo para que parece ter sido feito: day charter. O resto é conversa de enfatuados.
….....
Não se pode ir por terra da Colômbia para o Panamá e os bilhetes de avião são caros: daí o mercado para estes tansportes de mochileiros. Basta aparecer um ferry com capacidade para baixar os preços e S. vai ver onde vão eles parar.
Amanhã vamos almoçar com o armador de um desses ferries, que só não começou ainda a operar por causa de dificuldades burocráticas. É um amigo, mais um, de Luka e Danielle. Estão contentes por vir para a Europa; e eu contente por eles virem.
........
E assim passo os dias: na livraria Ábaco, que elegi como escritório; na Oficentro, onde Jhon (sic) faz as alterações aos flyers, os imprime e depois manda plastificar no rés-do-chão; a calcorrear as adoráveis e floridas ruas da cidade velha para os distribuir; e a pensar no que fazer do pobre B., que avança a passo de caracol e mesmo assim só empurrado, empurrado, empurrado.
E por vezes...
Acabo de receber isto. Não é lindo?
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.
Não. É sublime.
E é de David Mourão-Ferreira, claro, um autor que tenho definitivamente de conhecer melhor, muito melhor.
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.
Não. É sublime.
E é de David Mourão-Ferreira, claro, um autor que tenho definitivamente de conhecer melhor, muito melhor.
14.2.14
"Oiça um bom conselho / eu lhe dou de graça..."
Um conselho para o dia dos Namorados: não deixem a vossa namorada (ou o vosso namorado, claro) tomar SSRI :-)
Diário de Bordos - Cartagena de Indias, Colômbia, 14-02-2014
O dia ontem foi fatigante; é uma das coisas de que gosto nisto de não ser um turista, de chegar seja onde for para trabalhar (as outras sendo que isso me faz sentir imediatamente em casa, por um lado; e o facto de se ficar a conhecer muito melhor uma cidade se se tiver de trabalhar do que passeando-se nela).
De manhã fiz os prospectos, com a ajuda do Jhon (sic) da Oficentro; à tarde distribuímo-los, a Danielle, o Luka e eu pela cidade. Enfim, pela parte da cidade onde estão concentrados os albergues e restaurantes que o nosso público-alvo frequenta.
Seria bom termos amanhã as primeiras respostas. Mais do que bom: essencial.
(Viajar à beira do abismo, numa corda bamba permanente também ajuda a conhecer uma cidade. É, suponho, o equivalente daquelas personagens que nos contos de O'Henry limam as unhas para melhor sentir as combinações dos cofres que estão a assaltar).
Foi portanto com toda a atenção aos pormenores que hoje percorri os bairros de Getsemani, Centro e La Matuna, todos eles parte da cidade velha, rodeada de muralhas e de mar.
Por vezes sentia-me na Grécia, por causa das plantas e flores que jorram das paredes das casas; outras em Itália, ou em Espanha. Cartagena é uma cidade mediterrânica habitada por mulheres com traços de índio e por turistas de mochila às costas (são os únicos segmentos da população que vejo).
Como todas as belas tem senãos. O preço absurdo de coisas básicas como o rum, o vinho e o pão é assustador, e ajuda a relativar o desgosto que sinto pelo Panamá cada vez que alguém me diz bom dia numa loja – isto é, cada vez que entro numa, mesmo que seja para simplesmente pedir uma informação – cada vez que alguém é simpático e amável e prestável – ou seja, quando falo com alguém seja por que motivo for.
Felizmente temos a bordo farinha que chegue para fazer pão uma boa semana; é assunto resolvido – quando chegar o gás, claro -. Já o vinho e o rum terão de encontrar outro caminho se querem vir para a mesa do HELENA S.
O qual HELENA S. parece outro barco; a Danielle é inparável e tem limpo este barco ao milímetro. E o Luka é um bom bricoleur, experiente e dinâmico e tem, ele também, trabalhado muito para que o bote esteja um pouco mais apresentável.
Por vezes acordo à noite e tenho a impressão de que oiço o Helena agradecer-me.
O maior problema que temos de resolver – a vela grande, o piloto automático e a chave da ignição do motor de estibordo não são problemas, são simplesmente custos – é o das escotilhas. O Luka foi procurar juntas, mas não havia. Vamos ter de improvisar e muito.
E esperar que alguém se inscreva para a viagem de regresso. Duas pessoas pagarão todas as despesas que temos em curso; as outras pagarão despesas antigas, e algumas das que estão para vir.
De manhã fiz os prospectos, com a ajuda do Jhon (sic) da Oficentro; à tarde distribuímo-los, a Danielle, o Luka e eu pela cidade. Enfim, pela parte da cidade onde estão concentrados os albergues e restaurantes que o nosso público-alvo frequenta.
Seria bom termos amanhã as primeiras respostas. Mais do que bom: essencial.
(Viajar à beira do abismo, numa corda bamba permanente também ajuda a conhecer uma cidade. É, suponho, o equivalente daquelas personagens que nos contos de O'Henry limam as unhas para melhor sentir as combinações dos cofres que estão a assaltar).
Foi portanto com toda a atenção aos pormenores que hoje percorri os bairros de Getsemani, Centro e La Matuna, todos eles parte da cidade velha, rodeada de muralhas e de mar.
Por vezes sentia-me na Grécia, por causa das plantas e flores que jorram das paredes das casas; outras em Itália, ou em Espanha. Cartagena é uma cidade mediterrânica habitada por mulheres com traços de índio e por turistas de mochila às costas (são os únicos segmentos da população que vejo).
Como todas as belas tem senãos. O preço absurdo de coisas básicas como o rum, o vinho e o pão é assustador, e ajuda a relativar o desgosto que sinto pelo Panamá cada vez que alguém me diz bom dia numa loja – isto é, cada vez que entro numa, mesmo que seja para simplesmente pedir uma informação – cada vez que alguém é simpático e amável e prestável – ou seja, quando falo com alguém seja por que motivo for.
Felizmente temos a bordo farinha que chegue para fazer pão uma boa semana; é assunto resolvido – quando chegar o gás, claro -. Já o vinho e o rum terão de encontrar outro caminho se querem vir para a mesa do HELENA S.
O qual HELENA S. parece outro barco; a Danielle é inparável e tem limpo este barco ao milímetro. E o Luka é um bom bricoleur, experiente e dinâmico e tem, ele também, trabalhado muito para que o bote esteja um pouco mais apresentável.
Por vezes acordo à noite e tenho a impressão de que oiço o Helena agradecer-me.
O maior problema que temos de resolver – a vela grande, o piloto automático e a chave da ignição do motor de estibordo não são problemas, são simplesmente custos – é o das escotilhas. O Luka foi procurar juntas, mas não havia. Vamos ter de improvisar e muito.
E esperar que alguém se inscreva para a viagem de regresso. Duas pessoas pagarão todas as despesas que temos em curso; as outras pagarão despesas antigas, e algumas das que estão para vir.
13.2.14
Estranhas relações
Por uma razão que eu não conheço os condutores de todo o mundo vêem uma relação entre a buzina do automóvel e os travões: cada vez que atravesso uma rua buzinam antes de travar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)