30.6.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-06-2023

- Xisco, o homem que cozinhou esta carne (plumas de cerdo) vai para o céu.
- Luís, não é um homem, é uma mulher. E tem um cu que quem vai para o céu és tu, quando o vires.

O diálogo não é verbatim, mas é fiel. O que eu não percebo é como ainda há quem queira transformar isto numa Suécia. Eu não quero.

Verdade seja dita: nesta cidade não há canto em que um gajo não ponha os olhos num cu que o leva ao céu (cu sendo aqui uma metonímia. Não quero que os meus leitores pensem que sou obcecado por uma parte especial da anatomia feminina. Não sou. Não há nada na anatomia de uma senhora que não me leve ao céu, elevador expresso como os dos arranha-céus).

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Jantar no Lo Divino. Não é só a anatomia feminina que me leva ao céu. Na verdade, todas as estradas levam a ele: um corpo, um jantar, um livro, um poema. Basta respirar, no fundo.

E ter olhos para ver.

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A funcionária da gestoria que contratei para tratar dos P. (pai e filho) esteve uma semana de baixa. Quando tentamos explicar a quem não é deste meio que os factores que nós controlamos são uma parte ínfima de todos aqueles com que lidamos as pessoas pensam que exageramos. Não exageramos. Antes pelo contrário: somos púdicos e escamoteamos uma grande parte da realidade. Questão de não expormos a toda a gente a nossa pequenez. A nossa impotência fundamental, basilar.

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Falo da beleza das estradas hiper-secundárias de Maiorca, das surpresas que nos reservam, mansões escondidas no meio de nada. R. acrescenta que aqui as estradas estão limpas, ordenadas, arranjadas. Na Sicília (de onde é originário) «parece uma guerra». 

A ordem é atraente. É magnética. E nós somos como limalha atraída pelas suas linhas de força. Entropia e neguentropia: oscilamos entre uma e outra como uma criança num baloiço. Que não dirigimos, como ela não o controla.

Empíricas, meu caro Watson

A Neurociencia del Cuerpo é um livro fabuloso, de leitura imprescindível.  Entre muitas outras qualidades (mais, mais tarde) tem uma essencial: faz-me ver, com provas, quão errado eu estava (ou estou ainda, estas coisas não são de um dia para o outro) em tantas áreas. A palavra-chave, para quem não tenha percebido, é provas. Provas empíricas. 

Foi com elas que construí as minhas opiniões e é com elas que gosto de vê-las demolidas.

29.6.23

AVURNAV - Terminal 2 do aeroporto de Lisboa

Aviso urgente à navegação: se alguém tiver a desventura de ter de utilizar o terminal 2 do aeroporto de Lisboa deve a todo o preço evitar chegar mais do que dez minutos antes do voo. Fiz dois erros: a) cheguei duas horas e um quarto antes; b) passei directamente para a zona de embarque, aterrorizado com o que vi no hall dos check in.

Agora estou na zona das portas de embarque. Eu e metade da população europeia. Esta zona foi feita para acolher metade de uma aldeia abandonada do interior de Portugal. Podem facilmente visualizar a amplidão da discrepância. 

O terminal 2 do aeroporto de Lisboa existe para me fazer esquecer os aeroportos de Madrid e de Marselha. É sem dúvida louvável como objectivo, não discuto. Mas podiam tentá-lo quando eu - nem ninguém que eu preze - já não precise de passar por aqui.

28.6.23

"Oiça um bom conselho / eu lhe dou de graça"

Há umas dúzias de anos deu-me na vontade operar o nariz. Não por razões estéticas, note-se. Desse ponto de vista nada a fazer. Por razões operacionais. Pedi sugestões (o que era fácil, nessa altura vivia com uma senhora que trabalhava num meio medicalizado, também conhecido por Hospital Universitário) mas todos os nomes que me foram sugeridos tinham listas de espera de três ou quatro meses. Não queria esperar tanto tempo. Na minha vida três meses é uma vida, de maneira tive uma ideia faiscante. Cintilante. Deslumbrante: fui à lista telefónica e comecei a telefonar a todos os cirurgiões otorrino que lá constavam, por ordem alfabética (claro. É assim que as listas telefónicas funcionavam). As esperas andavam todas pelo mesmo: três, quatro meses. Até que na letra H (ou I) cheguei a uma senhora que me podia operar "para a semana". Claro que a escolhi.
 
A mulher ia-me matando. Pouco tempo depois foi expulsa da ordem dos médicos (não há relação entre as duas coisas). 

O critério que segui para encontrar o oftalmologista que me operou às cataratas no Porto foi completamente diferente e bastante semelhante. Hoje fui - finalmente - pedir uma segunda opinião a um oftalmologista de Lisboa. 

Pré-diagnóstico (tenho de lá voltar): " Isto não está fácil." Se precisarem de conselhos para a escolha de um médico digam-me.

Sabedoria do século de ouro

"Todos los que parecen estúpidos lo son y, además, también lo son la mitad de los que no lo parecen."

Quevedo, citado por Nazareth Castellanos in Neurociencia del cuerpo.

27.6.23

Diário de Bordos - Lisboa, 27-06-2023

Chego ao Marquês e hesito: Avenida da Liberdade e Restauradores, Rossio ou Braancamp e Rato? Aqui haveria outro dilema: Príncipe Real ou Estrela? Opto pela via do menor dilema e desço lentamente a Liberdade, pelo passeio para dar lugar aos automobilistas, que como de costume vão numa corrida furiosa contra o próximo semáforo. Acabo no Nicola a beber cafés e a comer pastéis de nata, assim mesmo no plural.

O R. é um filho da puta de um argentino, passe o pleonasmo (e a injustiça da generalização, que a mais das vezes é falsa mas que se lixe. Isto não é uma aula de antropologia e menos ainda de boas maneiras). A verdade é que o E. pegou no material e foi-se embora, podre de razão. Espero que recomece sexta, como combinado, que o outro sacana já deve ter terminado.

Neste refit apliquei tudo o que sabia e apercebi-me de tudo o que não. Gostaria muito que houvesse outro igual um dia destes, para ver se o que aprendi se nota na vastidão do que não sabia. Se o pequeno montinho que acrescentei ao que já sabia é visível. 

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O hospital de Cascais informa-me gentilmente que a próxima infiltração não poderá ser antes do dia vinte e três de Agosto. Até agora tenho resistido ao apelo do seguro privado, mas tudo me leva a pensar que António Costa vai ganhar a aposta e eu perdê-la. Menos um gajo a chatear no SNS. Costa quer privatizar a saúde usando o conhecida método do fode-fininho. Um dia o SNS não terá ninguém senão o lúmpen.

Nesse dia a saúde privada será ainda mais forte e ainda mais pujante do que está hoje. Infelizmente o SNS continuará uma merda porque a quantidade de proletas não pára de aumentar e os médicos terão fugido todos para "a privada".

25.6.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-06-2023

Fim de tarde de sábado. Jantar no Gustar com o V., que celebra o seu septuagésimo primeiro aniversário. A burra descansa, encostada ao canteiro central. Pus-lhe um selim novo, castanho e punhos a condizer. "Não te podes queixar", diz-me V., a empregada búlgara.  É bonita, tem um aspecto campestre, parece que chegou ontem da quinta da família. Em Lisboa, no Bairro Alto do antigamente havia um restaurante que tinha uma empregada assim. Só tinha as bochechas mais coradas. Tento lembrar-me do nome. Sei que era na rua do Diário de Notícias. Penso no dia que tive, nos que me esperam e o primeiro impulso é discordar dela. Depois penso no que acabo de pensar, na injustiça profunda que queixar-me é fazer à vida e encho-a de razão. Não me posso queixar. Ou melhor: não devo queixar-me. Poder, posso. Só que não devo.

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Isto foi ontem. Hoje o dia começa com uma crise: o charter do V. arrancou mal e é preciso substituí-lo. Arrumei os papéis a noventa e nove por cento. Para o que falta preciso de mais uns dias. (O que falta são pentelhices, mas pronto. Sou como sou e é tudo o que sou.)

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Encontrei um substituto para o V. Imagino como se sente, mas isto são coisas que acontece a todos. Há dias que arrancam com vento contra e nada há a fazer senão apearmo-nos deles, lamber o ego e prepararmo-nos para a próxima. 

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O dia acaba como um leque que se fecha. Todas as peças estão lá. Voltaram ao seu lugar.

24.6.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-06-2023

Manhã boa: consegui fechar com o Enver a um preço porreiro. Agora sim, a porcaria do traveller vai ficar resolvida. Depois pinta o convés todo, mas isso só mais perto do fim.

Manhã má: compras. A minha metade feminina não é suficientemente vasta para entender o conceito de «terapia de compras». Que prazer se pode extrair de ir gastar dinheiro em lojas de roupa? Numa loja de aprestos marítimos aceita-se facilmente, mas em roupa? Enfim, o meu stock de pólos brancos foi reposto e o Domingo tinha finalmente os dois pares de alpergatas que lhe encomendei quando cheguei - um deles ficou logo lá, estava um bocadinho grande. O Domingo é um gajo adorável mas está longe de ser o ás da alpergata. Tem a vantagem de ficar ao lado do mercado de Santa Catalina, o que não é despiciendo. Esta segunda vou para Lisboa um bocadinho mais leve, sabendo que deixo o Enver a bordo. É um srilankês pequenino, com uma pele que assenta directamente nos ossos, não há nada entre estes e aquela. Combináramos às nove e às nove em ponto lá estava. Quando cheguei liguei-lhe, mas ele ainda não estava em condições. A operação foi semelhante à minha e também não lhe correu muito bem. Ou correu pior, ainda. Eu pelo menos nunca deixei de poder trabalhar.

Manhã péssima: voltaram as dores no ombro, depois de umas semanas de paz.

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Começaram as queixas do calor. Respondo imediatamente: «ainda bem. Já era tempo», ver se as calo. No Inverno queixam-se do frio e na Primavera e no Outono das «alterações climáticas» (aspas porque é sarcástico). 

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Esparramo-me pelo cansaço, que nem sequer é bem cansaço. É antes o desfazer da tensão. A distensão,  se quiserem. Sinto as cobras todas a abandonar-me a carcaça,  uma por poro. Cada músculo é um ninho delas. Pergunto-me o que se passará pelos neurónios,  pelas sinapses, por essas zonas que sabem dizer como me sinto mas não se deixam observar.

23.6.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-06-2023

"Está un verano loco", diz-me Martin no seu espanhol quase perfeito. Martin é um dos poucos expatriados que conheço que aprenderam espanhol. Trabalha na Mercanautic, aonde é um funcionário competente e afável. Está podre de razão, como esta breve troca demonstra:

- Tania, o adiantamento que te dei não é suficiente, vou dar-te mais dinheiro - digo-lhe quando veio tirar as medidas para o lazy bag (sim, consegui). Claro que não estou nada preocupado com o montante do sinal. Estou preocupado com outra coisa.

- Luís, o meu problema não é dinheiro, é tempo. Deixa o sinal, não te preocupes com isso - responde-me a senhora, outra das que aprendeu espanhol. 

Ou seja, traduzindo: Luís, não sonhes com ladrões, qualquer que seja a língua dos teus sonhos.

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I. continua a não dar sinais de vida. Procuro alguém para o substituir. "Luís, não sonhes com ladrões". [Mentira. Talvez. Amanhã de manhã o Enver vem a bordo.  Este é fiável. Não falha. A ver quanto me vai pedir. Tem estado doente, de baixa, de alta, de operações e pós-operatórios. Aparentemente já se mexe.]

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Fim de tarde no Toni. Esta praça é fascinante: apesar do bulício consegue ser repousante. Consequência da luz, creio; da mistura de árvores (não sei identificar metade), da ausência quase total de automóveis. Na esplanada do Toni ninguém grita; nas duas que a rodeiam tão pouco. As três - Café Moderno, Café Plaça, Bar Santa Eulália, no sentido dos ponteiros de relógio de onde estou - são ocupadas maioritariamente por maiorquinos. De vez em quando lá se senta um turista ou dois, na sua maioria casais e com a adolescência há muito para trás.

A luz reflecte-se nas folhas e dá-lhes cores que vão do amarelo vivo ao verde escuro (aonde ela não chega). Essas mesmas folhas absorvem o pouco barulho e devolvem-no-lo sob a forma de paz. No caminho para aqui vinha a pensar que se descrevesse os meus dias pormenorizadamente os leitores pensariam que estava a estagiar para uma escola de filmes de terror. Bom: dois tinto de verano e uma tapa de chouriço e o filme de terror transforma-se na ilustração visual do álbum From gardens where we feel secure. Cuja audição de resto sugiro fortemente.

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Jantar na Cuadra del Maño, no meu lugar habitual (já aqui não venho há mais de um ano). O gajo do casal ao meu lado mantém o chapéu - um panamá de feira - na cabeça o tempo todo. Tira-o apenas para a selfie, quando a carne chega. 

E ai da há quem diga mal das selfies. 

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O meu lugar habitual é ao balcão, à frente das torneiras de cerveja. O que eu gosto de ver esta azáfama nobre que é dar de comer e beber aos outros, completamente alheados da dimensão nobre da coisa. Trata-se de servir, depressa e bem e encaixar o resultado desse trabalho. A nobreza fica para os observadores solitários (que por sinal já fizeram isto, mais ou menos).

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Termino a noite no Jaume. O Santisima Trindad é como a praça de Santa Eulália: amolece qualquer filme de terror.

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«Por favor recicla», diz um cartaz à porta do Jaume. «Per tu, per mi, pel nostre futur», assim mesmo em maiorquino. Confesso que não percebo. Há sessenta e cinco anos que reciclo tudo o que como e bebo em merda e mijo; desde os doze ou treze que converto o que sinto em palavras. Não vejo o que isso tenha feito pelo futuro de quem quer que seja. Nem o meu, quanto mais o dos outros.

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Vá lá, reciclo filmes de horror em pastorais rupestres, reciclo dinheiro em coisas variadas, bebidas e disparates (hoje comprei um modelo de paquete lindo), reciclo tudo em nada e nada em tudo. Espero que um dia a humanidade me devolva tudo o que fiz por ela.

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Ao longo destes cinco anos construí em Palma um ecossistema encantador. Tenho de falar nisto.

22.6.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-06-2023

Vamos pôr as coisas nestes termos: se eu amanhã conseguir ter a T. a tirar medidas para o lazybag fico a perceber porque nunca ganhei o totó-milhões: a sorte estava toda reservada para este momento. A alternativa - sou um génio - não me parece credível. 

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O I. continua a não aparecer e a não responder ao telefone. Aquele traveller da grande é uma das peças malditas do P.

Que tantas tem, coitado.

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No café Goa à espera do D. A reunião era às onze, cheguei às onze menos dez, são onze e quase meia e até agora nada. Aproveito o tempo para telefonar, enviar e-mails e, isto tudo feito, escrever disparates. Podia ser pior. O Goa tem um cafe quase bebível.

(Cont.)

21.6.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 21-06-2023

Caras: o I. não veio trabalhar e não atende o telefone; o D. diz que está «agoniado de trabalho» e não pode vir a bordo (para fazer um orçamento, note-se, uma coisa que ele faria em quinze minutos mais, admitidamente, as deslocações); a gestoria de Blanes não responde ao telefone; tentei outras, mas tão pouco respondem; ando às voltas com a minha folha de Excel. Grosso modo, é como dar passos de um milímetro numa viagem de quilómetros; o B. arranjou um embarque e não deve estar disponível nem amanhã nem depois, que é exactamente quando eu preciso dele. O X. não tem tempo nem para me dizer que está agoniado de trabalho. Fui à loja deixar um recado ao irmão - que estava ao telefone e não pode atender-me. Deixei-o ao empregado; o correio ainda não deixou o papel no Registo Civil de Loures. Talvez amanhã, diz a boa metade de mim. Talvez na sexta, diz a outra, sabendo que na segunda vou lá chegar e com sorte o maldito papel acabou de chegar também, no mesmo correio do que eu.

Moeda ao ar. Coroa: acabei finalmente de digitalizar a massa informe de papéis que tinha amontoados do P.; amanhã tenho finalmente a reunião com o D. para falarmos do boomvang (não vou comprar um rígido e quero saber o que é que ele sugere para uma retranca e um mastro destes); o Th. enviou-me uma mensagem a dizer que me vai dar as datas dos charters (metade vai para o V., espero, mas pelo menos assim sei com que linhas me coserei - além de que é um prazer fazer um charter em barcos novos, bem equipados e em alguns casos com stew - se for bonita, disse ao Th., que me respondeu que sim, é). Fui jantar ao 7 Machos, aonde já não ia há séculos. Recebido como sempre. Melhores tacos a leste do Pecos (não sei onde fica o Pecos, mas isso é irrelevante). Margaritas al dente e mezcal oferecido; gelado de caramelo salgado no Claudio. Encharcado em rum das Maurícias até às bordas; enviei a carta ao R. M. da Roses Nautica. Não serve de nada senão para descarregar, mas pelo menos descarreguei; a inspecção ao gás está feita. Não tarda chega-me o certificado. Em prémio «ganhei» uma garrafa de gás (aspas porque é a pagantes, claro); o portaló mais barato do chandler dá para o P.

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Entre estas duas faces da moeda há as minhas coisas: arranjar um lugar para a exposição (o P. V. mudou a data e quero tentar manter a exposição e o lançamento juntos); o texto para os Guide V.O. que não há maneira de sair; a leitura do A. G. que avança a passo de caracol.

A esta moeda chama-se «uma vida». Cada um dos meus dias é assim: uma vida.

20.6.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19 e 20-06-2023

De um ponto de vista burocrático, sair de Portugal e vir para Espanha é como saltar da frigideira e cair no fogo.

Enfim, na verdade de todos os pontos de vista. Espanha é Portugal em dez vezes pior (cinco porque tem cinco vezes a população e outras cinco porque cada um deles pensa que vale por dois).

Adoro esta cidade, as Baleares (com a excepção de Ibiza, de que gosto, só), adoro a Andaluzia e a Galiza. Tenho aqui bons amigos, sei de boa gente. Isto é exactamente como os franceses: quando a unidade é a unidade são gajos porreiros, afáveis. Quando a unidade passa ao milhão transmutam-se e o país fica insuportável. 

Até agora tenho vivido à revessa, bem abrigado, a beijar as rochas e a coisa tem ido. Com a compra do BP embati de frente na outra face da Lua e pronto.

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Metade da clientela feminina do restaurante parece que saiu de um casting da Vogue. A outra metade saiu, sem parecer - isto é, de certeza - dos quarteirões chiques de Palma. Há dois ou três machos alfa espalhados pela sala. Um deles sentou-se na mesa ao lado da minha. Infelizmente o correspondente troféu ficou do meu lado. O restaurante chama-se Giromatto, é giro mas não mata. Os saltimbocca estavam correctos, o Chianti era aceitável e o limoncello bastante bom. Não se pode dizer que encontrá-lo tenha sido obra do acaso; eu pedalava de facto ao acaso nas ruas de Santa Catalina à procura de um italiano e vi aquele, àquela hora ainda vazio (ando com horários de alemão). Acaso anula acaso: têm sinais alternadamente opostos. Mais acaso menos acaso igual a zero acaso. Depois vim para casa dormir, dormir e conferenciar com a almofada sobre esta história do BP.

Como nestas coisas um azar nunca vem só (e os azares não se anulam, são todos do mesmo sinal, adicionam-se) o registo civil de Loures recusou-se a dar o passaporte ao P. C.  Pedi-lhes que e dêem pelo menos o número. Vamos ver que desculpa arranjam para me dizer que não.

Adenda: a responsabilidade. Não lhes passa pela cabeça que quem não gosta de responsabilidades não devia ir para lugares que a requerem.

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Comi as primeiras brevas. Estamos a meados de Junho, bolas. Malditas altera... Benditos frutos. Eu sei que há uma palavra portuguesa para designar esses figos tardios (ou precoces, dependendo do ponto de vista), menos doces do que os outros mas com tanto ou mais sabor. Brevas, meus amigos, brevas. Tereis o Mediterrâneo na palma da mão e a felicidade num dos seus lugares favoritos: a boca.

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Concerto em favor da luta contra o cancro e em homenagem a uma senhora chamada Mayka que dele morreu e era amiga de muitos músicos (ou era música, não consegui destrinçar). Magnífico. Doze músicos e dois poetas (à vez) interpretaram músicas de que a senhora gostava e evocaram lembranças pessoais. Foi comovente. No ultimo tema o Vicençs ganhou asas. O homem toca como um deus, quando o toca a mão de um. Faz-me pensar num saxofonista genebrino chamado qualquer coisa Ferro. Ouvi-a por vezes no jardim à frente de casa e um dia, muito antes dessa casa, consegui pô-lo a tocar no Marchand. O Vicençs aqui em Palma é conhecido, é certo. O Ferro em Genebra só era ouvido por meia dúzia de melómanos. Contudo, são parecidos.

19.6.23

Definição - especialista

Um especialista é simplesmente uma pessoa cujo ignorância abrange muito mais áreas do conhecimento do que a de um generalista.

18.6.23

Retratos possíveis

A rapariga é bonita. Isto é, normalmente bonita. O que lhe confere uma beleza excepcional, única, é a conjugação do olhar com o sorriso. Os olhos e a boca iluminam-se e o que não passava de uma grande divisão bem decorada transforma-se num sumptuoso salão de baile. 

A vontade que tenho de lhe dar música só é vencida pelos quase trinta anos que nos separam. 

17.6.23

Carpinteiro louco

À medida que ia envelhecendo, o fosso entre ele e o mundo alargava-se. "Como se a vida fosse uma cunha entre mim e os outros que um carpinteiro louco vai martelando, todos os dias."

(Às vezes, o carpinteiro falhava a cunha e acertava nele mas também acontecia acertar nos outros. Ela por ela, equilibravam-se.)

Vida, solidão e outras complicações

Acontecia-lhe frequentemente estar em "modo Kalimero" e não ter a quem queixar-se.

"Deve ser isto aquilo que tantas vezes leio, solidão" - dizia-se, porque não sabia bem o que é não estar sozinho. 

A vida só é complicada enquanto não se cresce. Depois é simples.

16.6.23

Diário de Bordos - Barcelona, Catalunha, Espanha, 16-06-2023

Não se pode dizer que setenta e tal euros por uma noite de hotel seja barato, tanto mais que a pensão Alamar não é sequer uma pensão, quanto mais um hotel. É um sítio com quartos. A seu favor tem a limpeza, que é irrepreensível. E, claro, o preço: foi o lugar mais barato que encontrei perto de onde estava e que me respondeu imediatamente. Ainda estamos em Junho e Barcelona já está cheia, de modo que encontrar qualquer coisa a preços módicos obriga o viajante a ir ou para casa do diabo mais velho ou para as pensões Alamar deste mundo (no outro são piores, de certeza).
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Para ir de Barcelona a Roses - cento e sessenta quilómetros - começa por se apanhar um comboio de alta velocidade; depois passa-se para uma camionete e depois ainda para outra. Ao todo, duas horas e meia de viagem. Ou seja, uma média de sessenta e quatro quilómetros por hora. Se se considerar que a primeira hora desse trajecto é feita num AVE, comboio de alta velocidade, a quase duzentos à hora... se se considerar isso, dizia, compreende-se que o velho mito do cem à hora está vivo e bem vivo.

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Já fiz muitas viagens estúpidas e inúteis na minha vida. Esta foi só mais uma. O pior é a desilusão. Fui para Roses a pensar que sairia dali de semi-rígido. Volto como fui: autocarro, autocarro e AVE. E a desilusão: quero pôr o BP a trabalhar ontem, se faz favor.

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E agora é isto: seis horas até o avião descolar, quatro até ir para o aeroporto, muito sono a pôr em dia.

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Adenda:

E agora é isto: vim até à Rambla, deixei-me enganar mais ou menos voluntariamente na Boqueria, tento lembrar-me de uma praça que não fica muito longe daqui, de repente vejo-me em Coventry Garden e penso que ando com as geografias todas misturadas. Já não sei onde é o raio da praça nem sequer se é em Barcelona (é), encontro refúgio num bar - restaurante calmo e bonito e passo um bom par de horas até chegar uma horda de ingleses o que basicamente implica que tenho de me ir embora, não quero alimentar a minha alergia. Vou para o barzito que descobri ontem perto da «pensão» Alamar, ali não há o risco de entrarem hordas pela razão simples de que não há espaço para elas (além de que aquilo é tudo menos apelativo), contrariamente ao Portalón aonde agora me encontro, que é bonito, tem vermute de Reus e uns óptimos boquerones. E ingleses (que afinal não gritam tanto como fizeram supor quando entraram).

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O dia foi uma merda mas acabou maravilhosamente por causa do P. C., que me vai buscar o passaporte. É aquela história das nuvens e dos contornos de que aqui falei há coisa de um mês (foi há dois meses, em Abril). A próxima vez que me apetecer dizer mal da burocracia portuguesa penso na espamhola e dentros da espanhola na catalã e acabo aos beijinhos a todos os funcionários públicos portugueses (as senhoras da Conservatória do Registo Civil de Loures que em Maio me atenderam já os merecem).

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Começo por me perguntar por que raio de carga de água as pessoas hoje me pareceram tão antipáticas, daí apercebo-me de que hoje não tive quase dores no ombro direito, confirmo no Portalón que o serviço é simpático, competente e profissional e vejo que quem foi execrável hoje comigo foram os funcionários dos caminhos de ferro e isto sobretudo porque lhes pedia informações e a resposta era a outra companhia de comboios. Há duas, uma da Catalunha outra do governo central e quem trabalha para uma acha-se na obrigação de não tratar bem os passageiros da outra, sendo a uma e a outra intercambiáveis. Daqui pergunto-me o que aconteceu à dor no ombro e tento chatear-me porque o avião está com uma hora e meia de atraso. Falho redondamente, seja porque estou demasiado cansado para me chatear seja por causa do passaporte. Além disso fico contente por er resolvido o enigma matinal, apesar de continuar a achar estes gajos provincianos, chauvinistas e - no caso específico do director comercial da Rosesnautic, o gajo que me vendeu o barco - de uma incompetência fenomenal. Monumental. Se alguém um dia quiser fazer uma estátua à incompetência pode usar o R. M. como modelo.

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Quaisquer que sejam as piadas a fazer sobre as miúdas à minha volta - cada vez mais e mais jovens - uma coisa é forçoso reconhecer: há uns anos não eram tantas e eram mais velhas. Isto é um facto cientificamente comprovado. Tal como, de resto, o facto de nunca o mau gosto ter atingido os píncaros por onde hoje anda. Ou seja, há dois factos a reconhecer e não só um, ambos com igual solidez empírico-teórica.

15.6.23

Diário de Bordos - Barcelona, Catalunha, Espanha, 15-06--2023

Quanto mais tempo passo em Barcelona menos percebo a atracção que esta cidade exerce sobre tanta gente. Estes gajos são execráveis, pequenos, mesquinhos. Parecem portugueses com mais dinheiro, mas nós ao menos falamos uma língua que se percebe. A destes faz pensar num grupo de paralíticos a tentar falar linguagem gestual. As informações nos transportes públicos são péssimas e incompletas, ao contrário da minha má-vontade, pujante, viçosa e florescente. (A minha. A dos outros é abissal.) Quando penso que o serviço aqui é melhor do que em Palma belisco-me. É e sim, estou acordado. Já adorei esta cidade, já aqui passei momentos deliciosos, mas as últimas vinte vezes foi só chatices.

Bom. Isto é um exagero, claro. Um exagero e uma generalização e um preconceito sem pés nem cabeça. 

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Mas hoje foi um dia sem pés nem cabeça e posso finalmente dizer o que me vai por esta,  isto é: pelos olhos. E que me vai pelos olhos é mamas, mamas e mais mamas. Os mais preciosistas dos meus leitores dirão que por detrás dessas mamas há mulheres. Sem dúvida. Aliás, acrescento: por detrás, por cima e por baixo. Mas por questões relacionadas, sem dúvida, com a velocidade da luz, a moda (de que não percebo mais do que o que vejo) ou a idade das ditas senhoras - são cada vez mais e mais novas e não me venham cá com números que não são para aqui chamados - a primeira coisa que me chega aos olhos e quem diz olhos diz cabeça são precisamente as sobreditas glândulas. 

Pode talvez dizer-se que o dia não teve pés nem cabeça (de resto é um daqueles dias que vai prolongar-se por amanhã) mas lá que teve outras coisas teve. Entre as quais emoções, adrenalina e regalo para os olhos. 

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Barcelona pode continuar a ser a cidade chata, provinciana e chauvinista que sempre foi mas hoje consegui uma mesa no El Xiringo sem ter reservado e não posso senão orgulhar-me da sorte, da dupla sorte. Uma, de ser dotado para a manipulação, arte que herdei da minha Mãezinha, coitada, que Deus tem; e outra por... bem, não digo, ainda vão pensar que sou obcecado, coisa que não sou. Sou um esteta, o que é diferente. 

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O suquet de tamboril com que me delicio (agora que a senhora da mesa à frente se foi embora) é curioso. Começa por parecer chato e ensonso e à medida que se vai nele avançando vai ficando melhor e melhor até atingir a perfeição absoluta. Será efeito da música, uma mistura de Sinatra, Cohen, Tina Turner, Dire Straits e outros do tempo? Do vinho branco? Aposto na qualidade intrínseca do prato, na sua subtileza, no equilíbrio perfeito... Parece um quadro do Klee, vai-se descobrindo andar a andar, passo a passo até que  de repente o compreendemos. 

No sentido em que compreender é sinónimo de apreender.

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Querido diário, 

Passo os pormenores do dia. Não fui feito para coisas complexas, como sabes. Basta dizer-te que vou outra vez dormir numa espelunca, mas esta pelo menos está limpa. E que amanhã tenho de me levantar às cinco, outra vez.

E que a vida é uma espécie de maionese feita de melancolia e felicidade e sem a correcta mistura das duas ela fica desequilibrada. 

Ou seja: maçadora.

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O jantar acaba numa apoteose de mousse de chocolate negro regada com azeite, um milimétrico fio, vinho moscatel e Leonard Cohen.

E ainda há quem pense que estamos à beira do abismo a dar passos em frente. Estamos, mas o abismo foge mais depressa do que os nossos passos.

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O serviço está quase a acabar e o pessoal do restaurante ri-se, brinca, exala bom humor e alegria. Estou aberto a sugestões, mas para mim não há melhor sinal.

13.6.23

Calasso, dúvida

"Quem escreve duvida de cada palavra que escreve. Sabe que ninguém poderá confirmá-la."

Roberto Calasso, in Memè Scianca, ed. Anagrama, Barcelona, 2023 (traduzido do espanhol por mim).

12.6.23

Excesso de soberania, falta de educação

Não sou mais patriota do que me parece aconselhável e não lamento a falta de soberania que pertencer à União Europeia implica. Antes pelo contrário: lamento bastante o excesso de soberania que temos. Permitir Galambas et al. no governo é coisa talvez defensável nas tribos San do centro de África (para quem não sabe, San são as etnias normalmente designadas por pigmeus). Num país que se pretende europeu não é. 

Isto dito, há alguns hábitos estrangeiros que gostaria muito de ver implantados em Portugal:

1 - O hábito de, numa listagem de nomes, pôr o narrador em último lugar. O António,  o João e eu em vez de eu, o António e o João, como é habitual no nosso país. É feio e soa mal.

2 - A prática francesa de, numa relação, ser o mais velho a decidir (ou pelo menos a propor) o tratamento por tu. É ao mais velho que incumbe propor o tuteamento (que o mais novo pode recusar). Que idade teriam Mitterrand e o seu interlocutor  quando este lhe disse "Já nos podemos tutear, não achas?" Ao que o filho da puta-mor (o filho, não a mãe) respondeu: "Se você quiser".

3 - A pontualidade. (Não sei como é no resto de Espanha, mas aqui nas Baleares ela é tão escassa como em Portugal. Há excepções, claro: basta escolher fornecedores ingleses ou alemães - antes de se aculturarem).

Até esses três hábitos deixarem de ser correntes não nos poderemos queixar de falta de soberania. (Se nos queixássemos de falta de educação ninguém nos ouviria, de qualquer forma.)